quinta-feira, 29 de setembro de 2011

VITÓRIA EM CRISTO !

Com uma leitura singular da Bíblia, o pastor Silas Malafaia ataca feministas, homossexuais e esquerdistas enquanto prega que é dando muito que se recebe ainda mais

por Daniela Pinheiro
revista piauí

e olhos fechados, o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, deixava-se empoar pela maquiadora, que encobria as manchas e o brilho de seu rosto. Dali a pouco, ele gravaria seu programa semanal na televisão. Naquela manhã de agosto, Malafaia estava amuado. Na véspera, soubera que um pastor – de quem se considerava amigo – havia lhe tirado o horário da madrugada na TV Bandeirantes, uma negociação feita pelas suas costas. Também lhe pesava a má repercussão de seu último programa, no qual havia pedido doações de 911 reais e 10 011 reais a seus fiéis. Na internet, o mais polido dos sites que tratou do assunto o chamou de “estelionatário”.
A moça domava suas sobrancelhas com rímel transparente e, antes de lhe baforar laquê nos cabelos, ele falou sobre o caso. “A oferta é o que viabiliza minha missão, que é pregar o Evangelho e arrebanhar o maior número possível de fiéis”, explicou. “Eu gasto milhões, milhões e milhões por mês com horário na televisão, congressos, cruzadas evangelísticas, treinamento de pastores, abrindo novas igrejas. Como se paga isso? Não é um anjo do céu que desce com um cheque em branco para mim.”
Levantou-se da cadeira com os bicos do colarinho em riste, pegou uma gravata vermelho-sangue e, com o queixo colado ao peito, passou à confecção do nó. “Então, quer dizer que eu tomo dinheiro há vinte anos dos pobres coitados e nenhum deles reclama? O cara lá do raio que o parta me dá 10 mil contos porque ele é um burro e eu sou um fera, porque ele é ingênuo e eu fiz lavagem cerebral nele?”, protestou, enquanto conferia a gola no espelho. “Isso é preconceito da elite, que acha que todo evangélico é tapado, idiota, a ralé da classe social explorada por um malandro. O cara dá oferta porque ele sabe onde eu invisto a grana dele, porque ele confia no trabalho que fazemos aqui e não quer que ele acabe.”
Há 29 anos, o carioca de origem grega Silas Lima Malafaia está na televisão falando de Deus. Seu programa Vitória em Cristo é como um longo comercial da Polishop – ofertas e promoções de DCs, livros e DVDs de sua empresa, a Central Gospel –, intercalado de sermões bíblicos e mensagens na linha motivacional/autoajuda de matriz norte-americana. Dublado em inglês, é transmitido via satélite para 200 países pela Daystar e Inspiration Network, redes evangélicas dos Estados Unidos. No Brasil, Malafaia pode ser visto na Rede TV, Rede Bandeirantes e CNT, emissoras nas quais compra horário.
O seu discurso é socialmente conservador, e suas trovoadas retóricas recaem sobre grupos organizados que militam pela afirmação das minorias e pelos direitos individuais. Considera-os liberais, termo que nas suas pregações ganha conotação pejorativa, deslizando no mesmo campo semântico de libertinagem: umbandistas, a esquerda da Igreja Católica, pastores de outras denominações religiosas, feministas, defensores do aborto e da eutanásia. Nos últimos tempos, o seu alvo predileto tem sido os gays.

os 53 anos, Malafaia anda impecavelmente penteado e se veste com apuro, não obstante os ternos marrons e as gravatas em tons plausíveis apenas na paleta da Caran D’Ache. Há anos, compra roupas e acessórios na mesma loja de um shopping na Flórida. O bigodão preto que o acompanhou por décadas foi tirado há quatro anos para rejuvenescer sua imagem. Ele tem um forte sotaque carioca que transforma a letra “s” em “r” característico, como em “são duarr da tarde”.
No púlpito e na televisão, cultiva um estilo iracundo e indignado – o que lhe valeu o apodo de “Ratinho Evangélico”, em referência ao apresentador cascadura do sbt, de quem é amigo. Ao defender seus pontos de vista, fala de maneira virulenta, mas ao pedir dinheiro ou vender seus produtos é ameno e não adota a estratégia do pé na porta. “Eu sou o único pastor que realmente prega a palavra de Deus na televisão.” E explicou: enquanto o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, dedicaria muito tempo de seu programa ao exorcismo e ao pedido de ofertas; o apóstolo Valdemiro Santiago (Igreja Mundial do Poder de Deus), à cura; e o missionário R. R. Soares (Igreja Internacional da Graça de Deus), a transmitir imagens de cultos de sua igreja, ele interpreta a Sagrada Escritura à luz da vida cotidiana – o que faz de sua exegese bíblica uma peça única.
Recentemente, quando pregava como a glória de Deus pode deixar a vida do crente, ele tratou assim da cobiça e do pecado: “Aí vem a irmã dentro da igreja com a roupa arroxada, os dois melões de fora e o cara do lado só olhando, só no somebody love. (...) Se você está indecorosa, você peca e faz o outro pecar! E se você deixa sua mulher sair assim, você é um mané, um otário! Bota o silicone que você quiser, minha irmã! Mas se você quiser ser o instrumento do pecado, a glória de Deus vai embora e você vai pagar a conta com Jeová!”
Entre o anúncio de um kit de Bíblias e a interpretação de um versículo, Malafaia também divulga campanhas para arrecadar doações, como a do Clube de 1 Milhão de Almas, na qual o fiel doa 1 mil reais em troca de uma graça igualmente generosa. O objetivo é levantar 1 bilhão de reais com 1 milhão de doações. No final de agosto, o contador eletrônico de seu site contabilizava quase 38 mil adesões. Malafaia também já pediu para os fiéis doarem parte do aluguel e 30% de seus rendimentos, em vez do dízimo literal de 10%. Em abril, quando tinha uma promissória de 1,5 milhão de reais a vencer, superou-se: pediu ofertas individuais de 100 mil reais. Levantou o dinheiro em menos de uma semana. “Ralé que doa 100 mil... As pessoas não têm ideia do que está acontecendo no meio evangélico”, disse-me no camarim do estúdio de televisão.

 sede da Associação Vitória em Cristo ocupa uma área de 40 mil metros quadrados no bairro de Jacarepaguá, Zona Norte do Rio. A construção moderna e envidraçada contrasta com os arredores de comércio pobre e terrenos baldios abandonados. A entidade cristã – considerada sem fins lucrativos, o que a exime do pagamento de impostos – financia as ações do ministério religioso de Malafaia. São projetos sociais em favelas, cruzadas evangelísticas – que reúnem mais de 100 mil pessoas em praças públicas pelo Brasil –, congressos pentecostais, encontros anuais para a formação de mais de 3 mil pastores, além de seu programa na tevê. Por ano, fatura 40 milhões de reais, captados nas ofertas e doações de fiéis e admiradores. Segundo Malafaia, 20% dos que lhe mandam dinheiro não são evangélicos.
No ano passado, a entidade adquiriu por 4 milhões de dólares, nos Estados Unidos, um jato Gulfstream III de segunda mão. É nele que Malafaia e sua família se locomovem pelo Brasil e no exterior. Fabricado em 1986, o avião tem doze lugares, sofá, cozinha, sistema individual de entretenimento e autonomia de oito horas de voo. Em sua fuselagem está escrito In favour of God.
Numa manhã de julho, em seu escritório decorado com sobriedade em tons de preto e carvalho, ele usava um cardigã de listas azuis e brancas da grife Tommy Hilfiger, calça social e sapatos de verniz pretos. Como muitos pastores, também é adepto do relógio dourado, do anel de brilhantes na mão direita e, eventualmente, do celular pendurado no cinto.
Desde 2006, quando o Projeto de Lei 122, que criminaliza a homofobia no país, entrou na pauta dos parlamentares, Malafaia se tornou uma das principais vozes contrárias à causa. Foi ele quem, em junho, conseguiu reunir 50 mil pessoas em frente ao Congresso Nacional para protestar contra a votação. Também pediu a seus 180 mil seguidores no Twitter para entupir a caixa postal e congestionar os telefones de parlamentares favoráveis à proposta – no que obteve sucesso. Dias depois, na Marcha para Jesus, em São Paulo, ganhou espaço em jornais e televisões ao dizer que o Supremo Tribunal Federal havia “rasgado a Constituição” no momento em que aprovou a união homossexual.
“Não tenho problema com gay, tenho problema com ativista gay, porque são um bando de intolerantes, intransigentes, antidemocráticos”, falou. Segundo ele, caso o projeto seja aprovado, um diretor de escola que reclame de dois meninos se beijando no recreio poderá parar na cadeia.“Todo mundo se acha no direito de chamar evangélico de ladrão e não acontece nada. Mas se alguém falar um ‘a’ dessa bicharada, é o fim do mundo”, disse. (Há controvérsias. “Dependendo de como odiretor abordasse o casal, caberia uma reprimenda, mas prisão nunca. De qualquer maneira, essa cena não aconteceria num colégio, onde nem héteros podem ficar se beijando”, explicou Denise Taynah, assessora da Superintendência de Direitos Individuais Coletivos e Difusos, do governo do Rio de Janeiro.)
Malafaia estava perplexo. Não conseguia compreender como o Supremo Tribunal Federal garante o direito à liberdade de expressão para a Marcha da Maconha enquanto uma lei federal cogitava punir quem não concordasse com a homossexualidade. “Também fico louco porque essas bichas ganham dinheiro para viver nessa palhaçada. Sabe quem patrocina a Parada Gay? Petrobras, Caixa Econômica. É com o nosso dinheiro”, protestou.
Ao argumento de que um evangélico não corre o risco de ser espancado na rua por preconceito – como havia ocorrido com o pai que andava abraçado a seu filho e ambos foram tomados por um casal gay –, ele respondeu que o episódio foi uma “idiotice altamente condenável”, porém se tratava de uma tragédia isolada. “Mas os gays vão lá e propagandeiam como se fosse regra. Para isso, que é verdadeiramente homofobia, tem que ter cadeia, mas o que eles querem é privilégio”, disse. Depois que avivou a polêmica com os homossexuais, Malafaia passou a ser acompanhado por dois seguranças à paisana. “Se eu chegar num aeroporto e tomar tapa de bicha, vai ficar mal, né?”
Segundo Malafaia, a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais tentava, sob o argumento da homofobia, cassar pela terceira vez o seu registro de psicólogo junto ao Conselho Regional de Psicologia. Essa seria a origem de sua rusga com o movimento gay. “Se quisessem apenas defender os direitos deles, o.k., eu não ia me meter, tenho mais o que fazer. Mas quando vi que o que queriam era cercear o MEU direito, aí me chamaram para a briga”, falou. Sobre a possibilidade de perder a licença profissional, ele não se deixa abalar. “O que falo digo no púlpito, não em consultório, por isso o Conselho nada tem a ver com isso. Mas toda hora eles conseguem reviver essa história porque ali tem um bando de viado que foi fazer psicologia para se descobrir”, completou.
Sua secretária – elegante e de preto, como todas as funcionárias da empresa – serviu água em copos de cristal. Malafaia se lembrou de outro embate à época da discussão do aborto na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. “Eu não debato tema polêmico usando religião. Eu uso a ciência, a biologia, a medicina, por isso não conseguem me contestar.” Afirmou ter emudecido os presentes ao desafiá-los a dizer se era a mãe ou o bebê quem controlava o líquido amniótico do útero ou decidia sobre a data de um parto normal – o que deixaria patente que o agente ativo da gravidez é o feto e, portanto, ele tem vida própria.
Para Malafaia, o mundo está em decadência e os valores da sociedade estão no fundo do poço. Sua missão, como pastor e profeta de Deus, é chamar a atenção das pessoas para o que prega o Evangelho. Como exemplo da debacle humana, citou o caso de um pedófilo, preso nos Estados Unidos, que obteve o direito, concedido pela Suprema Corte, de assistir na prisão a todos os vídeos pornográficos que gravou com crianças. “Aí, você vai quebrando, você vai afrouxando, vai banalizando ser pedófilo, daqui a pouco eles estão pedindo também para serem respeitados”, disse. Referia-se ao caso do piloto Weldon Marc Gilbert, preso em 2007, que, por ter assumido a própria defesa, teve acesso, durante o processo,às peças incriminatórias sem as quais não poderia se defender.
Se um homem deseja fazer sexo com outrohomem, o que teria ele a ver com isso? “Nada! Cada um faz sexo com quem quiser. O que tenho é o direito de falar que isso é pecado, que é condenado por Deus e que a Bíblia diz que é uma perversão. Agora, o que esse pessoal quer não é o direito a fazer sexo – porque isso já fazem e não vão parar de fazer. Eles querem é colocar uma mordaça na nossa boca para nos proibir de falar qualquer coisa sobre eles. Olha o absurdo que é isso!”, indignou-se.

