domingo, 22 de junho de 2014

Padura por John Lee Anderson

Poucos meses atrás, a Embaixada da Espanha em Havana organizou uma festa em homenagem à literatura cubana. O evento, que teve lugar no Palácio Velasco Sarrá, um prédio neo-colonial nos limites da Cidade Velha, constituiu um verdadeiro tratado sobre a cautela. Fidel Castro havia fechado o centro cultural da embaixada espanhola em 2003, por medo de que cultivasse a subversão, e a sede começava a reativar sua programação. O embaixador descreveu a noite como parte da “atividade diplomática de que precisamos para nossa adaptação à realidade cubana”.

O momento alto da noite era uma palestra de Leonardo Padura Fuentes, um homem baixo, moreno, de compleição sólida, com a barba embranquecida e a expressão impenetrável de um experiente pároco de aldeia. Padura é uma figura incomum na Cuba de hoje: um romancista, jornalista e crítico da sociedade que sempre driblou a censura do Partido Comunista. Mais conhecido como autor de meia dúzia de romances policiais que conquistaram uma apaixonada legião de seguidores, tanto na ilha como fora dela, Padura não é um dissidente à moda de Soljenítsin, tampouco é um mero autor comercial. Para os intelectuais cubanos e a classe dos profissionais bem informados do país, mais que um romance, cada novo livro de Padura constitui um documento, um modo de entender a realidade cubana. Embora em público fale com cuidado, em particular o escritor admite: “As pessoas pensam que o que eu digo serve de baliza para o que pode ou não pode ser dito em Cuba.” Ano passado, ele recebeu o Prêmio Nacional de Literatura de Cuba, um reconhecimento tanto de sua obra literária quanto de sua destreza política.

O evento na Embaixada da Espanha atraiu 300 espectadores ansiosos e, segundo um dos diplomatas presentes, um punhado de observadores do governo. Padura falou sobretudo sobre a disciplina necessária ao ofício de escritor, e tergiversou ao abordar a questão da censura. “Não existe uma diretriz clara que define o que deve ou não ser publicado”, disse ele a seus ouvintes. “E acredito que já haja espaço para publicar praticamente qualquer coisa em Cuba.” Mas sugeriu também que havia um preço a pagar pelas décadas de controle rigoroso: “Acho que o leitor cubano perdeu contato com o que seus compatriotas estão escrevendo, com o que escritores cubanos estão publicando hoje no resto do mundo.”

Ao longo das décadas, os cubanos aprenderam a falar valendo-se de uma camuflagem verbal que os leva a sublinhar as palavras-chave por meio de sobrancelhas erguidas, olhos arregalados, lábios franzidos. O gesto mais universalmente compreendido na ilha é o que imita um homem cofiando a barba – Fidel, cujo nome de resto não é mencionado. Durante os anos de Castro, quase toda a produção escrita que criticasse o governo vinha de fora do país, obra de estrangeiros e sobretudo do fluxo constante de cubanos exilados.

Muitos dos pares de Padura fugiram do país. Um deles, Eliseo Alberto, escapou em 1990 para o México, onde publicou Informe Contra Mí Mismo, um livro de memórias no qual revela que o aparato de segurança do Estado cubano havia tentado convencê-lo a denunciar o próprio pai. Outros, como o poeta e jornalista Raúl Rivero, foram presos por suas críticas ao governo. (Rivero também fugiu de Cuba assim que foi solto.) Padura ficou, consagrando-se como o cronista talvez mais famoso da ilha. “Mantive uma relação especial com a realidade cubana”, ele disse num encontro recente. “Vivo num bairro onde conheço todos os códigos da existência, que aprendi a dominar ao longo de muitos anos.”



Na embaixada espanhola, Padura falou do mais ambicioso dos seus livros, O Homem que Amava os Cachorros,[1] um relato ficcional sobre Leon Trotsky e seu assassino, Ramón Mercader, que terminou os dias em Cuba depois de vinte anos numa prisão mexicana. Por meio século, a visão da Cuba oficial sobre Trotsky coincidiu com a dos soviéticos: um traidor que mereceu a lata de lixo da história à qual foi destinado. Mas Padura apresenta Trotsky de uma forma bastante simpática, e seu relato sobre a vida de Mercader expõe o legado horrendo do stalinismo, que por várias décadas operou como uma religião estatal na ilha. Tal visão pode ser hoje incontestável em boa parte do mundo, mas em Cuba é tida como radical. “Esses livros – que o leitor fique avisado – abrem nossos olhos a tal ponto que nunca mais conseguiremos dormir em paz”, registrou numa resenha a blogueira dissidente Yoani Sánchez. Em sua palestra, Padura reconhece que sofre de frequente ansiedade política: “Toda vez que termino um livro, eu digo: ‘É esse que eles não vão me deixar publicar.’”

Mais tarde, perguntei ao escritor qual tinha sido sua preocupação no caso de O Homem que Amava os Cachorros, e ele respondeu: “Tudo.” É o tipo de coisa que Padura diz sempre: sinal de que é um livre-pensador crítico, mas se mantém respeitoso. “Não tenho militância, nem no Partido e nem en la disidencia”, disse ele. “Eu investigo Cuba a tal ponto que posso dizer o que Cuba é, e não fui embora do país porque sou um escritor cubano, e não saberia ser outra coisa.”

Nos últimos dois anos, o presidente Raúl Castro, que oficialmente sucedeu seu irmão mais velho em 2008, deu início a significativas reformas econômicas. Muitos cubanos esperam que uma transformação cultural venha em seguida. Na Embaixada da Espanha, Padura recebeu Pedro Juan Gutiérrez, autor de Trilogia Suja de Havana, um passeio cru pelos bairros mais barras-pesadas da cidade; admirado na Europa e na América Latina como o “Bukowski cubano”, é escassamente publicado em seu país. Gutiérrez me declarou que os intelectuais cubanos encaram o prêmio concedido a Padura como prova de uma nova abertura. “Todo mundo interpretou o prêmio como o reconhecimento de um escritor interessante – que a partir do romance policial questiona certos aspectos da sociedade em que vive – e sinal de respeito a um intelectual de valor.” Outros acreditam que o regime o tolera por motivos mais cínicos: como ele tem um público internacional fiel, censurá-lo traria um alto custo político. Por outro lado, na medida em que se reconhece que ele escreve com franqueza, o regime pode usá-lo como demonstração de sua tolerância. Um interlocutor antigo de Fidel Castro me disse que “Padura é uma pessoa inteligente, que compreende os limites. A dissidência declarada em Cuba é uma atitude extrema, e ele não chega a tanto. Só vai até onde acha que pode. Num certo sentido, existe uma espécie de pacto implícito entre ele e o regime. O simples fato de definir-se patriota – um escritor cubano que vive em Cuba, com tudo o que isso significa – é uma clara mensagem ao regime, assinalando que ele não constitui uma ameaça”.



No início do romance Adeus, Hemingway, lançado por Padura em 2001, o herói, um ex-detetive alcoólatra em dificuldades (e escritor frustrado) chamado Mario Conde, visita a cidade portuária de Cojimar, perto de Havana. E rememora um dia em 1960, quando, ainda garoto, seu avô Rufino o levou para tomar sorvete depois de assistir às brigas de galo numa localidade próxima. Rufino apontou para um velho de barba, que saltava de um lindo barco de pesca de casco negro, e disse: “Aquele é Hemingway, o escritor americano. Também gosta de brigas de galo.”

Hemingway, que de certo modo lembrava Papai Noel, mas ostentava um ar de tristeza, abraça outro homem que estava no cais e depois sai andando até um Chrysler preto estacionado a sua espera. Antes de se afastar, olha na direção de Mario e do avô, e dá a impressão de saudá-los.

“Adiós, Hemingway!”, grita o menino, recebendo em troca um sorriso. Anos mais tarde, Conde descobre que, naquele dia, Hemingway tinha acabado de percorrer pela última vez um trecho de mar que adorava em especial; e entende que o escritor americano não se despedia dele, “um pequeno inseto que tinha ido parar no cais de Cojimar”, mas de “várias das coisas mais importantes da sua vida”.

Nos romances mais recentes de Padura, ele recorre a figuras da história – como Trotsky e Hemingway – para criticar o presente. Para muitos cubanos mais velhos, Hemingway é um herói: pela imagem de machão, o amor à ilha e o suposto afeto pela Revolução. E Padura se lembra: “Quando comecei a escrever, Hemingway me deixou acachapado, tanto pela maneira como escrevia como pela maneira como viveu.” Mas se desencantou com o comportamento de Hemingway na Guerra Civil Espanhola, julgando-o complacente diante dos excessos esquerdistas. “Seu cinismo me parecia indesculpável, e eu não consegui perdoá-lo.” Hemingway muda-se para Cuba em 1939 e lá fica vivendo até a guerra de guerrilhas que leva Fidel Castro ao poder, em 1959. No ano seguinte, Fidel vence o torneio anual de pesca ao marlim batizado em homenagem ao escritor americano. Uma foto tirada nesse dia mostra os dois trocando sorrisos enquanto Papa entrega a Castro uma taça de prata; a imagem é muito apreciada pela Cuba oficial. Mas na ocasião em que Fidel declara a “natureza socialista” de sua revolução, durante a Invasão da Baía dos Porcos, em abril de 1961, Hemingway já tinha deixado Cuba, internando-se para tratamento na Clínica Mayo, e dali a apenas dois meses se isola em sua cabana de caça no Idaho e se mata.

Os cubanos nunca souberam ao certo se Hemingway abandonou a ilha com pesar ou com alívio. No relato ficcional de Padura, ele deixa uma pista para trás. Três décadas depois de sua partida, um esqueleto humano é descoberto na arena de briga de galos existente na Finca Vigía, a residência do escritor no alto de uma montanha perto de Cojimar, e a polícia intima Conde a dar um tempo em sua aposentadoria para ajudar na investigação. Os restos são de um americano, agente do FBI, mandado a Cuba para vigiar o escritor, e a polícia suspeita que Hemingway o tenha assassinado e camuflado o crime. Conde, o escritor frustrado, não consegue ser imparcial. Idolatra Hemingway, e antes de entrar para a polícia chegara a se ajoelhar diante de uma foto do escritor, jurando solenemente usar sua experiência como material para uma obra literária. Revirando os vestígios da vida do escritor, Conde se apossa triunfalmente de um de seus troféus: uma calcinha de Ava Gardner.

Numa visita a Cojimar meses atrás, Padura sentou-se a meu lado nos degraus que levam da amurada de pedra até a água. Toda tarde, homens e meninos se alinham no antigo píer de concreto e pescam, com as pernas pendendo da borda. Do outro lado da enseada estreita, recifes de coral dão lugar a um extenso mangue e depois aos malcuidados conjuntos residenciais de Alamar, uma cidade-dormitório ao estilo soviético. Para os residentes de Cojimar, como para muitos cubanos, as reformas econômicas recentes ainda são uma abstração. Naquela tarde de calor sufocante, nenhum navio passava, nenhum pesqueiro singrava o mar, nenhum nadador cortava as ondas. Numa pracinha contígua ao cais, os homens sentados à sombra acalentavam suas cervejas. Do outro lado da rua, um pequeno monumento branco exibe um busto de Hemingway em bronze, o rosto voltado para o mar. Não fosse a vivacidade dos pescadores, Cojimar pareceria um teatro ao ar livre cujo espetáculo tivesse acabado muito antes.

Na década de 80, Fidel Castro inaugurou outro memorial, uma “Marina Hemingway”, nos limites ocidentais de Havana, para atrair turistas ricos com seus iates. O herói de Padura tem horror ao lugar, “projetado de modo a excluir os cubanos sujos e proporcionar, aos belos e ricos do mundo, acomodação para seus iates, praias, comida, putas cordatas e muito bronzeado”. As ruas de Havana são ainda piores – o inverso de um paraíso dos trabalhadores, onde os cidadãos que se acotovelam vivem “assolados por uma ansiedade que só conseguem aliviar na forma de gritos, gestos violentos e olhares ressentidos”. A certa altura, Conde avista uma dupla de garotas se prostituindo. Ali perto, alguns meninos treinam um cachorro criado para lutar, e um negro usando guias religiosas e correntes de ouro amaldiçoa enfurecido o pneu arriado de seu Oldsmobile 54. A cidade, escreve Padura, “estava à beira da erupção, e as nuvens de fumaça que emitia eram sinais de advertência”. Num momento de reflexão, Conde percebe que era “o merdinha de um detetive particular num país onde não existem detetives nem pessoas particulares; sentia-se uma metáfora ruim para uma realidade estranha”. Como a Los Angeles de Raymond Chandler, a Havana de Padura é uma geografia do fracasso humano: as ruas são imundas; os elevadores não funcionam; as pessoas com as conexões certas dispõem de bom uísque escocês e carros caros, enquanto o resto passa fome. Os detalhes são imediatamente reconhecíveis para qualquer um que viva em Cuba. O que Padura fez foi só encontrar um modo politicamente aceitável de reconhecer o óbvio.

Leitores de certa sensibilidade política podem ler em Adeus, Hemingwayum réquiem para os malogros da Revolução. Mas as cenas cruas de Havana que Padura descreve são ambíguas: tanto podem ser vistas como um libelo contra a economia revolucionária de Fidel, como uma crítica à difusão de um capitalismo nascente. E, o que é crucial, ele não lança Hemingway contra a Revolução. Padura já escreveu sobre suas pesquisas para o romance, em que teve inclusive acesso à parte liberada da ficha de Hemingway no FBI – na qual, assinala, há quinze páginas que o governo dos Estados Unidos ainda não tornou públicas, alegando motivos de “segurança nacional”. Ao final do livro, Conde conclui que o agente da CIA morreu num confronto armado com Hemingway e dois leais empregados cubanos; Hemingway foge para evitar mais problemas com os representantes da lei americana. Fica implícito que o grande escritor amava Cuba – mesmo a Cuba de Fidel – e só deixou a ilha obrigado por agentes do imperialismo.



As ruas de Havana estão inundadas de carros particulares: Buicks, Chryslers e Studebakers do tempo de Eisenhower, que os proprietários pintaram com cores alegres e usam como táxis. Hoje, os cubanos podem ser donos de pequenos negócios – oficinas de consertos, salões de cabeleireiro, cafés – e comprar e vender propriedades. Nas ruas residenciais, encontra-se certa quantidade de casas recém-pintadas, indício da prosperidade que aos poucos se difunde entre os poucos habitantes locais que conseguiram entrar no mercado imobiliário. Muita gente transformou os aposentos dianteiros de suas casas, ou os andares térreos de prédios de apartamentos, em cafés e restaurantes improvisados.

Mas algumas dessas novas empresas só oferecem pouco mais que café, conservado quente em garrafas térmicas, e muitas não têm clientela. Do lado de fora da sorveteria Coppelia, controlada pelo Estado, formam-se imensas filas que avançam lentamente. A cidade continua muito parecida com o que era da última vez que a vi, em 2008: gasta, maltratada e implorando por uma demão de tinta. Velhos com um ar apático sentam-se nas praças e nas entradas das casas, cubanos de camiseta e sandália de dedo carregam seus pertences em sacolas de plástico. Hoje os cubanos têm mais opções, mas Havana continua a ser uma cidade decadente dominada por uma escassez perene, onde os habitantes passam boa parte do tempo se virando para satisfazer as necessidades mais básicas: resolviendo, como dizem os cubanos. Quando morei aqui, entre 1993 e 1995, todo mundo que eu conhecia, inclusive os membros do Partido, estava envolvido em algum tipo de armação – desde vender charutos ou remédios roubados das fábricas estatais até comprar no mercado negro alimentos colhidos em hortas ilegais. Nesse sentido, boa parte das “reformas” de Raúl Castro limitou-se a escancarar o que a maioria dos cubanos já praticava em segredo.

