quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Dilma, a "rebelde"

Era o final de uma manhã de brisa fria e sol quente, no início de setembro, quando o presidente do sindicato dos taxistas de São Paulo, Natalício Bezerra da Silva, tomou o microfone e se dirigiu à restrita plateia: “Vamos respeitar, hein? Nada de gracinhas. Não se convida uma pessoa para vir na casa da gente e a gente hostiliza.” O grupo aguardava a chegada da presidente da República e candidata à reeleição, Dilma Vana Rousseff, do Partido dos Trabalhadores, que naquele momento tinha 36% das intenções de votos – o que a colocava em empate técnico, no primeiro e segundo turnos, com Marina Silva, do Partido Socialista Brasileiro, catapultada às alturas nas pesquisas depois da morte do cabeça da chapa, o ex-governador Eduardo Campos, em agosto.

“Eu não estou preocupado com vocês, não. Nossa categoria é respeitosa, mas pode aparecer alguém de fora, querer aprontar, tumultuar, aí vai ter”, continuou o sindicalista, ainda que sua preocupação fosse infundada, já que o ambiente estava cirurgicamente controlado. A imprensa foi espremida num pequeno palanque. Apenas dirigentes sindicais identificados – a maioria trazendo estampados no peito adesivos com a cara da candidata – tinham acesso à área diante do palco. Populares eram vetados. Uma mulher, moradora de um prédio vizinho, foi orientada por um segurança a dar a volta no quarteirão para entrar em casa. Meia hora depois, Dilma Rousseff foi recebida por uma audiência calorosa. A equipe da candidata filmava tudo.

A menos de um mês das eleições, a campanha da presidente precisava se blindar de vaias, perguntas incômodas, manifestações populares fora do script. E pior: tinha que lidar com uma inédita e sombria perspectiva nas urnas. Dentre os eleitores, apenas 38% achavam sua gestão “boa ou ótima”. Ainda segundo o Datafolha, mais da metade da população a considerava entre regular e péssima. Sua rejeição em São Paulo – maior colégio eleitoral do país – alcançava 47%. Em âmbito nacional, 34% do eleitorado afirmavam não votar nela “de jeito nenhum”. Era o maior percentual negativo entre os presidenciáveis. Desde o início da corrida eleitoral, pela primeira vez parecia concreto o risco de o PT deixar o poder depois de doze anos no comando do país.

A popularidade de Dilma Rousseff, ao chegar ao governo, ultrapassava os 70% de aprovação. O caminho entre o pedestal e a corda bamba foi curto e difuso. É difícil determinar a pedra que pavimentou a rota do declínio: se as decisões econômicas ou a inexperiência política da governante; se a onda de mudança que veio à tona nas manifestações de junho ou o temperamento insular da mandatária; se a ojeriza aos rituais da política ou a tentativa de imprimir a própria marca ao governo; se a persistência da crise internacional ou o espectro de seu padrinho político, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que lhe fez sombra durante todo o processo. Uma relação peculiar que – como disse certa vez o ministro Gilberto Carvalho – ainda vai merecer estudos acadêmicos.

Para esta reportagem, foram ouvidas 26 pessoas ligadas à presidente ou ao Partido dos Trabalhadores. A maioria pediu anonimato. Dentre os procurados, apenas Dilma Rousseff e o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, se negaram a falar com piauí.



Ao assumir o mandato, Dilma Rousseff – a gerentona, a mãe do Programa de Aceleração do Crescimento – tinha em mente o que queria fazer: dar continuidade às políticas de inclusão social do governo Lula e implementar uma agenda desenvolvimentista, das grandes obras de infraestrutura, assunto que sempre lhe foi caro, para mover a economia. O país tinha crescido em ritmo chinês e parecia recuperado do impacto da crise global de 2008. Além disso, havia a perspectiva dos ganhos do pré-sal e da vitrine da Copa do Mundo.

A primeira equipe ministerial tinha a cara da dupla. Dos 37 ministros, quinze haviam sido indicados por Lula. Entre eles, Guido Mantega, mantido na Fazenda, e Fernando Haddad, na Educação, com vistas à sua campanha eleitoral para a Prefeitura de São Paulo. O ex-presidente também pediu para segurar José Sérgio Gabrielli no comando da Petrobras. Dilma ainda herdou boa parte dos dirigentes de estatais e autarquias, e até a chefe do escritório da Presidência em São Paulo, a então desconhecida Rosemary Noronha. E acomodou as nomeações de ocasião feitas pelos partidos da coligação. De sua lavra, emplacou as ministras mulheres e o ex-prefeito de Belo Horizonte, o amigo Fernando Pimentel, no Desenvolvimento.

Desde que Lula inventou a candidatura de sua ex-ministra das Minas e Energia e da Casa Civil, o que ele via como qualidade em Dilma, uma fatia do petismo e dos partidos aliados enxergava como defeito intransponível: o voluntarismo, as opiniões fortes, o temperamento irascível, a inexperiência política e até o vocabulário prolixo, de falas longas e enfadonhas, permeadas de termos técnicos. Um dos mais próximos interlocutores de Lula disse ter sempre defendido que ela precisava de “assessoria emocional” para ser presidente.

Lula parecia calcular que sua presença ao alcance em caso de emergência, a competência gerencial da sucessora, a boa onda na economia e a força do apoio de dezessete partidos e de mais de 80% do Congresso Nacional garantiriam um governo de sucesso. O resto era contornável. No mais, ele era o grande vencedor da eleição. Seu poste havia chegado lá.



Os primeiros meses de governo foram redentores. Em poucas semanas, Dilma já mostrava a que viera: vetou a distribuição de cargos federais para parlamentares da base governista e anunciou um corte de 50 bilhões de reais no Orçamento. Foi à China, visitou vizinhos latino-americanos, recebeu no Planalto o presidente americano Barack Obama. Jactava-se de ser a primeira mulher a discursar na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas. Era uma estadista.

A classe média e a elite enfim reconheciam um rosto familiar: Dilma era discreta, tinha compostura, falava português sem erros de concordância, fazia o estilo durona e parecia intransigente diante de evidências de corrupção. Distanciava-se do jeito Lula de ser. Rapidamente, a impressão foi captada pelas pesquisas de opinião. Em maio de 2011, o Ibope registrava que ela tinha 73% de aprovação popular.

Ainda na primeira quadra do ano, Dilma teve uma pneumonia e precisou se afastar. A bancada do PMDB aproveitou para fazer o que melhor sabe: escambo político. Na votação do Código Florestal, ameaçou ir contra o governo caso não fossem atendidos os pedidos de emendas e cargos. Em seu primeiro choque de realidade, a presidente também respondeu com as armas que melhor maneja: ameaçou demitir os ministros do partido. Instalou-se a primeira das muitas crises com a base aliada. Sem avisar Dilma, Lula desembarcou em Brasília para acalmar os ânimos dos correligionários. Reuniu-se com o vice-presidente, Michel Temer, foi fotografado ao lado de José Sarney e Renan Calheiros, dourou a pílula e, para alguns, atribuiu à inexperiência da sucessora a confusão, afinal contornada.

A mensagem ficou clara: a luz do poste era ele. Dilma, é lógico, não gostou. Sentiu-se atropelada por Lula, enquanto ele acreditava estar apenas acomodando a situação. O PMDB acabou votando em peso a favor da emenda que anistiava os desmatadores, derrotando o governo. E ninguém foi demitido. Recentemente, um petista paulista resumiu o caso: “Essa inabilidade política, misturada com arrogância, marcou as ações dela. Como pôde achar que era ligar, ameaçar o vice e ele ia pedir desculpas?” Mas Dilma saiu maior do episódio: era ela brigando quixotescamente contra os venais da política.

Em maio, o país tomou conhecimento do portentoso aumento de patrimônio do ministro Antonio Palocci. Em apenas um ano, sua empresa de consultoria havia faturado 20 milhões de reais. Na época, uma ministra disse ter ouvido da presidente: “Eu achei que fossem 3 ou 4, mas 20 é foda.”

A saída de Palocci da Casa Civil foi um divisor de águas. Além de ter a confiança do empresariado mais graúdo, era ele quem negociava a votação de projetos e o preenchimento de cargos no governo. No Planalto, também acalmava o ambiente. Com ele, Dilma não precisava se expor às querelas brasilienses, à romaria dos parlamentares atrás de verbas, às visitas de ocasião dos representantes do PIB. Palocci fazia bem o serviço.

No lugar dele, assumiu a senadora petista Gleisi Hoffmann. Ao lado da também petista Ideli Salvatti, na articulação política, elas formavam, com Dilma, a trinca que passou a dar o tom das negociações do governo com seus aliados. A nomeação repercutiu mal no entorno, que ficou com a impressão de que as duas eram “café com leite”: não tinham pulso firme ou estofo político. Como verbalizou o então ministro da Defesa, Nelson Jobim, a piauí, em agosto de 2011: “Ideli é muito fraquinha e Gleisi nem sequer conhece Brasília.”

A presidente tinha suas razões. Primeiro, não queria outro “superministro” para lhe fazer frente – Palocci era uma exceção. Até o último minuto, Lula garantiu ao titular da Casa Civil que ele ficaria no cargo, mas Dilma sepultou a hipótese. Em público, ele pediu demissão, aceita por ela depois de vinte dias de crise. Quis para o lugar alguém em que pudesse confiar, mas, sobretudo, mandar. Agradava-lhe ainda a ideia de valorizar duas mulheres naqueles cargos, antes só ocupados por homens.