alafaia nasceu na Tijuca, Zona Norte do Rio, filho de um militar da Aeronáutica – que, ao se aposentar, tornou-se pastor – e de uma diretora de escola, ambos ligados à Assembleia de Deus. Desde criança, participava de cultos domésticos e acompanhava os pais em eventos evangélicos. Aos 14 anos, conheceu Elizete, de 13, com quem viria a se casar e a ter três filhos. Um irmão dele também se casou com uma irmã dela.
Foi nessa época que ele diz ter recebido “o chamado”. Ouvia uma pregação, quando no meio da frase do pastor sentiu algo inexplicável. “É como um estalo. De repente, tudo passa a fazer sentido. Você consegue integrar o emocional, o intelectual, o psicológico, você entende por que você está aqui. É uma coisa muito forte e muito pessoal”, contou. A experiência foi marcante, mas ele tinha dúvidas, sobretudo quando notava as dificuldades financeiras enfrentadas pelos religiosos de seu círculo social. Aos 20 anos, andava pela rua pensando no assunto, quando foi abordado por um amigo que, do nada, lhe disse para não temer porque ele teria como sustentar sua família. “Era Deus falando através dele”, disse Malafaia. Foi a confirmação de sua vocação de evangelizador.
Ele, a mulher e amigos faziam parte de um grupo gospel chamado Coral e Orquestra Renascer, no qual era o baterista. Chegaram a gravar um LP, apresentavam-se em qualquer galpão e, nos fins de semana, Malafaia alugava uma Kombi para evangelizar mendigos e turistas na praia de Copacabana. A família vivia com os rendimentos da mulher, que trabalhava na Caderneta de Poupança Letra. Foi quando cursou a Faculdade de Teologia do Instituto Bíblico Pentecostal. Com diploma em mãos, tornou-se, aos 23 anos, pastor auxiliar na Assembleia de Deus da Penha, onde seu sogro era titular, ganhando cinco salários mínimos por mês.

os anos 80, quando algumas emissoras brasileiras passaram a retransmitir programas de televangelistas americanos – como Jimmy Swaggart e Rex Humbard –, Malafaia ficou fascinado com o poder de evangelização da tevê. Vendeu um carro, pediu dinheiro emprestado a um amigo bem posicionado na hierarquia da igreja e contou com a simpatia de um rico empresário evangélico, Sotero Cunha, que durante anos o ajudou financeiramente. Foi assim que comprou um horário na antiga TV Record (atual CNT).
Com duas câmeras paradas, sentado atrás de uma mesa, Malafaia chamava pastores para cantar e palpitava sobre qualquer assunto. Com muitas contas a pagar, completava o orçamento com palestras, conferências e sermões em igrejas de amigos. Em uma ocasião, chegou a pregar noventa vezes em setenta dias. Perdeu a voz. Em 1990, ele já era o campeão de audiência da emissora.
“A explosão dele se deu quando passou a aparecer em rede nacional descendo o pau em todo mundo e falando de temas atuais. Ele não poupava ninguém. Falava de pastor safado, de evangélico falso, de político corrupto. As pessoas sentiam que ele estava verbalizando publicamente o sentimento que cada um carregava dentro de si”, disse o pastor Silmar Coelho, um dos melhores amigos de Malafaia, durante uma viagem de avião.
Ia para as gravações de ônibus pela manhã e à noite cursava psicologia, na mesma sala da mulher, na Faculdade Gama Filho, no Rio. Nunca atendeu pacientes em consultório. Sua visibilidade e intrepidez no discurso atraíam ofertas, que ele sempre pediu. Com dinheiro em caixa, passou a organizar eventos de evangelização e, paralelamente, investia em oportunidades que nunca foram para frente: loja de decoração, fábrica de “guaraná gospel” e uma rádio.
Em seus negócios privados, sua grande alavancada, como ele diz, deu-se quando conseguiu vender Bíblias em parcelas a perder de vista na televisão. Até então, as editoras dividiam o valor em apenas três vezes. Graças à amizade com um evangélico da diretoria do Banco Cédula, no Rio, Malafaia conseguiu que lhe dessem crédito na emissão de boletos bancários e junto a operadoras de cartão de crédito. Em 2005, em três meses, vendeu 100 mil Bíblias de 120 reais divididos em dez vezes sem juros – um recorde ainda inédito no mercado.

ra hora do almoço e Malafaia se dirigiu a uma sala a poucos metros da sua, que faz as vezes de refeitório da diretoria. Réchauds prateados ocupavam uma mesa comprida, diante da qual o cunhado, a cunhada, uma filha e a nora faziam seus pratos. Quase toda a família trabalha na Associação Vitória em Cristo ou na Editora Central Gospel – que dividem o mesmo prédio –, onde exercem cargos administrativos. Além deles, Elizete é conferencista, autora e também apresenta um quadro no programa de tevê do marido, e o primogênito Silas Filho, formado em teologia nos Estados Unidos, é pastor e vice-presidente do conglomerado.
Enquanto comia, Malafaia contou ter aberto mão do salário de pastor da Assembleia de Deus da Penha e disse que não usava um centavo das verbas da associação para despesas pessoais. Segundo ele, sua única fonte de renda era o que retirava como empresário na Central Gospel, cujo catálogo chega a quase 600 títulos, entre livros, CDs e DVDs. Os autores são ele mesmo, seus familiares, amigos ou pastores best-sellers americanos.
De sua lavra, Malafaia lança a média de quatro livros por ano. São cerca de noventa publicados, todos entre 64 e 72 páginas (“Mais do que isso, o cara não lê, acha grosso demais”), cujo enfoque é quase sempre superar desafios e romper barreiras no contexto da palavra divina. Um ghost-writer reúne suas falas em palestras, cultos e congressos e as transforma em texto corrido. Os títulos incluem Lições de Vencedor, O Perigo da Inversão de Valores, Como Vencer as Estratégias de Satanás, O Cristão e a Sexualidade, entre outros.
A Central Gospel é a segunda editora que mais vende livros evangélicos no país, em torno de 1 milhão de exemplares por ano. Recentemente, a empresa de cosméticos Avon, que agora também distribui produtos populares, comprou um lote de 400 mil livros para comercializar de porta em porta. Segundo Malafaia, seu patrimônio se resume a uma casa, quatro apartamentos pequenos no Recreio dos Bandeirantes, um no Espírito Santo e um imóvel de dois quartos, financiado em trinta anos, em Boca Raton, na Flórida. Ao ouvir que, para um empresário de sucesso, o patrimônio parecia modesto, respondeu que ele não era ganancioso.
Desde 2007, Malafaia já foi investigado duas vezes pela Receita Federal e outras três pelo Ministério Público Federal por suspeita de desvio do dinheiro do dízimo e lesão à crendice popular. Em uma das vezes, disse que ficou provado o erro de um contador que, sem sua anuência, deixou de recolher um tributo. “Paguei tudo no outro dia sem contestar. Quem atira pedra como eu atiro não pode ter telhado de vidro. Eu sou besta?” Quando se servia de sobremesa, pediu para remarcarmos o próximo encontro, pois o prefeito do Rio, Eduardo Paes, o chamara para uma conversa de última hora. “Já até sei o que ele quer”, disse rindo.

stima-se que 45 milhões de brasileiros sejam evangélicos, mais da metade deles ligados a denominações chamadas pentecostais. É o grupo que acredita em dons espirituais extraordinários, como a cura de enfermidades, o exorcismo, a liberação de profecias e o dom de falar em línguas estranhas (glossolalia), como ocorreu no Dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo se manifestou aos apóstolos por meio de línguas de fogo e fez com que eles pudessem se comunicar em outros idiomas com a multidão.
Com forte estrutura midiática, as igrejas pentecostais deram origem às neopentecostais, que catapultaram às alturas a ideia da valorização do aqui e do agora, da atuação do diabo na vida cotidiana e da relação de troca monetária entre Deus e os homens.
Testemunhos de ventura e redenção, insistentemente repetidos nos programas, sites, jornais e revistas das igrejas neopentecostais, fazem com que a esperança do alcance da graça nunca esmoreça. A promessa da prosperidade terrena é sua marca mais evidente. “Antes era: céu, céu, lindo céu, quando eu morrer eu vou ter tudo, mas enquanto isso, aqui na Terra, eu serei um lascado, todo ferrado. Mas a Bíblia fala da vida abundante, de a pessoa conquistar e ser feliz aqui e agora”, explicou-me Malafaia, uma tarde em seu escritório. “Na Bíblia, o assunto finanças é como qualquer outro, as pessoas é que fazem alarde com isso”, disse. Uma das passagens mais evocadas pelos neopentecostais é a Segunda Carta de Paulo aos Coríntios: “Aquele que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia com fartura com abundância também ceifará.”
Na Vitória em Cristo não se fala em dinheiro, mas em semente; tampouco em graça, diz-se colheita. Por isso, menções à parábola da semente, do Evangelho de Marcos, capítulo 4, versículos 26 a 29, são recorrentes. “O Reino de Deus é assim como se um homem lançasse uma semente à terra (...) porque a terra por si mesmo frutifica (...) e quando já o fruto se mostra, mete-lhe logo a foice, porque está chegada a ceifa.” É o que Malafaia chama de “princípio da agricultura” ou “lei da semeadura”: quem quer receber dinheiro deve doar dinheiro. “O semeador planta a semente do limão porque ele quer colher limão, não laranja ou mamão ou abacaxi”, costuma repetir em suas pregações.
Na porta de entrada de sua casa, no Recreio dos Bandeirantes, há uma plaquinha em forma de borboleta onde se lê: “Aqui mora gente feliz.” O imóvel de dois pavimentos é grande, mas não suntuoso. É decorado com muitos objetos dispostos pelas estantes e em mesinhas. Os móveis, talhados em madeira, parecem saídosde um castelo: imensos, pesados, escuros. Há dezenas de porta-retratos mostrando a família em natais, passeios no Beto Carrero World ou em viagens ao exterior.