Ao final de alguns dias em Havana, percebi que outra coisa também tinha mudado. Por muitas décadas, a Revolução de Fidel havia conservado na vida da ilha uma presença exagerada, exortativa. Agora, ela parecia muito atenuada. No Malecón, o passeio à beira-mar da cidade, a Seção de Interesses dos Estados Unidos, na prática a missão diplomática americana, está instalada num prédio modernista onde oficialmente funciona a Embaixada da Suíça. Em 2006, depois que o chargé d’affaires americano instalou um letreiro eletrônico que exibia boletins noticiosos isentos de censura, Fidel ergueu uma barreira de mais de 100 bandeiras pretas do lado de fora, e construiu um coreto de concreto onde se realizavam manifestações antiamericanas. Hoje os mastros estão vazios e o coreto vive deserto.

Em torno de Havana, só havia uns poucos dos antigos cartazes louvando a Revolução, e os que restaram estão rachados e descascando. O icônico outdoor que se erguia acima de um importante túnel da cidade, anunciando o lema SOCIALISMO OU MORTE, foi retirado. Um novo cartaz afirma, inacreditavelmente, AS MUDANÇAS EM CUBA SÃO POR MAIS SOCIALISMO. E outro anuncia, destemido: O PARTIDO É IMORTAL.



Num famoso discurso de junho de 1961, Fidel Castro prescreveu um caminho para os intelectuais cubanos: “Dentro da revolução, tudo; fora dela, nada.” Nas décadas transcorridas desde então, o aparato cultural do Estado tem sido controlado por meia dúzia de dirigentes leais a Castro, que afrouxam ou endurecem os controles de acordo com as circunstâncias do país, seu gosto pessoal e, acima de tudo, a maneira como interpretam os caprichos de Fidel. Desde a década de 80, a Casa de las Américas – a instituição cultural mais importante do país – vem sendo dirigida pelo poeta Roberto Fernández Retamar, que também tem assento no Conselho do Estado. O Instituto Cubano de Arte e de Indústria Cinematográficas, responsável pela supervisão das atividades na área do cinema, foi comandado por décadas por Alfredo Guevara, outro amigo de vida inteira de Fidel.

O efeito foi desolador. A escassa cena literária de Cuba se mistura a uma turma pouco numerosa de atores, artistas, músicos e arquitetos que aprenderam a se adaptar aos rigores do sistema. Alguns floresceram: cantores da Nueva Trova como Pablo Milanés, e membros de conjuntos populares como Los Van Van; atores como Jorge Perugoría e Mirtha Ibarra. Mas a abertura que eles criam tende a ser cultural e não política, e a maioria deles esvoaça, como mariposas de cabresto, em torno de vários organismos de fomento à cultura. Para os escritores, a agência central é a União Nacional dos Escritores e Artistas de Cuba, ou Uneac, que controla várias editoras, entre elas a Unión Editorial, responsável pelo lançamento da maior parte da obra de Padura.

Uma vez por ano, o Instituto Cubano do Livro realiza a Feira Internacional do Livro de Havana, quando as obras autorizadas são expostas e vendidas. As poucas livrarias da capital se dedicam ao obviamente permitido (histórias de Cuba, poemas de José Martí). Todas parecem ter uma estante voltada ao pensamento de Fidel sobre o mundo de hoje: La Crisis del Capitalismo, Obama y el Império, “Meus primeiros anos”. Cuba parou de importar a maioria dos livros do Ocidente capitalista ainda na década de 60, e assim, como comenta Pedro Juan Gutiérrez, “quase ninguém conhece John Cheever, Raymond Carver, Richard Ford, Michel Houelle-becq, Marguerite Duras e um longo et cetera de outros. O que significa que os leitores são praticamente analfabetos”.

Todos os livros de Padura foram distribuídos em Cuba, e ele é um escritor prolífico. Além dos romances sobre Trotsky e Hemingway, e de seus outros cinco livros em que o protagonista é Conde (A Neblina do Passado, Passado Perfeito,Ventos de Quaresma, Máscaras e Paisagem de Outono), ele publicou três outros romances, duas antologias de contos, cinco coletâneas de jornalismo, estudos críticos sobre Alejo Carpentier e o poeta José María Heredia, um livro sobre os grandes músicos de salsa do Caribe e outro sobre os maiores jogadores do beisebol cubano. Seu último romance, Herejes, lançado na Espanha em setembro, é uma narrativa que se estende por vários séculos e fala das viagens de uma tela pintada por Rembrandt (Conde faz algumas aparições).

Na Plaza de Armas, na antiga área colonial próxima ao porto, percorri uma feira de livros usados ao ar livre. Títulos de ou sobre Che Guevara e Fidel Castro eram abundantes, além de reproduções de cartazes do apogeu revolucionário dosanos 60, todos claramente destinados aos turistas. Não havia nenhum livro dos escritores emigrados Reinaldo Arenas ou Guillermo Cabrera Infante. Quando perguntei se dispunham de algum exemplar de Pedro Juan Gutiérrez, recebi como resposta olhares vazios da maioria dos vendedores. Finalmente, um deles me entregou alguns volumes finos que acomodou com discrição sob uma pilha de outros. Já os livros de Padura estavam em toda parte.



Padura mora em Mantilla, onde Havana deságua na área rural em meio a oficinas de lanternagem, sítios e modestas casas de beira de estrada. Não é um lugar muito agradável de se morar; o deslocamento até o Centro da cidade leva pelo menos meia hora de carro, e a rua que passa diante da casa é larga e tomada por um tráfego ruidoso. Mas Padura nasceu nessa casa, cresceu nela, e sua mãe ainda mora no andar de baixo (seu pai morreu em setembro). Depois que se casou com Lucía, que conheceu em 1978, ele começou a construir o apartamento do segundo piso, onde os dois vivem desde então.

A casa é espaçosa e cheia de luz, com uma cozinha bem equipada e varandas que dão para as casas vizinhas; a toalha da mesa da sala de jantar tem uma impressão em silk-screen da capa da edição alemã de um dos romances do escritor. A casa é de uma limpeza meticulosa – sintoma evidente da natureza metódica de Padura. Quando cheguei, ele me recomendou repetidas vezes que fosse “lavar meu rosto”, e então, quando acedi, pediu à mulher que me trouxesse uma toalha limpa.



Leonardo Padura Fuentes é corpulento, de aparência rude, com os cabelos muito curtos e os modos de alguém acostumado com a vida nos arredores menos glamorosos de sua cidade. Comporta-se como um fanfarrão cubano típico – bebe (antes era rum, hoje é vinho tinto), fuma cigarros de fumo caporal, e usa e abusa de palavrões –, mas também é atencioso. Lucía, mulher tímida com um meio sorriso perpétuo, o acompanha por toda parte, e é a ela que ele dedica todos os seus livros, “com amor e sordidez”.[2] Não têm filhos, e concentram suas energias num dachshund decrépito chamado Chorizo, estendido como um boneco velho no reluzente piso de cerâmica. Padura está sempre às voltas com ele, carregando-o até um terraço onde ele pode urinar, e depois trazendo-o para dentro nos braços. “Imagine só, ele tem 16 anos”, diz o escritor. “Bem mais de 100 anos dos nossos.”

Padura diz que não consegue imaginar viver em nenhum outro lugar. “Tudo partiu daqui, dessa casa, desse bairro”, explica ele. Seu bisavô fundou um armazém em Mantilla, e a família nunca mais foi embora dali. Seu pai e sua mãe construíram a casa em 1954, e ele nasceu no ano seguinte. “Em casa, a literatura não existia. Meus pais são de um nível cultural bem baixo.” E isso ele revela sem qualquer tom de censura, mera constatação.

Nos primeiros anos da Revolução, os artistas cubanos gozaram de uma liberdade aparentemente ilimitada. Mas ao final dos anos 60, os comunistas dogmáticos do Partido, cada vez mais alinhados com a União Soviética, começaram a perseguir os intelectuais que davam sinais de “tendências contrarrevolucionárias”. Escritores como Guillermo Cabrera Infante e Carlos Franqui perceberam os sinais e não demoraram a se exilar. Os quepartiam eram rotulados de traidores ou gusanos – “vermes”, o mesmo epíteto aplicado por Fidel Castro aos cubanos que se mudavam para os Estados Unidos – e eram impedidos de retornar. Os que ficaram eram perseguidos, sobretudo os homossexuais, vistos como “decadentes” e portanto politicamente suspeitos. Depois de uma dura sentença de prisão, o escritor gay Reinaldo Arenas transferiu-se para os Estados Unidos em 1980, por ocasião do êxodo de Mariel.[3]

O episódio mais significativo desse período sombrio ocorre em torno do poeta Heberto Padilla. Em 1968, Padilla publicou um volume de poemas chamado Fuera del Juego, que lhe valeu um prêmio patrocinado pelo Estado. Quase imediatamente, porém, o governo denunciou o livro como contrarrevolucionário, e só permitiu sua publicação se lhe acrescentassem um prólogo deixando clara a opinião oficial sobre a obra. Três anos mais tarde, Padilla promoveu a leitura de um novo poema, chamado “Provocaciones”, e foi preso pelos órgãos de segurança do Estado devido a “atividades subversivas”. Depois de um mês encarcerado, foi obrigado a se apresentar perante seus pares da Uneac e demonstrar sua contrição. E Padilla declarou, humilhado: “Nunca me cansarei, enquanto viver, de me arrepender desses atos indizíveis e vergonhosos. Esta foi uma experiência única, que dividiu minha vida ao meio: o homem que eu fui e o homem que serei.” Os tempos que se seguiram foram de medo e limitações, conhecidos por escritores e intelectuais como os “Cinco Anos Cinzentos”. A escolha entre o exílio forçado e o trauma do ostracismo doméstico foi dura o suficiente para silenciar a maioria deles pelo resto de suas carreiras.



Padura pertence ao grupo que ele mesmo define como a Geração Oculta: os cubanos que chegaram à idade adulta depois dos piores espasmos da Revolução, mas antes da queda do comunismo. Como muitos de seus pares, cresceu acreditando na visão de um futuro socialista segundo Fidel; no verão, cortava cana nas “escolas de campo” coordenadas pelo Partido. Na juventude, sonhava em ser jogador de beisebol. “Eu conhecia o jogo, tinha paixão, talento, inteligência e velocidade”, diz ele. “Mas precisaria ser uns 30 centímetros mais alto.” Resolveu tornar-se cronista esportivo; porém, quando entrou na Universidade de Havana, em 1975, ela não oferecia o curso de jornalismo. “O planejamento socialista tinha decidido que havia um excesso de jornalistas no país”, conta.

Em vez de jornalismo, então, estudou filologia, concentrando-se em literatura hispano-americana. No fim das contas, diz ele, foi até uma vantagem: “Pude estudar jornalismo sem me contaminar com os vícios da academia.” Em 1980, depois de formar-se, começou a trabalhar como repórter para El Caimán Barbudo, o suplemento literário mensal de Juventud Rebelde, o jornal da Juventude Comunista. Ao contrário do Granma, o “órgão oficial” do Partido, a imprensa jovem de Cuba às vezes se afastava das matérias claramente permitidas; quando a prostituição recrudesceu na década de 90, por exemplo, os jovens se atreveram a denunciar o fenômeno. Padura passava boa parte do tempo escrevendo artigos de fundo sobre aspectos pouco lembrados da vida e da história de Cuba: o Bairro Chinês de Havana, a dinastia do rum Bacardi, a ascensão e a queda de um proxeneta notório nos anos imediatamente posteriores à independência, em 1910. O “Caso Padilla”, como ficou conhecido, não provocou muita repercussão, conta Padura. “Mas ainda havia muita pressão quanto ao que podia ou não ser dito, e um membro do Ministério do Interior lia tudo o que escrevíamos, tomando satisfações quando saíamos da linha.”

Ao final de três anos, Padura escreveu um artigo mencionando uma pessoa incluída na lista negra oficial. Recebeu uma advertência por “problemas ideológicos” e foi transferido para a redação principal do jornal, o Juventud Rebelde. Mas não se lembra do episódio como um castigo: teve o apoio de seus editores para trabalhar nas matérias que o interessavam, e aperfeiçoou cada vez mais seu ofício. “Foi sorte”, diz ele. “Porque lá me transformei num jornalista de verdade, fiquei conhecido, aprendi a escrever de forma narrativa.”

A essa altura, Cuba estava envolvida no conflito em Angola, mandando milhares de soldados “internacionalistas” para lutar numa das guerras por procuração mais ferozes de toda a Guerra Fria. Quando Padura estava com quase 30 anos, apresentou-se voluntariamente para passar um ano em Angola como correspondente de guerra e, para ele, esse ano foi um tempo alienante de medo e saudades de casa. Mas que serviria de inspiração para alguns dos primeiros contos que publicou, com reflexões sobre a fé revolucionária e os diferentes tipos de exílio e a solidão.

Em 1989, enquanto Padura trabalhava no Juventud Rebelde, o bloco soviético entrou em desintegração, pondo fim aos generosos créditos econômicos e às relações comerciais privilegiadas que davam suporte a Cuba já havia três décadas. Os Estados Unidos, que persistiam no embargo contra a ilha, exacerbaram ainda mais o bloqueio. Em agosto do ano seguinte, Fidel Castro anunciou seu plano para evitar a calamidade, o Período Especial em Tempos de Paz. Foi o começo de quase uma década de duras provações para muitos cubanos, à medida que a economia do país definhava até quase desaparecer.

Diante da falta de combustível, bicicletas substituíam os automóveis e juntas de bois substituíam os tratores. Muitos cubanos passavam fome; um alto dirigente do Partido me confessou que sua família às vezes tinha pouco mais que água com açúcar para o jantar. A violência, os roubos e a prostituição se multiplicaram, e motins ocorreram nos bairros mais pobres. Em 1994, cerca de 50 mil cubanos se lançaram ao mar em barcos improvisados, num esforço para chegar aos Estados Unidos. Zoé Valdés, antiga alta funcionária da área cultural, escreveria um romance sobre o período cujo título – O Nada Cotidiano – resumia a difundida sensação de desespero da época. Em 1995 ela deixou Cuba e foi para Paris.

Os que ficaram faziam o possível para enfrentar as mudanças na economia. O governo introduziu o “peso conversível” para competir com o dólar americano, corrente no turismo e no mercado negro. A nova moeda era muito mais valiosa que o peso normal, e os indivíduos que tinham acesso a ela começaram a prosperar. O efeito foi uma surreal economia de sinais trocados, em que médicos passavam fome enquanto artistas de rua e camareiras – além de escritores e artistas com vendas no exterior – podiam comer carne com seu arroz e feijão.

Em 1990, Padura foi nomeado editor de La Gaceta de Cuba, uma publicação da Uneac, e permaneceu no cargo por cinco anos. “Naquela época, você só conseguiria trabalho se fosse empregado de um organismo oficial”, lembra ele. “O Estado, até então onipresente, não era mais capaz de garantir nem a alimentação das pessoas. E procurei reverter a situação a meu favor.” La Gaceta parou de ser publicada por dois anos, deixando Padura com um ordenado modesto mas sem nenhuma obrigação concreta. “E comecei a escrever sem parar. Quase todo mundo pensava em ir embora de Cuba, mas resolvi ficar e, entre 1990 e 1995, trabalhei como um louco.” Lia vorazmente, preferindo os escritores de língua espanhola como Manuel Vázquez Montalbán e Paco Ignacio Taibo II, mas sobretudo os americanos do século XX: Fitzgerald, Faulkner, McCullers, Roth. “Ninguém conta uma história melhor que os romancistas americanos”, diz ele. Padura atribui a John Updike a inspiração para seu feito mais importante da época, a criação do personagem Mario Conde. Com Conde, tentou produzir para Cuba o que Coelho Angstrom representou para a sociedade americana. “Esses romances manifestam um desencanto com um projeto social – a Revolução – que, embora possa ser uma coisa belíssima, tem sido uma coisa... árdua.”

