quinta-feira, 19 de maio de 2011

Entrevista com plastique noir


Faz tempo que não leio mais revistas de Heavy Metal (já fui assinante da Rock Brigade, nos anos oitenta), mas sempre folheio nas bancas. Numa destas investidas, vi que a Roadie Crew estava lançando uma coletânea virtual dedicada ao gótico/dark brasileiro. Legal, nem sabia que existia uma cena gótica no Brasil, para além do “gothic metal”, geralmente chato e repetitivo. Baixei o disco e uma banda, em especial, me chamou a atenção: plastique noir, de Fortaleza, Ceará. Em termos estritamente estilísticos não traziam nada de novo – era um som derivativo que emulava tudo o que de melhor foi feito na área nos anos de 1980, especialmente - mas se destacavam pela competência na composição e na execução da música presente na coletânea, “Those Who walk by the night”. Fui atrás de mais material da banda e confirmei minha primeira impressão: havia realmente algo de especial ali. Tornei-me fã ao ponto de viajar para vê-los, em Recife, no Abril pro rock, e em Salvador. São também muito bons Ao Vivo, tanto que estão conseguindo furar o bloqueio que os deixava naturalmente confinados ao gueto e tocando em vários festivais alternativos Brasil afora, alguns bastante conceituados, como o próprio Abril pro rock.

O plastique noir acaba de lançar seu segundo disco, “Affects”*, o que me fez pensar que era o momento oportuno para uma entrevista com os caras. O resultado, respondido por Airton S., o vocalista, você confere logo abaixo ...

·        *  “Affects”, o novo disco do plastique noir, é mais homogêneo e mais bem gravado que o anterior, “Dead pop”, de 2008. O baixo “cavucadão” de Daniel e as linhas de guitarra cortantes (com um pouco de peso e distorção em alguns momentos, inclusive) de Marcio Mazela, somados às programações precisas e o vocal soturno de Airton S., passeiam por composições bem acabadas feitas por encomenda para animar “festas estranhas com gente esquisita”. Os teclados, gravados por convidados, também se destacam, criando belos climas em praticamente todas as faixas. Não há nenhum grande destaque: o disco começa muito bem, com a bela “Rose of Flesh And Blood”, e segue no mesmo nível até o fim, oscilando entre passagens abertamente sombrias, embora quase sempre dançantes, e o escracho de letras como a de “Mazela takes a walk”, que foca o comportamento excêntrico de seu já legendário guitarrista.

Grande disco.

por Adelvan

* * *

Programa de Rock – De vez em quando vejo críticas ao trabalho do Plastique Noir chamando-o de “datado” num tom pejorativo, como se música tivesse prazo de validade ou tivesse que se guiar, necessariamente, pelas tendências da moda. Como a banda encara este tipo de questionamento? Há uma preocupação especial em se “atualizar” ou vocês simplesmente ligam o bom e velho botão “foda-se” e estão pouco se lixando se o tipo de som que fazem os empurrará, inevitavelmente, a um gueto?

Airton S – A questão é que o Plastique Noir nasceu como som de gueto e, até certo ponto, exatamente para ser som de gueto. A gente tem tentado se desvincular disso pra que a coisa não fique chata demais de ser feita, isso pra nós mesmos. Eu, Mäzela e Danyel escutamos som pra caralho, que vai desde Aldo Sena até black metal. No começo formamos a banda para que ela fosse estritamente gótica, mas hoje a gente percebe que esse coisa negra da música está presente em vários estilos e sempre foi nosso playground preferido. Dá pra encontrar referências interessantes no drama do tango, no samba escapista do Cartola, no piano de Beethoven e por aí vai. Se isso vai forçar uma identificação de nosso som com o público gótico, melhor! É uma massa numerosa, isso nos proporciona contatos e principalmente amigos. Quando a gente chega em São Paulo e Brasília, pra citar duas cidades em que tocamos com frequência, já saimos do avião direto para caírmos na palhaçada com os amigos! Vamos tomar umas, pôr o papo em dia, farrear e rir bastante. Mas claro que é sempre bom dar atenção ao universo fora do gótico também, se quisermos que nosso som tenha sempre uma sobrevida. O que era só diversão a princípio está chegando a um patamar de trabalho que gera uma responsabilidade de que nosso som se apresente da maneira mais profissional possível. E, para que ele se mantenha assim, é importante que busquemos diálogo com outras cenas, outros palcos, outras opiniões. Acho que se trata tudo de um grande esforço de equilíbrio.

Programa de Rock – Por falar em gueto, é possível escapar dele mesmo se mantendo fiel a uma proposta específica, sem se render a “misturebas” oportunistas? Vocês se sentem parte de um “gueto”? Em caso de resposta positiva, sentem-se bem, aconchegados, dentro dele?

Airton S – Acho que o Plastique Noir é também música de gueto, mas não só isso. Em cidades como Fortaleza e Recife, é comum de se ver uma parte do público de nosso show que não está vestida de preto. É minoria, mas rola. Não temos problema com a palavra “gótico”, que dá nome ao gueto de que estamos falando. E o que temos percebido, principalmente com o novo álbum, é que até mesmo os góticos tem encarado de coração aberto algumas licenças estilísticas a que nos permitimos nesse trabalho mais recente.

Programa de Rock – Existe uma cena dark/gótica estruturada e atuante atualmente no Brasil? Se existe, qual o seu real tamanho, onde ela é mais forte, e como ela dialoga, se é que dialoga, com o cenário independente em geral?

Airton S – Existe e está em fase de maturação, talvez mais perto de um profissionalismo que nunca houve antes. Algumas cidades e regiões tem cenas mais fortes e profissionais, como é o caso de Salvador, Brasília e principalmente São Paulo, que tem uma agenda semanal repleta de eventos simultâneos. Semestralmente rola lá o Projeto Ferro Velho, que traz sempre um grande nome mundial do estilo com a abertura obrigatória de uma banda nacional, o que favorece um intercâmbio inestimável em termos promocionais e de troca de know-how entre países. Existe até mesmo um festival nacional, o Woodgothic, que já conta com três edições e é organizado por uma das bandas mais prestigiadas do Brasil hoje, o Escarlatina Obsessiva. Rola bianualmente no alto da serra mineira, em São Thomé das Letras. A DDK, no Rio, põe brincando umas 500 cabeças pra dento da festa. Nada disso existia até dez anos atrás e olha que as primeiras bandas e eventos góticos no país datam de meados dos anos 80. Ou seja, nos últimos anos tá rolando um “boom” bem grande. Tivemos sorte de iniciar nossas atividades no meio disso tudo. Ou talvez não tenha sido coincidência, talvez o momento tenha favorecido nossa banda e nossa cena assim com tantas outras, com a expansão da internet, barateamento da produção musical etc. Agora, diálogo com o independente fora do gótico, acho que praticamente inexiste. Algumas bandas do selo em que estamos agora, a Wave Records, tem obtido vaga nos festivais de maior renome, mas não é sempre que rola.

Programa de Rock – Senti no “Affects”, o novo disco do Plastique Noir, uma maior homogeneidade nas composições, ao contrário do primeiro disco que, como é de praxe em estréias de bandas que atuam já algum tempo no cenário, funcionou mais como um apanhado de músicas que vêm sendo buriladas ao longo do tempo. Como foi o processo de composição do disco, as musicas são todas novas ou houve alguma retomada de trabalhos antigos nunca antes lançados?

Airton S – É tudo novo. O único reaproveitamento foi a faixa-tributo, “Never Look For People Like Us”, que era do Max e resgatamos do fundo do baú pra homenageá-lo. Todas as novas foram surgindo aos poucos, entre um ensaio e outro durante a tour do Dead Pop que durou, ainda que fragmentadamente, uns três anos e rodou boa parte do país. De volta à Fortaleza, vimos que tínhamos composto quase 20 músicas ao final do processo, muito embora durante ele nós já tínhamos uma noção de qual ia entrar na track list final e qual não ia. Ok, até que ainda chegou a rolar uma discussão por essa ou aquela faixa, no sentido de incluir ou limar, mas tentamos formar um consenso e acho que deu certo. Foi interessante trabalhar dessa forma -  refiro-me a essa coisa de “criar um disco do nada”. Eu nunca tinha feito isso e talvez tenha sido o que justamente trouxe a coesão que você percebeu. Agora, não sabemos muito bem o que fazer com as sobras. Tem umas coisas que eu particularmente acho bem legais ali. No começo dos contatos com nosso novo selo, até rolou uma pilha mútua de fazer uma versão de luxo com disco extra, mas isso ficou inviável porque nossa verba pra gravar tinha acabado e daí resolvemos garantir o álbum full que já tínhamos em mãos. Talvez essa versão deluxe possa sair ainda. Não sei. Agora ninguém está mais pensando muito nisso, estamos tentando promover o que já tem.

Programa de Rock – Vocês ainda compõem pensando num álbum fechado, com um conceito, mesmo que vago e flexível, amarrando as faixas, ou vão compondo ao longo do tempo e apenas juntam o resultado?

Airton S – Um pouco dos dois. É que, nisso de compor ao longo do tempo sem neuras, coincidentemente ou não as músicas acabaram se mostrando “entrosadas” entre si, por si próprias, sem que tivéssemos que forçar a barra conceitualmente. Digo, conceito havia, mas não deu quase nenhum trabalho perceber depois que o material obtido se encaixava quase completamente nele.

Programa de Rock – Ainda existe espaço para o conceito de álbum, uma coleção de musicas representativas de um momento de uma banda embaladas por uma capa, contracapa e encarte? O Plastique Noir acredita que este conceito vai sobreviver? Em caso positivo, como conseguem resistir à tentação da urgência de nossos tempos hiperconectados para não lançar as musicas aos pedaços na net antes do resultado final acabado?

Airton S – Veja bem, nossa média de idade na banda é de 29 anos, mais ou menos. Não somos tão jovens. Alcançamos o vinil, tínhamos centenas de K7 em casa, já rebobinamos muitas delas na base do giro de caneta (risos) e só agora estamos tendo contato com o MP3, que foi o grande culpado por essa fragmentação no consumo de música. Eu, Danyel e Mäzela ainda trazemos um pouco dessa “cultura de álbum” nos nossos perfis musicais. E por uma questão igualmente cronológica, boa parte da imprensa musical também, já que os mais novos no meio têm o quê, 20 e poucos anos? Esse pessoal ainda leva a sério o formato de álbum assim como nós e é por isso mesmo que não rola conosco essa ansiedade de liberar material de qualquer forma. Penso ainda que, como prensar disco continua sendo uma parada cara e trabalhosa, o fato de a banda ter encontrado alguém que faça isso por elas, leia-se selo, ou mesmo ela ter reunido recursos para fazer por si mesma, denota que atingiu um nível legal de profissionalismo e por isso merece atenção do mercado e dos fãs.

Programa de Rock – O suporte físico ainda é realmente necessário? Pensam em, algum dia, lançar seus trabalhos apenas via internet? Como vocês administram este equilíbrio entre uma coisa e outra, o novo e o velho estilo de se “vender” música? Há espaço para os dois?

Airton S – Por enquanto, sim. E talvez mais ainda no nosso caso, já que somos freqüentemente identificados com uma cultura urbana como a gótica. Gente assim tem seus próprios hábitos de consumo, seus fetiches e seu mercado simbólico interno. Assim como punks, straight-edges, bangers etc, os góticos ainda valorizam o item material colecionável. Agora, como já falei antes, tudo é uma questão de equilíbrio. Também não faz sentido nego ser anacrônico e fazer vista grossa pro ambiente virtual. Tanto é que nossas músicas também são comercializadas em formato de download. Pra não falar no vazamento pirata, que nós nem achamos tão danoso assim. Haja vista o nosso primeiro álbum, cuja permissão de lançar free foi exigida por nós junto ao nosso selo na época. Era nossa estréia, queríamos aparecer legal. Já no caso do Affects, não sentimos a necessidade de tentar forçar uma interferência na maneira como o Alex da Wave acha melhor trabalhar, até porque confiamos demais na competência do cara em termos de distribuição.

