sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Dossiê Rock Sergipano

ATENÇÃO: VERSÃO REVISTA E AMPLIADA – Este texto já foi publicado, de forma embrionária, em alguns fanzines e sites da internet. A versão que posto agora é revista e ampliada, portanto recomendo uma nova leitura mesmo aos que já o fizeram anteriormente, caso ainda tenham interesse pelo assunto, evidentemente. Gostaria de ressaltar, também, que trata-se de um texto “gonzo”, ou seja, se baseia, principalmente, em minhas memórias e nas memórias de gente que eu ouvi e/ou entrevistei informalmente ao longo dos anos. Em outras palavras: é a MINHA versão dos fatos, portanto não é, necessariamente, a VERDADEIRA versão (se é que ela existe). Fique livre para contestar e/ou reclamar de qualquer trecho que julgue impreciso ou que, sobre o qual, tenha uma outra visão, através do espaço de comentários deste Blog, que está aberto a todos e com a utilização facilitada, sendo permitidas, inclusive, as famigeradas postagens “anônimas”.
por Adelvan Kenobi
Capítulo 01 - A PRIMEIRA “GIG” A GENTE NUNCA ESQUECE!
Era uma tarde chuvosa. Ainda me lembro, eu e mais dois colegas, caminhando rumo à rodoviária, pegando o ônibus e desembarcando em Aracaju - para nós, itabaianenses, quase uma metrópole. Estávamos indo ao nosso primeiro show de rock “underground”. Eu com uma camiseta preta do Slayer, o máximo em agressão naqueles tempos, fim dos anos 80. O II Festcore de Aracaju iria ser realizado no CSU (Centro Social Urbano) do conjunto Agamenon Magalhães – e nós não tínhamos a mínima idéia de onde diabos ficava isso! Pegamos um ônibus, descemos na praça do Siqueira Campos, pedimos informação e fomos a pé na direção indicada. Quando já começávamos a perder a esperança de encontrar o evento, eis que surge à nossa frente a silhueta de uma aglomeração de pessoas também vestidas de preto - não havia dúvida: chegamos! Éramos totalmente desconhecidos de todos e por isso ficamos no nosso canto, tímidos, só apreciando, maravilhados, a movimentação. Não sei quanto a meus amigos, mas eu estava me sentindo a pessoa mais moderna e antenada do mundo, saindo do interior para vir a um festival punk/oi na capital.
Iriam tocar bandas de Sergipe, Alagoas e Bahia. O primeiro Festcore havia se tornado lendário, pois havia reunido pela primeira vez bandas de todo o nordeste e até do norte, o Delinqüentes, de Belém do Pará. Eu, que sou assumidamente da geração Bizz/Rock in rio, não tinha ido, na verdade acho que minha noção do que era punk na época ainda era a que me foi passada pelo Fantástico, que noticiava o surgimento de um novo comportamento agressivo nos jovens dos grandes centros que espetavam os cabelos e ouviam musica barulhenta, mas aquilo pra mim era o mesmo que ouvir falar sobre muçulmanos no Oriente médio ou comunistas na Rússia – tudo muito distante. Aos poucos, porém, comecei a me identificar com a coisa e a achar que, no fim das contas, aquele pessoal excêntrico parecia espelhar melhor o futuro – tinha por volta de 15 anos e era fã da série Mad Max. A coisa começou a ficar séria quando ouvi o Camisa de Vênus pela primeira vez no radio falando palavrões e uma pergunta se recusava a sair de minha cabeça: “E pode ? O cara acabou de dizer que viu a mulher dele, Silvia, com a mão no pau do vizinho, ta tocando no radio com minha mãe e minha irmã na sala, como pode ?” Pronto, havia sido picado e irremediavelmente contaminado: resolvi que compraria aquele disco e assim “Viva, Ao vivo”, do Camisa de Vênus, se tornou a aquisição número 1 de uma coleção que não para de crescer.
A aquisição número 2 foi “Vivendo e não aprendendo”, do Ira! Eram os tempos do estouro do rock nacional e não era tão incomum ver os jovens idolatrando os ídolos da época, como Legião Urbana, RPM e Capital Inicial. Comecei a virar um outsider mesmo quando comprei, de segunda mão, meus primeiros discos de rock “pauleira”: “Somewhere in time” e “Fly on the Wall”, os “novos” do Iron Maiden e do AC/DC. Aí virei um headbanger, só curtia som pesado. Slayer, Metallica e Megadeth eram meus heróis. Lembro que a primeira vez que ouvi Deep Purple e Black Sabbath não gostei, porque não tinham o peso ao qual eu estava acostumado. Mas talvez por morar no interior e, por isso, não ter nenhuma tribo ou grupo de amigos radicais aos quais me associar, sempre fui meio que traidor do movimento, mais aberto a outros tipos de som, e aos poucos fui assimilando o punk rock dos Sex Pistols, o pós-punk do The Smiths e, principalmente, a melancolia guitarreira do Jesus and Mary Chain com “Psychocandy”, um disco que me deixou totalmente atordoado quando ouvi pela primeira vez.
Mas do que eu gostava mesmo eram de guitarras tonitroantes, rebeldia adolescente mesmo. Levava isso como uma profissão de fé, como um “maniac street preacher” buscando a todo custo encontrar ovelhas para seu rebanho. Foi com essa intenção que fiz meu primeiro fanzine, numa época em que eu nem sabia o que era um fanzine, na verdade o que fiz foi uma espécia de “Apostilha” sobre rock que eu datilografava, colava algumas fotos, xerocava e distribuía entre os amigos. Tinha vontade de divulgar o estranho mundo que estava descobrindo e com o qual estava fascinado. A primeira edição do Napalm (era esse o nome da criança, inspirado no logotipo de uma casa noturna de São Paulo que eu havia visto como pano de fundo de um show da Legião Urbana) tinha as biografias de bandas clássicas como Led Zeppelin, Black Sabbath e Venom (que eu curtia mais para chocar), naquela linguagem adolescente de quem sabe muito pouco mas acha que sabe tudo.
A noticia de que havia um fanzine editado em Itabaiana, interior do estado, chegou aos ouvidos de quem fazia rock na capital, graças à ajuda de Passos, um agitador cultural que havia criado a primeira loja de rock independente do estado junto com um amigo, a Distúrbios Sonoros discos. A descoberta da existência dessa loja, para mim, foi como um portal se abrindo para uma nova dimensão que eu sabia existir, mas ficava fora do meu alcance. Estava andando pelo calçadão, com dinheiro no bolso e uma vontade desgraçada de investi-lo num disco de rock, mas a única novidade que as lojas “convencionais” tinham a oferecer era o novo da Plebe Rude, “Nunca fomos tão Brasileiros”, do qual eu não havia gostado (hoje gosto). Foi quando vi um cartazinho xerocado na parede divulgando uma nova loja especializada em rock underground. Meio incrédulo, me dirigi ao endereço citado e eis que me deparo com uma parede recheada com os maravilhosos vinis que eu só conhecia das páginas da Rock Brigade (minha leitura favorita na época) e na Bizz e que eu, quando podia, mandava buscar via correio na Wop Bop, de São Paulo. Inclusive o tão falado “Master of Puppets”, do Metallica, que eu havia acabado de encomendar!!!
A curiosidade e admiração pelo pioneirismo foi recíproca: passei a divulgar o máximo que pude a loja em minha cidade e o dono da mesma, Passos, me ajudou a conseguir uma boa quantidade de cópias do meu zine na repartição da prefeitura onde ele trabalhava. Pude divulgar melhor o Napalm e o retorno foi aparecendo. Consegui aglutinar um grupo de simpatizantes e comecei a receber correspondências do vocalista de uma das primeiras bandas realmente punk de Aracaju, a Karne Krua. Nessa época a figura de Sylvio já era meio lendária, ele era tido como uma espécie de “líder” dos anarquistas (título que ele repudiava com vigor), pois na época a campanha por eles deflagrada em favor do voto nulo chamava a atenção da imprensa. Suas cartas vinham recheadas de panfletos e fanzines punk/anarquistas que me influenciaram bastante na época, cheguei até a dedicar uma edição do meu zine/apostilha à reprodução daqueles textos, o que decepcionou um pouco meus leitores, que estavam mais interessados em diversão pura e simples, mesmo. E foi assim que eu soube que seria realizado o II Festcore, arrumei alguns bravos companheiros para a empreitada e lá estávamos nós, no meio dos punks, carecas e alguns góticos.
Já havia notado que minha camiseta do Slayer estava destoando um pouco do figurino, (haviam primitivas rixas entre punks e bangers, lembram disso? Não consigo pensar em nada mais ultrapassado.) por isso vesti-a novamente do avesso. O clima estava meio tenso mas eu pretendia sair ileso do meu primeiro “walk on the wild side”. Fiquei mais aliviado quando vi um carinha com uma camiseta do Metallica (ainda lembro dela, branca, com uma foto do James Hetfield dos bons tempos berrando com flagrante fúria adolescente). Na época não sabia, mas o nome do figura era Marlio e ele era baixista do Karne Krua. Havia feito questão de ir com aquela camiseta para provocar os caras da banda Jesus Bastardus, de Salvador, que tinham letras falando mal dos headbangers, dentre os quais Marlio tinha muitos amigos.
Naquele tempo, e por muito tempo depois, há de se frisar, show de rock era coisa, basicamente, para homens, eram muito poucas as mulheres que se faziam presentes naquelas baladas pra lá de underground, e algumas delas apareceram no Fest Core, deliciosamente mal trajadas (tava na moda usar blusa aberta com sutiã de renda à mostra), o que completou a festa para meus hormônios adolescentes: show punk, som no talo, clima tenso, garotas seminuas: a noite prometia!
A zoeira começou e as bandas iam se sucedendo naquele velho espírito “do it yourself” que na época era absolutamente novo para mim: os carinhas que estavam pogando no show de uma banda de repente subiam no palco, empunhavam os mesmos instrumentos e começavam a tocar. Jesus Bastardus realmente berrou gatos e cachorros contra os bangers, o que me deixou meio assustado, mas a hora de maior tensão mesmo foi quando estava se apresentando a “Bandeira de Combate”, uma lendária banda skin/oi de Salvador – a policia invadiu o recinto de armas em punho e rolou uma revista, mulheres para um lado, homens pro outro, mas felizmente nada comprometedor foi encontrado e o show pôde continuar. Tocaram ainda Leprozario de Maceió, Azilo Militar, uma banda de Alagoinhas, interior da Bahia, que tinha como peculiaridade um baixista, Jr., filiado e militante de PT, fato raro até hoje nas hostes punk, dominadas pela ideologia anarquista, e as sergipanas Forcas Armadas, Logorreia (banda paralela de Sylvio, acho q foi meu primeiro contato com algo parecido com o grind core, uma barulheira infernal ) e a Karne Krua. Karne Krua foi a que mais me impressionou, pois eu era fã do Cólera e Inocentes a Karne era do mesmo nível, senão melhor.
A noite acabou sem problemas e nós voltamos a pé para a rodoviária, não sem antes presenciar a imagem dantesca de um mendigo velhinho ensangüentado depois de ter sido agredido por vândalos (pra quem pensa que violência urbana é exclusividade dos dias atuais). Na rodoviária encontramos os caras de Alagoinhas e pudemos trocar algumas impressões “interioranas” sobre o evento, que eu sabia que seria um marco em minha vida: de alguma forma era o que eu queria para mim e iria encontrar um meio de me envolver com aquilo. Não deu outra: O terceiro Festcore (de um total de 5 edições) eu ajudei a organizar junto com Sylvio e uma garota que hoje é militante da Igreja Universal do Reino de Deus e marcou a estréia do Câmbio Negro HC, de Recife, em terras sergipanas.
Capítulo 02 – OS ANOS 80
Contrariando todas as probabilidades, Aracaju teve uma movimentação cultural “rocker” efervescente e, na medida do possível, antenada com o mundo, nos anos 80. Não podemos esquecer que os tempos eram outros: estávamos saindo de uma ditadura militar que durou duas décadas e a revolução das comunicações que conhecemos hoje em dia ainda estava engatinhando. Além disso, o país era mais fechado ao comercio exterior, o que significava acesso mais difícil a bens de consumo importados, dentre eles, o que nos interessa: Discos! Só mesmo os punks de Brasília, a maioria filhos ou amigos de filhos de diplomatas, para ter discos do Bauhaus no início daquela década. Não existia MTV no Brasil (muito menos em Aracaju, que ainda hoje não tem, pelo menos em sinal aberto) e, portanto, conseguir um vídeo, mesmo que em péssima qualidade, onde a gente pudesse ver nossos heróis se movimentando era motivo de comemoração! Como a dificuldade é a mãe da improvisação, os “rockers” arranjavam-se com guitarras Gianini, caixas Ciclotron e Baterias Caramuru com pratos de lata sustentados por cabos de vassoura.
Mesmo com todas estas dificuldades, aos poucos, foi se formando uma cena onde jovens procuravam espantar o tédio de viver numa cidade provinciana (“longe demais das capitais”) montando, na marra, bandas underground que nem sempre eram punks na musica, mas quase sempre o eram na atitude (porque não poderia ser diferente). E aos poucos as tribos foram se definindo: Haviam os góticos (também chamados de Dark), por exemplo: adoradores da poesia de Edgar Allan Poe e de bandas como Sisters of Mercy e Siouxsie and the Banshees. Eram os tempos do pós punk e da New Wave, rótulos criados para acomodar grupos que tinham o espírito do punk mas que procuravam caminhos artísticos alternativos. A banda de Aracaju que mais se destacou nessa linha foi o CROVE HORRORSHOW, capitaneada por Eduardo (guitarra/vocal), egresso do PERIGO DE VIDA. Seu nome foi retirado de uma gíria usada no livro/filme “A Laranja Mecânica”. Faziam um som bastante inspirado no pós punk de Brasília, especialmente no Capital Inicial, que despontava para o estrelato na época, e tinham um apelo pop considerável. Por conta disso, composições próprias como “Sem grana” eram espécies de “hits” no underground e ainda hoje são lembradas não apenas por quem os conheceu em inicio de carreira, que durou até meados da metade dos anos 90 (com uma nova retomada nos anos 2000), como também por quem os acompanhou já em sua segunda fase, na década de 90 (a musica era sempre pedida nos shows).
Haviam bandas como ALICE, que contava com Wilton nos vocais, Marcos Odara na bateria e Luiz Eduardo no baixo e fazia um som mais antenado com o que rolava na Inglaterra , LULU VIÇOSA, um rock and roll de maluco metido a poeta, e FOME AFRICANA, do legendário agitador cultural Vicente “Coda”. Vicente era uma figura importante para o movimento porque era o único que tinha a coragem de fazer “rockadas” (como eram chamadas as festas de rock and roll movidas a som mecânico na época), pequenos shows e até um festival (??!!) em sua própria casa, à revelia dos pais, evidentemente. O Festival ficou na memória de quem foi (até hoje soaria incomum você sair de casa dizendo que vai a um festival de bandas de rock na casa de um amigo) e contou com apresentações do CROVE HORRORSHOW, H2O, ALICE, THE MERDAS, FOME AFRICANA e KARNE KRUA.
Vicente começou tocando em bandas punk, mas aos poucos foi diversificando seu aspecto sonoro, o que resultou na Fome Africana, que tinha um som mais solto, até suingado, influenciado por Talking Heads e Blondie. Sua guinada “pop” desagradou proto-punks da época como Roberto Aquino, sócio da Loja Distúrbios Sonoros. Certa noite, num show, o mesmo foi perseguido por vários quarteirões por um Vicente furioso ainda de guitarra na mão, depois de ter ficado a noite inteira pedindo “Cólega! Gagotos Podres! “Gatos de Pogão, “caga”(ele tinha a língua presa). Além de sócio de Passos na loja, Roberto Aquino comandava o programa “ROCK REVOLUTION”, na Atalaia FM. Esse programa ia ao ar uma vez por semana e foi muito importante para a formação de vários “roqueiros” do estado, inclusive eu, que até a metade dos anos 90 ainda tinha algumas fitas gravadas de sua programação. Era o único espaço alternativo no dial da época, onde você poderia ouvir coisas como Mutantes, Harry, Akira S, The Jesus and Mary Chain e bandas locais, como a Alice.
Passos, por sua vez, além de ser um dos primeiros “empresários” do underground, montava bandas, como a PASSOS BLUES BAND, um grupo, evidentemente, com uma sonoridade calcada no blues que tinha entre seus integrantes Sena, da famosa dupla regionalista Sena e Sergival, e PATOS E CAÍPES, que tinha uma garota, Gabriela, no vocal, e fazia aquela linha pop/poética pós-punk tão em voga na década de 80. Passos e Gabriela também tocaram na FOME AFRICANA de Vicente Coda, ela como vocalista e ele no violino (sempre inovador, esse Vicente). A Fome, com essa formação, chegou a se apresentar em Salvador em duas noites concorridas que Passos lembra como “as noites em que eles foram tratados como rockstars”.