Nesse momento, para vencer a tentação de dar palpites – como ele mesmo declarou –, Lula se embrenhou numa maratona de viagens internacionais que lhe tomaram quase todo o ano de 2011. Coincidiu com a época em que o governo Dilma começou a ter uma feição própria. As demissões em série deram ao marqueteiro João Santana uma senha para colar na presidente: Dilma era a faxineira da corrupção.

Em seis meses, sete ministros foram demitidos – seis envolvidos em denúncias de irregularidades no cargo. Se a faxina encantou parte da opinião pública, internamente acendeu um sinal de alerta. Entre os aliados, o crachá de faxineira pressupunha a corrupção incrustada na máquina do Estado, expondo-lhe as tripas. Quatro dos seis ministros vinham do governo Lula. No PT, comentava-se a facilidade com que Dilma rifava companheiros. “Demissões por malfeito são ossos do ofício”, disse ela à época.



Sem Lula e sem Palocci, Dilma ia ficando mais Dilma. Em meados de 2011, por ocasião do aniversário de 80 anos de Fernando Henrique Cardoso, ela enviou um cartão de felicitações cheio de elogios ao ex-presidente tucano. O petismo estremeceu. Não bastasse, ela tomava providências em áreas das quais seus antecessores mal haviam tido coragem de se aproximar: instalou a Comissão da Verdade para esclarecer crimes da ditadura militar, assunto que Lula procrastinava, e aprovou a Lei de Acesso à Informação, acabando com o sigilo eterno de documentos públicos.

O empresariado estava encantado. Como havia assumido o governo com o dólar depreciado, o que prejudicava a indústria, Dilma Rousseff procurou beneficiar o setor controlando o câmbio, por exemplo. Preparava o maior pacote de concessões da história, que daria à iniciativa privada um bom pedaço das estradas, aeroportos e ferrovias do país. Com a imprensa, o clima era de início de namoro.

O governo seguia em velocidade de cruzeiro quando, no final de outubro, veio o baque: Lula foi diagnosticado com um câncer na laringe. Ela, que havia tratado a mesma doença havia pouco mais de dois anos, ficou devastada com a notícia. Sem o padrinho por perto, o poder dos lulistas no Planalto foi se esvaziando. A começar pelo do secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, e de Marco Aurélio Garcia, assessor especial para Assuntos Internacionais, sobre os quais ela costuma dizer que “falam coisas que não são do nosso governo”. No Planalto, ela já era chamada de “a tia”, apodo cunhado pela velha guarda lulista. Até hoje, não raro um estranho pode escutar durante uma visita que “a tia está procurando” por alguém.

No fim de 2011, Dilma atingiu o maior índice de aprovação de um presidente: 59% dos brasileiros consideravam sua gestão ótima ou boa. Foi o maior percentual já alcançado desde a volta das eleições diretas no país. A economia cresceu menos que no ano anterior, mas o Brasil havia criado 2 milhões de empregos e superado a Inglaterra, tornando-se a sexta economia do mundo. O poste começava a brilhar sozinho.

Por essa época, num encontro no Planalto, ela confidenciou a um ex-ministro do governo Lula, com quem ambos mantêm boas relações: “Se o Lula quiser, a próxima é dele. É só ele me falar”, disse, referindo-se às eleições de 2014.



O segundo ano de governo começou tépido e inodoro como uma fala de Michel Temer. Com a perspectiva das eleições municipais em outubro, Dilma diminuiu a agenda de viagens e se trancou no Planalto para traçar os termos do bilionário pacote de concessões em infraestrutura. Estava em seu ambiente: imersa em números, cláusulas, índices, percentagens, muito PowerPoint.

A performance da presidente já era conhecida desde os tempos das Minas e Energia: ela abria o computador, vertia uma miríade de estatísticas, elencava planilhas, “espancava o projeto” – como gosta de dizer – até não sobrar de pé nenhuma brecha ou dúvida. Comandava reuniões infindáveis, em que se debatia por horas um mero ponto e vírgula. Nas negociações do pacote dos aeroportos, um ministro disse terem passado oito meses falando sobre a TIR – a taxa de retorno dos investidores. O detalhismo emperrava o processo, decisões se arrastavam e o projeto demorava a sair do papel.

A essa altura, já estava evidente sua ojeriza pelos rituais da vida brasiliense: reuniões com ministros, encontros com deputados, recepções no Itamaraty, fuxicos com a base aliada. Receber entidades de classe era um parto. Movimentos sociais, muito de vez em quando. Empresários tentavam, em vão, marcar audiências na agenda sempre lotada – pelo menos para eles. Nos encontros com parlamentares, chamava atenção a falta de autonomia de Ideli Salvatti. Ou ela respondia às demandas dizendo que “ia ver com a presidente”, ou chegava chutando a canela dos interlocutores, como um ventríloquo da chefe.

Dilma não falava nem com a bancada do PT. “Para ela, a política era o mal em si. Empresário era abutre, e político era picareta. É assim que ela pensa”, disse um importante dirigente do Partido dos Trabalhadores, durante um café da manhã, no Rio. Dilma não liberava dinheiro, dificultava a distribuição de cargos, não recebia os políticos, não respondia aos empresários. Um assessor da Presidência resumiu as razões do comportamento: “Ela achava que já sabia o que eles iam pedir ou reclamar. Então, na cabeça dela, não tinha que gastar tempo com isso.”

Os caprichos desnorteavam o cerimonial do Palácio do Planalto. Uma vez, na Espanha, ela quis fazer compras no El Corte Inglés, mas vetou a companhia de seguranças. O grupo precisou se esconder atrás das araras da loja de departamentos. Em Londres, quis andar de metrô, causando rebuliço entre os seguranças da Scotland Yard, que iam abrindo passagem para a comitiva brasileira. Em Washington, deixou em apuros o embaixador Mauro Vieira porque se recusava a se sentar, durante o encontro com Barack Obama, no salão de entrevistas da Casa Branca. Depois de muita argumentação, ela concordou. Um ex-integrante do cerimonial disse que era para evitar ser fotografada sentada – ela usava saia.

Aos poucos, as reuniões ministeriais também foram minguando. Desde a posse, todos os ministros haviam sido proibidos de falar com a imprensa. Qualquer declaração oficial, só por meio do porta-voz ou da própria presidente.

Em seu governo, Lula usava os vazamentos de informação para testar várias ideias. Deixava deputados fomentarem boatos de maneira a ter um termômetro do que pensava em fazer – ou não fazer. Também aproveitava os discursos paramandar recados, responder a ataques, fazer a defesa do governo, dar a tônica da disputa política. Conseguia traduzir questões complexas nos termos das massas.

Com Dilma, nada disso acontecia. Para ela, vazamento era apenas insubordinação, traição. Quem o fazia era posto na geladeira. O senador Vital do Rêgo, do PMDB da Paraíba, perdeu um ministério porque a hipótese de sua nomeação vazou. Testar uma ideia, só nas pesquisas qualitativas encomendadas pelo marqueteiro João Santana, partilhadas com um ou dois interlocutores. Logo se evidenciou que a comunicação era um empecilho incontornável no caso de Dilma: ela se expressava numa sequência de elipses de árdua compreensão; suas frases eram desconexas, longas, truncadas. A imprensa registrou: nascia o dilmês.

“Temos um sistema hidrológico muito sensível à água”; “Sempre que você olha uma criança, há sempre uma figura oculta, que é um cachorro atrás, o que é algo muito importante”; “Precisamos cada vez mais cooptar e captar novas fronteiras tanto na Ásia quanto no Oriente Médio”; “Todos nós aqui sabemos que cada um de nós escolhe – a vida faz a gente escolher – alguma das datas em que a gente nunca vai esquecer dessa data.” Assessores afirmam que, quando escreve, ela é clara, objetiva e focada.



Acumulam-se ao redor de Dilma histórias de gritos, esculachos e rompantes. Mais de uma pessoa me contou ter visto a filha Paula repreender em público as grosserias da mãe, extensivas a ministros, secretárias, funcionários do palácio. Um ex-ministro do governo Lula, com quem Dilma trabalhou diretamente na Casa Civil, presenciou cenas de descontrole. “O que é perverso é que os esporros dela são sempre para quem está embaixo. Ela sabe com quem pode gritar. É que nem lobisomem, sabe para quem pode aparecer”, disse, irônico.

Quatro entrevistados se valeram de conceitos do livro O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, para definir a maneira de Dilma lidar com o poder. Se Fernando Henrique queria ser admirado e Lula queria ser amado, Dilma quer ser temida. Certa brutalidade seria uma maneira de se fazer respeitar, um sintoma de insegurança. “Sou uma mulher dura cercada de homens meigos”, Dilma aprendeu a repetir desde a campanha de 2010, sempre que seu temperamento era questionado. Acertos da equipe nunca são comemorados, não passam de obrigação; desculpas, sinal de fraqueza; dúvidas, prova de desconhecimento.

Ela costuma formar sua opinião ouvindo pequenos grupos distintos – sem que eles tenham conhecimento dessa comunicação estereofônica. Insiste em saber tudo o que pode dar errado, e só então se interessa pelo que pode dar certo. Bombardeia de perguntas o mensageiro de um projeto ou uma ideia. Faz isso uma oitava acima, com expressão similar à exibida quando entregou a taça de campeões do mundo para os jogadores alemães. Os mais vulneráveis tremem. Nas discussões com a equipe, muitas vezes ela externa de cara sua opinião sobre o assunto a ser tratado – o que intimida boa parte dos presentes, que se cala, ainda mais se tiver ponto de vista contrário. O resultado é que metade da equipe não gosta dela e a outra metade tem medo.

