terça-feira, 22 de abril de 2014

O CORVO!

O tribuno da imprensa

A trajetória de Carlos Lacerda, Lúcifer decaído da esquerda que se converteu no paladino da direita e preparou a ditadura militar que liquidaria suas ambições

por Otavio Frias Filho

Antes de se tornar o símbolo máximo da direita ideológica no panorama político da segunda metade do século passado, Carlos Lacerda foi um promissor militante de esquerda no Rio de Janeiro. Não apenas simpatizante do comunismo, como tantos jovens na década de 30 e nas seguintes, mas um ativista precoce que se destacou nas manifestações de rua e logo estaria no centro dos acontecimentos.

Suas credenciais de contestatário vinham de família. O avô, Sebastião de Lacerda, ministro de tendências liberais no Supremo Tribunal Federal, havia sido abolicionista e republicano na juventude, adepto de Silva Jardim, o mais jacobino dos líderes que derrubaram o Império. Seu pai, Maurício de Lacerda (um “socialista romântico”, na definição do filho), deputado radical ligado ao florescente sindicalismo dos anos 10 e 20, teve atuação destacada nos comícios que forçaram a deposição de Washington Luís e o fim da República Velha em 30.

Carlos Frederico Werneck de Lacerda (1914–77) foi batizado em homenagem aos prenomes de Marx e Engels. Aos 12 anos, leu ABC do Comunismo, de Nikolai Bukharin, presente de seu tio Paulo, irmão caçula do pai. Paulo e Fernando, o irmão do meio, foram dirigentes do Partido Comunista Brasileiro que chegaram a secretário-geral, posto mais alto dentro da organização clandestina. Na faculdade de direito, Lacerda se aproximou de professores socialistas e escreveu seu primeiro livro, O Quilombo de Manuel Congo, panfleto em que exaltava uma revolta de escravos no Vale do Paraíba do século XIX. Foi preso ao menos quatro vezes pela polícia entre 33 e 39.

Era uma época de tumulto. A Revolução de 30 levara Getúlio Vargas ao poder, no qual se equilibrava precariamente, num jogo de repressão e barganha com as forças que se digladiavam nas ruas e nos gabinetes, puxando o governo provisório para a esquerda e para a direita. Diante da irrupção mundial do fascismo e sua vertiginosa ascensão na Alemanha, a partir de 1933–34 a União Soviética ditou aos partidos comunistas a adoção de uma política de frente ampla com as tendências antifascistas, numa reviravolta em relação às sectárias diretrizes anteriores. Surgiu a Aliança Nacional Libertadora, organização de fachada do PCB.

Luís Carlos Prestes, que acabara de se converter ao comunismo, ascendia depressa ao comando do partido. Era o mais popular dentre os líderes das revoltas tenentistas que culminaram na Revolução de 30, sua figura banhada na aura ainda fresca do “Cavaleiro da Esperança” à frente da coluna revolucionária que vagara, por mais de dois anos, pelo interior do país em desafio ao governo central.

No começo de 35, num comício da ANL, Lacerda foi incumbido às pressas, como se a ideia surgisse no calor da hora, de lançar o nome de Prestes para presidente de honra da entidade. Alto, galante, já então um improvisador inspirado, ele discursaria em nome da ala estudantil. Quando propôs a indicação de Prestes, desfraldaram-se faixas em que o líder era saudado como presidente honorário. A crer em suas memórias, o sentimento de ter sido levemente usado na maquinação foi a primeira rachadura em sua adesão ao comunismo.

Meses depois, o comando do PC deflagrou uma desastrosa rebelião militar que deveria dar início à insurreição geral, mas redundou em pronto fiasco, estrangulada pelo governo – que, fortalecido, guinou em definitivo para a direita. Numa estimativa delirante, Prestes e seus camaradas haviam convencido Moscou de que a sublevação teria o apoio das massas, o que explica terem sido autorizados a aventura tão avessa à estratégia da frente ampla.

O estigma de golpistas traiçoeiros recairia sobre gerações de futuros comunistas; a mais brutal repressão tratou desde logo de dizimar o partido. Foi nesse ambiente de medo, paranoia e delação que se deu o controvertido episódio da excomunhão de Lacerda pelo PC, que o apontou em panfletos clandestinos como delator, agente fascista e provocador trotskista.



Lacerda, que começou cedo no jornalismo, levado pela poeta Cecília Meireles, trabalhava então numa revista mensal. O Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) da ditadura faria uma exposição sobre as conquistas do Estado Novo no primeiro aniversário do golpe que Getúlio desfechara, em novembro de 37. Foi encomendada à revista uma série de artigos sobre a mostra, que abrigava uma seção dedicada ao comunismo e sua derrota. Como Lacerda conhecesse o tema, convidaram-no a escrever a respeito, sem assinatura.

Antes, porém, Lacerda consultou o partido, que o achou preferível a algum articulista hostil. Recomendaram que minimizasse a penetração do PC, para não açular a repressão. Publicado em janeiro de 39, o texto é uma longa e detalhada resenha da atuação comunista no Brasil. Nomes aparecem em profusão, embora o jornalista alegasse que nada revelara que a polícia já não soubesse. A influência do PC, ao menos aos olhos dos dirigentes, foi reduzida a zero.

Exigiram uma retratação interna, que ele recusou. E foi esmagado por uma condenação imediata, subterrânea, infamante. Os comunistas não eram muitos, sendo restritíssimo seu recrutamento, mas em torno do partido girava uma numerosa camada de simpatizantes obedientes ao comando central – intelectuais, jornalistas, artistas, boêmios, o mundo em que Lacerda sempre vivera. Da noite para o dia, amigos recusavam-se a lhe dirigir a palavra.

Passou a primeira noite como renegado na casa de Samuel Wainer, bêbado e repetindo que perdera a “mãe”. Wainer dirigia uma revista pró-comunista, Diretrizes, que contava entre seus colaboradores com o próprio Lacerda, Moacir Werneck de Castro (seu primo, depois desafeto), Rubem Braga e Jorge Amado. O escritor baiano reclamou para Wainer: “Veja no que deu você trazer esse crápula aqui para dentro.” Para evitar uma crise, Lacerda foi desligado da publicação. Mais tarde os dois criadores de jornais comandariam a guerra entre Última Hora e Tribuna da Imprensa.

Muito se especulou sobre a ruptura com o PC, à medida que o jovem dissidente revelava talento além de pedigree, e audácia além de ambição, até se converter no Lúcifer decaído da esquerda. Seu pai, Maurício, continuou socialista sem aderir ao partido (nem a Getúlio); seus tios eram do esquema suplantado por Prestes. Teria sido a exclusão uma maneira de debilitar a família recalcitrante? O partido pressentia em Lacerda, talvez, um desejo de projeção pessoal e um gosto pela dissensão que convinha coibir? Ou era o próprio Lacerda quem se achava tolhido numa organização tão fechada, na qual não via futuro para suas capacidades de polemista exuberante e eventual chefe de sua própria facção?

Do período comunista ele reteve dois legados importantes: um conhecimento íntimo sobre o adversário, franqueado apenas a quem pertenceu a suas fileiras, e o hábito mental de levar a consecução das ideias a suas últimas e paradoxais consequências. A partir de 43, numa virada que indignou muita gente, inclusive Lacerda, o pc passou a apoiar Getúlio. Sob forte pressão norte-americana, o Estado Novo rompera com o Eixo; da prisão onde mofava, Prestes enviou telegrama exaltando as “inclinações democráticas” do ditador. Seria o início da longa colaboração entre getulistas e comunistas, e Lacerda seria seu arqui-inimigo.



Duas tendências modernizantes se confrontaram na política brasileira ao longo do século. A primeira, de feitio autoritário e extração positivista, considerava o Estado como alavanca principal, se não única, para acelerar o desenvolvimento. Para a outra tendência, de inspiração liberal e composição mais elitista e tradicional, essa alavanca estava na economia de mercado, especialmente no investimento estrangeiro. Uma série deimplicações, desde a tônica nacionalista e antiamericana (associada à primeira) até a religiosa (associada, via catolicismo, à segunda), decorria dessa dicotomia. Progressistas contra conservadores; autoritários contra liberais (pero no mucho).

Variantes das duas tendências (assim como a alternativa fascista, logo esmagada, mas “antropofagicamente” assimilada pelo Estado Novo) compunham o mosaico da Revolução de 30. Claro que na prática miúda elas se misturavam ao sabor das conveniências numa cultura sempre clientelística. Em 45, porém, um novo maniqueísmo desceu sobre o mundo e se acoplou ao local, tornando mais nítido e agudo o seu dilema. Estados Unidos e União Soviética passaram a dividir o globo em duas áreas de predomínio que correspondiam a dois modelos opostos de sociedade. Impedidos pela paridade nuclear de fazer guerra aberta, sua luta reaparecia em cada contexto local, em cada controvérsia específica. Posições intermediárias ou alternativas eram arrastadas para um dos lados.

Outro fator conferia ainda mais voltagem à tensão acumulada. Desde 30, os militares passaram a exercer papel predominante, ostensivo ou velado, na política brasileira (e de muitos países), da qual só foram expelidos na década de 80. A impermeabilidade da República Velha a quase toda mudança
forjou uma geração politicamente nervosa – a dos “tenentes” –, propensa a soluções de força, escolada numa respeitável carreira de golpes e rebeliões, quase sempre incruentos, conforme o tradicional e enigmático mecanismo brasileiro de baixa taxa de conversão da violência social em violência política. O exemplo prosperou. Foi somente depois de longa ditadura militar (1964–85) que o respeito às regras se estabeleceu de forma incontestável.

O Exército não pairava no ar, as mesmas vertentes fascista (quase sempre recôndita), liberal e progressista o impregnavam, ao menos até o expurgo de 64. Dentre outros malefícios mais óbvios da tutela militar sobre a política, porém, está o de reduzir o espaço público às dimensões paroquiais da caserna. O Estado fica pendente da politicagem dos quartéis, com suas camaradagens e ressentimentos. Não raro um mesmo oficial aparece num curto tempo em posições opostas do cenário, ao sabor de lealdades pessoais a chefes que chegavam a ficar duas décadas no comando (Castelo Branco encurtou os prazos do generalato em 65, o que contribuiu para o caráter impessoal da ditadura militar).

Foi nesse ambiente crispado, explosivo, que Lacerda começou a brilhar no jornalismo de oposição e se destacar na política partidária, atividades compatíveis pelos hábitos da época. Sua entrevista com José Américo de Almeida – um dos notáveis de 30 que Getúlio aliciou e depois alijou –, publicada em fevereiro de 45 pelo prestigioso Correio da Manhã, derrubou a censura à imprensa. Getúlio foi deposto pelos militares no fim do ano. Lacerda cobriu a Constituinte escrevendo naquele jornal a coluna “Na Tribuna da Imprensa”. Em 47, foi eleito o vereador mais votado do Rio para renunciar meses depois, quando o Senado esbulhou da Câmara Municipal o direito de derrubar os vetos do prefeito, nomeado pelo presidente da República.

Sua campanha contra o candidato presidencial comunista (o partido fora legalizado por breve período) definiu o que seria um padrão: o martelar diário de denúncias de corrupção expressas na mais injuriosa virulência. Devido a outra campanha agressiva, contra a construção do Estádio do Maracanã (propunha uma alternativa mais barata em Jacarepaguá), foi espancado duas vezes por capangas do prefeito, general Mendes de Morais. Essa atuação intrépida, que se estendia ao rádio e logo chegaria à tevê, depressa lhe rendeu a fama de campeão dos costumes públicos – um puritano na terra da malandragem, um intransigente no país do jeitinho.

Sempre invocando o combate à ditadura getulista, cuja cabeça fora decepada sem que o corpanzil fosse desalojado da máquina oficial, Lacerda deslizava, num percurso clássico em sucessivas gerações, de posições socialistas para liberais. Logo anunciaria sua conversão ao catolicismo, e foi mediante influentes amigos católicos, como Alceu Amoroso Lima, Gustavo Corção e Sobral Pinto, que levantou fundos para criar seu próprio e modesto jornal, a Tribuna da Imprensa, em 49.

No ano seguinte, o fantasma que Lacerda agitava se tornou de novo palpável com a volta de Getúlio Vargas ao poder pelo voto popular. Removido num movimento de cúpula como ultrapassado ditador semifascista, retomava o palco no figurino de presidente esquerdizante, sustentado na gratidão das massas pela legislação trabalhista que concedera enquanto autocrata. Lacerda lhe fazia a oposição aguerrida de sempre, que se tornou ainda mais estridente quando Getúlio, cercado por uma imprensa hostil, usou fartos recursos públicos para financiar o lançamento da Última Hora de Samuel Wainer, logo uma cadeia nacional de jornais.

Foi Wainer quem o apelidou de “O Corvo”, em maio de 54, ao vê-lo de terno e gravata pretos, os óculos espessos faiscando sobre o perfil agudo de ave, compungido no enterro de um repórter assassinado por policiais – o caso que Lacerda explorava contra o governo naquele momento. Na capa da edição seguinte, a Última Hora trazia uma charge do ilustrador Lan (Lanfranco Rossini, italiano radicado no Rio) que mostrava um corvo encarapitado na borda do caixão.

Menos de três meses depois, em agosto de 54, Lacerda escapou, com ferimento superficial num dos pés, de um atentado a tiros que matou um major da Aeronáutica, Rubens Vaz, que o escoltava. Logo veio à tona que o mandante do plano desastrado era o chefe da guarda presidencial, com a provável anuência de um irmão do presidente. Revoltados com o assassinato do colega, os militares entraram em pé de guerra.

Lacerda, alçado a herói, capitaneava a onda pela saída de Vargas via impeachment, renúncia ou golpe militar. O suicídiodo presidente, semanas após o atentado, inverteu de repente a maré das ruas; a multidão queria agora linchar o “assassino de Getúlio”. O apelido inventado por Wainer se fixou de modo indelével. Às vezes, num curioso eufemismo que o agravava, em vez de aliviar, dizia-se simplesmente: “A Ave.” Toda polarização, porém, rende resultados, e em outubro de 54 ele foi eleito, novamente o mais votado, para o primeiro de seus dois mandatos como deputado federal.

“Não deve ser candidato; candidato, não deve ser eleito; eleito, não deve tomar posse.” Lacerda distribuiu variações dessa frase a respeito de Getúlio e seu legítimo sucessor, Juscelino Kubitschek. Ninguém é golpista sem apresentar uma justificativa qualquer; para Lacerda, caso raro de político dotado de aptidões intelectuais, ela se expandiu numa elaborada narrativa, como está na moda dizer, sobre o Brasil moderno.



Os ideais de democracia e progresso haviam sido traídos pelo formalismo esclerosado da República Velha. Foram traídos pela segunda vez quando o inescrupuloso caudilho gaúcho usurpou a Revolução de 30 e instalou a sua volta uma nova oligarquia. “O poder pessoal”, Lacerda disse, “é como um pêndulo que oscila indiferentemente entre a esquerda e a direita, contanto que nesse movimento trabalhe para a engrenagem que está por trás do relógio.”

Ao contrário da anterior, plantada no privilégio fundiário, essa nova oligarquia depende apenas das benesses do Estado. Sua “engrenagem” se compõe de duas partes, além do imprescindível sustentáculo militar. De um lado, “uma casta de incapazes e desonestos, profissionais da demagogia”, que articula o apoio político à camarilha governante e azeita relações com empresários favorecidos.