No “front” do metal se destacavam PERIGO DE VIDA, TREM FANTASMA (que contava em sua formação com o guitarrista Marcos Vinicius) e GUILHOTINA, cujo maior “hit” dizia que “Cabeças vão rolar ao som do Guilhotina”. Por essa banda passaram alguns “ícones”do metal sergipano, como Augusto César, brilhante artista plástico, que fez vocal num show da banda no Auditório Lourival Baptista. Na verdade a Guilhotina causava furor entre as hordas “headbangers”, porque era a única que mantinha uma rotina mais ou menos constante de apresentações, e devidamente caracterizadas, com caveiras, velas pretas e todo o aparato “indispensável” num show de metal. As composições próprias eram poucas, mas eram compensadas por antológicas versões da clássicos do cancioneiro “metaleiro”, como “eletric eye”do Judas Priest cuja letra, “adaptada” pela PERIGO DE VIDA, falava de uma dor de dente que insistia em atormentar o vocalista. Há ainda o registro de um “projeto”de banda chamado MASSACRE, com Sardinha (irmão de Sardão), Wilson Porrada e Guilhermano (que tinha o costume bizarro de andar o tempo inteiro com um crânio na mão). Chegaram a marcar um show de estréia no bar Scooby Doo, próximo à Barão de Maruim, mas a imperícia dos “músicos”com os instrumentos impediu a apresentação e eles acabaram desistindo. Não sem antes executar, pela primeira vez para o publico sergipano, uma fita k7 do Metallica, uma banda nova que despontava no cenário e que praticamente ninguém por aqui tinha ouvido ainda. Na verdade, apesar da quantidade incipiente de bandas, havia um numero razoável de cultuadores do metal na cidade, como podem atestar as “tretas” com os punks durante o Festcore. César, artista plástico, lembra que no dia seguinte ao II Festcore (eles haviam ido até o local do evento, mas desistiram diante das provocações, para evitar problemas com os organizadores do show, que eram seus amigos) eles chegaram a encontrar um dos que estavam gritando “pau no cu dos headbangers” na noite anterior. Pararam o cara e exigiram que ele enfiasse seu pau no cu deles naquele momento, como o sujeito se recusou, alegando que era “brincadeira”, levou uma madeira de leve no lombo. Bons tempos que não voltam mais ...
A diversidade de influências é sempre bem vinda na arte, porque gera uma maior riqueza de texturas e de idéias. Com efeito, fórmulas imutáveis tendem a gerar um certo cansaço, mas, por outro lado, fortalecem um sentimento de união entre seus seguidores que é difícil de encontrar entre aqueles que têm a mente mais aberta à experimentação. E união é uma coisa importante num cenário adverso como era o do rock sergipano nos anos 80. É inegável, portanto, que o segmento que tinha maior força, era mais atuante e, de certa forma, “segurava” o movimento era o da musica punk/hardcore. A galera do metal também era unida, mas como mencionei acima, tinha poucas bandas - talvez porque o Heavy metal exija uma técnica mais apurada e, em conseqüência, uma melhor aparelhagem, o que era bem mais difícil de se conseguir na época. E assim, Aracaju foi desenvolvendo uma cena punk forte, capitaneada pela figura de Sylvio “Suburbano” e originada, principalmente, no Conjunto Bugio.
Sylvio era a imagem acabada do “roqueiro brasileiro” (inclusive na “cara de bandido”, como dizia Rita Lee). Militava no underground desde o inicio da década, quando montou bandas como VENENO DE COBRA (que inclusive tocou na casa de Vicente) e THE MERDA’S, que contava, na bateria, com o hoje ilustre recifense DJ Dolores, na época Elder “Podre” e, segundo consta, péssimo baterista. Elder foi bastante ativo na cena local antes de se mudar para o Recife, onde tornou-se um designer gráfico respeitável e esteve presente na criação do movimento “mangue beat”. É dele a capa do histórico primeiro disco de Chico Science, “Da lama ao caos”. Como exemplo de seu passado punk, sinta o drama da letra de uma das musicas do THE MERDA’S, “Paranóia”: “Tarde de domingo, paranóia no ar/ soco na TV que não tem nada pra mostrar” (isso porque na época ainda não haviam os maravilhosos programas do Faustão e do Gugu para assistir). Depois Sylvio criou o SEM FREIO NA LÍNGUA, que se auto-definia como “punk and roll”e foi o embrião da KARNE KRUA, que segue na ativa até hoje.
“Sem Freio” era Sylvio no vocal, Almada na bateria, Apache no baixo e Sardão (depois Alice) na guitarra. Não durou muito, já que os dois últimos integrantes pularam fora. Sylvio e Almada fundaram, então, a Karne Krua, com Marcelo no baixo e Vicente “Coda” na guitarra. Marcelo tentava tocar um projeto mais voltado para o oi! Chamado Zaloq 16, fazendo baixo e vocal acompanhado por Cesar na guitarra e Almada na bateria. O grupo, cujo nome era inspirado em um bairro periférico da cidade, na verdade um povoado chamado “Aloc”, não progrediu. Mais tarde Vicente sai da Karne, em nome da “liberdade artística”, Marcelo passa para a guitarra e Marlio, um amigo salvo pelo rock do mundo das drogas e da delinqüência juvenil, assume o baixo. Era a formação mais clássica, que durou até o inicio dos anos 90, separou-se, voltou e gravou o primeiro disco da banda, ainda em vinil. A principal herança do Sem Freio para a Karne foi a musica “Coletivos Malditos”, bastante pedida nos shows até hoje.
Karne Krua assumia sem problemas o rótulo de punk e anarquista e foi uma das primeiras do estilo no norte/nordeste. A esta altura do campeonato Sylvio já estava envolvido até o pescoço com o movimento e tinha contatos por todo o Brasil através do seu pioneiro zine “BURACAJU”, cuja primeira edição data de 1986. O Buracaju era apenas um dos muitos que circulavam na época, com destaque para o CENTAURO SEM CABEÇA, publicado pelo falecido poeta e capoeirista Nagir Macaô, também anarquista, porém sem vínculos diretos com o rock, o SEDUÇÕES ECOLÓGICAS e o CLUBE DO ÓDIO, primeiramente editado por Élder “Podre” e depois por Eduardo do Crove.
A vontade de ver as coisas acontecerem fez com que a Karne Krua começasse a se apresentar em todo e qualquer espaço que lhes fosse aberto, apenas para passar sua mensagem de protesto. Ficaram na história as apresentações no auditório da Escola Técnica, no DCE da Praça Camerino, na inauguração da Concha Acústica do Bairro América, em frente à igreja dos Capuchinhos, na Associação Atlética de Sergipe, no Conjunto JK e numa manifestação em favor da Greve Geral organizada pela CUT, onde deixaram claro que votavam nulo e achavam que o então presidente José Sarney era um filho da puta, o que criou um clima tenso com a policia – consta, inclusive, que só saíram a salvo do palco/palanque graças à intervenção de membros do PT e da CUT que organizavam o evento, dentre eles o hoje governador do Estado Marcelo Déda. Por falar em clima tenso com a polícia, os punks, que andavam com visual carregado (moicano, coturno e gandola). eram constantemente seguidos por viaturas e camburões. Bem diferente de hoje, quando esse tipo de roupa é vendida em shopping centers e usada por jovens que acham que Sid Vicious é uma marca de perfume e que o punk foi inventado pelo Green Day.
Os shows eram eventos esperadíssimos na época, porque eram raros e dificílimos de se realizar. Mas haviam alguns poucos espaços que abriam seus palcos para as bandas de rock. Além dos já citados, haviam os bares do chamado “Baixo Barão”, na Avenida Barão de Maruim, onde a KARNE KRUA, FOME AFRICANA E CROVE HORRORSHOW tocaram uma vez com um microfone pendurado num barbante amarrado no teto, pois não havia pedestal disponível, e um “Barracão Cultural” no centro, na Rua de laranjeiras, onde depois, por um bom tempo, funcionou a sede do jornal Cinform. Quando não havia espaço, improvisavam-se shows na calçada, fechando ruas, ou em praça publica. Nesse esquema ficaram célebres os festivais “CLANDESTINO”, organizados em mutirão pelas bandas punks que começavam a aparecer, influenciadas pela Karne Krua. O primeiro aconteceu na Praça Camerino, com Karne Krua, Logorréia, Leprozário (de Maceió) e CONDENADOS, banda de Jall Chaves, editor do zine BRIGADA DE RESGATE, e na qual tocavam Valdeleno e Fabio, depois baterista e guitarrista da Karne, respectivamente. O II Clandestino rolou na Praça principal do Siqueira Campos e teve Asilo Militar, de Alagoinhas (BA), outra “lenda morta” do punk nordestino.
CONDENADOS causou polêmica na época porque, num determinado momento, aceitou em suas fileiras dois integrantes “carecas”, Val e Cacau. Sim, haviam carecas em Aracaju, inclusive um negro, veja só, e haviam rixas entre os punks e carecas, essas, sim, bem mais justificáveis! Circulava pela cidade um exemplar do deplorável livro revisionista “Holocausto: Judeu ou Alemão”, de autoria do fundador do Partido Nacional Socialista Brasileiro, Zanine, e publicado por uma obscura editora gaúcha apropriadamente chamada “Revisão”. Era uma lamentável seqüência de mentiras e meias verdades que enganou muita gente, inclusive o skinhead negro a que me referi, pois foi ele quem me apresentou o livro, quando eu cursava a Faculdade de Historia. Marcelo, guitarrista da Karne Krua, envolveu-se em varias “tretas” célebres com os “skins”, chegando inclusive a lustrar a careca de um deles com a bunda (segundo o testemunho de presentes). Uma dessas “tretas” aconteceu em frente ao Palácio do Governo, onde os Carecas (que eram poucos, muito poucos) ficavam para verificar se o Pavilhão Nacional estava sendo corretamente descerrado ao fim da tarde, em posição de sentido, pela Guarda. Um dia Marcelo estava passando pelo local e foi intimado pela carecada, que, neste dia em especial, estava em numero maior. Ele não hesitou: arrancou uma viga de uma obra que estava sendo feita na praça e partiu para cima dos nazis, que foram salvos de uma surra pela Policia. Marcelo Gaspar, também conhecido como “inseto”, era recém-chegado de São Paulo, onde chegou a participar do movimento ‘skinhead”, mas não como nazista (nem todos o eram). Esteve presente nos primeiros anos do movimento punk, chegou inclusive a assistir alguns dos memoráveis shows do teatro Lira Paulistana.
Outra banda que marcou a época foi a MANICOMIO, cuja mais célebre formação tinha Fabio Gordinho na guitarra, Roberio (depois Logorréia) no vocal, Moacir (depois peixe fora dagua da Mucous Secretion) no baixo e Robson na bateria. Esse ultimo membro, em especial, fez jus ao nome da banda após seu fim, pois saiu “da” Manicômio para “o” manicômio. Pirou. Foi visto pela ultima vez no mundo “roqueiro” na metade dos anos 90, quando freqüentou alguns shows sempre usando uma máscara anti-gas. Nessa época ele insistia num projeto de alugar uma carreta, colocar as bandas em cima e sair circulando pela cidade, num evento “itinerante”. Até o início dos anos 90 ainda se podiam ver pessoas com a camisetas da manicômio que tinham estampadas a brilhante frase “Os loucos são livres, por isso estão presos”.
FORCAS ARMADAS (que contou com Passos em uma de suas formações) foi outra banda polêmica que apareceu e sumiu sem deixar rastros de uma hora para outra, mas que conseguiu seu lugar na história ao se apresentar em festivais importantes como o II Festcore e o Clandestino. Seu vocalista era vizinho e amigo de Val, o careca, por isso não era bem visto entre os punks. Desconfiança que se mostrou justificada por outros fatores, pois logo ele abandonou o hardcore e montou uma banda horrível chamada “COLORED FUNK” que chegou a fazer alguns shows mas, graças aos diabos, não emplacou.
O I FESTCORE DE ARACAJU foi o mais célebre evento da época e serviu para colocar definitivamente a cidade no mapa do cenário HC/Punk Brasileiro. Organizado por Sylvio e pelos caras da Karne Krua, contou com uma estrutura surpreendente em certos aspectos, pois conseguiram os vestiários do Batistão (principal estádio de futebol do estado) para alojar as bandas, que vieram de todo o Nordeste e também do norte, caso da Delinqüentes, de Belém do Pará. As bandas chegavam na cidade no velho esquema “ônibus, rodoviaria, casa de alguém, local do show”. Na maioria das vezes a pé - quem sabe a distancia da Rodoviária “nova” para o Batistão sabe do que eu estou falando. Tocaram naquela noite, no Vikings Bar, na praia de Atalaia, além do Delinqüentes e Karne Krua, Dever de Classe, legendária banda baiana, Repressão X, de Fortaleza, e Devastação, de Natal. O detalhe pitoresco era que estava acontecendo uma festa de casamento num espaço anexo ao bar e consta que, no momento em que a Devastação executou sua singela canção “Punheta”, cuja letra dizia: “Pra que mulher, se eu tenho a mão?”, a noiva saiu aos prantos e desistiu de comemorar sua data maior. Mais punk impossível. O “Day after” também foi bem punk pois, como era de se esperar, o evento não gerou lucro nenhum e alguns componentes das bandas, entre eles Jayme “Catarro”, do Delinqüentes, tiveram que passar um bom tempo na cidade até que arranjassem a grana necessária para voltar para suas casas. “Perrengues” à parte isso demonstra, por outro lado, que o sentido de cooperação e a força de vontade para que as coisas acontecessem naqueles árduos tempos era bastante forte.
Capítulo 03 – Enquanto isso, em Seattle ...
Na virada da década de 80 para a de 90 a cena rock de Aracaju encontrava-se tomada por bandas de Hardcore, a maioria delas provavelmente influenciadas pela Karne Krua, mas muitas seguindo seu próprio caminho. Começou a formar-se um movimento punk relativamente forte (na medida do possível, claro!), com um bom numero de fanzines e bandas. O metal, por outro lado, reagia e começava a se fortalecer, capitaneado principalmente pela figura de Vicente Mateus, o “Bruxo”, um brasiliense radicado na cidade. Ele era bastante conhecido nos círculos “metálicos” de todo o país, pois era também fanzineiro e mantinha contatos Brasil afora. Influenciou muita gente por aqui ao montar a DEUTERONÔMIO, primeira formação “Death metal” (ou algo parecido) do estado, cuja cena era dominada por bandas como ABISMO OCULTO, de Soneca, que tinham um trabalho calcado principalmente em covers.
Deuteronômio contava com o agitador cultural Carlinhos “Verruga” na bateria e com o guitarrista Natchay. Seu som era porrada como poucas vezes se ouvia na época (a não ser nas bandas de grind/noise, que nós vamos comentar adiante), uma massaroca sonora ensurdecedora por cima da qual Bruxo colocava um vocal desesperado em “hits” como “Kelly, a prostituta” - por sinal a única palavra que eu consegui decifrar da fita demo que eu ouvi na época, e olha que as letras eram em português. A banda com Bruxo, no entanto, teve vida curta, pois o mesmo veio a falecer, afogado, no mar. Para que se tenha uma idéia de como ele era conhecido e querido, quando fui apresentado a Ronan, então vocalista do PUS, em Brasília, ao saber que eu era de Aracaju, a primeira coisa que ele me perguntou foi por Bruxo, e eu acabei sendo a pessoa que deu a ele a noticia de sua morte. Continuaram mesmo depois da morte de seu principal mentor e divulgador, sempre com Natchay na guitarra e Verruga na bateria, e com as demais funções (baixo e vocal) se revezando entre muitos amigos, dentre os quais um indivíduo auto-denominado “Antichrist” – na verdade um anticristo fajuto, como deduzi depois de uma conversa com ele em que o mesmo me disse que achava Jesus um cara legal que foi sacaneado pelos judeus e pelo Império Romano - e por seu irmão, Manoel. Os dois teriam uma participação ativa na cena metal da época. Manoel, inclusive, deu o pontapé inicial da cena grind com uma matriz mais metal ao fundar a banda ANAL PUTREFACTION, dedicada ao “splatter death metal” tão em voga naqueles tempos por conta, principalmente, do lançamento no Brasil do seminal disco “Reek of putrefaction”, do Carcass.
Mas o que que dominava o cenário era mesmo o punk/hardcore. A maioria das bandas dos anos 80, como de praxe, já havia encerrado suas atividades, mas a Karne Krua continuava ativa e uma nova geração começava a surgir e a se unir a membros remanescentes destas outras bandas para montar novos grupos. Dentre os que mais se destacavam estava a CLEPTOMANIA, cujo nome derivava de uma estranha compulsão que algumas pessoas têm para roubar - compulsão essa explicada na letra da musica que levava o nome da banda, “sofremos de cleptomania, roubamos do estado porque ele rouba de nós”. Foram inclusive “astros” de um programa global da época, o “Programa Legal”, com Regina Casé e Luis Fernando Guimarães. Nessa edição eles comentariam, humoristicamente, é claro, as bandas de rock do nordeste, e Aracaju foi escolhida pelo inusitado fato de ser uma das menores capitais do país e mesmo assim ter uma razoável concentração de bandas “underground”. A Karne Krua chegou a ser contatada pela equipe da TV Sergipe (afiliada local da Rede Globo) mas se recusou a aparecer, receosa de ser exposta ao ridículo. Cleptomania se expôs e, até certo ponto, se deu bem, já que o objetivo do programa não era exatamente o de ridicularizar ninguém, a meu ver. Chegaram inclusive a gravar um pequeno videoclipe onde eles apareciam tocando “Asa Branca” de Luis Gonzaga tendo como locação um terreno baldio na periferia da cidade. Resultado: ficaram conhecidos nacionalmente, ao lado da ANAL PUTREFACTION, que apareceu se apresentando ao vivo na antiga concha acústica da praça Tobias Barreto, ao lado da feirinha, para um publico ensandecido e radicalmente underground. Estão vivas na minha memória as imagens de caras com as quais eu convivia diariamente de repente invadindo a tela da poderosa TV Globo e apresentado a galera às câmeras: “Aquele ali é punk, aquel é grind, aquele é metal, são as tribos unidas de Aracaju”. Dentre eles ficou célebre a figura do tal suposto Anticristo, arrotando radicalismo ao dizer que “Sepultura e Ratos de Porão não tão com nada” (alguns anos depois ele seria visto organizando a fila de autógrafos que o RDP estava dando no Shopping Riomar quando estiveram por aqui).