um fim de tarde, Elizete Malafaia, de 51 anos, uma mulher delicada e simpática, arrumava-se para o culto do marido, na igreja da Penha. Quando bati o joelho pela terceira vez na mesa de centro, ela se desculpou dizendo que o mobiliário – originário da casa da família nos Estados Unidos – era mesmo grande demais para aquele ambiente. Ao volante de seu utilitário preto, ela se dizia preocupada com as polêmicas levantadas pelo marido, sobretudo com os homossexuais.
Segundo ela, não há casos na família. “Se tivesse, iríamos ajudar a tratar, não tenho preconceito”, afirmou. Na igreja, disse, há vários que são facilmente identificáveis. Basta observar como se comportam nos shows de cantoras gospels. Como psicóloga, ela também atendeu inúmeros gays e sustentou que a maioria teria sido abusada na infância. “A homossexualidade é uma desorganização emocional e espiritual. Se a pessoa não perdoou o abuso, ela canaliza aquela raiva para a vingança e, inconscientemente, se torna um abusador também.”
Elizete queria saber se eu acreditava em Deus, se era cristã, se já havia lido a Bíblia, se já havia ido a algum culto evangélico, se havia sido batizada na Igreja Católica. Respondi não a todas as perguntas. Falou-se sobre Deus e o Diabo. Ela afirmou que as forças do mal se empenham a todo instante em impedir que o mundo e o ser humano se aperfeiçoem. “Eu não tenho problema com quem não é cristão, mas você pelo menos acredita no bem e no mal?” “Não no sentido metafísico”, respondi-lhe. Não houve mais perguntas.
Quando o carro passou em frente a um templo da Universal, ela estabeleceu a diferença de sua igreja com a de Edir Macedo. “A Universal é como um hospital onde as pessoas chegam muito doentes.” Ali, elas conseguiriam se recuperar de vícios, colocar a vida nos eixos e afastar do cotidiano a presença do mal. “Mas elas não encontram a palavra de Deus para continuar seguindo a vida cristã”, disse. “E é aí que entramos. Somos uma igreja da palavra, do Evangelho, do caminho.”
Até dezembro de 2009, Malafaia era somente um pastor auxiliar, apresentador de tevê, conferencista motivacional e dono da Editora Central Gospel. Com a morte de seu sogro, que foi por 43 anos titular da Assembleia de Deus da Penha, Malafaia assumiu um rebanho de 17 mil fiéis e 104 templos espalhados pelo estado do Rio. Sua primeira medida foi adicionar o nome Vitória em Cristo para caracterizar sua própria igreja. Para fazê-lo, pediu demissão do cargo de tesoureiro da Convenção Geral das Assembleias de Deus, que era contrária à criação da subdenominação. Deixou a função dizendo que as finanças da instituição eram “caso de polícia”.
A Vitória em Cristo tem 150 pastores contratados, cujos benefícios incluem casa mobiliada, escola para os filhos e plano de saúde. O salário de um pastor iniciante gira em torno dos 3 mil reais e pode chegar aos 20 mil por mês, com direito a carro do ano. “Mas não adianta o cara vir com chorumela: tem que saber ler a Bíblia, pregar, explicar”, disse. Em sua igreja, fiéis desempregados ou recém-demitidos têm direito a uma cesta básica (“E não é com arroz de quinta, não!”) até se restabelecerem. Desde que assumiu a igreja, ele já atraiu 7 mil novos crentes e abriu outros nove templos pelo Brasil, rompendo a redoma fluminense. Tem planos de inaugurar outras 250 igrejas nos próximos cinco anos.
Segundo ele, no Brasil, há um imenso campo para evangelizar pessoas. Elepretende ser a alternativa dos fiéis da Assembleia de Deus que deixaram de se sentir representados pelo que ele chama de “assembleiossauros”: “Aqueles que vão jogar futebol de calça comprida”, disse, fazendo graça com o tradicionalismo de seus pares. Até pouco tempo, os assembleianos eram proibidos de ver televisão, ir à praia ou jogar futebol. Ainda hoje, nas subdenominações mais conservadoras, as mulheres usam saias e cabelos compridos. “Eu quero ser essa opção. Tudo me favorece: tenho visibilidade, credibilidade por estar trinta anos na tevê, comungo dos princípios da Assembleia de Deus, mas não fiquei parado no tempo, sou contemporâneo.”

naugurada em maio, a Vitória em Cristo da cidade de Curitiba é o retrato do que Malafaia quer espalhar pelo Brasil. O prédio envidraçado de três andares tem um auditório com mais de 3 mil lugares, palco forrado com madeira na cor caramelo, telões e modernos equipamentos de luz e som. O sistema de ar-condicionado e de calefação “nem o aeroporto da cidade tem”, diz ele com orgulho. O espaço é amplo, todo branco, conferindo ao ambiente uma sensação de limpeza e modernidade.
Em noite recente, o pastor titular – um jovem carioca de óculos e roupas modernas – alternava-se entre anunciar a agenda dos eventos e ler sua Bíblia num iPad. Antes do sermão, um dos melhores amigos de Malafaia, o pastor Jabes Alencar, e o filho deste, igualmente pastor e cantor contratado pela Central Gospel, ensinavam à plateia os gestos que acompanhavam um louvor em ritmo de xote:
O inimigo pelejou
mas não conseguiu
Ele tentou me derrubar
Eu chamei por Jeová
mas foi ele quem caiu

Luzes coloridas e estroboscópicas iluminavam todo o palco e a banda aumentara o volume. Homens, mulheres e crianças dançavam como se estivessem numa discoteca. Antes de deixarmos o local, Malafaia fez questão de mostrar o 2º andar da igreja, onde havia berçários e salas de recreação infantil que não pareceriam deslocados na capa de uma revista de decoração. “Eu não faço porcaria, está vendo? Se eu gosto de coisa boa, imagina Deus”, disse.

ram sete e meia da noite quando Malafaia subiu no púlpito da igreja Vitória em Cristo, na Penha. Os 2 500 lugares estavam ocupados e ainda havia muita gente em pé. O público era, em sua maioria, de mulheres jovens, maquiadas e bem-vestidas, como se estivessem voltando do trabalho. Representavam a ascensão das classes populares brasileiras. Eram as novas secretárias, vendedoras, telefonistas, recepcionistas. Os homens presentes vestiam terno e gravata ou paletó com camiseta por baixo. “A paz do Senhor, irmãos”, disse Malafaia saudando a plateia de microfone em punho.
Durante os 25 minutos seguintes, Malafaia prestou contas e expôs seus planos aos fiéis. Disse que aquele espaço entraria em reforma para acomodar 20 mil pessoas sentadas, que a igreja em Curitiba havia custado 6 milhões de reais (“Feita com a obra e o dízimo de vocês, aleluia”), que a igreja de Nova Iguaçu vai custar 3 milhões de reais, que precisava ainda levantar 2 milhões para concluir o templo de Joinville e outro 1,5 milhão para o de São José dos Pinhais. Contou que, na véspera, havia batizado coletivamente 1 107 pessoas no Piscinão de Ramos, que na televisão “tudo é patrocinado” e que ele gastava “milhões de reais por mês” para se manter no ar. Reiterou a promessa de abrir uma igreja em todos os “cantos desse país” e disse que ali não era clube nem terapia coletiva, então era preciso compromisso por parte dos crentes.
“Como a gente faz tudo isso? Só com a liberalidade e a fidelidade dos irmãos. Vamos zerar essa conta. Se você quiser fazer uma oferta especial, peça um envelope para você”, disse a todos. “Vamos orar para Deus dar as verbas para vocês. Frutifica a semente que eu e meus irmãos plantamos!”, gritou. Ouviam-se brados de “Aleluia”, “Glória a Deus” e “Louvado”. Alertou: “Ninguém pode ser constrangido a dar oferta. Ninguém é obrigado a dar. Ninguém quer que você tire o pão da boca das crianças nem que se endivide.”
Uma banda começou a tocar uma música etérea, suave. Dos cantos do auditório, saíram rapazes e moças distribuindo pilhas de envelopes onde se lia a frase “Minha semente para uma colheita abençoada”, impressa sobre uma foto de ramos de trigo. Dezesseis deles também carregavam máquinas Cielo para o pagamento da doação em cartão de débito ou crédito. Na Vitória em Cristo, 30% das ofertas são acertadas no cartão. “Não se envergonhe, não se cale, você é um agente de Deus”, disse Malafaia. O barulho dos zíperes de bolsas e carteiras era ensurdecedor.
Do alto, ele mantinha uma postura de desbravador, espichando a vista em direção ao horizonte. Uma mulher com unhas de esmalte negro escreveu algumas palavras no envelope e doou 50 reais; a que estava a seu lado,20 reais. Malafaia tirou o paletó e anunciou uma agenda de compromissos e eventos. Os presentes conversavam entre si e alguns cantarolavam baixinho a música ambiente.
A seguir, indo de lá para cá no palco, Malafaia contou que, no dia anterior, havia recebido 800 mil reais de um empresário amigo, que queria ajudar seu ministério. “Mas eu disse a ele: ‘Você acha que isso está comprando sua salvação, irmãozinho? Nãããnaninanina! Eu aceito a oferta, mas você tem que mudar a sua vida, você tem que aceitar Jesus, ajoelha aí.’” Em 2009, em entrevista a um site evangélico, Malafaia havia relatado uma história parecida, mas o benfeitor era um atacadista e o valor era de 130 mil reais.
Malafaia perscrutava a plateia, como que preocupado com a possibilidade de uma ovelha se desgarrar. Quando percebeu que o movimento dos obreiros havia cessado, deu a ordem: “Levanta o seu envelope aí.” E, como uma onda feita por torcidas em estádios de futebol, os envelopes foram surgindo um a um e ficaram suspensos no ar. “Glória a Deus”, ele disse antes de iniciar uma oração. Dias depois, calculou ter arrecadado por volta de 10 mil reais naquela noite. “Era meio do mês, o pessoal já está com o dinheiro mais contado”, explicou. Só com dízimos e ofertas, a Vitória em Cristo tem uma receita de 20 milhões de reais por ano. Malafaia sustenta que, proporcionalmente ao número de fiéis, é a maior arrecadação das Assembleias de Deus no país.
O sermão da noite era “Vida de fé ou incredulidade. Qual é a sua?”. Na Vitória em Cristo, não há ênfase em cura ou exorcismo. Malafaia prega sem anotações, apenas consultando a Bíblia para ler as passagens que menciona. Sua performance é uma combinação de memória prodigiosa e desempenho cênico. Ele é onomatopeico, careteiro e versátil no uso da voz – com a qual percorre uma escala extensa, do falsete quando imita alguém que faz uma pergunta tola, ao grave profundo que enfatiza uma frase mais solene.
 “É você contra o departamento em que você trabalha, é você contra o seu chefe, contra sua família, mas você está com Deus. Para Ele, você é maioria sempre!”, disse o pastor falando sobre autoestima. Leu o versículo 31 do livro dos Números, no capítulo 13. “Porém os homens que com ele subiram disseram: ‘Não poderemos subir contra aquele povo porque é mais forte do que nós.’” Encarando a plateia com o dedo espetado no ar, gritou: “Sabe o que Deus está dizendo aqui? Que aqui tínhamos que viver como ferrados. Era assim.” Da plateia ouviam-se louvores.
“E olha aqui o complexo de inferioridade!”, exclamou diante do versículo 33: “Também vimos ali gigantes (...) éramos aos nossos olhos como gafanhotos e assim também éramos aos seus olhos.” Com a voz ainda mais alta e trêmula, ele trovejou: “Você está se vendo errado, irmão! Você não é gafanhoto! Tem gente que acha que você é inteligente! O complexo de inferioridade é CON-TA-GI-AN-TE! Enterra essa ideia, irmão!” Uma mulher gritou: “Aleluia!” Na minha frente, uma grávida sentada num degrau do altar enxugava lágrimas. “Olha para o seu irmão e diz: ‘Deus tem um projeto para você!’” A meu lado, Elizete Malafaia me olhou nos olhos e falou: “Deus tem um projeto para você e para toda a sua geração!”
Ao final, Malafaia convidou aqueles que estavam se reconciliando com Deus a se aproximar do palco. Eram pessoas que haviam largado a igreja ou ainda andavam em pecado. Oito delas apareceram, foram abençoadas e abraçadas por obreiros, que as ampararam para deixar o local. Depois de duas horas, o culto foi encerrado. Havia uma sensação de redenção e bem-estar no ar. As pessoas pareciam satisfeitas, cheias de si, animadas e confiantes. Malafaia foi cercado pelos fiéis que queriam fotos e consultas individuais. Na saída da igreja, sentia-se um forte odor de fritura e lixo. Dezenas de carrinhos de churros, pipocas e mesas de camelôs dividiam a calçada com detritos de sacos de lixo que haviam sido violados – provavelmente por algum catador de latinhas à procura de alumínio.