Programa de Rock – Como é a relação da banda com os selos que lançam seus discos?

Airton S – A Pisces foi o primeiro selo em que entramos. O Ulysses é um cara muito gente boa, apesar de meio viajandão (risos). É foda conseguir falar com o cara, por exemplo. Mas o apoio que ele nos deu e continua dando é inestimável. Começamos a nos falar em 2007 e ele sempre se mostrou um cara muito honesto e sobretudo apaixonado pelo que faz. Quando resolvemos mandar o Affects pra Wave, não rolou nenhum tipo de mal-estar, até porque o Alex é quem distribui o Dead Pop, adquirido junto à própria Pisces. Inclusive aproveito pra avisar que esse disco já já vai acabar e quem não adquiriu, falou, um abraço. Não creio que ele vai voltar logo aos catálogos. Já sobre o trabalho com a Wave, sei lá, parece que foi um passo natural fechar com o selo. O Alex atua na cena gótica desde os anos 80, é figura carimbada nos principais eventos internacionais do estilo, tem contatos quentes, enfim, não tinha como não ser do jeito que está sendo. Botamos fé demais no trampo dele, musical inclusive. Eu e o Mazela já éramos fãs do 3 Cold Men antes mesmo de formar o Plastique (risos).

Programa de Rock – Vinil: há algum fetiche em especial da banda por este suporte ? Há alguma demanda dos fãs por lançamentos neste formato do Plastique Noir?

Airton S – Não sei, mas acho que deve existir. Confesso que a gente nunca pensou muito nisso até então. O Rafael, nosso produtor, às vezes bate nessa tecla. James, nosso amigo que toca no Facada, também de vez em quando tenta instigar a gente, falando das vantagens da prensagem em vinil, na questão do volume de cópias… Quem sabe um dia?

Programa de Rock – Como tem sido a divulgação de “Affects” no Brasil e no mundo, há algum plano em em ação neste sentido?

Airton S – Bom, felizmente a demanda por shows tá rolando sem que tenhamos a necessidade de sequer correr atrás deles. Algumas datas fora de Fortaleza foram fechadas e algumas até já foram cumpridas com sucesso. O pessoal parece estar curtindo bastante o disco. O promocional tem sido feito  pela gente, por meio de nossa onipresença quase constante nas redes sociais e aqui cabem agradecimentos ao Rafael, em parceria com o Alex, que está colocando o disco nas lojas de São Paulo e da Europa, neste último acaso através da distro alemã Nova Media. O lançamento será em São Paulo também, numa festa do Via Underground. O Alex cuida mais da promoção no meio gótico e a gente está tentando colocar o disco evidente no meio independente nacional em geral, aproveitando os contatos que já fizemos em nossas passagens pelos festivais da Abrafin e eventos do Fora do Eixo.

Programa de Rock – A agenda de shows de vocês, como está? Tenho visto que a banda tem conseguido se inserir na agenda de festivais independentes e, com isto, se apresentado para um público mais amplo. Isto é fruto de um esforço em especial da banda neste sentido ou os convites vieram de forma “espontânea”? Pretendem seguir por este caminho? E como tem sido a recepção do público dos festivais à proposta do Plastique Noir?

Airton S – Olha, é meio que as duas coisas. Por aqui em Fortaleza a gente sempre foi alinhado com o coletivo local, a Rede Cem e daí eles nos servem de ponte pras curadorias. Mas acredito que nosso som acabe agradando, nego não ia pôr uma banda no line-up do festival dele que custou 90 mil pra acontecer, se houvesse o risco de, com a inclusão da tal banda, o negócio ficar feio. E o resultado acaba sendo bacana pros dois lados. A gente tem levado um público pros festivais que dificilmente iria pra ver as outras bandas. Nisso, acabam curtindo algo que não conheciam. E de forma semelhante, a gente acaba fisgando uma ou outra pessoa que estava ali, assistindo, sem botar muita fé na gente. Estamos tentando dar prosseguimento a essa via de trabalho. Esse ano já fizemos o Tendencies, em Palmas, e o resultado foi ótimo, travamos um contato amigável massa com a cena rockabilly de Curitiba por exemplo, que estava lá e de repente pode pintar algo disso…

Programa de Rock – Há uma faixa tributo a um antigo integrante da banda, falecido, no disco. Falem-nos um pouco de quem se tratava e qual foi sua contribuição para a construção da sonoridade do Plastique Noir.

Airton S – O Max integrou a banda desde o seu inicio até a metade de 2008, tendo definido muito de nossa identidade melódica e chegando a gravar o Dead Pop. Ele tocou na banda que pioneirizou esse estilo mais pós-punk gótico em Fortaleza, o Rebel Rockets, nos anos 90. A banda já estava extinta quando o convidamos a assumir os synths no Plastique Noir. O cara cativou todo mundo logo de cara com seu jeito amável de ser, sem falar em sua puta bagagem musical, quase enciclopédica. A chegada dele à formação foi, sem dúvida, o marco final para que nos sentíssemos prontos pra começar, como banda de verdade. Tinha ainda o folclore derivado de sua profissão como agente funerário (risos), era divertido mencionar isso em entrevistas. Infelizmente o cara foi se ocupando demais com atividades paralelas e teve que deixar a banda. Digo, deixou mesmo: ele não foi expulso e também nunca pediu pra sair. Foi estranho… simplesmente ele parou de comparecer a ensaios, shows… daí a gente ia se virando. Hoje, interpretamos essa atitude como uma maneira que ele encontrou de evitar de falar em saída por não querer de fato sair. Nosso contato foi ficando cada vez mais esparso desde então, sempre tínhamos notícias de sua vida por meio de um primo dele que é muito amigo nosso, quase irmão dele. Foi um choque quando recebemos a notícia de seu falecimento devido a complicações de saúde. Ele já estava há muitos dias em coma e o fato ocorreu quando estávamos numa reunião de amigos em razão do aniversário do Mäzela, que acabou sendo atingido de forma violenta naquele que era seu dia. O disco estava para começar a ser gravado, já tínhamos o material inteiro pronto. Somos caras bastante céticos, mas gostamos de pensar que ele estava presente posteriormente no processo, ajudando nem que fosse a partir da idéia que sua pessoa representa nos nossos corações de forma inspiradora.

Programa de Rock – Aproveitando o “gancho”: façam-nos um resumo do que tem sido a experiência da existência da banda até agora: os acontecimentos mais marcantes, as maiores dificuldades, as maiores alegrias …

Airton S – Cara, esse começo da minha resposta vai soar clichê, mas é foda: a gente passou por muita coisa nesses 5 anos. Eu juro que não consigo mais repassar minha vida durante esse tempo dissociando-a da banda. Acho que a melhor coisa que ficou são os amigos. As viagens sempre foram e são cansativas, mas eu diria sem pensar muito que elas são o melhor da festa. E é o que mais marca. E olha que eu não gosto de fazer show, meu lance é estúdio. A gente se divertiu muito por aí. Conhecemos gente de toda parte, vivemos momentos engraçados, encontramos freaks de toda espécie. A parte ruim, acho que foram os desentendimentos. A gente já brigou muito, de vez em quando ainda brigamos, aliás. Já fiquei sem falar com o Mäzela por semanas, já “rompi” até mesmo com o Babuê, que é uma moça (risos). Tivemos momentos em que tínhamos grana pra caramba pra investir nas nossas coisas, situações em que nos sentimos rockstars por causa de bobagens como, sei lá, estarmos pela primeira vez em um puta hotel aguardando a hora do show. Sabe, essa coisa meio de moleque sonhador? “Caralho, fodeu, estamos bombando!” (risos) Meio ridículo até… Ou ainda, estarmos ao lado de bandas gringas fodonas, na mesma van… Encontramos o Afrika Bambaataa no backstage do Abril Pro Rock, uma lenda viva, tocamos na mesma noite, o cara mó figuraça, divertidão, tirando sarro do Mäzela bêbado… Assim como também já rolaram momentos em que estávamos quebrados, sem ter nem o que comer esperando o ônibus de volta pra Fortaleza, bebendo cachaça e tocando violão na rodoviária pra passar o tempo. Já rolou de sermos saudados pessoalmente por jornalistas de certa envergadura e de sermos difamados e acusados levianamente por pseudo-produtor de evento. Sua primeira pergunta foi sobre “gueto”, tem um jornalista que você deve saber a quem me refiro, vive batendo verbalmente na gente… Mas é isso. Tudo faz parte e nós fazemos parte de tudo isso.

Programa de Rock – E para o futuro, há planos, metas ou é navegar ao sabor dos ventos?

Airton S – A gente nunca faz planos a longo prazo. Engraçado estar respondedo a essa entrevista logo agora, porque ontem mesmo eu estava tomando umas cervejas com o Babuê e começamos a retomar os planos pra shows no exterior, mas não convém divulgar nada ainda. O que dá pra adiantar é que já tem coisa concreta a esse respeito, mais detalhes em breve. Vamos tentar fazer as cidades que ainda não fizemos, principalmente na região sul. O norte já começamos a desbravar recentemente em Palmas, mas é a maior região do país, ainda tem muito lugar lá pra se ver e nos ver. Interrompemos quase que totalmente os shows durante os três meses de gravação e produção e agora queremos tocar bastante, o máximo, onde der e em quaisquer condições, desde que não seja muito inviável em termos de aparelhagem e deslocamento. Queremos corrigir algumas falhas nossas, como a escassez de merchandising. Gente de toda parte fica enchendo nosso saco por camisas, bottons, etc, e estão certos em vir encher. Vamos tentar tocar nos festivais em que ainda não tocamos e buscar mais visibilidade no geral, aproveitando que estamos com assunto novo. No caso, o álbum.

Programa de Rock – Espaço aberto para considerações finais.

Airton S – A gente queria agradecer de todo o coração por esse seu espaço e principalmente pela divulgação do trampo de bandas independentes como a nossa, que normalmente tem muita dificuldade pra produzir e circular dignamente. Muito obrigado por preencher essa lacuna preciosa. Somos muito a fim de tocar em Sergipe, quem sabe um dia. Abração pra todos que fazem seu programa e que o acompanham também!

+ em http://plastiquenoir.net

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Iron Maiden Recife 2011 - The Final Frontier World Tour

Como todo espetáculo de banda grande, a brincadeira começou pontualmente às 20h. Sem essa de fazer público esperar horas para encontrar os ídolos. Doctor doctor, do UFO, banda inglesa que influenciou o Maiden e tocou no Recife ano passado, era a senha para deixar a plateia mais acesa do que nunca. A música vai acabando e as luzes se apagam. Os dois supertelões ao lado do palco, de 15 metros de altura, mostram uma batalha espacial, tendo o mascote Eddie como personagem principal. É uma referência ao título do álbum The final frontier, lançado em 2010 e que está sendo divulgado na The final frontier world tour. A canção de entrada tem duas partes distintas. A primeira, Satelite 15, é tocada nos altos falantes. A batida tribal e as guitarras dissonantes são cortadas pelo voz de Bruce, que tem o rosto projetado nos telões. Os outros cinco caras vão entrando no palco e é dada a largada. The final frontier, um hard rock pegajoso, faz a galera cantar junto. Nessa hora, quem tinha alguma dúvida perdeu o medo de que algo desse errado e o show não decolasse. O Maiden estava de novo no Recife, pouco mais de um ano depois da primeira apresentação, na Somewhre back in time tour, de 2009, no Jóquei Clube, na Zona Oeste da capital.