Quando Padura começou a escrever, os romances policiais tinham uma imensa popularidade em Cuba; constituíam quase 40% de todos os livros publicados no país, e alguns títulos chegavam a vender 200 mil exemplares em poucos dias. No entanto, como ocorria com grande parcela da arte da época, eram o que Padura descreve como “um panfleto de propaganda oficial sem qualquer valor literário”. Em 1972, o Ministério do Interior anunciou um concurso para desenvolver o gênero em Cuba: “As obras apresentadas devem tratar de temas policiais e ter um caráter didático, servindo ao mesmo tempo como estímulo à prevenção e à vigilância de toda atividade antissocial.” Os heróis precisavam ser paladinos do povo, tão corretos que nem podiam usar nomes feios.

Padura queria que a ficção abordasse “os maiores problemas da sociedade: corrupção, repressão, hipocrisia, esfacelamento ideológico, oportunismo, pobreza”. Escrever um livro policial, diz ele, era “um modo de ingressar no lado escuro e estar em contato com ele”. Mario Conde é um alcoólatra com amigos dissolutos e um vínculo tênue com seu emprego no departamento de polícia. Mas tem presença física e um olho clínico em matéria de mulheres, rum e comida, além de ser um idealista desencantado, dado a contemplar as questões insolúveis da vida – características que, todas elas, o tornam tão identificável para os cubanos como Coelho Angstrom para a classe média dos subúrbios americanos. “Conde muitas vezes pensava como eu, e agia como eu teria agido”, declarou o escritor. Conde adora Hemingway, e queria ter sido jogador de beisebol; nasceu no mesmo ano que Padura, e trabalhou por algum tempo como repórter.

Como escritor, Padura já gozava de bom nome junto aos comitês de publicação, tendo lançado até então, sem problemas, títulos sobre beisebol e músicos de salsa. Mas quando terminou o primeiro dos livros de Conde, Passado Perfeito, em 1990, a publicação foi negada. (No livro, um dos amigos de Conde dá largas a sua frustração: “Você acha que alguém nesse país sabe escrever? Porra nenhuma, e eu sei que você não está com a menor vontade de escrever, quanto mais de viver; mas é importante que não desista.”) A única opção de Padura era uma editora estrangeira – o que, como me explicou um escritor cubano, “nos dá proteção em casa”, além de aumentar as possibilidades de que o livro acabe editado também em Cuba. Padura conseguiu ter seu livro lançado pela editora da Universidade de Guadalajara e levou a Havana alguns exemplares da primeira edição; logo depois os leitores lhe disseram que tinham adorado Conde. O personagem, percebeu ele, era “um reflexo dos problemas e das frustrações da minha geração”.



Mais ou menos na mesma época, os escritores cubanos encontraram um novo protetor: Abel Prieto, presidente da Uneac e, depois, ministro da Cultura. Prieto era membro do Partido e costumava usar da palavra nas reuniões partidárias para condenar os dissidentes – mas também sabia que o país vinha perdendo boa parte de seu capital intelectual. Convenceu Fidel a permitir que os intelectuais circulassem com maior desenvoltura e, na medida em que não rompessem politicamente com o sistema, pudessem dispor de seus ganhos no estrangeiro.

Em 1993, o segundo romance de Padura em que Conde aparece como personagem, Ventos de Quaresma, ganhou um prêmio da Uneac que garantiu sua publicação, e Prieto começou a mexer os pauzinhos para lançar também uma edição cubana do primeiro livro, antes recusado. Embora num primeiro momento não houvesse disponibilidade suficiente de papel, o livro foi publicado no ano seguinte, em sucessivas tiragens pequenas que se esgotavam em questão de dias. Padura teve a ideia de fazer uma série dos romances protagonizados por Conde – quatro livros correspondentes às estações do ano de 1989, em que o Muro de Berlim veio abaixo. Em cada um deles, disse Lucía, “ele avançava um pouco mais, para ver até onde poderia ir”. E os romances, à medida que Padura ia adquirindo confiança, foram ficando mais audaciosos e mais sombrios. O primeiro é uma história relativamente comedida de corrupção oficial; o segundo fala de uma jovem professora com “uma ficha ideológica impecável” que, depois de ser encontrada morta, descobre-se ter levado uma vida dupla licenciosa de sexo e uso de drogas.

O terceiro romance, Máscaras, aborda a repressão aos intelectuais e homossexuais na década de 70. Conde, que está suspenso da força policial, investiga o assassinato de um travesti, encontrado morto num parque de Havana, trajando um vestido vermelho. O principal suspeito é Alberto Marqués, um velho dramaturgo gay, cujos vícios Padura, reproduzindo a linguagem do Partido, acusa em tom de paródia em forma de lista: “Homossexual de extensa carreira predatória, politicamente desengajado e ideologicamente desviante... protetor de bichas dissolutas, homem de associações filosóficas questionáveis, dominado por clássicos preconceitos pequeno-burgueses.” À medida que a investigação se aprofunda, Conde adquire certa simpatia por Marqués, que, apesar da repressão que sofre, “teve uma atitude de homem e ficou na ilha”. Também fica intrigado com o demimonde gay de Havana. O tratamento que Padura dá ao sexo é em geral mais sugestivo que explícito – como ocorre na maioria das sociedades revolucionárias, Cuba manifesta uma evidente propensão ao pudor –, mas numa cena escandalosa Conde faz sexo com uma mulher que ele suspeita ser transexual.

Para Padura, escrever sobre a perseguição aos homossexuais “foi como mergulhar de olhos fechados numa piscina”, diz ele. Mas estava dando mostras de uma intuição infalível para as mudanças políticas. Prieto, com outros ministros da Cultura, tinha começado a reabilitar escritores gays como José Lezama Lima e Virgilio Piñera, ambos mortos ao final da década de 70; suas obras foram reeditadas, e Lezama Lima recebeu um prêmio póstumo. Alfredo Guevara, o velho amigo de Fidel, diretor do instituto de cinema, ajudou a produzir Morango e chocolate, em que um jovem militante comunista trava amizade com um homem gay.

A aposta de Padura deu certo. “Em 13 de janeiro de 1996, Deus estendeu a mão e me escolheu”, diz ele. “Eu soube que tinha ganhado o Prêmio Café Gijón”, galardão literário espanhol acompanhado de uma remuneração de 16 mil dólares. Numa época em que o cubano médio ganhava em torno de 6 dólares por mês, era uma fortuna. Pouco depois, a editora espanhola Tusquets se ofereceu para publicar seus livros. “Quando isso aconteceu, Lucía virou-se para mim e disse: ‘A partir de agora você é escritor’”, conta Padura. De uma hora para outra, ele passava a fazer parte da pequena comunidade de indivíduos criativos que tinha estabelecido uma reputação no estrangeiro ao mesmo tempo em que conservava o favor do regime cubano. Ele e Lucía compraram um Subaru azul; começaram a viajar para o exterior com frequência cada vez maior. Quando estive com eles em Cuba, tinham acabado de voltar de uma turnê de lançamento pela Argentina e o Chile, e partiriam pouco depois para a Grécia e a Espanha.

Com o orgulho do menino de aldeia que vence na vida, Padura enumera suas realizações. “Fui traduzido em vinte línguas, e recebi outros prêmios: a comenda de Officier des Arts et des Lettres do governo francês” – acena de passagem para uma prateleira coberta de lembranças – “e, no ano passado, o Conselho de Ministros da Espanha me concedeu a cidadania espanhola honorária pelo meu mérito literário.” Vários livros de Padura foram adaptados e transformados em filmes e telenovelas estrangeiras; nos roteiros, Lucía atua sempre como coautora.



Uma noite, fui com Padura a uma festa em Guanabacoa, uma cidadezinha a leste de Havana – uma reunião de atores, escritores e artistas. Um homem chamado David Mateo me disse que era editor de uma revista virtual sobre artes, o que me pareceu inimaginável. Vários anos atrás, o regime cubano contratou a empresa estatal venezuelana de telecomunicações para dotar a ilha de cabos de banda larga, mas o projeto está inacabado até hoje, e o acesso à internet em Cuba é de uma lentidão enlouquecedora, além de muito caro. Em Havana, eu me mantinha a par das notícias frequentando o cibercafé de um hotel turístico e pagando tarifas exorbitantes pela conexão; para o cubano médio, uma hora de acesso à internet custa o salário de uma semana. De qualquer maneira, a maioria dos cubanos só tem acesso permitido à “intranet” da ilha, filtrada e controlada pelo governo. Os autores que contribuem para a revista de Mateo mandam-lhe seus textos por e-mail, e ele responde como pode. A revista propriamente dita é publicada no estrangeiro. Ele não tinha ideia de qual era a sua aparência.

Na época em que Padura era um jovem repórter, quem escrevia algo que desagradasse ao Partido era transferido para outro jornal, ou era encarregado de trabalho braçal numa plantação. Hoje a censura opera de maneira mais sutil. As poucas publicações que gozam de alguma liberdade têm tiragens pequenas e distribuição limitada, e mesmo assim precisam se submeter a alguma fiscalização. O repórter de uma importante revista me disse que todo número é remetido para observadores do governo: “Eles podem fazer sugestões de mudança no conteúdo, ou até vetar a publicação de artigos inteiros.” Para os escritores de fora do sistema, as instituições culturais são remotas e misteriosas; existe apenas uma sensação difusa de que certas coisas são apropriadas, e outras não. “É tudo muito sutil, muito discreto”, comenta Pedro Juan Gutiérrez. “Você não pode ir lá e soltar os cachorros, porque não vai encontrar ninguém numa sala, atrás de uma mesa, que lhe diga alguma coisa. Se não gostam de você, não gostam e pronto.”

Quando perguntei a Padura se seus romances alguma vez tinham sido censurados, ele respondeu: “Felizmente, não.” Mas assinalou que O Homem que Amava os Cachorros, o livro que fala de Trotsky, teve uma tiragem muito pequena; foram apenas 2 mil exemplares distribuídos no mercado cubano. Quando foi lançado na Feira do Livro de Havana, o salão estava lotado de admiradores do escritor, enquanto outros tantos ficavam do lado de fora tentando entrar. A imprensa oficial não noticiou o acontecimento, e quase não fez menção ao livro.



No jornalismo e na ficção, Padura sempre tende a voltar ao Período Especial depois do fim da União Soviética e à repressão dos anos 70, como forma de abordar os malogros mais amplos da Revolução Cubana e o silêncio cúmplice de sua geração. Em agosto de 2012, no centésimo aniversário do nascimento de Virgilio Piñera, Padura publicou um artigo intitulado “Lembrar é sempre melhor que esquecer”. Sem se referir diretamente à homossexualidade de Piñera, criticava “a marginalização e o opróbrio” que o escritor sofreu, além de denunciar a propensão, frequente entre os responsáveis por abusos e maus-tratos, a “esquecer o que não lhes é conveniente”.

Os irmãos Castro, porém, não são nomeados no texto, e em quase nenhum outro momento da atividade jornalística de Padura. No mesmo artigo, ele nos dá uma pista sobre sua reserva: “Os que eram poderosos naqueles dias nos viam como formigas que eles podiam esmagar com suas botas. Aqueles de nós que estivemos no papel de formigas nunca conseguiremos esquecer o tamanho da bota que ameaçava nos esmagar, ou o medo que nos provocava.”

Mesmo em sua obra ficcional, Padura só alude a Fidel a uma distância histórica. Em La Novela de mi Vida, recria a vida do poeta cubano oitocentista José María Heredia, que se transformou em herói nacional e acabou no exílio por suas críticas desabridas ao governo colonial espanhol. A certa altura, o herói conversa com o todo-poderoso governador espanhol sobre a repressão política na ilha. “Este país se encontra sob o olhar cobiçoso dos Estados Unidos e da Inglaterra, e se cedermos um centímetro que seja, eles acabarão tomando conta de tudo”, diz o governador. “Se, para manter a ilha espanhola, as reivindicações políticas de alguns precisam ser silenciadas, então vamos silenciá-las. Dos males, o menor. É a política, e é o realismo.”

Quando o governador faz essa profissão de fé na Realpolitik, não há como não entender quem na verdade está falando. “Heredia trava um diálogo constante com o presente”, explica Padura. “E o romance fala dos efeitos do poder sobre a vida dos indivíduos e a literatura, do ponto de vista da Cuba dos nossos dias – o que qualquer leitor pode perceber com facilidade.” Pouco depois do lançamento do livro, em 2002, a segurança do Estado de Fidel arrebanhou 75 dissidentes, entre eles 29 jornalistas “independentes”, e os encarcerou sob a acusação de traição.

Padura diz que está “consciente de uma certa responsabilidade” em comunicar a realidade da vida em Cuba, o que nem sempre é tarefa fácil. Num ensaio de 2011 intitulado “Eu queria ser Paul Auster”, escreve de maneira tortuosa a respeito do peso de seu fardo: “Nunca perguntam a Auster que direção ele acha que a economia americana devia tomar”, ou “por que ele não foi embora do país durante os anos horríveis do governo de George W. Bush”.

O escritor faz piada e comenta que, sempre que viaja ao exterior para um lançamento, “muita gente, em vez de me dizer que eu escrevo bem, elogia minha coragem por escrever o que escrevo em Cuba”. Para alguns de seus pares, entretanto, ele é tímido demais em suas críticas. Patricio Fernández, importante editor e escritor chileno, me disse: “Para permanecer na ilha como escritor, é necessário transformar-se num equilibrista e assinar uma espécie de contrato psicológico em que o escritor se compromete a não fazer barulho.” E outro escritor cubano afirma: “Seus livros vendem como pão quente porque são leves e brandos como pão de ló.”

Mas nenhum outro autor cubano conseguiu atingir o mesmo equilíbrio entre provocação e segurança. Pedro Juan Gutiérrez evita escrupulosamente a política em seus livros. Em lugar dela, escreve quase só sobre sexo – um sexo exuberante, sem disfarces ou barreiras – para produzir a crônica da vida promíscua e agitada de um homem chamado Pedro Juan, que mora num prédio arruinado numa rua maltratada do Centro de Havana, a mesma onde também mora o próprio Gutiérrez. Embora venda bem no exterior, seus livros passaram décadas indisponíveis em Cuba. Nos anos recentes, alguns volumes mais breves de sua obra, menos explícitos que a Trilogia Suja de Havana, vêm sendo publicados discretamente. E Gutiérrez me disse, faz pouco tempo: “Acho que existe hoje um desejo autêntico de afrouxar os controles sobre o que nós, os intelectuais, fazemos.” Há muitos escritores mais jovens, diz ele, “escrevendo sobre o que realmente lhes interessa, e questionando tudo”.

Um deles é Wendy Guerra, mulher engraçada e intensa de 40 e poucos anos. Em 2006, seu romance Todos se Vão foi publicado na Espanha e aclamado pelos leitores; em 2010, ela recebeu uma das mais altas honrarias culturais da França, o título de chevalier da Ordre des Arts et des Lettres. Todos se Vão é uma autobiografia pouco velada: o diário de uma jovem que não só se sente traída por uma sucessão de homens num país onde a dominação masculina é forte, como também oprimida pelo conformismo da Revolução.

Wendy Guerra disse que olha para Padura com o afeto de uma irmã mais nova, e, embora não seja publicada em Cuba, sempre pede conselhos a ele e a Lucía. “Uma das maneiras que o sistema socialista cubano sempre teve de desqualificar alguém é fazer desaparecer o nome da pessoa”, diz ela. “Meus prêmios não são noticiados pela imprensa; eu não saio nos jornais e nem tenho acesso aos meios de comunicação.” Wendy está determinada a permanecer em Havana e a continuar escrevendo, mas se sente invisível para seus pares. “Às vezes as pessoas me veem nas ruas e me perguntam: ‘Ué, você não deixou o país?’”, diz ela. “Existe um ditado: o que deixa de ser nomeado deixa de existir. Eu vivo um ‘exílio interno’ em Cuba. Fui exilada sem ter sido obrigada a ir para o estrangeiro."