A praça Tobias Barreto era o “point” da época, não apenas dos “roqueiros”, mas da juventude da cidade em geral, por causa da feirinha de artesanato que era o atrativo para as paqueras naqueles tempos pré-shopping center. Os rockers podiam ser vistos reunidos em tribos, punks de um lado, headbangers (nunca “metaleiros”) de outro e, numa determinda época, carecas. Algumas brigas aconteciam. Numa delas, Carlinhos “Verruga” teve que ser socorrido no pronto socorro depois de tomar uma facada de um careca.

Para comprar discos, o melhor lugar era o saudoso CINE FOTO WALMIR, uma loja de materiais fotográficos situada na Praça Teópfilo Dantas que também vendia discos e tinha um acervo fantástico. Lá você poderia encontrar praticamente tudo o que era lançado em termos de rock no Brasil. Muitos de meus vinis que resistem até hoje ao tempo têm o selo dessa loja, como “Nevermind the bollocks” do Sex Pistols, vários do PIL que comprei em promoção quando a mesma estava queimando estoque para fechar, Slayer, Iron Maiden, Jesus & Mary Chain, The Smiths, etc. Mas o verdadeiro “point” underground da galera era a LOKAOS, a loja de Sylvio da Karne Krua que sucedeu a Distúrbios Sonoros como ponto de encontro para ouvir e comprar discos independentes, dessa vez mais direcionado para o rock pesado, como não poderia deixar de ser. Na verdade Sylvio já tinha a idéia de montar uma loja especializada antes mesmo de surgir a Distúrbios Sonoros, e concretizou-a ainda com a Distúrbios em atividade. A loja de Passos e Roberto ficava nessa época na Travessa Deusdeth Fontes, entre o calçadão da João Pessoa e a Rua de Laranjeiras, e a loja de Silvio, quando abriu, ficava na rua de Riachão, no bairro Cirurgia, próximo ao hospital. Era relativamente longe do centro, mas era onde os punks e bangers se sentiam mais à vontade. Lembro-me que saí algumas vezes de Itabaiana, quando ainda morava lá, exclusivamente para comprar discos na LOKAOS. Uma vez fui lá com o dinheiro contado para comprar o LP “Schizophrenia”, do Sepultura, mas não resisti e adquiri também o “Dirty and Agressive”, do RDP. Fiquei sem dinheiro para a passagem até a rodoviária e fui salvo da caminhada pelo Bairro América a pé pelo balconista da época, o lendário “Pino”, que me emprestou uns passes.
Depois a Distúrbios Sonoros fechou e Sylvio comprou o estoque e o ponto deles, passando a funcionar na Travessa. Foram bons tempos. A localização era bem melhor e havia um bar em frente à loja que era freqüentada por todos os malucos da cidade, especialmente aos sábados. Mas veio a crise (como sempre) e o “Suburbano” teve que fechar a loja, para reabri-la alguns anos depois, já no inicio dos 90, no Edifício Casarão do Parque, aquele prédio condenado que até hoje está lá, em ruínas, numa das esquinas do Parque Teófilo Dantas. Nessa época o “pico” tinha uma aparência pra lá de underground devido, principalmente, à estrutura precária do edifício. Lembro-me que havia perdido o contato com a galera “rocker” quando entrei na universidade, mas depois de um tempo fiquei sabendo que a Lokaos havia reaberto e fui lá conferir. Fiquei meio cabreiro quando adentrei o recinto pela primeira vez: parecia uma caverna primitiva entocada no fim do mundo, mas com o tempo fui ficando a vontade e a partir daí passei a ser um dos freqüentadores mais assíduos da loja, que sempre ficava próxima a Marcos Tattoo, o que dava um clima ainda mais alternativo ao ambiente. Por fim, ambos, Marcos Tattoo e a Lokaos (não era combinado, era coincidência) mudaram para a Galeria Lima, na altura do numero 59 da rua de Santo Amaro, onde ficaram por um bom tempo (aproximadamente 6 anos). Na verdade eu era um cliente tão assíduo que acabei comprando a loja inteira, quando essa ameaçou fechar novamente, em 1995.
Mas voltando às bandas punk da época: Havia a LECKTOSPINOISE, que fazia um hardcore visceral ao estilo do RDP das antigas, e tinha como hit (tradição) um som (não se falava “musica”) que fazia uma pergunta pertinente: “A policia foi feita pra nos proteger, mas quem nos protege da policia?”. Logorréia, a banda paralela de Sylvio, continuava sua trajetória com uma formação enxuta e diferente, já que o baterista Cebola fazia também os vocais. E haviam também várias outras bandas extremamente barulhentas e sem técnica, auto-intituladas “noise “ (como um rótulo), que atendiam por nomes como LIPOFRENIA (onde tocavam Cícero Mago e Lelinho, depois ETC), REVOLTA SUBURBANA (com o Mago e Ailton “Casca Grossa”), AIDS (de Nenga, já falecido), RETIRANTES (de onde saiu Jamson Amostra Grátis, hoje na Words Guerrilla), GANGRENA SOCIAL (Cabelo, que depois montaria milhares de outras bandas, Nininho e, novamente, o Mago), OLHO POR OLHO (voltou à atividade no século XXI), ALUCINOISE ALUCINÓGENA e REFUGO (depois REFUGO DE BELSEN, de onde saiu Jamson Madureira, do Camboja), dentre outras.
Houve inclusive a tentativa de montagem de uma banda feminina, as SUBSUBURBANAS, capitaneada pelas irmãs Ivania e Irani, bastante ativas no “movimento” da época. Elas recrutaram para o baixo uma carioca que estava mais pra fã do Engenheiros do Hawaii que qualquer outra coisa e para a guitarra uma garotinha extremamente cool e novinha que até que enganava legal nas seis cordas, mas que deixava claro que curtia de verdade mesmo o metal, tanto que foi uma das fundadoras do Anal Putrefaction. Vi alguns ensaios delas – ensaios que pareciam mais gigs, com muita gente pogando, completamente embriagado de conhaque. Lembro que um dia caí por cima de Fúria, um “filosofo marginal” local, e fui surpreendido por seus gritos de “olha os ratos, olha os ratos”, ou seja, quase esmaguei os hamsters que ele trazia por dentro da gandola. Acabamos cultivando uma amizade que dura até hoje.
A expectativa pelo primeiro show das Subsuburbanas foi grande, mas a banda definhou antes de se apresentar ao vivo. Ficaram as lembranças da baterista, alegando o calor, tocando apenas de sutiã (cara, como eu me senti moderno, novaiorquino, nesse dia!) enquanto a vocalista berrava uma musica que ela dizia ser dos Delinqüentes e que dizia mais ou menos assim: “Da burguesinha, eu como a xana, da burguesinha, eu amasso os peitos, da burguesinha, eu como o cu, sem camisinha !!!!”. Bastante apropriado para uma banda de meninas, não acham ? A letra ficou em minha memória porque me parece que era a única musica que elas conseguiam tocar até o fim.
Enquanto isso, em Seattle, outras bandas eram formadas e, respeitadas as diferenças entre realidades diametralmente opostas, faziam exatamente as mesmas coisas, sem saber que estavam gestando as sementes de uma nova revolução comportamental na história do rock ...
Capítulo 04 – ANOS 90
O “grunge” não teve nenhum representante direto em Aracaju: nenhuma banda, que eu tivesse tomado conhecimento, assumiu para si o rótulo. Foi, no entanto, bastante influente. A Crove Horrorshow, por exemplo, voltou depois de um longo tempo parada carregando no peso das guitarras, assumidamente influenciada pela onda de Seattle (é mais ou menos desta época a segunda demo-tape da banda, “catedral”, com Gutierre substituindo Messinho no baixo). Paradoxalmente, o chamado “funk metal”, um fenômeno também típico dos anos 90 mas não tão influente quanto o grunge, a exemplo do que aconteceu em Maceió, com a Living In the shit, teve reflexos mais marcantes: as bandas de Hard core foram aos poucos incorporando levadas mais “suingadas” ao seu som e surgiu pelo menos um grupo especificamente dedicado ao estilo, O EXPLICIT SEX. Eram, no entanto, “um estranho no ninho”, já que o que predominava mesmo ainda era a velha dicotomia Metal x Hard Core, como veremos a seguir ...
4.1 – Punk rock Hard Core sabe onde é que faz ...
A Karne Krua tem uma qualidade rara nos dias de hoje: a perseverança. A saga da banda continuou anos 90 adentro, virando sua primeira década e o que é mais impressionante: sem nunca parar! Depois de centenas de fitas demo distribuídas incansavelmente via correio por todo o Brasil, já estava na hora deles terem um registro sonoro decente, de preferência no bom e velho (nem tão velho, na época) vinil. Na verdade eles já haviam tido essa oportunidade quando foram convidados a participar de uma coletênea chamada ‘Ronda Alternativa”, lançada por um programa de Rádio de São Paulo e que contava com ícones do cancioneiro underground de todo o país, mas por uma série de motivos, não entraram. O baterista Almada, por sinal, destilava um impressionante radicalismo que o fez publicar uma matéria certa feita no zine Buracaju criticando as bandas que lançavam discos em vinil, acusando-as de se vender ao sistema ao abandonarem o esquema das fitas-demo, já que as bolachinhas negras eram fabricadas por multinacionais (e as fitas k7, não?). Talvez tenha sido esse um dos motivos pelo qual a Karne Krua tenha se empenhado na participação de uma coletânea apenas quando passou pela sua maior e mais traumática mudança de formação, quando saíram o guitarrista Marcelo e o batera Tony, entrando em seus respectivos lugares Fabio e Valdeleno. Uniram-se a alguns ícones do underground nordestino, como Devotos do Ódio, de Pernambuco, e Discarga Violenta, de Natal, mais o Delinqüentes, de Belém do Pará, e lançaram o projeto “Cooperativa do Caos”, com o objetivo de viabilizar uma coletânea 100% independente, como o próprio nome sugere. O disco foi aguardado por muito tempo, mas não saiu: algumas bandas furaram o acordo e acabou seguindo cada um seu caminho. A Discarga lançou sua parte das gravações (todas feitas em Recife) em forma de compacto, o hoje “clássico” “COSMOPOLITA”, e a Karne lançou uma de suas mais badaladas demo-tapes, “SUICÍDIO”. E seguiu tocando onde desse, em Aracaju e nas cidades vizinhas. Tocaram em Maceió e em Recife, este último num show histórico, com a participação de Pedrito, do Câmbio Negro, na guitarra (Fabio, o guitarrista “oficial”, não pôde viajar).
A Karne acabaria gravando seu primeiro disco solo em vinil alguns anos depois, em 1994, e com a formação “clássica”: Marcelo e Almada haviam voltado a seus postos. O LP, auto-intitulado, também foi gravado em Recife, única cidade do nordeste que dispunha de uma infra-estrutura decente na época, com a produção de LA Nino, baterista da Câmbio Negro. O resultado, em termos sonoros, não foi satisfatório: os vocais soavam estranhos e a guitarra sem peso. Mas o repertório era primoroso. A banda estava passando por uma grande fase, compondo novas músicas que posteriormente se tornariam clássicos, como “Mancha de sangue” e “o vinho da história” (esta com letra do poeta e fanzineiro Nagir Macaô, infelizmente já falecido). Tocaram bastante para divulgar o disco, mas basicamente por aqui. Eles tinham (ainda têm) uma grande dificuldade para tocar fora do estado, principalmente por causa de compromissos profissionais e familiares, e estavam sempre mudando de formação: não tardou para Almada sair, desta vez definitivamente. Foi substituído por Rony. Depois foi a vez de Marcelo, que montou uma outra banda, SENSEMILA, com um som mais cadenciado e voltado para o “rapcore”. Para seu lugar foi recrutado Valdeir, um “headbanger”. Sai Rony, entra Valdeleno. Entra Wendell no lugar de Valdeir, depois Mazinho como segundo guitarrista e posteriormente baixista, substituindo Marlio, que vai morar em Recife, e assim sucessivamente. Silvio é a única presença constante na banda ao longo de todos estes anos, e só ele mesmo consegue dizer quantas formações, exatamente, teve a Karne Krua.
Depois do disco seguiram lançando demo-tapes, com maior ou menor repercussão, mas quase sempre num esquema ainda amador, muito embora o resultado surpreendesse, às vezes. Dessa safra saíram “Máscaras para o caos” (que tinha uma interessante versão para “jardim das acácias”, de Zé Ramalho), “Instantes Irreversíveis” (“seco” e “o verdadeiro culpado” são bons exemplos das influências que a banda estava absorvendo e incorporando a seu som na época, notadamente o “rapcore” e o regionalismo) e “Hard core”.
Silvio continuava investindo em projetos paralelos, como o ETC, A Casca Grossa e a Words Guerrilla. ETC era uma banda barulhenta e pornográfica, feita com o principal intuito de ir de encontro ao patrulhamento ideológico punk que era forte na época e enchia o saco com uma série de regrinhas que não podiam ser quebradas. A ETC quebrava todas. Fazia musica sobre o que desse na telha, de uma descrição de uma cagada à exaltação da rapadura, além de muita putaria. Beirava o sexismo, realmente, mas a intenção original era ir de encontro ao falso moralismo. Eu sei disso porque eu também fiz parte da banda – gravei, inclusive, a segunda demo-tape, a antológica “Greatest Hits live”. Já A Casca Grossa era uma espécie de volta às origens do punk, numa época em que a Karne Krua estava bastante influenciada por influências “externas”, como a musica regional. Foi um projeto de Silvio com 3 figuras “das antigas” que não durou muito. Em seu lugar surgiu a Words Guerrilla, com uma interessante proposta de fazer hardcore com um sotaque latino, inclusive com letras em castelhano. Sua primeira demo, “La Fuerza”, marcou época.
Enquanto isso, outras bandas continuavam surgindo meio que no “rastro” da Karne. Uma das mais importantes e que teve uma carreira mais longa e consistente foi a Sublevação, montada no comecinho dos anos 90 por Tacinho. Faziam um som bem “tradicional”, “casca-grossa”, emulando o punk brasileiro dos anos 80, embora nos anos 90 tenham sofrido influência da cena de Nova York e seus flertes com o rap (os headbangers chamavam de Hard Core “pula-pula”). Se dedicavam mais a shows do que à produção de demos, geralmente bem toscas. Tocaram em praticamente todos os lugares que abriram espaço para o rock underground na cidade ao longo de seus mais de 15 anos de existência. A Sublevação, na verdade, nunca acabou “oficialmente”- encontra-se ainda hoje, ao que parece, em estado de hibernação. É o que deduzo do fato de que sempre que encontro Tacinho ele fala que estão voltando a ensaiar e vão voltar a tocar, coisa que não acontece a um bom número de anos.
Havia também, nos anos 90, uma galera mais radical e envolvida com o movimento anarquista que sempre estava montando bandas, geralmente de curta duração – As mais conhecidas eram Plasma, olho por olho e Putrefação Humana. A PH foi criada originalmente pelo falecido Ricardo “Core”, em Penedo, remontada em Itabaiana e adotada por Cícero Mago, Salsichão e, mais tarde, Ulisses - que era egresso de uma outra banda grind, esta já da segunda metade da década, a Cicatriz. O Olho por Olho se definia como “uma banda de grindnoisecore” e foi fundada em 1991 por Xavier (guitarra), Marcelo Prata (vocal) e Paulo (bateria). Já com outro baterista, Chico, fizeram seu primeiro show naquele mesmo ano, num evento chamado “SUBNUTRIÇÃO” ao lado das bandas Cleptomania, Camboja, Refugo de Belsen, Alucinoise Alucinógena, Anal Putrefaction e Logorreia. No ano seguinte lançam sua primeira demo-ensaio, “à beira do caos” e segue tocando. Deram uma longa parada e voltam em 2002 com uma nova demo, “deserto”. Seguem tocando esporadicamente até hoje.
Já a Plasma era uma espécia de “quem é quem” do movimento anarco-punk, com indivíduos já “calejados” na cena: Nininho (ex-sublevação) no baixo e vocal, Cícero Mago na guitarra e vocal e Tacinho (vocalista da Sublevação) na bateria. Tocavam sempre nos eventos mais ligados ao N.A.D.A. (Núcleo de Ação Direta de Aracaju), do qual fazia parte outras bandas, como a Gangrena Social e a Putrefação Humana. Numa segunda formação, que durou até 1997, com a entrada de Cabelo na guitarra, Cícero Mago indo para a bateria e Tacinho para o baixo, gravaram duas demos (posteriormente reunidas em uma só, entitulada “Nossa luta”) e um vídeo Ao Vivo em João Pessoa, na Paraíba.
E havia Cabelo, sempre inquieto, sempre participando ou montando, ele mesmo, suas bandas – caso da Los Repugnantes. Já mais para o final da década ele enveredou pelo mundo do indie rock “low profile” com o projeto HWH – Hair Without Head.
4.2 – Os shows
Os shows, os memoráveis shows da virada da década de 80 para a de 90 ! A precariedade era a mesma, mas os abnegados “promotores” já eram outros, com um gás novo e uma vontade incrível de ver as coisas acontecerem. Foi por essa época que comecei minha “militância” propriamente dita como “agitador cultural”. Junto com Sylvio e uma garota que andava com os punks ajudei a organizar o III FESTCORE DE ARACAJU. Cheguei inclusive a investir a grana que estava guardando para comprar uma bateria e montar minha própria banda (um sonho que acalentava há tempos) no pagamento adiantado da aparelhagem de som. Não tivemos lucro, mas conseguimos recuperar o dinheiro investido, o que foi uma grande vitória. O evento foi super-problemático, mudou de datas algumas vezes e acabou sendo realizado num dia e horário extremamente inusitados, um domingo, por volta das 11:00 da manhã, no Auditório Lourival Batista. Mesmo assim atraiu um bom publico, não apenas da cidade, mas também de cidades vizinhas, como Salvador e Recife.
Era a primeira vez que o Câmbio Negro HC tocava em Aracaju, o que causou uma certa expectativa no meio. Eles já tinham vindo tocar aqui nos anos 80, junto com um Mundo Livre S/A em início de carreira (Fred 04 já havia sido guitarrista da Câmbio Negro), num evento que seria realizado na Barra dos Coqueiros e que se revelou mais uma barca furada, dentre muitas pelas quais embarcavam (e ainda embarcam) todos aqueles que trilham o caminho da musica independente. Lembro que haviam muitos punks oriundos de Salvador, com visuais absurdamente esdrúxulos. Um deles estava com a calça tão detonada que seus colhões vazavam por uma abertura na altura da virilha, deixando-os à mostra. Foi cômico notar que a diretora do Auditório foi tomada de surpresa pela aparência da audiência, me parece que ela não esperava um publico tão excêntrico, mas mesmo assim foi muito simpática, chegando inclusive a nos servir, produtores e publico (que se misturavam e eram a mesma coisa, como deve ser no espírito “do it yourself”), cafezinho. Inclusive para o cara com os colhões vazando pelas calças, não sem um mal-disfarçado e compreensível ar de constrangimento.
Nesse dia descobri, literalmente o “peso” de uma boa aparelhagem de som, pois tivemos que ajudar no trabalho de montagem do equipamento, eu e Sylvio, para diminuir o atraso. Mas o festival começou, valeu o esforço e todos foram felizes. Bom, nem todos: num determinado momento, a Diretora do Auditório sobe ao palco e pede o microfone para reclamar que alguém havia defecado na parte superior do Auditório. Para que o evento prosseguisse, literalmente, “a merda teria que ser limpada”, e lá se foram os produtores, Sylvio e Ivânia, limpar cocô (felizmente eu estava ausente naquele momento e não fui convocado para a ingrata tarefa). Câmbio Negro tocou com o guitarrista da banda Cérbero, também recifense, e que também se apresentou no evento, substituindo Pedrito, que não pôde vir, na guitarra. Tivemos ainda Subversivos, de Alagoinhas, Bahia, e bandas locais de estilos diversos como Karne Krua, Deuteronômio e Refugos de Belsen.
Os tempos eram outros: havia um esforço de união entre as tribos e os punks encararam numa boa a presença de uma banda de metal entre eles. “United Forces”, por sinal, era o nome de uma série de eventos promovidos por Carlinhos “Verruga” nesse mesmo auditório com o objetivo de unir as forças(sic) do metal e do Hardcore em prol da viabilização de shows de bandas de fora do estado que estavam em evidência na época, como Nephastus, da Paraíba, que lançou por aqui o clássico LP “Tortuous ways” numa noite memorável porém com uma qualidade de som abaixo do inclassificável. Tocou também no Auditório a legendária Headhunter DC, de Salvador, já pela segunda vez na cidade. A primeira vez foi num dos primeiros shows de rock realizados no Cotinguiba Esporte Clube, no Bairro São josé, com abertura e (dês)organização do impagável vocalista/baterista Cebola, da Logorréia. Este foi, por sinal, o ultimo show da Logorréia com aquela formação (Silvio se recusa a deixar suas bandas morrerem), ainda com Robério, que depois se mudaria para São Paulo, no contrabaixo. O Cotinguiba, depois, acabaria se tornando por muito tempo um "point" roqueiro da cidade, abrigando eventos como o projeto "UNIÃO DAS TRIBOS". que rolou durante os Sábados de Julho de 1994. O "prêmio" para as bandas locais seria a gravação de um cassete-demo para quem vendesse mais ingressos - não há registro de que alguém tenha "faturado" a parada.
Tive um reencontro com eles num trágico gig no conjunto Santos Dumont. A imagem do show bombástico que eu havia visto no II Festcore ainda estava fresca em minha mente. A caminho do evento, de ônibus, ainda fui exortado a desistir da empreitada por alguns conhecidos que eu havia encontrado por acaso, e que me alertaram: “show de rock, essa hora da noite, no Santos Dumont ? Se eu fosse você, desistia e voltava pra casa.” O Bairro tinha fama de violento, fama essa que se confirmou no final da gig, quando os “roqueiros” foram abordados por um grupo de “Brown” (como eram chamados os malucos “axé” por aqui e em Salvador) armados. Houve disparos, que atingiram Irani, irmã de Ivânia e, na época, baterista das Sub-suburbanas. Foi quando saiu da boca de “Esgoto”, um punk soteropolitano que andava muito por estas plagas, o seguinte comentário: “Porra, Aracaju ta ficando massa, tem até tiroteio”. Eu, por sorte, tinha saído um pouco antes, para não perder o ônibus, mesmo perdendo a esperada apresentação da banda de grindcore CAMBOJA, então com Jamson Madureira na bateria, Fúria no vocal e Sérgio na guitarra. Eu havia travado contato com eles algum tempo antes, num evento realizado num barzinho bacana chamado Zero Grau que funcionava na Praia 13 de Julho, junto com a Anal Putrefaction, e havia gostado muito. Também tinha visto alguns desenhos que o baterista, Madureira, havia feito para o logotipo da banda, e achei muito bons, chegando inclusive a publicá-los na primeira edição do meu novo zine, ESCARRO NAPALM, saudando-os como a maior promessa do então efervescente underground sergipano. Lembro que comentei que havia gostado do nome para o vocalista, Fúria, perguntei quem havia batizado e se era uma homenagem à guerra do Camboja. Ele disse que tinha sido o baterista, mas que ele só sabia que era um lugar onde morreu um monte de gente, no que, por sinal, estava certo, diga-se de passagem.
Nunca foi fácil fazer eventos “underground” em Aracaju. Nos anos 90 a situação melhorou consideravelmente em relação à década de 80, mas mesmo assim era difícil – daí o verdadeiro Oasis em que se transformou o Mahalo, já que foi lá que as bandas tiveram uma acolhida fora de série, continuada e sem preconceitos de nenhum tipo. Mas outros espaços acabavam surgindo, mesmo que por pouco tempo, e eram igualmente importantes, especialmente depois do fechamento do bar do simpático e inesquecível Jajá. O cotinguiba, clube social situada num bairro nobre da cidade, abrigava principalmente a cena metal. O pioneiro na utilização do espaço foi Anderson Lima, então com sua recém-formada produtora, a Destruction produções, com um show de uma banda heavy soteropolitana chamada Zona Abissal. Aberto o caminho, outros seguiram a trilha e por um bom tempo passou a haver shows de rock por lá praticamente todo final de semana, e dos mais variados estilos. Um dos mais bizarros foi um festival punk promovido por Tacinho, da Sublevação, onde o vocalista Morcego, da BOSTA RALA, de Salvador, se apresentou nu. Eu mesmo, junto com os caras da Karne Krua, tentei montar uma produtora e nosso primeiro e infelizmente único (porque fracassado) show foi com a banda Câmbio Negro HC, de Recife, no Cotinguiba. Tomamos um prejuízo imenso, mas podemos ter o orgulho de dizer que fizemos o show mais profissional da época, com uma aparelhagem decente, iluminação e gelo seco, coisa que não existia em shows de rock alternativo até então.