Ao contrário do concerto anterior, o show desse domingo trouxe canções novas. Cinco, no total. Além da primeira, foram apresentados bons momentos do álbum de 2010. El dorado, o primeiro single, tem uma levada legal e solos bem encaixados de Dave Murray e Adrian Smith, sem dúvida um das grandes duplas de guitarristas do metal mundial. Bruce arriscou o primeiro grito de guerra para sacudir a plateia: "Scream for me... Recife!" Um cara subiu no palco, mas foi rapidamente retirado, sem nenhum drama. Depois veio o primeiro clássico da noite: Two minute to midnight, aquela cantarolada pela garota Maria Catarina. De longe, dava para ver os celulares apontados para o palco. Todo mundo filmando, gravando ou tirando foto de recordação.

The Talisman, uma canção grande do álbum novo, deixa parado quem não conhece bem o disco. Tem uma letra enorme e um refrão que não pega. É uma aposta da banda, que reverencia o trabalho do terceiro guitarrista, Janick Gers, ao violão, na introdução. Em Coming home, Bruce explica a ideia da música e fala como é rodar pelo mundo para tocar e viajar no Ed Force One, o Boeing usado pelo Maiden para girar pelo planeta. Só no Brasil foram seis cidades visitadas. Murray e Smith brindam os fãs com belíssimos solos, numa semibalada inspirada.

Em seguida, Dance of death, do CD de mesmo nome, lançado em 2003. Bruce até errou um pedacinho da enorme letra, que aborda rituais macabros, e se desculpou. A banda manteve o pique, como se nada tivesse dado errado, e tocou todas as partes de uma canção cheia de detalhes. O cenário trazia a capa do álbum, assim como no resto do repertório, mostrava um desenho diferente. Sempre fazendo referência ao CD da música que estava sendo executada e a parte gráfica da época. Perto da enorme bateria de Nicko McBrain era possível observar duas torres de foguetes e na plataforma do kit de percussão a inscrição Satelite 15.

Ornamentação nem sempre percebida, sobretudo, para quem fica longe. E também para quem não consegue tirar os olhos de Bruce. Em The trooper, superclássico de 1983, o cara corre, canta, sobe nos alto falantes de retorno e tremula a bandeira do Reino Unido. Uma paulada para alegria dos mais antigos. The wicker man, do Brave new world (2000) vem quase emendada e põe a galera para cantar também. Essa fisga os fãs da atual fase, com três guitarristas. “Your time is come...”. E, para dar uma brecada no ritmo, Bruce dedica Blood brothers aos irmãos de sangue do Japão, devastado por terremoto e tsunami. Grande momento. E que solo de Janick.

O show seguia e a apresentação das canções novas chegava ao fim com When the wild wind blows. Onze minutos, um riff hipnótico e uma música candidata a novo clássico. Nessa altura, o jogo já estava no papo e se preparava para dar olé. É covardia. The evil that man do, de 1988, e Fear of the dark, de 1992, é para se esgoelar. Essa última serve, inclusive, para tirar qualquer dúvida sobre paixão dos fãs pelo Maiden. Todas as notas são entoadas com os músicos. Os solos, as melodias e os duetos. Momento único de uma relação entre ídolos e seguidores, poucas vezes vista no rock’n roll.

O show ia terminando e vinha a pergunta; Cadê Eddie? O mascote apareceu na tradicional Iron Maiden. Caracterizado como um ser de outro planeta, o boneco gigante e articulado duela com Janick e tira o fôlego de velhos e crianças. Depois de prometer que vai pegar não importa o lugar, o Maiden dá uma pausa e volta para o bis. Outra covardia. The number of the beast e Hallowed be thy name, de 1982, trazem a velha parceria Donzela-fãs. A galera canta tudo: introdução, narração, solo e coro. Quando cidadão já está rouco e pensa que acabou, vem Running free, do primeiro álbum, de 1980. Bruce aproveita e apresenta os parceiros, com destaque para a reverência ao líder e chefão Steve Harris. Brinca com Adrian e faz piada com a guitarra, uma Gibson Les Paul, que o músíco carrega para todos os lugares há décadas. O vocalista atira o gorro para o público e volta para encerrar uma grande festa do metal.

Uma aula de profissionalismo e talento. Exemplo de como se manter uma máquina gigante a todo vapor. Uma noite para ficar grudada na cabeça da menina Maria Catarina, aquela que nem parecia ter 8 anos quando cantava Two minutes to midnight e filmava tudo com os olhos arregalados. Um momento marcante para o pai dela e para tantos outros jovens, velhos, adolescentes, pretos, brancos, da área VIP ou da galera. Gente que pode dizer e estampar na camiseta, como orgulho: Iron Maiden no Recife.... Eu fui!

> Pode ser branco ou preto. Ter passado dos 40 anos ou sequer completado 10. Tanto faz se for do Recife ou de outra capital nordestina. Ou ainda melhor, se nasceu no interior. Ninguém liga foi para área VIP ou ficou espremido na galera. E aqueles também que ficaram do lado de fora. Só escutando. Tem coisas que só um show do Iron Maiden pode proporcionar. Cenas inimagináveis surgem do nada e deixam muita gente de queixo caído. Pendurada nos ombros do pai, o engenheiro Luiz Gonzaga Gadelha Junior, Maria Catarina Gadelha, 8 anos, despontava na multidão, no meio da pista premium, reservada para quem pagou R$ 300 e assistiu, com mais conforto, ao show dos ingleses, na noite desse domingo, na área externa do Centro de Convenções, em Olinda, Região Metropolitana.

Maria Catarina estava estreando num concerto de rock e mostrava que tem muito futuro como fã do gênero mais pesado de música. De camiseta rosa, com um celular nas mãos, não desgrudava os olhos do palco. Filmava e fotografava. Para quem estava do lado, sorria e demonstrava intimidade com o repertório do grupo, anos antes de ela pensar em existir. Para orgulho do pai-coruja, cantarolava baixinho: “two minutes to midnight...” e para quem ainda tinha dúvidas da paixão da headbanger precoce, Luiz avisava: “Desde os 5, ela gosta de Iron Maiden. Já toca baixo e arrisca umas coisas.”

A relação pai-filha-banda, demonstrada pelos dois fãs, mostra como o público do Iron Maiden é especial. Quem já passou dos 40 ouvia no velho e bom vinil. Para a criançada da idade de Maria Catarina, o velho bolachão é peça de museu. Para que um negócio tão estranho, preto com um buraco no meio e poucas músicas? É bem melhor Ipod, Ipad, MP3 e MP4 e internet, com Facebook. Os tempos mudaram, mas a banda está lá. Mais de 30 anos, 85 milhões de discos vendidos e muitos clássicos para tocar. Não importa a época ou a fase em que o admirador conheceu a Donzela de Ferro. Basta ver a quantidade de ônibus, carros e vans estacionadas perto do Centro de Convenções. As placas: João Pessoa, Maceió, Fortaleza, Natal, Carpina e uma infinidade de lugares. Tudo para conferir The final frontier world tour, que passou por seis cidades brasileiras, divulgando o disco de mesmo nome, lançado em 2010.

Para quem saiu de casa ou pegou estrada para ver Steve Harris, Bruce Dickinson e companhia foi uma noite sem grandes sustos. Quando dependia exclusivamente da produção, a cargo da Raio Lazer, nada a reclamar. Entrada bem sinalizada, banheiros em bom número (na área VIP), portões abertos cedo e sem filas, além de facilidade para tomar cerveja (um preço até camarada, levando-se em conta a qualidade do produto).

Masm quando o assunto é do poder público, o negócio complica. A Avenida Agamenon Magalhães, perto do Memorial Arcoverde, estava escura. Parecia mais uma boate. Os ambulantes fizeram a festa e ninguém organizava a área no entorno. O trânsito ficou sob a responsabilidade da Polícia Militar, que teve alguma dificuldade para fazer o tráfego fluir, sobretudo, por causa do desrespeito de muitos motoristas. Foi preciso guinchar carro parado no local errado.

Bronca mesmo é com o Centro de Convenções. Às 17h30, o estacionamento interno estaria lotado. Isso foi o que disseram funcionários, mesmo com as vagas sobrando podendo ser observadas facilmente. Uns até arriscava pedir uma tal carteirinha de acesso. Só não informavam qual documento era preciso mostrar. O jeito foi morrer com R$ 10 na mão do flanelinha e torcer para não ter o carro levado pelos ladrões.

Tirando as mazelas, o público de quase 10 mil pessoas, não teve do que se queixar. Pouco depois das 18h40, o Terra Prima, prata da casa, entrou no palco para fazer o esquente da galera. Daniel Pinho, vocalista que se apresentou no último show do Iron Maiden Cover do Recife, comandou a banda. Ele mostrou músicas do And life begins, primeiro disco do grupo, e enfrentou problemas típicos de quem abre para megabandas: som baixo e equalização de gosto duvidoso, principalmente, na batera. Mas nada que tirasse o brilho. Para finalizar, Enter Sandman, do Metallica. Assim não tinha como Luiz e a pequena Maria Catarina ficarem fora do clima para o encontro com os ídolos logo em seguida.

por Ricardo Novelino

Fonte: JC Online

terça-feira, 15 de março de 2011

Marcio Sno, fanzineiro

O fanzine de Marcio Sno me fez companhia no Hospital quando eu tive uma crise de asma que quase me levou desta para "melhor", em 1994. Nunca esqueço isso. Já ele, nunca esquece minha satisfação em poder usar confortavelmente, finalmente, minha jaqueta de couro, em São Paulo - sim, porque em Aracaju, era quase impossível. É o maior divulgador da cultura "underground" dos fanzines que eu conheço, e acaba de lançar a primeira parte de um documentário chamado "Fanzineiros do século passado", retratando o tema através de entrevistas com os editores daquelas charmosas publicações artesanais xerocadas. Antes, ele já havia lançado a cartilha "Fanzines de papel", espécie de obra definitiva sobre o assunto. O Escarro Napalm, que também já foi um fanzine de papel, é bom lembrar, entrevistou-o via e-mail (chega de cartas para mim, acabou meu fetiche pela farda dos carteiros). O resultado foi este que você pode ler abaixo.

OBS: Marcio Sno não é a garota, o garoto nem o cachorro da foto abaixo.

By (em ingrês é mais chique) Adelvan Kenobi

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Escarro Napalm - Vamos começar sendo didáticos?

Marcio Sno - Bóra, você é quem manda!

EN - Já que você é o cara quando se fala em divulgação da arte de se fazer fanzines (e não me venha com falsa modéstia), explique para a nossa meia dúzia de eventuais leitores o que vem a ser um fanzine, qual a idéia por trás da coisa, e como era/é produzido, divulgado e distribuído.

Sno - Menos, menos, meu caro! Existem nomes muito mais importantes que eu na arte de fazer e explicar fanzines… Mas vamos lá! Eu disse que você é quem manda, então, obedeço!

O fanzine, a grosso modo, seria uma espécie de “revista independente”, um meio de comunicação alternativo feito por pessoas que não se contentam em ficar de apenas um lado da notícia (leitor) e passam a ser produtores de informação, ou seja, editores de fanzines.

Nesses veículos, são divulgados, em sua maioria, artistas da cena underground, como músicos, poetas, quadrinistas, escritores, entre outros. Isso não impede que também sejam divulgados artistas do mainstream e assuntos além do submundo: principalmente nos que tem linhagem anarco-libertária, são discutidos assuntos da atualidade, mas sempre com uma visão diferente dos grandes meios de comunicação, mostrando um outro lado da notícia.

O fanzine em papel era e é feito de forma artesanal. Até meados dos anos 1990, a comunicação funcionava via carta, nosso computador era a máquina de escrever e nosso e-mail marketing era o flyer (uma espécie de cartão de visitas que circulava entre as cartas). Era tudo na unha, na raça. Pra quem hoje vê como a coisa funcionava, pode não acreditar, mas era assim mesmo: todo mundo se conhecia pelo correio, as bandas independentes faziam a trilha sonora e os fanzines eram o nosso meio de divulgação.