Padura fala de maneira mais direta de suas opiniões sobre o jornalismo. “Na verdade, na imprensa oficial as mudanças foram poucas”, diz ele. “E faz sentido. Se a imprensa pertence ao governo e ao Partido, seria realista a imprensa criticar o governo e o Partido?” O Granma é o mesmo e chatíssimo panfleto de propaganda de sempre. Durante minha estada em Cuba, enquanto manifestantes turcos denunciavam o primeiro-ministro na praça Taksim, a primeira página do Granma preocupava-se em noticiar que um debate sobre os ideais de Che Guevara seria realizado aquela noite no canal estatal de televisão.

Certa manhã, acompanhei Padura a uma palestra que faria aos estudantes de jornalismo da Universidade de Havana. Quando subimos em seu Subaru, ele comentou que a faculdade de jornalismo continuava a ser tratada como uma espécie de enteada da academia cubana. “Estão sempre trocando as salas das turmas, que vivem sendo mandadas de um lado para o outro”, diz ele. E tira do bolso um papel. “Agora me deram o novo endereço. Espero que eu consiga achar a sala certa.” Finalmente, numa rua transversal perto da plaza de La Revolución, nos deparamos com um pequeno grupo de estudantes na entrada de um dos edifícios da universidade. Com eles está o professor, um homem de cavanhaque chamado Rafael Grillo. Sorrindo, ele cumprimenta Padura: “Você veio mesmo, não pensei que viesse.”

Como sempre, Padura usa roupas bem esportivas: uma camisa polo cinza, calça bege e sapatos bons para caminhar. Carrega na mão uma pochete do tipo usado por turistas, contendo dinheiro e documentos. Na sala de aula, encontra uns trinta estudantes a sua espera e, quando começa a falar, alguns o fotografam com seus telefones. Padura discorre sobre a necessidade de um acesso melhor à internet, seu “saco de pancadas de sempre”, e queixa-se que, para tomar conhecimento das últimas notícias, dependa de um amigo estrangeiro que as envia por e-mail uma dúzia de vezes ao dia. Recentemente, o governo anunciou a intenção de abrir cibercafés em toda a ilha. “Se for mesmo verdade, vai ser importantíssimo”, declara aos estudantes. “Seria a primeira vez que o governo admite que não pode deter o monopólio da informação.” Padura exorta o governo a afrouxar a pressão sobre os jornalistas, mudança que considera “mais importante que qualquer outra – no Partido ou mesmo no Politburo”. E continua: “Qualquer um de vocês pode se formar aqui imbuído dos melhores propósitos, mas daqui a seis meses vai estar trabalhando como repórter no Granma, ou na televisão cubana.” Faz uma careta. “E vocês sabem o que isso quer dizer.”

Para os cubanos, uma conversa assim franca sobre a liberdade de imprensa não tem muitos precedentes. Os dissidentes políticos que realizam protestos públicos geralmente são detidos, e às vezes espancados por policiais ou grupos favoráveis ao regime. Mesmo assim, parece vir crescendo o reconhecimento oficial de que os meios de comunicação estatais precisam se mostrar mais abertos. Num discurso recente, Raúl Castro acusou os meios de comunicação de “excesso de estridência e formalidade”, e de “não travar debate” (não faz diferença que ele tenha ajudado a silenciá-los por várias décadas). E de fato, depois das palavras de Padura, um impetuoso jovem da plateia afirma que sua crítica da imprensa parece um simples eco das palavras de Castro. O escritor apenas repete que existe um “vácuo inegável” no cerne dos meios de comunicação cubanos. Menciona Yoani Sánchez, a blogueira dissidente, a quem o governo tinha dado uma permissão recente para sair do país depois de décadas negando seus pedidos. “Graças a eles, Yoani se transformou numa grande personalidade, pois não a deixavam viajar, e o que aconteceu? Ela foi, voltou, e pronto.” E Padura completa, com uma expressão impassível: “Nem por isso acho que a safra de bananas de Cuba tenha sido afetada.” Risos abafados entre os estudantes. O escritor tem razão, é claro: um cubano que leia apenas a imprensa local jamais saberia que Yoani tinha regressado a Havana; aliás, talvez nem soubesse de sua existência.



Os críticos de Padura podem lhe cobrar mais coragem, mas isso significaria a vida no exílio, condição a que ele se refere como “uma pena terrível”. Ironicamente, alguns dos cubanos exilados produziram suas melhores obras depois de deixar a ilha. Cabrera Infante escreveu sua obra-prima, Três Tristes Tigres, em Londres; Arenas escreveu um brilhante livro de memórias, Antes que Anoiteça, enquanto morava em Nova York. Mas a vida no exílio pode ser estéril. Numa entrevista inédita concedida em 1983 à escritora Ann Tashi Slater, Arenas falou do deslocamento que sentia: “Qualquer pessoa que viva fora de seu contexto é sempre uma espécie de fantasma, porque estou aqui mas ao mesmo tempo me lembro de uma pessoa que caminhava por aquelas ruas, que continua lá, e essa pessoa também sou eu. Às vezes não sei se estou aqui ou lá. E às vezes a vontade de estar lá é maior que a necessidade de ficar aqui.”

E o pior de todos talvez seja o exemplo de Heberto Padilla. Libertado da prisão, mas rejeitado pela Cuba oficial, o poeta ganhava a vida com traduções e esteve impedido de deixar a ilha até 1980, quando o senador Edward -Kennedy o ajudou a obter licença para emigrar. Padilla se estabeleceu nos Estados Unidos, escreveu um pungente livro de memórias, Autorretrato del Otro, e encontrou trabalho como professor, mas nunca lhe permitiram que voltasse a Cuba. Morreu em 2000, no Alabama, depois de vinte anos longe de sua terra.

Quando a era castrista terminar, Padura bem pode estar entre os poucos artistas a ter persistido até o fim. Como ocorre com a maioria de seus compatriotas, um dos traços que mais o distinguem é a capacidade de sobrevivência. Para Wendy Guerra, “o prêmio de Padura foi uma necessidade histórica para calar os gabinetes responsáveis pela vigilância sobre as palavras. Ele é o pai de Mario Conde, o personagem que médicos e engenheiros acompanham, a primeira personalidade a emergir na ficção popular cubana em cinquenta anos de Revolução”.

Mas sugere haver mais um motivo para a relativa liberdade de Padura. “Los jefes não leem nada”, declara ela. “Só estão tentando evitar acusações na arena internacional, e acham melhor publicar o que escrevemos a ter de enfrentar os problemas que poderiam advir por um motivo que nem julgam importante.” Se Wendy Guerra estiver correta, não importa qual a extensão da abertura concedida pelo governo cubano, ela se baseia em cálculos de ordem prática; a cultura, no caso, é incidental. Uma hora a leste de Cojimar, um poço de petróleo chinês se ergue ao lado da estrada, e a oeste novas e vastas instalações portuárias estão sendo construídas pelo Brasil. No antes exclusivo logradouro de férias de Varadero, turistas da Rússia e da Argélia se juntam à multidão que viaja em busca de temporadas baratas na praia; na ponta da península uma área intocada de floresta deu lugar a um canteiro de obras de hotéis. Onde Fidel proibia o golfe no passado, investidores estrangeiros obtiveram licença para construir campos exclusivos, cercados de condomínios e shopping centers. Enquanto isso, em Havana, pela primeira vez vi gente sem teto: homens com roupas surradas, alguns sofrendo de evidente doença mental, vasculhando latas de lixo ou vagando a esmo pelas ruas.

É como se, com suas “mudanças”, o Estado cubano já tivesse começado a retirar-se de cena, e o novo ethos dominante, como em boa parte do resto do mundo, tenha passado a ser o sálvese quien pueda – salve-se quem puder, e cada um por si. Em O Homem que Amava os Cachorros, Padura diz que “a Utopia foi traída e, pior ainda, reduzida a uma paródia fraudulenta das maiores aspirações humanas”. Quando lhe perguntei recentemente se a Revolução tinha acabado, ele se esquivou, discorrendo em termos vagos sobre a institucionalização das ideias socialistas, o pragmatismo e os diversos estágios da transformação social. Entretanto, na tarde que passamos juntos em Cojimar, ele foi bem mais direto. “Cuba está encurralada entre duas visões eternamente conflitantes”, disse ele. “Uma é a de que é um paraíso socialista; a outra é de que é um inferno comunista. Na verdade, Cuba não é nem um paraíso e nem um inferno, mas um purgatório, onde alguns de nós ainda têm a possibilidade de salvação.” J

[1]O Homem que Amava os Cachorros, recém-lançado no Brasil pela Boitempo; também têm edições brasileiras A Neblina do Passado(Benvirá), Passado Perfeito, Ventos de Quaresma, Máscaras e Adeus, Hemingway(os quatro últimos da Companhia das Letras)

[2]Uma referência ao conto “Para Esmé, com amor e sordidez”, do escritor americano J. D. Salinger, de quem Padura é admirador.

[3]A emigração em massa de mais de 120 mil cubanos para os Estados Unidos, a partir do porto de Mariel. O êxodo foi apoiado por exilados e aprovado por Fidel Castro, e os emigrantes incluíam criminosos liberados das cadeias de Cuba.

por John Lee Anderson

piauí

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terça-feira, 22 de abril de 2014

O CORVO!

O tribuno da imprensa

A trajetória de Carlos Lacerda, Lúcifer decaído da esquerda que se converteu no paladino da direita e preparou a ditadura militar que liquidaria suas ambições

por Otavio Frias Filho

Antes de se tornar o símbolo máximo da direita ideológica no panorama político da segunda metade do século passado, Carlos Lacerda foi um promissor militante de esquerda no Rio de Janeiro. Não apenas simpatizante do comunismo, como tantos jovens na década de 30 e nas seguintes, mas um ativista precoce que se destacou nas manifestações de rua e logo estaria no centro dos acontecimentos.

Suas credenciais de contestatário vinham de família. O avô, Sebastião de Lacerda, ministro de tendências liberais no Supremo Tribunal Federal, havia sido abolicionista e republicano na juventude, adepto de Silva Jardim, o mais jacobino dos líderes que derrubaram o Império. Seu pai, Maurício de Lacerda (um “socialista romântico”, na definição do filho), deputado radical ligado ao florescente sindicalismo dos anos 10 e 20, teve atuação destacada nos comícios que forçaram a deposição de Washington Luís e o fim da República Velha em 30.

Carlos Frederico Werneck de Lacerda (1914–77) foi batizado em homenagem aos prenomes de Marx e Engels. Aos 12 anos, leu ABC do Comunismo, de Nikolai Bukharin, presente de seu tio Paulo, irmão caçula do pai. Paulo e Fernando, o irmão do meio, foram dirigentes do Partido Comunista Brasileiro que chegaram a secretário-geral, posto mais alto dentro da organização clandestina. Na faculdade de direito, Lacerda se aproximou de professores socialistas e escreveu seu primeiro livro, O Quilombo de Manuel Congo, panfleto em que exaltava uma revolta de escravos no Vale do Paraíba do século XIX. Foi preso ao menos quatro vezes pela polícia entre 33 e 39.

Era uma época de tumulto. A Revolução de 30 levara Getúlio Vargas ao poder, no qual se equilibrava precariamente, num jogo de repressão e barganha com as forças que se digladiavam nas ruas e nos gabinetes, puxando o governo provisório para a esquerda e para a direita. Diante da irrupção mundial do fascismo e sua vertiginosa ascensão na Alemanha, a partir de 1933–34 a União Soviética ditou aos partidos comunistas a adoção de uma política de frente ampla com as tendências antifascistas, numa reviravolta em relação às sectárias diretrizes anteriores. Surgiu a Aliança Nacional Libertadora, organização de fachada do PCB.

Luís Carlos Prestes, que acabara de se converter ao comunismo, ascendia depressa ao comando do partido. Era o mais popular dentre os líderes das revoltas tenentistas que culminaram na Revolução de 30, sua figura banhada na aura ainda fresca do “Cavaleiro da Esperança” à frente da coluna revolucionária que vagara, por mais de dois anos, pelo interior do país em desafio ao governo central.

No começo de 35, num comício da ANL, Lacerda foi incumbido às pressas, como se a ideia surgisse no calor da hora, de lançar o nome de Prestes para presidente de honra da entidade. Alto, galante, já então um improvisador inspirado, ele discursaria em nome da ala estudantil. Quando propôs a indicação de Prestes, desfraldaram-se faixas em que o líder era saudado como presidente honorário. A crer em suas memórias, o sentimento de ter sido levemente usado na maquinação foi a primeira rachadura em sua adesão ao comunismo.

Meses depois, o comando do PC deflagrou uma desastrosa rebelião militar que deveria dar início à insurreição geral, mas redundou em pronto fiasco, estrangulada pelo governo – que, fortalecido, guinou em definitivo para a direita. Numa estimativa delirante, Prestes e seus camaradas haviam convencido Moscou de que a sublevação teria o apoio das massas, o que explica terem sido autorizados a aventura tão avessa à estratégia da frente ampla.

O estigma de golpistas traiçoeiros recairia sobre gerações de futuros comunistas; a mais brutal repressão tratou desde logo de dizimar o partido. Foi nesse ambiente de medo, paranoia e delação que se deu o controvertido episódio da excomunhão de Lacerda pelo PC, que o apontou em panfletos clandestinos como delator, agente fascista e provocador trotskista.



Lacerda, que começou cedo no jornalismo, levado pela poeta Cecília Meireles, trabalhava então numa revista mensal. O Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) da ditadura faria uma exposição sobre as conquistas do Estado Novo no primeiro aniversário do golpe que Getúlio desfechara, em novembro de 37. Foi encomendada à revista uma série de artigos sobre a mostra, que abrigava uma seção dedicada ao comunismo e sua derrota. Como Lacerda conhecesse o tema, convidaram-no a escrever a respeito, sem assinatura.

Antes, porém, Lacerda consultou o partido, que o achou preferível a algum articulista hostil. Recomendaram que minimizasse a penetração do PC, para não açular a repressão. Publicado em janeiro de 39, o texto é uma longa e detalhada resenha da atuação comunista no Brasil. Nomes aparecem em profusão, embora o jornalista alegasse que nada revelara que a polícia já não soubesse. A influência do PC, ao menos aos olhos dos dirigentes, foi reduzida a zero.

Exigiram uma retratação interna, que ele recusou. E foi esmagado por uma condenação imediata, subterrânea, infamante. Os comunistas não eram muitos, sendo restritíssimo seu recrutamento, mas em torno do partido girava uma numerosa camada de simpatizantes obedientes ao comando central – intelectuais, jornalistas, artistas, boêmios, o mundo em que Lacerda sempre vivera. Da noite para o dia, amigos recusavam-se a lhe dirigir a palavra.

Passou a primeira noite como renegado na casa de Samuel Wainer, bêbado e repetindo que perdera a “mãe”. Wainer dirigia uma revista pró-comunista, Diretrizes, que contava entre seus colaboradores com o próprio Lacerda, Moacir Werneck de Castro (seu primo, depois desafeto), Rubem Braga e Jorge Amado. O escritor baiano reclamou para Wainer: “Veja no que deu você trazer esse crápula aqui para dentro.” Para evitar uma crise, Lacerda foi desligado da publicação. Mais tarde os dois criadores de jornais comandariam a guerra entre Última Hora e Tribuna da Imprensa.

Muito se especulou sobre a ruptura com o PC, à medida que o jovem dissidente revelava talento além de pedigree, e audácia além de ambição, até se converter no Lúcifer decaído da esquerda. Seu pai, Maurício, continuou socialista sem aderir ao partido (nem a Getúlio); seus tios eram do esquema suplantado por Prestes. Teria sido a exclusão uma maneira de debilitar a família recalcitrante? O partido pressentia em Lacerda, talvez, um desejo de projeção pessoal e um gosto pela dissensão que convinha coibir? Ou era o próprio Lacerda quem se achava tolhido numa organização tão fechada, na qual não via futuro para suas capacidades de polemista exuberante e eventual chefe de sua própria facção?