alafaia sempre foi brizolista. Votou em Lula duas vezes e, nas últimas eleições, de última hora, declarou apoio ao tucano José Serra. No início da campanha, disse que votaria em Marina Silva, que também é da Assembleia de Deus, mas mudou de ideia depois de ouvir que ela proporia um plebiscito sobre o aborto. Na TV Record, o bispo Edir Macedo insinuou que Malafaia teria recebido dinheiro para mudar de lado. “Arrumei 200 mil votos para o Marcelo Crivella [senador eleito pelo PRB do Rio e sobrinho de Macedo] e o tio dele vem me fazer uma dessas. Ele ia perder pro Picciani, eu me desdobrei... Agora a gente vê quem é o venal”, disse.
O pastor acredita que o Brasil terá em breve um presidente da República evangélico, mas que não será alguém saído dos quadros da igreja. “É alguém que surgirá da política e que, contingencialmente, será evangélico”, especulou. Segundo diz, uma bancada representativa no Congresso pode cauterizar, ainda na origem, projetos como o da legalização do aborto e da descriminalização das drogas. Hoje são 73 parlamentares, mas acredita que o número pode dobrar. Na eleição passada, os três candidatos a deputado federal que apoiou somaram mais de 300 mil votos. Seu irmão, Samuel Malafaia, foi o terceiro deputado estadual mais votado do Rio.
Eduardo Paes o havia chamado para tirar a limpo o boato de que Malafaia pensava em concorrer à Prefeitura nas próximas eleições. “Respondi que nem pensar. Mas ele sabe que trago votos”, disse-me dias depois do encontro. Em 1995, quando o bispo Von Helder, da Universal, chutou uma imagem de Nossa Senhora na televisão, Malafaia foi um dos líderes evangélicos que saiu publicamente em sua defesa. Edir Macedo ficou bem impressionado e o convidou para se lançar candidato a deputado federal em 1998, com a perspectiva de construir o seu nome como alternativa da Igreja Universal à Presidência. “Mas não era minha praia. Não nasci para ser político, sou um pregador”, disse durante um almoço em um hotel de Brasília. A recusa lhe custou o programa que tinha na Record. Desde então, a relação com Macedo é turbulenta.
Em que Malafaia acha que se diferencia do líder da Igreja Universal? “Eles estão muito violentos nessa coisa de pedir dinheiro”, explicou. “E adotam um discurso perverso na relação com os fiéis. Dizem que, se você não tem uma coisa, é porque você não crê. Já eu afirmo que, se você não tem, é porque foi burro ou jogou a oportunidade fora”, prosseguiu. “O Macedo era um cara de ideais extraordinários, mas se perdeu por causadessa tentativa desenfreada de destruir a Globo. Hoje ele usa o dízimo e as oferendas para bancar o profano, aquele lixo moral, que apresenta na programação da emissora dele.”

m dos eventos mais importantes organizados pelo ministério de Malafaia é o Congresso Fogo para o Brasil. No final de julho, reuniu 3 600 pessoas no Centro de Convenções, em Brasília. O público era composto de pastores de outras denominações, protestantes de várias partes do Brasil, fiéis da Vitória em Cristo e curiosos que o seguem pela televisão.
Já na entrada, via-se um guichê da TAM, que vendera pacotes de até 2 700 reais por pessoa pelos quatro dias de palestras com preletores de várias igrejas, hotel, traslados e café da manhã. Os corredores estavam apinhados de prateleiras lotadas dedvds, CDs, livros e Bíblias em diversos estilos. Todos tinham a etiqueta da Central Gospel. Uma das Bíblias mais procuradas era a de capa de couro imitando estampa de onça, alcinha que a transformava em bolsa de mão e espelho interno para maquiagem. Custava 10 reais. Havia produtos para todo tipo de público e de interesse. Crianças tinham à disposição toda a coleção da Turma do Cristãozim, com o Evangelho ilustrado; adolescentes eram o foco da série de revistas A Galera de Cristo e mulheres podiam comprar até livros de receitas coroados com reflexões bíblicas.
Um banner na entrada dos 26 guichês de caixa avisava que as compras de mais de 29 reais poderiam ser divididas em duas vezes sem juros e as superiores a 150 em até dez vezes. Quem gastasse mais de 400 reais estaria concorrendo ao sorteio de oito iPads. Na fila ao lado do marido, a funcionária pública Bruna Cristina Moura, 25 anos, uma loira de olhos azuis, bem-vestida, que era da igreja Sara Nossa Terra, havia comprado 12 dvds de Malafaia. “Admiro o jeito dele. Ele me inspira confiança e credibilidade”, comentou. A programação incluía uma série de shows de bandas e cantores da gravadora Central Gospel – que, em comum, têm o hábito de afastar o microfone da boca e tombar a cabeça para trás na hora de um agudo.
No hall de entrada do evento, conheci a empresária Andreia Moraes, uma moça de cabelos loiros compridos, que comia uma coxinha, encostada no balcão. Ela havia viajado sozinha para Brasília, estava hospedada em um hotel confortável e esperava ansiosa a fala de Malafaia. Há dois anos vinha contribuindo para o Clube de 1 Milhão de Almas e afirmou que, desde então, sua vida havia se transformado.
Endividada e desempregada, tornou-se empresária, representante da Herbalife em Mato Grosso do Sul. “Eu o conheci pela tevê, me apaixonei pelas coisas que ele falava, faziam muito sentido para mim”, disse. À sua semente, Deus havia proporcionado uma colheita misericordiosa. “Deus me honrou com uma casa de meio milhão de reais. Eu hoje tenho muito para dar e emprestar, minha família toda se converteu.” Para ela, o que diferencia Malafaia dos demais pastores é sua coragem de “comprar brigas” pelos evangélicos e pelo Evangelho. “Eu tenho discernimento religioso, sei que ele é um homem de Deus. Deus fala através dele. Se ele diz que a semente será frutificada, ela será”, falou.
Em mais duas voltas pelo espaço do evento, cruzei com Murilo Otávio Benittes, um funcionário público que gostaria que os políticos brasileiros fossem “íntegros” como Malafaia; e com Liana Ribeiro, uma pastora baiana que usava gola de pele e disse ter no pastor “uma referência espiritual pelo tamanho de seu trabalho evangelístico”. E também Neide Batista, uma senhora baixa e atarracada, cujo filho havia largado as drogas e arrumado um bom emprego como gerente de uma lanchonete de fast-food. Em todos, predominava a sensação de redenção, agradecimento e consciência plena da razão de estarem ali. A conversão havia sido um ato consentido e rendera frutos.
Na sala VIP do evento, diante de uma mesa de salgadinhos, Malafaia esperava sua vez de entrar no palco. Ele contava ter recebido um e-mail de um diretor da Rede Globo dando-lhe explicações sobre a queixa que havia feito à cúpula da emissora por causa do beijo gay que seria exibido na novela Insensato Coração.
Silas Malafaia contou que, no final do ano passado, foi chamado para uma conversa pelo vice-presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho. O dono da Globo lhe disse que a rede queria conhecer melhor o mundo dos evangélicos. E contou terem percebido, na emissora, que Edir Macedo “não era a voz” dos protestantes no Brasil. Desde então, eles mantêm um canal de comunicação. “Sabe quantas vezes apareci no Jornal Nacional só este ano?”, perguntou o pastor, dando a resposta com a mão bem aberta. “Cinco.”
Numa série de reportagens sobre o trabalho social de determinadas igrejas, o Jornal Nacional mostrou numa delas o que a de Malafaia fazia na Vila Cruzeiro, no Rio. Três meses depois da ocupação da favela por forças do Exército, o pastor levou até lá massagistas, médicos, terapeutas e até manicures para atender à população, gratuitamente. O nome da igreja foi citado e o pastor ocupou o vídeo, sozinho. Um dos sonhos de Malafaia é comprar um horário na Globo para fazer pregações. “Ainda vou conseguir”, disse. “Eles já estão abrindo. Olha o programa do Faustão: está cheio de cantor evangélico se apresentando lá.” A Globo não comercializa horários contínuos. “Só vendemos anúncios em intervalos comerciais”, disse João Roberto Marinho.

o estúdio de gravação do programa, Malafaia, já vestido com um blazer azul-celeste, continuava a murmurar. “Trairagem, safadeza!”, resmungou enquanto se olhava no espelho. Mais do que ter perdido o horário da madrugada na TV Bandeirantes, ele não se conformava com a ursada do apóstolo Valdemiro Santiago. “Um cara que eu ajudei, que botei em contato com a Globo quando ele precisou. Que botei minha cara para bater quando a Lei do Psiu de São Paulo ia fechar a igreja dele”, dizia. Soube-se que, numa negociação direta com a cúpula da Bandeirantes, Santiago ofereceu 150% a mais do que o pago por Malafaia pelo horário das 2 horas às 6h45, algo em torno de 10 milhões de reais por mês. Em geral, os canais vendem aos religiosos janelas reservadas a espaços publicitários. Assim, não se responsabilizam pelo conteúdo do que é exibido.
Com exceção da Globo e do SBT, as demais emissoras gostam e querem vender horários para pastores evangélicos. O pagamento é em dia porque têm dinheiro vivo na mão; o custo de produção dos programas é baixíssimo, o que reduz muito o risco de bancarrota e, consequentemente, de calote. E, como a concorrência entre eles é forte, acabam pagando muito mais por horários desprezados pela audiência, como é o caso das madrugadas. “O R. R. Soares está saindo da Band até agosto e estão me oferecendo para pegar o horário”, disse. “Mas estão querendo enfiar a faca, estou fora.”

 diretor do programa avisou que deveriam descer para o estúdio. “Se o Valdemiro está pensando que vai levantar grana na madrugada, está muito enganado. Ninguém vende nada nem recebe doação de madrugada. O efeito madrugada é falar com gente com problema. Gente insone, desesperada, que não tem a quem recorrer. É espetacular para a evangelização, mas zero para negócios”, comentou.
No estúdio, uma equipe de vinte pessoas estava à sua espera. O cenário é constituído por um painel pintado com arvoredos que supostamente remetem a um jardim em Jerusalém, além de uma fonte de verdade que jorra água. Como trabalha sem roteiro e improvisa tudo, decidiu usar todo o programa para rebater as ferozes críticas da internet que atacavam as suas reiteradas solicitações de dinheiro. No ar, comunicou que precisava levantar 8,5 milhões, e explicou, tostão por tostão, onde o dinheiro seria empregado. Um milhão de reais para uma cruzada evangélica para 100 mil pessoas em São Luís; outro milhão para cruzada idêntica em Fortaleza; quatro milhões para treinar 2 500 pastores e 500 jovens com vocação ministerial; e 2,5 milhões para a adequação do seu programa ao padrão de alta definição digital.
Quando as câmeras foram desligadas, ele me chamou num canto: “Vê se outro pastor faz isso que eu faço. Eu divulgo onde gasto cada centavo que recebo. Vai lá no R. R. Soares e manda ele dizer onde ele põe a grana, vai lá no Edir Macedo e vê se ele abre as finanças dele.” Terminou a conversa revelando o resultado dos pedidos de oferta. Em menos de dez dias, 145 pessoas haviam doado os 10 011 reais e outras 2 mil, os 911 reais. “Alguma compensação eles devem ter, não acha?”, perguntou.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O MOVIMENTO MOD

Os jovens do reino unido se preocupavam em associar suas preferências musicais ao modo de se vestir, dividindo-os em tribos urbanas rivais que se odiavam. O mais forte expoente entre todos esses grupos foi apelidado pela imprensa local como Moderns, ou simplesmente Mods. Para se compreender universalmente o surgimento do movimento Mod, é preciso entender várias das transformações ocorridas no início do século XX.

Artigo por Hígor Coutinho. Hígor é produtor do programa Espírito da Música Rádio Universitária - Goiânia (GO) e consome mais música que a maioria dos humanos normais.

O século 20, apelidado pelo pensador alexandrino Eric Hobsbawm como a Era dos Extremos, entre guerras colossais e avanços científicos benéficos e ao mesmo tempo catastróficos, reservou um lugar especialíssimo para a juventude.

Pela primeira vez na história, uma fatia da população mundial se fazia diferenciar não pelas características econômicas, sociais, geográficas, raciais ou políticas, mas sim pela faixa etária. A partir da segunda metade do século, impulsionada por uma novíssima forma de música e comportamento, a juventude tomou o poder!!
Como a História gosta (e precisa) de nomes e datas, quem inaugurou oficialmente essa nova era, em 12 de abril de 1954, foi Bill Halley e seus Cometas, com “Rock around the clock”, música que, posteriormente associada ao filme Blackboard jungle (lançado no Brasil como Sementes da violência), chocou violentamente a conservadora, religiosa e ainda muito racista, sociedade estadunidense.