A gente recebia os materiais e fazia resenhas, entrevistas etc. e tal, datilografava e diagramava ao mesmo tempo, recortava, colava imagens, fotos, textos e chegava ao chamado original, que era copiado em xérox e distribuído via correio, em shows, eventos, reuniões ou colocados em alguns pontos estratégicos para serem vendidos ou mesmo dados.

EN - Como surgiu e idéia de registrar através de um documentário a obra dos “Fanzineiros do Século Passado”?

Sno - Na verdade a ideia desse documentário veio bem antes, lá por volta de 2006, quando eu estava na faculdade de jornalismo e era época de pensar no que produzir como trabalho de conclusão de curso no ano seguinte. Nessa época eu já tinha feito a cartilha Fanzines de Papel, que foi uma pesquisa que fiz sobre fanzines e, para mim, até então, o assunto “fanzine” já tinha se esgotado se fosse lançado em forma de monografia, não haveria o desafio no TCC. Só faria sentido manter o tema se eu fizesse um documentário a respeito. Mas para isso me faltava técnica (ainda falta), equipamento, tempo e grana para poder gravar com as pessoas que eu achava interessante. Então, foi shift+del para essa ideia.

No ano passado, a ideia retomou em minha cabeça após algumas conversas por telefone com José “Zinerman” Nogueira (Delírio Cotidiano), que fez com que eu resolvesse tirar essa proposta do fundo da gaveta do meu inconsciente. Mas eu não queria ser o único responsável por essa história: queria envolver o máximo de pessoas possível nessa aventura e bolei um projeto e distribuí por e-mail para os meus contatos dos fanzines. O retorno foi quase que imediato e total: todo mundo queria colaborar, dar depoimento, ajudar de alguma forma.

Um dos principais quesitos desse projeto era não ter deadline, pois todos nós crescemos, montamos famílias, ganhamos mais responsabilidades e pedir prazo para zerar um documentário feito sem fins lucrativos e nenhum incentivo financeiro, seria declarar um natimorto. Aí foram surgindo várias pessoas de todo canto do país para registrar imagens de determinadas localidades, como numa espécie de centrais regionais. Porém, por conta de todas essas responsabilidades que falei, isso ainda não se solidificou como eu imaginava, mas ainda acredito que isso ainda vai rolar.

Um grande amigo meu, que fez comigo o documentário INGs – Indivíduos Não Governamentais, Averaldo Rocha, tinha acabado de adquirir uma câmera fodona e me deixou usar como e onde eu quisesse. Só para ter uma ideia, ele nunca usou a máquina, podemos dizer que eu acabei com a virgindade dela! Bem, o principal eu já tinha e agora era botar a ideia em prática! E passei a gravar da minha forma, do meu jeito e com a minha técnica limitada, junto com meu filho Calvin, que me acompanhou na maioria das gravações que, além de me ajudar, pôde conhecer mais de perto a vida que me meti antes de ele nascer.

O primeiro entrevistado foi o Leonardo Panço e, até agora, consegui gravar 21 depoimentos e mais um gravado pelo Pedro de Luna.

EN - E os “fanzineiros deste século” existem? Ou seriam os blogueiros os novos fanzineiros?

Sno - Seria um pouco dos dois! Pode parecer estranho você pensar que ainda exista neguinho que nade contra corrente, publicando em formato impresso, quando se tem uma internet toda, lhe dando de mão beijada todos os recursos do mundo para você criar um veículo de comunicação. Mas ainda existem muitos fanzines na ativa até hoje, como é o caso do Juvenatrix do Renato Rossati (que tem centenas de exemplars lançados) e o Aviso Final do Renato Donisete, que acabou de completar 20 anos de existência! Também tem os clássicos QI de Edgard Guimarães e Top! Top! de Henrique Magalhães. Também têm os que começaram a fazer agora, como o Ricardo Chakal, com o Social Agression e o Diego El Khouri com o Cama Surta.

Apesar de todas essas boas notícias para o impresso, sejamos realistas: a produção de fanzines caiu drasticamente e boa parte dos fanzineiros migraram para os blogs ou simplesmente abandonaram tudo. Outros, para manter parte da característica dos impressos, distribuem os fanzines em formato pdf, para a pessoa baixar, imprimir e ler.

Curiosamente, muitos dos blogueiros que surgiram a partir dos anos 2000, têm em sua produção características semelhantes aos fanzines, porém, nem todos têm essa noção.

Por um outro lado, noto uma nova volta dos fanzines, por um caminho um tanto diferente do que se possa imaginar: muitos educadores e professores estão utilizando o fanzine como ferramenta para ajudar na formação de crianças e jovens, dentro do que se conceituou chamar educomunicação. Eu mesmo dei oficina para educadores da ONG onde eu trabalho, e eles multiplicaram para os seus educandos, que piraram na ideia, eles não conheciam o fanzine e acabaram adotando o agora “método”, para expor suas ideias e até mesmo reivindicar coisas em sua comunidade. E percebo que isso vem acontecendo em diversos lugares, como a exemplo de Gazy Andraus e Elydio dos Santos Neto, ambos doutores, que aplicam a técnica do fanzine para mestrandos na área de educação! Fernanda Meireles é uma pessoa que viaja o país dando oficinas de fanzines para diversos públicos em diversas realidades. Direto recebo e-mail de professores e pesquisadores querendo saber mais sobre fanzines, para ajudarem em suas teses e para aplicar com seus educandos.

Não vou me atrever em falar que os fanzines terão o mesmo gás dos anos de 1980, 90, mas, por conta dessa utilização educacional, ele vai demorar um pouquinho mais para sumir. E acho que vai conviver harmoniosamente com a internet e os blogs.

EN - Quais as principais dificuldades, técnicas e/ou conceituais que você teve para produzir o documentário?

Sno - Técnicas, todas! Afinal de contas, o que sei de gravação de imagens é o básico: dar play e mandar ver. OK, estou exagerando um pouco, mas é mais ou menos isso mesmo. Não utilizei iluminação, usei a luz ambiente. Isso prejudicou no resultado final de alguns personagens.

Outra coisa atrapalhou bastante foram os ruídos em algumas gravações, que prejudicaram alguns depoimentos, como no caso da Thina Curtis e do Gazy Andraus.

No caso do conceitual, a coisa veio meio que naturalmente. As perguntas foram meio que padronizadas, só em alguns casos que abordei outros assuntos. Quando já tinha essa totalidade de depoimentos acumulados, fui convidado para participar do 1° Ugra Zine Fest e um dos organizadores, o Douglas, perguntou se eu queria levar uma prévia do doc pro evento. Topei em fazer um apanhado. Mas durante a edição gostei tanto do resultado final, que resolvi pensar diferente: a ideia inicial era fazer um documentário único, com todos os depoimentos que eu iria colher pelo Brasil afora, por intermédio dos colaboradores, coisa e tal. Mas decidi lançar esse que seria uma prévia como o “Capítulo 1”, e dividir o doc em assuntos. Primeiro porque acho que seu fosse lançar conforme a ideia inicial, iria dar mais de duas horas, e pra segurar alguém em frente à tela por esse tempo todo, o cara tem que ser profissional, o que não é meu caso. E depois porque diminui um pouco a minha ansiedade e a do povo em geral que sempre pergunta “quando é que vai sair o doc?”. E acho que vai ser mais light pra todo mundo e talvez a pressão seja menor. E isso já é um grande ponto, pois por conta de algumas cobranças no meio do caminho, quase desisti, pois a partir do momento que rola a cobrança, a coisa passa a se tornar obrigação e aí o tesão vai embora. Deixei o documentário de molho por dois meses, para me livrar do peso da cobrança e depois que a poeira abaixou, passei a dedicar-me ao doc com mais carinho e cá estou.

EN - Há um bom número de gente já devidamente registrada nos depoimentos, como foi a logística para chegar a este povo todo? Os que não moram em SP, como obteve os depoimentos deles?

Sno - Boa parte do pessoal que está nesse primeiro capítulo são daqui, de São Paulo, aí foi mais no esquema de agendar mesmo e ir na casa de cada um para gravar. Mas no caso do Leonardo Panço (RJ), Fellipe CDC (DF), Daniel Villa Verde (RS), Gazy Andraus (Santos), aproveitei a vinda deles pra cá para fazer os registros, afinal não tive oportunidade de fazer viagens por enquanto. Sempre fico de olho em alguém que vem pra cá pra marcarmos. Agora haverá dois eventos em SP que trará pessoas de fora: o Prêmio Angelo Agostini e o Ugra Zine Fest. E eu pretendo levar a câmera na bolsa, o tripé e mandar ver!

EN - Existe alguma “meta” a ser alcançada no sentido de quantos e quem entrevistar? Caso positivo, como pretende cumpri-la – pretende viajar para colher depoimentos Brasil afora?

Sno - Talvez uma das metas é conseguir entrevistar as pessoas que considero “chave” dentro do universo dos zines. As que tiveram uma representatividade considerável no que se diz a respeito de zines. E talvez são as que mais terei dificuldades de conseguir pela distância e disponibilidade. Mas ainda teremos muito tempo para isso!

Outra meta é tentar com essa coleção de capítulos mostrar o que é definitivamente fanzines e o maior número de assuntos possíveis.

Mas o que eu queria mesmo é que acontecesse o lance de ter “pólos” em diversos lugares do país para, de fato, realizar um trabalho de equipe.

Puxa, viajar pelo Brasil para pegar depoimentos, eu pretendo sim! Mas estou com meus pés bem no chão. Esse trabalho não me trará nenhum retorno financeiro, muito pelo contrário, esse doc só aconteceu porque investi nele, com grana (para comprar fitas, bancar gasolina, passagem, energia elétrica) e com meu trabalho na captação de imagens, edição, que tomaram boa parte do meu tempo e que me privou, por exemplo, de estar junto com minha família.

Quero muito cair numas loucuras de pegar um final de semana e ir, por exemplo, para Aracaju e entrevistar figuras como Adelvan Kenobi, Rafael Jr., Adolfo Sá, Sylvio e outras figuras que movimentaram o underground sergipano. E fazer o mesmo no Rio, Curitiba, Joinville… Mas sei que isso é um sonho remoto, mas não custa pensar que isso pode sim acontecer.

EN - Quais os seus planos para o documentário, depois de pronto? Como pretende divulgá-lo e distribuí-lo?

Sno - Assim que acabar tudo, talvez nunca mais quero falar sobre fanzines! Uma vez na minha vida, pensei que nunca mais ia me envolver no assunto, mas como se pode perceber, estou comprometido até a testa!

A divulgação, já está sendo feita e a cada capítulo lançado, será da mesma forma: enviando para amigos, revistas, jornais, TVs, festivais, e o que mais aparecer para colocar a história para circular.

Por enquanto, estou distribuindo via carta e de mão em mão. Vou usar esse processo para as primeiras 300 cópias. Já distribuí quase 100. Depois, ou até antes de zerar as cópias, vou disponibilizar na internet pro pessoal baixar mais facilmente. Afinal, meu bolso ficará mais feliz também!

No finalzão disso tudo, quando não tiver mais assunto pra colocar, pretendo juntar tudo isso num só DVD. Aí sim, pretendo investir bastante para ter um material bacana, com encarte cheio de páginas, e tudo mais que se tem direito! Mas isso só vou me preocupar lááá na frente!

EN - Quais foram os fanzines que você publicou, até onde eles chegaram e qual o retorno que você teve de todo este trabalho?