De outro, um braço trabalhista que comanda os fundos sindicais e manipula o movimento operário, mantendo-o sob rédea curta. Conta para isso com a disciplinada colaboração dos comunistas, bem ou mal enraizados no meio sindical, que por sua vez obtêm em troca espaço e empregos, enquanto fermenta a agitação que um dia poderá levá-los ao poder totalitário num lance de audácia, como na Rússia, como em Cuba.

Todo esse aparato se apoia na ignorância da massa popular, mantida na escuridão por falta de esclarecimento e escola, sempre crédula perante a autoridade patriarcal e grata às concessões demagógicas que esta lhe dispensa como migalhas caídas do banquete. Somente a educação abriria os olhos do povo e o tornaria cônscio de seus direitos.

Educar, entretanto, é um processo lento. Lacerda passou a preconizar o adiamento das eleições presidenciais de 55, pois o impacto emocional do suicídio atordoara o povo, turvando seu discernimento. Sugeria um “estado de exceção”, espécie de consulado militar de um ou dois anos, dedicado a desmantelar a estrutura getulista enquanto uma “Constituinte de especialistas” prepararia as reformas necessárias a assegurar eleições realmente livres.

Por mais que existam elementos de verdade nessa versão, não precisamos aceitá-la, nem muito menos o estapafúrdio remédio prescrito. Ao contrário, visto de outro ângulo, todo o drama político da época reflete uma disputa bem diversa. A saber, a reivindicação crescente da classe trabalhadora (ou de seu segmento organizado) por parcela maior da renda – e a tenaz resistência oposta pelo capital, decerto, mas também por certa classe média tradicional, muita vez lastreada no funcionalismo público graduado e nas profissões liberais, pilares do lacerdismo.

O desenlace de 64 sobreveio quando essa mobilização, até ali domesticada por Getúlio e seus herdeiros, começou a escapar do controle num clima insurrecional que solapava a hierarquia militar e ameaçava os direitos de propriedade. Na perspectiva dessa outra narrativa, inspirada pelo desejo de uma severa limitação social ao capitalismo ou de sua sumária substituição, fica reiterado em Lacerda o epíteto de reacionário que ele teimava em refutar.

Note-se ainda que a sutil reinvenção de Getúlio, de chefe semifascista a líder de um nacionalismo democrático-popular de vocação “socialisteira”, como dizia Lacerda, deslocava este último inexoravelmente para a faixa mais combativa da direita. Ali ele se instalou com gosto: não fosse a polarização daquela era, bastaria seu temperamento para levá-lo a posições exaltadas.



A propósito de temperamento, há uma dimensão psicológica que vale mencionar. Lacerda manteve sentimentos ambíguos, de admiração e hostilidade, em relação ao pai. Aos 12 anos matava aulas para ver “O Tribuno do Povo” discursar na Câmara. Mais tarde é o pai quem, ao escutar o filho falando num comício da ANL, exclama para um amigo ao lado: “Não é possível, ouça; fui mesmo eu que gerei este milagre?!” Mas Maurício de Lacerda era um cometa que aparecia e sumia, seu tempo consumido pela política e por outra mulher, com quem se uniu de vez em meados dos anos 40, oficializando sua separação de Olga, a mãe de Carlos, para mágoa da família.

Embora Maurício trabalhasse, naquele turbulento início dos anos 30, por um acordo entre “tenentes”, comunistas e Vargas, sua conduta era irascível como a do filho. Foi sondado para o ministério, logo passou a desancar o governo provisório e se apagou no turbilhão da década. Era dos tais tribunos que fazem, mas não conduzem as revoluções, que derrubam governos e não governam. Lacerda o comparou a Ícaro, “destino fulgurante cortado em pleno voo”. Como se a mística do pai se transferisse magicamente ao filho, quando caiu o Estado Novo e subia a estrela de Lacerda, Maurício se reduzira a um obscuro procurador no Rio, onde morreu em 59.

Do ponto de vista simbólico, portanto, Lacerda usurpou seu lugar, mas isso é normal e até inevitável entre pai e filho. Oculta-se nas sombras do imaginário um outro usurpador, pérfido, terrível, ninguém menos do que Getúlio Vargas. Justiça do Trabalho, jornada de oito horas, férias remuneradas, repouso semanal, indenização por dispensa sem justa causa – as bandeiras do pai foram arrebatadas por Getúlio e postas a serviço de sua ambição, enquanto descartava Maurício, que em nome delas quase morrera nas prisões do presidente Artur Bernardes (1922–26). Interessante pensar na fúria hamletiana de Lacerda contra Getúlio como agressão ao usurpador do pai que existia nele mesmo.

Para empreender a missão a que se consagrara, Lacerda vestiu o manto da instituição mais poderosa da época, a Igreja católica. Ligou-se estreitamente ao Mosteiro de São Bento, polo de atração da elite, onde tornou religioso, em 48, seu casamento civil com Letícia Abruzzini. O clero ainda ditava padrões a serem observados por todos e se imiscuía com desenvoltura na política. No início dos anos 20, um intelectual conservador, Jackson de Figueiredo, criou o Centro Dom Vital, instituto de doutrinação católica que seria influente na capital federal. O propósito era recuperar para o dogma a classe dirigente, cada vez mais suscetível a doutrinas agnósticas e materialistas.

Com o tempo, o perfil ultraconservador do Centro Dom Vital foi amenizado pela influência de pensadores católicos reformistas, como os franceses Jacques Maritain e Teilhard de Chardin. O primeiro procurou conciliar catolicismo e democracia, enfatizando que algum nível de concessão social é imprescindível à harmonia entre capital e trabalho. O segundo tornou a doutrina ainda mais metafórica e flexível, de modo a compatibilizá-la com as descobertas da ciência.

O fio condutor dessa evolução foi Alceu Amoroso Lima (Tristão de Ataíde), publicista e crítico literário que, como o influente bispo dom Hélder Câmara, começou integralista, transitou para a democracia-cristã nos anos 50 e na década seguinte abraçou a esquerdista Teologia da Libertação, percorrendo assim todo o espectro ideológico disponível. Porém, no período em questão, o esplendor da Guerra Fria, a Igreja estava em bloco na cruzada contra o comunismo ateu – e Lacerda foi incensado como seu paladino.



Seu instrumento, na arena parlamentar, sempre foi a União Democrática Nacional. Encetada desde 43 como aliança entre liberais e socialistas não alinhados ao PC, com alguma participação de ilustres trotskistas, a exemplo do crítico de arte Mário Pedrosa, não tardou a adquirir sua configuração definitiva, liberal-conservadora, quando a ala esquerda saiu para fundar o Partido Socialista. Era, a UDN, o partido da resistência aos abusos de Getúlio, mas também o que melhor representava os interesses dominantes, o establishment das camadas altas e médias, ou ao menos seus estratos mais ideológicos.

Entre seus líderes figuravam juristas e acadêmicos eminentes, tidos por inatacáveis sob o prisma da moral e da dedicação à causa pública, punhado de nomes hoje cobertos de pó que compunham uma galeria de varões de Plutarco: Octavio Mangabeira, Adaucto Lucio Cardoso, Prado Kelly, Afonso Arinos, Bilac Pinto, Milton Campos, Aliomar Baleeiro. Meu pai, Octavio Frias de Oliveira, com o habitual ceticismo dos empresários quanto à política, usava o substantivo “UDN” como adjetivo para qualificar qualquer atitude (ou pessoa) presunçosa, santarrona e doutoral, a exalar o perfume, para ele insuportável, da hipocrisia.

O lema do partido era uma divisa paranoide importada do macarthismo americano – “O preço da liberdade é a eterna vigilância” –, que no contexto local vinha bem a calhar em relação ao matreiro e imperecível Getúlio. Um dos símbolos da UDN eram os lenços brancos agitados como sinal de pureza nos comícios, o que tinha, mesmo naquela época em que se usava chapéu e paletó, certo laivo classista.

O partido também contava com seus próceres militares. Dois deles foram candidatos presidenciais, o brigadeiro Eduardo Gomes (45 e 50) e o general Juarez Távora (55), ambos “tenentes” da melhor estirpe, aquele um dos dois sobreviventes do alucinado levante dos 18 do Forte de Copacabana (22), este um dos comandantes da coluna Prestes (1924–27). Mas as candidaturas não empolgavam, a máquina adversária era poderosa e, antes de mais nada, a maioria da população queria votar em Getúlio e seus legatários.

Lacerda fustigava a UDN, que chamou de “maçaroca de tendências”, para que encampasse sua linha de oposição irredutível e escolhesse candidatos mais viáveis. Enquanto ele animava a “banda de música”, bancada de virtuoses da oratória que azucrinava o Executivo na Câmara dos Deputados, a indefectível ala “chapa-branca” entregava-se à “bolinação” (termo de Lacerda) com o governo de turno. Se os líderes da UDN lhe pareciam acomodados, ele lhes soava despótico. Temiam, como explicitou um deles, Daniel Krieger, que se tornasse ditador caso chegasse ao poder. Sobre Lacerda, aliás, o taciturno ditador português António Salazar teria dito: “Terá o poder, se souber calar.”

Quando se dispôs a restituir a democracia, em 45, pressentindo a deposição, Getúlio fomentou o surgimento de dois partidos, o PSD e o PTB. Aquele se juntou em redor dos interventores estaduais que nomeara enquanto ditador. Este era a face parlamentar do aparelho trabalhista, confiado ao afilhado político de Getúlio, João Goulart. Essa coalizão elegeu Juscelino Kubitschek para presidente e Jango como vice em 55. Foram empossados à custa de um golpe original, dito preventivo, em que o ministro da Guerra (Exército) destituiu o presidente interino a fim de garantir o resultado das urnas. Junto com o núcleo do governo deposto, Lacerda se refugiou num navio insubordinado da Marinha e logo partiria para merecido autoexílio de quase um ano em Cuba, Estados Unidos e Portugal.



Embora pertencesse à linhagem getulista (foi prefeito nomeado de Belo Horizonte no Estado Novo), Juscelino era um moderado que se converteu em presidente conciliatório e tolerante. Anistiou de imediato as duas revoltas de opereta que oficiais da Aeronáutica (sob desaprovação até de Lacerda) tentaram contra seu governo. Pretendia fugir pela tangente à dicotomia fatídica, rumo a um futuro miraculoso, do “progresso às caneladas” de que a gastança da construção de Brasília foi o emblema. Encontrou um expediente burocrático, entretanto, para vedar o acesso de Lacerda ao rádio e à tevê.

Este deblaterava no jornal e no Parlamento, onde agora era líder da UDN. Empenhava-se em demonstrar que Jango recebera recursos do ditador argentino Juan Domingo Perón, destinados a financiar campanhas eleitorais no Brasil. Antes publicara correspondência de um político peronista ao vice brasileiro – a Carta Brandi – que sugeria relações espúrias, mas o documento se revelou falso, a maior “barriga” (gíria para erro jornalístico) de sua carreira.

Já no governo JK, cai em suas mãos um telegrama secreto da embaixada em Buenos Aires dando conta de que um inquérito militar argentino (Perón havia sido deposto em 55) confirmara não a autenticidade da Carta Brandi, mas o conluio nela implícito. Sem trocadilho, brande o telegrama na tribuna e para atestá-lo revela o código sigiloso da diplomacia brasileira. O governo viu a chance de um xeque-mate e pediu à Câmara a suspensão de suas imunidades parlamentares, a fim de processá-lo por crime contra a segurança nacional.

Defendeu seu mandato num discurso de doze horas, no qual invocou o precedente de Rui Barbosa, que também alegara o interesse público para revelar, na campanha para a segunda eleição presidencial que perdeu, em 19, o código privativo do Itamaraty, por ele acusado de praticar uma diplomacia secreta germanófila. Causou sensação um trecho em que Lacerda se compara ora ao touro imolado para êxtase das multidões, ora ao toureiro que enfrenta sozinho a fera.

“Tudo”, discursou, “menos decepcionar a ilustre plateia que paga caro o lugar à sombra, o ladrão provecto, o contrabandista emérito, o agente de negócios escusos, o promissor emissário de novas cavações, o pioneiro infatigável das comissões copiosas, os promotores dos prazeres proibidos, os empresários dos gozos inefáveis, os letrados do insulto pago à linha, os pensionistas dos ócios indevidos, a turba que preliba a hora em que o enfurecimento do touro, espicaçado, há de levar pelos ares e fincar-lhe as guampas ao temerário que ousou mostrar-lhe, nos passes da capa e nas madalenas, o valor da destreza e da coragem lúcida sobre a brutalidade da besta que escarva e urra.”

Em maio de 57, embora o governo dispusesse de ampla maioria na Câmara, o plenário rejeitou, numa votação histórica (e secreta...), a suspensão das imunidades. Afirmava-se o direito de fazer oposição até a fronteira do irresponsável, traçando limites que a nenhum governo, mesmo emanado do voto popular, era dado transpor. Foi aquele o momento mais alto de sua brilhante carreira parlamentar, e dos mais altos na crônica da Câmara. Mas o melhor (ou pior) estava por vir.

Lacerda percebeu cedo que era irresistível a campanha do governador de São Paulo, Jânio Quadros, à sucessão de Juscelino. E Quadros era um achado. Surgia enfim um político dotado não só de tino administrativo e insuperável magnetismo popular, mas além disso estranho, até refratário, nas suas bizantinas ambivalências e excentricidades, à tradição getulista.

Muito do que pregava o “homem da vassoura” coincidia com o ideário udenista. Lacerda convenceu o partido a apoiar para presidente, em 60, o demagogo que seu colega Afonso Arinos resumiu como “a UDN de porre”. Jânio foi ungido por margem estrondosa, e Lacerda se elegeu de raspão o primeiro governador da Guanabara, o coração do país, cidade-estado criada com a transferência da capital para Goiás. Caberia agora ao jornalista incendiário, ao oposicionista contumaz para quem governo nenhum prestava, mostrar o que faria com o poder que tanto buscara.

Saiu-se bem, opinião comum até mesmo entre antigos adversários. Hiperativo (“Era um susto a cada dia”, diz um antigo auxiliar), montou uma equipe inovadora que deu impulso, entre dezembro de 61 e de 65, a realizações relevantes. Numa cidade em que faltavam escolas, quase dobrou o número de crianças estudando e aumentou em mais de 50% o número de professores, embora tenha generalizado o recurso a dois e às vezes a três turnos por estabelecimento.

Numa cidade em que a falta d’água era cantada em samba, construiu a adutora do rio Guandu, ligação de 43 quilômetros que resolveu um problema perene desde a época em que Tiradentes, morando no Rio em 1788, concebeu um plano para solucioná-lo. Ampliou a rede pública hospitalar em 30%. Fez erguer 12 mil casas populares para abrigar moradores deslocados pelo controvertido programa de remoção de favelas que implantou. Instalou 6 quilômetros de túneis, entre eles o Rebouças, que permitiu a conexão direta entre o norte e o sul da cidade. E deixou o esplêndido parque do Flamengo (o aterro em si era anterior; o projeto paisagístico é de Roberto Burle Marx), concebido e executado por sua amiga Lota de Macedo Soares, que o persuadiu da obra prevendo que ela o faria um governante para sempre lembrado.

Honestidade e competência ajudam, mas ninguém faz milagres. Lacerda era o governador anticomunista da cidade-símbolo do país, e as autoridades norte-americanas facilitaram seu acesso a recursos do programa Aliança para o Progresso e sobretudo do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), criado em Washington um ano antes de sua posse no Rio para financiar projetos na América Latina. Ainda assim, de acordo com o pesquisador Maurício Dominguez Perez, autor de Lacerda na Guanabara (livro de 2007, simpático ao protagonista, mas municiado de estatísticas), os empréstimos externos cobriram apenas 15% do montante de investimentos.