 “Esse método prejudicou muito porque ninguém tinha coragem, ânimo ou saco de se contrapor a ela. A ausência do contraditório fez com que ela embarcasse em muitas canoas furadas”, comentou um ex-integrante da equipe econômica do governo, em meados de setembro, durante um almoço, no Rio. “Na econômica, por exemplo”, disse.



Em uma manhã de setembro, o elétrico Roberto Kalil Filho, diretor do Hospital Sírio-Libanês, médico de Dilma e Lula, estava de mau humor. “Hoje é bandeira vermelha”, disse uma de suas assistentes, num código que indica o espírito do chefe. Amigo e responsável pela saúde de autoridades, empresários e famosos, Kalil também é a ponte de vários políticos e jornalistas com a cúpula do PT. Fala frequentemente com a presidente ao telefone. Dão-se muito bem porque, ele disse, são parecidos. As conversas costumam começar com: “Oi, como estamos de humor hoje?”

Sentado em frente ao computador, ele falava sobre a paciente e amiga. Para provar o que dizia, chamou uma secretária. “Vem aqui, quem é mais cão? Eu ou a Dilma?” A moça perguntou se podia falar a verdade. “É o doutor Kalil, ele é o professor dela.” Segundo o cardiologista, avaliações sobre o temperamento da presidente são a maior injustiça contra seu governo. “Você acha que alguém chega num cargo desses sendo boazinha, pedindo por favor?”, perguntou. “Ela é incrível, maravilhosa, mas não está aqui para ficar de nhe-nhe-nhém. É igual a mim aqui no Sírio: o povo fala mal porque a gente cobra.”

Kalil também dirige o Instituto do Coração. Quando se está no comando, disse, “se a gente não mantém o tônus de doido, as coisas não andam”. “Ela é igualzinha. A gente leva no chicote porque senão não sai nada”, comentou enquanto mastigava um sanduíche de queijo. “Claro que toda pessoa como eu e ela às vezes erra na maneira de se expressar, acontece.” Mas desculpas, acrescentou, ele não costuma pedir: “Até porque estou certo.”

Quando a conversa derivou para as decisões políticas e econômicas da presidente, ele saiu pela tangente. “Palpitei no Mais Médicos. E só. Disse para ela que foi uma coisa enfiada goela abaixo, mas hoje conheço melhor o programa e acho muito bom”, afirmou. Para Kalil, se as pessoas soubessem do outro lado de Dilma, entenderiam melhor sua gestão. “Poucas vezes vi alguém tão comprometido em mudar a vida dos pobres. Mas a Dilma é fechada. Por tudo que ela passou na vida, ela é isolada, é o perfil dela.” Segundo ele, a “verdadeira Dilma” é a mulher que sai de madrugada, driblando a segurança, para andar de moto por Brasília – como havia revelado meses antes uma reportagem da Folha de S.Paulo. “Olha que ser pitoresco! Ninguém a conhece de verdade.”

A maioria dos entrevistados confirmou a impressão. Ao conversar sobre assuntos variados, fora da Presidência, Dilma relaxa, conta casos engraçados, deixa brotar o lado leve, tem o humor afiado. Vaidosa, fica lisonjeada quando seu conhecimento sobre artes, música ou literatura é reconhecido. “Ela também tem uma certa coquetterie”, disse-me um ex-ministro. “Mas, em geral, é muito defensiva”, acrescentou.

Nas ocasiões em que se permitiu baixar as armas – foram dez –, Dilma chorou em público. “Ela sempre tratou o governo como uma grande família. E sempre no papel da mãe durona, repressora, que coloca de castigo o ministro que desobedece”, comentou um ex-integrante do Ministério da Fazenda. A exigência se estende a ela própria. “Não posso errar, não posso errar” é uma frase recorrente da presidente ouvida nos corredores do Planalto.

Perguntei a Kalil se Dilma contaria com seu voto. “Claro que não! Sou malufista! O pastor Everaldo é meu candidato”, respondeu, num tom em que a troça soou ambígua. E o que seu paciente mais famoso pensava disso? “A gente não fala do assunto. O Lula diz que eu ainda sou do tempo dos macacos e que no dia que eu evoluir para humano a gente pode conversar sobre política”, respondeu.



A equipe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência era obrigada a preparar relatórios periódicos só para Dilma e Gleisi Hoffman, listando as besteiras cometidas pelos ministros. Detalhe: só as besteiras. Dilma não confia, não delega, não divide informação sobre o governo com o próprio time. Nas reuniões, avisava aos presentes: “Nem todo mundo vai saber de tudo. A informação aqui será compartimentada. Quem tem que saber de tudo sou eu, não vocês.”

Se um ministro demitia alguém sem consultá-la, corria o risco de se ver desmoralizado, como ocorreu com Fernando Pimentel, que exonerou o secretário executivo Alessandro Teixeira. Quando soube, Dilma repreendeu o ministro e chamou o demitido para trabalhar no Planalto. Da agenda dos ministros nos fins de semana – eles eram proibidos de deixar Brasília sem avisá-la – a conversas de pé de ouvido entre auxiliares, ela quer saber de tudo. Não raro, toma satisfações com os envolvidos.

Há quem veja nesse comportamento um eco do próprio passado. Dilma foi torturada pela ditadura e ficou presa durante três anos. “A cabeça dela é a cabeça de célula, de aparelho, como se ainda estivéssemos na luta armada, com gente do nosso lado podendo nos trair ou gente atrás de nós querendo nos pegar”, disse um ministro que passou pelos governos tucano e petista. Segundo ele, tudo faz sentido: a preferência pelo isolamento, a autossuficiência, a desconfiança, o controle da informação, o hábito de guardar grandes somas de dinheiro em casa “para qualquer emergência” ou, ainda, a mania de dormir de sapatos, “caso precisasse sair às pressas”, que a acompanhou por anos. “Ela ainda é a menina dos anos 60”, disse.



Embora o modo de governar e o estilo pessoal prenunciassem ruídos, Dilma estava nas alturas quando começou o segundo ano do seu governo. Elogiada pela imprensa, respeitada pelos empresários, aprovada pelo eleitorado, temida pelos seus – chegara a hora de dar seu primeiro grito de independência. O poste queria luz própria. Em vez de recuar nas medidas de incentivo ao consumo e ao investimento que haviam sido tomadas para contornar a crise global de 2008, ela decidiu pôr o pé no acelerador.

A seu lado, Guido Mantega funcionava como um “aperfeiçoador das ideias”. Na concepção econômica da presidente, valia tudo para promover o crescimento, proteger a indústria e o emprego, bombar o consumo e manter a balança comercial positiva. Um pouquinho de inflação não fazia mal a ninguém, essa era a ideia. Dilma passou a ser acusada de abandonar o tripé econômico – meta de inflação, superávit fiscal e câmbio flutuante – sobre o qual se sustentara a estabilidade da economia nos últimos doze anos.

Críticos alertavam para o risco de promover uma expansão econômica baseada no endividamento. “Ela não ligava para críticas. Nunca ligou. Tinha na cabeça uma ideia de país clara. De fato, ela sabe mais de economia do que as pessoas pensam, e sabe menos do que ela pensa que sabe”, afirmou um ex-integrante dos governos Dilma e Lula.

 Na concepção da presidente, a interferência do Estado na economia é crucial. Há em suas decisões um viés ideológico, de esquerda, muito mais arraigado do que no governo Lula. A má vontade em relação à independência do Banco Central é um exemplo. Dilma costuma dizer que, no dia em que se colocar um banco privado para financiar obras de infraestrutura e programas sociais – como o Minha Casa Minha Vida, cujos recursos são 95% do governo –, o país não vai ter mais nenhuma moradia subsidiada para os pobres.

Guiada por suas convicções, ela baixou as taxas de juros dos bancos estatais para fomentar o crédito e obrigar as instituições privadas a fazer o mesmo. No primeiro pacote de concessão das rodovias, limitou a lucratividade das empresas. “Ela acha que é preciso controlar tudo. Caso contrário, o empresário ia oferecer o pior serviço pelo maior preço, o que podia ser verdade. Mas você pode controlar isso aumentando a concorrência, por exemplo”, observou o ex-integrante da equipe econômica.

 Na Petrobras, fez o mesmo para controlar a inflação: represou os preços dos combustíveis, ainda que a medida representasse um baque para o caixa da estatal. A fim de forçar a queda do preço da eletricidade, antecipou a renovação das concessões das geradoras e distribuidoras de energia, impedindo-as de continuar a cobrar do consumidor a reposição do que haviam investido. As ações das empresas elétricas despencaram.

Em paralelo, Dilma lançava mão do que a imprensa batizou de “contabilidade criativa”: inflou as “receitas” do governo e mascarou as “despesas” de modo a aumentar artificialmente o superávit primário – dinheiro reservado para o pagamento dos juros da dívida pública e que sinaliza ao mercado que as contas internas vão bem.

 Em uma tarde na sede do Partido dos Trabalhadores, o presidente da legenda, Rui Falcão, falava sobre as críticas à gestão econômica. “Por má vontade ou desinformação, ela é acusada de ser intervencionista, mas, na verdade, ela tomou decisões que beneficiaram a população, não acionistas ou empresários”, comentou. “Por que a grita? Porque muita gente rica, pela primeira vez, perdeu dinheiro.”