Sno - Bem, meu primeiro fanzine foi o que mais me trouxe retorno: o Aaah!!, lançado em 1993. Ele durou 6 edições e teve diversos formatos e números de páginas, uma das edições chegou a ter 120 páginas e um miniposter. Também editei o Don’t Worry!!, em conjunto com a minha então namorada Joelma (que hoje é minha esposa). Nesse meio-tempo lancei o erótico Pleasure, que teve duas edições. Mais tarde, já casado e com filho, lancei o fanzine de bolso Ejaculação Precoce, que a partir da terceira edição passou a chamar Lady Die! e acabou na quarta edição. Quando tudo relacionado a zines para mim já fazia parte do passado, o Xan Brás me chamou para dar uma oficina de zines no Sesc Barra Mansa e foi quando eu lancei a primeira edição da cartilha Fanzines de Papel (que teve a segunda edição revista e ampliada em 2007 – e hoje é uma referência para quem pesquisa sobre zines). Com o calor dos fanzines de volta, lancei duas edições do Arreia!, que talvez seja o que achei mais legal, no que pude explorar o que mais gosto de fazer: entrevistas. Paralelo a isso tudo, colaborei para diversos zines de diversas temáticas, estados e países, com textos, desenhos, entrevistas e o que mais coubesse.

Nessa minha carreira, fiz contato com muita gente, que colaborou nos meus zines, mandou material de suas bandas, seus desenhos e poesias. Pessoas de todos os tipos, formatos, ideologias que se possa imaginar! Nos meus fanzines eu abria espaço para qualquer tipo de pensamento (claro, evitando os preconceituosos e extremistas) e, com isso, fiz amizade com pessoas. Muitas. Muitas mesmo! Muito mais que os amigos que tenho hoje no facebook. Talvez o triplo ou o quíntuplo, ou mais.

E com isso, o maior retorno que tive nessa história toda, foram as amizades que conquistei nesse caminho. Tenho amigos da época das cartas que até hoje mantemos a amizade. Você, Adelvan, é uma dessas. Pessoas que extrapolaram o limite da divulgação em zines, ou trocas de informações, para quase fazer da minha família. Meu padrinho de casamento é o Jean Marim (Sonidos, Ruídos y Ideas), conheci nesse meio, e ele é também padrinho do meu filho e eu padrinho dele de casamento também. O Marlos (And Chimarrão for All!) é um irmão pra mim (que inclusive casou-se com a fanzineira Karol, e hoje moram em Londres)… Bem, esses são alguns exemplos de quão forte era a nossa rede de amizades na época.

O reconhecimento de nossos esforços acho que também é um retorno bacana. Você ouvir pessoas falarem que se inspiraram no seu zine para fazer um, é uma grande recompensa! Outras te procurando para falar sobre zines, seja em uma oficina, palestra, debate, ou mesmo para uma consultoria, é muito legal, e eu gosto muito disso! Procuro sempre me disponibilizar para dar uma força.

EN - Como aconteceu seu primeiro contato com esta rede “subterrânea”? Foi uma identificação imediata, ou só aos poucos você foi se interessando em participar ativamente do processo?

Sno - Confesso que no começo tinha um certo preconceito com o underground. Eu lia muito a revista Bizz, cheguei a ser assinante por alguns anos, inclusive. Aí, passei a ler a Rock Brigade, Dynamite e por aí foi. Nessas revistas haviam seções para divulgação de bandas desconhecidas, como o Headbanger Voice. Demorei para tomar coragem – e me despir dos preconceitos – para escrever para uma dessas bandas. Resolvi escrever para várias. Só escrevi para bandas que não eram da capital paulista, por vergonha mesmo, eu era muito tímido. Lembro que os primeiros a me mandarem demos foram a Scum Noise, Soutien Xiita, Anarchy Solid Sound, Ñrü, Prophecy, No Violence. Passei a perceber que tinha muita coisa boa no subterrâneo e, aos poucos, aquele preconceito foi pro saco definitivamente!

Nessas cartas, recebi muito flyers de outras bandas e fanzines. Peraí: fanzines? O que era isso? No Headbanger Voice também tinha uma seção para esses tais de fanzines. Não tive coragem de perguntar o que era isso. Naquela época não tínhamos o Google, que ajudaria muito a tirar essa dúvida. Resolvi escrever para alguns e perguntando quanto que era pra receber o fanzine. Quando recebi o Secret Face, pude tera noção na prática do que era o fanzine.

Como eu ja tinha contato com alguma galera de bandas na época, um dia, indo trabalhar, me veio na cabeça: “porra, eu também posso fazer um fanzine!”, comecei a correr atrás, me baseando nos que eu havia recebido nessa época, como o Gnomo da Tasmânia, Mensageiro, Alta Tensão, entre outros. Aí não teve mais volta. Minha rede de contatos foi aumentando assustadoramente ao ponto de eu receber pacotes de cartas todos os dias e começar a ter problema para responder as cartas em tempo hábil.

EN - Como você vê a situação atual desta rede “analógica” se comparada ao que era nos anos 80/90? Você acha que há futuro para este tipo de troca de informações ou “resistir é inútil” e tudo será, inevitavelmente, substituído pela troca de arquivos digitais via internet?

Sno - A rede analógica, passou para a digital e não tem mais volta. Só usamos o correio quando temos que mandar alguma coisa que não é possível via internet. Isso é fato e não tem lógica voltar atrás. Porém, essa rede digital só pôde ser constituída com o passado analógico.

Os arquivos digitais acho que podem ser o futuro mais certo que consigo ver. Alguns zines já são lançados assim, como é o caso do Juvenatrix, Inferno Pub, Pensá, por exemplo. São zines que os editores montam e botam em um site ou enviam pelo e-mail mesmo pra galera baixar, com a opção de imprimir ou não.

Porém, ainda haverá sempre uma galera que manterá essa história de trocar materiais via correio, pois tem alguns tipos de materiais que são bem mais bacanas em formato físico, como por exemplo: livros, CDs e DVDs com encartes fodas. Mas, sem dúvidas, será num ritmo infinitamente menor que antigamente.

EN - Você ainda produz e/ou pretende continuar produzindo este tipo de material impresso? Por quê?

Sno - Pretendo sim, inclusive noutro dia estava conversando com o Luciano Irrthum (desenhista de Belo Horizonte que contribuiu para diversos zines, inclusive os meus) e estamos para lançar uma campanha para retomarmos os fanzines impressos e trocarmos via correio, como antigamente, com a intenção de mantermos a chama acesa como antigamente. A única “exigência” será que os fanzines terão que ter pelo menos 16 páginas em meio ofício, para haver mais justiça nas trocas.

E para essa campanha, já estou elaborando o fanzine que estou chamando de Me, Myself and I, no qual vou publicar somente coisas minhas, que inclui textos, desenhos nunca publicados e os que eu faço durante reuniões. Mas o plus desse zine será a entrevista que terá comigo. Pedi para alguns amigos mandarem perguntas de variados assuntos. Sim, vai ser uma ode ao meu umbigo! E uma terapia! Não sei se as pessoas se interessarão em saber sobre mim, mas não tô nem ai, o zine é meu!!

Na verdade será a primeira vez que lançarei um zine sem colaboradores e isso acho que vai ser um grande desafio, pois tudo dependerá exclusivamente de mim! Agora veremos quem é quem! Ahahah!

Por quê? Bem, acho que por resgatar um pouco como é esse lance de fazer o zine da forma antiga, retomar um pouco o passado. Talvez para ter sensação parecida que um cara tem ao ouvir vinil em épocas de MP3.

EN - Deixe a gente conhecer um pouco do Márcio Sno como pessoa – fale-nos de sua vida pessoal, quem é você, quais são suas origens, o que anda fazendo da vida...

Sno - Bem, acho que eu não mudo muito do que as pessoas me conhecem por intermédio dos zines. Mas vamos lá…

Meu pai é de origem japonesa (meu nome verdadeiro é Márcio Mitio Konno) e minha mãe é de uma cidade pequena de Minas Gerais, chamada Jequeri. Nasci aqui mesmo em São Paulo, tenho três irmãs e desde cedo tive que me virar pra conquistar minhas coisas: comecei a trabalhar aos 13 anos. Passei a namorar a Joelma aos 16, com quem casei aos 22 (quase 23), no ano em que nasceu o Calvin (1998).

Talvez a minhas raízes orientais tenham me feito uma pessoa muito paciente e que consegue compreender algumas situações com certa facilidade e a dar tempo ao tempo. Também sou muito correto e odeio injustiças. Pode ser por isso que muitas pessoas buscam conselhos comigo e são eternamente gratas!

Não costumo criar muitas expectativas sobre as coisas, faço a minha parte e espero que os resultados venham por eles mesmos. Talvez essa pode ser meu maior defeito tendo em vista esse mundo capitalista e competitivo. Mas acho que não mudarei esse jeito até a segunda ordem. Sei que recebo muita cobrança externa sobre isso (principalmente de minha família), mas apoiando-se em minha “pseudo-sabedoria”, o tempo dará as melhores respostas!

Trabalho há 13 anos e meio em uma ONG (www.acomunitaria.org.br), no Núcleo de Cultura & Lazer e, em algumas ações, utilizo a experiência e vivência que tive com os zines.

Me formei em jornalismo em 2007, mais para realizar um sonhodo que pra investir no mercado de trabalho, que sempre soube que era fechado.

Gosto muito de música, filmes, futebol, literatura, teatro e adoro conversar sobre isso. E, consequentemente, gosto de pessoas que conversem sobre esses assuntos.

Sou basicamente isso aí. Odeio holofotes na minha cara, prefiro o backstage.

EN - Espaço aberto para considerações finais e/ou para falar de assuntos que considere importantes e eu não mencionei.

Sno - Olha, acho falei bastante coisas e acredito que o leitor não terá mais muita paciência para que eu entre em algum assunto.

Quero deixar bem claro aqui que esse documentário foi idealizado apenas para que a memória da produção dos fanzines impressos seja conservada e registrada em formato audiovisual. Não quero e nem pretendo utilizar essa produção para me aparecer ou querer representar um marco na histórias dos zines, ao contrário do que algumas pessoas pensam e espalham. Não quero ser mártir. Com esse projeto, não fiquei esperando que alguém fosse tomar a iniciativa. Eu simplesmente resolvi fazer. Ponto. Ao invés de ficar reclamando: “ah, falta fulano, falta cicrano, eu não participei, devia ter feito assim, assado”, resolvi fazer.

E eu não vou ficar parado pra ficar discutindo essas coisinhas. Porra, estou prestes a completar 36 anos, sou pai de família, tenhos minhas responsabilidades profissionais… Não tenho tempo pra coisas pequenas. Nesses momentos me vem a frase de Raul Seixas: “eu tenho uma porção de coisas pra conquistar e não posso ficar aqui parado”. E assim eu sou: vivendo intensamente, produzindo insanamente e sem ter a mínima ideia onde tudo isso vai dar.

Agradeço de coração a você, Adelvan, meu amigo de anos a fio, por esse espaço concedido em seu blog! É um grande orgulho estar aqui, pois você é um grande batalhador da cena sergipana e é uma das pessoas que segue a mesma linha que eu: “Se ninguém faz, façamos!” Longa vida a você e para todos os seus projetos e ações! Que a força esteja com você!

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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A Hammer Film production

Sem essa de assistir filmes no computador em tela pequena e com imagem de baixa qualidade ou, suprema heresia, no celular ! O melhor lugar para se ver filmes AINDA é o cinema, apesar dos (muitos) pesares, especialmente a falta de educação do público em geral. Pois bem: fui ver ontem, NO CINEMA, “Deixe-me entrar”, a versão americana para um dos melhores filmes sobre vampiros dos últimos tempos, o sueco “Deixe ela entrar” (Låt den Rätte Komma In). Eu sei, é de uma imbecilidade sem tamanho essa idéia dos americanos de que eles têm que fazer versões próprias de filmes estrangeiros de sucesso, porque os retardados de lá não gostam de ler legendas (até aí, nenhuma novidade, já que os retardados de cá também estão criando uma demanda cada vez maior por filmes dublados nos multiplexes, o que é horrível). Mas de vez em quando eu abro uma excessão, por um motivo ou outro. Neste caso a principal motivação foi a presença de Chloe Moretz, de quem eu virei fã desde sua excelente atuação em “Kick Ass”, no papel principal, o da vampira adolescente. Além disso, o diretor é Matt Reeves, o mesmo de Cloverfield (Monstro), do qual eu gostei bastante, e as críticas que li foram bastante positivas.