O incremento das receitas teria por origem a forte elevação de impostos (aumento real de 33% no período) e taxas (como a da água, até então mero valor simbólico), a melhoria na eficiência arrecadatória e o recurso à criação de empresas públicas, livres do emperramento legal que paralisava a administração direta e facultadas pela Constituição estadual, feita sob influência de Lacerda. O Banco do Estado da Guanabara também financiou as obras. Lacerda perdeu, porém, a eleição de 65, quando seu adversário Negrão de Lima foi eleito para sucedê-lo. Recebeu as finanças do Estado em condições “razoáveis”, segundo um especialista que conheceu os bastidores da transição.

A oposição procurava atacá-lo como ele fazia antes de ser governo. Quando, a fim de sanear as condições insalubres do morro, sua administração queimou os casebres do Pasmado, cujos moradores haviam sido transferidos para a remota Vila Kennedy, foi chamado de “Nero da Guanabara”. Reportagem da Última Hora revelou que o Serviço de Repressão à Mendicância vinha exterminando indigentes, cujos corpos eram atirados no rio da Guarda. Embora o governador tenha punido os responsáveis e os encaminhado à Justiça, ganhou outro apelido, “o Mata-Mendigos”. Ainda assim, sua candidatura deslanchava com ímpeto rumo à eleição presidencial de 65, quando ele desafiaria o favoritismo de Juscelino (apenas a reeleição consecutiva era vedada).



Essa foi a “maior eleição presidencial que não houve”, parafraseando o poema-piada de Murilo Mendes sobre a Batalha de Itararé, na Revolução de 30, que nunca foi travada. Sete meses depois de empossado, Jânio tentou articular uma espécie de golpe constitucional, encenação em que ele deixaria o cargo apenas para reassumi-lo em seguida, atendendo ao clamor popular, investido de poderes extraordinários. Sondado para tomar parte na manobra, sem saber exatamente do que se tratava, Lacerda foi à televisão e a denunciou ao país, o que parece ter precipitado a farsa, pois Jânio apresentou sua renúncia na manhã seguinte, em agosto de 61.

Ninguém moveu uma palha. Mas a esdrúxula legislação eleitoral permitia eleger presidente e vice de chapas diferentes, e o vice de Jânio era o mesmo de JK: João Goulart. A “Campanha da Legalidade”, dirigida pelo então governador gaúcho Leonel Brizola, líder do setor radicalizado do trabalhismo, dividiu o Exército quanto à posse. Esta se tornou viável graças a solução habilidosa, mas postiça: o Congresso aprovou às pressas o regime parlamentarista, e Jango ascendeu com poderes amputados. Sucederam-se três primeiros-ministros, mas o arranjo funcionava mal, até porque maquinava contra ele o próprio presidente, a quem um plebiscito devolveu, em janeiro de 63, as prerrogativas do cargo.

A partir daí, a polarização se precipita e a confrontação sempre adiada – em 55, em 61 – bate às portas com furor. Jango tentou conciliar os dois campos em que o país se apartava de maneira a cada dia mais drástica. Foi dragado pelo ativismo da facção esquerdista de seu bloco e se entregou, sempre relutante, à escalada da expropriação de terras para a reforma agrária, enquanto tolerava a insubordinação entre sargentos e fuzileiros das Forças Armadas, estimulada por revolucionários e provocadores. Caiu sem um tiro em março de 64.

Ao contrário do que às vezes se pensa, Lacerda não participou diretamente dessa conspiração, incubada por ele desde 55, salvo nos dias do paroxismo final, quando algum golpe – da direita ou do próprio presidente encurralado – parecia inevitável e iminente. Jango tentara um golpe constitucional, em outubro de 63, pela imposição do estado de sítio, mas a própria esquerda, desconfiada, não lhe deu apoio. Lacerda, claro, não se convertera ao legalismo, mas temia o que de fato veio a acontecer, ou seja, que uma ditadura militar compelisse ao adiamento da eleição de 65, frustrando seu acesso ao prêmio tão cobiçado quando este já parecia ao alcance da mão.

Aderiu, triunfante e ressabiado, ao governo do general Castelo Branco, que o enviou a um giro internacional para explicar a “revolução” (durante inamistosa coletiva de imprensa em Paris disse, numa piada hoje anacrônica, que no Brasil as revoluções eram como os casamentos na França, sem derramamento de sangue). Foram o adiamento e a conversão da eleição presidencial direta em indireta que o devolveram à oposição. Dedicou-se a combater a política recessiva de Castelo Branco, cujas repercussões o atingiam, embora o primeiro governo militar se parecesse muito com o “consulado” reformador que imaginara em meados dos anos 50. Travou violenta polêmica com Roberto Campos, então ministro do Planejamento, homem público cultivado, liberal-conservador, cosmopolita e acusado de servil aos interesses americanos – exatamente como ele.

Lacerda não se continha em posições moderadas. Chegou a flertar com a “linha-dura” do regime a fim de apressar a saída de Castelo Branco. Intimidado, em 66 o Congresso elegeu para presidente o ministro da Guerra, Costa e Silva, que impusera seu nome ao próprio Castelo Branco. Lacerda passara a organizar a “Frente Ampla” contra o regime, implausível entendimento com seus inimigos JK e Jango (aquele cassado, este exilado), sob a justificativa de que, se brigava pelo interesse público, podia fazer as pazes pelo mesmo motivo.

Em dezembro de 68, acossada por manifestações de protesto e pela incipiente guerrilha de esquerda, a ditadura cancela o que restava de direitos constitucionais e dá início a uma repressão indiscriminada. Preso, entre tantos outros, Lacerda fez greve de fome por uma semana e foi libertado, após sua filha Maria Cristina enviar carta de protesto ao general-presidente. Mas seus direitos políticos foram cassados por dez anos. Tinha 54 quando começou o ostracismo do qual nunca retornaria.



Dedicou-se a viajar, escrever crônicas, pintar quadros, cultivar rosas e criar faisões; publicou livros, próprios e alheios, pelas editoras que fundou (Nova Fronteira) e comprou (Nova Aguilar), ambas com bons serviços prestados à cultura. Tentou ser empresário, no ramo do financiamento imobiliário, o que não era nele uma vocação; sua libido, digamos, era sublimada no poder, não no dinheiro. Disse, em depoimento, que o exercício do poder como dever bem cumprido era nada menos que “a única sensação de imortalidade que uma pessoa pode ter”.

Passaram-se anos. Esgotado o ciclo de prosperidade do “milagre econômico”, premida pela repentina disparada do preço do petróleo, a ditadura ensaiava uma calculada liberalização a partir de 74. Quase todo dono de jornal tem seus momentos de repórter. No ano seguinte, um certo dia, meu pai chega à Folha de S.Paulo com informações quentes, mas imprecisas, que recebera de alguma fonte, sobre estranha movimentação entre os líderes proscritos.

Cláudio Abramo, antípoda ideológico de Lacerda, a quem conheceu bem, mas admirador de seu talento, sentou à máquina e redigiu uma reportagem imaginária com base nos dados esparsos, publicada sem assinatura no dia seguinte. “À mesa”, escreveu, “um perfil que outrora foi de ave, mas que os anos e a fartura benfazeja arredondaram, corta a sala em dois: óculos pesados, para ler e vislumbrar, no horizonte, os arautos da borrasca ou os portadores das boas-novas. Uma ambição frustrada pelo temperamento e uma inteligência reduzida pela paixão. [...] É o velho leão – não tão velho que não lhe restem alguns anos de fulguração na paisagem, tornada pobre e sáfara, e da qual foi alijado pelo descontrole verbal. Inveterado semeador de ventos, colhido pela tempestade, arribou numa praia, náufrago, mas com boa saúde, fortalecido por um longo repouso.”

Mas sua vitalidade não era a mesma, sua mística já mergulhava no esquecimento, seu tempo havia passado. Morreu em 21 de maio de 77, de modo inesperado, vítima de infarto causado por uma infecção bacteriana aguda que se alojou no coração, num primeiro momento confundida com gripe pelos médicos. Teve três filhos, Sérgio, Sebastião e Maria Cristina. No próximo dia 30 de abril transcorre o centenário de seu nascimento.

Seu cânone biográfico é dominado por um livro exaustivo e irrefutável, ao menos quanto aos fatos, registrados com minúcia, quase mês a mês, ao longo de mais de 1 200 páginas. Carlos Lacerda: A Vida de Um Lutador (do inglês Brazilian Crusader) foi escrito pelo historiador norte-americano John Watson Foster Dulles (1913–2008), filho do secretário de Estado (1953–59) no governo Eisenhower, e editado em dois volumes na década de 90.

Embora o tom seja favorável ao biografado, o texto é descritivo e rigoroso, apoiado em vasto acervo de depoimentos e ainda mais vasta pesquisa em periódicos, discursos, cartas, memórias. Fazendo lembrar o dito de Voltaire de que o segredo de aborrecer está em dizer tudo, este livro circunspecto não se permite a menor lacuna e reporta até fugazes romances que Lacerda manteve – com duas atrizes: Maria Fernanda (filha de Cecília Meireles) nos anos 50 e a americana Shirley MacLaine no fim da década seguinte.

Suas qualidades se confundem com seus defeitos. Falta alma ao livro, que quase não respira, opresso pela massa de informações ali reunida. Da mesma forma que uma árvore frondosa, magnífica em seu isolamento, a biografia de Foster Dulles terá inibido outras tentativas nas imediações, por parte de autores que decerto se sentiram desencorajados a trabalhar em campo tão esgotado sob o aspecto documental.

Mais palpitante é o Depoimento, livro publicado logo após sua morte, em 77. Um ano antes, o jornalista Melchíades Cunha Júnior, do Jornal da Tarde, propôs ao diretor-proprietário Ruy Mesquita colher uma série de testemunhos, na forma de entrevistas a uma equipe de repórteres, de figuras históricas da política brasileira. A aristocrática família Mesquita, da qual Getúlio tomou O Estado de S. Paulo em 1940, após ter banido do país seus donos, mantinha ostensiva predileção pela UDN e por Lacerda, a quem era unida por vínculos de amizade.

O próprio Ruy atuou como ator amador numa peça de Lacerda encenada em 45 por seu tio, o teatrólogo Alfredo Mesquita. Quando jovem, o futuro político caçava morcegos com os anfitriões na fazenda da família em Louveira, perto de Campinas. Às vésperas da morte, Lacerda preparava uma biografia dos irmãos Júlio de Mesquita Filho e Francisco Mesquita, que estaria em estágio adiantado e cujos originais, ao que tudo indica, desapareceram.

O primeiro depoimento aos jornalistas foi o dele, tomado durante 34 horas em março e abril de 77, no Sítio do Alecrim, no Rocio, em Petrópolis, região onde tivera, nos anos 50, uma casa de campo vizinha àquela onde moravam Lota de Macedo Soares e sua amante, a poeta americana Elizabeth Bishop. Lacerda frequentava o círculo de amizades das duas, que eram lacerdistas, embora não se encaixassem no pesado eufemismo que o cronista Antônio Maria usou, “as mal-amadas”, para satirizar as mulheres de classe média, em geral casadas e católicas, que se voluntariavam às pencas para fazer campanha por Lacerda no Rio.

Os depoimentos seriam revisados pelo entrevistado e publicados somente após sua morte, o que estimulou Lacerda a falar com desembaraço, como se apresentasse contas ao tribunal da História. Mas o depoente morreu no mês seguinte, sem reexaminar o texto, que foi revisto e anotado por seu sobrinho, o jornalista Cláudio Lacerda. Em quase 500 páginas, é um relato colorido por comentários sardônicos e observações reveladoras. Seu tom de autojustificativa não compromete a leitura ágil, trepidante.



A essas obras veio se somar, no ano passado, um livro peculiaríssimo, desde logo pela autoria. A República das Abelhas foi escrito pelo romancista Rodrigo Lacerda, seu neto. Como na história de Brás Cubas, de Machado de Assis, trata-se de autobiografia redigida por autor defunto, o próprio Lacerda. Este, à semelhança do predecessor literário, divaga enquanto vai e volta de um ponto a outro de sua atribulada existência. Para compor seu discurso, o verdadeiro autor do livro parece ter lido tudo o que Lacerda escreveu e muito do que se escreveu sobre ele. Da infusão de todos esses textos, destilou determinados episódios, que encerram camadas interpretativas, para submetê-los a nova demão literária.

A intermitência de pontos de vista, facilitada pela onipresença do falso autor que paira sobre o mundo dos vivos, do qual acaba de desencarnar, abre uma visada como que cubista, fraturada em ângulos dissonantes, de sua biografia, da política e do Brasil. Criticou-se, com razão, certa falta de verismo, até vocabular, no monólogo. Mas sua dimensão literária estará menos no estilo do que na misteriosa articulação entre os episódios escolhidos e na vertigem do próprio
empreendimento, que cobre seis gerações de netos a discorrer sobre pais e avôs. O relato se interrompe, porém, em 54, pois o livro “cresceu para trás”, na expressão do romancista. Um de seus atrativos é recuperar a figura do pai, chave psicológica da compreensão do filho.

Fragmentos de uma autobiografia, que ele deixou inconclusa, foram publicados em série na revista Manchete e depois, com trechos inéditos, no livro Rosas e Pedras de Meu Caminho (2001), editado por Túlio Vieira da Costa, espécie de curador dos arquivos Carlos Lacerda, confiados à Universidade de Brasília. Apesar de conter algumas das melhores passagens de sua prosa, o conjunto é redundante com o Depoimento.

Lacerda foi autor de cerca de vinte livros, na maioria coletâneas de artigos, discursos e crônicas. Em 37, sua primeira peça teatral, O Rio (é o Paraíba do Sul), foi encenada sob o pseudônimo de Júlio Tavares. Escreveria em 45 outras duas, montadas naquele ano, uma delas por encomenda do crítico Décio de Almeida Prado para o grupo de teatro amador que formara em São Paulo. São obras inexpressivas ou pouco afeitas ao palco; Graciliano Ramos escreveu que O Rio era uma “peça sem enredo”.

Sua incursão teatral mais notável foi a tradução de Júlio César, de Shakespeare, que esse insone teria vertido nas noites em claro quando governador. É uma das três tragédias do poeta baseadas em Plutarco (as outras são Coriolano e Antônio e Cleópatra). A versão de Lacerda, publicada em 66, não é má. Seu apego à peça decorre do paralelo entre a própria posição e a de Brutus, dito o mais virtuoso dos romanos, que aceita, em nome da salvação da república, liderar a conjura para assassinar César-Getúlio.

Se Lacerda é um democrata obrigado a se tornar golpista, Brutus é um homem justo obrigado a sujar as mãos no crime. Como estamos num mundo onde o poder se rege pela oratória, nas duas situações é um discurso arrebatador que inverte a paixão do populacho amotinado: em Roma, a oração fúnebre de Marco Antônio diante do cadáver de César; no Rio, a carta-testamento de Vargas, rascunhada pelo ghost-writer José Soares Maciel Filho, relida mil vezes nas rádios naquele funesto 24 de agosto.

Daí, talvez, o apelo do irmão médico, Maurício como o pai, quando ponderou, em dezembro de 68, na tentativa de demovê-lo da greve de fome na prisão, que ele queria “fazer Shakespeare na terra da Dercy Gonçalves”. Não passa despercebida, entretanto, uma acepção recalcada sob o paralelo edificante que os trópicos desfazem em anedota. Brutus não era apenas o campeão da liberdade, mas também do patriciado, a classe proprietária que se via diminuída pela ascensão de César, enquanto este devia sua popularidade, assim como Getúlio, à gratidão pelos direitos (ou migalhas) que aspergiu sobre o proletariado urbano.