A industria fonográfica de então, numa tentativa de embranquecer o tal ritmo negro, vê no garoto Elvis Presley sua mais viável oportunidade. Mas, apesar do sucesso branco de Elvis (ou talvez impulsionados por ele), novos meteoros negros riscavam o céu de tio Sam: Little Richards, Chuck Berry, e até James Brown, entre tantos outros, galgavam lugares respeitáveis nas paradas de sucesso.
Contudo, com a ida de Elvis para o exército e a conseqüente “saturação” desse novo gênero que já não dava sinais de longevidade, o rock viveu um grande hiato entre 1959 e 1963. Os grandes ídolos de outrora agora enveredavam pelo caminho mais lucrativo da country music e das baladas açucaradas. A morte do rock era anunciada pela primeira vez.
Se nos EUA o rock havia morrido, o velho mundo, representado pela austera sociedade inglesa, indicava que seria o berço de seu glorioso renascimento.
God Bless The United Kingdom!
Não se sabe ao certo o porquê, mas é certo que os jovens do reino unido se preocupavam em associar suas preferências musicais ao modo de se vestir mais do que em qualquer outra parte do planeta, e isso, somado a uma série de fatores sociais, os dividiu em tribos urbanas rivais que se odiavam.
O mais forte expoente dentre todos esses grupos foi apelidado pela imprensa local como Moderns, ou simplesmente Mods. Para se compreender universalmente o surgimento do movimento Mod, é preciso entender várias das transformações ocorridas no início do século XX.

Less Is More!
O Modernismo, desencadeado por nomes como Pablo Picasso e sua tela Les Demoiselles D’Avignon tida como a inauguração simultânea do cubismo e da arte moderna, influenciado pelas construções do arquiteto norte-americano Frank Lloyd Wright e pelo movimento Art Nouveau, pode ser considerado como ponto de partida do que viria a ser conhecido, mais tarde, como movimento Mod.
A abstração, uma das principais características da arte do século XX, somada a idéia de simplificação formal (‘Less Is More’), moldaram no inconsciente artístico de então a negação do realismo obrigatório a que estavam atreladas todas as escolas anteriores, criando espaços para as mais subjetivas invenções.
Dentro desse contexto, foi declarado o Manifesto Futurista, por Marinetti, que conclamava a uma arte mais móvel, agressiva e urbana; “a beleza da velocidade”.
No pós-guerra, os ideais modernos ganharam muita força, a cultura do jazz fervilhava ao som das big bands, os anos quarenta rebolavam as notas do swing e desfilavam as vistosas ‘zoot suits’, ternos folgados que permitiam grande liberdade de movimentos.
Porém, com esse sopro de mudanças o jazz moderno ganhava terreno, com Miles Davis, Gil Evans e tantos outros, e isso acabou significando o rompimento com a tradição ‘hot’ entretenedora do jazz, acompanhado por uma mudança de visual; ternos mais sóbrios substituíram as largas ‘zoot suits’.
O bebop era bastante consumido na Itália, e o design de moda se inspirava diretamente no visual dos músicos. Surgira ainda a necessidade da criação de um meio de transporte que acompanhasse todas essas mudanças, comportamentais e estéticas; Apareciam as primeiras ‘Scooters’, motonetas produzidas principalmente pelas companhias Piaggio-Vespa e Lambretta.

Nos últimos suspiros da década de 50, os jovens ingleses já absorviam todo esse universo comportamental: eram consumidores ávidos do ‘modern jazz’ estadunidense (além do ska, soul, rocksteady etc.) e se vestiam como seus músicos (conseguiam seus bem cortados ternos, ocasionalmente, nas lixeiras da famosa Carnaby street).
Adoravam filmes Nouvelle Vague (New Wave), pilotavam ‘scooters’ italianas e cortavam os cabelos ao estilo francês. Incrivelmente tudo sustentado com o salário de office-boy!
Eram, em sua maioria, membros da juventude judaica que habitava os bairros da classe média baixa londrina, onde conviviam com os recém chegados imigrantes jamaicanos que ajudavam a lotar os clubes de bebop e os coffee-bars. Não tardou para a imprensa rotulá-los como ‘Moderns’. A partir daí, a oralidade fez o seu papel e o neologismo ‘Mod’ se popularizou.
Aliás o termo ‘Mod’ apareceu pela primeira vez no ensaio Today there are no gentlemen, em 1962 num diário londrino. O livro (e depois filme) Absolute beginners de Colin Maclness, retrata bem essa fase de explosão do movimento, através do estereotípico personagem The Dean.
Complementando o ideário do ‘Less is More’, o fardamento Mod cultuava as camisas Fred Perry, botas Clark Desert, calças Levi’s, além das famosas camisetas com o símbolo da Royal Air Force (círculos concêntricos, vermelhos, brancos e azuis), conseguidas através das novíssimas técnicas de serigrafia.
E para completar o uniforme modelo, era preciso ostentar uma das famosas parkas militares, que nos fins dos anos 50 eram usadas somente para proteger as roupas caras da poeira e chuva. Porém, rapidamente este ítem se transformou em adereço obrigatório.
A trilha sonora oficial de então, era a música soul de selos estadunidenses como a famosa Motown, a Tamla, ou ainda a Stax. A combinação de elementos do soul americano com as melodias calcadas na guitarra rock das redondezas definiria a estética sonora predominante nesse período. The Who, Small Face, Kinks, além de muitos outros nomes Europa afora, abraçaram com potência a nova onda.

Estamos em 1964!
Mas os Mods não estavam sozinhos, os Rockers (seus arquiinimigos) e os Teddy Boys (primeiros jovens trabalhadores ingleses a se vestirem como aristocratas) estavam a espreita! Vários dos encontros entre gangues rivais acabavam em pancadaria generalizada! Tudo isso potencializado a mil, pelo consumo demasiado de anfetaminas (adotada como droga oficial do movimento).
O antagonismo entre Mods e Rockers era óbvio: os Rockers eram o oposto frontal daquilo que era cultuado pelos modernos da época; adoravam jaquetas de couro preto adornadas com broches e correntes, ostentavam vistosos topetes, se devotavam ao rock cinquentista dos EUA (considerado ultrapassado pelos nossos amigos) e seguiam o espírito de liberdade do motoqueiro norte-americano, desprezando as benesses do trabalho duro.
A radicalização histórica dessas diferenças ocorreu no dia 18 de maio de 64, no bairro londrino de Brighton, quando centenas de Mods e Rockers se enfrentaram com selvageria pelas suas ruas e praias. Este evento foi muito bem retratado no filme Quadrophenia de Franc Roddam.
Mod de dizer…
Apesar da proximidade do movimento Mod com o universo negro, (dividiam os mesmos bairros e até então compartilhavam muitas preferências musicais), o aparecimento do reggae e seus lamentos “melanínicos” de retorno à África e exaltação à negritude, fizeram com que essa identificação diminuísse gradualmente, já que os jovens britânicos (por mais boa vontade que tivessem) não conseguiam se ver em tais manifestos musicais.
Assim, perdendo seus principais aliados, e concorrendo com o psicodelismo, a nova linguagem oficial do florescente movimento Hippie, o movimento Mod degringolou-se, e os poucos resistentes foram rebatizados como Hard-Mods, e depois Skinheads (não confundir com movimentos neonazistas que se apropriaram, posteriormente, da alcunha).
O movimento Mod estava enterrado!
Nos anos 70 houve um revival na Inglaterra (logicamente não com a mesma intensidade dos “sixties”), capitaneado por bandas como a legendária The Jam de Paul Weller, ou ainda The Lambrettas, Vapors e Purple Hearts, lançadas por pequenos selos como Castle, Detours (nome da banda de Pete Towshend, antes de ser batizada como The Who), Big Beat e One Way Records.
No Brasil o movimento teve poucos ecos, mas podemos citar – ainda nos anos 60 – a banda Som Beat, que chegou a gravar “My generation” do Who. Outros possíveis pontos de contato foram o “pequeno príncipe” Ronnie Von e a banda The Beatniks.
Porém, o maior representante Mod nacional, despontou mesmo foi na década de 80: a banda paulistana Ira!, que em seu disco de estréia Mudança de Comportamento de 1985, presenteou os brasileiros com o hino Mod tupiniquim “Ninguém entende um mod”.
Nos anos 90 e 00 também temos representantes fortes, como os curitibanos do Relespública, Faichecleres e Tarja Preta, os paulistanos The Charts e Momento 68 (este menos Mod e mais psicodélico), os sul-riograndenses Plato Dvorak (das bandas Père Lachaise e Locecraft) e Cachorro Grande, além do também gaúcho Júpiter Maçã (A Sétima Efervescência), que apesar de afundado na psicodelia mantém certas características Mod.


quinta-feira, 14 de julho de 2011

Punk na veia

Reunindo diálogos e bate-bocas de seus principais protagonistas, gente como Iggy Pop e Dee Dee Ramone, o livro Mate-me Por Favor põe o punk em seu devido lugar: as sarjetas imundas de Nova York