À medida que Dilma ia imprimindo sua marca, parte do petismo castiço perdia terreno, como ocorreu nos fundos de pensão e nos bancos estatais. Em abril de 2012, ela deu o passo mais ousado. Mandou a nova presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, demitir parte da diretoria da empresa. Três diretores ligados a três partidos foram defenestrados. Um deles era Paulo Roberto Costa, responsável pelo Abastecimento. No PT, as demissões caíram mal. Sobretudo a de Renato Duque, da diretoria de Serviços e Engenharia, responsável por grandes encomendas de plataformas e sondas de perfuração. Petista da corrente Construindo um Novo Brasil, tendência interna mais poderosa do partido, Duque fora indicado pelo ex-ministro José Dirceu. É bom guardar esse nome.

Ainda convalescente do tratamento contra o câncer e mergulhado na campanha de Fernando Haddad à prefeitura paulistana, Lula assistia de longe ao movimento. Quando vinham lhe falar mal do governo, costumava responder com uma frase pronta: “Calma, ela vai mudar. Aquela cadeira muda as pessoas.”



O Instituto Lula ocupa um sobrado de três andares no bairro do Ipiranga, na Zona Sul de São Paulo. Decorado com móveis de escritório em ferro, divisórias de fórmica e chão acarpetado, lembra as instalações de um sindicato. É lá que Lula despacha desde que deixou a Presidência. O local virou também o ponto de romaria de empresários e políticos para se queixar de Dilma. Logo, ganhou o apelido de “Serpentário do Ipiranga”. Ali, dizem, as víboras destilam veneno puro contra o Planalto.

Numa manhã de agosto, um dos dirigentes do Instituto falava sobre o governo e as eleições vindouras. Segundo ele, Dilma enfrentava uma combinação de fatores preocupante: a crise internacional, o ressentimento da elite – que se viu dividindo aeroportos e tendo de pagar hora extra para a empregada doméstica – e a dificuldade de vender o próprio governo. “Gastaram meses querendo emplacar a gerentona e a faxineira. Isso pegou muito bem para a elite, mas não quer dizer nada para o povão”, comentou.

Em sua avaliação, o que ganha votos são ações sociais – Dilma as tinha, mas não conseguia mostrar. Para provar o que disse, ele citou pesquisas internas do partido evidenciando que os eleitores atribuíam a Lula programas implementados por Dilma.

Nas hostes petistas, Dilma sempre foi vista como forasteira. Com passado de esquerda, fez sua trajetória no Partido Democrático Trabalhista, nas fileiras caudilhistas de Leonel Brizola. Por muito tempo – e ainda hoje –, os petistas fazem questão de lembrar: Brizola foi aquele que se referia a Lula como “o sapo barbudo”. Petistas mais mordazes comentam que ela herdou tudo do brizolismo, menos a qualidade: a coragem de enfrentar a TV Globo.

No mandato de Dilma, os petistas imaginavam pôr em prática a regulamentação dos meios de comunicação, defendida com ardor pelo partido. Mas ela não chegou nem perto do assunto. Na sua gestão, ocorreu uma mudança significativa na distribuição de verbas publicitárias para a imprensa. No segundo mandato de Lula, o então ministro da Secretaria de Comunicação Social, Franklin Martins, irrigou pequenos jornais, rádios e blogueiros. Com Dilma, esses veículos perderam dinheiro e influência.

Cobrada pelo PT, ela também ficava presa à necessidade de justificar o que não havia feito. Havia uma pressão enorme para que fosse a público defender os réus do partido no caso do mensalão. Nem Lula o fez. Os petistas se sentiam sem uma cúmplice. E Lula, às vezes, idem. Quando estourou o caso Rosemary Noronha – funcionária da Presidência em São Paulo, apontada como “amiga íntima” de Lula e acusada de tráfico de influência –, Dilma nem titubeou. “Ela mandou demitir na hora, não quis nem saber”, contou uma ex-assessora da presidente.

A todo tempo, os petistas trazem à tona que Dilma nunca pensou, desejou, quis ou se preparou para ser presidente da República. Repetem que ela se comportava como alguém independente, que não havia entendido que na verdade era apenas parte de um projeto político mais amplo. “Ela foi eleita para um projeto político. Não é dela, nem do Lula, é de todos. Ela nunca será a candidata dela mesma”, disse-me o dirigente do Instituto Lula. “O que vai ser julgado nas urnas são doze anos, não quatro”, concluiu.

No final de 2012, as queixas dos empresários, a revolta dos parlamentares que se sentiam desprestigiados e sobretudo o baixo crescimento (0,9%) deram fim ao clima de lua de mel. Na imprensa, a presidente era criticada pelo fracasso das medidas para impulsionar a economia e prometia em troca um “pibão” para breve. O Brasil havia perdido a posição para a Inglaterra e voltado a ser a sétima economia do mundo. O governo tinha 62% de aprovação.



Pouco depois, a revista inglesa The Economist pediu a cabeça de Guido Mantega em extensa reportagem com críticas à condução da política econômica brasileira. O “pibinho” assustava investidores e empresários. Durante todo tempo, o governo acreditou que a queda da taxa de juros e o aumento do crédito dos bancos oficiais implicariam um enorme incentivo ao investimento privado – que entretanto não aumentou. Ocorreu o inverso. De seu lado, Dilma respondia com evasivas e mantinha o pé firme nas diretrizes. A dificuldade de admitir erros é uma de suas características mais notáveis.

Na mesma época, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, e o do Rio, Eduardo Paes, estiveram no Planalto para tratar do aumento das tarifas de transporte público. Mantega teve uma ideia: já que a inflação continuava próxima de 6%, resistindo a voltar para o centro da meta (4,5%), era melhor segurar o reajuste. A resposta veio das ruas meses depois, quando o aumento foi enfim anunciado.

Em fevereiro, o “Volta, Lula” já havia se espalhado como gripe no inverno. Institutos de pesquisa simulavam o nome do ex-presidente nas apostas eleitorais – e ele ganhava com folga –, o petismo alimentava o boato e os empresários, insatisfeitos, engrossavam o coro. Dilma procurou Lula e pediu-lhe um gesto capaz de aplacar a boataria. Dias depois, durante a comemoração do aniversário do PT, Lula fez seu papel: antes de encerrar sua fala, como se cumprisse uma tarefa, finalmente mencionou a reeleição de Dilma. O resultado foi dúbio. Parte da legenda achou que era um erro antecipar a campanha, já que ainda havia quase dois anos de governo pela frente. Outros entenderam ter sido uma maneira de fortalecer o projeto de poder num momento delicado. A verdadeira opinião de Lula ficou restrita a amigos e familiares. “Lula é igual à Bíblia, cada um interpreta como quer”, disse José Eduardo Dutra, ex-presidente do PT e atual diretor da Petrobras.

Na casa do próprio Lula, o anúncio da reeleição de Dilma repercutiu mal. A ex-primeira-dama Marisa Letícia achou um absurdo, uma ingratidão, uma traição que Dilma não tivesse perguntado a Lula, em nenhum momento, se ele queria ser candidato – conforme a presidente havia confidenciado para um ex-ministro, amigo de ambos, um ano antes. A família ficou magoada. E especialmente Lula.

Desde que deixara o Alvorada, Marisa Letícia sentia falta da rotina brasiliense – as manhãs pescando no píer da Presidência, o entourage, os salamaleques, o poder. Dizia que Lula ainda era a única pessoa capaz de manter o país nos trilhos. Fazia coro com o Serpentário do Ipiranga. “Ele sempre quis voltar, a Marisa queria que ele voltasse, os filhos queriam e boa parte do PT também”, disse-me um advogado de renome ligado ao partido, em seu escritório, em São Paulo.

De sua parte, Dilma defendia que o mandato era dela. Deveria terminar o que havia começado e, como seus antecessores, tinha o direito à reeleição. Nada disso, no entanto, era explicitado. Em público, Lula negava a hipótese de se candidatar, mas no privado era sempre ambíguo. Ainda que não estimulasse o boato, não movia uma palha para matá-lo na origem. Em encontros reservados, ele passou a criticar a presidente.

Durante todo o mandato, Dilma e Lula nunca se afastaram ou deixaram de se falar. Ele sempre foi cuidadoso na aproximação e nas críticas. Dava sugestões de modo que sua interlocutora pudesse acatá-las ou não. Em vez de dizer que ela estava negligenciando a política externa, Lula perguntava, como do nada: “E a África, Dilminha? Está abandonada...” Quando se estranhavam, um ou outro “sumia”. Como relatou um auxiliar direto da presidente: “Mito não telefona. Ele nunca telefonou, mas ele sumia. E ela, quando achava que ele estava dando declarações demais à imprensa, ou se julgava estar no caminho certo e queria preservar-se de ingerências externas, fazia o mesmo.”



O comitê central da campanha de Dilma Rousseff está localizado em um centro comercial de Brasília. Na entrada, veem-se cartazes de crianças com camisetas vermelhas, a serigrafia de uma foto da candidata quando militava contra a ditadura e um enorme painel com a imagem dela, sorridente, ao lado de Lula. No mezanino, fica a sala de Giles Azevedo, ex-chefe de gabinete da presidente no Planalto, hoje um dos coordenadores da campanha.

Há vinte anos, ele é a sombra de Dilma Rousseff, que o chama carinhosamente de “Gil e Les” – como se ele fosse duas pessoas. Se há no mundo alguém em quem ela confie, é ele. Em uma tarde de julho – quando ainda não havia Marina Silva no páreo –, Azevedo comentava as dificuldades da chefe: “As pessoas não querem resolver problema, querem carinho, atenção. Ela quer resolver, não quer gastar tempo com firula.” Segundo ele, a praticidade e a discrição da presidente eram uma novidade no cargo. “Ela trabalha para dentro. Não quer holofote, quer resultado, isso é uma coisa diferente na política brasileira.”