Do período comunista ele reteve dois legados importantes: um conhecimento íntimo sobre o adversário, franqueado apenas a quem pertenceu a suas fileiras, e o hábito mental de levar a consecução das ideias a suas últimas e paradoxais consequências. A partir de 43, numa virada que indignou muita gente, inclusive Lacerda, o pc passou a apoiar Getúlio. Sob forte pressão norte-americana, o Estado Novo rompera com o Eixo; da prisão onde mofava, Prestes enviou telegrama exaltando as “inclinações democráticas” do ditador. Seria o início da longa colaboração entre getulistas e comunistas, e Lacerda seria seu arqui-inimigo.



Duas tendências modernizantes se confrontaram na política brasileira ao longo do século. A primeira, de feitio autoritário e extração positivista, considerava o Estado como alavanca principal, se não única, para acelerar o desenvolvimento. Para a outra tendência, de inspiração liberal e composição mais elitista e tradicional, essa alavanca estava na economia de mercado, especialmente no investimento estrangeiro. Uma série deimplicações, desde a tônica nacionalista e antiamericana (associada à primeira) até a religiosa (associada, via catolicismo, à segunda), decorria dessa dicotomia. Progressistas contra conservadores; autoritários contra liberais (pero no mucho).

Variantes das duas tendências (assim como a alternativa fascista, logo esmagada, mas “antropofagicamente” assimilada pelo Estado Novo) compunham o mosaico da Revolução de 30. Claro que na prática miúda elas se misturavam ao sabor das conveniências numa cultura sempre clientelística. Em 45, porém, um novo maniqueísmo desceu sobre o mundo e se acoplou ao local, tornando mais nítido e agudo o seu dilema. Estados Unidos e União Soviética passaram a dividir o globo em duas áreas de predomínio que correspondiam a dois modelos opostos de sociedade. Impedidos pela paridade nuclear de fazer guerra aberta, sua luta reaparecia em cada contexto local, em cada controvérsia específica. Posições intermediárias ou alternativas eram arrastadas para um dos lados.

Outro fator conferia ainda mais voltagem à tensão acumulada. Desde 30, os militares passaram a exercer papel predominante, ostensivo ou velado, na política brasileira (e de muitos países), da qual só foram expelidos na década de 80. A impermeabilidade da República Velha a quase toda mudança
forjou uma geração politicamente nervosa – a dos “tenentes” –, propensa a soluções de força, escolada numa respeitável carreira de golpes e rebeliões, quase sempre incruentos, conforme o tradicional e enigmático mecanismo brasileiro de baixa taxa de conversão da violência social em violência política. O exemplo prosperou. Foi somente depois de longa ditadura militar (1964–85) que o respeito às regras se estabeleceu de forma incontestável.

O Exército não pairava no ar, as mesmas vertentes fascista (quase sempre recôndita), liberal e progressista o impregnavam, ao menos até o expurgo de 64. Dentre outros malefícios mais óbvios da tutela militar sobre a política, porém, está o de reduzir o espaço público às dimensões paroquiais da caserna. O Estado fica pendente da politicagem dos quartéis, com suas camaradagens e ressentimentos. Não raro um mesmo oficial aparece num curto tempo em posições opostas do cenário, ao sabor de lealdades pessoais a chefes que chegavam a ficar duas décadas no comando (Castelo Branco encurtou os prazos do generalato em 65, o que contribuiu para o caráter impessoal da ditadura militar).

Foi nesse ambiente crispado, explosivo, que Lacerda começou a brilhar no jornalismo de oposição e se destacar na política partidária, atividades compatíveis pelos hábitos da época. Sua entrevista com José Américo de Almeida – um dos notáveis de 30 que Getúlio aliciou e depois alijou –, publicada em fevereiro de 45 pelo prestigioso Correio da Manhã, derrubou a censura à imprensa. Getúlio foi deposto pelos militares no fim do ano. Lacerda cobriu a Constituinte escrevendo naquele jornal a coluna “Na Tribuna da Imprensa”. Em 47, foi eleito o vereador mais votado do Rio para renunciar meses depois, quando o Senado esbulhou da Câmara Municipal o direito de derrubar os vetos do prefeito, nomeado pelo presidente da República.

Sua campanha contra o candidato presidencial comunista (o partido fora legalizado por breve período) definiu o que seria um padrão: o martelar diário de denúncias de corrupção expressas na mais injuriosa virulência. Devido a outra campanha agressiva, contra a construção do Estádio do Maracanã (propunha uma alternativa mais barata em Jacarepaguá), foi espancado duas vezes por capangas do prefeito, general Mendes de Morais. Essa atuação intrépida, que se estendia ao rádio e logo chegaria à tevê, depressa lhe rendeu a fama de campeão dos costumes públicos – um puritano na terra da malandragem, um intransigente no país do jeitinho.

Sempre invocando o combate à ditadura getulista, cuja cabeça fora decepada sem que o corpanzil fosse desalojado da máquina oficial, Lacerda deslizava, num percurso clássico em sucessivas gerações, de posições socialistas para liberais. Logo anunciaria sua conversão ao catolicismo, e foi mediante influentes amigos católicos, como Alceu Amoroso Lima, Gustavo Corção e Sobral Pinto, que levantou fundos para criar seu próprio e modesto jornal, a Tribuna da Imprensa, em 49.

No ano seguinte, o fantasma que Lacerda agitava se tornou de novo palpável com a volta de Getúlio Vargas ao poder pelo voto popular. Removido num movimento de cúpula como ultrapassado ditador semifascista, retomava o palco no figurino de presidente esquerdizante, sustentado na gratidão das massas pela legislação trabalhista que concedera enquanto autocrata. Lacerda lhe fazia a oposição aguerrida de sempre, que se tornou ainda mais estridente quando Getúlio, cercado por uma imprensa hostil, usou fartos recursos públicos para financiar o lançamento da Última Hora de Samuel Wainer, logo uma cadeia nacional de jornais.

Foi Wainer quem o apelidou de “O Corvo”, em maio de 54, ao vê-lo de terno e gravata pretos, os óculos espessos faiscando sobre o perfil agudo de ave, compungido no enterro de um repórter assassinado por policiais – o caso que Lacerda explorava contra o governo naquele momento. Na capa da edição seguinte, a Última Hora trazia uma charge do ilustrador Lan (Lanfranco Rossini, italiano radicado no Rio) que mostrava um corvo encarapitado na borda do caixão.

Menos de três meses depois, em agosto de 54, Lacerda escapou, com ferimento superficial num dos pés, de um atentado a tiros que matou um major da Aeronáutica, Rubens Vaz, que o escoltava. Logo veio à tona que o mandante do plano desastrado era o chefe da guarda presidencial, com a provável anuência de um irmão do presidente. Revoltados com o assassinato do colega, os militares entraram em pé de guerra.

Lacerda, alçado a herói, capitaneava a onda pela saída de Vargas via impeachment, renúncia ou golpe militar. O suicídiodo presidente, semanas após o atentado, inverteu de repente a maré das ruas; a multidão queria agora linchar o “assassino de Getúlio”. O apelido inventado por Wainer se fixou de modo indelével. Às vezes, num curioso eufemismo que o agravava, em vez de aliviar, dizia-se simplesmente: “A Ave.” Toda polarização, porém, rende resultados, e em outubro de 54 ele foi eleito, novamente o mais votado, para o primeiro de seus dois mandatos como deputado federal.

“Não deve ser candidato; candidato, não deve ser eleito; eleito, não deve tomar posse.” Lacerda distribuiu variações dessa frase a respeito de Getúlio e seu legítimo sucessor, Juscelino Kubitschek. Ninguém é golpista sem apresentar uma justificativa qualquer; para Lacerda, caso raro de político dotado de aptidões intelectuais, ela se expandiu numa elaborada narrativa, como está na moda dizer, sobre o Brasil moderno.



Os ideais de democracia e progresso haviam sido traídos pelo formalismo esclerosado da República Velha. Foram traídos pela segunda vez quando o inescrupuloso caudilho gaúcho usurpou a Revolução de 30 e instalou a sua volta uma nova oligarquia. “O poder pessoal”, Lacerda disse, “é como um pêndulo que oscila indiferentemente entre a esquerda e a direita, contanto que nesse movimento trabalhe para a engrenagem que está por trás do relógio.”

Ao contrário da anterior, plantada no privilégio fundiário, essa nova oligarquia depende apenas das benesses do Estado. Sua “engrenagem” se compõe de duas partes, além do imprescindível sustentáculo militar. De um lado, “uma casta de incapazes e desonestos, profissionais da demagogia”, que articula o apoio político à camarilha governante e azeita relações com empresários favorecidos.

De outro, um braço trabalhista que comanda os fundos sindicais e manipula o movimento operário, mantendo-o sob rédea curta. Conta para isso com a disciplinada colaboração dos comunistas, bem ou mal enraizados no meio sindical, que por sua vez obtêm em troca espaço e empregos, enquanto fermenta a agitação que um dia poderá levá-los ao poder totalitário num lance de audácia, como na Rússia, como em Cuba.

Todo esse aparato se apoia na ignorância da massa popular, mantida na escuridão por falta de esclarecimento e escola, sempre crédula perante a autoridade patriarcal e grata às concessões demagógicas que esta lhe dispensa como migalhas caídas do banquete. Somente a educação abriria os olhos do povo e o tornaria cônscio de seus direitos.

Educar, entretanto, é um processo lento. Lacerda passou a preconizar o adiamento das eleições presidenciais de 55, pois o impacto emocional do suicídio atordoara o povo, turvando seu discernimento. Sugeria um “estado de exceção”, espécie de consulado militar de um ou dois anos, dedicado a desmantelar a estrutura getulista enquanto uma “Constituinte de especialistas” prepararia as reformas necessárias a assegurar eleições realmente livres.

Por mais que existam elementos de verdade nessa versão, não precisamos aceitá-la, nem muito menos o estapafúrdio remédio prescrito. Ao contrário, visto de outro ângulo, todo o drama político da época reflete uma disputa bem diversa. A saber, a reivindicação crescente da classe trabalhadora (ou de seu segmento organizado) por parcela maior da renda – e a tenaz resistência oposta pelo capital, decerto, mas também por certa classe média tradicional, muita vez lastreada no funcionalismo público graduado e nas profissões liberais, pilares do lacerdismo.

O desenlace de 64 sobreveio quando essa mobilização, até ali domesticada por Getúlio e seus herdeiros, começou a escapar do controle num clima insurrecional que solapava a hierarquia militar e ameaçava os direitos de propriedade. Na perspectiva dessa outra narrativa, inspirada pelo desejo de uma severa limitação social ao capitalismo ou de sua sumária substituição, fica reiterado em Lacerda o epíteto de reacionário que ele teimava em refutar.

Note-se ainda que a sutil reinvenção de Getúlio, de chefe semifascista a líder de um nacionalismo democrático-popular de vocação “socialisteira”, como dizia Lacerda, deslocava este último inexoravelmente para a faixa mais combativa da direita. Ali ele se instalou com gosto: não fosse a polarização daquela era, bastaria seu temperamento para levá-lo a posições exaltadas.



A propósito de temperamento, há uma dimensão psicológica que vale mencionar. Lacerda manteve sentimentos ambíguos, de admiração e hostilidade, em relação ao pai. Aos 12 anos matava aulas para ver “O Tribuno do Povo” discursar na Câmara. Mais tarde é o pai quem, ao escutar o filho falando num comício da ANL, exclama para um amigo ao lado: “Não é possível, ouça; fui mesmo eu que gerei este milagre?!” Mas Maurício de Lacerda era um cometa que aparecia e sumia, seu tempo consumido pela política e por outra mulher, com quem se uniu de vez em meados dos anos 40, oficializando sua separação de Olga, a mãe de Carlos, para mágoa da família.

Embora Maurício trabalhasse, naquele turbulento início dos anos 30, por um acordo entre “tenentes”, comunistas e Vargas, sua conduta era irascível como a do filho. Foi sondado para o ministério, logo passou a desancar o governo provisório e se apagou no turbilhão da década. Era dos tais tribunos que fazem, mas não conduzem as revoluções, que derrubam governos e não governam. Lacerda o comparou a Ícaro, “destino fulgurante cortado em pleno voo”. Como se a mística do pai se transferisse magicamente ao filho, quando caiu o Estado Novo e subia a estrela de Lacerda, Maurício se reduzira a um obscuro procurador no Rio, onde morreu em 59.

Do ponto de vista simbólico, portanto, Lacerda usurpou seu lugar, mas isso é normal e até inevitável entre pai e filho. Oculta-se nas sombras do imaginário um outro usurpador, pérfido, terrível, ninguém menos do que Getúlio Vargas. Justiça do Trabalho, jornada de oito horas, férias remuneradas, repouso semanal, indenização por dispensa sem justa causa – as bandeiras do pai foram arrebatadas por Getúlio e postas a serviço de sua ambição, enquanto descartava Maurício, que em nome delas quase morrera nas prisões do presidente Artur Bernardes (1922–26). Interessante pensar na fúria hamletiana de Lacerda contra Getúlio como agressão ao usurpador do pai que existia nele mesmo.

Para empreender a missão a que se consagrara, Lacerda vestiu o manto da instituição mais poderosa da época, a Igreja católica. Ligou-se estreitamente ao Mosteiro de São Bento, polo de atração da elite, onde tornou religioso, em 48, seu casamento civil com Letícia Abruzzini. O clero ainda ditava padrões a serem observados por todos e se imiscuía com desenvoltura na política. No início dos anos 20, um intelectual conservador, Jackson de Figueiredo, criou o Centro Dom Vital, instituto de doutrinação católica que seria influente na capital federal. O propósito era recuperar para o dogma a classe dirigente, cada vez mais suscetível a doutrinas agnósticas e materialistas.

Com o tempo, o perfil ultraconservador do Centro Dom Vital foi amenizado pela influência de pensadores católicos reformistas, como os franceses Jacques Maritain e Teilhard de Chardin. O primeiro procurou conciliar catolicismo e democracia, enfatizando que algum nível de concessão social é imprescindível à harmonia entre capital e trabalho. O segundo tornou a doutrina ainda mais metafórica e flexível, de modo a compatibilizá-la com as descobertas da ciência.

O fio condutor dessa evolução foi Alceu Amoroso Lima (Tristão de Ataíde), publicista e crítico literário que, como o influente bispo dom Hélder Câmara, começou integralista, transitou para a democracia-cristã nos anos 50 e na década seguinte abraçou a esquerdista Teologia da Libertação, percorrendo assim todo o espectro ideológico disponível. Porém, no período em questão, o esplendor da Guerra Fria, a Igreja estava em bloco na cruzada contra o comunismo ateu – e Lacerda foi incensado como seu paladino.



Seu instrumento, na arena parlamentar, sempre foi a União Democrática Nacional. Encetada desde 43 como aliança entre liberais e socialistas não alinhados ao PC, com alguma participação de ilustres trotskistas, a exemplo do crítico de arte Mário Pedrosa, não tardou a adquirir sua configuração definitiva, liberal-conservadora, quando a ala esquerda saiu para fundar o Partido Socialista. Era, a UDN, o partido da resistência aos abusos de Getúlio, mas também o que melhor representava os interesses dominantes, o establishment das camadas altas e médias, ou ao menos seus estratos mais ideológicos.

Entre seus líderes figuravam juristas e acadêmicos eminentes, tidos por inatacáveis sob o prisma da moral e da dedicação à causa pública, punhado de nomes hoje cobertos de pó que compunham uma galeria de varões de Plutarco: Octavio Mangabeira, Adaucto Lucio Cardoso, Prado Kelly, Afonso Arinos, Bilac Pinto, Milton Campos, Aliomar Baleeiro. Meu pai, Octavio Frias de Oliveira, com o habitual ceticismo dos empresários quanto à política, usava o substantivo “UDN” como adjetivo para qualificar qualquer atitude (ou pessoa) presunçosa, santarrona e doutoral, a exalar o perfume, para ele insuportável, da hipocrisia.