Eduardo Bueno | 01/01/2005 

Tudo começou em 1975, quando Eddie McNeil, então com 18 anos, e dois amigos de escola, John Holmstron (atual editor da revista High Times, especializada em drogas em geral e em maconha em particular) e Ged Dunn, resolveram fazer uma revista, baseados (e bota baseados nisso...) no sólido e irrefutável argumento de Holmstron conforme o qual, se tivessem uma revista, ganhariam “bebida de graça”. Nas palavras de McNeil, a coisa foi mais ou menos assim: “Holmstron queria que a revista fosse uma combinação de tudo em que a gente se ligava – reprises de televisão, cerveja, sexo, cheeseburgers, quadrinhos, filmes B e aquele rock’n’roll esquisito que ninguém além de nós parecia gostar: Velvets, Stooges, New York Dolls e Dictators”.
Posto isso, eles precisavam de um nome para a publicação. “Por que a gente não chama de Punk?”, disse McNeil. Segundo ele, “a palavra punk pareceu ser o fio que conectava tudo o que a gente gostava – bebedeira, antipatia, esperteza sem pretensão, absurdo, diversão, ironia e coisas com um apelo sombrio”. O dicionário diz que a palavra “punk” surgiu em 1596, “de origem obscura, provavelmente relacionado a spunk, ou ‘madeira podre’”. Mais tarde, tornou-se um substituto para “prostituta”, antes de significar “bobagem, coisa ordinária ou sem sentido”. Ou seja, a palavra perfeita para os fins perseguidos pelo trio.
No final do encontro, Holmstron se escalou para ser o editor-chefe da revista. A seguir, Dunn proclamou-se o executivo da “firma”. Como McNeil, além de meio lento, não disse nada, o sagaz homem-fumaça Holmstron matou a charada: “Você pode ser o punk de plantão!” E foi então que Eddie McNeil virou Legs, uma espécie de personagem de cartum em carne e osso, um dublê para as reportagens da revista. Ou seja, seu trabalho era o de exercer seu talento natural para tomar porres e se meter em encrencas.
A revista Punk, acredite, tornou-se um sucesso no circuito alternativo, vendendo 30 mil exemplares. Foram publicados 18 números antes de Legs sair da revista, em 1977, para fazer, aos 20 anos, seu primeiro programa de desintoxicação. Logo depois, ela acabou. Hoje, exemplares antigos são vendidos por pequenas fortunas na internet.
Os caras foram tocando a vida e os anos foram passando, quando Legs achou que os ingleses haviam se apropriado indevidamente do termo a partir da explosão dos Sex Pistols, em fins de 1977. Ele sabia que o punk era uma subcultura americana que já existia por quase 15 anos com Velvet, Stooges e MC5, entre outros. Mas Legs conta que, quando dizia que o movimento punk “já tinha donos”, e que eles não eram britânicos, ouvia o seguinte: “Você não entende. O punk começou na Inglaterra. Sabe, lá todo mundo está no seguro-desemprego, eles têm realmente do que reclamar. Punk é sobre luta de classes, economia decadente e blá, blá, blá.”
Embora argumentasse, lembrando a passagem de Malcolm McLaren (produtor dos Pistols) pelos Estados Unidos e as relações dele com os punks americanos, McNeil pensou em desistir: “Não dava para competir com aquelas imagens de alfinetes e cabelo espetado”. Os Pistols e o terremoto punk na Inglaterra pareciam ser o atestado final da vitória da imagem sobre a palavra. Aí é que entra Mate-me Por Favor – A História Sem Censura do Punk. O livro é a tentativa de Legs McNeil de recolocar as coisas em seu lugar – ou seja, nas sarjetas de Nova York.
E é daí que nascem as melhores histórias de Legs e do livro (que ele assina em parceria com Gillian McCain). Para falar a verdade, não são histórias. São conversas com os principais sujeitos envolvidos com os melhores e piores momentos do punk. Ficamos sabendo, por exemplo, que Lou Reed, o vovô do punk, que criou o Velvet Underground, nos anos 60, vivia num buraco de 30 dólares por mês, em Nova York, e que para pagar o aluguel vendia sangue e posava para jornais sensacionalistas: “Minha foto saiu dizendo que eu era um maníaco sexual que tinha matado 14 crianças e filmado tudo”, diz Reed.
Essa época, a pré-história do punk, revela a relação dos punks com Andy Warhol e a turma da Factory. No auge da onda flower power, ambos odiavam os hippies. “Paz e amor não tinha nada a ver com nada. E a gente não queria se sentir bem”, diz Scott Asheton, guitarrista dos Stooges, uma das bandas que despontavam.
“Em abril ou maio de 1970, a gente chegou para um show em Detroit e as coisas estavam mudando. O desemprego estava empurrando todo mundo para fora da cidade e ninguém estava querendo ouvir falar de ficar numa boa. Começamos a nos envolver com drogas pesadas”, afirma Iggy Pop, vocalista dos Stooges. O fabuloso, o excessivo, o lendário Iggy Pop é o personagem central de alguns dos melhores trechos do livro. É ele quem dá o tom dessa fase da música e do modo de vida dos caras.
Em 1971, na Califórnia, depois de passar horas tentando achar uma veia para tomar uma dose de heroína, Iggy estava atrasado para um show. Quem conta essa história é Dee Dee Ramone, dos Ramones, outra lenda do punk. “Ele estava puto e o show atrasado pra caramba. Mas não adiantava reclamar, o cara não saía do banheiro”, diz. Iggy se lembra assim da cena: “Eu ficava gritando ‘Cai fora!’ pra todo mundo e eles ficaram pensando, ‘Meu Deus, o cara vai morrer e blá, blá, blá’. Finalmente, lá estou eu no palco e mal entrei no lugar senti que precisava vomitar”. Dee Dee, novamente: “A banda finalmente entrou e Iggy parecia muito injuriado. Ele estava todo pintado com tinta prateada e só usava cueca. Ele estava lambuzado de tinta prata, mas o cabelo e as unhas estavam dourados. E alguém também tinha salpicado purpurina no cara. Eles entraram e ficaram tocando a mesma canção, sem parar, só com três acordes. E as únicas palavras eram: ‘I want your name. I want your number’ (‘quero seu nome, quero seu telefone’). Aí, Iggy olhou pra todo mundo e disse: ‘Vocês me dão enjôo’. E vomitou.”
Como se vê, nessa época o punk já tinha suas conexões com as artes plásticas e a poesia. E Patti Smith era uma dessas pontes: escritora, poetisa e linda de morrer. Outra influência era o teatro gay de John Vaccaro e as drag queens que inspiraram o visual andrógino de David Bowie. Em seguida, New York Dolls se tornou uma sensação fazendo um rock básico de rua e se apresentando com roupas de mulher. Bowie e os Dolls criaram o glitter rock, um primo chique e afetado do sujo e despojado punk.
Em 1975, aconteceu a história que deu nome ao livro (Please Kill Me, no título original em inglês). Segundo o autor, a frase foi tirada dos dizeres escritos a mão em uma camiseta de Richard Hell (do NY Dolls) feita por ele mesmo, e adornada com o desenho de um alvo de tiro. O fotógrafo Bob Gruen lembra que Hell vestia a camisa no clube CBGB’s na primeira vez em que se viram. “Aquilo era uma das coisas mais chocantes que eu tinha visto. As pessoas tinham idéias extravagantes naquele tempo, mas andar pelas ruas de Nova York com um alvo no peito, com um convite pra ser morto – aquilo foi um verdadeiro marco.”
Richard Hell não se lembra de ter usado a tal camiseta – “Eu era um tremendo covarde” –, mas recorda-se de ter forçado Richard Lloyd, guitarrista do Television, a usá-la. Lloyd, por sua vez, conta que decidiu usar a camiseta porque Hell, embora a tivesse feito, nunca a usava. Mas não parece ter sido uma boa idéia. “Usei quando tocamos no andar de cima do Max’s Kansas City, e mais tarde uns garotos chegaram em mim. Aqueles fãs me lançaram um olhar psicótico e perguntaram: ‘É sério?’ Daí disseram: ‘Se é isso que você quer, a gente ficará contente em obedecer, porque somos seus maiores fãs!’ Ficaram me olhando com aquele ar alucinado, e pensei: ‘Não vou usar esta camiseta de novo’.”
Mas aí vieram os Ramones, punks até os ossos, e o limites se foram. “Quando eu tinha 15 anos comecei a comprar droga no Central Park e levar ao Queens para revender. Dava para pagar o meu e ainda sobravam 5 dólares. Um dia voltei para o apartamento da minha mãe e ela ficou tão puta que jogou uma panela em mim, depois quebrou meus discos e atirou minha guitarra pela janela”, diz Dee Dee Ramone. “Decidi ir pra Califórnia de carona com uns caras num carro caindo aos pedaços. Eles andavam devagar montanha acima e depois vinham abaixo como uns doidos. Os caras pareciam doidos de verdade, falando coisas doentias. Falavam sobre como estavam a fim de arrancar a cabeça de alguém. Tinham um fio de arame e queriam enforcar alguém. Finalmente pararam num posto de gasolina em Indiana e assaltaram o lugar. Nós todos fomos presos por assalto a mão armada.”
É só então que Malcolm McLaren, o picareta brilhante que, antes de inventar os Sex Pistols, na Inglaterra, empresariou o NY Dolls, nos Estados Unidos, deu as caras. No desempenho da função, ele conheceu Richard Hell, cujo visual serviria de inspiração para a estética punk e que MacLaren tratou de levar para Londres. Para Legs McNeil e Gillian McCain, os Pistols roubaram descaradamente a estética e, de certo modo, o som de Hell e do Dolls.
“A estratégia de Malcolm para os Pistols era a teoria do caos. Estava fora do controle e não tinha nada a ver com música. Tinha a ver com o fenômeno aterrorizante que estava chegando da Inglaterra”, diz Danny Fields, que foi empresário de Iggy Pop e dos Ramones. Bob Gruen lembra-se da excursão do Sex Pistols nos Estados Unidos: “Os shows da banda eram o caos, mas a vida na turnê até que era bem comum. Basicamente a gente bebia cerveja, passava uns baseados e ouvia reggae. Mas daí o ônibus encostava, as portas se abriam, pintavam as câmeras de TV e os fãs e a loucura começava”. Segundo ele, a presença de público causava comportamentos esquisitos no grupo. “Uma noite chegamos numa parada de caminhoneiros e eu e Sid Vicious descemos para comer. Eu pedi um sanduíche e Sid pediu uns ovos. Estava tudo normal até aparecer um cowboy com a família. O cara reconheceu Sid e nos convidou para sentarmos com eles. O cowboy disse: ‘Você é o Vicious, você consegue fazer isso?’ – e apagou o cigarro na palma da mão. Então Sid pegou uma faca e furou a própria mão, o sangue começou a escorrer até chegar ao prato de ovos. Mas Sid não se importou e continuou a engolir o rango.”
Durante a estada na América, Nancy Spungen, namorada de Sid Vicious, foi morta a facadas no quarto do casal. Ele, o único suspeito, foi preso, pagou 50 mil dólares de fiança, mas não chegou a ser julgado. No dia em que saiu, tomou uma overdose de heroína e morreu.
Chegamos à década de 80 e o fim é melancólico: as bandas terminam e muita gente morre. Especialmente tristes são as mortes de Johnny Thunders e Jerry Nolan, ex-Dolls e ex-Heartbreakers, ambos vitimados pelas drogas.

Fonte: Aventuras na História

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Aí vão eles

Confesso que fiquei um tanto quanto decepcionado quando os Baggios divulgaram, já há algum tempo, a capa de seu tão aguardado primeiro disco - uma foto "trabalhada" com dois caras vestidos de branco "trabalhando" em algo indefinido, mas que produz uma explosão de luzes "psicodélicas". Achei uma imagem meio vaga, muito embora seja explícita a referência ao fato de que se trata de uma dupla envolvida com a concepção de um disco - mais que isso, uma obra de arte. Mas porque eles estão de branco? Para isto não há nenhum significado especial, me disse Julico.

Toda esta primeira impressão negativa, provavelmente motivada pelo fato de que a dupla já há algum tempo vem sendo trabalhada iconograficamente pela competentíssima dupla de fotografos da Snapic (daí ficar meio que subentendido que a capa seria deles) se desfez ao pegar o material gráfico nas mãos. Impresso e em formato digipac, a arte da capa ganha vida e adquire consistencia. Ou é isto ou fui eu que simplesmente me acostumei com a imagem, pura e simplesmente. Além disso, as fotos da snapic, sempre excelentes, estão lá, espalhadas pelo encarte e na contracapa, abrilhantando o material que é, como um todo, bem acabado e de muito bom gosto - o que é importante nestes tempos de download gratuito. Se é verdade que a primeira impressão é a que fica, o disquinho dos Baggios, embalado no elegante formato digipack, já chega "chegando".

Feitas as devidas loas e ressalvas ao conceito e apresentação do material gráfico - e ele é importante, especialmente num disco lançado em  formato "físico" -, vamos ao som em si. As duas primeiras já são velhas conhecidas: "o azar me consome" foi lançada previamente como single e "em outras" venceu o Festival da Arpub e, por conta disto, foi executada à exaustão pela Aperipê FM. As versões registradas no disco são bastante fièis ao que conhecemos, com exceção de um detalhezinho aqui e ali no arranjo, imperceptíveis à maioria das pessoas (e à mim também, só sei disso porque Julio me falou antecipadamente). Uma vinheta separa as duas músicas, que são ótimas e extremamente apropriadas como cartão de visitas. Mas o bicho começa a pegar pra valer a partir da terceira faixa, para todos os fins, a primeira "inédita" - na verdade é uma música antiga, que já constava da primeira demo, mas aparece aqui numa gravação novinha e "turbinada" por tecladinhos discretos, um novo solo de guitarra e por alguns trechos que surgiram de improviso nas execuções ao vivo e foram incorporados à canção. Destaque para o "lodento" duelo vocal/guitarra/bateria do final, que remete à boa e velha tradição do blues "puro", "de raiz". O timbre da voz de Julico ajuda: ele parece ter nascido no delta do Missisipi, apesar da letra em português e em alto e bom som. É uma das melhores composições do Baggios, velha conhecida de quem frequenta seus shows, e é muito bom ouvi-la em versão tão "encorpada".

A faixa seguinte, "pare e repare", já é mais nova, mas é igualmente redondinha e tem um ótimo refrão, além de também ser conhecida dos shows. "Não estou aqui", a quarta, é mais "obscura". Ótima letra, ótimos riffs e mais uma intervenção esperta dos teclados.

Aí chegamos a "Oh! Cigana" (seria uma letra autobiográfica? Em caso positivo, por onde andará esta cigana que despertou tamanha paixão em nosso "rei do blues" sergipano?)e seus excelentes arranjos de sopros, que não são exatamente novidade, já que a versão demo também os tinha, só que aqui eles aparecem numa "versão estendida". A novidade é um novo solo, na verdade um duelo entre duas guitarras. Muito bom. É seguida por "quanto mais eu rezo" e mais arranjos de sopro que dão ao disco uma pitada de rythm´n´blues.

A próxima é "Seu Cristóvão", muito boa (não existe musica ruim da The Baggios), seguida de "Morro da saudade", que abre com uma gaita muito bem colocada e conta com a participação especial de Helio Flanders, do Vanguart. Na sequencia, a primeira cantada em inglês, "get out now", com uma introdução em "crescendo" que culmina em mais um excelente riff de guitarra, sempre pontuado pela potente e martelada bateria de Perninha. Prefiro Julico cantando em português, mas a sonoridade da língua de Shakespeare (e dos grandes mestres do blues, evidentemente) aqui ficou perfeita.