Para ele, é um grande equívoco afirmar que Dilma não sabe fazer política. “Baixar os juros do sistema financeiro mexendo com lucros de banqueiros, desafiar interesses econômicos nos contratos de energia elétrica, criar a Comissão da Verdade, isso é não fazer política?”, indagou. “Ela fez isso sozinha.”

O celular tocou. Passaram-lhe o resultado de uma pesquisa recente, mas ele não quis comentar os números. Com voz mansa, pôs-se a listar as conquistas do governo: o Minha Casa Minha Vida havia construído 2 milhões de moradias; o Brasil Carinhoso retirara 8,7 milhões de pessoas da miséria; das dez maiores hidrelétricas do mundo, três seriam construídas no Brasil; o Pronatec ofereceu cursos técnicos a 8 milhões de estudantes. “Na crise, o mundo perdeu 60 milhões de empregos, e o Brasil ganhou 11 milhões. Como que alguém pode dizer que esse governo fracassou?”

Naqueles dias, a dicotomia entre o Ipiranga e o Planalto era explícita. Os mais próximos da presidente se incomodavam com o fato de Lula despontar como um gênio da lâmpada, sempre com uma frase de efeito, uma solução mágica, um conselho incrível, ainda que o PT amargasse derrotas fragorosas em dois dos principais estados brasileiros: Lindberg Farias, no Rio, e Alexandre Padilha, em São Paulo. A eterna comparação entre ela e Lula também a incomodava. Ela sorria amarelo quando ele falava em público sobre “o criador e a criatura” ou quando explicitava que o governo era “meu e da Dilma”, ratificando ataques de adversários. Ela também percebia que o “Volta, Lula” aparecia sempre nos momentos em que o governo estava fragilizado, quase como um corretivo a sua gestão. E quem está a seu lado repara que Dilma se refere a Lula como “presidente” e o trata de “senhor”, enquanto ele, a despeito do cargo que ela ocupa, sempre se refere à presidente como “Dilminha” e “você”. Entre os dois, a relação nunca foi de paridade. Quando o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, visitou o Brasil, no ano passado, engatou numa conversa animada com Lula. Deixaram Dilma, a presidente, esperando por quarenta minutos.

Mas era fato que, depois de quase quatro anos de mandato, ela ainda precisava umbilicalmente de Lula para se eleger. “É difícil suceder o Lula. O carisma, o processo de transferência, é um peso muito grande”, afirmou Giles Azevedo. Segundo ele, qualquer candidato do partido estaria na mesma situação. A relação de ambos, ele disse, para aplacar qualquer boato de desentendimento, era excelente. “Mas ela pensa, né?”



O prejuízo de se ter antecipado a campanha eleitoral logo ficou visível. O governo passou a ser avaliado com lupa, cada ação de Dilma ficou sob suspeição de ser eleitoreira. Quando o preço do tomate chegou a 10 reais o quilo – um aumento de 80% em menos de um ano –, a opinião pública gritou: a inflação está mordendo a dona de casa.

No Congresso, a relação com o Executivo também ia mal. Nos primeiros dois anos, Dilma havia feito algo se mover no pântano do fisiologismo brasiliense. “Acabou a conversinha mole, tangenciada, uma coisa querendo dizer outra, segundas intenções. Com ela, não tem”, comentou um ministro do PMDB, durante um jantar em Brasília. Um ex-ministro paulista também me disse: “Ela é honesta, não pensa em dinheiro e não tem filho para fazer negócio. Isso já cria uma barreira para as conversas esquisitas.”

Pressionada por Lula, ela cedia nas alianças, mas até a última hora tentava uma carta diferente. Foi o caso da ida de Renan Calheiros para a presidência do Congresso Nacional. Ainda que o PT tivesse combinado, por escrito, o revezamento com o outro partido, quando a posse se aproximou, ela insinuou que Calheiros desistisse do cargo em troca do apoio incondicional do governo para elegê-lo governador de Alagoas. Ele agradeceu. “Ela ia com o milho e eles voltavam com a pipoca. Ela não entendia o quão mais fundo era o buraco”, comentou uma ex-auxiliar da presidente.

O estilo Dilma tinha um preço. Uma coisa era ser faxineira quando estava por cima, outra era manter a pose sendo bombardeada de todos os lados. “Deputado dá troco. É um horror, mas é fato”, comentou um parlamentar da base aliada, em Brasília. A retaliação vinha do próprio quintal. Numa ocasião, o então presidente da Câmara, o petista Marco Maia, queria indicar um afilhado político para o Banco do Brasil. Dilma não o atendeu. Em represália, ele abandonou uma sessão no meio para atrapalhar a votação.

No Congresso, Dilma perdeu em várias votações relevantes para o governo. Com uma articulação política frágil, sem vocação para fazer o jogo da arraia-miúda, ela ficou à mercê do fisiologismo. “No segundo e terceiro anos de governo, como estava sem anteparo, ela se expôs muito”, comentou o deputado Paulo Teixeira, do PT de São Paulo, em seu gabinete na Câmara, em agosto. Um dos exemplos ocorreu durante a votação da Lei dos Portos, quando o deputado Eduardo Cunha, líder do PMDB na Câmara, emparedou o governo. “A presidente ficou em simetria com um deputado. Isso não pode. Na Fazenda, a mesma coisa. Ela foi virando o alvo direto das críticas por não ter esse muro de defesa”, comentou. Ao longo do tempo, o pragmatismo ganhou. Dilma liberou o aumento dos ministérios para acomodar aliados, ministros faxinados indicaram sucessores, e ela trocou um ministro por causa de um minuto a mais no programa eleitoral na tevê. A imagem de faxineira ficara para trás.



Vieram as manifestações de junho de 2013. Começaram contra o aumento das passagens de ônibus, mas logo ganharam dimensão nacional e se transformaram em revolta contra os gastos com a Copa, a precariedade dos serviços públicos, a venalidade da política brasileira. Em vinte dias, a aprovação do governo Dilma despencou de 57% para 30%. O grito de independência não tinha mais eco. No meio da crise, foi ela quem pegou um avião para São Paulo para se encontrar com Lula. O poste precisava de luz.

Foi quando Lula sugeriu a saída de Guido Mantega. Mais uma vez, ela se fez de surda. “A maior força de Mantega durante todo o governo foi ter sido vulnerável. Poucos naquele cargo permitiram tamanha ingerência do presidente da República”, comentou um ex-integrante da equipe econômica. Para ela, demiti-lo significava perder o poder irrestrito de mandar na economia. Nessa época, Lula comentou com um grupo no Ipiranga: “Ela não vai mudar.” E viajou para uma longa série de compromissos na África. Mais uma vez, ela entendeu o recado.

Paradoxalmente, depois de junho, teve início o período mais profícuo do governo Dilma. Em poucos dias, os protestos fizeram o Congresso aprovar projetos contra a corrupção, governos recuaram no reajuste do transporte público e o Judiciário mandou para a cadeia um político acusado de corrupção – o deputado Natan Donadon, do PMDB de Roraima. O Planalto emplacou o Mais Médicos e conseguiu aprovar no Congresso a lei para destinar à educação o dinheiro dos royalties do petróleo.

As manifestações também provocaram uma reação inédita na presidente: ela mudou de ideia. Quando não apareceu nenhum interessado no leilão pela concessão de um trecho da rodovia BR-262, que liga o Espírito Santo a Minas Gerais, ela flexibilizou as regras do jogo e só aí as negociações deslancharam. Ao mesmo tempo, Dilma passou a se encontrar com os movimentos sociais, lideranças indígenas, representantes de igrejas evangélicas. Reuniu-se até com o presidente da Central Única das Favelas, o Preto Zezé. Recebeu parlamentares, ministros, empresários. Também ficou assídua no Twitter, em sintonia direta com os eleitores. “Ali, deu uma revigorada em todo mundo. As coisas andavam, aconteciam”, disse-me um ministro do governo, no final de setembro.

 Na imprensa, ela era atacada sem dó: as obras para a Copa não ficariam prontas, os protestos paralisariam o país, a imagem do Brasil no exterior seria abalada – em suma, o desastre era iminente. Dois meses depois das manifestações de junho, o governo era aprovado por 44% da população. A presidente tinha coisas a resolver e se trancou no Planalto novamente. Em pouco tempo, a rotina voltou ao normal: reuniões infindáveis, encontros secretos, broncas. A gerentona estava de volta.



A reforma ministerial, no início de 2014, produziu o primeiro homem forte do governo: Aloizio Mercadante, alçado para a Casa Civil depois que Gleisi Hoffmann se desincompatibilizou para concorrer ao governo do Paraná. Ao longo do mandato, os interlocutores de Dilma eram Ideli, Gleisi, Giles Azevedo, Fernando Pimentel e José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça. Quando substituiu Fernando Haddad na Educação, Mercadante foi galgando espaço no grupo.

Ainda ministro da Educação, passou a acompanhar a presidente nas viagens internacionais, mesmo que o assunto não dissesse respeito à sua pasta. Aproveitava os longos voos para palpitar sobre o governo em geral. Diz-se dele ser “o maior especialista no ministério dos outros”. A demissão de Antonio Patriota, do Ministério das Relações Exteriores, foi gestada entre os fios do hirsuto bigode. Comenta-se de um jantar em que Mercadante trocou a identificação dos lugares à mesa para se sentar perto de Dilma.

Ele desabrochou aos olhos da presidente durante as revoltas de junho. Nas reuniões no Alvorada para debater as providências diante da crise, Mercadante tinha sempre uma opinião aguerrida, era assertivo, não titubeava – o que, para Dilma, é uma virtude. Entregava resultados num governo que tinha pouco a mostrar e teve importante papel na elaboração do Mais Médicos e do Pronatec – duas vitrines do governo. Logo, mais um apelido foi cunhado nos corredores do Planalto. Mercadante se tornara “O Príncipe”.