Outro espaço que marcou época, não necessariamente pela qualidade, foi o 799, que ficava literalmente “numa quebrada”, uma “rua” enlameada totalmente escondida ali por trás do Farol da Coroa do meio. O ambiente era propício para o uso de substancias ilícitas, e isso se refletia na qualidade da “audiência” – as pessoas pareciam ir lá muito mais interessadas em poder fumar e cheirar sossegadas do que ver as bandas em si. Lembro de alguns momentos deprimentes, como um show do Lisergia, de Salvador, onde entre uma música e outra dava até para ouvir o barulho dos sapos coaxando e dos grilos cantando, tamanho o silêncio fúnebre que se apossava do recinto. E nem era por falta de público em si, era porqueque a galera fumava e bebia muito e depois “morgava” - só se via gente deitada pelos cantos. Vale registrar a única apresentação ao vivo da MARLIO TÁ IRADO, banda formada por Teleu no vocal, Xavier na guitarra e Jamson Madureira na bateria. O nome surgiu do mau humor do ex-baixista da karne krua, que ficava “irado” com essas bandas de nome engraçadinho tão em voga na época. A idéia do nome em si era boa, mas a salada sonora foi um tanto quanto indigesta, com Teleu fazendo vocais guturais em cima de uma guitarra dedilhada em estilo pós-punk a La Legião Urbana de Xavier e a beteria cheia de contratempos de Madureira. Foi tão ruim que o vocalista se desculpou ao final da apresentação e a banda acabou ali mesmo.
Foi lá também, no Espaço 799, que aconteceu a equivocada primeira vinda do Eddie, seminal formação pré-mangue beat do Recife, em Aracaju. Tocaram para um publico totalmente “nada a ver”, repleto de punks e metaleiros que não absorveram a proposta musical da banda, ainda calcada no rock garageiro porém já distante do que o povo do rock estava acostumado a ouvir. Ainda lembro da pagação de Roger (depois Bomsucesso Samba Clube) no microfone, falando pra galera que eles deveriam abrir mais a mente para outros sons e parar de ficar ouvindo só Iron Maiden, até ser interrompido por Fabio Trummer, que parecia estar mais interessado em terminar o show e dar o fora dali.
Na orlinha Bairro Industrial (antes da reforma) funcionava a pista de Skate de “Rato”, que ficava num belíssimo casarão antigo. Lá aconteceram inúmeros shows, geralmente promovidos pela DESTRUCTION PRODUCTIONS de Andinho, com bandas de Salvador e Maceió, como Dois Sapos e meio, Inkoma, Avoid e Ball (de onde saiu Wado). Haviam também alguns shows no Cultart, Centro de Cultura e Arte da Universidade Federal de Sergipe. Lá se apresentaram grandes nomes como o Mundo Livre S/A e a banda de Hardcore portoalegrense No Rest, que pegou um carro e resolveram fazer uma tour do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte. Num desses shows Bruno Montalvão, da MARGINAL PRODUÇÕES, resolveu promover uma boate no Porão do Cultart, o que foi um tremendo sucesso e teve várias edições. Depois de um tempo e devido a complicações com a reitoria da universidade, o evento migrou para o DCE da Praça Camerino e passou a se chamar “Castelo Rá TIM Bum”, apenas com discotecagem, mas algumas vezes associado a shows que por lá aconteciam, dos quais destaco um do macacongs 2099 em que a policia interviu e só permitiu que a banda terminasse sua apresentação com as portas fechadas, causando a fúria dos que ficaram de fora e foram severamente reprimidos na base da metralhadora em punho. Foi bizarro.
Muito mais raramente aconteciam shows também no interior. O primeiro foi em Itabaiana, com a “nata” da cena punk underground local, karne Krua, ETC, Cleptomania e outras. Foi na Sede dos Trabalhadores, clube que algum tempo depois recebeu a banda crossover REALIDADE EMCOBERTA do Recife, numa miniturnê pelo interior sergipano acompanhada da Anal Putrefaction. Em Estância aconteceu o TÚNEL METAL, com o THE CROSS, de Salvador, que acabou gerando uma confusão e a interrupção do evento, para desconsolo das bandas que iriam tocar na sequencia. Alguns shows foram feitos também em Carira, sertão sergipano, o que gerou uma violenta repressão aos mirrados roqueiros locais por parte da tradicionalmente truculenta “autoridade” policial, que os acusava de levar um bando de maconheiros de Aracaju para perturbar a paz publica e perverter a juventude da cidade.
Fora estes shows acontecidos em espaços que, eventualmente, abriam as portas para as bandas alternativas, haviam algumas situações “sui generis”, como da vez em que Vicente Coda conseguiu o Augustu´s, a mais tradicional casa de espetáculos da cidade (uma espécie de “canecão sergipano”) para um evento totalmente protagonizado pelo rock. Era um Festival Beneficente, destinado a angariar fundos para o Hospital de Cirurgia, que encontrava-se em situação crítica na época. Houve, inclusive, chamada na televisão, na afiliada local da Globo, patrocinada pela Fundação Augusto Franco! Foi surreal ver as bandas que eu estava acostumado a assistir em estruturas pra lá de precárias no palco “chic” do Augustu´s com sonorização de Ricardo Sá, já nesta época (e bem antes, até) o melhor som da cidade. Lembro que a Karne Krua fez uma apresentação totalmente “zoada” (os caras estavam completamente bêbados, o que nem era lá tão comum) mas mesmo assim soou bem melhor do que o costume. Vicente se apresentou com um dos zilhões de projetos dele que eu não lembro qual era, e a noite foi encerrada pelo Warlord, que assim que subiu ao palco mandou um sonoro FODA-SE para a produção do evento, numa lavagem de roupa suja em público ligeiramente constrangedora ...
Por falar em Ricardo Sá, lembro que a Karne Krua, durante um bom tempo, ficou proibida de tocar em seu som já que Silvia havia, segundo ele, quebrado um de seus microfones (ele nega). Para driblar a proibição chegaram a tocar, numa ocasião, com o nome de “Silvio e sua banda suburbana”.
Houve também um grande show que não houve: Plebe Rude, no Ginásio de Esportes Constâncio Vieira. Foi anunciado, teria a abertura da karne krua, mas uma súbita proibição de entrada de menores de idade, aliada a uma repressãozinha policial básica na entrada, tomando coturnos e gandolas do público, inviabilizou o evento.
4.3 – O Metal sergipano
A semente foi plantada ainda nos anos 80, com nomes como “Guilhotina”, já citados no segundo capítulo, mas algo que se possa chamar de “cena” do metal sergipano só frutificou, realmente, no início da década de 90. E os principais responsáveis por este pontapé inicial, pode-se dizer, foram os caras da Deuteronômio, primeiro Bruxo, que era amigo de todos e sempre procurava unir punks e headbangers numa causa comum, depois Carlinhos “Verruga”, que levou a banda em frente e promoveu os primeiros intercâmbios ao trazer bandas de fora para tocar aqui, como Headhunter DC de Salvador e Nephastus da Paraíba. Posteriormente formou-se a Warlord, já voltada para o Heavy Metal mais tradicional, cuja estréia nos palcos aconteceu num evento ao ar livre, numa praça do conjunto Sol Nascente, ao lado da Karne Krua e do Engenheiros do Hawaii cover (!!!!).
A Warlord acabaria se tornando a formação Heavy Metal com maior longevidade no estado, já que começou em dezembro de 1991 e seguiu em frente até meados do fim da primeira década do século XXI, sempre com George Oliveira nos vocais e Otávio Jr. na guitarra, abrindo inclusive shows de bandas importantes do cenário nacional e internacional, como Dorsal Atlântica, Sepultura, Angra, Shaaman e Tribuzy. Em dezembro de 1993, com sua primeira formação – George (V), Júlio Fonseca (D), Otávio e Vanicson (G), e Dalmar (B) – lançaram a Demo Tape Warlord ’93, gravada em 8 canais no AV Studios e contendo as músicas “Los Angeles In Blaze”, “Death Will Smile For You”, “Get Out Of The Way” e “Warlord”. Em agosto de 1996 veio ao mundo a segunda demo, “God kill the king”, com a faixa-título, que acabou se tornando uma espécie de “hino” da banda, sempre uma das mais pedidas nos shows, e mais “Walkin’ To The Abyss”, “Money (Ain’t a Mortal Crime)”, “Angry Young Man” e “Prisoner Of Insanity”. Passaram por muitos altos e baixos, longos períodos parados intercalados por algumas apresentações consagradoras, mas sofreram um sério revés recentemente, com a saída, parece que em definitivo, do vocalista George, justamente quando seu primeiro Cd “oficial”, a princípio intitulado “Land Of Agony”, estava finalizado e prestes a ser, finalmente, lançado. Chegaram a fazer um último show, com um vocalista convidado, na abertura da apresentação de Blaze Bayley, ex-Iron Maiden, em 2009, em Aracaju, mas atualmente encontram-se parados mais uma vez, muito embora não tenham tido seu fim anunciado “oficialmente”. Uma pena, pois tive o prazer de tocar uma das faixas do disco em meu programa de rádio e posso afirmar que o material é de primeira.
Outra banda de metal “tradicional” célebre na cidade é a Tchandala, fundada em 1996 por Dejair e Pidele e em atividade até os dias de hoje graças, em grande parte, à persistência de Dejair, que assumiu os vocais e está sempre pronto a levar adiante a bandeira do metal sergipano. A formação original contava com o próprio, Dejair (que posteriormente tocaria na Karne Krua), no baixo, Pidele no Vocal, Sandro na guitarra base, Silvio na Guitarra solo) e Hudson "Codó" na bateria. A primeira demo foi “The Begining”, de 1998. Vale o registro de uma passagem pitoresca da carreira da banda, uma das coisas pelas quais qualquer um que milite no meio "underground" está sujeita a passar (e passa, invariavelmente): quando eles se apresentaram na extinta Rua 24 Horas o locutor, acostumado ao pagode, axé e demais ritmos popularescos, os apresentou da seguinte forma: “E agora com vocês, TCHAN ... Não, não é o Tchan da Bahia, é a Tchandala de Sergipe!”. Fala sério ...
Antes do surgimento da Tchandala, durante um bom período da primeira metade dos anos 90, o Warlord reinava sozinho na seara do metal dito “tradicional”, pois o que imperava realmente era o Death Metal, com algum espaço para o thrash, apenas. O principal nome do estilo era justamente a Deuteronômio, mas alguns outros se juntaram a eles, como a Anal Putrefaction, que do grind foi evoluindo para o Death, Necrofilia e Mucous Secretion, estas duas últimas num levada mais “Death/grind”. Os shows da Mucous eram um espetáculo à parte, com velas espalhadas entre o público e toda uma mise-em-scene metal que destoava completamente da figura de seu baixista, Moacir, que era punk. No thrash, destaque para a Rust Makers e, principalmente, Agony Season, além da Metáfora, da qual falaremos adiante. Agony Season chegou a gravar uma demo-tape com uma qualidade bastante satisfatória para os padrões da época, com uma bela capinha desenhada por Jamson Madureira. Haviam ainda nomes como a Fortress, da qual faziam parte Daniel e Rafael jr., que posteriormente formariam a Snooze, e Ulisses, um “headbanger” de Alagoinhas, Bahia, que morava aqui e era “fanzineiro”, mas ficou apenas nos ensaios.
Os nomes citados foram das bandas que se destacaram, pois chegaram a fazer shows e participar de festivais, como um evento surreal que aconteceu no início da década em Itabaiana, promovido pelo “sabotage”, de Adelardinho Jr – um dos únicos programas de rádio da época que davam espaço para o rock ao lado de outro lá mesmo em Itabaiana, o “Guilhotina”, comandado por Ademir Pinto. O “Sabotage Rock Festival” aconteceu na praça de eventos da cidade, ao ar livre, um local acostumado a receber apenas atrações como Zezé de Camargo e Luciano e coisas do tipo, e atraiu uma multidão de curiosos, apesar da chuva torrencial que caiu naquela noite – muito provavelmente pela surpreendente divulgação nas duas FMs locais, que transmitiram os shows na íntegra. Tocaram a Rust Makers, Deuteronômio, Cleópatra, uma banda local que se dedicava a fazer covers, “Ezequiel o pensador”, outro “artista” local aficcionado em covers, Karne Krua e a Devilry que, por sinal, era uma banda de death metal lá mesmo de Itabaiana, e não faziam cover, tinha material próprio. O pessoal da Devilry chegou, inclusive, a promover um show com uma banda de doom metal de Salvador, The Cross, um feito e tanto para uma cidade do interior naqueles tempos, além de alguns outros com grupos sergipanos. Tocaram, ao que me consta, apenas uma vez em Aracaju, no Mahalo Disco Club do centro, fato do qual eles pareciam se ressentir, já que me lembro da primeira frase proferida pelo vocalista Vladimir ao microfone, algo do tipo “apesar dos preconceitos, estamos aqui, Devilry, de Itabaiana”. E tome tosqueira no pé do ouvido ...
Com a “cena” metal pequena porém pelo menos existindo na cidade, começaram a acontecer alguns shows com bandas de fora do estado, e alguns com bandas importantes, como a The Mist, de Minas Gerais, que tinha na guitarra o ex-Sepultura Jairo Guedes, o Dorsal Atlântica, que tocou na extinta Boite “Tio Zé”, na Atalaia, Restless, de Brasília, e várias bandas de Salvador. O principal responsável pela vinda das bandas de Salvador foi um baiano, ex-proprietário do Bazar Musical, loja especializada que existia por lá, no Orixa´s Center, que se radicou aqui e começou a promover eventos mais “profissionais” (não só de metal, já que foi ele, por exemplo, que trouxe um Dead Billies em início de carreira pela primeira e única vez para cá num show que não teve NENHUM pagante), como os projetos “Metal in concert”, onde tocou o Restless, de Brasília, e “União das Tribos”, que acontecia no Cotinguiba. Critical Mass, outra banda de metal da época que não vingou, fez sua estréia nesse projeto, mas a própria banda em si foi ofuscada pelo “estrelato” de seu vocalista, o popularíssimo Fúria, que fez praticamente um show a parte numa perfomance ensandecida que destoava do som que o grupo se propunha fazer. Ele literalmente roubou a cena, já que foi ovacionado pela platéia que gritava seu nome, não o nome da banda.
O Cotinguiba Esporte Clube foi, por muito tempo, o “point” do rock underground na cidade. Foi lá que DEVERIA ter acontecido, em 12 de junho de 1994, o show do PUS, também de Brasília, banda cuja guitarrista era a deliciosa Simone “Death”, mais tarde conhecida nacionalmente como Syang, quando participou da “Casa dos Artistas” do SBT. O show não aconteceu porque a banda não foi paga pelo produtor, mas acabou rolando na segunda-feira posterior, de graça, em pleno meio-dia ( !!! ), numa pista de skate chamada Organtec (onde também aconteciam shows de rock) que ficava na Av. Barão de Maruim. Este mesmo “produtor” pilantra já tinha aprontado uma na mesma organtecc, quando a banda Slavery, da Bahia, que tinha disco lançado pela cogumelo Records (status supremo do metal dos anos 80 e 90), tocou lá e ficou no olho da rua, sem ter onde dormir. O Mystifier, também baiano, estava certo para tocar nesta mesma noite, mas não apareceu. Mas o maior “toco” do tal “produtor” foi mesmo com o Ratos de Porão. O que seria o show da década acabou se tornando uma noite de fúria, já que não aconteceu pelo mesmo motivo do PUS – falta de pagamento. Os Ratos chegaram a vir à cidade, fizeram uma noite de autógrafos no Shopping Riomar e tudo o mais (lembro que numa exposição fotográfica comemorativa aos 10 Anos do Shopping estavam eles lá, com cara de “lombrados”, em meio ao assédio dos fãs e com o “Anticristo” organizando a fila), já que o evento estava “bombando” na mídia, pois tinha chamada, veja só, na Televisão aberta, se não me engano a TV Atalaia, então retransmissora do SBT. O produtor sumiu, a banda não tocou e a turba ensandecida se vingou saqueando a loja do estelionatário, uma das duas únicas especializadas em rock na cidade, ao lado da Lokaos, de Silvio. O cara de pau ainda teve a coragem de aparecer depois de um grande sumiço, mas sumiu do mapa de vez depois de ter sido preso em flagrante por estupro – lembro de estar assistindo um programa da MTV chamado “Garganta e Torcicolor”, que era apresentado ao vivo por João gordo, quando ele leu uma carta de uma pessoa daqui que deu a notícia da prisão, comemorada pelo gordo aos berros de “se fudeu, pilantra caloteiro estuprador filho da puta, vai virar mulherzinha, vão comer o cu dele na cadeia”.
Já na segunda metade dos anos 90 o metal sergipano se renova com novos nomes, notadamente Scarlet peace, com seu doom metal influenciado pelo rock progressivo. Surgiu uma nova geração de bandas de death metal, como a Átropos, que teve vida curta mas chegou a abrir um show pro Headhunter DC, da Bahia. Alguns integrantes da banda se juntaram a um outro projeto que estava nascendo em 1998, a Sign of Hate, uma das mais agressivas e técnicas do estilo, na ativa até hoje. Isso sem falar de Deuteronômio e Anal Putrefaction, que seguiram sendo os principais nomes do estilo durante a década. Correndo por fora, o Black Metal, cujo principal nome era a Mystical Fire, banda fundada por Alexandre em Manaus, reformulada em Arapiraca, Alagoas, e radicada definitivamente em Sergipe – Alexandre voltou pro Amazonas mas deixou o nome nas mãos de Elias, Bilal e Sedim.
4.4 - ROCK IN BICA
Durante as décadas de 70 e 80 a universidade Federal de Sergipe promovia, na cidade histórica de São Cristóvão, a quarta cidade mais antiga do Brasil, um grande Festival de Artes, o FASC – Festival de Artes de São Cristóvão. Nas últimas edições do FASC um dos muitos palcos do evento foi dedicado ao rock. No Ano de 1990, inspirados no Rock in Rio, cuja segunda edição aconteceria no ano seguinte, no Maracanã, o palco do Rock, que havia sido montado na Bica de São Cristóvão (um balneário publico da cidade) recebeu o irônico nome de “Rock In Bica”. Na primeira edição, além das bandas locais, se apresentaram uma banda bastante conhecida no cenário independente baiano da época, o Treblinka, e os brasilienses do BSB-H. O BSB-H foi a primeira banda independente de projeção nacional (já haviam lançado alguns álbuns por selos célebres, como a Devil Discos) a se apresentar por aqui, o que causou um certo frisson na cena local. A apresentação deles foi gravada em VHS e diversas cópias circularam de mão em mão. Por conta deste relativo sucesso , quando foi anunciada uma segunda edição do rock in Bica em 1992 a expectativa, que já era grande, se confirmou em níveis muito além do imaginável pelo mais otimista dos “rockers” locais. Grandes nomes do cenário underground nacional se apresentaram na Bica de São Cristóvão numa maratona de música memorável que começou às 16:00 do sábado e só foi se encerrar por volta das 11 da manhã do domingo.
Ao lado de grupos locais, como a karne krua, se apresentaram os baianos do MEIO-HOMEM, uma interessantíssima banda meio experimental/industrial que chamou bastante a atenção dos que presenciaram seu show, e o grande HEADHUNTER DC, uma das maiores bandas brasileiras de Death Metal na ativa até hoje, à época pertencendo ao cast da legendária gravadora mineira Cogumelo. Além disso, foi quase que um sonho ver, pela primeiríssima vez ao vivo em solo sergipano, duas das mais importantes formações do punk paulistano, os Inocentes, que, por sinal, nunca mais voltaram, e o Cólera, que só voltou a se apresentar, mais uma vez em São Cristóvão e pela primeira vez em Aracaju, mais de uma década depois, já em pelo século XXI. Os Inocentes fizeram um show de razoável para ruim, pois já estavam naquela fase mais decadente pós “Adeus Carne”, muito mais rock and roll do que punk. Além do mais a apresentação foi prejudicada pela reação despropositada do líder Clemente às provocações vindas de um maluco (literalmente falando) da platéia que o ofendia a todo momento. Provavelmente confundiu o louco (mais uma vez, literalmente falando) com mais um punk acusando-o de “traidor do movimento”. Já o show do Cólera foi antológico. Começou com o sol nascendo no horizonte (lembrando que o evento aconteceu ao ar livre), fato que não deixou de ser comentado por Redson, que ressaltou que era a primeira vez que eles tocavam naquelas condições, com um cenário tão bonito, de frente para o raiar do dia. Fizeram uma apresentação energética que sacudiu a audiência e ficou na memória dos que a presenciaram – ainda me lembro dos caras do Headhunter se levantando e correndo para a frente do palco para unirem-se aos punks no pogo. Memorável. Infelizmente não pude ficar até o fim e perdi a apresentação dos mineiros do Attack Epiléptico, que aconteceu já na manhã do domingo, junto com a Karne krua. Os pernambucanos do Câmbio Negro HC também estavam escalados e presentes, mas acabaram não se apresentando, por conta de desentendimentos com a organização. Além das bandas em si, vale ressaltar que todo o clima que cercou este Festival foi bem marcante, pelo inusitado que era para a cena local da época. Os rockers se dirigiram para lá em peso, e foi uma grande confraternização “à la woodstock” (guardadas as devidas proporções, evidentemente), com barracas de camping espalhadas pelo local. Claro que nem tudo foram flores, há lembranças da costumeira truculência policial na repressão ao consumo de drogas, à libertinagem e à perturbação da ordem pública mas, no final, o saldo foi pra lá de positivo.
4.5 – Camboja e "derivados"
O Camboja foi uma das mais interessantes e originais formações do cenário sergipano. Começou, como citado anteriormente, como mais uma das muitas bandas de grindcore que surgiram na época (primeira metade da década), mas já com uma pegada diferente. A primeira formação, no entanto, não demorou muito – o tempo apenas de gravar uma demo-tape e fazer 2 ou 3 shows. Com a saída de Fúria, o vocalista, e Sergio, o guitarrista (este ultimo para fundar uma outra banda, a METÁFORA, mais direcionada ao metal propriamente dito, especificamente o thrash), Madureira, que tocava bateria e era a mente por trás de tudo, dedicou-se à guitarra e continuou o projeto como uma “one man band”. Para acompanhá-lo na empreitada passou a experimentar percussões eletrônicas rudimentares que produziram alguns resultados bastante interessantes, porém de péssima qualidade sonora. Com o tempo foi convencido a recrutar um baterista, o que se concretizou na figura de Lelinho, sobrinho de Sylvio e então balconista da Lokaos. Não abandonou por completo, no entanto, as experimentações eletrônicas, passando apenas a encaixa-las como vinhetas ou mesmo usando-as como percussão em algumas musicas.
O resultado foi bastante inusitado e eu diria até que revolucionário para o cenário local da época, muito preso a fórmulas já um tanto desgastadas e repetitivas. Gravaram uma nova demo, intitulada “lies about freedom”, e passaram a fazer shows, àquela altura (1992/93) já bastante influenciada pela ascensão de uma cena forte de rock industrial pelo mundo, capitaneada pelo Ministry e pelo Nine Inch Nails. Mas seguiu seu caminho meio que solitária, nadando contra a maré. Tornou-se uma banda “cult” entre os que compreenderam melhor sua proposta inovadora, mas não fazia grande sucesso entre os punks e headbangers, que eram esmagadora maioria. Isso porque possuíam uma sonoridade realmente original. As musicas eram, invariavelmente, extremamente minimalistas – um riff (sempre muito bom, diga-se de passagem) e uma frase em inglês repetidos à exaustão até o fim – que não demorava muito, as faixas não costumavam durar mais que 2 minutos. Nos shows, muito improviso e ruídos de microfonia, distorção e dissonância. E nas demos muitas colagens de sons, sempre muito bem pensadas e encaixadas. Isso tudo com o mínimo de recursos. É de se imaginar o que Madureira conseguiria fazer se tivesse à sua disposição a tecnologia de que um Al Jourgenson ou um Trent Reznor (seu ídolo confesso) dispunham.
Mesmo assim houve uma tentativa de se dar um “upgrade” à banda. Numa terceira fase, o incansável Sylvio (karne krua) incorporou-se à dupla como segundo guitarrista, num resultado bastante satisfatório em que ele se empenhava em experimentar efeitos sonoros e criar climas com as guitarras para servir como contraponto aos riffs poderosos de Madureira. Com essa formação, e com a participação de Marlio, também karne Krua, no baixo, gravaram uma terceira demo, desta vez em estúdio - uma outra característica inusitada da banda, por sinal, era nunca contar com um baixo em sua formação. Gravaram a terceira demo com baixo apenas depois de muita insistência da parte de Marlio. O resultado, no entanto, não foi dos mais satisfatórios – o som da guitarra, em especial, ficou péssimo, raquítico, um verdadeiro crime em se tratando do Camboja, cujo som era quase que inteiramente baseado nos riffs de Madureira.