"Meu eu" é uma balada "bluesy" de bom tamanho a esta altura do campeonato - nos dá a oportunidade de tomar fôlego para o petardo seguinte, a já clássica "candango´s bar", mais uma homenagem às "coisas de São Cristóvão", a cidade histórica vizinha à Aracaju onde tudo começou, há aproximadamente 7 anos. Depois de "Josie magnolia", o disco acaba com "you never walk alone", cuja introdução lembra o Led Zeppelin.

Este disco é um marco e já nasceu clássico, porque é o resultado de um trabalho maturado, testado e aprovado por incontáveis apresentações antológicas por todo o Brasil - a maioria delas, certamente, no bom e velho Capitão Cook, em Aracaju. É certamente uma das melhores manifestações desta entidade viva e rica porém ainda obscura, o rock sergipano.

Ouça no volume máximo, compareça aos shows e ajude a divulgar você também esta pequena pérola do cancioneito independente.

Vida longa e próspera (que o azar pare de os consumir).

por Adelvan

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Entrevista: Dave McKean

Sinal e Ruído foi lançado pela primeira vez como graphic novel em 92, há quase 20 anos. Ainda assim, tanto história quanto arte não parecem ter envelhecido. Era um trabalho a frente de seu tempo?
Não sei. Foi com certeza parte de um grupo de trabalhos feitos por pessoas, especialmente na Inglaterra, tentando distanciar os quadrinhos da temática exclusiva de super-heróis e histórias de aventuras. Tentávamos construir um corpo de trabalho que não remetesse à juventude nostálgica do leitor, mas que fosse um pouco mais madura. E só nos últimos anos uma nova onda de autores, jovens roteiristas e desenhistas sem interesse nenhum pelos super-heróis da Marvel e da DC e coisas do tipo apareceu e começou a criar este tipo de quadrinho. Então, mesmo com seus 20 anos, Sinal e Ruído se encaixa bem nessa nova onda de obras que agora se tornaram meio que a vanguarda da arte sequencial.

Então você acha que essa tendências dos anos 90 está voltando? Os quadrinhos pintados...
Não é tanto por uma questão da pintura, é a ideia de fazer quadrinhos que se encaixem e tenham ligação com uma ficção mais geral, com romances publicados no momento, com filmes mainstream - não filmes de gênero. De tentar fazer quadrinhos que sejam mesmo para um público adulto. Não para crianças e não exclusivamente voltada para a ficção científica e fantasia.

Na história, o personagem principal diz: "Faço desenhos e pinturas de vez em quando, mas o cinema é uma obsessão". Você considera alguma de atividades artísticas uma obsessão?
Os quadrinhos foram meu primeiro amor, por isso acho que nunca vou parar de fazê-los. Experimento uma porção de outras mídias e ainda gosto de pular de lá pra cá, fazer outras coisas, mas acho que sempre vou acabar voltando. Há algo de muito, muito poderoso no fato de que posso fazê-los sozinho. Não preciso de uma equipe enorme, de um monte de pessoas do meu lado, não preciso de um orçamento muito grande. Só preciso de uma ideia, papel e lápis. E a mídia em si, por ser tão privada, fala com o leitor em particular e faz com que ele ouça as vozes dos personagens em sua cabeça. Há algo realmente poderoso nisso.

No prefácio você diz que a melhor versão de Sinal e Ruído é a radiofônica, gravada pela BBC.
Ao menos por enquanto! É uma história para a qual estamos sempre voltando - ao menos eu volto. Assim, a cada versão ela parece ficar melhor. Acho que eu e Neil [Gaiman] éramos ainda muito jovens quando fizemos Sinal e Ruído, quando a história foi publicada em capítulos na revista The Face. E não sei se entendíamos exatamente sobre o que estávamos escrevendo. Por isso acho que a versão em áudio é melhor. Além disso, ela lida com o aspecto do ruído na vida, porque pudemos usar sons e barulhos propriamente ditos. Se um dia houver uma versão definitiva, será em filme. Já escrevi dez tratamentos do roteiro tentando realizá-lo. Creio que assim conseguiríamos realmente lidar com as ideias contidas na história do melhor modo possível. E ainda posso acabar voltando e fazendo uma outra versão em quadrinhos. Mas há vinte anos certamente não acredito que éramos maduros o bastante para lidar com o tema. Agora temos uma chance muito melhor de acertar.

Então, é uma obra que vai estar sempre em construção.
Acho que sim. É uma ideia para uma história. A questão básica e central do álbum é: "O que você vai fazer no tempo que resta de sua vida?". Todos um dia precisam pensar nisso. E a maioria das pessoas não pensa em um prazo final em particular e talvez por isso não pense nisso como uma questão urgente. Mas se você descobre que lhe resta apenas um certo tempo de vida, ou conforme vai ficando mais velho, você certamente começa a sentir este fim se aproximando. E aí a questão de o que você faz todos os dias, o que é importante e o que é irrelevante, o que você deveria estar fazendo e o que você vem fazendo por razões estúpidas ou sem importância, se torna realmente importante. Assim, acho que vamos sempre voltar para esta questão. Mesmo que eu não continue a explorá-la dentro da ideia de Sinal e Ruído, que é o diretor de filmes escrevendo sua última história, acho que seu ponto central vai acabar se infiltrando de alguma forma em outros de meus trabalhos.

Desde o início, seu estilo sempre foi muito particular. Quais artistas o influenciaram na época e quais são suas influências hoje?
Muitos pintores, mas não só pintores. Sir Francis Bacon, por exemplo. Há alguns poucos desenhistas de quadrinhos que eu gostava muito. Quando eu estava estudando artes, Bill Sienkwicz era um deles. Gostava de tudo o que ele fazia na época, mas o interessante é ele sofria influências de pessoas que eu realmente gostava. Ilustradores como Ralph Steadman e pintores como Gustav Klimt, você sabe, alguns dos artistas da pop art. Mas hoje sou influenciado por tudo e todos, mesmo. Não acho que exista uma pessoa em particular que eu possa apontar como uma influência principal. Espero que todas as coisas que eu vi e pessoas cujo trabalho apreciei tenham se mesclado na minha corrente sanguínea ao ponto de não ser mais possível isolar uma única fonte. Virou simplesmente meu estilo. A pessoa mais significativa para mim nos últimos anos foi o quadrinhista italiano Lorenzo Mattotti. Sua obra me ensinou muitas coisas sobre composição, cor e a ligação muito, muito maravilhosa entre a narrativa expressiva, os quadrinhos e as marcas que ele deixa na página. Para mim é o melhor atualmente.

Alguns especialistas dividem os quadrinhos em três ramificações de estilo: o europeu, os comics norte-americanos e o mangá. Mas os autores britânicos não parecem se enquadrar em nada disso. Por quê?
Bem, não temos uma indústria de quadrinhos forte, uma identidade. Os Estados Unidos já tinham, começando com as histórias de animais falantes e então super-heróis, ambos tipicamente americanos. O mangá é obviamente japonês em seu estilo. Na França, toda a energia que a Inglaterra empregou na música pop nos anos 60 foi usada nos quadrinhos. Por isso a música pop francesa é horrível e os quadrinhos deles são incríveis. Na verdade, os roteiros e desenhos franceses são bem comuns, mas os tipos de histórias que eles são capazes de desenvolver são ilimitados, então as pessoas interessadas em fazer quadrinhos na Inglaterra tiveram que procurar suas influências em outros lugares. E aí pegamos o que havia de interessante no que era produzido nos Estados Unidos, onde com frequência os gêneros de HQ mainstream são limitados e, portanto, você é obrigado a pensar de maneira inovadora. Por isso tivemos Alan Moore escrevendo aquelas histórias. Uma vez que era obrigado a conviver com a limitação de fazer quadrinhos de super-heróis, Alan teve que procurar meios cada vez mais interessantes e barrocos de alterá-los. No fim, temos o melhor de cada um na Inglaterra. Podemos extrair elementos do quadrinho europeu, dos Estados Unidos, do mangá e de outros lugares do mundo.

Você conhece algum quadrinho ou artista brasileiro?
Creio que não. Acho que conheço alguns artistas sul-americanos. Não tenho certeza de onde eles são. A maioria deve ser da Argentina, como Carlos Nine e artistas que foram publicados nas revistas Creep e Eerie. Creio que havia uma série de ilustradores sul-americanos que fizeram trabalhos para eles. Mas não sei a respeito de quadrinhistas brasileiros. O mercado é grande no Brasil?

Na verdade, não muito. A maioria trabalha para os Estados Unidos.
É, tive essa impressão.

Vi o vídeo de uma palestra sua em que você diz sobre Asilo Arkham, graphic novel que fez com Grant Morrison: "Nunca entendi o Batman, com suas orelhas pontudas. Por isso o transformei em um monstro". Nitidamente você não é fã de super-heróis. Por quê?
Por quê? Porque não acho que eles sejam muito interessantes. Personagens arquetípicos mais antigos, como Drácula e Frankenstein, são incríveis, porque parecem incorporar coisas realmente primitivas. A ideia do homem brincando de Deus ou de uma sociedade secreta agindo como predadora são temas amplos. Você pode falar sobre a crise bancária usando vampiros. Pode abordar a epidemia de Aids usando vampiros. Mas super-heróis são tão específicos! Eles têm que usar aqueles uniformes ridículos, identidades secretas e capas. Você é obrigado a fazer histórias estúpidas, estreitas e pobres. No fim, me parecem uma espécie de fantasia a respeito de pessoas com poderes sobre outras pessoas, ou sobre países com poderes sobre outros países. E acho isso realmente horrível. Se o gênero ocupasse cinco por cento de todos os quadrinhos publicados, eu nem ligaria. Mas pelo fato de constituírem noventa por cento do que é lançado, ao menos nos Estados Unidos, os odeio ainda mais, porque dominam esmagadoramente esta mídia que eu amo, distorcendo-a, transformando-a nesta versão deplorável de si mesma. E agora que os super-heróis tomaram conta do cinema e meio que estragaram essa indústria também, tenho mais razão para odiá-los! Hoje, desprezo todos eles.

Mas as coisas melhoraram, não? Há mais espaço para se publicar quadrinhos independentes nos Estados Unidos hoje em dia.
Este é definitivamente o fato a que me apego. Acho que os quadrinhos estão passando por um tipo de Era de Ouro, e acho mesmo que isso não tem nada a ver com Marvel, DC, Superman, Batman ou Homem-Aranha. Tem a ver com toda uma nova geração de pessoas que vêem as HQs como uma linda mídia para contar suas próprias histórias, que vêm do mundo todo. Há uma série de roteiros documentais, da vida real. Há muitos desenhos que não têm relação nenhuma com o que foi produzido no passado. E há escritores e artistas já estabelecidos de olho nesta nova safra e pensando: "Bem, talvez eu possa fazer isso também". Isso é fantástico. Há uma porção de trabalhos extraordinários e espero que isso continue. Espero que as lojas especializadas e as editoras continuem a apoiá-los. Os leitores estão aí.

Na época das capas de Sandman, lembro de ter lido que você ainda relutava em fazer todo o trabalho digitalmente. Como é seu processo hoje?
Na verdade, fiz uma grande quantidade de trabalhos digitais na época. Ainda amo o Photoshop e passava tudo pelo programa. O que foi ótimo, porque aprendi o que pude sobre ele e consegui aproximar o resultado final do que havia imaginado em minha cabeça. Hoje, por haver tantas imagens digitais por aí, tantas capas de livros e de CDs que não chegam nem a ser produzidas por ilustradores (os diretores de arte simplesmente jogam umas coisas no Photoshop e chamam de capa), voltei a pintar, porque há algo no ato físico de marcar a página. Ainda jogo as imagens no Photoshop eventualmente para limpar, adicionar camadas ou fazer alguns ajustes, mas a maior parte é desenho ou pintura produzido manualmente mesmo.

Sandman obviamente explorava imagens oníricas e surreais, mas é fácil notar que este é um tema recorrente em todas as suas obras. Já houve algum sonho ou pesadelo que o inspirou diretamente?
Não. Boa parte do meu trabalho tem essa aparência de sonho porque é assim que vejo o mundo. Gosto de muitos filmes e livros que são realistas e lidam com o dia a dia, mas eu, pessoalmente, não consigo contar minhas histórias com facilidade deste jeito. Gosto de olhar para os acontecimentos e coisas da vida real através de uma lente que leva em conta o que as pessoas estão pensando, ou como interpretam o mundo à sua volta, e isso leva a imagens oníricas. Creio que é para isso que a arte existe. Vejo a arte, principalmente o cinema, como um sonho, uma versão alternativa do mundo real, mas totalmente fabricada, criada por mentes humanas. E neste mundo tudo pode acontecer, e tudo pode tocar e se relacionar com todo o resto. Só que dentro disso há a matéria prima, que é a realidade, nossos medos, esperanças, amores e vidas reais.