Quadro histórico do PT, ele sempre teve uma relação conturbada com Lula e a ala paulista do partido. É considerado vaidoso, arrogante, megalômano. No governo Lula, jamais teve um ministério. Mas, na ausência de nomes de peso do partido – José Dirceu, José Genoino, Antonio Palocci –, era ele a melhor opção caseira para auxiliar a presidente. Quando se tornou um dos poucos a ter coragem de enfrentá-la, seu passe dobrou.

Há quem enxergue na parceria uma declaração de independência em relação a Lula. Foi o que disse um ministro do governo durante um café da manhã, no final de agosto. “A impressão é que ela e Mercadante sequestraram nosso projeto e agora acham que podem melhorá-lo”, afirmou. Com agenda política própria, Mercadante tem planos altos. Quando comentei com Rui Falcão ter ouvido que ele estava convencido de ser o sucessor de Dilma, o presidente do PT riu. “Cada um pode sonhar com o que quiser”, disse. Era inegável que a presença de Mercadante dera mais confiança à presidente. Ela não estava mais sozinha.



Em maio deste ano, as pesquisas apontavam para a perspectiva de haver segundo turno nas eleições presidenciais. A reação do governo veio a reboque: aumentou o valor do Bolsa Família e anunciou a correção na tabela do Imposto de Renda.

Dilma teve de lidar com as críticas e adversidades. Na abertura da Copa, fora vaiada e insultada em coro pela torcida presente ao Itaquerão. Sua popularidade despencara e o padrinho a deixara sozinha. “Ela não passa recibo, não deixa a emoção tomar conta”, disse um ministro do governo. É mesmo uma búlgara. Na lapela, nos bordados, no crepe, nos botões trabalhados, nas cores, nos modos, no paladar, mas, sobretudo, na maneira de externar emoções. “É como se ela tivesse uma missão. Você não vai vê-la se lamentando por aí. É uma causa, é uma missão”, observou. Nem quando fala do assunto que lhe é mais doloroso – a tortura –, ela o faz em tom de lamúria. O relato, reservado a poucos, é contado com detalhes estarrecedores. Um dos episódios mais degradantes envolveu um rato vivo.

Fora dos campos, a Copa do Mundo transcorreu melhor do que se esperava. Infraestrutura, segurança, telecomunicações, tratamento aos turistas, às seleções e aos chefes de Estado – em geral, não houve problemas. Os poucos foram acobertados pela simpatia da hospitalidade.

Logo depois do campeonato, o governo convocou uma entrevista coletiva com a presença de todos os ministros para falar do sucesso do evento. Mas já no dia seguinte Rui Falcão disse à imprensa que era hora de “reeleger Dilma e trazer Lula de volta em 2018”. A presidente mal tivera tempo de colher os louros quando a luz do poste a ofuscou novamente. “Aquela fala era uma maneira de dar um horizonte à militância para a continuidade do projeto”, disse-me Falcão, dias depois.

Um pouco antes da Copa, o ex-presidente Lula esteve em Milão para visitar a sede da Pirelli. À noite, num jantar privado, fez uma breve explanação sobre o Brasil e a América Latina. Ali, para os cerca de vinte convidados, desancou a sucessora. Disse que ela não o “consulta para nada”, ressaltou sua inabilidade política e a dificuldade de tocar o governo.

Dois dos presentes relataram o ocorrido a um conhecido empresário brasileiro do ramo do comércio exterior. “Se ela depender dele para se eleger, coitada dela”, comentou um deles, segundo o empresário contou, em seu escritório, em São Paulo. A declaração na Itália foi apenas uma das várias feitas por Lula em reuniões fechadas. Recentemente, a um grupo de executivos de um grande banco de investimentos, com sede na avenida Faria Lima, na capital paulista, a cena se repetiu.



Desde março de 2011, uma auditoria interna da Petrobras investigava a venda da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. O negócio custou 1,18 bilhão à Petrobras, quase 27 vezes mais do que o valor pelo qual a empresa americana havia sido vendida em 2005. Como presidente do Conselho de Administração da estatal, Dilma foi uma das pessoas que aprovou a transação. Quando engrossaram as suspeitas sobre o negócio, em março deste ano, Graça Foster preparou uma nota, limitando-se a dizer que o assunto era objeto de sindicância interna.

Dilma rechaçou a explicação e considerou a nota “ingênua”. Sentada em seu gabinete, batucou no computador, durante horas, outra resposta, sob o olhar de quatro assessores, entre eles o advogado-geral da União, Luis Inácio Adams. “É para sair assim”, ordenou. Em nenhum momento ela consultou Lula ou o PT. Na nova versão, ela indicava que a compra havia se baseado em “documentação falha” e “informações incompletas”.

A nota caiu como uma bomba de nêutron. Baseada nela, a oposição pediu a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito a fim de apurar as denúncias. Na opinião de um renomado advogado que trabalha para as empreiteiras envolvidas, Dilma “trouxe o assunto para o centro do palco”. A interlocutores, Lula propalava que ela havia dado “um tiro no pé” ao jogar dúvidas sobre o embasamento técnico e jurídico para a compra da refinaria. O assunto, apostavam os petistas, teria morrido por si só com a vaga explicação da Petrobras.

Pouco depois, o Tribunal de Contas da União entendeu que os membros do conselho – incluindo Dilma, o empresário Jorge Gerdau e Fábio Barbosa, presidente do Grupo Abril – nada tinham a ver com o assunto. Os suspeitos a serem julgados seriam ex-diretores da Petrobras, entre eles Paulo Roberto Costa – um dos presos na Operação Lava a Jato, da Polícia Federal, que apurava as denúncias – e o ex-presidente da empresa, José Sérgio Gabrielli. Ambos demitidos por Dilma dois anos antes.

Segundo a revista Veja, em troca da redução da pena e proteção à família, Costa teria revelado, num acordo de delação premiada, que havia repassado dinheiro da corrupção para políticos como os ex-governadores Sérgio Cabral (PMDB) e Eduardo Campos (PSB), a governadora peemedebista Roseana Sarney e seus colegas de partido Renan Calheiros e Edison Lobão, ministro das Minas e Energia.

Em uma noite de setembro, encontrei-me com um advogado de um dos réus da Operação Lava a Jato, em um bar do Leblon, no Rio. Preocupado com a repercussão da delação premiada, ele corroborou o que já havia dito o réu: “Se ele falar, não tem eleição.” Comentou que Costa “era um ser único na política brasileira” – pela primeira vez, um operador atuava nas duas frentes: na arrecadação de recursos de campanha e na distribuição para políticos. “Na época do PC Farias, ele só arrecadava, não sabia para quem ia o quê. Esse Paulinho sabe tudo”, afirmou.

O caso ganhava contornos ainda mais preocupantes porque, por causa da nova Lei Anticorrupção – sancionada por Dilma Rousseff –, atualmente são os controladores das empresas que respondem pelos crimes, não mais um diretor ou um secretário. “Você imagina o que é ter o dono de uma empreiteira realmente correndo o risco de ir para a cadeia?”, observou o advogado.

O que moveu Dilma ainda é controverso. Havia a informação de que o relator do caso no TCU, o ministro José Jorge, ampliaria as investigações para o governo. “O que ela fez foi se defender, com razão. O que ela acha que é defesa própria, o PT chamou de ‘falta de solidariedade’”, disse-me um ministro palaciano. O curto-circuito era da luz, não do poste.



Da janela da sala da presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, tem-se uma visão magnífica da Baía de Guanabara. Em uma manhã de julho, sentada de costas para o cenário, ela falava sobre a chefe e amiga Dilma Rousseff. As duas se conheceram em reuniões de trabalho na Petrobras há dezoito anos. Quando vai a Brasília, Graça é uma das poucas a ser convidada a pernoitar no Alvorada. Lá, passam a noite conversando, ouvindo música e lendo.

Encontramo-nos quase dois meses antes do acordo de delação premiada feito por Paulo Roberto da Costa. Comentei que gostaria de ouvir uma “voz amiga” da presidente, pois me surpreendia como seus assessores e interlocutores mais próximos reservavam a Dilma críticas tão ácidas e comentários tão ferinos. “É injusto com ela, muito injusto”, disse Foster logo no começo da conversa. “E isso acontece porque ela é justa e paga um preço alto por isso”, avaliou.

No final de setembro, com mais uma queda brusca das ações, a Petrobras havia deixado de ser a maior empresa brasileira e perdera 144 bilhões de reais de valor de mercado desde o início do governo de Dilma Rousseff. Perguntei o que ela pensava ao ouvir que a presidente havia “acabado com a Petrobras e destruído o setor elétrico”. “Conheço essa empresa como a palma da minha mão, não tem isso”, disse, enfatizando a negativa com um movimento da cabeça. “Como uma empresa que investe 100 bilhões de reais por ano, tem 70 bilhões em caixa e produz 500 mil barris de petróleo por dia, só no pré-sal, pode estar mal?”, perguntou.

Chegamos a Pasadena. Relatei a ela o que havia ouvido de cinco pessoas ligadas ao PT, com palavras a mais ou a menos, mas sempre com o mesmo sentido: a presidente havia exposto o esquema que ela sabia ter financiado sua campanha e a de vários companheiros do PT e de partidos aliados. Sem hesitar, Graça respondeu, grave: “Não sei nada disso do que você está falando.”