Por conta de todos estes contratempos, especialmente a falta de recursos e de um produtor que compreendesse o espírito da banda, o Camboja acabou sem deixar nenhum registro decente de suas brilhantes composições que atendiam por títulos quase sempre depressivos e/ou atormentados como “don’t close your eyes to my misery”, “what do you know about my pain?”, “machine man”e ‘italian sexy movie”. A banda acabou em algum ponto no meio dos anos 90 – na verdade não houve um fim oficial, apenas Madureira foi perdendo o tesão de tocar, segundo ele mesmo. O ultimo show (que não estava previsto para ser o ultimo) foi especialmente memorável. Aconteceu no Mahalo da Atalaia, abrindo para o Kafila, do Piauí, e contou com Cícero Mago, irmão de Madureira, na bateria, substituindo Lelinho, que havia se desligado da banda e se afastado do mundo do rock underground algum tempo antes. A apresentação foi matadora: Madureira estava especialmente inspirado e o evento foi, inclusive, registrado para ser distribuido em K7 pelo fanzine CABRUNCO, o que, infelizmente, acabou não acontecendo.
O Camboja acabou no “auge” criativo mas deixou como legado, além de suas 3 demo-tapes (4, se contarmos a gravação Ao vivo não lançada do ultimo show) uma interessantíssima concepção gráfica, um projeto paralelo e uma banda derivada. A concepção gráfica era um fator de destaque da banda e era sempre produzida com muito esmero e competência por jamson madureira, exímio desenhista e, posteriomente, artista plástico. As capas de suas demos, cartazes de shows e desenhos produzidos para releases e flyers eram de uma qualidade muito acima da média e chamavam a atenção Brasil afora. Mesmo depois do fim da banda Jamson prosseguiu desenvolvendo seus dons para as artes plásticas, tanto em telas como em Historias em quadrinhos, notadamente com a série “Automazzo”.
O “projeto paralelo” foi o Misery High Tech. Era composto por apenas duas pessoas, Madureira e Sergio “Metáfora” – outro Sergio, não o mesmo que havia fundado o Camboja – se revezando nas guitarras e colagens sonoras acompanhados por uma bateria eletrônica. Fizeram um trabalho interessantíssimo, fruto do encontro entre suas principais influências, o rock industrial e eletrônico, no caso de Jamson, e o thrash, mas com um background também influenciado pelo industrial (o também projeto paralelo Nailbomb, de Max Cavalera e Alex newport, foi a principal referência da dupla) e deixaram como registro duas demo-tapes. Apresentaram-se ao vivo apenas em uma ocasião, no dia 29 de abril de 1995, no Espaço Cultural Engenho e Arte, que pertencia ao cantor e compositor Paulo Lobo e ficava localizado no bairro Grageru, num Festival ao lado das bandas Plasma, Snooze, Agony Season e o próprio Camboja.
Já a Metáfora, a banda “derivada”, tinha em comum com o Camboja apenas a sua gênese, pois foi idealizada por um dos membros-fundadores da mesma, Sergio (a banda tinha dois Sergios). Faziam um thrash metal cru e tosco que foi registrado pela primeira vez na antológica demo-tape “vulcanic fire”. Era uma típica banda da época em que o Sepultura estava no auge, uma das muitas que tentavam emular o som dos heróis do metal brasileiro, porém sem os mesmos recursos técnicos nem a mesma competência com os instrumentos. Mas durou um bom tempo, e ao longo desse tempo foi evoluindo e refinando seu som, o que se refletiu numa segunda demo-tape melhor trabalhada intitulada “living in ruins”. Nunca chegou a ser, no entanto, um destaque no cenário, embora tenha tido em seu currículo alguns bons shows. Durante algum tempo, inclusive, a Metáfora contou com uma garota, Morgana, no contrabaixo, fato inusitado para a cena da época – aliás esta é uma das grandes deficiências do rock sergipano, a pouca participação das mulheres na formação das bandas. Alem disso protagonizaram pelo menos um dos muitos episódios bizarros do rock sergipano ao se apresentarem, pela primeiríssima vez em sua carreira, num circo mambembe lá mesmo em sua terra natal, Nossa Senhora do Socorro, quando tiveram seu set list comido por um bode durante a passagem de som mas mesmo assim foram suntuosamente apresentados pelo mestre de cerimônias do circo, que era também o palhaço.
Posteriormente, já sem o “Sergio fundador”, mudaram de nome para “Uncanny”, numa última formação que durou pouco mas deixou pelo menos uma noite memorável de saldo, num evento no parque da Sementeira onde chegaram a experimentar alguns efeitos pirotécnicos à la Kiss e Iron Maiden (descontadas as devidas proporções, evidentemente), sem muito sucesso.
4.6 – MAHALO DISCO CLUB
Na primeira metade dos anos 90 um “coroa” muito simpático e gente-fina conhecido como “Jajá” abriu um “pub” bem bacana em frente à UNIT do centro (ainda não existia o campus da Farolândia). Até aí, normal, era um bar como outro qualquer, freqüentado durante a semana pelos estudantes da maior universidade particular do estado. Só que o tal Jajá teve a inusitada idéia de, já que não havia movimento nos finais de semana, abrir espaço para que as bandas de rock “underground” tocassem lá. Na minha modesta opinião, foi a mais divertida fase pela qual passou o rock em nosso estado. Tínhamos, finalmente, nosso espaço, e era um espaço bacana, fechado, decorado e com ar-condicionado. Algo surreal para quem estava acostumado a fazer shows numa Associação de bairro abandonada do conjunto Dom Pedro I, carinhosamente apelidada de “fedor de merda” – “Vai ter show no fedro de merda hoje” – com caixas acústicas, microfones e bateria cedidos pelas próprias bandas do material que usavam para ensaio e que eu ajudava a pegar com meu fusquinha podre fedendo a gasolina.
O primeiro show que aconteceu no Mahalo foi da karne Krua, com abertura do ETC, uma banda “porralouca” que eu tinha com Silvio. Foi uma loucura, pois o espaço era pequeno e, mesmo com o pouco público da época, ficou apertado, o que deixou o “pogo” ainda mais violento que o usual, com vários indivíduos caídos pela calçada cheios de hematomas no final da noite. Foi um sucesso, o que nos motivou (eu e o pessoal da Karne Krua) a criar o “projeto Microfonia”, com shows semanais. Trouxemos, inclusive, bandas de fora do estado, a Discarga violenta, de Natal, e o Living In The shit, de Alagoas. Para tanto, alugávamos um sonzinho pequeno de Miraíton, um figura muito boa-praça que tinha um estúdio no Siqueira Campos onde as bandas "underground" costumavam ensaiar.
Logo o “pico” foi descoberto pelas demais “tribos” locais, e mais e mais shows passaram a acontecer, de todos os estilos, do punk mais casca-grossa – algumas bandas baianas, como APÁTRIDA, tocaram no local – ao metal extremo. Um dos eventos mais polêmicos foi o “Dia do Caos”, ocorrido na noite de 09/09/1995, produzido por e para bandas “puro sangue”, anarco-punk, e que acabou servindo como uma espécie de lavanderia de roupa suja, onde as contradições internas do movimento descambaram em discussões inflamadas que quase levaram às vias de fato. O Movimento punk havia se radicalizado ao extremo e se fechado em si próprio, o que anulou qualquer possibilidade de que o que eles tinham a dizer pudesse chegar a um publico maior. Muita fofoquinha mesquinha, muito disse-me-disse, um verdadeiro turbilhão de desconfianças, ameaças verbais e pancadaria que se estendia pela cena de todo o nordeste.
Conheci algumas criaturas fascinantes e estranhas através do Mahalo, como Ricky, “o poser”. Estávamos tocando e havia um show de metal rolando na mesma noite no Cotinguiba. A uma certa altura, aparece um pessoal de Estância, Alberto “Pereba”, Renatinha, sua irmã e um figura totalmente deslocado, glam dos pés à cabeça, que atendia pela alcunha de Ricky, o “poser”. Isso mesmo, o cara era poser assumido. Vestia calças de couro coladas, as famosas “tora-ovo”, baby-looks com lantejoulas e uma bandana na cabeça. Me viu com uma camiseta do Extreme Noise Terror e já foi logo dizendo que só gostava do Extreme. Morava em Estância, era fã do Guns and Roses, Poison, Motley Crue e Cinderalla, mas também curtia grind, algo que constatei ser verdade ao assitir estupefato ele acompanhar direitinho os grunhidos do clássico disco “reek of putrefaction”, do Carcass. Também curtia Black metal, chegando inclusive a tentar montar uma banda em Estância, a “Satanic Desire”, na linha do Sarcófago, mas que não saiu da garagem. Algum tempo depois ele foi embora pra Curitiba, cidade que achou um tédio, tudo muito limpinho, certinho, artificial. Mudou-se para São Paulo, viciou-se em crack e morou na rua por um tempo até arrumar um emprego como porteiro numa casa noturna. Depois disso, nunca mais tive notícias.
A coisa cresceu a tal ponto que Jajá resolveu alugar um espaço maior, em plena Avenida Beira Mar, na Atalaia. Eu particularmente achava menos “charmoso”, com mais jeito de bar propriamente dito do que de pub, mas por lá aconteceram shows memoráveis, como as estréias da Penélope Charmosa (posteriormente apenas Penélope) e brincando de deus em Aracaju, Wander Wildner divulgando seu primeiro disco solo – lembro dele ajudando a arrumar as mesas do bar depois do show -, Káfila, do Piauí, que tocou no que acabou sendo o último show do Camboja, Johnsons, de Goiás, Trap, de São Paulo, e uma inesquecível apresentação do concreteness, de Santa Bárbara do Oeste, com seu “electro-rock” endiabrado bem à frente de seu tempo – lembro que tínhamos dificuldade para “rotular” a banda, já que era eletrônica mas não chegava a ter o peso do rock industrial. Isso sem falar das bandas locais, como a Lacertae ainda como trio, com Paulinho e suas percussões de escapamento, e a snooze – Rafael jr, baterista da snooze, era o principal promotor dos shows que aconteciam por lá nessa época.
4.7 – Snooze e Lacertae
O Snooze nasceu em 1993 e foi a primeira e, por muito tempo, única banda “indie” (leia-se influenciada por gêneros como o shoegaze e as guitar bands) de Aracaju. Nasceu das cinzas do OUTSHINED, que tocava covers dos grandes “hits” do rock da época, especialmente o grunge. Vi eles pela primeira vez ao vivo num campeonato de skate no Siqueira Campos e foi paixão à primeira vista, nem tanto pelos sons próprios da banda (não lembro se eles já os tinha, mas acho que sim), mas pelo simples fato de terem tocado um cover do Pixies, uma de minhas bandas favoritas de todos os tempos e que tinha um status “Cult”, era pouco conhecida por aqui. Ajudei-os a montar seu primeiro release, feito em forma de fanzine xerocado. Logo eles lançaram sua primeira e clássica demo-tape, um verdadeiro marco na história do rock sergipano, não apenas pela competência técnica e talento para composição, na época um pouco mais punk e com muita influência de Social Distortion e Husker Du, mas também pela qualidade da gravação, infinitamente superior ao que era feito então.
Graças principalmente ao trabalho de divulgação empreendido por Rafael, através de correspondências via carta, foi um dos grupos sergipanos que mais se apresentou pelo Brasil, fazendo várias turnês pelo nordeste e sudeste, além de montar um importantíssimo intercâmbio que possibilitou a vinda a Aracaju de alguns dos melhores nomes do underground nacional da época, como visto acima quando discorri sobre os shows no Mahalo. Em 1998 conseguiram mais um feito difícil para as bandas sergipanas: lançaram seu primeiro Cd “oficial”, “Waking up waking down”, pela gravadora paulista short Records. Até esta data eram um “Power trio”, com os irmãos Fabinho (baixo e vocal) e Rafael Jr (bateria) acompanhados pelo excelente guitarrista e compositor Daniel, falecido em 2010. Daniel saiu da banda no final da década de 90 para ir morar e trabalhar em São Paulo, o que levou a snooze a um revezamento incessante no posto de guitarrista que segue pela década seguinte adentro, porém sempre mantendo a qualidade do produto final oferecido.
Já o Lacertae surgiu de onde menos se esperava que aparecesse alguma coisa em termos de rock, especialmente com a pegada absolutamente original e experimental que eles tinham: o povoado Campo do Crioulo, no município de Lagarto, interior do estado. Começaram com um som mais “convencional” e pesado, emulando o Pantera, grande febre roqueira do período, mas logo partiram para searas nunca dantes navegadas, utilizando sons obtidos pela percussão de sucata metálica. Eram também um trio, com Paulinho no vocal e percussões esquisitas, Deon na guitarra e Tacer na bateria. Paulinho saiu por problemas pessoais (na verdade ele teve problemas psicológicos, o que o torna uma espécie de “Syd Barret” local) algum tempo após a gravação da demo-tape “100km com um sapato”, que chamou a atenção da crítica Brasil afora e os incluiu no cast da importante coletânea “Brasil compacto”, do selo Rock it, de Dado Villa Lobos, um verdadeiro “raio x” da produção independente brasileira dos anos 90.
Deon e Tacer seguiram como uma dupla, mais uma vez inovando na percussão, já que passaram a usar um berimbau acoplado á bateria. Se inseriram e acompanharam de perto as emergentes cenas de Salvador, que efervescia com novos e grandes nomes como Lisergia, Inkoma, Dead Billies e Dois Sapos e meio, e Recife. Moraram em ambas as cidades e presenciaram “in loco” o embrião do que viria a estourar nacionalmente como “mangue beat”. Por conseqüência, foi provavelmente a banda sergipana que mais teve repercussão na imprensa especializada nacional, com rasgados elogios em importantes veículos como a Folha de São Paulo, a Revista Bravo e o programa Metropolis da TV Cultura.
4.8 – Fanzines
O movimento “fanzineiro” de Aracaju seguiu firme e cresceu muito nos anos 90. Sylvio, da karne Krua, continuava publicando periodicamente seu clássico “Buracaju”, mas desta vez já não navegava mais sozinho pelos mares da troca de papel xerocado. Em 1991 em comecei a publicar meu zine de maior repercussão e que me trouxe muitas amizades e oprtunidades de viagens pelo Brasil, o Escarro Napalm. A primeira edição foi tosca e ainda com aquele clima meio adolescente, apesar de eu já estar na casa dos 20 anos. A capa fui eu mesmo que fiz. Já a segunda edição publiquei em conjunto com o Buracaju de Silvio – foi uma iniciativa inédita e ousada para a época, não me lembro de nenhum outro exemplo de dois fanzines lançados em conjunto numa mesma edição. A temática começou a ser menos politicamente correta e mais escrota, pornográfica até, o que irritou muitos punks que passaram a nos acusar, principalmente a Silvio, que era uma espécie de referência dentro do “movimento”, de sexismo. Olhando agora de longe, não deixavam de ter uma certa razão, mas nossa intenção era mais a de ir de encontro ao bom-mocismo e panfletarismo dos caga-regras de plantão. A partir da terceira edição já tinha um bom número de contatos pelo Brasil afora e pude contar com uma rede de colaboradores, especialmente na questão de arte gráfica propriamente dita, que era o meu ponto fraco. Tive a honra de ter em meu zine o trabalho de grandes artistas marginalizados do underground nacional, como Claudio MSN, Henry Jaepelt, Edgar S. Franco, Yuri Hermuche e Joacy Jamys. O ponto alto desta trajetória foi o convite que me foi feito para participar de um importante festival independente promovido pela prefeitura municipal de Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1994, para onde fui com passagem e hospedagem pagas para participar de um seminário sobre fanzines e onde pude conhecer pessoalmente uma boa parte de meus amigos de correspondência. Foi meu momento “rockstar”, do tipo tomar chá com torradas no café da manhã com os caras do Fugazi e tentar desviar da guerra de comida promovida pelos então moleques metaleiros do Anathema durante o almoço. Inesquecível. Silvio ampliou seu leque de publicações com o Microfonia, dedicado exclusivamente à divulgação de bandas, e o Ultralibido, mais voltado para a sacanagem propriamente dita, deixando o Buracaju meio de lado. Publicava também um informativo chamado A BOMBA, com uma folha oficio em 3 dobras, e o CANAL DIRETO, dedicado exclusivamente a notícias sobre a Karne Krua.
Ainda na década de 90 um grupo de punks se juntou e publicou, com uma qualidade gráfica razoável e uma periodicidade exemplarmente regular, o informativo HUMANISMO, um pequeno órgão de divulgação anarquista. Os textos eram excessivamente rasos e panfletários, mas era válido pela dedicação a uma boa intenção. Além do Humanismo a galera mais punk costumava lançar alguns fanzines que não costumavam passar da primeira ou, no máximo, segunda edição. E haviam as publicações mais exprimentais, usando e abusando de colagens de imagens e fotos, como o EXPRESSÃO MUDA, de Cícero Mago, e os fanzines de Fúria. Jamson Madureira era colaborador contumaz de todos com suas belíssimas ilustrações e passou a publicar seus próprios fanzines de quadrinhos no final da década, chegando a criar um personagem própria, Automazo, sempre envolvido em situações marginais regadas a sexo, drogas e alucinações e banhadas num texto imerso em surrealismo.
Já numa linha mais ligada à literatura havia o SINAGOGA´S BUTTERFLY, de Daniela Gomes, Clarck Bruno e Sergio “Dedão”. Publicava contos e Histórias em quadrinhos, basicamente. Outro ativista desta seara foi Teleu, com a sua “Zé Guiaba produções” publicando fanzines dementes e divertidos que mesclavam poemas “nonsense” com textos divagantes. Não tão divertidos, no entanto, quanto o Putrefy, um dos únicos de que tenho notícia que era publicado no interior, na cidade de Estância, por Alberto “Pereba”. Era um verdadeiro tapa na cara do falso moralismo, escrachado, safado, escroto e escatológico ao extremo. Memorável – e raro, as poucas cópias existentes são únicas, já que o autor tinha o peculiar costume de queimar os originais das edições publicadas.
Mas o melhor fanzine sergipano da década e provavelmente de todos os tempos foi o CABRUNCO, editado por Adolfo Sá (hoje blogueiro) em parceria com Rafael jr. e Márcio “de Dona Litinha”, que na época tinha uma banda chamada MILLER BABES (responsável pelo primeiro show do Pato Fu em Aracaju, no extinto Batata quente da Orla de Atalaia) e atualmente é cantor e zabumbeiro da Naurêa. Começou timidamente, numa edição fininha porém com uma já bela e provocativa arte de capa desenhada por Eduardo Oliveira, outro grande talento local pouco conhecido. A publicação foi ganhando corpo e conteúdo com o tempo até chegar a um nível de excelência nunca antes visto por aqui. Os textos de Adolfo Sá eram excelentes e bastante sinceros, inclusive nas resenhas de shows que fazia, o que o tornou alvo da fúria de alguns egos machucados, culminando com um célebre quebra pau na frente do Cotinguiba, quando um dos artistas criticados foi tomar satisfação e, ao receber uma resposta igualmente sincera e direta como resposta, reagiu com chutes e pontapés. Já Rafael jr, que era encarregado das resenhas de discos, pegava mais leve e tinha mais jogo de cintura. Marcio, que é também professor de Redação, fazia uma interessante sessão de literatura. O Cabrunco teve grande repercussão nacional, com direito a resenha elogiosa na Folha de São Paulo, e até hoje é citado como uma das grandes publicações alternativas do Brasil, ao lado de nomes como PAPAKAPIKA, PANACEA E MASTURBAÇÃO, IOGURTE E ROCK AND ROLL.
4.9 - Rock-se
No final de 1998, um momento de ruptura: A Marginal produções, que já havia sido responsável por alguns eventos memoráveis, como A Boate do porão do Cultart, As festas “Castelo Rá-Tim-Bum” e shows de bandas como Planet Hemp, Nação Zumbi e Mundo Livre S/A, resolve dar um passo além: promover o primeiro Festival de rock digno de nota na cidade. Para tanto, se associou ao Tequila Café e, com o apoio da Emsetur, Empresa Sergipana de Turismo, conseguiu a quadra do Estádio Lourival Batista, o maior do estado, também conhecido como “Batistão”, para a realização do evento.
Eu, que morava praticamente no quarteirão ao lado, mal pude acreditar no “cast” de bandas anunciadas, digno de um evento de grande porte, tipo o Abril pro rock: Pin Ups, seminal banda “indie” paulistana, grande influência para o Snooze, por exemplo, Mechanics, de Goiás, Hannagorik e Eddie, de Pernambuco, Júpiter Scope, Catapulta e Dois Sapos e meio, da Bahia, Living In the shit, de Maceió, Pelvs (que não veio), Squaws, Marcelo D2 e O Rappa, do Rio de Janeiro (Bruno Montalvão, “big boss” da Marginal, tinha muitos contatos no Rio, provavelmente vem daí a predominância de bandas daquele estado na escalação). De sergipanos teríamos Nino Karva e Mangaba Madura, Karne Krua, Snooze, Lacertae, Warlord, Sulanca e Mosaico. Consegui uma credencial de imprensa via Rock Press, revista especializada do Rio de Janeiro para a qual eu colaborava de tempos em tempos e lá estava eu, lado a lado com a equipe da MTV, que cobriu o evento via programa Lado B, apresentado por Fábio Massari, com total acesso ao palco e aos bastidores.
Foram dois dias delirantes em que o rock sergipano ousou sonhar mais alto – depois de tudo veio a dura realidade e as contas que não batiam, o que inviabilizou a continuidade do projeto, mas pelo menos naqueles dois dias, estávamos no mapa da música alternativa feita no Brasil. Um feito e tanto, especialmente se considerarmos que nem se sonhava com movimentos descentralizadores como o “Fora do eixo” na ocasião. O Goiânia Noise e a Monstro discos, por exemplo, estavam em fase embrionária - lembro bem de Marcio Jr. e Cia. Ltda com uma banquinha da nova gravadora e seu primeiro lançamento, o compacto do Mechanics.
O show do Mechanics, por sinal, foi antológico: muito energético, muito “rock” e com um cover matador para “Psycho killer” do Talking Heads. O “hit” próprio deles, “formigas comem porra”, também caiu nas graças do público presente. Outros shows memoráveis se sucederam: Eddie, se redimindo finalmente do fiasco (não por culpa da banda) que foi a primeira vez deles em Aracaju, Pin Ups mandando ver em seu som esporrento com Rafael, do Planet Hemp, substituindo o guitarrista/fundador Zé Antonio, que não pôde vir devido a compromissos profissionais (ele trabalhava na MTV) e Alê, a baixista/vocalista, em constante conflito com o excesso de testosterona da galera do gargarejo, Snooze, que fez um dos melhores shows de sua carreira, provavelmente por estarem, surrealisticamente, dividindo um palco, em sua terra natal, com uma das bandas que mais os influenciou, e Karne Krua, que mandou um sonoro e inesquecível “Rappa de cu é rola” como desabafo pelo grande atraso para subirem no palco porque a citada banda, “estrela” da ocasião, não queria que ninguém tocasse antes deles.
Squaws e Marcelo D2 eu não tive muito saco pra ver, mas resisti heroicamente para presenciar, já na manhã da segunda feira, os três antológicos shows que encerraram a noite: Catapulta e seu esporro percursivo competentíssimo, Living In the shit em uma nova fase (viviam mudando), totalmente reggae – seria o último show que eu veria deles – e Dois Sapos e meio, sempre bastante perfomáticos e conduzidos pela guitarra endiabrada de Peu, que posteriormente seria o primeiro guitarrista da banda de Pitty em fase “rockstar”. Para fechar a maratona com chave de ouro, Montalvão conseguiu a liberação da piscina do complexo aquático e a galera não se fez de rogada: todo mundo caiu na água. Sapulha, o louco, em grande estilo: pulando de um dos trampolins de salto ornamental.
O Rock-se, como mencionei anteriormente, não teve continuidade – apenas uma segunda edição, desfigurada, no ano seguinte, no Espaço Emes – mas marcou toda uma nova geração que se formava, teve seu batismo de fogo naquelas duas noites e montaram bandas e/ou organizaram eventos na década/milênio seguinte.
Depois do Rock-se, o rock sergipano nunca mais seria o mesmo.
#