O lema do partido era uma divisa paranoide importada do macarthismo americano – “O preço da liberdade é a eterna vigilância” –, que no contexto local vinha bem a calhar em relação ao matreiro e imperecível Getúlio. Um dos símbolos da UDN eram os lenços brancos agitados como sinal de pureza nos comícios, o que tinha, mesmo naquela época em que se usava chapéu e paletó, certo laivo classista.

O partido também contava com seus próceres militares. Dois deles foram candidatos presidenciais, o brigadeiro Eduardo Gomes (45 e 50) e o general Juarez Távora (55), ambos “tenentes” da melhor estirpe, aquele um dos dois sobreviventes do alucinado levante dos 18 do Forte de Copacabana (22), este um dos comandantes da coluna Prestes (1924–27). Mas as candidaturas não empolgavam, a máquina adversária era poderosa e, antes de mais nada, a maioria da população queria votar em Getúlio e seus legatários.

Lacerda fustigava a UDN, que chamou de “maçaroca de tendências”, para que encampasse sua linha de oposição irredutível e escolhesse candidatos mais viáveis. Enquanto ele animava a “banda de música”, bancada de virtuoses da oratória que azucrinava o Executivo na Câmara dos Deputados, a indefectível ala “chapa-branca” entregava-se à “bolinação” (termo de Lacerda) com o governo de turno. Se os líderes da UDN lhe pareciam acomodados, ele lhes soava despótico. Temiam, como explicitou um deles, Daniel Krieger, que se tornasse ditador caso chegasse ao poder. Sobre Lacerda, aliás, o taciturno ditador português António Salazar teria dito: “Terá o poder, se souber calar.”

Quando se dispôs a restituir a democracia, em 45, pressentindo a deposição, Getúlio fomentou o surgimento de dois partidos, o PSD e o PTB. Aquele se juntou em redor dos interventores estaduais que nomeara enquanto ditador. Este era a face parlamentar do aparelho trabalhista, confiado ao afilhado político de Getúlio, João Goulart. Essa coalizão elegeu Juscelino Kubitschek para presidente e Jango como vice em 55. Foram empossados à custa de um golpe original, dito preventivo, em que o ministro da Guerra (Exército) destituiu o presidente interino a fim de garantir o resultado das urnas. Junto com o núcleo do governo deposto, Lacerda se refugiou num navio insubordinado da Marinha e logo partiria para merecido autoexílio de quase um ano em Cuba, Estados Unidos e Portugal.



Embora pertencesse à linhagem getulista (foi prefeito nomeado de Belo Horizonte no Estado Novo), Juscelino era um moderado que se converteu em presidente conciliatório e tolerante. Anistiou de imediato as duas revoltas de opereta que oficiais da Aeronáutica (sob desaprovação até de Lacerda) tentaram contra seu governo. Pretendia fugir pela tangente à dicotomia fatídica, rumo a um futuro miraculoso, do “progresso às caneladas” de que a gastança da construção de Brasília foi o emblema. Encontrou um expediente burocrático, entretanto, para vedar o acesso de Lacerda ao rádio e à tevê.

Este deblaterava no jornal e no Parlamento, onde agora era líder da UDN. Empenhava-se em demonstrar que Jango recebera recursos do ditador argentino Juan Domingo Perón, destinados a financiar campanhas eleitorais no Brasil. Antes publicara correspondência de um político peronista ao vice brasileiro – a Carta Brandi – que sugeria relações espúrias, mas o documento se revelou falso, a maior “barriga” (gíria para erro jornalístico) de sua carreira.

Já no governo JK, cai em suas mãos um telegrama secreto da embaixada em Buenos Aires dando conta de que um inquérito militar argentino (Perón havia sido deposto em 55) confirmara não a autenticidade da Carta Brandi, mas o conluio nela implícito. Sem trocadilho, brande o telegrama na tribuna e para atestá-lo revela o código sigiloso da diplomacia brasileira. O governo viu a chance de um xeque-mate e pediu à Câmara a suspensão de suas imunidades parlamentares, a fim de processá-lo por crime contra a segurança nacional.

Defendeu seu mandato num discurso de doze horas, no qual invocou o precedente de Rui Barbosa, que também alegara o interesse público para revelar, na campanha para a segunda eleição presidencial que perdeu, em 19, o código privativo do Itamaraty, por ele acusado de praticar uma diplomacia secreta germanófila. Causou sensação um trecho em que Lacerda se compara ora ao touro imolado para êxtase das multidões, ora ao toureiro que enfrenta sozinho a fera.

“Tudo”, discursou, “menos decepcionar a ilustre plateia que paga caro o lugar à sombra, o ladrão provecto, o contrabandista emérito, o agente de negócios escusos, o promissor emissário de novas cavações, o pioneiro infatigável das comissões copiosas, os promotores dos prazeres proibidos, os empresários dos gozos inefáveis, os letrados do insulto pago à linha, os pensionistas dos ócios indevidos, a turba que preliba a hora em que o enfurecimento do touro, espicaçado, há de levar pelos ares e fincar-lhe as guampas ao temerário que ousou mostrar-lhe, nos passes da capa e nas madalenas, o valor da destreza e da coragem lúcida sobre a brutalidade da besta que escarva e urra.”

Em maio de 57, embora o governo dispusesse de ampla maioria na Câmara, o plenário rejeitou, numa votação histórica (e secreta...), a suspensão das imunidades. Afirmava-se o direito de fazer oposição até a fronteira do irresponsável, traçando limites que a nenhum governo, mesmo emanado do voto popular, era dado transpor. Foi aquele o momento mais alto de sua brilhante carreira parlamentar, e dos mais altos na crônica da Câmara. Mas o melhor (ou pior) estava por vir.

Lacerda percebeu cedo que era irresistível a campanha do governador de São Paulo, Jânio Quadros, à sucessão de Juscelino. E Quadros era um achado. Surgia enfim um político dotado não só de tino administrativo e insuperável magnetismo popular, mas além disso estranho, até refratário, nas suas bizantinas ambivalências e excentricidades, à tradição getulista.

Muito do que pregava o “homem da vassoura” coincidia com o ideário udenista. Lacerda convenceu o partido a apoiar para presidente, em 60, o demagogo que seu colega Afonso Arinos resumiu como “a UDN de porre”. Jânio foi ungido por margem estrondosa, e Lacerda se elegeu de raspão o primeiro governador da Guanabara, o coração do país, cidade-estado criada com a transferência da capital para Goiás. Caberia agora ao jornalista incendiário, ao oposicionista contumaz para quem governo nenhum prestava, mostrar o que faria com o poder que tanto buscara.

Saiu-se bem, opinião comum até mesmo entre antigos adversários. Hiperativo (“Era um susto a cada dia”, diz um antigo auxiliar), montou uma equipe inovadora que deu impulso, entre dezembro de 61 e de 65, a realizações relevantes. Numa cidade em que faltavam escolas, quase dobrou o número de crianças estudando e aumentou em mais de 50% o número de professores, embora tenha generalizado o recurso a dois e às vezes a três turnos por estabelecimento.

Numa cidade em que a falta d’água era cantada em samba, construiu a adutora do rio Guandu, ligação de 43 quilômetros que resolveu um problema perene desde a época em que Tiradentes, morando no Rio em 1788, concebeu um plano para solucioná-lo. Ampliou a rede pública hospitalar em 30%. Fez erguer 12 mil casas populares para abrigar moradores deslocados pelo controvertido programa de remoção de favelas que implantou. Instalou 6 quilômetros de túneis, entre eles o Rebouças, que permitiu a conexão direta entre o norte e o sul da cidade. E deixou o esplêndido parque do Flamengo (o aterro em si era anterior; o projeto paisagístico é de Roberto Burle Marx), concebido e executado por sua amiga Lota de Macedo Soares, que o persuadiu da obra prevendo que ela o faria um governante para sempre lembrado.

Honestidade e competência ajudam, mas ninguém faz milagres. Lacerda era o governador anticomunista da cidade-símbolo do país, e as autoridades norte-americanas facilitaram seu acesso a recursos do programa Aliança para o Progresso e sobretudo do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), criado em Washington um ano antes de sua posse no Rio para financiar projetos na América Latina. Ainda assim, de acordo com o pesquisador Maurício Dominguez Perez, autor de Lacerda na Guanabara (livro de 2007, simpático ao protagonista, mas municiado de estatísticas), os empréstimos externos cobriram apenas 15% do montante de investimentos.

O incremento das receitas teria por origem a forte elevação de impostos (aumento real de 33% no período) e taxas (como a da água, até então mero valor simbólico), a melhoria na eficiência arrecadatória e o recurso à criação de empresas públicas, livres do emperramento legal que paralisava a administração direta e facultadas pela Constituição estadual, feita sob influência de Lacerda. O Banco do Estado da Guanabara também financiou as obras. Lacerda perdeu, porém, a eleição de 65, quando seu adversário Negrão de Lima foi eleito para sucedê-lo. Recebeu as finanças do Estado em condições “razoáveis”, segundo um especialista que conheceu os bastidores da transição.

A oposição procurava atacá-lo como ele fazia antes de ser governo. Quando, a fim de sanear as condições insalubres do morro, sua administração queimou os casebres do Pasmado, cujos moradores haviam sido transferidos para a remota Vila Kennedy, foi chamado de “Nero da Guanabara”. Reportagem da Última Hora revelou que o Serviço de Repressão à Mendicância vinha exterminando indigentes, cujos corpos eram atirados no rio da Guarda. Embora o governador tenha punido os responsáveis e os encaminhado à Justiça, ganhou outro apelido, “o Mata-Mendigos”. Ainda assim, sua candidatura deslanchava com ímpeto rumo à eleição presidencial de 65, quando ele desafiaria o favoritismo de Juscelino (apenas a reeleição consecutiva era vedada).



Essa foi a “maior eleição presidencial que não houve”, parafraseando o poema-piada de Murilo Mendes sobre a Batalha de Itararé, na Revolução de 30, que nunca foi travada. Sete meses depois de empossado, Jânio tentou articular uma espécie de golpe constitucional, encenação em que ele deixaria o cargo apenas para reassumi-lo em seguida, atendendo ao clamor popular, investido de poderes extraordinários. Sondado para tomar parte na manobra, sem saber exatamente do que se tratava, Lacerda foi à televisão e a denunciou ao país, o que parece ter precipitado a farsa, pois Jânio apresentou sua renúncia na manhã seguinte, em agosto de 61.

Ninguém moveu uma palha. Mas a esdrúxula legislação eleitoral permitia eleger presidente e vice de chapas diferentes, e o vice de Jânio era o mesmo de JK: João Goulart. A “Campanha da Legalidade”, dirigida pelo então governador gaúcho Leonel Brizola, líder do setor radicalizado do trabalhismo, dividiu o Exército quanto à posse. Esta se tornou viável graças a solução habilidosa, mas postiça: o Congresso aprovou às pressas o regime parlamentarista, e Jango ascendeu com poderes amputados. Sucederam-se três primeiros-ministros, mas o arranjo funcionava mal, até porque maquinava contra ele o próprio presidente, a quem um plebiscito devolveu, em janeiro de 63, as prerrogativas do cargo.

A partir daí, a polarização se precipita e a confrontação sempre adiada – em 55, em 61 – bate às portas com furor. Jango tentou conciliar os dois campos em que o país se apartava de maneira a cada dia mais drástica. Foi dragado pelo ativismo da facção esquerdista de seu bloco e se entregou, sempre relutante, à escalada da expropriação de terras para a reforma agrária, enquanto tolerava a insubordinação entre sargentos e fuzileiros das Forças Armadas, estimulada por revolucionários e provocadores. Caiu sem um tiro em março de 64.

Ao contrário do que às vezes se pensa, Lacerda não participou diretamente dessa conspiração, incubada por ele desde 55, salvo nos dias do paroxismo final, quando algum golpe – da direita ou do próprio presidente encurralado – parecia inevitável e iminente. Jango tentara um golpe constitucional, em outubro de 63, pela imposição do estado de sítio, mas a própria esquerda, desconfiada, não lhe deu apoio. Lacerda, claro, não se convertera ao legalismo, mas temia o que de fato veio a acontecer, ou seja, que uma ditadura militar compelisse ao adiamento da eleição de 65, frustrando seu acesso ao prêmio tão cobiçado quando este já parecia ao alcance da mão.

Aderiu, triunfante e ressabiado, ao governo do general Castelo Branco, que o enviou a um giro internacional para explicar a “revolução” (durante inamistosa coletiva de imprensa em Paris disse, numa piada hoje anacrônica, que no Brasil as revoluções eram como os casamentos na França, sem derramamento de sangue). Foram o adiamento e a conversão da eleição presidencial direta em indireta que o devolveram à oposição. Dedicou-se a combater a política recessiva de Castelo Branco, cujas repercussões o atingiam, embora o primeiro governo militar se parecesse muito com o “consulado” reformador que imaginara em meados dos anos 50. Travou violenta polêmica com Roberto Campos, então ministro do Planejamento, homem público cultivado, liberal-conservador, cosmopolita e acusado de servil aos interesses americanos – exatamente como ele.

Lacerda não se continha em posições moderadas. Chegou a flertar com a “linha-dura” do regime a fim de apressar a saída de Castelo Branco. Intimidado, em 66 o Congresso elegeu para presidente o ministro da Guerra, Costa e Silva, que impusera seu nome ao próprio Castelo Branco. Lacerda passara a organizar a “Frente Ampla” contra o regime, implausível entendimento com seus inimigos JK e Jango (aquele cassado, este exilado), sob a justificativa de que, se brigava pelo interesse público, podia fazer as pazes pelo mesmo motivo.

Em dezembro de 68, acossada por manifestações de protesto e pela incipiente guerrilha de esquerda, a ditadura cancela o que restava de direitos constitucionais e dá início a uma repressão indiscriminada. Preso, entre tantos outros, Lacerda fez greve de fome por uma semana e foi libertado, após sua filha Maria Cristina enviar carta de protesto ao general-presidente. Mas seus direitos políticos foram cassados por dez anos. Tinha 54 quando começou o ostracismo do qual nunca retornaria.



Dedicou-se a viajar, escrever crônicas, pintar quadros, cultivar rosas e criar faisões; publicou livros, próprios e alheios, pelas editoras que fundou (Nova Fronteira) e comprou (Nova Aguilar), ambas com bons serviços prestados à cultura. Tentou ser empresário, no ramo do financiamento imobiliário, o que não era nele uma vocação; sua libido, digamos, era sublimada no poder, não no dinheiro. Disse, em depoimento, que o exercício do poder como dever bem cumprido era nada menos que “a única sensação de imortalidade que uma pessoa pode ter”.

Passaram-se anos. Esgotado o ciclo de prosperidade do “milagre econômico”, premida pela repentina disparada do preço do petróleo, a ditadura ensaiava uma calculada liberalização a partir de 74. Quase todo dono de jornal tem seus momentos de repórter. No ano seguinte, um certo dia, meu pai chega à Folha de S.Paulo com informações quentes, mas imprecisas, que recebera de alguma fonte, sobre estranha movimentação entre os líderes proscritos.

Cláudio Abramo, antípoda ideológico de Lacerda, a quem conheceu bem, mas admirador de seu talento, sentou à máquina e redigiu uma reportagem imaginária com base nos dados esparsos, publicada sem assinatura no dia seguinte. “À mesa”, escreveu, “um perfil que outrora foi de ave, mas que os anos e a fartura benfazeja arredondaram, corta a sala em dois: óculos pesados, para ler e vislumbrar, no horizonte, os arautos da borrasca ou os portadores das boas-novas. Uma ambição frustrada pelo temperamento e uma inteligência reduzida pela paixão. [...] É o velho leão – não tão velho que não lhe restem alguns anos de fulguração na paisagem, tornada pobre e sáfara, e da qual foi alijado pelo descontrole verbal. Inveterado semeador de ventos, colhido pela tempestade, arribou numa praia, náufrago, mas com boa saúde, fortalecido por um longo repouso.”