Lacerda publicou dois livros de contos, não muito melhores do que as peças. Mário de Andrade lhe escreveu a certa altura: “Há brilhantismo demais em seu trabalho. Chega de ruibarbosismo.” Carlos Drummond de Andrade parece ter dito algo parecido quando considerou seu “talento literário talvez excessivo na riqueza de sons”. O primeiro dedicou um livro de poemas a Lacerda, o segundo elogiou seu romance ACasa do Meu Avô (na realidade, memórias da infância, considerado o seu melhor livro) e revelou ter votado nele para governador.

Quase não houve intelectual e artista de peso com quem ele não tenha se relacionado. Isso vale não só para os conservadores que o estimavam, como Manuel Bandeira, Gilberto Freyre, Cecília Meireles ou Érico Veríssimo, mas para os progressistas, a maioria, que o amaram, passaram a abominá-lo nel mezzo del cammin e voltaram a tolerá-lo quando rompeu com a ditadura militar. Tocou piano com o compositor Ary Barroso, vereador, seu colega de UDN. Compôs uma seresta com Jorge Amado e Dorival Caymmi, Beijos pela Noite. Foi amigo dos pintores Tarsila do Amaral, Candido Portinari e Di Cavalcanti. Adaptou a literatura infantil de Monteiro Lobato para o rádio.



Num sentido muito parecido ao de Lobato, Lacerda era possuído demais pela impaciência, atraído demais pelo ativismo, afoito demais no recurso a efeitos retóricos para se entregar seriamente ao trabalho ficcional. Quase todo escritor conta, porém, com uma província geográfico-sentimental que nutre sua literatura e onde ela acontece. Para esses dois reformadores irrequietos essa paisagem mental foi a mesma, a crassa pasmaceira deixada pela cultura predatória do café nos estertores do regime escravocrata, que consumiu o Vale do Paraíba no incêndio literal das queimadas, atrás das quais vinha o “ouro verde” na corrida rumo a terras frescas no oeste.

A família de Lacerda estava enraizada em Vassouras, na parte fluminense do Vale, um dos principais bastiões do escravagismo. A região alcançou o apogeu em meados do século XIX, foi servida por linha férrea já nos anos 1860 e entrou em repentina decadência, conforme o café fugia, no crepúsculo do Império. Avô e pai foram prefeitos da cidade. Herdaram do bisavô – imigrante açoriano que prosperou como dono de padaria – uma chácara de mangueiras cortada pelo rio e pela ferrovia. Era ali a “casa do meu avô”. Ainda que a trajetória da família não tenha sido exatamente essa, o próprio declínio local faz pensar numa paródia do ditado popular que rezasse “avô próspero, pai remediado, neto revolucionário”.

Mesmo o jornalismo, profissão que o celebrizou, era pouco mais que um instrumento a serviço da paixão política. Na passagem dos anos 50 para 60, numa conversa casual, ele perguntou a meu pai se não queria comprar a Tribuna da Imprensa, que vivia em dificuldades. “Você, Carlos, não consegue pôr ordem na Tribunae quer pôr ordem no Brasil?” Ele respondeu: “É mais fácil pôr ordem no Brasil do que na Tribuna!” E meu pai: “E é esse jornal que você quer me vender?” O diário foi afinal vendido em 61 para os proprietários do Jornal do Brasil, mas logo repassado a um antigo colaborador de Lacerda, Hélio Fernandes, que o manteve um jornal nanico e desabrido, embora com outra orientação editorial.

Lacerda se distinguia de Wainer não apenas por ser um articulista melhor e com mais repertório, enquanto o rival era melhor editor ou ao menos criou um jornal que exerceu influência mais fecunda. Também diferiam no fato de Wainer ter sido financiado com recursos públicos, e Lacerda, favorecido pelo apoio de concorrentes estabelecidos como O Globo e Diários Associados, que lhe franquearam rádio e tevê por temor à expansão da cadeia Última Hora. Mas a diferença crucial talvez seja que Wainer usou a política para atingir seus propósitos jornalísticos, ao passo que Lacerda fez o contrário.

Assim, os dois ofícios em que Lacerda se elevou a patamares talvez nunca superados antes ou depois – o jornalismo panfletário e a oratória – foram consumidos pela política, à qual precisamos retornar. No Depoimento, ele diz que sempre acreditou em contraofensiva e surpresa. Essa estratégia comandava seu estilo de argumentação ao escrever e discursar. Joga-se com santa ira contra a jugular do adversário, acusa-o de roubo e incompetência, aponta suspeitas como provas cabais, vitupera, ameaça, ridiculariza, achincalha, apela aos militares e ao povo – aos militares em nome do povo.

Sua presença de espírito era fulminante, e seus insultos, impiedosos. Yedo Fiúza, o candidato comunista em 45, era o “rato Fiúza”. O caudilho Batista Luzardo era o “centauro dos pampas, metade cavalo, a outra também”. Castelo Branco, pouco favorecido no aspecto físico, era “mais feio por dentro que por fora”. Ao saber que Roberto de Abreu Sodré, correligionário e amigo com quem rompera, escreveria memórias: “Parabéns ao Mobral” (programa de alfabetização de adultos do regime militar).



Restaram dele poucos registros em vídeo, mas diversos em áudio, preservados por outro colaborador, Luiz Ernesto Kawall. É pena que tanto material tenha-se perdido, não apenas no sentido físico. Pois Lacerda era mestre numa arte que não pode mais ser apreciada na medida em que também desapareceu – a oratória pública, substituída pela padronização publicitária e pelos improvisos disparatados. Mas não se imagine que ele fosse um orador à antiga, com tremulações de voz e sentenças abstrusas. Ao contrário, contribuiu como poucos para introduzir a linguagem coloquial no jornalismo e na política.

E foi talvez o primeiro a adotar, no Brasil, em vez da peroração apoplética, o tom de conversa amena que se recomenda no rádio e mais ainda no veículo que se instalava na década de 50, a televisão. Embora somente 5% dos domicílios no país contassem, em 1960, com televisor (e não mais de um terço tivesse rádio), os poderes encantatórios do meio, que propiciava um laço aparentemente tão íntimo com o falante, eram evidentes. Segundo seu biógrafo, ele aprendeu com o popular programa de Fulton Sheen, arcebispo católico americano que recorria a um quadro-negro em cena (como Lacerda passou a fazer) para que os telespectadores fixassem melhor suas sorridentes mensagens anticomunistas.

A voz de Lacerda era grave, robusta e um pouco anasalada, mas percorria uma escala ampla de tons, chegando às vezes a um timbre algo andrógino pela blandícia. Sua entonação, no entanto, em geral era áspera, como quando, em certos momentos, ele parecia cuspir as palavras com desprezo ou asco, quase omitindo a sílaba final, conforme o costume carioca. Outras vezes, para obter um efeito comovente qualquer, sua voz se alongava e perdia volume até concluir a frase como a onda que alisa a praia. Teve aulas com a atriz Ester Leão, que se recusou, por motivo ideológico, a treinar a voz de Brizola.

Não tinha, aliás, o “s” português (como em festa, “feichta”) nem o “r” francês (como em porta, “pohta”) de seus conterrâneos, talvez por exigência dos primórdios do rádio, quando os fonemas deviam se distinguir nitidamente em meio à estática das transmissões precárias – talvez porque esse sotaque não fosse tão acentuado nas gerações mais antigas ou em sua família. A consagração do hábito fazia os cariocas pronunciarem seu nome, conforme ressaltou o poeta paulista Régis Bonvicino, como se fosse uma palavra só (“Cahlacehda”), pequena glória desfrutada por raras figuras públicas.

Seu melhor retrato pessoal foi traçado em menos de dez páginas pelo memorialista católico Antonio Carlos Villaça no capítulo “Júlio Tavares” de seu O Livro de Antonio (74). Villaça era um literato que viveu para descrever o que via. Seu olhar ávido e inquieto focaliza Lacerda com um interesse minucioso, quase erótico. Este era tomado por uma “sofreguidão alucinante”. Sabia “perfeitamente” inglês e francês. Tinha um “ar de rapaz, um tanto brejeiro, boêmio, leve, livre, sensual”. Gostava de cinema e viagens. Era um místico que se interessava por espiritismo, astrologia e tinha “tendência profunda à superstição”. Não sabia nadar, batia furiosamente à máquina com dois dedos, cozinhava um peixe “temperadíssimo” e gostava “muito de queijos”.

Não lhe escapa tampouco a ciclotimia de Lacerda, dado a trabalhar sem trégua durante dias e noites, para daí desabar, prostrado. Numa crônica sobre Winston Churchill, que chamava a própria depressão de “cão negro”, Lacerda admitiu ser vulnerável a suas investidas. Um de seus melhores contos (parodiado no livro do neto) explora essa metáfora e se chama “Aparição do Cão Negro”. Seu estado de espírito há de ter piorado no ostracismo, quando se esfalfava para preencher o ócio e suprir a vocação desperdiçada. A epígrafe de seu livro Crítica e Autocrítica são dois versos do escritor português Miguel Torga que costumava citar a próprio respeito: “Podia ser melhor o meu destino/Ter o sol mais aberto em cada mão.”



Revisadas a sua vida e a sombra que ela projetou nos livros, o que resta ou ressalta? Sua ambição, certamente. Como tantos estadistas, era escravizado pela necessidade narcísica de liderar a multidão a fim de realizar obras que lhe valessem a estima pública. Essa ambição talvez fosse, nele, apenas o mais poderoso aspecto volitivo de uma personalidade inteiramente consumida pela “sofreguidão” que Villaça identificou. “Sou dos que querem tudo”, Lacerda escreveu.

Escrevia, falava, trabalhava, lia, viajava, comia e comprava com voracidade (um parente refere a quantidade prodigiosa de presentes que ele trazia para familiares e amigos quando voltava de viagem). Essa índole se ambientava bem, por sua vez, numa geração impaciente como a sua – grosso modo, a dos “tenentes” e dos modernistas –, para a qual o Brasil já perdera tempo demais no Império e na República Velha, disposta a abrir seus próprios atalhos para apressar o advento de um futuro sempre adiado.

“Depois que se provou o poder, só o poder interessa”, disse certa vez. Os longos anos na oposição purificaram sua têmpera, fazendo dele o emissário de um ideal. Após experimentar o fruto tanto tempo proibido – depois de ser governador e ver sua viável candidatura a presidente esfarelar no maquinismo da ditadura de 64 –, sua ambição decai em oportunismo e se extravia no desespero.

Ele continua o voluntarista incorrigível e o adversário (e aliado) perigoso de sempre. Mas antes sua vontade de poder vinha embalada em princípios, bons ou maus, e sua escalada tinha uma galhardia romântica a que os anos de ostracismo deram um ar surrado, canastrão. É quando, por exemplo, ele se aproxima do ministro do Exército do presidente Ernesto Geisel (1974–79), um obtuso “linha-dura” candidato a suceder ou depor o chefe para reverter a abertura política, e se envolve com o general António de Spínola, ex-presidente português exilado no Rio, num plano amalucado para invadir Portugal (então em pleno desvario revolucionário) com apoio da ditadura brasileira.

Legou à linguagem corrente o termo “lacerdismo”, que resume um moralismo seletivo, praticado contra os adversários do momento, sobretudo na forma de campanhas jornalísticas devastadoras, baseadas em indícios frágeis e conclusões precipitadas. Não há como eximi-lo desse pecado, exceto recordando que quase todos o cometiam, embora com menos paixão e talento, além de outros pecados piores, dos quais Lacerda nunca foi acusado, como venalidade e até extorsão. Há quem considere o jornalismo dos nossos dias engajado, parcial, faccioso, mas a imprensa do século passado não somente incidia nesses atributos, como costumava ostentá-los com desenvoltura. As apurações eram mais levianas, as reportagens eram opinativas, os jornais tomavam partido acintosamente e admitiam pouca ou nenhuma divergência em suas páginas.

Jamais alguém levantou contra ele, a sério, alguma denúncia de corrupção. Nunca dependeu do governo, que atacava de maneira quase sistemática, mesmo quando correligionários seus o ocupavam. Foi provavelmente o primeiro político brasileiro a proclamar a educação pública como prioridade máxima. Foi um dos raríssimos a ter, mais que veleidade literária, um autêntico apetite intelectual. Seu nome se inscreveria, ainda que não sem controvérsia (como tudo nele), no panteão dos brasileiros que, sendo os mais capacitados de sua época, nunca chegaram a presidente: Rui Barbosa, Osvaldo Aranha, San Tiago Dantas.

A restauração do capitalismo na Rússia e na China e o ressurgimento da democracia liberal como fórmula adotada por toda parte reatualizaram a pregação de Carlos Lacerda, embora não exatamente seus métodos. O que melhor sobrevive dele foi haver encarnado, em tantos episódios de sua vida transbordante, um inconformismo essencial e uma altivez de espírito que percorrem também a crônica de seu avô e de seu pai, como a transmissão de um impulso intermitente, às vezes errôneo, às vezes inspirador, a empurrar as gerações e os países.

piauí

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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O Show da minha vida.

“I can´t fucking hear you”, gritava uma voz pra lá de conhecida em um de seus célebres jargões por trás da cortina preta que havia se fechado no palco. A massa foi ao delírio, evidentemente. “Olé olé olé olé, come on”, prosseguia a voz. Pensei que fosse algo pré-gravado – talvez fosse - mas quando as cortinas se abriram lá estava ele, the “fucking Prince of darkness”, de microfone em punho, escudado por seus comparsas de crime, todos de preto, prontos para nos entregar o show de nossas vidas. Uma avalanche nos empurra para ainda mais perto do palco e, caso restasse alguma dúvida, a ficha teria caído: nós estávamos num show do Black Sabbath! Do Sabbath mesmo, com Tony Iommi, Ozzy Osbourne e Geezer Butler. Juntos e ao vivo pela primeira vez em turnê na América do Sul.

Faltou mencionar a sirene, que soava anunciando “War pigs”. “Generals gathering in their masseeeessss”, puta que pariu, começou! “Just like witches at Black masses” – caralho, primeira palhetada esporrenta do Deus do metal ali na minha frente! E o som estava perfeito, cristalino e alto, muito alto. Era verdade mesmo, eu estava num show do Black Sabbath, minha banda de rock favorita de todos os tempos, amém. E na frente de Tony Iommi, o cara que inventou essa porra, esse tal de Heavy Metal. Tô cansado pra caralho, mal consigo me segurar em pé, mas foda-se, vai ser foda!

Foi, claro. Já dava pra perceber que seria pelo primeiro grande momento da noite, quando um Ozzy Osbourne eufórico não se contém e dá um abraço apertado, quase um mata-leão, em Tony, arrancando do circunspecto mestre dos riffs um sorriso de satisfação. Quase que dava pra ler seus pensamentos: “veja isso, Tony, somos nós aqui, juntos novamente diante de uma multidão, desta vez in the fucking Rio de Janeiro, Wondefull city, full of encantos mil”. “Possacrer, Ozzy, de fuder”. O mesmo se repetiu no outro extremo com Geezer, e depois com um aceno para o baterista, Tommy Clufetos, que substituía Bill Ward. E mandou muito bem, como veremos a seguir ...