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

VITÓRIA EM CRISTO !

Com uma leitura singular da Bíblia, o pastor Silas Malafaia ataca feministas, homossexuais e esquerdistas enquanto prega que é dando muito que se recebe ainda mais

por Daniela Pinheiro
revista piauí

e olhos fechados, o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, deixava-se empoar pela maquiadora, que encobria as manchas e o brilho de seu rosto. Dali a pouco, ele gravaria seu programa semanal na televisão. Naquela manhã de agosto, Malafaia estava amuado. Na véspera, soubera que um pastor – de quem se considerava amigo – havia lhe tirado o horário da madrugada na TV Bandeirantes, uma negociação feita pelas suas costas. Também lhe pesava a má repercussão de seu último programa, no qual havia pedido doações de 911 reais e 10 011 reais a seus fiéis. Na internet, o mais polido dos sites que tratou do assunto o chamou de “estelionatário”.
A moça domava suas sobrancelhas com rímel transparente e, antes de lhe baforar laquê nos cabelos, ele falou sobre o caso. “A oferta é o que viabiliza minha missão, que é pregar o Evangelho e arrebanhar o maior número possível de fiéis”, explicou. “Eu gasto milhões, milhões e milhões por mês com horário na televisão, congressos, cruzadas evangelísticas, treinamento de pastores, abrindo novas igrejas. Como se paga isso? Não é um anjo do céu que desce com um cheque em branco para mim.”
Levantou-se da cadeira com os bicos do colarinho em riste, pegou uma gravata vermelho-sangue e, com o queixo colado ao peito, passou à confecção do nó. “Então, quer dizer que eu tomo dinheiro há vinte anos dos pobres coitados e nenhum deles reclama? O cara lá do raio que o parta me dá 10 mil contos porque ele é um burro e eu sou um fera, porque ele é ingênuo e eu fiz lavagem cerebral nele?”, protestou, enquanto conferia a gola no espelho. “Isso é preconceito da elite, que acha que todo evangélico é tapado, idiota, a ralé da classe social explorada por um malandro. O cara dá oferta porque ele sabe onde eu invisto a grana dele, porque ele confia no trabalho que fazemos aqui e não quer que ele acabe.”
Há 29 anos, o carioca de origem grega Silas Lima Malafaia está na televisão falando de Deus. Seu programa Vitória em Cristo é como um longo comercial da Polishop – ofertas e promoções de DCs, livros e DVDs de sua empresa, a Central Gospel –, intercalado de sermões bíblicos e mensagens na linha motivacional/autoajuda de matriz norte-americana. Dublado em inglês, é transmitido via satélite para 200 países pela Daystar e Inspiration Network, redes evangélicas dos Estados Unidos. No Brasil, Malafaia pode ser visto na Rede TV, Rede Bandeirantes e CNT, emissoras nas quais compra horário.
O seu discurso é socialmente conservador, e suas trovoadas retóricas recaem sobre grupos organizados que militam pela afirmação das minorias e pelos direitos individuais. Considera-os liberais, termo que nas suas pregações ganha conotação pejorativa, deslizando no mesmo campo semântico de libertinagem: umbandistas, a esquerda da Igreja Católica, pastores de outras denominações religiosas, feministas, defensores do aborto e da eutanásia. Nos últimos tempos, o seu alvo predileto tem sido os gays.

os 53 anos, Malafaia anda impecavelmente penteado e se veste com apuro, não obstante os ternos marrons e as gravatas em tons plausíveis apenas na paleta da Caran D’Ache. Há anos, compra roupas e acessórios na mesma loja de um shopping na Flórida. O bigodão preto que o acompanhou por décadas foi tirado há quatro anos para rejuvenescer sua imagem. Ele tem um forte sotaque carioca que transforma a letra “s” em “r” característico, como em “são duarr da tarde”.
No púlpito e na televisão, cultiva um estilo iracundo e indignado – o que lhe valeu o apodo de “Ratinho Evangélico”, em referência ao apresentador cascadura do sbt, de quem é amigo. Ao defender seus pontos de vista, fala de maneira virulenta, mas ao pedir dinheiro ou vender seus produtos é ameno e não adota a estratégia do pé na porta. “Eu sou o único pastor que realmente prega a palavra de Deus na televisão.” E explicou: enquanto o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, dedicaria muito tempo de seu programa ao exorcismo e ao pedido de ofertas; o apóstolo Valdemiro Santiago (Igreja Mundial do Poder de Deus), à cura; e o missionário R. R. Soares (Igreja Internacional da Graça de Deus), a transmitir imagens de cultos de sua igreja, ele interpreta a Sagrada Escritura à luz da vida cotidiana – o que faz de sua exegese bíblica uma peça única.
Recentemente, quando pregava como a glória de Deus pode deixar a vida do crente, ele tratou assim da cobiça e do pecado: “Aí vem a irmã dentro da igreja com a roupa arroxada, os dois melões de fora e o cara do lado só olhando, só no somebody love. (...) Se você está indecorosa, você peca e faz o outro pecar! E se você deixa sua mulher sair assim, você é um mané, um otário! Bota o silicone que você quiser, minha irmã! Mas se você quiser ser o instrumento do pecado, a glória de Deus vai embora e você vai pagar a conta com Jeová!”
Entre o anúncio de um kit de Bíblias e a interpretação de um versículo, Malafaia também divulga campanhas para arrecadar doações, como a do Clube de 1 Milhão de Almas, na qual o fiel doa 1 mil reais em troca de uma graça igualmente generosa. O objetivo é levantar 1 bilhão de reais com 1 milhão de doações. No final de agosto, o contador eletrônico de seu site contabilizava quase 38 mil adesões. Malafaia também já pediu para os fiéis doarem parte do aluguel e 30% de seus rendimentos, em vez do dízimo literal de 10%. Em abril, quando tinha uma promissória de 1,5 milhão de reais a vencer, superou-se: pediu ofertas individuais de 100 mil reais. Levantou o dinheiro em menos de uma semana. “Ralé que doa 100 mil... As pessoas não têm ideia do que está acontecendo no meio evangélico”, disse-me no camarim do estúdio de televisão.

 sede da Associação Vitória em Cristo ocupa uma área de 40 mil metros quadrados no bairro de Jacarepaguá, Zona Norte do Rio. A construção moderna e envidraçada contrasta com os arredores de comércio pobre e terrenos baldios abandonados. A entidade cristã – considerada sem fins lucrativos, o que a exime do pagamento de impostos – financia as ações do ministério religioso de Malafaia. São projetos sociais em favelas, cruzadas evangelísticas – que reúnem mais de 100 mil pessoas em praças públicas pelo Brasil –, congressos pentecostais, encontros anuais para a formação de mais de 3 mil pastores, além de seu programa na tevê. Por ano, fatura 40 milhões de reais, captados nas ofertas e doações de fiéis e admiradores. Segundo Malafaia, 20% dos que lhe mandam dinheiro não são evangélicos.
No ano passado, a entidade adquiriu por 4 milhões de dólares, nos Estados Unidos, um jato Gulfstream III de segunda mão. É nele que Malafaia e sua família se locomovem pelo Brasil e no exterior. Fabricado em 1986, o avião tem doze lugares, sofá, cozinha, sistema individual de entretenimento e autonomia de oito horas de voo. Em sua fuselagem está escrito In favour of God.
Numa manhã de julho, em seu escritório decorado com sobriedade em tons de preto e carvalho, ele usava um cardigã de listas azuis e brancas da grife Tommy Hilfiger, calça social e sapatos de verniz pretos. Como muitos pastores, também é adepto do relógio dourado, do anel de brilhantes na mão direita e, eventualmente, do celular pendurado no cinto.
Desde 2006, quando o Projeto de Lei 122, que criminaliza a homofobia no país, entrou na pauta dos parlamentares, Malafaia se tornou uma das principais vozes contrárias à causa. Foi ele quem, em junho, conseguiu reunir 50 mil pessoas em frente ao Congresso Nacional para protestar contra a votação. Também pediu a seus 180 mil seguidores no Twitter para entupir a caixa postal e congestionar os telefones de parlamentares favoráveis à proposta – no que obteve sucesso. Dias depois, na Marcha para Jesus, em São Paulo, ganhou espaço em jornais e televisões ao dizer que o Supremo Tribunal Federal havia “rasgado a Constituição” no momento em que aprovou a união homossexual.
“Não tenho problema com gay, tenho problema com ativista gay, porque são um bando de intolerantes, intransigentes, antidemocráticos”, falou. Segundo ele, caso o projeto seja aprovado, um diretor de escola que reclame de dois meninos se beijando no recreio poderá parar na cadeia.“Todo mundo se acha no direito de chamar evangélico de ladrão e não acontece nada. Mas se alguém falar um ‘a’ dessa bicharada, é o fim do mundo”, disse. (Há controvérsias. “Dependendo de como odiretor abordasse o casal, caberia uma reprimenda, mas prisão nunca. De qualquer maneira, essa cena não aconteceria num colégio, onde nem héteros podem ficar se beijando”, explicou Denise Taynah, assessora da Superintendência de Direitos Individuais Coletivos e Difusos, do governo do Rio de Janeiro.)
Malafaia estava perplexo. Não conseguia compreender como o Supremo Tribunal Federal garante o direito à liberdade de expressão para a Marcha da Maconha enquanto uma lei federal cogitava punir quem não concordasse com a homossexualidade. “Também fico louco porque essas bichas ganham dinheiro para viver nessa palhaçada. Sabe quem patrocina a Parada Gay? Petrobras, Caixa Econômica. É com o nosso dinheiro”, protestou.
Ao argumento de que um evangélico não corre o risco de ser espancado na rua por preconceito – como havia ocorrido com o pai que andava abraçado a seu filho e ambos foram tomados por um casal gay –, ele respondeu que o episódio foi uma “idiotice altamente condenável”, porém se tratava de uma tragédia isolada. “Mas os gays vão lá e propagandeiam como se fosse regra. Para isso, que é verdadeiramente homofobia, tem que ter cadeia, mas o que eles querem é privilégio”, disse. Depois que avivou a polêmica com os homossexuais, Malafaia passou a ser acompanhado por dois seguranças à paisana. “Se eu chegar num aeroporto e tomar tapa de bicha, vai ficar mal, né?”
Segundo Malafaia, a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais tentava, sob o argumento da homofobia, cassar pela terceira vez o seu registro de psicólogo junto ao Conselho Regional de Psicologia. Essa seria a origem de sua rusga com o movimento gay. “Se quisessem apenas defender os direitos deles, o.k., eu não ia me meter, tenho mais o que fazer. Mas quando vi que o que queriam era cercear o MEU direito, aí me chamaram para a briga”, falou. Sobre a possibilidade de perder a licença profissional, ele não se deixa abalar. “O que falo digo no púlpito, não em consultório, por isso o Conselho nada tem a ver com isso. Mas toda hora eles conseguem reviver essa história porque ali tem um bando de viado que foi fazer psicologia para se descobrir”, completou.
Sua secretária – elegante e de preto, como todas as funcionárias da empresa – serviu água em copos de cristal. Malafaia se lembrou de outro embate à época da discussão do aborto na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. “Eu não debato tema polêmico usando religião. Eu uso a ciência, a biologia, a medicina, por isso não conseguem me contestar.” Afirmou ter emudecido os presentes ao desafiá-los a dizer se era a mãe ou o bebê quem controlava o líquido amniótico do útero ou decidia sobre a data de um parto normal – o que deixaria patente que o agente ativo da gravidez é o feto e, portanto, ele tem vida própria.
Para Malafaia, o mundo está em decadência e os valores da sociedade estão no fundo do poço. Sua missão, como pastor e profeta de Deus, é chamar a atenção das pessoas para o que prega o Evangelho. Como exemplo da debacle humana, citou o caso de um pedófilo, preso nos Estados Unidos, que obteve o direito, concedido pela Suprema Corte, de assistir na prisão a todos os vídeos pornográficos que gravou com crianças. “Aí, você vai quebrando, você vai afrouxando, vai banalizando ser pedófilo, daqui a pouco eles estão pedindo também para serem respeitados”, disse. Referia-se ao caso do piloto Weldon Marc Gilbert, preso em 2007, que, por ter assumido a própria defesa, teve acesso, durante o processo,às peças incriminatórias sem as quais não poderia se defender.
Se um homem deseja fazer sexo com outrohomem, o que teria ele a ver com isso? “Nada! Cada um faz sexo com quem quiser. O que tenho é o direito de falar que isso é pecado, que é condenado por Deus e que a Bíblia diz que é uma perversão. Agora, o que esse pessoal quer não é o direito a fazer sexo – porque isso já fazem e não vão parar de fazer. Eles querem é colocar uma mordaça na nossa boca para nos proibir de falar qualquer coisa sobre eles. Olha o absurdo que é isso!”, indignou-se.

alafaia nasceu na Tijuca, Zona Norte do Rio, filho de um militar da Aeronáutica – que, ao se aposentar, tornou-se pastor – e de uma diretora de escola, ambos ligados à Assembleia de Deus. Desde criança, participava de cultos domésticos e acompanhava os pais em eventos evangélicos. Aos 14 anos, conheceu Elizete, de 13, com quem viria a se casar e a ter três filhos. Um irmão dele também se casou com uma irmã dela.
Foi nessa época que ele diz ter recebido “o chamado”. Ouvia uma pregação, quando no meio da frase do pastor sentiu algo inexplicável. “É como um estalo. De repente, tudo passa a fazer sentido. Você consegue integrar o emocional, o intelectual, o psicológico, você entende por que você está aqui. É uma coisa muito forte e muito pessoal”, contou. A experiência foi marcante, mas ele tinha dúvidas, sobretudo quando notava as dificuldades financeiras enfrentadas pelos religiosos de seu círculo social. Aos 20 anos, andava pela rua pensando no assunto, quando foi abordado por um amigo que, do nada, lhe disse para não temer porque ele teria como sustentar sua família. “Era Deus falando através dele”, disse Malafaia. Foi a confirmação de sua vocação de evangelizador.
Ele, a mulher e amigos faziam parte de um grupo gospel chamado Coral e Orquestra Renascer, no qual era o baterista. Chegaram a gravar um LP, apresentavam-se em qualquer galpão e, nos fins de semana, Malafaia alugava uma Kombi para evangelizar mendigos e turistas na praia de Copacabana. A família vivia com os rendimentos da mulher, que trabalhava na Caderneta de Poupança Letra. Foi quando cursou a Faculdade de Teologia do Instituto Bíblico Pentecostal. Com diploma em mãos, tornou-se, aos 23 anos, pastor auxiliar na Assembleia de Deus da Penha, onde seu sogro era titular, ganhando cinco salários mínimos por mês.