Não me decepcionei. Poderia ter sido melhor se o diretor tivesse feito um esforcinho a mais para se diferenciar do original (é praticamente uma cópia Xerox), mas mesmo assim o resultado final foi satisfatório. Replica praticamente tudo, inclusive o cenário, apesar da versão ser ambientada, como não poderia deixar de ser, nos Estados Unidos, mais precisamente no Novo México. Nunca um inocente parque de diversões soterrado pela neve no playground de um condomínio de classe media baixa foi retratado de forma tão sombria – porque seu único frequentador, pelo menos à noite, é o solitário garoto Owen. Ele está, no entanto, prestes a encontrar companhia: Abby, uma garota igualmente estranha com cheiro esquisito, acaba de se mudar para a vizinhança e também quer freqüentar o parquinho em horários pouco convencionais. Os dois acabam desenvolvendo uma bela relação de amizade que logo evolui para um namoro, apesar da garota afirmar que ela não é, na verdade, uma garota. “O que você é, então?”, questiona Owen. “Não sou nada”, ela responde.

Ela é, na verdade, um ser atormentado por instintos primários, manifestos principalmente em uma sede de sangue difícil de controlar e num instinto predador aguçado, acompanhado de força e habilidades fora do comum. Sim, Abby é uma vampira, o que fica explícito em um diálogo do filme (não deveria). Seus ataques são impressionantes. Com movimentos um tanto quanto inverossímeis, é verdade, mas até aí nada demais, já que vampiros são, por si só, seres fantasiosos. As cenas de ação, aliás, são muito boas, especialmente a do acidente de carro, que não consta do original, e a da piscina, igualmente perfeita. São intercaladas por climas melancólicos e sombrios pontuados pela delicada e onipresente (até demais, chega a enjoar) trilha sonora, baseada no piano. Excelente, especialmente para quem não viu a versão original. No cinema, já era: passou praticamente despercebido pelas telas, infelizmente, e já saiu de cartaz em Aracaju.

Mas o que mais me surpreendeu foi a constatação de que se trata de um filme da Hammer, a legendária produtora inglesa de fitas de horror! Não sabia. Faz muito tempo que eles não produzem nada. A Hammer foi fundada em 1934, mas teve seu auge criativo e comercial entre os anos de 1955 e 1979 quando, em associação com a Warner Bros., que atuou na distribuição mundial de alguns de seus sucessos, apostou nos filmes de terror, especialmente o horror gótico povoado de personagens clássicos, como Drácula, Frankestein e o Lobisomem. Tudo começou com o sucesso da versão de Terence Fischer para a obra imortal de Mary Shelley em The Curse of Frankenstein, de 1956. Dois anos depois, o mesmo Fischer dirigiria o clássico “Dracula”, estrelado por Christopher Lee no papel do vampiro e por Peter Cushing como seu antagonista, o Dr. Van Helsing. Foi um sucesso estrondoso, o que gerou um sem número de continuações, algumas quase tão boas quanto o original, como The Brides of Dracula (1960), Dracula: Prince of Darkness (1966) e Scars of Dracula (1970). O filão comercial foi explorado até o fim com Dracula Has Risen from the Grave (1968), Taste the Blood of Dracula (1970), Dracula AD 1972 (1972), The Satanic Rites of Dracula (1973) e The Legend of the Seven Golden Vampires, quase todos estrelados por Christopher Lee, que não se sentia muito a vontade no papel. Ele não participou da sequencia direta do filme de 1958, “The Brides of Drácula”, e no primeiro, para que se tenha uma idéia, fez um príncipe das trevas praticamente mudo, sem quase nenhuma fala, porque se recusava a proferir os diálogos, a seu ver muito ruins.

Os filmes da Hammer eram “trash” e “camp”, mas também eram, inegavelmente, charmosos. Exploravam sem pudor os corpos de suas atrizes, sempre metidas em generosos decotes, e caprichavam nos cenários e na dramaticidade de algumas cenas. São inesquecíveis os castelos góticos em meio a florestas envolvidas em brumas e algumas cenas de morte do vampiro, como aquela em que ele é atingido por um raio ou outra na qual Van Helsing salta sobre as cortinas para deixar entrar a luz do dia, fatal para os mortos-vivos. Antológico. Lembro que quando eu era criança, ainda nos anos 70, pedia para que meus irmãos me acordassem no meio da noite para assistir às sessões que a televisão exibia, geralmente de madrugada. Ficava absolutamente fascinado.

A Hammer produziu ainda uma série sobre vampirismo feminino, repleta de apelo erótico e baseada na personagem Carmilla Karstein, de Sheridan Le Fanu: The Vampire Lovers (1970), Lust for a Vampire (1970) e Twins of Evil (1971). Com o monstro de Frankenstein produziram The Curse of Frankenstein (1957), The Revenge of Frankenstein (1958), The Evil of Frankenstein (1964), Frankenstein Created Woman (1967), Frankenstein Must Be Destroyed (1969), The Horror of Frankenstein (1970) e Frankenstein and the Monster from Hell (1973). Outros filmes importantes: The Mummy (1959), The Hound of the Baskervilles (1959), The Two Faces of Doctor Jekyll (1960), The Phantom of The Opera (1962) e The Devil Rides Out (1967).

Em meados dos anos 70 a produtora entrou em decadência, dedicando-se basicamente a séries para a televisão nos anos 80. Mante-ve-se em estado de hibernação durante as décadas de 90 e 2000, e está voltando agora à produção cinematográfica, justamente com o filme de Matt Reeves.

por Adelvan

Clique aqui para uma lista completa de todos os filmes da Hammer
AQUI, o site oficial da produtora
+ sobre “Deixe-me entrar”:

“De certa forma, nós estabelecemos o padrão para os filmes de vampiro”, comenta o presidente da "Hammer Films", Simon Oakes. “Lá no filme ‘Drácula’ do final dos anos 50, a Hammer transformou o vampiro, interpretado por Christopher Lee, em uma figura quieta e sensual. Acho que estabelecemos o tom para aquela abordagem na tradição do vampiro e isso perdurou durante muitas décadas”, aponta. “Cada uma das histórias que são tão populares no momento, usa a lenda do vampiro de uma maneira diferente”, acentua Matt Reeves, diretor de “Deixe-Me Entrar”, versão americana de “Deixe Ela Entrar”, filme sueco baseado no romance de John Ajvide Lindqvist. “Freqüentemente eles a usam para explorar a natureza sexual das pessoas. Mas esta história pega o mesmo modelo e o usa para explorar algo totalmente diferente”, explica o cineasta.

“É uma história que deveria estar disponível para um público realmente muito mais amplo. E nós o acompanhamos desde o princípio”, lembra Oakes, que através da Hammer entrou na disputa pelo material logo que o título despontou. “Mesmo que a concorrência tenha sido dura, desenvolvemos um relacionamento com os produtores e como resultado conseguimos garantir os direitos”, comemora o CEO. “Achei que seria extremamente empolgante o remake ser feito pela Hammer por causa de seu histórico de contribuições para este gênero”, diz Reeves. “Sabia que tinha que achar um meio de me ligar a esta iniciativa. Meu pessoal adorou tanto o projeto que também queria fazer parte dele e na verdade acabaram se associando à Hammer”, confessa o autor, lembrado por sua direção no elogiado longa-metragem de J. J. Abrams, “Cloverfield - Monstro”.

“Matt leu o livro e assistiu ao filme original, e estava muito positivo sobre achar uma maneira de fazer deles sua própria película. Ele tinha uma conexão apaixonada com a história e isso valia por tudo. Ele estava determinado em manter uma lealdade ao espírito da história de Lindqvist e ao mesmo tempo expandi-la de maneira a incluir sua própria visão”, pontua Oakes. “Fiquei realmente tocado. Lindqvist e Tomas Alfredson, o diretor do longa sueco, criaram uma metáfora poderosa para o tumulto que é a adolescência”, lembra Reeves, que ainda prossegue: “Com um filme de gênero, penso que o mais emocionante é poder incluir uma idéia maior por baixo da superfície. Acho que é isso que torna este conto diferente. Não é uma fantasia comum sobre vampiros, é algo com o que espero que as pessoas possam realmente se identificar”, empolga-se.


“Você poderia cometer o erro de achar que é somente um filme de vampiro, mas na realidade é um filme sobre a alienação e o preço que estamos dispostos a pagar para sermos amados”, aponta Vicki Dee Rock, co-produtora da fita. “É um comentário sobre a humanidade”, ela continua. “O que mais me chamou a atenção, logo na primeira leitura de ‘Deixe-Me Entrar’, foi o tom incrivelmente sombrio e sinistro que Matt queria ter”, especifica o diretor de fotografia Grieg Fraser. “Envolvida por toda esta escuridão, está uma linda história de amor. Nosso desafio era criar visuais que a complementassem. Durante as filmagens, tentamos intensamente não nos sentirmos como se estivéssemos iluminando e enquadrando um filme de gênero. Em vez disso, estávamos iluminando um drama de época, com crianças no centro da história”, difere.

“Na versão sueca, os protagonistas são maravilhosos e seu relacionamento é muito poderoso. Sabia que, se não encontrássemos jovens que fossem capazes do mesmo, não poderíamos fazer este filme. Esta é, de diversas maneiras, uma história bastante adulta. As complexidades emocionais do relacionamento são bastante maduras”, credita Reeves. Kodi Smit-McPhee (de “A Estrada”) acabou sendo escalado para o papel principal do menino socialmente excluído. “Ele é filho de mãe solteira. O coitado teve uma vida muito difícil. Ele é intimidado na escola e sua mãe se preocupa, porém ela bebe demais”, analisa o próprio ator-mirim. “Quando uma nova garota se muda para seu prédio, ele a acha meio estranha, mas precisa de alguém para conversar. E depois, assim que eles se tornam amigos, ele descobre que ela é uma vampira”, detalha Smit-McPhee.

Já para viver a tal menina vampira, os produtores foram buscar Chloë Grace Moretz. “Ela tem uma qualidade incrivelmente interessante. Chloë pode ser durona, como todos que assistiram ‘Kick-Ass’ já devem saber. Ela também tem uma tremenda vulnerabilidade. Esta mistura de ser bem humana, mas também tendo um inconquistável desejo de sobreviver realmente transparece”, elogia Reeves. “Penso que alguma parte dela sabe pelo que ele está passando. Ela não pode na verdade conversar com ninguém sobre si mesma ou sua vida, porque se descobrirem quem ela realmente é, eles irão se afastar. Ele é única pessoa com a qual ela se relaciona. E ele também precisa de alguém que o ame pelo que ele é”, sintetiza Moretz. “Sem estes dois jovens, não poderíamos ter feito este filme. Quero dizer, eles são realmente notáveis”, surpreende-se o diretor.

Fonte: Paramount Pictures

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Cisne indomável


E eis que o mundo do balé clássico já tem seu “Touro Indomável”. “Cisne Negro” faz por ele o que o clássico de Martin Scorcese fez pelo box: transporta o expectador para o meio da ação, com a câmera habilmente circulando no palco, no meio dos bailarinos, enfocando de forma brilhante os movimentos e as expressões faciais dos protagonistas. Além disso, entrega um retrato impiedoso dos bastidores e dos dramas pessoais pelos quais passam os envolvidos, sempre pressionados para que dêem o melhor de si e ameaçados pela concorrência fraticida e nem sempre leal.