Uma coisa que notei logo de cara foi que Ozzy, apesar de manter todos os seus trejeitos amalucados e sua perfomance ensandecida, se comportava de forma um pouco mais contida, como que para ressaltar que ali ele era um membro de uma banda, não estava em carreira solo. Para deixar isso bem claro para todos, trata de sufocar os insistentes gritos ritmados com seu nome entoados pela platéia apontando sempre para a sua esquerda, onde um Tony Iommi contido porém visivelmente satisfeito, até sorridente, em vários momentos, comandava o espetáculo executando com a mestria de sempre os maiores e melhores riffs de guitarra já escritos. Demorou um pouco, mas o povo entendeu: logo estavam todos gritando por Tony e, eventualmente, Geezer – em seus momentos de maior destaque, como na introdução de NIB. No final da apresentação Ozzy chega a se curvar em reverência diante do guitarrista. Emocionante.

Tony porque Iommi é a base de tudo ali naquela porra de banda. E os solos também. A não ser quando, no meio da apresentação, deixa os holofotes nas mãos – e pés – de Clufetos que, sem exagero, humilha, principalmente quando se dedica a um solo de bateria absolutamente impressionante, capaz de calar qualquer vestígio de dúvidas quanto ao seu mérito para estar ali, substituindo uma lenda viva das baquetas. Fico imaginando o que se passa pela mente de Bill Ward ao ver aquilo. Certamente pensará que o tempo é um canalha, ou algo parecido, já que sua idade, evidentemente, não lhe permitiria tamanha vitalidade. Azar o dele, caso o motivo da falta seja realmente o que foi aventado:  uma simples – ok, nem sempre – disputa financeira. Porque tenho certeza que ninguém sentiria falta do vigor da juventude de Clufetos diante de sua simples presença, igualmente digna de reverência. Enfim, são apenas especulações. A realidade estava lá, diante de nossos olhos e castigando nossos ouvidos. E foi sensacional.

Depois de “Age of reason”, a primeira do disco novo, foi a vez de “Black Sabbath”, a música. Arrepiante. Ainda mais sinistra e arrastada que a versão original, foi executada em tom solene e acompanhada de forma emocionada pela platéia, no que parecia uma gigantesca missa negra em pleno templo da alegria, a praça da apoteose da passarela do samba – àquela altura do campeonato lotada por cerca de 35.000 pessoas. Nessa hora, do meu lado, alguém decide que era o momento de acender uma vela - ou algo parecido – no caso, um sinalizador, que eu carrego por alguns minutos até passá-lo adiante antes que seja tomado pela brigada anti-incêndio. Enquanto isso, do palco, soam gritos de desespero: “OH! NO! PLEASE, GOD, HELP ME” - e tome porrada no pé do ouvido. Impossível não lembrar da primeira vez que ouvi esse verdadeiro hino, sozinho, no escuro, nos anos oitenta, em Itabaiana. Senti medo – foi uma das duas únicas vezes em que uma música me fez sentir medo. A outra foi quando ouvi, também sozinho e no escuro, a composição de György Ligeti usada na cena do portal da trilha sonora de “2001, uma odisséia no espaço”.

O show prossegue com “Behind the wall of sleep” e “NIB”. “End of the beginning”, de “13”, entra na sequencia. O mais incrível é notar que as três músicas do novo disco inseridas no set list não comprometem em nada a qualidade da apresentação em meio a um repertório tão perfeito. Suspeito até que elas possam se tornar também, um dia, clássicos do cancioneiro “sabbático”, a julgar pelo impacto que foi ouvir ao vivo o riff matador que abre a ótima “God is dead”. O futuro dirá.

Enquanto isso Ozzy prossegue fazendo o que pode – e ainda pode muito – para animar a noite. Inclusive piada consigo mesmo, como quando entra no palco com um morcego de plástico na boca, ou quando joga os já tradicionais baldes de água nos que estão encostados na grade. Ou chutando de volta as bolas lançadas pelo público. Ou ainda emitindo um curioso e misterioso som de “cuco” na introdução de algumas músicas – quando a platéia finalmente demonstra notar que é ele que está fazendo aquilo, ele diz: “Dane-se o mundo e enlouqueça, é bom ficar louco”. O velhinho ainda tem muito bom humor e poder de comunicação, demonstrado também ao anunciar “Dirty women” – “I like then”. Gargalhadas gerais. Mas é bom não abusar: num dado momento ele arrisca um de seus clássicos saltos, tão amplamente registrados em fotos antológicas, mas consegue apenas um pulinho desengonçado. Ninguém pareceu notar – porque porra, Tony Iommi estava ali do lado, despejando mais uma saraivada de riffs. Que se foda o que não deu certo.

Antes de “Children of the Grave” Mr. Madman anuncia que eles só têm mais uma música antes do fim, mas que se nós fizéssemos muito, mas muito barulho mesmo, eles voltariam e tocariam "one more song". Dito e feito – voltam para o bis e, para minha surpresa, Tony puxa o riff de nada menos que “Sabbath Bloody Sabbath”! Geezer e Clufetos não se fazem de rogados e o acompanham, mas foi só uma brincadeira: ele logo emenda com “paranoid”, esta sim, programada para o final. Apoteótico, como não poderia deixar de ser, mas com uma misteriosa ausência de Geezer Butler na saudação final. Os caras até demoram um pouco mais a se despedir esperando por ele, que não aparece. Dá pra notar que Ozzy ficou um tanto quanto confuso e preocupado, mas enfim, fim de festa. Hora de tentar ir embora, ao som de “zeitgeist”, a faixa mais lenta do novo disco, tocada nos auto-falantes – que durante toda a espera antes do show só tocava AC/DC.

TENTAR porque a produção cometeu alguns absurdos de desorganização, o maior deles a estreita faixa de portão que TODOS os que estavam na pista vip tiveram que utilizar para se retirar. Felizmente não houve tumulto naquele momento, pois as conseqüências poderiam ter sido catastróficas. Detalhe: isso num evento particular - embora utilizando-se de um espaço público - com ingressos a preços exorbitantes. Outra bola fora, que ninguém pareceu notar, foi a ausência do belíssimo cenário que emoldura os telões do palco nos shows gringos. Aqui foi o tradicional telão preto quadradão mesmo. Que, por sinal, exibiu uma bela sequencia de imagens perfeitamente sincronizadas com o conteúdo das letras das músicas – com direito, inclusive, a uma sinistra imagem do “papa emérito” Bento XVI entre ditadores assassinos. Ousado.

Não tão bom ou ousado, no entanto, quanto o uso do telão feito pelo Megadeth, que abriu a noite com uma apresentação precisa e devastadora. Ou melhor, dos telões: tiveram o requinte de usar 3, um grande, atrás, e dois menores, na frente. A seleção de imagens foi bem melhor que a do Sabbath, com direito, inclusive, a grandes sacadas de humor, como os trechos de comédias Hollywoodianas que citam a banda usados na introdução de algumas músicas.

Esta era a terceira vez que eu veria o Megadeth, o que faz dela a banda “gringa” que eu mais vi ao vivo na vida. É sempre um bom show, claro, mas confesso que me surpreendi. Entraram com todo o gás, já com “Hasngar 18”, do “rust in peace” – que eu considero o segundo melhor disco de thrash metal de todos os tempos. E emendaram com a devastadora “Wake up dead”, faixa de abertura do segundo melhor disco deles, “peace sells... but who´s buying?” – heresia para muitos de meus amigos que preferem sempre o “countdown to extinction”. No meu ranking pessoal ele ocupa um honroso terceiro lugar, e só veio dar as caras no show com “Sweating bullets”, a quinta a ser executada. Fora essa, “apenas” o megahit “Symphony of Destruction”. Pra mim foi de excelente tamanho, já que no recheio tivemos “tornado of souls”, também do rust, numa apresentação que se encerrou com a faixa-título do segundo disco, “peace sells” - com direito à presença ilustre do mascote da banda, Vic Rattlehead, num "momento Eddie", dando um passeio no palco vestido num uniforme militar - e teve “Holy Wars” como bis. Tudo tocado de forma precisa e em alto e bom som, apesar de numa velocidade desenfreada. Como deve ser, aliás, em se tratando de uma das bandas fundadoras do thrash. Melhor impossível.

O show do Megadeth se encerrou com a execução, nos auto-falantes, da versão de Joey Ramone para “What a wondeful World”. Era exatamente o que sentíamos todos naquele momento, prestes a ver pela primeira vez ao vivo a banda das nossas vidas.

Unforgettable.

a.

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segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Lênin, por H. G. Wells

O britânico H.G.Wells (1866-1946) já tinha publicado seus famosos romances A Guerra dos MundosA Ilha do Dr. Moreau e O Homem Invisível quando foi à Rússia, em outubro de 1920, e se encontrou com Vladimir Ilitch Lenin (1870-1924), o líder da revolução ocorrida no país três anos antes. Wells nunca foi marxista nem acreditava na chegada do socialismo ao poder pela via revolucionária. Sim, era socialista, mas um socialista utópico.

No entanto, ganha visível simpatia e admiração intelectual por Lenin nesse encontro que um amigo em comum, o também escritor Máximo Gorki (1868-1936), tornou possível. Wells chega ressabiado, cheio de críticas ao que viu no país até ali e cético com o futuro da União Soviética, mas nada foi capaz de causar tensão entre os dois: o papo flui de maneira agradável até o fim. Era a segunda vez que Wells visitava a Rússia. Ainda iria lá mais uma vez em 1934, quando entrevistou Stalin, a quem também admirou, mas achou “rígido demais”.
A entrevista foi publicada no The Sunday Express (edição de domingo do Daily Express), entre vários artigos que Wells escreveu sobre a viagem. No ano seguinte, saiu em livro, com o título Russia In the Shadows (Rússia nas Sombras). A conversa com Lenin, que traduzi e transcrevo aqui quase na totalidade, ocupa o penúltimo capítulo do livro. A edição original pode ser encontrada online, em inglês. É uma narrativa fascinante, rica em descrições e muito saborosa, que nada deixa a desejar ao “new journalism” que surgiria apenas 40 anos depois. Espero que desfrutem.
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O Sonhador no Kremlin

Por H.G.Wells

Meu principal propósito ao ir de Petersburgo a Moscou era encontrar e conversar com Lenin. Eu estava muito curioso para vê-lo e estava disposto a ser hostil com ele. Encontrei uma personalidade totalmente diferente de tudo que eu esperava encontrar.

Lenin não é um escritor; seus trabalhos publicados não o retratam. Os pequenos panfletos e ensaios que circulam em Moscou com o seu nome, cheios de falsas ideias sobre a psicologia do trabalho no Ocidente e defensores obstinados da proposição impossível que é a profetizada revolução marxista que aconteceu na Rússia, mostram muito pouco da real mentalidade do Lenin que eu encontrei. De vez em quando há alguns momentos de inspirado brilhantismo, mas em geral estas publicações não mais que abordam as ideias e as frases do marxismo doutrinário. Pode ser que isso seja necessário. Talvez seja essa a única linguagem que o comunismo entenda; uma ruptura em um novo dialeto seria inquietante e desmoralizante. O comunismo de esquerda é a espinha dorsal da Rússia hoje; infelizmente é uma espinha dorsal sem partes flexíveis, uma espinha dorsal que não pode ser dobrada a não ser com extrema dificuldade e que deve ser dobrada mediante adulação e deferência.
Em Seattle!
Sob o brilhante sol de outubro, entre as folhas amarelas esvoaçantes, Moscou nos impressionou como sendo ao mesmo tempo mais relaxada e mais animada que Petersburgo. Há muito mais movimento de gente, mais comércio e um comparável número de droshkys (carruagens). Os mercados estão abertos. Não há a mesma ruína geral de ruas e casas. Há, isso é certo, muitos rastros dos desesperados enfrentamentos de rua dos princípios de 1918. Um dos domos da absurda catedral de São Basílio, exatamente do lado de fora do portão do Kremlin, estava amassado por um morteiro e ainda necessita conserto. Os bondes que encontramos não carregavam passageiros; estavam sendo usados para transportar comida e combustível. Neste aspecto Petersburgo parece melhor preparada do que Moscou.