Um copeiro trouxe café. Ela retomou o raciocínio. Acredita que Dilma é vítima da própria honestidade. “Ela é justa, honesta, muito justa e honesta. Esse é o ponto fundamental de tudo”, disse. Era de se imaginar que ela ficasse doída com as críticas inclementes. “Não é fácil para ninguém. Olha, eu vou até parar de falar porque eu já chorei aqui hoje. Mas, pode ficar tranquila, não foi por causa da Petrobras”, disse, sorrindo.



A trágica morte de Eduardo Campos varreu como um furacão o cenário eleitoral. A partir de então, tudo o que se especulava ficou velho. Em Brasília, passou-se a ouvir a expressão: “Ah, isso é tão 12 de agosto!”, em referência à véspera do desastre. O PT havia se preparado para repetir o mote “Nós contra eles”, no embate com o PSDB. Quando Marina Silva se tornou uma ameaça real, o partido não sabia o que fazer. De novo o “Volta, Lula” surgiu forte dentro do PT.

Naqueles dias, um influente empresário, com negócios no Sudeste e Nordeste, foi recebido para jantar na casa da família Lula em São Bernardo do Campo. Como era domingo, pediram pizza pelo telefone e se reuniram em volta da mesa. O assunto logo resvalou para o governo. Ele, que estava decepcionado com o PT, externou sua opinião. Foi a deixa para Marisa desancar Dilma mais uma vez: ingrata, falsa e traidora foram alguns dos adjetivos que empregou. Os filhos de Lula corroboravam a opinião da mãe. O ex-presidente permaneceu calado.

Ali, o empresário teve uma epifania. Percebeu que, por mais forte que fosse o “Volta, Lula”, o ex-presidente jamais teria coragem de se apresentar como candidato. Nem para salvar a eleição de 2014, já que ele já tinha em vista 2018. O preço de deixar de ser um mito e desembarcar na vida real, num cenário de incerteza aguda, era pesado demais. Logo que Marina se lançou candidata, as pesquisas encomendadas pelos partidos não davam grande vantagem a Lula sobre sua ex-ministra, quando confrontados na mesma cédula.

Com o alerta vermelho na campanha de Dilma, Lula passou a viajar pelo país fazendo comícios e acompanhando a candidata em eventos. Quatro ministros se licenciaram dos cargos para cuidar da articulação política. A 32 dias do primeiro turno, um grupo se reuniu na suíte do hotel Unique, em São Paulo, onde Dilma estava hospedada. Lula deu a ordem de comando: “Vai ser o segundo turno mais longo da história. Ele tem que começar agora”, disse. Isso significava atacar Marina com todas as armas, para que ela chegasse ao segundo turno fragilizada.

A partir daí o tom da propaganda eleitoral engrossou: Marina foi comparada a Jânio Quadros e Fernando Collor de Mello. Em outro spot, dizia-se que, com a autonomia que ela pretende dar ao Banco Central, a comida vai sumir do prato das famílias, em benefício dos banqueiros, caracterizados na propaganda como vilões. No jargão publicitário, a ordem era “desconstruir” Marina: explorar suas incongruências, dubiedades, fragilidades, o túnel desconhecido que seria seu governo. A estratégia surtiu efeito. Em três semanas, Dilma abriu quinze pontos de vantagem sobre Marina, mas ainda não tinha o suficiente para vencer no primeiro turno.



A poucos dias das eleições, o Brasil havia saído do Mapa Mundial da Fome das Nações Unidas. Pela primeira vez em cinco anos, registrava-se retração da economia, que havia entrado em recessão técnica. Ao contrário do que pregava o governo, o país crescia menos do que seus pares na América Latina. A inflação recuava a passos lentos. Indagada se faria mudanças na equipe ministerial caso reeleita, Dilma respondeu de bate-pronto “Ano novo, equipe nova”, incorporando a seu repertório a expressão “novo, nova”, bordão da adversária Marina e sua “nova política”. O recado tinha alvo: Mantega estaria fora no próximo governo. Ele soube da notícia pela internet. “Ela só não esclareceu se também vai mudar. Se vai deixar de ministrar para começar a presidir”, disse um secretário do governo com status de ministro.

No final de setembro, durante um café da manhã no Rio, um importante dirigente do PT comentava o enredo eleitoral. “Ninguém ia imaginar a morte do Eduardo Campos, a crise econômica mundial, o sentimento que ia surgir das manifestações de junho. Mas todo mundo sabia da inabilidade da Dilma, da ojeriza pela política, desse temperamento”, resumiu.

A reeleição de Dilma ganhara fôlego. De nada adiantara mostrar as obras, os programas, as falas de Lula. A vantagem só foi recuperada quando o PT pegou em armas e passou a atacar sem piedade a adversária. As dificuldades do governo, segundo meu interlocutor, nunca foram de macroeconomia, mas de estilo. “Arrogância”, ele disse. Argumentei que, se eleita, ela poderia fazer um governo mais livre, sem se preocupar com Lula ou com o PT, já que provavelmente seria seu último cargo político na vida. Ele balançou a cabeça e deu um sorrisinho. Antes de se retirar, arriscou o porvir: “O fato é que, se ela ganhar, foi o PT que ajudou. E aí, no dia 1º de janeiro, o governo passa a funcionar no Ipiranga. Se perder, ela vai levar essa culpa para sempre. Infelizmente, isso é a política.”

por Daniela Pinheiro

piauí

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domingo, 22 de junho de 2014

Padura por John Lee Anderson

Poucos meses atrás, a Embaixada da Espanha em Havana organizou uma festa em homenagem à literatura cubana. O evento, que teve lugar no Palácio Velasco Sarrá, um prédio neo-colonial nos limites da Cidade Velha, constituiu um verdadeiro tratado sobre a cautela. Fidel Castro havia fechado o centro cultural da embaixada espanhola em 2003, por medo de que cultivasse a subversão, e a sede começava a reativar sua programação. O embaixador descreveu a noite como parte da “atividade diplomática de que precisamos para nossa adaptação à realidade cubana”.

O momento alto da noite era uma palestra de Leonardo Padura Fuentes, um homem baixo, moreno, de compleição sólida, com a barba embranquecida e a expressão impenetrável de um experiente pároco de aldeia. Padura é uma figura incomum na Cuba de hoje: um romancista, jornalista e crítico da sociedade que sempre driblou a censura do Partido Comunista. Mais conhecido como autor de meia dúzia de romances policiais que conquistaram uma apaixonada legião de seguidores, tanto na ilha como fora dela, Padura não é um dissidente à moda de Soljenítsin, tampouco é um mero autor comercial. Para os intelectuais cubanos e a classe dos profissionais bem informados do país, mais que um romance, cada novo livro de Padura constitui um documento, um modo de entender a realidade cubana. Embora em público fale com cuidado, em particular o escritor admite: “As pessoas pensam que o que eu digo serve de baliza para o que pode ou não pode ser dito em Cuba.” Ano passado, ele recebeu o Prêmio Nacional de Literatura de Cuba, um reconhecimento tanto de sua obra literária quanto de sua destreza política.

O evento na Embaixada da Espanha atraiu 300 espectadores ansiosos e, segundo um dos diplomatas presentes, um punhado de observadores do governo. Padura falou sobretudo sobre a disciplina necessária ao ofício de escritor, e tergiversou ao abordar a questão da censura. “Não existe uma diretriz clara que define o que deve ou não ser publicado”, disse ele a seus ouvintes. “E acredito que já haja espaço para publicar praticamente qualquer coisa em Cuba.” Mas sugeriu também que havia um preço a pagar pelas décadas de controle rigoroso: “Acho que o leitor cubano perdeu contato com o que seus compatriotas estão escrevendo, com o que escritores cubanos estão publicando hoje no resto do mundo.”

Ao longo das décadas, os cubanos aprenderam a falar valendo-se de uma camuflagem verbal que os leva a sublinhar as palavras-chave por meio de sobrancelhas erguidas, olhos arregalados, lábios franzidos. O gesto mais universalmente compreendido na ilha é o que imita um homem cofiando a barba – Fidel, cujo nome de resto não é mencionado. Durante os anos de Castro, quase toda a produção escrita que criticasse o governo vinha de fora do país, obra de estrangeiros e sobretudo do fluxo constante de cubanos exilados.

Muitos dos pares de Padura fugiram do país. Um deles, Eliseo Alberto, escapou em 1990 para o México, onde publicou Informe Contra Mí Mismo, um livro de memórias no qual revela que o aparato de segurança do Estado cubano havia tentado convencê-lo a denunciar o próprio pai. Outros, como o poeta e jornalista Raúl Rivero, foram presos por suas críticas ao governo. (Rivero também fugiu de Cuba assim que foi solto.) Padura ficou, consagrando-se como o cronista talvez mais famoso da ilha. “Mantive uma relação especial com a realidade cubana”, ele disse num encontro recente. “Vivo num bairro onde conheço todos os códigos da existência, que aprendi a dominar ao longo de muitos anos.”



Na embaixada espanhola, Padura falou do mais ambicioso dos seus livros, O Homem que Amava os Cachorros,[1] um relato ficcional sobre Leon Trotsky e seu assassino, Ramón Mercader, que terminou os dias em Cuba depois de vinte anos numa prisão mexicana. Por meio século, a visão da Cuba oficial sobre Trotsky coincidiu com a dos soviéticos: um traidor que mereceu a lata de lixo da história à qual foi destinado. Mas Padura apresenta Trotsky de uma forma bastante simpática, e seu relato sobre a vida de Mercader expõe o legado horrendo do stalinismo, que por várias décadas operou como uma religião estatal na ilha. Tal visão pode ser hoje incontestável em boa parte do mundo, mas em Cuba é tida como radical. “Esses livros – que o leitor fique avisado – abrem nossos olhos a tal ponto que nunca mais conseguiremos dormir em paz”, registrou numa resenha a blogueira dissidente Yoani Sánchez. Em sua palestra, Padura reconhece que sofre de frequente ansiedade política: “Toda vez que termino um livro, eu digo: ‘É esse que eles não vão me deixar publicar.’”