É a história de Nina, dedicada bailarina que está prestes a enfrentar o maior desafio de sua vida: encarnar, ao mesmo tempo, os dois personagens principais do mais do que clássico balé “O lago dos cisnes”, de Tchaikovsky. Sua grande dificuldade está em incorporar de forma satisfatória para o coreógrafo brilhantemente interpretado por Vincent Cassel o Cisne Negro – sedutor e maléfico, tudo o que Nina foi ensinada a NÃO ser. Ela é uma bailarina, não uma atriz, mas se quiser ter sua noite de glória, precisará se arriscar a deixar vir à tona instintos reprimidos que, uma vez libertos, a lançam numa espiral de dúvidas e inseguranças que podem levá-la à redenção ou à loucura, pura e simples.

A redenção seria, principalmente, a libertação do jugo de sua mãe dominadora – clássico caso de pessoa frustrada que sonha em realizar seus sonhos, mesmo que de forma tardia, através dos filhos. Para tanto, conta com a ajuda do próprio coreógrafo, Thomas, que a manipula habilmente com o intuito de quebrar sua frieza, e de Lily, uma nova integrante da companhia vivida ela belíssima Mila Kunis. Não por acaso, ela veio de de San Francisco, cidade conhecida como o berço do amor livre e da cultura hippie/psicodélica na América. É principalmente através dela que Nina começa a “se soltar”, ao mesmo tempo em que desconfia de que a “amiga” está tentando, na verdade, desequilibrá-la emocionalmente para tomar seu lugar.

E Nina se desequilibra emocionalmente. E muito. Passa a ter sintomas de esquizofrenia e é aí onde o filme desanda – mas só um pouquinho. Do meio para o final o quase sempre brilhante diretor Aronofsky dá umas derrapadas em cenas de terror psicológico clicherosas e desnecessárias que subestimam a inteligência do expectador. Já o clímax é sensacional: na grande noite assistimos à incorporação quase que literal do cisne negro por Nina numa perfomance brilhante tanto do personagem quanto de sua intérprete, Natalie Portman.

De modo geral, “Cisne Negro” não é tão bom quanto o anterior “O lutador”, muito embora lide com temas parecidos – superação, principalmente. Plasticamente é perfeito, mas os exageros narrativos lhe tiram o status de “obra-prima”. Em todo caso, é um grande filme que merece, e muito, ser visto.

por Adelvan

* * *

O suspense Cisne Negro (Black Swan), que já deu o Globo de Ouro e o SAG a Natalie Portman, pode lhe render no dia 27 o seu primeiro Oscar. Além de melhor atriz, o longa concorre em mais quatro categorias - filme, montagem, direção e fotografia. Portman e o diretor Darren Aronofsky falaram com os nossos parceiros do Collider sobre a parceria, o mundo do balé e a expectativa pelo prêmio.

Darren, você poderia falar sobre quando conheceu Natalie Portman para esse filme, há 10 anos?
Darren Aronofsky: Eu sou fã do trabalho da Natalie desde que a vi em O Profissional. Luc Besson é um dos meus diretores favoritos. Acabou que o empresário dela é um amigo meu da faculdade, então eu consegui contato com mais facilidade. Nos encontramos na Times Square, no antigo hotel Howard Johnson, que agora é uma loja de roupas. Isso mostra pra onde os Estados Unidos estão indo. Nós tomamos uma xícara de café péssima e conversamos sobre algumas ideias que eu tinha para o filme. Ela diz que eu tinha o filme todo na minha mente, o que é mentira.
Natalie Portman: Não, o que ele descreveu para mim já estava bem perto.
DA: Nós conversamos um pouco sobre o filme e eu comecei a desenvolvê-lo, mas foi bem difícil, pois adentrar no mundo do balé se provou bem desafiador. Na maioria das vezes, quando você faz um filme, você diz "ei, eu quero fazer um filme sobre o seu mundo", todas as portas se abrem e você pode fazer tudo o que quiser, ver tudo o que quiser. O mundo do balé não estava nem um pouco interessado em nos receber, então levamos um bom tempo para conseguir as informações e montar tudo. Ao passar dos anos, Natalie dizia "eu estou ficando muito velha para interpretar uma dançarina, é melhor você se apressar". Eu respondia "Natalie, você está ótima. Vai dar tudo certo". Aí, mais ou menos um ano antes das filmagens, eu finalmente consegui terminar o roteiro. Foi assim que tudo começou.

Natalie, por que esse foi um papel dos sonhos para você?
NP: Bem, eu dancei quando era mais nova, até mais ou menos meus 12 anos, e sempre idealizei a dança, assim como a maioria das meninas mais novas, como uma das formas de arte mais bonitas. É uma expressão sem palavras. Eu sempre quis fazer um filme relacionado à dança, então quando Darren teve essa incrível ideia que não era somente relacionada ao mundo da dança, mas também tinha essa personagem complicada - ou duas personagens -, participar disso foi uma ótima oportunidade, especialmente com Darren, que é um diretor com quem eu faria qualquer coisa. Isso me deixou muito animada.

Darren, como foi abordar essa história do ponto de vista feminino, ao contrário de O Lutador, que foi bem masculino?
DA: Eu não acho que haja tanta diferença. Eu não faço muito caso disso. Eu acho que pessoas são pessoas e, se seus sentimentos são reais, elas podem se identificar. Não importa se você é um lutador de 50 e tantos anos que já está no final da carreira, ou uma ambiciosa dançarina de balé de 20 e poucos anos. Se eles acreditam naquilo que eles são e seus sentimentos são reais, então a audiência vai se identificar. Essa sempre foi a premissa do cinema. É por isso que podemos ver um filme sobre uma garotinha de sete anos no Irã ou um super-herói imortal nos EUA. Não importa, contanto que sejam verdadeiros.

Você é um diretor manipulativo como o diretor de balé no filme?
DA: Eu queria ser tão manipulativo como Thomas Leroy é no filme. Eu sou muito direto, já assustei muitos atores de primeira linha. Natalie Portman foi a única atriz top com quem eu trabalhei na minha carreira. Todos os outros falavam "você quer que eu faça o quê? Por quanto tempo? Por quanto dinheiro?" e eles iam embora. Eu perdi muitas estrelas de cinema ao longo do caminho. Eu acho que um diretor mais manipulativo falaria "Ah, não vai ser tão difícil. Venha e vamos nos divertir". Eu acho que é assim que guerras começam. Eles falam "você me disse que ia ter sushi no set todos os dias!". Eu sou bem direto e honesto.

Natalie, como você abordou sua transformação para esse papel?
NP: Foi um desafio muito grande e eu tive um ótimo apoio. Comecei com minha treinadora de balé um ano antes das filmagens, partimos do básico. Nós treinávamos duas horas por dia pelos primeiros seis meses e isso foi uma ótima preparação para que eu fizesse mais, assim eu não me machucaria. Depois dos seis meses nós começamos a fazer cinco horas por dia. Adicionamos natação, eu nadava 1,6 Km por dia, tonificação e depois fazíamos três horas de aula de balé por dia. Aí, dois meses antes das filmagens, nós adicionamos a coreografia, então fazíamos por volta de oito horas por dia. A disciplina física ajudou muito na parte emocional da personagem, pois você tem um sentimento do estilo de vida monástico de só malhar, essa é a vida de uma dançarina de balé. Você não bebe, não sai com amigos, não come muito e submete seu corpo à dor extrema, então você acaba entendendo a auto-flagelação de uma dançarina de balé.

Você treinou separadamente para o Cisne Branco e para o Cisne Negro?
NP: As coreografias eram diferentes para o Cisne Negro e para o Cisne Branco. Eu tive uma treinadora incrível, Georgina Parkinson, que faleceu duas semanas antes de começarmos as filmagens. Ela foi a primeira treinadora para O Lago dos Cisnes para [as personagens] Odile/Odette. Ela trabalhou bem especificamente comigo em tudo, desde as pontas dos dedos até onde você põe os olhos nos diferentes movimentos, que é a atuação no balé. Existem pequenos gestos que fazem uma imensa diferença entre as duas personagens.

Qual foi a primeira refeição que você fez depois de ter acabado de filmar, algo que não podia comer enquanto filmava?
NP: Minha primeira refeição foi macarrão, no café da manhã, almoço e janta. Eu comia o tempo todo.
DA: O que é engraçado sobre isso é que este foi um filme bem difícil de se fazer. Não tínhamos muito dinheiro e tivemos que atrasá-lo algumas vezes. Eu não me importo muito em atrasar um filme porque me dá mais duas ou três semanas para me recompor, mas eu descobri recentemente que a Natalie gritava com o empresário dela por ter que viver de cenouras e amêndoas por mais três semanas. Foi ela que sofreu por não poder comer.

Os Sapatinhos Vermelhos, o clássico sobre balé de Michael Powell, influenciou você e suas escolhas?
DA: Eu já tinha ouvido falar em Os Sapatinhos Vermelhos, mas eu nunca tinha visto. Aí o [Martin] Scorsese fez a restauração há alguns anos e eu pensei "quer saber? Eu tenho que ir ver esse filme". É uma obra-prima. É um filme inacreditável. E eu vi que haviam semelhanças na história, mas eu acho que é porque nós dois fomos até o balé e pegamos coisas de lá para as diferentes personagens, então acabamos em lugares semelhantes. Mas eu não fui muito influenciado por ele. As sequências de dança estavam muito além de seu tempo. Eu o mantive no fundo da minha mente. Faz muito tempo.

Natalie, como foi usar as sapatilhas com ponteira?
NP: Sapatilhas com ponteira são aparelhos de tortura. Bailarinas se acostumam com elas, então acho que foi mesmo um caso de ser uma nova experiência para mim, mas elas são bem medievais.

Ter estudado psicologia em Harvard te ajudou no papel?
NP: Esse foi um dos raros casos onde eu consegui aplicar na vida real algo que aprendi na escola. Foi um caso absoluto de comportamento obsessivo-compulsivo. A coceira, a anorexia e a bulimia são casos de TOC. Balé acaba sendo propício para esses transtornos por ter um senso de ritual, com o embrulhar das sapatilhas todos os dias e a preparação de novas sapatilhas para toda nova performance. É um grande processo. É quase religioso, e o diretor [da companhia] é como um Deus. É realmente uma arte devocional, ritualística, religiosa, na qual você consegue se relacionar como ator, pois quando você faz um filme, você se submete ao seu diretor. Seu diretor é tudo e você é devoto dele, pois quer ajudá-lo a criar sua visão.

Natalie, como você acha um equilíbrio quando mergulha em um papel e como você se remove dele quando termina?
NP: Assim que eu termino uma cena, volto a ser eu mesma. Assim que eu termino de filmar, eu quero ser eu mesma novamente. Não sou uma pessoa que gosta de ficar no personagem. Darren e eu nos conectamos bem, meio como uma telepatia, durante as filmagens porque acho ele tão disciplinado, focado e alerta quanto se pode ser, e é assim que eu tento ser. Eu não sou perfeccionista, mas eu gosto de disciplina. Eu sou obediente. Eu acho importante dar o seu melhor e ser o mais gentil possível com todos que trabalham com você. A meta, todos os dias, é manter o foco nisso.
DA: Eu já lidei com alguns atores que utilizavam o método de permanecer no papel e eu acho que é bobagem. É cinema... Você só tem que estar no personagem quando a câmera está funcionando. Claro, se é uma cena intensa, você pode até querer manter aquela energia entre tomadas, enquanto a equipe se arruma. Mas quando é "Corta!", é "Corta!". Até mesmo quando é "Ação!" e tem uma câmera, todas aquelas luzes e um monte de gente se mexendo à sua volta, é impossível acreditar completamente que aquilo não é um faz-de-conta. Eu não sei. O que funcionar, funcionou. Não quero afastar atores que preferem ficar no personagem, mas a verdade é que realmente é um saco atores que ficam no personagem. É tipo: "Vamos lá! O que você está fazendo? Não é real! Ah, então você realmente está chateado? Vá para o seu trailer. Te vejo em uma hora".