As dez mil cruzes de Moscou ainda brilham à luz da tarde. Sobre um pináculo visível do Kremlin as águias imperiais estendem suas asas; o governo bolchevique tem estado muito ocupado ou muito indiferente para tirá-las dali. As igrejas estão abertas, as imagens de santos são uma indústria florescente, e os mendigos todavia cortejam a caridade nas portas. O famoso santuário milagroso da Madona Ibérica, do lado de fora da Porta do Salvador, estava particularmente cheio. Havia muitas mulheres do campo, incapazes de entrar na pequena capela, beijando as pedras do lado de fora.
Do lado oposto, em um painel de gesso colocado em frente a uma casa, está aquela agora célebre inscrição colocada por um dos primeiros governos revolucionários em Moscou: “A religião é o ópio do povo”. O efeito que a inscrição produz é enormemente reduzido pelo fato de que o povo na Rússia não pode ler.
Os arranjos prévios a meu encontro com Lenin foram tediosos e irritantes, mas no fim lá estava eu a caminho do Kremlin na companhia do Sr. Rothstein, uma velha figura dos círculos comunistas londrinos, e um camarada americano com uma câmera enorme que era também, suspeitei, um oficial do ministério das relações exteriores russo.
O Kremlin como eu lembrava em 1914 era um lugar muito aberto, tanto quanto o Castelo de Windsor, com peregrinos e turistas em grupos e casais passeando através dele. Mas agora é fechado e difícil de entrar. Houve uma grande confusão com passes e autorizações antes de que pudéssemos passar ainda pelos portões externos. E nós fomos checados e inspecionados em quatro ou cinco salas de guardas e sentinelas antes de sermos recebidos. Isto pode ser necessário para a segurança pessoal de Lenin, mas o coloca fora de alcance da Rússia e, mais grave talvez, se há de fato uma ditadura, isso põe a Rússia fora de seu alcance. Se as coisas são filtradas até ele, devem ser filtradas abaixo, e então podem vir muitas mudanças no processo.
Encontramos finalmente Lenin, uma pequena figura em uma grande mesa, numa sala bem iluminada com magnífica vista. Achei sua escrivaninha um tanto bagunçada. Sentei-me a um canto da mesa, e o homenzinho –seu pé mal tocava o chão quando ele se sentou na ponta da cadeira– virou-se para conversar comigo, colocando os braços ao redor e sobre uma pilha de papéis. Ele falava um inglês excelente, mas, pensei, era característico da atual condição das relações russas que o sr. Rothstein se metesse ocasionalmente na conversa, fazendo observações e oferecendo ajuda. Enquanto isso o americano começou a trabalhar com sua câmera, e, discreta mais persistentemente, tirava fotos. A conversa, entretanto, estava muito interessante para que isso pudesse ser um incômodo. Esquecemos os cliques bastante rápido.
Eu tinha vindo com a expectativa de discutir com um marxista doutrinário. Não encontrei nada parecido. Tinha ouvido falar que Lenin gostava de dar lições às pessoas; ele certamente não o fez nesta ocasião. Muito se falou de sua risada nas descrições, uma risada que poderia ser prazerosa a princípio e cínica ao final. Esta risada não apareceu. Sua testa me lembrou a de alguém –não pude lembrar quem, até que em uma outra tarde eu vi Sr. Arthur Balfour (ex-primeiro-ministro britânico) sentado e falando sob uma luz fraca. É exatamente a mesma abóbada, o crânio ligeiramente unilateral. Lenin tem uma agradável, mutável, face amorenada, com um vívido sorriso e o hábito (talvez por alguma dificuldade em enxergar) de apertar um olho quando pausa a conversação; ele não se parece muito com as fotografias que você conhece dele porque é uma dessas pessoas cuja mudança de expressão é mais importante que os rasgos; ele gesticulava um pouco com suas mãos sobre os papéis amontoados enquanto falava, e falava rapidamente, muito perspicaz sobre a sua matéria, sem nenhuma pose ou pretensão ou reserva, como um bom homem de ciências falaria.
Nossa conversa esteve alinhavada e unida por dois –como diria? –temas. Um, de mim para ele: “O que você acha que está fazendo da Rússia? Que tipo de Estado está tentando criar?” O outro, dele para mim: “Por que a revolução socialista não começa na Inglaterra? Por que vocês não trabalham pela revolução? Por que vocês não estão destruindo o capitalismo e estabelecendo o Estado Comunista?” Estes temas se entrelaçavam, afetavam um ao outro, iluminavam-se. O segundo trouxe de volta o primeiro: “Mas o que vocês estão fazendo da revolução socialista? Está sendo um sucesso?” E este de volta para o segundo: “Para ser um sucesso o mundo ocidental deve participar. Por que não o faz?”
Antes de 1918 todo o mundo marxista pensava na revolução socialista como um fim. Os trabalhadores do mundo tinham que se unir, derrotar o capitalismo e serem felizes no final. Mas em 1918 os comunistas, para sua própria surpresa, se encontravam no comando da Rússia e desafiados a produzir seu milênio. Eles tinham, na continuidade das condições de guerra, no bloqueio, etcétera, uma pretensa desculpa para o atraso na produção de uma nova e melhor ordem social, mas é claro que começam a se dar conta do tremendo despreparo que implicam os métodos marxistas de pensamento. Em uma centena de pontos –já apontei o dedo em um ou dois deles –eles não sabem o que fazer. Mas o comunista comum simplesmente perde o controle se você se arrisca a duvidar que tudo está sendo feito, sob o novo regime, precisamente da melhor e mais inteligente maneira. Ele é como uma dona de casa irritadiça que quer que você reconheça que tudo está em perfeita ordem no meio de uma ação de despejo. É como uma dessas agora esquecidas “suffragettes” (mulheres que lutaram pelo voto feminino) que costumavam nos prometer o paraíso na Terra tão logo escapássemos da tirania das “leis feitas por homens”. Lenin, por outro lado, cuja franqueza muitas vezes deixa seus discípulos sem fôlego, recentemente desnudou a última pretensão de que a revolução russa seja algo mais do que a inauguração de uma época de experimentação sem limites. “Aqueles que estão engajados na formidável tarefa de vencer o capitalismo”, ele escreveu, “devem estar preparados para tentar método após método até achar aquele cujas respostas atendam melhor a seu objetivo”.
Iniciamos nossa conversa com uma discussão sobre o futuro das grandes cidades sob o comunismo. Eu queria ver até onde Lenin estava acompanhando a morte das cidades na Rússia. A desolação de Petersburgo me trouxe a compreensão de algo que eu nunca tinha me dado conta antes: que toda a forma e a existência de uma cidade são determinadas pelo comércio e pelo mercado, e que a abolição deles torna nove entre dez edifícios, em uma cidade comum, direta ou indiretamente sem significado ou sem uso. “As cidades ficarão muito menores”, ele admitiu. “Elas serão diferentes. Sim, bastante diferentes”. O que, eu sugeri, implicaria em um enorme desafio. Isto significaria riscar todas as cidades existentes e substituí-las. As igrejas e os grandes edifícios de Petersburgo se tornariam então como os de Novgorod o Grande (cidade russa) ou como os templos de Paestum (Grécia). A maioria das cidades se dissolveria. Ele concordou, bastante alegremente. Acho que o confortou achar alguém que entendesse a necessária consequência do coletivismo, o que até mesmo muitos de sua própria gente não conseguiam. A Rússia tem que ser reconstruída inteiramente, tem que se tornar uma nova coisa…
E a indústria também tem que ser reconstruída inteiramente?
Eu me dei conta do que já está acontecendo na Rússia? Da eletrificação da Rússia?
Lenin, que, como um bom marxista ortodoxo, rejeita todos os “utópicos”, sucumbiu afinal a uma utopia, à utopia dos eletricistas. Ele aposta suas fichas em um esquema de desenvolvimento de grandes estações de energia na Rússia para atender todas as províncias com luz, transporte e energia industrial. Dois distritos experimentais já foram eletrificados, ele disse. Alguém pode imaginar um projeto mais corajoso em uma terra enorme e plana, de florestas e camponeses ignorantes, sem energia hidráulica, e com o comércio e a indústria em seu último suspiro? Projetos de eletrificação parecidos estão em desenvolvimento na Holanda e estão sendo discutidos na Inglaterra e, nestes centros densamente povoados e industrialmente desenvolvidos, pode-se concebê-los como exitosos, econômicos e totalmente benéficos. Mas sua aplicação na Rússia representa um ganho ainda maior sobre a imaginação construtiva. Eu não consigo imaginar nada disso acontecendo nesta bola de cristal turva da Rússia, mas este pequeno homem no Kremlin pode; ele vê as decadentes ferrovias substituídas por um novo transporte elétrico, vê novas estradas se estendendo sobre o país, vê um novo e feliz comunismo industrial recomeçando. Enquanto conversávamos ele quase me persuadiu a compartilhar de sua visão.
“E você fará tudo isso com os camponeses fixados em sua terra?”
Mas não somente as cidades serão reconstruídas; toda a agricultura também será.
“Mesmo agora,” disse Lenin, “toda a produção agrícola da Rússia não vem dos camponeses. Nós temos agricultura em larga escala em alguns lugares. O governo já controla grandes propriedades com trabalhadores no lugar de camponeses, onde as condições são favoráveis. Isso pode ser ampliado, primeiro para outra província, e então para outra. Os camponeses em outras províncias, egoístas e ignorantes, não saberão o que está acontecendo até chegar sua vez…”
Pode ser difícil derrotar o campesinato russo em massa; mas por partes não há dificuldade. À menção dos camponeses a cabeça de Lenin chegou perto da minha; seu jeito de falar se tornou confidencial. Como se todos os camponeses pudessem ouvi-lo.
Não é apenas a organização material da sociedade que você tem de construir, argumentei, mas a mentalidade de todo o povo. Os russos são, por hábito e tradição, negociantes e individualistas; suas almas devem ser remodeladas para este novo mundo ser conquistado. Lenin me perguntou o que eu tinha visto do trabalho educativo que está sendo feito. Elogiei algumas das coisas que vi. Ele assentiu e sorriu com prazer. Tem uma confiança ilimitada em seu trabalho.
“Mas são apenas esboços e começos”, eu disse.
“Em dez anos volte e veja o que nós fizemos na Rússia”, ele respondeu.
Em Lenin eu me dei conta de que o comunismo podia ser, a despeito de Marx, enormemente criativo. Após estes fanáticos chatos da guerra de classes que encontrei entre os comunistas, homens previsíveis tão estéreis quanto o sílex, após numerosas experiências com o orgulho treinado e vazio do devoto homem marxista, este impressionante homenzinho, com sua franca admissão da imensidade e complicação do projeto do comunismo e sua singela concentração sobre a concretização dele, foi muito revigorante. Ele pelo menos tem a visão de um mundo transformado a planejar e construir de novo.
Ele queria mais das minhas impressões sobre a Rússia. Eu lhe disse que achei que em muitos lugares, e mais particularmente na Comuna de Petersburgo, o comunismo estava se impondo muito forte e rapidamente, e destruindo antes de estar pronto para reconstruir. Eles destruíram o comércio antes que estivessem prontos para o racionamento; a organização cooperativa foi  destroçada em vez de ser utilizada, e coisas assim. Isso nos trouxe à nossa diferença essencial, à diferença entre o coletivista evolucionário e o marxista, à pergunta se a revolução é, afinal, necessária, se é necessário destruir um sistema econômico completamente antes que um novo possa começar. Eu acredito que através de uma intensa campanha educativa o sistema capitalista existente pode ser civilizadoem um sistema coletivista mundial; Lenin, por outro lado, se prendeu anos atrás aos dogmas marxistas da inevitável guerra de classes, à derrota da ordem capitalista como prelúdio para a reconstrução, à ditadura do proletariado e coisas do gênero. Ele tinha que argumentar, portanto, que o capitalismo moderno é incuravelmente predatório, perdulário e impossível de reeducar, e que até que ele seja destruído irá continuar a explorar a humanidade estupidamente e sem rumo, que lutará e se prevenirá contra qualquer administração de recursos naturais que seja para o bem geral, e que, porque é essencialmente uma disputa, inevitavelmente fará guerras.
Eu era, admito, um osso duro de roer. De repente, ele sacou o novo livro de Chiozza Money, The Triumph of Nationalisation, que tinha evidentemente lido com muito cuidado. “Veja, se você começa a ter um bom trabalho de organização coletiva com interesse público, os capitalistas destroem de novo. Eles aniquilaram seus estaleiros nacionais; eles não irão deixar vocês trabalharem seu carvão economicamente”. Ele deu um tapinha sobre o livro. “Está tudo aqui”.
E contra o meu argumento de que as guerras vieram do imperialismo nacionalista e não da organizacão capitalista da sociedade ele saiu-se com esta: “Mas o que você pensa do novo imperialismo republicano que vem até nós da América?”
Aqui o Sr. Rothstein interveio em russo com uma objeção a que Lenin não deu importância.
E a despeito da súplica do Sr. Rothstein por reserva diplomática, Lenin continuou a explicar os projetos com os quais pelo menos um americano procurava deslumbrar a imaginação de Moscou. A assistência econômica para a Rússia e o reconhecimento do governo bolchevique. Uma aliança defensiva contra a intervenção japonesa na Sibéria. Uma estação naval na costa da Ásia, e arrendamentos a longo prazo, por 50 ou 60 anos, dos recursos naturais do Kamchatka e possivelmente de outras largas regiões na Rússia asiática. Bem, eu acho que isso seria para a paz? Não seria nada mais que o começo de um novo conflito mundial? O que achariam os imperialistas britânicos deste tipo de coisa?
Sempre, ele insistiu, o capitalismo compete e disputa. É a antítese da ação coletiva. Não pode evoluir para a unidade social ou mundial.
Mas alguma potência industrial poderia vir e ajudar a Rússia, eu disse. Ela não pode se reconstruir agora sem essa ajuda…
Nossos múltiplos argumentos findaram inconclusivamente. Nos despedimos de forma amistosa, e eu e meu colega fomos colocados para fora do Kremlin barreira após barreira, da mesma maneira como entramos.
por Cynara Menezes
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Stalin, por H. G. Wells

Entrevista lendária e histórica realizada pelo escritor, gênio e visionário H.G.Wells(1866-1946) com Josef Stálin. Era 1934 e Wells estava em visita à União Soviética. A entrevista aconteceu no dia 23 de julho e durou das 16h às 18:50h. A conversa foi anotada por Konstantin Oumansky - Comissariado do Exterior da URSS.

— Wells: Fico-lhe muito grato, senhor Stálin, por ter aceitado ver-me. Estive recentemente nos Estados Unidos. Mantive longa conversa com o Presidente Roosevelt e procurei saber quais eram suas idéias principais. Agora venho perguntar ao senhor o que está fazendo para mudar o mundo...

— Stálin: Na verdade, não muita coisa...

— Wells: Vagueio pelo mundo e como um homem comum, observo o que se passa em volta de mim.

— Stálin: Os homens públicos importantes, como o senhor, não são "homens comuns". Evidentemente, só a história pode determinar quão importante foi este ou aquele homem público. Em todo o caso, o senhor não vê o mundo como um "homem comum".

— Wells: Não pretendi ser modesto. Quis dizer que procuro ver o mundo com os olhos do homem comum, e não como um político de partido ou um estadista. A minha visita aos Estados Unidos me causou forte impressão. O velho mundo financeiro está desabando, e a vida econômica do país está sendo reorganizada sobre novas linhas. Lênin disse que era "preciso aprender a fazer negócios" aprendendo com os capitalistas. Hoje, os capitalistas tem de aprender com os senhores, devem captar o espírito do socialismo. Parece-me que nos Estados Unidos se está levando a cabo profunda reorganização - a criação de uma economia planificada, isto é, socialista.

O senhor e Roosevelt partiram de dois pontos de vista diferentes. Porém, não há uma relação de idéias, uma espécie de parentesco de idéias, entre Washington e Moscou?

Em Washington, impressionaram-me as mesmas coisas que se passam aqui: ampliação do aparelho de direção, criação de uma série de novos organismos reguladores do Estado, organização de um serviço público universal. Como os senhores, necessitam de habilidade na direção.

— Stálin: Os Estados Unidos buscam propósito diverso do que buscamos na U.R.S.S. O propósito que perseguem os norte-americanos surgiu das dificuldades econômicas, da crise econômica. Os norte-americanos pretendem desembaraçar-se das crises à base da atividade capitalista privada sem mudar a base econômica. Estão tratando de reduzir ao mínimo a ruína, as perdas causadas pelo sistema econômico existente. Aqui, entretanto, como o senhor sabe, foram criadas, em lugar do velho sistema econômico destruído, bases inteiramente diferentes; uma nova base econômica.

Embora os americanos citados pelo senhor atinjam parcialmente o seu propósito, quer dizer, reduzam ao mínimo tais dificuldades, não destruirão as raízes da anarquia que é inerente ao sistema capitalista.

Estão preservando o sistema econômico que deve conduzir inevitavelmente - e não pode senão conduzir - à anarquia na produção. De modo que, na melhor das hipóteses, o que atingirem será, não a reorganização da sociedade, não a abolição do velho sistema social que engendra a anarquia e as crises, mas a limitação de algumas de suas características negativas, certa restrição aos seus excessos. Subjetivamente, talvez os norte-americanos pensem que estão reorganizando a sociedade; objetivamente, entretanto, estão preservando as bases atuais dela. É por isso, objetivamente, que daí não resultará nenhuma reorganização da sociedade.

Nem haverá absolutamente economia planificada. Que é economia planificada? Quais são alguns dos seus atributos? A economia planificada cuida de abolir o desemprego. Suponhamos que seja possível, enquanto se preserva o sistema capitalista, reduzir o desemprego até certo mínimo. Porém, nenhum capitalista aceitará jamais a abolição total do desemprego, a abolição do exército de reserva dos desempregados, cuja razão de ser é fazer pressão no mercado do trabalho para garantir a oferta de trabalho barato. Aí tem o senhor uma das fendas da "economia planificada" da sociedade burguesa. E ainda mais, a economia planificada pressupõe aumento da produção naqueles ramos da indústria que produzem as mercadorias de que o povo mais necessita. Mas o senhor sabe que a expansão da produção, sob o capitalismo, se dá por motivos inteiramente diferentes; sabe que o capital flui para aqueles ramos da economia onde é mais alta a taxa de lucro. O senhor jamais conseguirá que um capitalista aceite uma taxa de lucro menor para satisfazer as necessidades do povo. Por isso, sem se desembaraçar dos capitalistas, sem se abolir o princípio da propriedade privada sobre os meios de produção, é impossível criar-se uma economia planificada.

— Wells: Estou de acordo com muita coisa que o senhor disse, porém gostaria de insistir sobre o fato de que se um país adota o princípio da economia planificada, se os governantes, de modo gradual, passo a passo, começam conseqüentemente a aplicar esse princípio, a oligarquia financeira será por fim abolida e se estabelecerá o socialismo, no sentido anglo-saxão da palavra. O efeito das idéias do New Deal de Roosevelt é muito poderoso, e elas são, na minha opinião, idéias socialistas. Parece-me que, em vez de se por em tensão o antagonismo entre os dois mundos, deveríamos, nas circunstâncias atuais, esforçarmo-nos por estabelecer uma linguagem comum para todas as forças construtivas.