É rara uma parceria tão duradoura quanto a sua com Neil Gaiman. Que fatores foram determinantes para que isso acontecesse?
Bem, gostamos um do outro e isso ajuda bastante. Gostamos dos trabalhos um do outro, temos uma confiança mútua e adoramos nos desafiar. Atingimos um ponto de nossas carreiras em que não nos sentimos obrigados a fazer todos os nossos projetos juntos. Podemos passar alguns anos sem retomar a parceria, embora sempre saibamos que um dia voltaremos a nos reunir. Ambos temos carreiras separadas saudáveis, trabalhando com outras pessoas ou em projetos solo. Somos pessoas bem diferentes. Vidas, prioridades e gostos diferentes, mas há uma intersecção nesse meio. E aí quando voltamos a nos reunir trazemos tudo o que andamos experimentando e observando, e isso acrescenta um tempero novo à nossa parceria. Não somos do tipo que fica reciclando as mesmas ideias o tempo todo. Tentamos sempre encarar novos desafios.

Já houve algum projeto que vocês idealizaram, mas que não pôde ser executado?
Houve várias coisas que falamos em fazer ou planejamos pela metade ou tentamos tocar, mas não aconteceram. Filmes são sempre muito mais difíceis que qualquer outra coisa, por causa da quantidade de dinheiro envolvida. Nós dois adoraríamos fazer algo no teatro ou algo que fosse ao vivo - algum evento circense ou musical - e botar em prática algo assim é bem mais complicado que elaborar um livro. Mas acho que quando formos trabalhar juntos da próxima vez pode ser que seja em algo deste tipo.

Gaiman está entrando no mundo da música com a esposa dele, a cantora Amanda Palmer. Vocês pretendem estender a parceria para este campo também?
Há chances sim! Tenho escrito músicas usando textos de Neil há alguns anos e, como eu disse, sempre quisemos montar um evento ao vivo com música e performance. Então, sim, claro.

Há alguma conexão entre música e som e seu estilo de pintura e desenho? Porque seus trabalhos me parecem ter um elemento de improviso, algo quase jazzístico.
A música é muito importante para mim. Ouço o tempo todo enquanto trabalho, e toco também o tempo todo. E isso tem um efeito na arte que produzo. Em quase tudo o que faço, mesmo o roteiro de um quadrinho, e definitivamente o roteiro de um filme, se consigo ouvir, imaginar as músicas que tocariam em sua trilha sonora, consigo cristalizar o clima, as cores que vou usar. Encontrar músicas que realmente se encaixam no trabalho me ajuda a visualizar as imagens que se encaixam na atmosfera da história.

Na produção de HQs há o roteiro como base. E no caso das capas de CDs? A inspiração vem das próprias faixas?
Quase sempre. Muito raramente a banda ainda não tem as músicas prontas e fico sem ter o que ouvir, mas normalmente consigo alguma coisa, nem que seja uma ou duas. A inspiração vem daí. Não tenho interesse em ser muito literal nas capas que faço. Prefiro a reação crua que parece capturar a música. E mesmo que seja o tipo de gênero que normalmente não ouço, não importa muito, porque há um canal de resposta emocional direto. Por isso fico até feliz em passar o dia ouvindo coisas a que não estou acostumado, reagindo a isso e criando trabalhos que normalmente não faria.

Há alguma regra na hora de escolher qual capa fazer? Você tem preferência por bandas das quais gosta ou é só mais um trabalho?
Na verdade não tenho regras. Felizmente tenho feito capas para bandas que realmente adoro. Acho que só teria problemas em fazer algo para algum grupo realmente pop, como uma boy band ou algo assim. Nem saberia o que fazer, porque a minha reação nesse caso é nula. Mas amo jazz, folk, eletrônica, esotérica, músicas do resto do mundo. Adoro fazer capas para todas essas coisas.

Você é dono de uma gravadora, a Feral, e também toca piano. De onde vem esta afinidade com a música?
Foi a grande escolha que precisei fazer na vida. Quando eu era adolescente, tocava em bandas de jazz e rock o tempo todo, fazendo shows pelo sul da Inglaterra. E então tive que escolher se seguiria a carreira de músico ou me encaminharia para as artes. Uma vez que eu não sabia ler partituras - toco jazz e só de ouvido, jamais seria um pianista clássico - achei que seria melhor entrar na escola de artes e continuar tocando com as bandas ocasionalmente. Tentei isso por um tempo, mas os desenhos e ilustrações passaram a me tomar tanto tempo que não tinha mais como continuar. Por isso a música acabou se tornando algo como um passatempo pessoal. Minha ocupação na vida é a de ilustrador.

Frequentemente você descreve a produção de Máscara da Ilusão (2005), seu filme com Gaiman, como um verdadeiro pesadelo. O que houve?
[Risos] Foi muito difícil, porque tínhamos pouquíssimo dinheiro e muitas sequências de animação 3D para fazer. E eu não tinha experiência, era meu primeiro filme. Achávamos que a pós-produção levaria oito meses, mas levou quase dezoito. Fazer apenas isso, compor as imagens e trabalhar nas cenas quadro a quadro por todo este período, seis dias por semana, das dez da manhã até cerca de quatro da madrugada foi mesmo um pesadelo. Tornou-se uma tarefa ridiculamente interminável. Havia sequências que eu realmente adorava. A atriz Stephanie Leonidas foi maravilhosa e todos nós nos dedicamos muito, mas eu basicamente perdi minha fé no filme. Não achava que o roteiro era sólido o suficiente. Não achava que a história tinha força e me dei conta que não havia como encobrir estas falhas com uma porção de imagens lindas. Por conta de tudo isso, Máscara da Ilusão permanece sendo um grande desapontamento na minha carreira. Nunca mais vi o filme. E certamente não quero vê-lo de novo. Na época, houve pequenos momentos maravilhosos em que as coisas funcionavam e as animações tomavam vida, mas eles tendem a se dissipar e tudo o que me lembro de verdade é o longo e exaustivo pesadelo de tentar terminar o filme e os vários equívocos e problemas do resultado final, sobre os quais não posso fazer mais nada a respeito.

Mas você não vê isso como a consequência de uma primeira tentativa?
Há uma porção de probleminhas nele com os quais eu meio que conseguiria conviver, porque é normal cometer erros, e o tempo é sempre uma fator de pressão, não há como voltar e filmar as coisas de novo quando o orçamento é baixo. Mas o principal defeito é o roteiro. E para se fazer um roteiro, o certo é levar o tempo que for necessário para que fique bom. Não era caro, era só eu e Neil em uma sala. O problema é que houve um tempo limite, uma janela para apresentarmos o roteiro à Sony Pcitures para conseguirmos a verba que estava disponível como parte de um contrato de dois filmes feito pelo estúdio com a Jim Henson Company. Por isso tivemos que correr. Então entregamos a primeira versão, e o que eles deviam ter dito era: "Muito bom, Neil. Tem ideias muito legais aqui, mas vá embora, trabalhe nelas mais um pouco e volte com uma segunda ou uma terceira versão revisada". Mas não foi o que aconteceu. A Sony disse: "Legal. Aqui está o dinheiro, vão fazer o filme!". Na época achamos fantástico, mas devíamos mesmo ter trabalhado mais na história e tornado-a mais sólida. Não há desculpa para isso.

Você está com um filme novo, Luna, certo?
Tenho dois filmes, na verdade. Luna tem sido um pesadelo também, mas por um motivo diferente. Estou muito contente com o roteiro que foi filmado e com a edição, mas a parte financeira tem sido um pesadelo. A companhia que deveria ter bancado não conseguiu cumprir o acordo e por isso tivemos que fazer várias pausas na produção enquanto tentávamos arrumar mais dinheiro para avançar mais um pouco. No momento está tudo filmado e editado. Há algumas poucas sequências animadas, nada muito complexo, mas elas precisam ser feitas e estamos tentando viabilizar. Por conta disso, vem levando um longo tempo e provavelmente ainda vai levar mais um ano até que fique totalmente pronto. Mas cada vez que trabalho em Luna acho que fica ainda melhor, e estou muito contente com isso. Tenho muito mais confiança neste filme do que tive ou tenho em Máscara da Ilusão. Há um outro filme, meu terceiro, que acabamos de rodar. Tem financiamento, temos um prazo até o fim do ano, e provavelmente vai ficar pronto primeiro. Se chama The Gospel of Us, e é como uma estranha e contemporânea Paixão de Cristo, em que Michael Sheen interpreta um personagem meio como Jesus, no País de Gales. Com sorte teremos tudo pronto no fim do ano para o lançamento na próxima Páscoa.

Quais cineastas o inspiram?
[Risos] Minha maior inspiração é passar por tudo isso e tentar sair vivo! Existem vários cineastas que eu adoro, mas ainda me sinto um principiante e acho que seria muita presunção dizer que este ou aquele diretor me influencia. Mas há montes de cineastas que adoro. E filmes diferentes foram influenciados por pessoas diferentes. Sou um grande fã de Woody Allen, e embora Luna não seja uma comédia, acho que todo o amor que tenho por sua obra foi parar lá. The Gospel of Us vai ser um filme muito mais experimental e expressionista, então puxa para o lado de caras como Andrei Sakharov e Michel Gondry. Mas não acho que The Gospel of Us vá se parecer com qualquer outro filme, porque foi filmado em três dias, como um evento teatral ao vivo. Por isso, em parte ele documenta esse estranho espetáculo teatral acontecendo em uma cidade, com seis mil pessoas assistindo. É parte filme e parte algo completamente diferente. Acho que vai ser um filme bem estranho.

A esta altura de sua carreira, acredito que você possa escolher com quem quer trabalhar. Há algum escritor que você admire e com quem gostaria de fazer um livro ou álbum em quadrinhos?
Claro, vários! Tive muita sorte de já ter trabalhado com alguns. Fiz um livro com um chef de cozinha incrível chamado Heston Blumenthal, um dos grandes chefs de vanguarda do mundo. Também terminei recentemente um livro com o biólogo Richard Dawkins, de quem sou um grande fã. Além disso, tem sido incrível trabalhar com Michael Sheen. Nos encontramos para fazer um livro juntos, e ainda vamos fazê-lo, mas The Gospel of Us surgiu e adiamos. Ainda há muitas pessoas, muitos novelistas com quem gostaria de trabalhar. Adoraria fazer algo com Paul Auster, que sempre foi um dos meus favoritos. Seria ótimo fazer uma história com ele.

Você diz que não se considera um artista. Como você vê a si mesmo e sua obra?
Bem, eu tento evitar o termo, de verdade. O problema com a palavra "artista" é que não sei mais o que ela significa. A única definição que parece atingir algum consenso é, "se seu trabalho é vendido por muito dinheiro em uma galeria, você é um artista". Mas há um monte de coisas horríveis por aí que eu não chamaria de arte de maneira nenhuma. É um tipo estranho de comércio, mas que não chega a ser arte, até onde me diz respeito. Por isso não tenho convicção nessa definição. E há uma outra que diz que qualquer coisa que alguém faz sem relação direta com se alimentar, procurar abrigo ou reprodução sexual é arte. Mas esta parece relativizar todo o significado do termo, por isso também não concordo com ela. Assim, o que faço e faz sentido para mim, é reservar o termo "artista" para aqueles que trabalharam em áreas criativas e foram absolutamente inovadores, criando a própria linguagem da arte, como Picasso e Miles Davis. Não é o que eu faço. Uso linguagens já estabelecidas para criar meus próprios livros e filmes. Por isso já fico feliz de ser chamado de ilustrador, pintor, fotógrafo, o que seja. Mas "artista" soa presunçoso demais. E desconfio de qualquer um que chegue se apresentando dizendo "Olá, sou um artista". É como se alguém dissesse "Oi, sou um gênio, prazer!".

Fonte: Rolling Stone Brasil

por J.M. Trevisan