Como foi trabalhar com Barbara Hershey interpretando sua mãe?
NP: Darren fez uma coisa maravilhosa em que ele pediu que Barbara escrevesse cartas para mim, já no personagem, de Erica para Nina, na primeira parte das filmagens. Ele me entregava as cartas em dias importantes de filmagem, assim eu poderia conhecer mais minha mãe. Barbara escreveu cartas realmente lindas como Erica e que conseguiam realmente mostrar nossa história, nosso amor e nossa conexão.
DA: E eu nunca lia as cartas. Eu achava que tinha que ser uma coisa somente entre as duas.

Darren, como você desenvolveu seu estilo para este filme?
DA: Eu acho que tudo é mais sobre a história que queremos contar. Todo o negócio de ter uma abordagem com a câmera sem apoio - ela fica na mão, como utilizamos em O Lutador -, trazer isso para um filme sobre balé era um grande risco, pois eu nunca tinha visto um filme de suspense com esse tipo de abordagem e não sabia se ia funcionar. Eu estava preocupado que, durante uma cena de medo, as pessoas pudessem se perguntar porque a Natalie não pedia ajuda ao cameraman... Mas aí decidimos tentar. Nunca havia sido feito antes e eu realmente gostei de ter uma pessoa segurando a câmera, assim eu pude movê-la de algumas maneiras que não seriam capazes de outra maneira. O resultado disso foi que o primeiro terço do filme passa uma sensação bem diferente do que o resto, pois tem um toque bem realista, que é bem legal. Isso faz as pessoas pensarem que estão assistindo a um tipo de filme bem diferente, que não vai assustar do jeito que assusta, e ainda assim passa uma urgência de estar no momento e estar nesse outro mundo. No geral, acaba parecendo mesmo um documentário no começo, antes de assustar. Funcionou para nós.

Você pode falar um pouco sobre o jogo com os gêneros no filme?
DA: Eu não sou muito um cara de gêneros. Essa foi minha melhor tentativa de fazer um filme de gênero. Eu simplesmente não consigo fazer isso. Eu acho que isso não é mais necessário hoje em dia, fazer um filme com um gênero bem específico. O público está mais sofisticado. Contanto que seja divertido e interessante, está tudo bem. Era isso que eu estava tentando fazer. Nós fomos na direção de manter todos animados, presos à trama, e é memorável, para que você converse sobre isso com outras pessoas.

Como você acha que as dançarinas de balé vão responder a essa representação da arte?
DA: Eu acho que muitos dançarinos vão ficar imensamente aliviados que finalmente existe um filme sobre balé que leva o próprio balé a sério, e não como um lugar para se ter um caso. Se você realmente olhar para as obras de balé - como A Bela Adormecida, Romeu e Julieta e O Lago dos Cisnes - são incrivelmente sombrias, góticas. Esse filme poderia ter se chamado O Lago dos Cisnes. Nós tiramos o conto de fadas e o balé do Lago dos Cisnes e transformamos aqueles personagens em personagens da nossa história. Na realidade, é uma recontagem de O Lago dos Cisnes. Definitivamente mostra o desafio, o drama e a realidade do quão difícil é ser uma dançarina de balé, mas eu acho que também representa a beleza da arte e a transcendência que é possível dentro da arte, tudo dentro da narrativa de O Lago dos Cisnes. Sempre haverá pessoas que não vão gostar, mas a maioria dos dançarinos com quem conversamos sobre isso disse: "Finalmente vamos ter um filme sobre balé!".

Natalie, como você se sente com a expectativa do Oscar para o filme e para sua performance?
NP: A melhor coisa que você pode esperar quando faz um filme e coloca sua alma no projeto como nós fizemos é que as pessoas tenham uma boa impressão. O fato de o público sair do filme comovido, animado, entretido e estimulado é extremamente lisonjeiro. É uma grande honra.

* * * 

Depois de vencer o Globo de Ouro e o SAG, Natalie Portman concorre à estatueta da Academia por "Cisne Negro, mas sua atuação não seria a mesma sem a leveza de Mila Kunis - indicada ao Globo de Ouro de melhor coadjuvante - como contrapeso.

A eterna Jackie de That 70's Show interpreta Lily, bailarina desencanada e sexualmente poliglota, o oposto da travada Nina. Mila Kunis fala da sua preparação para o papel, do contato com o mundo do balé, da já famosa cena de sexo e como ganhou de volta os quilos que perdera nas filmagens.

Como esse é um papel diferente para você, como foi o processo de seleção?
Eu não sei como ou por que fui contratada. Eu nunca cheguei a pedir. Eu não queria que ele [o diretor Darren Aronofsky] ficasse com dúvidas a meu respeito. Eu só fui junto e dizendo: "Tudo bem, se você confia em mim, eu topo". Foi assim. Foi uma oportunidade incrível, da qual eu não me arrependo e nunca vou questionar. Eu agradeço Darren todo dia por isso.
Você já viu O Lago dos Cisnes no palco?
Eu não tive a oportunidade de ver a versão completa até mais ou menos um ano atrás. Toda vez que eu ia ver uma apresentação de balé, era sempre um pedaço dela, então eu nunca tive a oportunidade de assistir à obra por completo.
Como você conseguiu parecer tão sensual sem esforço, mesmo sem ser uma bailarina?
Foi longe de sensual e sem esforço. Foram três meses de treino antecipadamente. Eu não era uma bailarina. Você pode fisicamente fingir só até um ponto, então você tem que mergulhar nesse mundo, no modo como se anda, fala e lida consigo mesma. Então foram três meses de treino, sete dias por semana, quatro ou cinco horas por dia antes de começarmos a produção. E durante a filmagem foi mais ou menos a mesma coisa.
O que te surpreendeu mais sobre o balé?
A coisa sobre o balé que eu nunca soube é que é um dos esportes mais excruciantes de que já participei. Eu digo esporte porque eles treinam constantemente, todo santo dia. Seu corpo muda. Seus ombros caem, o peito abre e existe uma certa postura que eu não tenho naturalmente por ser desleixada. Então por três meses eu tive que ficar reta constantemente. E o modo como eles movem os braços e as mãos enquanto dançam acaba mudando o modo de falar na vida real. E os pés ficam diferentes por causa das sapatilhas. Existem diversas pequenas mudanças.
Interpretando esse papel, você sabia dizer quando ela estava realmente ali e quando era ilusão de Nina?
Sempre que Natalie e eu estávamos na mesma cena, eu tenho quase certeza de que fizemos de todos os jeitos possíveis. Qualquer coisa que ela fizesse, eu fazia o oposto. A verdade é que por mais que tenhamos trabalhado no roteiro e por mais que tenhamos ensaiado tudo, ainda não sabíamos como tudo sera encaixado. Foi tudo tão meticuloso que eu só tentava dar meu máximo em cada tomada, e cada tomada era completamente diferente. Não houve nada contínuo.
Como foi a experência de trabalhar com Darren Aronofsky?
Trabalhar com Darren foi realmente uma das experiências mais incríveis da minha vida. Ele é um diretor brilhante. É raro encontrar alguém em que você possa confiar tanto, que te permita mergulhar no papel e sentir que existe uma rede de segurança para te proteger caso você caia. Eu sempre olhei para Darren como a rede de segurança e ele foi ótimo.
Você pode falar um pouco sobre a cena sexo? Foi sua primeira cena do tipo?
Eu fiz um filme chamado Depois do Sexo, com a Zoë Saldana, onde ela interpretava minha namorada, mas nunca tivemos uma cena de sexo. Tivemos a cena do que acontece depois que você transa, então talvez isso não conte. Então esta seria minha primeira vez.
Você e Natalie chegaram a discutir alguma coisa antes de fazer a cena, para deixar as coisas mais confortáveis?
Toda vez que se faz uma cena de sexo em um filme é um pouco desconfortável, seja do mesmo sexo ou do sexo oposto. A parte boa de tudo isso é que Natalie e eu tivemos a sorte de já sermos amigas antes da produção, o que fez as coisas ficarem bem mais fáceis. Nós não chegamos a discutir muito. Nós meio que só fizemos. Fazia sentido para a personagem. Não foi só pelo choque. Não era algo que nós precisássemos justificar em nossas mentes enquanto fazíamos. Foi aquilo. A verdade é que nós eramos amigas antes do filme, então foi tudo bem mais fácil.
Você se preocupa em ser explorada pelo cineasta numa cena assim?
Eu confio no Darren. Fazer algo assim com Darren foi tão seguro e confortável quanto algo assim pode ser. Pessoalmente, eu nunca tive medo de ser explorada.
Você já fez algum papel onde queria ser perfeita?
Eu sinto que em todo papel existe uma parte de você que obviamente sente que você é capaz daquilo. Eu não sei se perfeita é a palavra certa porque eu não acredito em perfeição. Eu não acho que isso exista. Mas eu acho que se esforçar para fazer uma coisa direito cabe em qualquer papel. A parte física deste papel foi provavelmente uma das coisas mais difíceis que eu já fiz. Quando se trata de personagens, tanto de drama, comédia, terror ou romance, é tudo o mesmo. Você quer ser honesto com o personagem e interpretá-lo verdadeiramente, e você quer ser genuíno com o personagem. A parte física desse papel foi o mais próximo que eu cheguei de um surto mental.
Você já viu a busca pela perfeição tomar conta de algum de seus colegas, quer seja artisticamente ou fisicamente?
Sim, ambos. Infelizmente, em uma indústria e em qualquer ambiente relacionado ao trabalho, mulheres sempre se esforçam para atingir um certo nível de perfeição, quer isso seja ser magra ou bonita. É uma constante em nossa sociedade. É provavelmente um pouco mais elevado na indústria em que me encontro por tudo ser uma questão de opinião. Eu posso achar alguém bonito, mas a pessoa ao meu lado pode achar que não, então as pessoas se esforçam para atingir uma certa forma de perfeição constantemente, mas eu acho impossível, pelo fato de ser uma opinião. Então, sim, eu já tive diversos amigos que foram afetados por isso.
Quão aliviada você ficou quando esse filme acabou e pôde comer o que quisesse?
Ah, meu Deus, você não tem ideia! Eu levei cinco meses para perder 10 quilos e apenas algumas horas para recuperá-los. Foi mágico. No final das filmagens, assim que eu fiz minha última cena de dança, corri pra casa aquela noite e comi uma tigela imensa de macarrão. Eu estava tão animada. Voltar à minha péssima alimentação depois de ter hábitos alimentares ótimos deixou meu estômago meio incomodado, mas depois que as filmagens terminaram de verdade a primeira coisa que eu fiz foi comer comida chinesa no aeroporto em Nova York. Aí, quando eu cheguei em Los Angeles, entrei no meu carro e passei em um Drive Through, pedi hamburger duplo com cerveja e foi fantástico. Foi isso que eu fiz. Foi muito bom.
Qual foi sua primeira reação quando viu o filme pela primeira vez?
Eu já vi o filme umas vezes. Na primeira, a montagem ainda estava muito crua e eu pensava, "Ah, esse foi o filme que fizemos". Depois, quando vi o produto final, eu fiquei encantada. Eu estava lá e me lembro de grande parte, mas eu não tinha a menor ideia de como Darren estava filmando. A câmera é uma parte muito importante do filme. Você realmente esquece que tem uma câmera ali porque é um personagem completamente diferente, então eu fiquei encantada e eu estava lá. Eu falei, "Isso ficou sensacional!"
Você se considera mais um cisne negro ou um cisne branco?
Eu acho que sou um pouco dos dois. Eu acho que todos temos um pouco de cisne negro em nós, é apenas uma questão de deixar que ele apareça ou não. Mas eu diria que eu tenho um saudável balanço entre os dois, eu espero. Eu não sou tão aventureira quanto o cisne negro, mas às vezes gostaria.
 Fonte: Omelete