Mas sua vitalidade não era a mesma, sua mística já mergulhava no esquecimento, seu tempo havia passado. Morreu em 21 de maio de 77, de modo inesperado, vítima de infarto causado por uma infecção bacteriana aguda que se alojou no coração, num primeiro momento confundida com gripe pelos médicos. Teve três filhos, Sérgio, Sebastião e Maria Cristina. No próximo dia 30 de abril transcorre o centenário de seu nascimento.

Seu cânone biográfico é dominado por um livro exaustivo e irrefutável, ao menos quanto aos fatos, registrados com minúcia, quase mês a mês, ao longo de mais de 1 200 páginas. Carlos Lacerda: A Vida de Um Lutador (do inglês Brazilian Crusader) foi escrito pelo historiador norte-americano John Watson Foster Dulles (1913–2008), filho do secretário de Estado (1953–59) no governo Eisenhower, e editado em dois volumes na década de 90.

Embora o tom seja favorável ao biografado, o texto é descritivo e rigoroso, apoiado em vasto acervo de depoimentos e ainda mais vasta pesquisa em periódicos, discursos, cartas, memórias. Fazendo lembrar o dito de Voltaire de que o segredo de aborrecer está em dizer tudo, este livro circunspecto não se permite a menor lacuna e reporta até fugazes romances que Lacerda manteve – com duas atrizes: Maria Fernanda (filha de Cecília Meireles) nos anos 50 e a americana Shirley MacLaine no fim da década seguinte.

Suas qualidades se confundem com seus defeitos. Falta alma ao livro, que quase não respira, opresso pela massa de informações ali reunida. Da mesma forma que uma árvore frondosa, magnífica em seu isolamento, a biografia de Foster Dulles terá inibido outras tentativas nas imediações, por parte de autores que decerto se sentiram desencorajados a trabalhar em campo tão esgotado sob o aspecto documental.

Mais palpitante é o Depoimento, livro publicado logo após sua morte, em 77. Um ano antes, o jornalista Melchíades Cunha Júnior, do Jornal da Tarde, propôs ao diretor-proprietário Ruy Mesquita colher uma série de testemunhos, na forma de entrevistas a uma equipe de repórteres, de figuras históricas da política brasileira. A aristocrática família Mesquita, da qual Getúlio tomou O Estado de S. Paulo em 1940, após ter banido do país seus donos, mantinha ostensiva predileção pela UDN e por Lacerda, a quem era unida por vínculos de amizade.

O próprio Ruy atuou como ator amador numa peça de Lacerda encenada em 45 por seu tio, o teatrólogo Alfredo Mesquita. Quando jovem, o futuro político caçava morcegos com os anfitriões na fazenda da família em Louveira, perto de Campinas. Às vésperas da morte, Lacerda preparava uma biografia dos irmãos Júlio de Mesquita Filho e Francisco Mesquita, que estaria em estágio adiantado e cujos originais, ao que tudo indica, desapareceram.

O primeiro depoimento aos jornalistas foi o dele, tomado durante 34 horas em março e abril de 77, no Sítio do Alecrim, no Rocio, em Petrópolis, região onde tivera, nos anos 50, uma casa de campo vizinha àquela onde moravam Lota de Macedo Soares e sua amante, a poeta americana Elizabeth Bishop. Lacerda frequentava o círculo de amizades das duas, que eram lacerdistas, embora não se encaixassem no pesado eufemismo que o cronista Antônio Maria usou, “as mal-amadas”, para satirizar as mulheres de classe média, em geral casadas e católicas, que se voluntariavam às pencas para fazer campanha por Lacerda no Rio.

Os depoimentos seriam revisados pelo entrevistado e publicados somente após sua morte, o que estimulou Lacerda a falar com desembaraço, como se apresentasse contas ao tribunal da História. Mas o depoente morreu no mês seguinte, sem reexaminar o texto, que foi revisto e anotado por seu sobrinho, o jornalista Cláudio Lacerda. Em quase 500 páginas, é um relato colorido por comentários sardônicos e observações reveladoras. Seu tom de autojustificativa não compromete a leitura ágil, trepidante.



A essas obras veio se somar, no ano passado, um livro peculiaríssimo, desde logo pela autoria. A República das Abelhas foi escrito pelo romancista Rodrigo Lacerda, seu neto. Como na história de Brás Cubas, de Machado de Assis, trata-se de autobiografia redigida por autor defunto, o próprio Lacerda. Este, à semelhança do predecessor literário, divaga enquanto vai e volta de um ponto a outro de sua atribulada existência. Para compor seu discurso, o verdadeiro autor do livro parece ter lido tudo o que Lacerda escreveu e muito do que se escreveu sobre ele. Da infusão de todos esses textos, destilou determinados episódios, que encerram camadas interpretativas, para submetê-los a nova demão literária.

A intermitência de pontos de vista, facilitada pela onipresença do falso autor que paira sobre o mundo dos vivos, do qual acaba de desencarnar, abre uma visada como que cubista, fraturada em ângulos dissonantes, de sua biografia, da política e do Brasil. Criticou-se, com razão, certa falta de verismo, até vocabular, no monólogo. Mas sua dimensão literária estará menos no estilo do que na misteriosa articulação entre os episódios escolhidos e na vertigem do próprio
empreendimento, que cobre seis gerações de netos a discorrer sobre pais e avôs. O relato se interrompe, porém, em 54, pois o livro “cresceu para trás”, na expressão do romancista. Um de seus atrativos é recuperar a figura do pai, chave psicológica da compreensão do filho.

Fragmentos de uma autobiografia, que ele deixou inconclusa, foram publicados em série na revista Manchete e depois, com trechos inéditos, no livro Rosas e Pedras de Meu Caminho (2001), editado por Túlio Vieira da Costa, espécie de curador dos arquivos Carlos Lacerda, confiados à Universidade de Brasília. Apesar de conter algumas das melhores passagens de sua prosa, o conjunto é redundante com o Depoimento.

Lacerda foi autor de cerca de vinte livros, na maioria coletâneas de artigos, discursos e crônicas. Em 37, sua primeira peça teatral, O Rio (é o Paraíba do Sul), foi encenada sob o pseudônimo de Júlio Tavares. Escreveria em 45 outras duas, montadas naquele ano, uma delas por encomenda do crítico Décio de Almeida Prado para o grupo de teatro amador que formara em São Paulo. São obras inexpressivas ou pouco afeitas ao palco; Graciliano Ramos escreveu que O Rio era uma “peça sem enredo”.

Sua incursão teatral mais notável foi a tradução de Júlio César, de Shakespeare, que esse insone teria vertido nas noites em claro quando governador. É uma das três tragédias do poeta baseadas em Plutarco (as outras são Coriolano e Antônio e Cleópatra). A versão de Lacerda, publicada em 66, não é má. Seu apego à peça decorre do paralelo entre a própria posição e a de Brutus, dito o mais virtuoso dos romanos, que aceita, em nome da salvação da república, liderar a conjura para assassinar César-Getúlio.

Se Lacerda é um democrata obrigado a se tornar golpista, Brutus é um homem justo obrigado a sujar as mãos no crime. Como estamos num mundo onde o poder se rege pela oratória, nas duas situações é um discurso arrebatador que inverte a paixão do populacho amotinado: em Roma, a oração fúnebre de Marco Antônio diante do cadáver de César; no Rio, a carta-testamento de Vargas, rascunhada pelo ghost-writer José Soares Maciel Filho, relida mil vezes nas rádios naquele funesto 24 de agosto.

Daí, talvez, o apelo do irmão médico, Maurício como o pai, quando ponderou, em dezembro de 68, na tentativa de demovê-lo da greve de fome na prisão, que ele queria “fazer Shakespeare na terra da Dercy Gonçalves”. Não passa despercebida, entretanto, uma acepção recalcada sob o paralelo edificante que os trópicos desfazem em anedota. Brutus não era apenas o campeão da liberdade, mas também do patriciado, a classe proprietária que se via diminuída pela ascensão de César, enquanto este devia sua popularidade, assim como Getúlio, à gratidão pelos direitos (ou migalhas) que aspergiu sobre o proletariado urbano.

Lacerda publicou dois livros de contos, não muito melhores do que as peças. Mário de Andrade lhe escreveu a certa altura: “Há brilhantismo demais em seu trabalho. Chega de ruibarbosismo.” Carlos Drummond de Andrade parece ter dito algo parecido quando considerou seu “talento literário talvez excessivo na riqueza de sons”. O primeiro dedicou um livro de poemas a Lacerda, o segundo elogiou seu romance ACasa do Meu Avô (na realidade, memórias da infância, considerado o seu melhor livro) e revelou ter votado nele para governador.

Quase não houve intelectual e artista de peso com quem ele não tenha se relacionado. Isso vale não só para os conservadores que o estimavam, como Manuel Bandeira, Gilberto Freyre, Cecília Meireles ou Érico Veríssimo, mas para os progressistas, a maioria, que o amaram, passaram a abominá-lo nel mezzo del cammin e voltaram a tolerá-lo quando rompeu com a ditadura militar. Tocou piano com o compositor Ary Barroso, vereador, seu colega de UDN. Compôs uma seresta com Jorge Amado e Dorival Caymmi, Beijos pela Noite. Foi amigo dos pintores Tarsila do Amaral, Candido Portinari e Di Cavalcanti. Adaptou a literatura infantil de Monteiro Lobato para o rádio.



Num sentido muito parecido ao de Lobato, Lacerda era possuído demais pela impaciência, atraído demais pelo ativismo, afoito demais no recurso a efeitos retóricos para se entregar seriamente ao trabalho ficcional. Quase todo escritor conta, porém, com uma província geográfico-sentimental que nutre sua literatura e onde ela acontece. Para esses dois reformadores irrequietos essa paisagem mental foi a mesma, a crassa pasmaceira deixada pela cultura predatória do café nos estertores do regime escravocrata, que consumiu o Vale do Paraíba no incêndio literal das queimadas, atrás das quais vinha o “ouro verde” na corrida rumo a terras frescas no oeste.

A família de Lacerda estava enraizada em Vassouras, na parte fluminense do Vale, um dos principais bastiões do escravagismo. A região alcançou o apogeu em meados do século XIX, foi servida por linha férrea já nos anos 1860 e entrou em repentina decadência, conforme o café fugia, no crepúsculo do Império. Avô e pai foram prefeitos da cidade. Herdaram do bisavô – imigrante açoriano que prosperou como dono de padaria – uma chácara de mangueiras cortada pelo rio e pela ferrovia. Era ali a “casa do meu avô”. Ainda que a trajetória da família não tenha sido exatamente essa, o próprio declínio local faz pensar numa paródia do ditado popular que rezasse “avô próspero, pai remediado, neto revolucionário”.

Mesmo o jornalismo, profissão que o celebrizou, era pouco mais que um instrumento a serviço da paixão política. Na passagem dos anos 50 para 60, numa conversa casual, ele perguntou a meu pai se não queria comprar a Tribuna da Imprensa, que vivia em dificuldades. “Você, Carlos, não consegue pôr ordem na Tribunae quer pôr ordem no Brasil?” Ele respondeu: “É mais fácil pôr ordem no Brasil do que na Tribuna!” E meu pai: “E é esse jornal que você quer me vender?” O diário foi afinal vendido em 61 para os proprietários do Jornal do Brasil, mas logo repassado a um antigo colaborador de Lacerda, Hélio Fernandes, que o manteve um jornal nanico e desabrido, embora com outra orientação editorial.

Lacerda se distinguia de Wainer não apenas por ser um articulista melhor e com mais repertório, enquanto o rival era melhor editor ou ao menos criou um jornal que exerceu influência mais fecunda. Também diferiam no fato de Wainer ter sido financiado com recursos públicos, e Lacerda, favorecido pelo apoio de concorrentes estabelecidos como O Globo e Diários Associados, que lhe franquearam rádio e tevê por temor à expansão da cadeia Última Hora. Mas a diferença crucial talvez seja que Wainer usou a política para atingir seus propósitos jornalísticos, ao passo que Lacerda fez o contrário.

Assim, os dois ofícios em que Lacerda se elevou a patamares talvez nunca superados antes ou depois – o jornalismo panfletário e a oratória – foram consumidos pela política, à qual precisamos retornar. No Depoimento, ele diz que sempre acreditou em contraofensiva e surpresa. Essa estratégia comandava seu estilo de argumentação ao escrever e discursar. Joga-se com santa ira contra a jugular do adversário, acusa-o de roubo e incompetência, aponta suspeitas como provas cabais, vitupera, ameaça, ridiculariza, achincalha, apela aos militares e ao povo – aos militares em nome do povo.

Sua presença de espírito era fulminante, e seus insultos, impiedosos. Yedo Fiúza, o candidato comunista em 45, era o “rato Fiúza”. O caudilho Batista Luzardo era o “centauro dos pampas, metade cavalo, a outra também”. Castelo Branco, pouco favorecido no aspecto físico, era “mais feio por dentro que por fora”. Ao saber que Roberto de Abreu Sodré, correligionário e amigo com quem rompera, escreveria memórias: “Parabéns ao Mobral” (programa de alfabetização de adultos do regime militar).



Restaram dele poucos registros em vídeo, mas diversos em áudio, preservados por outro colaborador, Luiz Ernesto Kawall. É pena que tanto material tenha-se perdido, não apenas no sentido físico. Pois Lacerda era mestre numa arte que não pode mais ser apreciada na medida em que também desapareceu – a oratória pública, substituída pela padronização publicitária e pelos improvisos disparatados. Mas não se imagine que ele fosse um orador à antiga, com tremulações de voz e sentenças abstrusas. Ao contrário, contribuiu como poucos para introduzir a linguagem coloquial no jornalismo e na política.

E foi talvez o primeiro a adotar, no Brasil, em vez da peroração apoplética, o tom de conversa amena que se recomenda no rádio e mais ainda no veículo que se instalava na década de 50, a televisão. Embora somente 5% dos domicílios no país contassem, em 1960, com televisor (e não mais de um terço tivesse rádio), os poderes encantatórios do meio, que propiciava um laço aparentemente tão íntimo com o falante, eram evidentes. Segundo seu biógrafo, ele aprendeu com o popular programa de Fulton Sheen, arcebispo católico americano que recorria a um quadro-negro em cena (como Lacerda passou a fazer) para que os telespectadores fixassem melhor suas sorridentes mensagens anticomunistas.

A voz de Lacerda era grave, robusta e um pouco anasalada, mas percorria uma escala ampla de tons, chegando às vezes a um timbre algo andrógino pela blandícia. Sua entonação, no entanto, em geral era áspera, como quando, em certos momentos, ele parecia cuspir as palavras com desprezo ou asco, quase omitindo a sílaba final, conforme o costume carioca. Outras vezes, para obter um efeito comovente qualquer, sua voz se alongava e perdia volume até concluir a frase como a onda que alisa a praia. Teve aulas com a atriz Ester Leão, que se recusou, por motivo ideológico, a treinar a voz de Brizola.

Não tinha, aliás, o “s” português (como em festa, “feichta”) nem o “r” francês (como em porta, “pohta”) de seus conterrâneos, talvez por exigência dos primórdios do rádio, quando os fonemas deviam se distinguir nitidamente em meio à estática das transmissões precárias – talvez porque esse sotaque não fosse tão acentuado nas gerações mais antigas ou em sua família. A consagração do hábito fazia os cariocas pronunciarem seu nome, conforme ressaltou o poeta paulista Régis Bonvicino, como se fosse uma palavra só (“Cahlacehda”), pequena glória desfrutada por raras figuras públicas.