os anos 80, quando algumas emissoras brasileiras passaram a retransmitir programas de televangelistas americanos – como Jimmy Swaggart e Rex Humbard –, Malafaia ficou fascinado com o poder de evangelização da tevê. Vendeu um carro, pediu dinheiro emprestado a um amigo bem posicionado na hierarquia da igreja e contou com a simpatia de um rico empresário evangélico, Sotero Cunha, que durante anos o ajudou financeiramente. Foi assim que comprou um horário na antiga TV Record (atual CNT).
Com duas câmeras paradas, sentado atrás de uma mesa, Malafaia chamava pastores para cantar e palpitava sobre qualquer assunto. Com muitas contas a pagar, completava o orçamento com palestras, conferências e sermões em igrejas de amigos. Em uma ocasião, chegou a pregar noventa vezes em setenta dias. Perdeu a voz. Em 1990, ele já era o campeão de audiência da emissora.
“A explosão dele se deu quando passou a aparecer em rede nacional descendo o pau em todo mundo e falando de temas atuais. Ele não poupava ninguém. Falava de pastor safado, de evangélico falso, de político corrupto. As pessoas sentiam que ele estava verbalizando publicamente o sentimento que cada um carregava dentro de si”, disse o pastor Silmar Coelho, um dos melhores amigos de Malafaia, durante uma viagem de avião.
Ia para as gravações de ônibus pela manhã e à noite cursava psicologia, na mesma sala da mulher, na Faculdade Gama Filho, no Rio. Nunca atendeu pacientes em consultório. Sua visibilidade e intrepidez no discurso atraíam ofertas, que ele sempre pediu. Com dinheiro em caixa, passou a organizar eventos de evangelização e, paralelamente, investia em oportunidades que nunca foram para frente: loja de decoração, fábrica de “guaraná gospel” e uma rádio.
Em seus negócios privados, sua grande alavancada, como ele diz, deu-se quando conseguiu vender Bíblias em parcelas a perder de vista na televisão. Até então, as editoras dividiam o valor em apenas três vezes. Graças à amizade com um evangélico da diretoria do Banco Cédula, no Rio, Malafaia conseguiu que lhe dessem crédito na emissão de boletos bancários e junto a operadoras de cartão de crédito. Em 2005, em três meses, vendeu 100 mil Bíblias de 120 reais divididos em dez vezes sem juros – um recorde ainda inédito no mercado.

ra hora do almoço e Malafaia se dirigiu a uma sala a poucos metros da sua, que faz as vezes de refeitório da diretoria. Réchauds prateados ocupavam uma mesa comprida, diante da qual o cunhado, a cunhada, uma filha e a nora faziam seus pratos. Quase toda a família trabalha na Associação Vitória em Cristo ou na Editora Central Gospel – que dividem o mesmo prédio –, onde exercem cargos administrativos. Além deles, Elizete é conferencista, autora e também apresenta um quadro no programa de tevê do marido, e o primogênito Silas Filho, formado em teologia nos Estados Unidos, é pastor e vice-presidente do conglomerado.
Enquanto comia, Malafaia contou ter aberto mão do salário de pastor da Assembleia de Deus da Penha e disse que não usava um centavo das verbas da associação para despesas pessoais. Segundo ele, sua única fonte de renda era o que retirava como empresário na Central Gospel, cujo catálogo chega a quase 600 títulos, entre livros, CDs e DVDs. Os autores são ele mesmo, seus familiares, amigos ou pastores best-sellers americanos.
De sua lavra, Malafaia lança a média de quatro livros por ano. São cerca de noventa publicados, todos entre 64 e 72 páginas (“Mais do que isso, o cara não lê, acha grosso demais”), cujo enfoque é quase sempre superar desafios e romper barreiras no contexto da palavra divina. Um ghost-writer reúne suas falas em palestras, cultos e congressos e as transforma em texto corrido. Os títulos incluem Lições de Vencedor, O Perigo da Inversão de Valores, Como Vencer as Estratégias de Satanás, O Cristão e a Sexualidade, entre outros.
A Central Gospel é a segunda editora que mais vende livros evangélicos no país, em torno de 1 milhão de exemplares por ano. Recentemente, a empresa de cosméticos Avon, que agora também distribui produtos populares, comprou um lote de 400 mil livros para comercializar de porta em porta. Segundo Malafaia, seu patrimônio se resume a uma casa, quatro apartamentos pequenos no Recreio dos Bandeirantes, um no Espírito Santo e um imóvel de dois quartos, financiado em trinta anos, em Boca Raton, na Flórida. Ao ouvir que, para um empresário de sucesso, o patrimônio parecia modesto, respondeu que ele não era ganancioso.
Desde 2007, Malafaia já foi investigado duas vezes pela Receita Federal e outras três pelo Ministério Público Federal por suspeita de desvio do dinheiro do dízimo e lesão à crendice popular. Em uma das vezes, disse que ficou provado o erro de um contador que, sem sua anuência, deixou de recolher um tributo. “Paguei tudo no outro dia sem contestar. Quem atira pedra como eu atiro não pode ter telhado de vidro. Eu sou besta?” Quando se servia de sobremesa, pediu para remarcarmos o próximo encontro, pois o prefeito do Rio, Eduardo Paes, o chamara para uma conversa de última hora. “Já até sei o que ele quer”, disse rindo.

stima-se que 45 milhões de brasileiros sejam evangélicos, mais da metade deles ligados a denominações chamadas pentecostais. É o grupo que acredita em dons espirituais extraordinários, como a cura de enfermidades, o exorcismo, a liberação de profecias e o dom de falar em línguas estranhas (glossolalia), como ocorreu no Dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo se manifestou aos apóstolos por meio de línguas de fogo e fez com que eles pudessem se comunicar em outros idiomas com a multidão.
Com forte estrutura midiática, as igrejas pentecostais deram origem às neopentecostais, que catapultaram às alturas a ideia da valorização do aqui e do agora, da atuação do diabo na vida cotidiana e da relação de troca monetária entre Deus e os homens.
Testemunhos de ventura e redenção, insistentemente repetidos nos programas, sites, jornais e revistas das igrejas neopentecostais, fazem com que a esperança do alcance da graça nunca esmoreça. A promessa da prosperidade terrena é sua marca mais evidente. “Antes era: céu, céu, lindo céu, quando eu morrer eu vou ter tudo, mas enquanto isso, aqui na Terra, eu serei um lascado, todo ferrado. Mas a Bíblia fala da vida abundante, de a pessoa conquistar e ser feliz aqui e agora”, explicou-me Malafaia, uma tarde em seu escritório. “Na Bíblia, o assunto finanças é como qualquer outro, as pessoas é que fazem alarde com isso”, disse. Uma das passagens mais evocadas pelos neopentecostais é a Segunda Carta de Paulo aos Coríntios: “Aquele que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia com fartura com abundância também ceifará.”
Na Vitória em Cristo não se fala em dinheiro, mas em semente; tampouco em graça, diz-se colheita. Por isso, menções à parábola da semente, do Evangelho de Marcos, capítulo 4, versículos 26 a 29, são recorrentes. “O Reino de Deus é assim como se um homem lançasse uma semente à terra (...) porque a terra por si mesmo frutifica (...) e quando já o fruto se mostra, mete-lhe logo a foice, porque está chegada a ceifa.” É o que Malafaia chama de “princípio da agricultura” ou “lei da semeadura”: quem quer receber dinheiro deve doar dinheiro. “O semeador planta a semente do limão porque ele quer colher limão, não laranja ou mamão ou abacaxi”, costuma repetir em suas pregações.
Na porta de entrada de sua casa, no Recreio dos Bandeirantes, há uma plaquinha em forma de borboleta onde se lê: “Aqui mora gente feliz.” O imóvel de dois pavimentos é grande, mas não suntuoso. É decorado com muitos objetos dispostos pelas estantes e em mesinhas. Os móveis, talhados em madeira, parecem saídosde um castelo: imensos, pesados, escuros. Há dezenas de porta-retratos mostrando a família em natais, passeios no Beto Carrero World ou em viagens ao exterior.

um fim de tarde, Elizete Malafaia, de 51 anos, uma mulher delicada e simpática, arrumava-se para o culto do marido, na igreja da Penha. Quando bati o joelho pela terceira vez na mesa de centro, ela se desculpou dizendo que o mobiliário – originário da casa da família nos Estados Unidos – era mesmo grande demais para aquele ambiente. Ao volante de seu utilitário preto, ela se dizia preocupada com as polêmicas levantadas pelo marido, sobretudo com os homossexuais.
Segundo ela, não há casos na família. “Se tivesse, iríamos ajudar a tratar, não tenho preconceito”, afirmou. Na igreja, disse, há vários que são facilmente identificáveis. Basta observar como se comportam nos shows de cantoras gospels. Como psicóloga, ela também atendeu inúmeros gays e sustentou que a maioria teria sido abusada na infância. “A homossexualidade é uma desorganização emocional e espiritual. Se a pessoa não perdoou o abuso, ela canaliza aquela raiva para a vingança e, inconscientemente, se torna um abusador também.”
Elizete queria saber se eu acreditava em Deus, se era cristã, se já havia lido a Bíblia, se já havia ido a algum culto evangélico, se havia sido batizada na Igreja Católica. Respondi não a todas as perguntas. Falou-se sobre Deus e o Diabo. Ela afirmou que as forças do mal se empenham a todo instante em impedir que o mundo e o ser humano se aperfeiçoem. “Eu não tenho problema com quem não é cristão, mas você pelo menos acredita no bem e no mal?” “Não no sentido metafísico”, respondi-lhe. Não houve mais perguntas.
Quando o carro passou em frente a um templo da Universal, ela estabeleceu a diferença de sua igreja com a de Edir Macedo. “A Universal é como um hospital onde as pessoas chegam muito doentes.” Ali, elas conseguiriam se recuperar de vícios, colocar a vida nos eixos e afastar do cotidiano a presença do mal. “Mas elas não encontram a palavra de Deus para continuar seguindo a vida cristã”, disse. “E é aí que entramos. Somos uma igreja da palavra, do Evangelho, do caminho.”
Até dezembro de 2009, Malafaia era somente um pastor auxiliar, apresentador de tevê, conferencista motivacional e dono da Editora Central Gospel. Com a morte de seu sogro, que foi por 43 anos titular da Assembleia de Deus da Penha, Malafaia assumiu um rebanho de 17 mil fiéis e 104 templos espalhados pelo estado do Rio. Sua primeira medida foi adicionar o nome Vitória em Cristo para caracterizar sua própria igreja. Para fazê-lo, pediu demissão do cargo de tesoureiro da Convenção Geral das Assembleias de Deus, que era contrária à criação da subdenominação. Deixou a função dizendo que as finanças da instituição eram “caso de polícia”.
A Vitória em Cristo tem 150 pastores contratados, cujos benefícios incluem casa mobiliada, escola para os filhos e plano de saúde. O salário de um pastor iniciante gira em torno dos 3 mil reais e pode chegar aos 20 mil por mês, com direito a carro do ano. “Mas não adianta o cara vir com chorumela: tem que saber ler a Bíblia, pregar, explicar”, disse. Em sua igreja, fiéis desempregados ou recém-demitidos têm direito a uma cesta básica (“E não é com arroz de quinta, não!”) até se restabelecerem. Desde que assumiu a igreja, ele já atraiu 7 mil novos crentes e abriu outros nove templos pelo Brasil, rompendo a redoma fluminense. Tem planos de inaugurar outras 250 igrejas nos próximos cinco anos.
Segundo ele, no Brasil, há um imenso campo para evangelizar pessoas. Elepretende ser a alternativa dos fiéis da Assembleia de Deus que deixaram de se sentir representados pelo que ele chama de “assembleiossauros”: “Aqueles que vão jogar futebol de calça comprida”, disse, fazendo graça com o tradicionalismo de seus pares. Até pouco tempo, os assembleianos eram proibidos de ver televisão, ir à praia ou jogar futebol. Ainda hoje, nas subdenominações mais conservadoras, as mulheres usam saias e cabelos compridos. “Eu quero ser essa opção. Tudo me favorece: tenho visibilidade, credibilidade por estar trinta anos na tevê, comungo dos princípios da Assembleia de Deus, mas não fiquei parado no tempo, sou contemporâneo.”

naugurada em maio, a Vitória em Cristo da cidade de Curitiba é o retrato do que Malafaia quer espalhar pelo Brasil. O prédio envidraçado de três andares tem um auditório com mais de 3 mil lugares, palco forrado com madeira na cor caramelo, telões e modernos equipamentos de luz e som. O sistema de ar-condicionado e de calefação “nem o aeroporto da cidade tem”, diz ele com orgulho. O espaço é amplo, todo branco, conferindo ao ambiente uma sensação de limpeza e modernidade.
Em noite recente, o pastor titular – um jovem carioca de óculos e roupas modernas – alternava-se entre anunciar a agenda dos eventos e ler sua Bíblia num iPad. Antes do sermão, um dos melhores amigos de Malafaia, o pastor Jabes Alencar, e o filho deste, igualmente pastor e cantor contratado pela Central Gospel, ensinavam à plateia os gestos que acompanhavam um louvor em ritmo de xote:
O inimigo pelejou
mas não conseguiu
Ele tentou me derrubar
Eu chamei por Jeová
mas foi ele quem caiu

Luzes coloridas e estroboscópicas iluminavam todo o palco e a banda aumentara o volume. Homens, mulheres e crianças dançavam como se estivessem numa discoteca. Antes de deixarmos o local, Malafaia fez questão de mostrar o 2º andar da igreja, onde havia berçários e salas de recreação infantil que não pareceriam deslocados na capa de uma revista de decoração. “Eu não faço porcaria, está vendo? Se eu gosto de coisa boa, imagina Deus”, disse.

ram sete e meia da noite quando Malafaia subiu no púlpito da igreja Vitória em Cristo, na Penha. Os 2 500 lugares estavam ocupados e ainda havia muita gente em pé. O público era, em sua maioria, de mulheres jovens, maquiadas e bem-vestidas, como se estivessem voltando do trabalho. Representavam a ascensão das classes populares brasileiras. Eram as novas secretárias, vendedoras, telefonistas, recepcionistas. Os homens presentes vestiam terno e gravata ou paletó com camiseta por baixo. “A paz do Senhor, irmãos”, disse Malafaia saudando a plateia de microfone em punho.
Durante os 25 minutos seguintes, Malafaia prestou contas e expôs seus planos aos fiéis. Disse que aquele espaço entraria em reforma para acomodar 20 mil pessoas sentadas, que a igreja em Curitiba havia custado 6 milhões de reais (“Feita com a obra e o dízimo de vocês, aleluia”), que a igreja de Nova Iguaçu vai custar 3 milhões de reais, que precisava ainda levantar 2 milhões para concluir o templo de Joinville e outro 1,5 milhão para o de São José dos Pinhais. Contou que, na véspera, havia batizado coletivamente 1 107 pessoas no Piscinão de Ramos, que na televisão “tudo é patrocinado” e que ele gastava “milhões de reais por mês” para se manter no ar. Reiterou a promessa de abrir uma igreja em todos os “cantos desse país” e disse que ali não era clube nem terapia coletiva, então era preciso compromisso por parte dos crentes.
“Como a gente faz tudo isso? Só com a liberalidade e a fidelidade dos irmãos. Vamos zerar essa conta. Se você quiser fazer uma oferta especial, peça um envelope para você”, disse a todos. “Vamos orar para Deus dar as verbas para vocês. Frutifica a semente que eu e meus irmãos plantamos!”, gritou. Ouviam-se brados de “Aleluia”, “Glória a Deus” e “Louvado”. Alertou: “Ninguém pode ser constrangido a dar oferta. Ninguém é obrigado a dar. Ninguém quer que você tire o pão da boca das crianças nem que se endivide.”
Uma banda começou a tocar uma música etérea, suave. Dos cantos do auditório, saíram rapazes e moças distribuindo pilhas de envelopes onde se lia a frase “Minha semente para uma colheita abençoada”, impressa sobre uma foto de ramos de trigo. Dezesseis deles também carregavam máquinas Cielo para o pagamento da doação em cartão de débito ou crédito. Na Vitória em Cristo, 30% das ofertas são acertadas no cartão. “Não se envergonhe, não se cale, você é um agente de Deus”, disse Malafaia. O barulho dos zíperes de bolsas e carteiras era ensurdecedor.
Do alto, ele mantinha uma postura de desbravador, espichando a vista em direção ao horizonte. Uma mulher com unhas de esmalte negro escreveu algumas palavras no envelope e doou 50 reais; a que estava a seu lado,20 reais. Malafaia tirou o paletó e anunciou uma agenda de compromissos e eventos. Os presentes conversavam entre si e alguns cantarolavam baixinho a música ambiente.
A seguir, indo de lá para cá no palco, Malafaia contou que, no dia anterior, havia recebido 800 mil reais de um empresário amigo, que queria ajudar seu ministério. “Mas eu disse a ele: ‘Você acha que isso está comprando sua salvação, irmãozinho? Nãããnaninanina! Eu aceito a oferta, mas você tem que mudar a sua vida, você tem que aceitar Jesus, ajoelha aí.’” Em 2009, em entrevista a um site evangélico, Malafaia havia relatado uma história parecida, mas o benfeitor era um atacadista e o valor era de 130 mil reais.
Malafaia perscrutava a plateia, como que preocupado com a possibilidade de uma ovelha se desgarrar. Quando percebeu que o movimento dos obreiros havia cessado, deu a ordem: “Levanta o seu envelope aí.” E, como uma onda feita por torcidas em estádios de futebol, os envelopes foram surgindo um a um e ficaram suspensos no ar. “Glória a Deus”, ele disse antes de iniciar uma oração. Dias depois, calculou ter arrecadado por volta de 10 mil reais naquela noite. “Era meio do mês, o pessoal já está com o dinheiro mais contado”, explicou. Só com dízimos e ofertas, a Vitória em Cristo tem uma receita de 20 milhões de reais por ano. Malafaia sustenta que, proporcionalmente ao número de fiéis, é a maior arrecadação das Assembleias de Deus no país.
O sermão da noite era “Vida de fé ou incredulidade. Qual é a sua?”. Na Vitória em Cristo, não há ênfase em cura ou exorcismo. Malafaia prega sem anotações, apenas consultando a Bíblia para ler as passagens que menciona. Sua performance é uma combinação de memória prodigiosa e desempenho cênico. Ele é onomatopeico, careteiro e versátil no uso da voz – com a qual percorre uma escala extensa, do falsete quando imita alguém que faz uma pergunta tola, ao grave profundo que enfatiza uma frase mais solene.
 “É você contra o departamento em que você trabalha, é você contra o seu chefe, contra sua família, mas você está com Deus. Para Ele, você é maioria sempre!”, disse o pastor falando sobre autoestima. Leu o versículo 31 do livro dos Números, no capítulo 13. “Porém os homens que com ele subiram disseram: ‘Não poderemos subir contra aquele povo porque é mais forte do que nós.’” Encarando a plateia com o dedo espetado no ar, gritou: “Sabe o que Deus está dizendo aqui? Que aqui tínhamos que viver como ferrados. Era assim.” Da plateia ouviam-se louvores.
“E olha aqui o complexo de inferioridade!”, exclamou diante do versículo 33: “Também vimos ali gigantes (...) éramos aos nossos olhos como gafanhotos e assim também éramos aos seus olhos.” Com a voz ainda mais alta e trêmula, ele trovejou: “Você está se vendo errado, irmão! Você não é gafanhoto! Tem gente que acha que você é inteligente! O complexo de inferioridade é CON-TA-GI-AN-TE! Enterra essa ideia, irmão!” Uma mulher gritou: “Aleluia!” Na minha frente, uma grávida sentada num degrau do altar enxugava lágrimas. “Olha para o seu irmão e diz: ‘Deus tem um projeto para você!’” A meu lado, Elizete Malafaia me olhou nos olhos e falou: “Deus tem um projeto para você e para toda a sua geração!”
Ao final, Malafaia convidou aqueles que estavam se reconciliando com Deus a se aproximar do palco. Eram pessoas que haviam largado a igreja ou ainda andavam em pecado. Oito delas apareceram, foram abençoadas e abraçadas por obreiros, que as ampararam para deixar o local. Depois de duas horas, o culto foi encerrado. Havia uma sensação de redenção e bem-estar no ar. As pessoas pareciam satisfeitas, cheias de si, animadas e confiantes. Malafaia foi cercado pelos fiéis que queriam fotos e consultas individuais. Na saída da igreja, sentia-se um forte odor de fritura e lixo. Dezenas de carrinhos de churros, pipocas e mesas de camelôs dividiam a calçada com detritos de sacos de lixo que haviam sido violados – provavelmente por algum catador de latinhas à procura de alumínio.