— Stálin: Ao falar da impossibilidade de realizar os princípios da economia planificada enquanto se conserva a base econômica do sistema capitalista, não desejo, de forma alguma, diminuir as destacadas qualidades pessoais de Roosevelt, sua iniciativa, sua coragem e determinação. Indubitavelmente, Roosevelt se projeta como uma das figuras mais fortes entre todos os capitães do mundo capitalista contemporâneo. Por isso gostaria, ainda uma vez, de repisar que a minha convicção de que a economia planificada é impossível sob as condições do capitalismo, não significa que tenha dúvidas sobre a qualidade pessoal, o talento e a coragem do Presidente Roosevelt. Mas quando as circunstâncias são desfavoráveis, nem o capitão de maior talento pode atingir a meta a que o senhor se referiu.

Para começar, teoricamente não está excluída a possibilidade de se caminhar gradualmente, passo a passo, sob as condições do capitalismo, até a meta pelo senhor chamada socialismo no sentido anglo-saxão da palavra. Mas que "socialismo" será esse? Na melhor das hipóteses, será um freio aos representantes mais obstinados do lucro capitalista, certo reforçamento do princípio regulador na economia nacional. Tudo isso está muito bem. Porém, assim que Roosevelt, ou qualquer outro capitão do mundo contemporâneo burguês, comece a empreender algo de sério contra os fundamentos do capitalismo, sofrerá inevitavelmente séria derrota. Os bancos, as indústrias, as grandes empresas, as grandes fazendas, não estão nas mãos de Roosevelt. São todas propriedades privadas. As estradas de ferro, a marinha mercante, tudo isso pertence a proprietários privados. E, finalmente, o exército dos trabalhadores especializados os engenheiros, os técnicos, não estão tampouco sob o mando de Roosevelt, mas dos proprietários privados; todos trabalham para eles. Não devemos esquecer as funções do Estado, no mundo burguês. O Estado é uma instituição que organiza a defesa do país, organiza a manutenção da "ordem": é um aparelho para cobrar impostos. O Estado capitalista não se ocupa muito com a economia no sentido estrito da palavra; a economia não está nas mãos do Estado. Ao contrário, o estado é que está nas mãos da economia capitalista. Por isso, receio que, apesar de toda a sua energia e capacidade, Roosevelt não alcance a meta a que o senhor se refere,se essa é, em realidade, a sua meta. Talvez, no curso de várias gerações, seja possível aproximar-se um pouco dessa meta, porém pessoalmente considero que nem mesmo isso seja provável.

— Wells: Talvez eu creia mais fortemente que o senhor na interpretação econômica da política. As invenções e a ciência moderna puseram em movimento enormes forças dirigidas para a organização melhor, para o melhor funcionamento da comunidade, isto é, para o socialismo. A organização e a regulamentação da ação individual tornaram-se necessidades mecânicas, independentemente das teorias sociais.

Se principiássemos pelo controle estatal dos bancos e continuássemos com o controle dos transportes, das indústrias pesadas, da indústria em geral, do comércio etc., tal controle universal equivaleria à propriedade do Estado sobre todos os ramos da economia nacional. Este será o processo da socialização. Socialismo e individualismo não se opõem como o preto ao branco. Há muitos estados de permeio entre eles. Há o individualismo que roça no bandoleirismo, e há o espírito de disciplina e de organização que são equivalentes ao socialismo. A introdução da economia planificada depende, em grau considerável, dos organizadores da economia, dos técnicos, os quais, passo a passo, podem ser convertidos aos princípios socialistas de organização. E isso é da maior importância, porque a organização precede o socialismo. Sem organização, a idéia socialista não passa de mera idéia.

— Stálin: Não há, nem deve haver, contraste irreconciliável entre o indivíduo e a coletividade, entre os interesses individuais e os interesses da coletividade. Não deve haver tal contraste, porque o coletivismo, o socialismo, não nega e sim combina os interesses individuais com os interesses da coletividade.

O socialismo não pode se esquecer dos interesses individuais. Somente a sociedade socialista pode satisfazer completamente esses interesses pessoais. Ainda mais: só a sociedade socialista pode salvaguardar firmemente os interesses do indivíduo. Neste sentido, não há contraste irreconciliável entre "individualismo" e socialismo. Porém, podemos negar o contraste entre as classes, entre a classe dos proprietários, a classe dos capitalistas, e a classe dos trabalhadores, a classe dos proletários? De um lado, temos a classe dos proprietários, que é dona dos bancos, das fábricas, das minas, do transporte, das plantações nas colônias. Tais pessoas não vêem senão seus próprios interesses, sua ambição pelos lucros. Não se submetem à vontade da coletividade; esforçam-se, isso sim, por subordinar cada coletividade à sua vontade. De outro lado, temos a classe dos pobres, a classe explorada, a que não possui nem fábricas, nem usinas, nem bancos, a que é obrigada a vender sua força de trabalho aos capitalistas e que carece de oportunidades para satisfazer as suas necessidades mais elementares. Como se podem conciliar interesses tão opostos? Pelo que sei, Roosevelt não teve êxito em encontrar a senda da conciliação entre esses interesses. E é impossível, como já o demonstrou a experiência. Afinal, o senhor conhece a situação dos Estados Unidos melhor do que eu, que nunca estive lá e observo os assuntos norte-americanos sobretudo através do que se escreve sobre esse assunto. Porém tenho alguma experiência de luta pelo socialismo e esta experiência me diz que, se Roosevelt tentar satisfazer os interesses da classe proletária, à custa da classe capitalista, esta porá outro Presidente no lugar dele. Os capitalistas dirão: os Presidentes passam, porém nós permaneceremos; se esse ou aquele Presidente não defende os nossos interesses, encontraremos um outro. Pode o Presidente opor-se à vontade da classe capitalista?

— Wells: Oponho-me a essa classificação simplista da Humanidade em pobres e ricos. Evidentemente há uma categoria de pessoas que visa o lucro. Mas não são essas pessoas olhadas como obstáculos, tanto no Ocidente como aqui? Não há no Ocidente muita gente para quem o lucro não é um fim em si, gente que possui certa quantidade de recursos e que deseja inverter e obter lucros com as suas inversões, porém que não faz disso o seu objetivo principal? Para essa gente as inversões são uma inconveniência necessária. Não há grandes núcleos de engenheiros capazes e estudiosos, organizadores da economia, cujas atividades são estimuladas por alguma coisa mais que o lucro? Na minha opinião, há uma classe numerosa de pessoas capazes que admitem ser o sistema atual não-satisfatório e que estão destinadas a um grande papel na futura sociedade socialista. Durante os últimos anos tenho pensado muito na necessidade, tenho-me dedicado muito à tarefa de levar a cabo a propaganda em favor do socialismo e do cosmopolitismo entre amplos círculos de engenheiros, aviadores, elementos técnicos militares etc. É inútil aproximar-se desses círculos com a propaganda direta da luta de classes. Essas pessoas compreendem a situação em que se encontra o mundo, que se transforma num pântano sangrento, mas para tais pessoas o antagonismo primitivo da luta de classes é algo sem sentido.

— Stálin: O senhor se opõe à classificação simplista das pessoas em ricos e pobres. E claro que há as camadas médias, há a intelectualidade técnica a que o senhor se referiu e, entre elas, há pessoas muito boas e honradas. Entre elas há também pessoas desonestas e perversas, toda espécie de gente. Porém, antes de mais nada, a Humanidade está dividida em ricos e pobres, entre proprietários e explorados; e abstrair-se dessa divisão fundamental e do antagonismo entre pobres e ricos significa abstrair-se do fato fundamental. Não nego a existência de camadas intermediárias, que podem ficar do lado de uma ou de outra dessas duas classes em conflito, ou podem tomar posição neutra ou semineutra nessa luta. Todavia, repito, abstrair-se dessa divisão fundamental da sociedade e da luta fundamental entre as duas classes principais significa ignorar os fatos. Esta luta continua e continuará. O resultado dela será determinado pela classe proletária, a classe dos trabalhadores.

— Wells: Porém, não há muitas pessoas que, não sendo pobres, trabalham produtivamente?

— Stálin: Para começar, há pequenos proprietários de terras, artesãos, pequenos comerciantes, mas não são esses os que decidem da sorte de um país, e sim as massas trabalhadoras que produzem todas as coisas requeridas pela sociedade.

— Wells: Contudo há muitas classes diferentes de capitalistas. Há capitalistas que só pensam nos lucros; mas há também os que estão preparados para fazer sacrifícios. Tomemos o velho Morgan por exemplo: só pensou nos lucros; foi um parasita da sociedade. Acumulou riquezas simplesmente. Agora tomemos Rockfeller. É um organizador brilhante, tendo dado o exemplo de como organizar a produção de petróleo, exemplo esse digno de ser imitado. Ou tomemos Ford. É claro que Ford é egoísta: Porém, não é um organizador apaixonado da produção racionalizada, de quem os senhores tomaram lições?

Desejaria insistir no fato de que recentemente se deu importante mudança de opinião a respeito da U.R.S.S. nos países de língua inglesa. A razão da mudança está ligada, antes de mais nada, à posição do Japão e à situação da Alemanha. Mas há outras razões que não decorrem somente da política internacional. Há uma razão mais profunda: refiro-me ao reconhecimento, por muita gente, do fato de que o sistema baseado no lucro privado está desmoronando. Sob estas circunstâncias, parece-me que não devemos pôr em primeiro plano o antagonismo entre os dois mundos, e sim devemos nos esforçar para combinar todos os movimentos construtivos, todas as forças construtivas, na medida do possível. Parece-me que estou mais à esquerda do que o senhor, pois considero que o mundo está mais próximo do fim do velho sistema.

— Stálin: Quando falo dos capitalistas que se esforçam somente em obter lucros, somente em tornarem-se ricos, não quero dizer que sejam os últimos dos homens, incapazes de mais nada. Muitos deles, inegavelmente, possuem grande talento de organização que nem penso negar. Nós, o povo soviético, temos aprendido muito com os capitalistas. E Morgan, a quem o senhor descreveu de maneira tão desfavorável, foi sem dúvida um bom organizador, capaz. Porém, se o senhor se refere a pessoas que estejam preparadas para reconstruir o mundo, não poderá, para começar, encontrá-las nas fileiras daqueles que servem fielmente a causa dos lucros. Eles e nós estamos em campos opostos. O senhor mencionou Ford. Certamente que ele é um eficiente organizador da produção. Mas conhece o senhor a atitude dele para com a classe operária? Sabe o senhor quantos operários ele põe na rua? O capitalista está preso aos lucros, e força alguma no mundo poderá separá-lo deles. O capitalismo será liquidado, não pelos "organizadores" da produção, não pela intelectualidade técnica, e sim pela classe operária, uma vez que aquelas camadas não desempenham um papel independente. O engenheiro, o organizador da produção, não trabalha como gostaria, mas como lhe ordenam, no sentido de servir aos interesses dos patrões. Há exceções, é claro; há pessoas nessa camada média que se libertaram do ópio capitalista. A intelectualidade técnica pode, sob certas condições, fazer "milagres" e beneficiar altamente a Humanidade. Porém, pode também fazer-lhe muito mal. Nós, o povo soviético, temos experiência, e não pouca, sobre a intelectualidade técnica. Depois da Revolução de Outubro, certa parte da intelectualidade técnica se recusou a participar do trabalho de construir uma nova sociedade. Opuseram-se a esse trabalho de construção e o sabotaram. Fizemos o possível para atrair a intelectualidade técnica a este trabalho de construção; experimentamos vários caminhos. Não se passou pouco tempo para que a nossa intelectualidade técnica acedesse em apoiar o novo sistema.

Hoje, a melhor parte da intelectualidade técnica está nas primeiras fileiras dos construtores da sociedade socialista. Com esta experiência, estamos longe de subestimar o lado bom e o lado mau da intelectualidade técnica, e sabemos que uma parte pode causar o mal e a outra pode realizar "milagres". Contudo, as coisas seriam diferentes se fosse possível, de um só golpe, arrancar espiritualmente a intelectualidade técnica do mundo capitalista. Mas isso é utopia. Haverá muitos técnicos que se atreveriam a se desprender do mundo burguês e pôr-se a trabalhar para reconstruir a sociedade? Pensa o senhor que há muita gente dessa classe, digamos na Inglaterra ou na França? Não, há poucos que se desprenderiam voluntariamente dos seus patrões e começariam a reconstruir o mundo.

Além disso, podemos perder de vista o fato de que, para transformar o mundo, é necessário ter-se o poder político? Parece-me, Senhor Wells, que o senhor subestima enormemente a questão do poder político, que fica excluída da sua concepção. Que podem fazer os que, ainda que com as melhores intenções do mundo, não estão em condições de traçar o problema da tomada do poder e não têm esse poder em suas mãos? Quando muito, poderão ajudar à classe que toma o poder, porém não podem mudar o mundo. Isso só o pode fazer uma grande classe que tome o lugar da classe capitalista e venha a ser senhor soberano, como esta o era. Tal classe é a classe operária. Certamente o apoio da intelectualidade técnica deve ser aceito, e essa intelectualidade, por sua vez, deve receber ajuda, mas não se pense que ela representa papel histórico independente. A transformação do mundo é processo complicado e doloroso. Para esta grande tarefa precisa-se de uma grande classe. Para viagens longas, grandes barcos.

— Wells: Sim, mas para uma longa viagem é preciso um capitão e um navegador.

— Stálin: E certo, porém o que se requer em primeiro lugar, para uma viagem longa, é um grande barco. Que é um navegante sem um grande barco? Um homem ocioso.

— Wells: O grande barco é a Humanidade, não uma classe.

— Stálin: O senhor parte da presunção de que todos os homens são bons. Eu, entretanto, não posso esquecer que há muitos homens perversos. Não creio na bondade da burguesia.

— Wells: Recordo-me da situação da intelectualidade técnica há várias décadas. Naquele tempo, era numericamente pequena, porém havia muito a fazer, e cada engenheiro, técnico ou intelectual, encontrava a sua oportunidade. Por isso era a classe menos revolucionária. Agora, entretanto, há excedente de intelectuais técnicos e a mentalidade deles mudou profundamente. Os técnicos, que antigamente não faziam caso da linguagem revolucionária, estão agora muito interessados nela. Assisti recentemente a um banquete da Royal Society (Sociedade Real), a nossa maior sociedade científica inglesa.

O discurso do Presidente foi um discurso a favor da planificação social e da gestão científica. Há trinta anos atrás, não se poderia ter escutado algo semelhante. Hoje o homem que preside a Royal Society mantém pontos de vista revolucionários e insiste na reorganização científica da sociedade humana. As mentalidades mudam. A vossa propaganda de luta de classes não leva em conta estes fatos.

— Stálin: Sim, eu sei disso, e isso se explica pelo fato de a sociedade capitalista se achar agora num beco sem saída. Os capitalistas estão procurando. porém não podem encontrar uma saída deste impasse que seja compatível com a dignidade da sua classe, com os interesses da sua classe.

Poderiam, até certo ponto. sair da crise arrastando-se nas quatro patas porém não encontrarão uma porta que lhes permita sair de cabeça erguida. uma porta que não altere fundamentalmente os interesses do capitalismo. Amplos círculos da intelectualidade técnica bem que se dão conta disso. Grande parte dela está começando a compreender a vinculação dos seus interesses aos interesses da classe capaz de sair desse impasse.