Seu melhor retrato pessoal foi traçado em menos de dez páginas pelo memorialista católico Antonio Carlos Villaça no capítulo “Júlio Tavares” de seu O Livro de Antonio (74). Villaça era um literato que viveu para descrever o que via. Seu olhar ávido e inquieto focaliza Lacerda com um interesse minucioso, quase erótico. Este era tomado por uma “sofreguidão alucinante”. Sabia “perfeitamente” inglês e francês. Tinha um “ar de rapaz, um tanto brejeiro, boêmio, leve, livre, sensual”. Gostava de cinema e viagens. Era um místico que se interessava por espiritismo, astrologia e tinha “tendência profunda à superstição”. Não sabia nadar, batia furiosamente à máquina com dois dedos, cozinhava um peixe “temperadíssimo” e gostava “muito de queijos”.

Não lhe escapa tampouco a ciclotimia de Lacerda, dado a trabalhar sem trégua durante dias e noites, para daí desabar, prostrado. Numa crônica sobre Winston Churchill, que chamava a própria depressão de “cão negro”, Lacerda admitiu ser vulnerável a suas investidas. Um de seus melhores contos (parodiado no livro do neto) explora essa metáfora e se chama “Aparição do Cão Negro”. Seu estado de espírito há de ter piorado no ostracismo, quando se esfalfava para preencher o ócio e suprir a vocação desperdiçada. A epígrafe de seu livro Crítica e Autocrítica são dois versos do escritor português Miguel Torga que costumava citar a próprio respeito: “Podia ser melhor o meu destino/Ter o sol mais aberto em cada mão.”



Revisadas a sua vida e a sombra que ela projetou nos livros, o que resta ou ressalta? Sua ambição, certamente. Como tantos estadistas, era escravizado pela necessidade narcísica de liderar a multidão a fim de realizar obras que lhe valessem a estima pública. Essa ambição talvez fosse, nele, apenas o mais poderoso aspecto volitivo de uma personalidade inteiramente consumida pela “sofreguidão” que Villaça identificou. “Sou dos que querem tudo”, Lacerda escreveu.

Escrevia, falava, trabalhava, lia, viajava, comia e comprava com voracidade (um parente refere a quantidade prodigiosa de presentes que ele trazia para familiares e amigos quando voltava de viagem). Essa índole se ambientava bem, por sua vez, numa geração impaciente como a sua – grosso modo, a dos “tenentes” e dos modernistas –, para a qual o Brasil já perdera tempo demais no Império e na República Velha, disposta a abrir seus próprios atalhos para apressar o advento de um futuro sempre adiado.

“Depois que se provou o poder, só o poder interessa”, disse certa vez. Os longos anos na oposição purificaram sua têmpera, fazendo dele o emissário de um ideal. Após experimentar o fruto tanto tempo proibido – depois de ser governador e ver sua viável candidatura a presidente esfarelar no maquinismo da ditadura de 64 –, sua ambição decai em oportunismo e se extravia no desespero.

Ele continua o voluntarista incorrigível e o adversário (e aliado) perigoso de sempre. Mas antes sua vontade de poder vinha embalada em princípios, bons ou maus, e sua escalada tinha uma galhardia romântica a que os anos de ostracismo deram um ar surrado, canastrão. É quando, por exemplo, ele se aproxima do ministro do Exército do presidente Ernesto Geisel (1974–79), um obtuso “linha-dura” candidato a suceder ou depor o chefe para reverter a abertura política, e se envolve com o general António de Spínola, ex-presidente português exilado no Rio, num plano amalucado para invadir Portugal (então em pleno desvario revolucionário) com apoio da ditadura brasileira.

Legou à linguagem corrente o termo “lacerdismo”, que resume um moralismo seletivo, praticado contra os adversários do momento, sobretudo na forma de campanhas jornalísticas devastadoras, baseadas em indícios frágeis e conclusões precipitadas. Não há como eximi-lo desse pecado, exceto recordando que quase todos o cometiam, embora com menos paixão e talento, além de outros pecados piores, dos quais Lacerda nunca foi acusado, como venalidade e até extorsão. Há quem considere o jornalismo dos nossos dias engajado, parcial, faccioso, mas a imprensa do século passado não somente incidia nesses atributos, como costumava ostentá-los com desenvoltura. As apurações eram mais levianas, as reportagens eram opinativas, os jornais tomavam partido acintosamente e admitiam pouca ou nenhuma divergência em suas páginas.

Jamais alguém levantou contra ele, a sério, alguma denúncia de corrupção. Nunca dependeu do governo, que atacava de maneira quase sistemática, mesmo quando correligionários seus o ocupavam. Foi provavelmente o primeiro político brasileiro a proclamar a educação pública como prioridade máxima. Foi um dos raríssimos a ter, mais que veleidade literária, um autêntico apetite intelectual. Seu nome se inscreveria, ainda que não sem controvérsia (como tudo nele), no panteão dos brasileiros que, sendo os mais capacitados de sua época, nunca chegaram a presidente: Rui Barbosa, Osvaldo Aranha, San Tiago Dantas.

A restauração do capitalismo na Rússia e na China e o ressurgimento da democracia liberal como fórmula adotada por toda parte reatualizaram a pregação de Carlos Lacerda, embora não exatamente seus métodos. O que melhor sobrevive dele foi haver encarnado, em tantos episódios de sua vida transbordante, um inconformismo essencial e uma altivez de espírito que percorrem também a crônica de seu avô e de seu pai, como a transmissão de um impulso intermitente, às vezes errôneo, às vezes inspirador, a empurrar as gerações e os países.

piauí

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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O Show da minha vida.

“I can´t fucking hear you”, gritava uma voz pra lá de conhecida em um de seus célebres jargões por trás da cortina preta que havia se fechado no palco. A massa foi ao delírio, evidentemente. “Olé olé olé olé, come on”, prosseguia a voz. Pensei que fosse algo pré-gravado – talvez fosse - mas quando as cortinas se abriram lá estava ele, the “fucking Prince of darkness”, de microfone em punho, escudado por seus comparsas de crime, todos de preto, prontos para nos entregar o show de nossas vidas. Uma avalanche nos empurra para ainda mais perto do palco e, caso restasse alguma dúvida, a ficha teria caído: nós estávamos num show do Black Sabbath! Do Sabbath mesmo, com Tony Iommi, Ozzy Osbourne e Geezer Butler. Juntos e ao vivo pela primeira vez em turnê na América do Sul.

Faltou mencionar a sirene, que soava anunciando “War pigs”. “Generals gathering in their masseeeessss”, puta que pariu, começou! “Just like witches at Black masses” – caralho, primeira palhetada esporrenta do Deus do metal ali na minha frente! E o som estava perfeito, cristalino e alto, muito alto. Era verdade mesmo, eu estava num show do Black Sabbath, minha banda de rock favorita de todos os tempos, amém. E na frente de Tony Iommi, o cara que inventou essa porra, esse tal de Heavy Metal. Tô cansado pra caralho, mal consigo me segurar em pé, mas foda-se, vai ser foda!

Foi, claro. Já dava pra perceber que seria pelo primeiro grande momento da noite, quando um Ozzy Osbourne eufórico não se contém e dá um abraço apertado, quase um mata-leão, em Tony, arrancando do circunspecto mestre dos riffs um sorriso de satisfação. Quase que dava pra ler seus pensamentos: “veja isso, Tony, somos nós aqui, juntos novamente diante de uma multidão, desta vez in the fucking Rio de Janeiro, Wondefull city, full of encantos mil”. “Possacrer, Ozzy, de fuder”. O mesmo se repetiu no outro extremo com Geezer, e depois com um aceno para o baterista, Tommy Clufetos, que substituía Bill Ward. E mandou muito bem, como veremos a seguir ...

Uma coisa que notei logo de cara foi que Ozzy, apesar de manter todos os seus trejeitos amalucados e sua perfomance ensandecida, se comportava de forma um pouco mais contida, como que para ressaltar que ali ele era um membro de uma banda, não estava em carreira solo. Para deixar isso bem claro para todos, trata de sufocar os insistentes gritos ritmados com seu nome entoados pela platéia apontando sempre para a sua esquerda, onde um Tony Iommi contido porém visivelmente satisfeito, até sorridente, em vários momentos, comandava o espetáculo executando com a mestria de sempre os maiores e melhores riffs de guitarra já escritos. Demorou um pouco, mas o povo entendeu: logo estavam todos gritando por Tony e, eventualmente, Geezer – em seus momentos de maior destaque, como na introdução de NIB. No final da apresentação Ozzy chega a se curvar em reverência diante do guitarrista. Emocionante.

Tony porque Iommi é a base de tudo ali naquela porra de banda. E os solos também. A não ser quando, no meio da apresentação, deixa os holofotes nas mãos – e pés – de Clufetos que, sem exagero, humilha, principalmente quando se dedica a um solo de bateria absolutamente impressionante, capaz de calar qualquer vestígio de dúvidas quanto ao seu mérito para estar ali, substituindo uma lenda viva das baquetas. Fico imaginando o que se passa pela mente de Bill Ward ao ver aquilo. Certamente pensará que o tempo é um canalha, ou algo parecido, já que sua idade, evidentemente, não lhe permitiria tamanha vitalidade. Azar o dele, caso o motivo da falta seja realmente o que foi aventado:  uma simples – ok, nem sempre – disputa financeira. Porque tenho certeza que ninguém sentiria falta do vigor da juventude de Clufetos diante de sua simples presença, igualmente digna de reverência. Enfim, são apenas especulações. A realidade estava lá, diante de nossos olhos e castigando nossos ouvidos. E foi sensacional.

Depois de “Age of reason”, a primeira do disco novo, foi a vez de “Black Sabbath”, a música. Arrepiante. Ainda mais sinistra e arrastada que a versão original, foi executada em tom solene e acompanhada de forma emocionada pela platéia, no que parecia uma gigantesca missa negra em pleno templo da alegria, a praça da apoteose da passarela do samba – àquela altura do campeonato lotada por cerca de 35.000 pessoas. Nessa hora, do meu lado, alguém decide que era o momento de acender uma vela - ou algo parecido – no caso, um sinalizador, que eu carrego por alguns minutos até passá-lo adiante antes que seja tomado pela brigada anti-incêndio. Enquanto isso, do palco, soam gritos de desespero: “OH! NO! PLEASE, GOD, HELP ME” - e tome porrada no pé do ouvido. Impossível não lembrar da primeira vez que ouvi esse verdadeiro hino, sozinho, no escuro, nos anos oitenta, em Itabaiana. Senti medo – foi uma das duas únicas vezes em que uma música me fez sentir medo. A outra foi quando ouvi, também sozinho e no escuro, a composição de György Ligeti usada na cena do portal da trilha sonora de “2001, uma odisséia no espaço”.

O show prossegue com “Behind the wall of sleep” e “NIB”. “End of the beginning”, de “13”, entra na sequencia. O mais incrível é notar que as três músicas do novo disco inseridas no set list não comprometem em nada a qualidade da apresentação em meio a um repertório tão perfeito. Suspeito até que elas possam se tornar também, um dia, clássicos do cancioneiro “sabbático”, a julgar pelo impacto que foi ouvir ao vivo o riff matador que abre a ótima “God is dead”. O futuro dirá.

Enquanto isso Ozzy prossegue fazendo o que pode – e ainda pode muito – para animar a noite. Inclusive piada consigo mesmo, como quando entra no palco com um morcego de plástico na boca, ou quando joga os já tradicionais baldes de água nos que estão encostados na grade. Ou chutando de volta as bolas lançadas pelo público. Ou ainda emitindo um curioso e misterioso som de “cuco” na introdução de algumas músicas – quando a platéia finalmente demonstra notar que é ele que está fazendo aquilo, ele diz: “Dane-se o mundo e enlouqueça, é bom ficar louco”. O velhinho ainda tem muito bom humor e poder de comunicação, demonstrado também ao anunciar “Dirty women” – “I like then”. Gargalhadas gerais. Mas é bom não abusar: num dado momento ele arrisca um de seus clássicos saltos, tão amplamente registrados em fotos antológicas, mas consegue apenas um pulinho desengonçado. Ninguém pareceu notar – porque porra, Tony Iommi estava ali do lado, despejando mais uma saraivada de riffs. Que se foda o que não deu certo.

Antes de “Children of the Grave” Mr. Madman anuncia que eles só têm mais uma música antes do fim, mas que se nós fizéssemos muito, mas muito barulho mesmo, eles voltariam e tocariam "one more song". Dito e feito – voltam para o bis e, para minha surpresa, Tony puxa o riff de nada menos que “Sabbath Bloody Sabbath”! Geezer e Clufetos não se fazem de rogados e o acompanham, mas foi só uma brincadeira: ele logo emenda com “paranoid”, esta sim, programada para o final. Apoteótico, como não poderia deixar de ser, mas com uma misteriosa ausência de Geezer Butler na saudação final. Os caras até demoram um pouco mais a se despedir esperando por ele, que não aparece. Dá pra notar que Ozzy ficou um tanto quanto confuso e preocupado, mas enfim, fim de festa. Hora de tentar ir embora, ao som de “zeitgeist”, a faixa mais lenta do novo disco, tocada nos auto-falantes – que durante toda a espera antes do show só tocava AC/DC.

TENTAR porque a produção cometeu alguns absurdos de desorganização, o maior deles a estreita faixa de portão que TODOS os que estavam na pista vip tiveram que utilizar para se retirar. Felizmente não houve tumulto naquele momento, pois as conseqüências poderiam ter sido catastróficas. Detalhe: isso num evento particular - embora utilizando-se de um espaço público - com ingressos a preços exorbitantes. Outra bola fora, que ninguém pareceu notar, foi a ausência do belíssimo cenário que emoldura os telões do palco nos shows gringos. Aqui foi o tradicional telão preto quadradão mesmo. Que, por sinal, exibiu uma bela sequencia de imagens perfeitamente sincronizadas com o conteúdo das letras das músicas – com direito, inclusive, a uma sinistra imagem do “papa emérito” Bento XVI entre ditadores assassinos. Ousado.

Não tão bom ou ousado, no entanto, quanto o uso do telão feito pelo Megadeth, que abriu a noite com uma apresentação precisa e devastadora. Ou melhor, dos telões: tiveram o requinte de usar 3, um grande, atrás, e dois menores, na frente. A seleção de imagens foi bem melhor que a do Sabbath, com direito, inclusive, a grandes sacadas de humor, como os trechos de comédias Hollywoodianas que citam a banda usados na introdução de algumas músicas.

Esta era a terceira vez que eu veria o Megadeth, o que faz dela a banda “gringa” que eu mais vi ao vivo na vida. É sempre um bom show, claro, mas confesso que me surpreendi. Entraram com todo o gás, já com “Hasngar 18”, do “rust in peace” – que eu considero o segundo melhor disco de thrash metal de todos os tempos. E emendaram com a devastadora “Wake up dead”, faixa de abertura do segundo melhor disco deles, “peace sells... but who´s buying?” – heresia para muitos de meus amigos que preferem sempre o “countdown to extinction”. No meu ranking pessoal ele ocupa um honroso terceiro lugar, e só veio dar as caras no show com “Sweating bullets”, a quinta a ser executada. Fora essa, “apenas” o megahit “Symphony of Destruction”. Pra mim foi de excelente tamanho, já que no recheio tivemos “tornado of souls”, também do rust, numa apresentação que se encerrou com a faixa-título do segundo disco, “peace sells” - com direito à presença ilustre do mascote da banda, Vic Rattlehead, num "momento Eddie", dando um passeio no palco vestido num uniforme militar - e teve “Holy Wars” como bis. Tudo tocado de forma precisa e em alto e bom som, apesar de numa velocidade desenfreada. Como deve ser, aliás, em se tratando de uma das bandas fundadoras do thrash. Melhor impossível.

O show do Megadeth se encerrou com a execução, nos auto-falantes, da versão de Joey Ramone para “What a wondeful World”. Era exatamente o que sentíamos todos naquele momento, prestes a ver pela primeira vez ao vivo a banda das nossas vidas.

Unforgettable.

a.

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