alafaia sempre foi brizolista. Votou em Lula duas vezes e, nas últimas eleições, de última hora, declarou apoio ao tucano José Serra. No início da campanha, disse que votaria em Marina Silva, que também é da Assembleia de Deus, mas mudou de ideia depois de ouvir que ela proporia um plebiscito sobre o aborto. Na TV Record, o bispo Edir Macedo insinuou que Malafaia teria recebido dinheiro para mudar de lado. “Arrumei 200 mil votos para o Marcelo Crivella [senador eleito pelo PRB do Rio e sobrinho de Macedo] e o tio dele vem me fazer uma dessas. Ele ia perder pro Picciani, eu me desdobrei... Agora a gente vê quem é o venal”, disse.
O pastor acredita que o Brasil terá em breve um presidente da República evangélico, mas que não será alguém saído dos quadros da igreja. “É alguém que surgirá da política e que, contingencialmente, será evangélico”, especulou. Segundo diz, uma bancada representativa no Congresso pode cauterizar, ainda na origem, projetos como o da legalização do aborto e da descriminalização das drogas. Hoje são 73 parlamentares, mas acredita que o número pode dobrar. Na eleição passada, os três candidatos a deputado federal que apoiou somaram mais de 300 mil votos. Seu irmão, Samuel Malafaia, foi o terceiro deputado estadual mais votado do Rio.
Eduardo Paes o havia chamado para tirar a limpo o boato de que Malafaia pensava em concorrer à Prefeitura nas próximas eleições. “Respondi que nem pensar. Mas ele sabe que trago votos”, disse-me dias depois do encontro. Em 1995, quando o bispo Von Helder, da Universal, chutou uma imagem de Nossa Senhora na televisão, Malafaia foi um dos líderes evangélicos que saiu publicamente em sua defesa. Edir Macedo ficou bem impressionado e o convidou para se lançar candidato a deputado federal em 1998, com a perspectiva de construir o seu nome como alternativa da Igreja Universal à Presidência. “Mas não era minha praia. Não nasci para ser político, sou um pregador”, disse durante um almoço em um hotel de Brasília. A recusa lhe custou o programa que tinha na Record. Desde então, a relação com Macedo é turbulenta.
Em que Malafaia acha que se diferencia do líder da Igreja Universal? “Eles estão muito violentos nessa coisa de pedir dinheiro”, explicou. “E adotam um discurso perverso na relação com os fiéis. Dizem que, se você não tem uma coisa, é porque você não crê. Já eu afirmo que, se você não tem, é porque foi burro ou jogou a oportunidade fora”, prosseguiu. “O Macedo era um cara de ideais extraordinários, mas se perdeu por causadessa tentativa desenfreada de destruir a Globo. Hoje ele usa o dízimo e as oferendas para bancar o profano, aquele lixo moral, que apresenta na programação da emissora dele.”

m dos eventos mais importantes organizados pelo ministério de Malafaia é o Congresso Fogo para o Brasil. No final de julho, reuniu 3 600 pessoas no Centro de Convenções, em Brasília. O público era composto de pastores de outras denominações, protestantes de várias partes do Brasil, fiéis da Vitória em Cristo e curiosos que o seguem pela televisão.
Já na entrada, via-se um guichê da TAM, que vendera pacotes de até 2 700 reais por pessoa pelos quatro dias de palestras com preletores de várias igrejas, hotel, traslados e café da manhã. Os corredores estavam apinhados de prateleiras lotadas dedvds, CDs, livros e Bíblias em diversos estilos. Todos tinham a etiqueta da Central Gospel. Uma das Bíblias mais procuradas era a de capa de couro imitando estampa de onça, alcinha que a transformava em bolsa de mão e espelho interno para maquiagem. Custava 10 reais. Havia produtos para todo tipo de público e de interesse. Crianças tinham à disposição toda a coleção da Turma do Cristãozim, com o Evangelho ilustrado; adolescentes eram o foco da série de revistas A Galera de Cristo e mulheres podiam comprar até livros de receitas coroados com reflexões bíblicas.
Um banner na entrada dos 26 guichês de caixa avisava que as compras de mais de 29 reais poderiam ser divididas em duas vezes sem juros e as superiores a 150 em até dez vezes. Quem gastasse mais de 400 reais estaria concorrendo ao sorteio de oito iPads. Na fila ao lado do marido, a funcionária pública Bruna Cristina Moura, 25 anos, uma loira de olhos azuis, bem-vestida, que era da igreja Sara Nossa Terra, havia comprado 12 dvds de Malafaia. “Admiro o jeito dele. Ele me inspira confiança e credibilidade”, comentou. A programação incluía uma série de shows de bandas e cantores da gravadora Central Gospel – que, em comum, têm o hábito de afastar o microfone da boca e tombar a cabeça para trás na hora de um agudo.
No hall de entrada do evento, conheci a empresária Andreia Moraes, uma moça de cabelos loiros compridos, que comia uma coxinha, encostada no balcão. Ela havia viajado sozinha para Brasília, estava hospedada em um hotel confortável e esperava ansiosa a fala de Malafaia. Há dois anos vinha contribuindo para o Clube de 1 Milhão de Almas e afirmou que, desde então, sua vida havia se transformado.
Endividada e desempregada, tornou-se empresária, representante da Herbalife em Mato Grosso do Sul. “Eu o conheci pela tevê, me apaixonei pelas coisas que ele falava, faziam muito sentido para mim”, disse. À sua semente, Deus havia proporcionado uma colheita misericordiosa. “Deus me honrou com uma casa de meio milhão de reais. Eu hoje tenho muito para dar e emprestar, minha família toda se converteu.” Para ela, o que diferencia Malafaia dos demais pastores é sua coragem de “comprar brigas” pelos evangélicos e pelo Evangelho. “Eu tenho discernimento religioso, sei que ele é um homem de Deus. Deus fala através dele. Se ele diz que a semente será frutificada, ela será”, falou.
Em mais duas voltas pelo espaço do evento, cruzei com Murilo Otávio Benittes, um funcionário público que gostaria que os políticos brasileiros fossem “íntegros” como Malafaia; e com Liana Ribeiro, uma pastora baiana que usava gola de pele e disse ter no pastor “uma referência espiritual pelo tamanho de seu trabalho evangelístico”. E também Neide Batista, uma senhora baixa e atarracada, cujo filho havia largado as drogas e arrumado um bom emprego como gerente de uma lanchonete de fast-food. Em todos, predominava a sensação de redenção, agradecimento e consciência plena da razão de estarem ali. A conversão havia sido um ato consentido e rendera frutos.
Na sala VIP do evento, diante de uma mesa de salgadinhos, Malafaia esperava sua vez de entrar no palco. Ele contava ter recebido um e-mail de um diretor da Rede Globo dando-lhe explicações sobre a queixa que havia feito à cúpula da emissora por causa do beijo gay que seria exibido na novela Insensato Coração.
Silas Malafaia contou que, no final do ano passado, foi chamado para uma conversa pelo vice-presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho. O dono da Globo lhe disse que a rede queria conhecer melhor o mundo dos evangélicos. E contou terem percebido, na emissora, que Edir Macedo “não era a voz” dos protestantes no Brasil. Desde então, eles mantêm um canal de comunicação. “Sabe quantas vezes apareci no Jornal Nacional só este ano?”, perguntou o pastor, dando a resposta com a mão bem aberta. “Cinco.”
Numa série de reportagens sobre o trabalho social de determinadas igrejas, o Jornal Nacional mostrou numa delas o que a de Malafaia fazia na Vila Cruzeiro, no Rio. Três meses depois da ocupação da favela por forças do Exército, o pastor levou até lá massagistas, médicos, terapeutas e até manicures para atender à população, gratuitamente. O nome da igreja foi citado e o pastor ocupou o vídeo, sozinho. Um dos sonhos de Malafaia é comprar um horário na Globo para fazer pregações. “Ainda vou conseguir”, disse. “Eles já estão abrindo. Olha o programa do Faustão: está cheio de cantor evangélico se apresentando lá.” A Globo não comercializa horários contínuos. “Só vendemos anúncios em intervalos comerciais”, disse João Roberto Marinho.

o estúdio de gravação do programa, Malafaia, já vestido com um blazer azul-celeste, continuava a murmurar. “Trairagem, safadeza!”, resmungou enquanto se olhava no espelho. Mais do que ter perdido o horário da madrugada na TV Bandeirantes, ele não se conformava com a ursada do apóstolo Valdemiro Santiago. “Um cara que eu ajudei, que botei em contato com a Globo quando ele precisou. Que botei minha cara para bater quando a Lei do Psiu de São Paulo ia fechar a igreja dele”, dizia. Soube-se que, numa negociação direta com a cúpula da Bandeirantes, Santiago ofereceu 150% a mais do que o pago por Malafaia pelo horário das 2 horas às 6h45, algo em torno de 10 milhões de reais por mês. Em geral, os canais vendem aos religiosos janelas reservadas a espaços publicitários. Assim, não se responsabilizam pelo conteúdo do que é exibido.
Com exceção da Globo e do SBT, as demais emissoras gostam e querem vender horários para pastores evangélicos. O pagamento é em dia porque têm dinheiro vivo na mão; o custo de produção dos programas é baixíssimo, o que reduz muito o risco de bancarrota e, consequentemente, de calote. E, como a concorrência entre eles é forte, acabam pagando muito mais por horários desprezados pela audiência, como é o caso das madrugadas. “O R. R. Soares está saindo da Band até agosto e estão me oferecendo para pegar o horário”, disse. “Mas estão querendo enfiar a faca, estou fora.”

 diretor do programa avisou que deveriam descer para o estúdio. “Se o Valdemiro está pensando que vai levantar grana na madrugada, está muito enganado. Ninguém vende nada nem recebe doação de madrugada. O efeito madrugada é falar com gente com problema. Gente insone, desesperada, que não tem a quem recorrer. É espetacular para a evangelização, mas zero para negócios”, comentou.
No estúdio, uma equipe de vinte pessoas estava à sua espera. O cenário é constituído por um painel pintado com arvoredos que supostamente remetem a um jardim em Jerusalém, além de uma fonte de verdade que jorra água. Como trabalha sem roteiro e improvisa tudo, decidiu usar todo o programa para rebater as ferozes críticas da internet que atacavam as suas reiteradas solicitações de dinheiro. No ar, comunicou que precisava levantar 8,5 milhões, e explicou, tostão por tostão, onde o dinheiro seria empregado. Um milhão de reais para uma cruzada evangélica para 100 mil pessoas em São Luís; outro milhão para cruzada idêntica em Fortaleza; quatro milhões para treinar 2 500 pastores e 500 jovens com vocação ministerial; e 2,5 milhões para a adequação do seu programa ao padrão de alta definição digital.
Quando as câmeras foram desligadas, ele me chamou num canto: “Vê se outro pastor faz isso que eu faço. Eu divulgo onde gasto cada centavo que recebo. Vai lá no R. R. Soares e manda ele dizer onde ele põe a grana, vai lá no Edir Macedo e vê se ele abre as finanças dele.” Terminou a conversa revelando o resultado dos pedidos de oferta. Em menos de dez dias, 145 pessoas haviam doado os 10 011 reais e outras 2 mil, os 911 reais. “Alguma compensação eles devem ter, não acha?”, perguntou.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O MOVIMENTO MOD

Os jovens do reino unido se preocupavam em associar suas preferências musicais ao modo de se vestir, dividindo-os em tribos urbanas rivais que se odiavam. O mais forte expoente entre todos esses grupos foi apelidado pela imprensa local como Moderns, ou simplesmente Mods. Para se compreender universalmente o surgimento do movimento Mod, é preciso entender várias das transformações ocorridas no início do século XX.

Artigo por Hígor Coutinho. Hígor é produtor do programa Espírito da Música Rádio Universitária - Goiânia (GO) e consome mais música que a maioria dos humanos normais.

O século 20, apelidado pelo pensador alexandrino Eric Hobsbawm como a Era dos Extremos, entre guerras colossais e avanços científicos benéficos e ao mesmo tempo catastróficos, reservou um lugar especialíssimo para a juventude.

Pela primeira vez na história, uma fatia da população mundial se fazia diferenciar não pelas características econômicas, sociais, geográficas, raciais ou políticas, mas sim pela faixa etária. A partir da segunda metade do século, impulsionada por uma novíssima forma de música e comportamento, a juventude tomou o poder!!
Como a História gosta (e precisa) de nomes e datas, quem inaugurou oficialmente essa nova era, em 12 de abril de 1954, foi Bill Halley e seus Cometas, com “Rock around the clock”, música que, posteriormente associada ao filme Blackboard jungle (lançado no Brasil como Sementes da violência), chocou violentamente a conservadora, religiosa e ainda muito racista, sociedade estadunidense.

A industria fonográfica de então, numa tentativa de embranquecer o tal ritmo negro, vê no garoto Elvis Presley sua mais viável oportunidade. Mas, apesar do sucesso branco de Elvis (ou talvez impulsionados por ele), novos meteoros negros riscavam o céu de tio Sam: Little Richards, Chuck Berry, e até James Brown, entre tantos outros, galgavam lugares respeitáveis nas paradas de sucesso.
Contudo, com a ida de Elvis para o exército e a conseqüente “saturação” desse novo gênero que já não dava sinais de longevidade, o rock viveu um grande hiato entre 1959 e 1963. Os grandes ídolos de outrora agora enveredavam pelo caminho mais lucrativo da country music e das baladas açucaradas. A morte do rock era anunciada pela primeira vez.
Se nos EUA o rock havia morrido, o velho mundo, representado pela austera sociedade inglesa, indicava que seria o berço de seu glorioso renascimento.
God Bless The United Kingdom!
Não se sabe ao certo o porquê, mas é certo que os jovens do reino unido se preocupavam em associar suas preferências musicais ao modo de se vestir mais do que em qualquer outra parte do planeta, e isso, somado a uma série de fatores sociais, os dividiu em tribos urbanas rivais que se odiavam.
O mais forte expoente dentre todos esses grupos foi apelidado pela imprensa local como Moderns, ou simplesmente Mods. Para se compreender universalmente o surgimento do movimento Mod, é preciso entender várias das transformações ocorridas no início do século XX.

Less Is More!
O Modernismo, desencadeado por nomes como Pablo Picasso e sua tela Les Demoiselles D’Avignon tida como a inauguração simultânea do cubismo e da arte moderna, influenciado pelas construções do arquiteto norte-americano Frank Lloyd Wright e pelo movimento Art Nouveau, pode ser considerado como ponto de partida do que viria a ser conhecido, mais tarde, como movimento Mod.
A abstração, uma das principais características da arte do século XX, somada a idéia de simplificação formal (‘Less Is More’), moldaram no inconsciente artístico de então a negação do realismo obrigatório a que estavam atreladas todas as escolas anteriores, criando espaços para as mais subjetivas invenções.
Dentro desse contexto, foi declarado o Manifesto Futurista, por Marinetti, que conclamava a uma arte mais móvel, agressiva e urbana; “a beleza da velocidade”.
No pós-guerra, os ideais modernos ganharam muita força, a cultura do jazz fervilhava ao som das big bands, os anos quarenta rebolavam as notas do swing e desfilavam as vistosas ‘zoot suits’, ternos folgados que permitiam grande liberdade de movimentos.
Porém, com esse sopro de mudanças o jazz moderno ganhava terreno, com Miles Davis, Gil Evans e tantos outros, e isso acabou significando o rompimento com a tradição ‘hot’ entretenedora do jazz, acompanhado por uma mudança de visual; ternos mais sóbrios substituíram as largas ‘zoot suits’.
O bebop era bastante consumido na Itália, e o design de moda se inspirava diretamente no visual dos músicos. Surgira ainda a necessidade da criação de um meio de transporte que acompanhasse todas essas mudanças, comportamentais e estéticas; Apareciam as primeiras ‘Scooters’, motonetas produzidas principalmente pelas companhias Piaggio-Vespa e Lambretta.

Nos últimos suspiros da década de 50, os jovens ingleses já absorviam todo esse universo comportamental: eram consumidores ávidos do ‘modern jazz’ estadunidense (além do ska, soul, rocksteady etc.) e se vestiam como seus músicos (conseguiam seus bem cortados ternos, ocasionalmente, nas lixeiras da famosa Carnaby street).
Adoravam filmes Nouvelle Vague (New Wave), pilotavam ‘scooters’ italianas e cortavam os cabelos ao estilo francês. Incrivelmente tudo sustentado com o salário de office-boy!
Eram, em sua maioria, membros da juventude judaica que habitava os bairros da classe média baixa londrina, onde conviviam com os recém chegados imigrantes jamaicanos que ajudavam a lotar os clubes de bebop e os coffee-bars. Não tardou para a imprensa rotulá-los como ‘Moderns’. A partir daí, a oralidade fez o seu papel e o neologismo ‘Mod’ se popularizou.
Aliás o termo ‘Mod’ apareceu pela primeira vez no ensaio Today there are no gentlemen, em 1962 num diário londrino. O livro (e depois filme) Absolute beginners de Colin Maclness, retrata bem essa fase de explosão do movimento, através do estereotípico personagem The Dean.
Complementando o ideário do ‘Less is More’, o fardamento Mod cultuava as camisas Fred Perry, botas Clark Desert, calças Levi’s, além das famosas camisetas com o símbolo da Royal Air Force (círculos concêntricos, vermelhos, brancos e azuis), conseguidas através das novíssimas técnicas de serigrafia.
E para completar o uniforme modelo, era preciso ostentar uma das famosas parkas militares, que nos fins dos anos 50 eram usadas somente para proteger as roupas caras da poeira e chuva. Porém, rapidamente este ítem se transformou em adereço obrigatório.
A trilha sonora oficial de então, era a música soul de selos estadunidenses como a famosa Motown, a Tamla, ou ainda a Stax. A combinação de elementos do soul americano com as melodias calcadas na guitarra rock das redondezas definiria a estética sonora predominante nesse período. The Who, Small Face, Kinks, além de muitos outros nomes Europa afora, abraçaram com potência a nova onda.

Estamos em 1964!
Mas os Mods não estavam sozinhos, os Rockers (seus arquiinimigos) e os Teddy Boys (primeiros jovens trabalhadores ingleses a se vestirem como aristocratas) estavam a espreita! Vários dos encontros entre gangues rivais acabavam em pancadaria generalizada! Tudo isso potencializado a mil, pelo consumo demasiado de anfetaminas (adotada como droga oficial do movimento).
O antagonismo entre Mods e Rockers era óbvio: os Rockers eram o oposto frontal daquilo que era cultuado pelos modernos da época; adoravam jaquetas de couro preto adornadas com broches e correntes, ostentavam vistosos topetes, se devotavam ao rock cinquentista dos EUA (considerado ultrapassado pelos nossos amigos) e seguiam o espírito de liberdade do motoqueiro norte-americano, desprezando as benesses do trabalho duro.
A radicalização histórica dessas diferenças ocorreu no dia 18 de maio de 64, no bairro londrino de Brighton, quando centenas de Mods e Rockers se enfrentaram com selvageria pelas suas ruas e praias. Este evento foi muito bem retratado no filme Quadrophenia de Franc Roddam.
Mod de dizer…
Apesar da proximidade do movimento Mod com o universo negro, (dividiam os mesmos bairros e até então compartilhavam muitas preferências musicais), o aparecimento do reggae e seus lamentos “melanínicos” de retorno à África e exaltação à negritude, fizeram com que essa identificação diminuísse gradualmente, já que os jovens britânicos (por mais boa vontade que tivessem) não conseguiam se ver em tais manifestos musicais.
Assim, perdendo seus principais aliados, e concorrendo com o psicodelismo, a nova linguagem oficial do florescente movimento Hippie, o movimento Mod degringolou-se, e os poucos resistentes foram rebatizados como Hard-Mods, e depois Skinheads (não confundir com movimentos neonazistas que se apropriaram, posteriormente, da alcunha).
O movimento Mod estava enterrado!
Nos anos 70 houve um revival na Inglaterra (logicamente não com a mesma intensidade dos “sixties”), capitaneado por bandas como a legendária The Jam de Paul Weller, ou ainda The Lambrettas, Vapors e Purple Hearts, lançadas por pequenos selos como Castle, Detours (nome da banda de Pete Towshend, antes de ser batizada como The Who), Big Beat e One Way Records.
No Brasil o movimento teve poucos ecos, mas podemos citar – ainda nos anos 60 – a banda Som Beat, que chegou a gravar “My generation” do Who. Outros possíveis pontos de contato foram o “pequeno príncipe” Ronnie Von e a banda The Beatniks.
Porém, o maior representante Mod nacional, despontou mesmo foi na década de 80: a banda paulistana Ira!, que em seu disco de estréia Mudança de Comportamento de 1985, presenteou os brasileiros com o hino Mod tupiniquim “Ninguém entende um mod”.
Nos anos 90 e 00 também temos representantes fortes, como os curitibanos do Relespública, Faichecleres e Tarja Preta, os paulistanos The Charts e Momento 68 (este menos Mod e mais psicodélico), os sul-riograndenses Plato Dvorak (das bandas Père Lachaise e Locecraft) e Cachorro Grande, além do também gaúcho Júpiter Maçã (A Sétima Efervescência), que apesar de afundado na psicodelia mantém certas características Mod.