— Wells: Senhor Stálin, melhor do que ninguém o senhor sabe algo sobre as revoluções, no lado prático. As massas levantam-se? Não é uma verdade estabelecida que todas as revoluções são feitas pelas minorias?

— Stálin: Para levar-se a cabo uma revolução é necessário uma minoria revolucionária dirigente, porém a mais inteligente, apaixonada e enérgica minoria seria impotente se não contasse com o apoio. pelo menos passivo, de milhões.

— Wells: Pelo menos passivo? Talvez subconsciente?

— Stálin: Digamos semi-instintivo e semi-consciente, mas sem o apoio de milhões de homens a minoria mais capaz será impotente.

— Wells: Tenho observado a propaganda comunista no Ocidente, e parece-me que, nas condições atuais, tal propaganda soa muito fora de moda, por ser uma propaganda insurrecional. A propaganda a favor da derrubada violenta do sistema social soava bem quando dirigida contra as tiranias. Mas, nas atuais condições, quando o sistema se desmorona de todas as maneiras seria preciso dar mais destaque à eficiência, à competência, à produtividade, do que à insurreição. Parece-me que.o tom insurrecional é antiquado. Do ponto de vista das pessoas de mentalidade construtiva a propaganda comunista no Ocidente é um obstáculo.

— Stálin: Para começar, o velho sistema se desmorona, está em decadência. Isso é certo, Porém também é certo que novos esforços se fazem, por outros métodos, por todos os meios, para proteger, para salvar este sistema agonizante. O senhor tira conclusão errônea de premissa certa, O senhor estabelece, corretamente, que o velho mundo se afunda. Mas o senhor está enganado pensando que se afunda por si mesmo. Não. A substituição de um sistema social por outro é processo revolucionário complexo e de longo fôlego. Não é simplesmente um processo espontâneo, e sim uma luta, um processo relacionado com o choque entre as classes. O capitalismo está em decadência, porém não deve ser comparado simplesmente com uma árvore que haja apodrecido tanto que virá ao chão com seu próprio peso. Não, a revolução, a substituição de um sistema social por outro, foi sempre uma luta, luta cruel e dolorosa, luta de vida e de morte. E cada vez que os representantes do novo mundo chegam ao poder têm de se defender contra as tentativas do velho mundo de restaurar pela força a ordem antiga; os representantes do novo mundo têm sempre de estar alerta, de estar preparados para repelir os ataques do velho mundo contra o sistema novo.

Sim, o senhor tem razão quando diz que o velho sistema social desmorona, porém não desmorona por si mesmo. Veja o fascismo, por exemplo. O fascismo é uma força reacionária que tenta preservar, por meio da violência, o velho mundo. Que farão os senhores com os fascistas? Discutirão com eles? Tratarão de convencê-los? Isso não teria, absolutamente, nenhum efeito. Os comunistas não idealizam, em absoluto, os métodos violentos, não querem, porém, ser apanhados de surpresa; não podem esperar que o velho regime se retire da cena, espontaneamente; vêem que o velho sistema se defende violentamente, e, por isso, dizem à classe operária: Preparem-se para responder com violência à violência; façam todo o possível para impedir que a ordem agonizante os esmague, não permitam que lhes algemem as mãos, estas mesmas mãos que demolirão o sistema velho. Como o senhor vê, os comunistas consideram a substituição de um sistema social por outro, não simplesmente como processo pacífico e espontâneo, e sim como processo complicado, longo e violento. Os comunistas não podem ignorar os fatos.

— Wells: Contudo, observe o que se está passando no mundo capitalista. Não é um simples colapso; é o estouro da violência reacionária que está degenerando em gangsterismo. E parece-me que, quando se chega ao conflito com a violência reacionária e não inteligente, podem os socialistas apelar para a lei e, em vez de considerar a polícia um inimigo, devem apoiá-la na luta contra os reacionários. Penso ser inútil trabalhar simplesmente com os rígidos métodos da insurreição do velho socialismo.

— Stálin: Os comunistas se baseiam na rica experiência histórica, a qual ensina que as classes caducas não abandonam voluntariamente o cenário histórico. Lembre-se da história da Inglaterra no século XVII. Não eram numerosos os que diziam que o velho sistema social estava apodrecido? Entretanto não foi necessário um Cromwell para esmagá-lo pela força?

— Wells: Cromwell agiu baseado na Constituição e em nome da ordem constitucional.

— Stálin: Em nome da Constituição recorreu à violência, decapitou o Rei, dissolveu o Parlamento, prendeu uns e decapitou outros!

Tome também o exemplo da nossa história. Não foi evidente, durante muito tempo, que o regime tzarista estava decaindo, que estava desmoronando? Mas, quanto sangue se teve de derramar para abatê-lo!

E a Revolução de Outubro? Eram pouco numerosas as pessoas que sabiam que nós, os bolcheviques, éramos os únicos a apontar o caminho certo? Não estava claro que o capitalismo russo achava-se em decadência? Contudo, o senhor sabe quão grande foi a resistência, quanto sangue se teve de derramar para defender a Revolução de Outubro de todos os seus inimigos internos e externos?

Ou tome a França do fim do século XVIII. Muito antes de 1789, era evidente a podridão do Poder Real, do feudalismo. Porém não se pôde evitar uma rebelião popular, um choque de classes. Por quê? Por que as classes que devem abandonar o cenário da história são as últimas a se convencerem de que seu papel terminou. É impossível convencê-las disso. Pensam que as fendas do decadente edifício da ordem antiga podem ser remendadas, que o vacilante edifício da ordem antiga pode ser restaurado e salvo. É por isso que as classes agonizantes tomam as armas e recorrem a todos os meios para salvar sua existência de classe dominante.

— Wells: Mas havia bastante advogados à frente da grande Revolução francesa.

— Stálin: Nega o senhor o papel da intelectualidade nos movimento revolucionários? Foi a grande Revolução francesa uma revolução de advogados, e não uma revolução popular, que alcançou a vitória levantando grandes massas do povo contra o feudalismo convertendo-s em chefes do Terceiro Estado? E por acaso atuaram os advogados existentes entre os líderes da grande Revolução francesa de acordo com as leis da ordem antiga? Não instituíram uma legalidade nova, a legalidade revolucionária burguesa?

A rica experiência da história ensina que até hoje nenhuma classe cedeu voluntariamente o lugar a outra. Não há tal precedente na história mundial. Os comunistas assimilaram essa experiência histórica. Os comunistas aplaudiriam a retirada voluntária da burguesia.

Mas tal processo é improvável, eis o que ensina a experiência. Por isso é que os comunistas querem estar preparados para o pior e concitam a classe operária a ser vigilante, a estar preparada para o combate. Quem deseja um capitão que se descuide da vigilância do seu exército, um capitão que não compreenda que o inimigo não se renderá, que deve ser esmagado? Tal capitão enganaria, trairia a classe operária. Por isso penso que o que ao senhor parece antiquado é, de fato, método revolucionário oportuno para a classe operária.

— Wells: Não nego que se tenha de empregar a força, porém penso que as formas de luta devem adaptar-se o mais estreitamente possível às oportunidades que oferecem as leis existentes, que devem ser defendidas dos ataques dos reacionários. Não há necessidade de desorganizar-se o velho sistema porque ele está se desorganizando, e bastante. Assim, parece-me que a rebelião contra a ordem, contra a lei, é coisa antiquada, fora de moda. Incidentalmente, exagerei de propósito, para apresentar mais claramente a verdade.

Posso formular o meu ponto de vista da seguinte maneira: primeiro, sou pela ordem; segundo, ataco o sistema atual naquilo em que não possa garantir a ordem; terceiro, penso que a propaganda das idéias da luta de classes é capaz de isolar do socialismo as pessoas instruídas de que ele necessita.

— Stálin: Para atingir um grande objetivo, um objetivo social importante, é necessário uma força principal, um baluarte, uma classe revolucionária. Depois, é necessário organizar-se a ajuda de uma força auxiliar para essa força principal; nesse caso, a força auxiliar é o Partido, ao qual pertencem as melhores forças da intelectualidade. Agora, o senhor fala de "círculos instruídos". Porém, que pessoas instruídas tem o senhor em mente? Não havia muitos homens instruídos ao lado da ordem antiga na Inglaterra do século XVII, na França em fins do século XVIII e na Rússia à época da Revolução de Outubro? A ordem antiga tinha a seu serviço muita gente de instrução elevada que defendeu tal estado de coisas, que se opôs à ordem nova. A educação é arma cujo efeito é determinado pelas mãos que a esgrimem. Está claro que o proletariado, o socialismo, necessita de gente altamente instruída, pois é evidente que não são os simplórios que poderão ajudar o proletariado a lutar pelo socialismo, a construir a nova sociedade. Eu não subestimo o papel da intelectualidade, ao contrário, reforço-o. A questão, entretanto, é sobre que espécie de intelectualidade estamos discutindo, porque há diversos tipos de intelectuais.

— Wells: Não pode haver revolução sem mudança radical no sistema de instrução pública. Basta assinalar dois exemplos: o da República alemã, que deixou intacto o velho sistema educacional e, por isso, nunca chegou a ser uma República; e o Partido Trabalhista britânico, a quem falta coragem para insistir na mudança radical do sistema de educação.

— Stálin: Essa é uma observação acertada. Permita-me agora rebater os seus três pontos de vista.

Primeiro: O principal para a revolução é a existência de um apoio social. Esse apoio é a classe operária.

Segundo: É indispensável uma força auxiliar a que os comunistas chamam Partido. Nele se incluem os trabalhadores intelectuais e os elementos da intelectualidade técnica que estão estreitamente vinculados à classe operária. A intelectualidade somente pode ser forte se se une à classe operária. Se se opõe a ela, anula-se.

Terceiro: E preciso o poder político como alavanca, para se conseguir as mudanças. O novo poder político cria uma legalidade nova, uma nova ordem, que é a ordem revolucionária. Eu não sou por qualquer ordem. Sou pela ordem que corresponda aos interesses da classe operária. Entretanto, se algumas leis do antigo regime podem ser utilizadas em benefício da luta pela ordem nova, tais leis devem também ser empregadas. Não posso opor-me à sua tese de que é preciso atacar o sistema existente quando ele não assegurar a ordem necessária ao povo.

E, finalmente, o senhor se equivoca ao pensar que os comunistas têm sede de violência. Ficariam muito satisfeitos suprimindo os métodos violentos se a classe dominante consentisse em ceder o lugar à classe operária. Porém, a experiência da história fala contra tal suposição.

— Wells: Há na história da Inglaterra, entretanto, o caso de uma classe que entregou voluntariamente o poder a outra classe. No período de 1830 a 1870, a aristocracia - cuja influência era ainda considerável no fim do século XVIII - cedeu o poder voluntariamente, sem luta séria, à burguesia, que serve como apoio sentimental à monarquia. Conseqüentemente, esta transferência do poder conduziu ao estabelecimento do domínio da oligarquia financeira.

— Stálin: Porém, o senhor passou, imperceptivelmente, do problema da revolução ao problema das reformas. Não é a mesma coisa. Não crê que o movimento cartista representou o grande papel nas reformas da Inglaterra no século XIX?

— Wells: Os cartistas pouco fizeram e desapareceram sem deixar rastro.

— Stálin: Não concordo com o senhor; os cartistas e o movimento grevista por eles organizado representaram grande papel; obrigaram as classes dominantes a fazer uma série de concessões no domínio do sistema eleitoral, na esfera da liquidação do que se chamava os "burgos podres", na realização de certos pontos da "Carta". O cartismo representou papel histórico não pouco importante e incitou uma parte da classe dominante a fazer certas concessões, certas reformas, para evitar grandes choques. Em geral, deve-se dizer que de todas as classes dominantes, as classes dominantes da Inglaterra, a aristocracia e a burguesia, demonstraram ser mais inteligentes, mais flexíveis do ponto de vista de seus interesses de classe, do ponto de vista da manutenção do poder. Tome como exemplo, digamos, da história moderna, a greve geral da Inglaterra em 1926. A primeira coisa que qualquer outra burguesia teria feito para enfrentar a situação, quando o Conselho Geral dos Sindicatos chamou à greve, seria a de encarcerarem os dirigentes dos sindicatos. A burguesia britânica tal não fez e agiu habilmente, segundo seus próprios interesses. Não posso conceber que a burguesia dos Estados Unidos, da Alemanha ou da França empregue estratégia tão flexível. Para manter predomínio, as classes dominantes da Grã-Bretanha não se têm negado nunca a fazer pequenas concessões, reformas. Mas seria erro pensar-se que estas reformas representam a revolução.

— Wells: O senhor tem uma opinião mais elevada das classes dominantes do meu país do que eu mesmo. Porém, há grande diferença entre uma pequena revolução e uma grande reforma? Não é uma reforma uma pequena revolução?

— Stálin: Obedecendo à pressão de baixo, à pressão das massas, pode a burguesia conceder, algumas vezes, certas reformas parciais, enquanto permanecem inalteráveis as bases do sistema social-econômico existente. Agindo dessa maneira, calcula que tais concessões são necessárias para preservar o seu predomínio de classe. Esta, a essência da reforma. A revolução, entretanto, significa a transferência de poder de uma classe para a outra. Por isso é impossível descrever qualquer reforma como uma revolução. Por isso é que não podemos contar com mudanças nos sistemas sociais que se operem como transição imperceptível de um sistema para o outro por meio de reformas, por concessões da classe dominante.

— Wells: Fico-lhe grato por essa conversa que muito significou para mim. Ao dar-me esta explicação, o senhor se recordou, provavelmente, de como explicava os fundamentos do socialismo, nos círculos ilegais, antes da Revolução. Atualmente, há no mundo apenas duas pessoas cuja opinião, cada palavra, é ouvida por milhões: o senhor e Roosevelt.

Outros poderão pregar tudo que lhes agrade; o que disserem nunca será escrito ou escutado. Ainda não pude apreciar que os senhores fizeram no país; cheguei ontem. Porém já vi os rostos felizes de homens e mulheres saudáveis, e sei que algo de considerável está- se fazendo aqui. O contraste com 1920 é assombroso.

— Stálin: Muito mais teríamos feito nós, bolcheviques, se fôssemos mais capazes.

— Wells: Não, se em geral os seres humanos fossem mais inteligentes. Seria uma grande coisa inventar um plano qüinqüenal para a reconstrução do cérebro humano que, evidentemente, carece de muitas coisas necessárias para uma ordem social perfeita. (Risos)

— Stálin: O senhor não vai ficar para assistir ao Congresso da União de Escritores Soviéticos?

— Wells: Infelizmente, não. Tenho vários compromissos e só poderei demorar uma semana na União Soviética. Vim vê-lo, e estou muito satisfeito com a nossa entrevista. Porém, tenho intenção de falar com os escritores soviéticos, para ver se consigo que se filiem ao P.E.N. Club. Esta é uma organização internacional de escritores fundada por Galsworthy. Depois da morte dele, o sucedi como presidente. A organização ainda é débil, mas tem seções em numerosos países e, o que é mais importante, as intervenções dos seus membros são amplamente comentadas na imprensa. Essa organização defende o direito da livre expressão de todas as opiniões, nelas compreendidas as de oposição. Espero poder discutir este ponto com Gorki. Não sei se uma tão ampla liberdade pode ser permitida aqui.

— Stálin: Nós, os bolcheviques, chamamos a isso "auto-crítica". É amplamente usada na U.R.S.S. Se há algo que eu possa fazer para ajudá-lo, fa-lo-ei com muito prazer.

— Wells: Muito agradecido.

— Stálin: Agradeço pela entrevista.

AQUI, a versão em inglês.

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