Mais tarde, perguntei ao escritor qual tinha sido sua preocupação no caso de O Homem que Amava os Cachorros, e ele respondeu: “Tudo.” É o tipo de coisa que Padura diz sempre: sinal de que é um livre-pensador crítico, mas se mantém respeitoso. “Não tenho militância, nem no Partido e nem en la disidencia”, disse ele. “Eu investigo Cuba a tal ponto que posso dizer o que Cuba é, e não fui embora do país porque sou um escritor cubano, e não saberia ser outra coisa.”

Nos últimos dois anos, o presidente Raúl Castro, que oficialmente sucedeu seu irmão mais velho em 2008, deu início a significativas reformas econômicas. Muitos cubanos esperam que uma transformação cultural venha em seguida. Na Embaixada da Espanha, Padura recebeu Pedro Juan Gutiérrez, autor de Trilogia Suja de Havana, um passeio cru pelos bairros mais barras-pesadas da cidade; admirado na Europa e na América Latina como o “Bukowski cubano”, é escassamente publicado em seu país. Gutiérrez me declarou que os intelectuais cubanos encaram o prêmio concedido a Padura como prova de uma nova abertura. “Todo mundo interpretou o prêmio como o reconhecimento de um escritor interessante – que a partir do romance policial questiona certos aspectos da sociedade em que vive – e sinal de respeito a um intelectual de valor.” Outros acreditam que o regime o tolera por motivos mais cínicos: como ele tem um público internacional fiel, censurá-lo traria um alto custo político. Por outro lado, na medida em que se reconhece que ele escreve com franqueza, o regime pode usá-lo como demonstração de sua tolerância. Um interlocutor antigo de Fidel Castro me disse que “Padura é uma pessoa inteligente, que compreende os limites. A dissidência declarada em Cuba é uma atitude extrema, e ele não chega a tanto. Só vai até onde acha que pode. Num certo sentido, existe uma espécie de pacto implícito entre ele e o regime. O simples fato de definir-se patriota – um escritor cubano que vive em Cuba, com tudo o que isso significa – é uma clara mensagem ao regime, assinalando que ele não constitui uma ameaça”.



No início do romance Adeus, Hemingway, lançado por Padura em 2001, o herói, um ex-detetive alcoólatra em dificuldades (e escritor frustrado) chamado Mario Conde, visita a cidade portuária de Cojimar, perto de Havana. E rememora um dia em 1960, quando, ainda garoto, seu avô Rufino o levou para tomar sorvete depois de assistir às brigas de galo numa localidade próxima. Rufino apontou para um velho de barba, que saltava de um lindo barco de pesca de casco negro, e disse: “Aquele é Hemingway, o escritor americano. Também gosta de brigas de galo.”

Hemingway, que de certo modo lembrava Papai Noel, mas ostentava um ar de tristeza, abraça outro homem que estava no cais e depois sai andando até um Chrysler preto estacionado a sua espera. Antes de se afastar, olha na direção de Mario e do avô, e dá a impressão de saudá-los.

“Adiós, Hemingway!”, grita o menino, recebendo em troca um sorriso. Anos mais tarde, Conde descobre que, naquele dia, Hemingway tinha acabado de percorrer pela última vez um trecho de mar que adorava em especial; e entende que o escritor americano não se despedia dele, “um pequeno inseto que tinha ido parar no cais de Cojimar”, mas de “várias das coisas mais importantes da sua vida”.

Nos romances mais recentes de Padura, ele recorre a figuras da história – como Trotsky e Hemingway – para criticar o presente. Para muitos cubanos mais velhos, Hemingway é um herói: pela imagem de machão, o amor à ilha e o suposto afeto pela Revolução. E Padura se lembra: “Quando comecei a escrever, Hemingway me deixou acachapado, tanto pela maneira como escrevia como pela maneira como viveu.” Mas se desencantou com o comportamento de Hemingway na Guerra Civil Espanhola, julgando-o complacente diante dos excessos esquerdistas. “Seu cinismo me parecia indesculpável, e eu não consegui perdoá-lo.” Hemingway muda-se para Cuba em 1939 e lá fica vivendo até a guerra de guerrilhas que leva Fidel Castro ao poder, em 1959. No ano seguinte, Fidel vence o torneio anual de pesca ao marlim batizado em homenagem ao escritor americano. Uma foto tirada nesse dia mostra os dois trocando sorrisos enquanto Papa entrega a Castro uma taça de prata; a imagem é muito apreciada pela Cuba oficial. Mas na ocasião em que Fidel declara a “natureza socialista” de sua revolução, durante a Invasão da Baía dos Porcos, em abril de 1961, Hemingway já tinha deixado Cuba, internando-se para tratamento na Clínica Mayo, e dali a apenas dois meses se isola em sua cabana de caça no Idaho e se mata.

Os cubanos nunca souberam ao certo se Hemingway abandonou a ilha com pesar ou com alívio. No relato ficcional de Padura, ele deixa uma pista para trás. Três décadas depois de sua partida, um esqueleto humano é descoberto na arena de briga de galos existente na Finca Vigía, a residência do escritor no alto de uma montanha perto de Cojimar, e a polícia intima Conde a dar um tempo em sua aposentadoria para ajudar na investigação. Os restos são de um americano, agente do FBI, mandado a Cuba para vigiar o escritor, e a polícia suspeita que Hemingway o tenha assassinado e camuflado o crime. Conde, o escritor frustrado, não consegue ser imparcial. Idolatra Hemingway, e antes de entrar para a polícia chegara a se ajoelhar diante de uma foto do escritor, jurando solenemente usar sua experiência como material para uma obra literária. Revirando os vestígios da vida do escritor, Conde se apossa triunfalmente de um de seus troféus: uma calcinha de Ava Gardner.

Numa visita a Cojimar meses atrás, Padura sentou-se a meu lado nos degraus que levam da amurada de pedra até a água. Toda tarde, homens e meninos se alinham no antigo píer de concreto e pescam, com as pernas pendendo da borda. Do outro lado da enseada estreita, recifes de coral dão lugar a um extenso mangue e depois aos malcuidados conjuntos residenciais de Alamar, uma cidade-dormitório ao estilo soviético. Para os residentes de Cojimar, como para muitos cubanos, as reformas econômicas recentes ainda são uma abstração. Naquela tarde de calor sufocante, nenhum navio passava, nenhum pesqueiro singrava o mar, nenhum nadador cortava as ondas. Numa pracinha contígua ao cais, os homens sentados à sombra acalentavam suas cervejas. Do outro lado da rua, um pequeno monumento branco exibe um busto de Hemingway em bronze, o rosto voltado para o mar. Não fosse a vivacidade dos pescadores, Cojimar pareceria um teatro ao ar livre cujo espetáculo tivesse acabado muito antes.

Na década de 80, Fidel Castro inaugurou outro memorial, uma “Marina Hemingway”, nos limites ocidentais de Havana, para atrair turistas ricos com seus iates. O herói de Padura tem horror ao lugar, “projetado de modo a excluir os cubanos sujos e proporcionar, aos belos e ricos do mundo, acomodação para seus iates, praias, comida, putas cordatas e muito bronzeado”. As ruas de Havana são ainda piores – o inverso de um paraíso dos trabalhadores, onde os cidadãos que se acotovelam vivem “assolados por uma ansiedade que só conseguem aliviar na forma de gritos, gestos violentos e olhares ressentidos”. A certa altura, Conde avista uma dupla de garotas se prostituindo. Ali perto, alguns meninos treinam um cachorro criado para lutar, e um negro usando guias religiosas e correntes de ouro amaldiçoa enfurecido o pneu arriado de seu Oldsmobile 54. A cidade, escreve Padura, “estava à beira da erupção, e as nuvens de fumaça que emitia eram sinais de advertência”. Num momento de reflexão, Conde percebe que era “o merdinha de um detetive particular num país onde não existem detetives nem pessoas particulares; sentia-se uma metáfora ruim para uma realidade estranha”. Como a Los Angeles de Raymond Chandler, a Havana de Padura é uma geografia do fracasso humano: as ruas são imundas; os elevadores não funcionam; as pessoas com as conexões certas dispõem de bom uísque escocês e carros caros, enquanto o resto passa fome. Os detalhes são imediatamente reconhecíveis para qualquer um que viva em Cuba. O que Padura fez foi só encontrar um modo politicamente aceitável de reconhecer o óbvio.

Leitores de certa sensibilidade política podem ler em Adeus, Hemingwayum réquiem para os malogros da Revolução. Mas as cenas cruas de Havana que Padura descreve são ambíguas: tanto podem ser vistas como um libelo contra a economia revolucionária de Fidel, como uma crítica à difusão de um capitalismo nascente. E, o que é crucial, ele não lança Hemingway contra a Revolução. Padura já escreveu sobre suas pesquisas para o romance, em que teve inclusive acesso à parte liberada da ficha de Hemingway no FBI – na qual, assinala, há quinze páginas que o governo dos Estados Unidos ainda não tornou públicas, alegando motivos de “segurança nacional”. Ao final do livro, Conde conclui que o agente da CIA morreu num confronto armado com Hemingway e dois leais empregados cubanos; Hemingway foge para evitar mais problemas com os representantes da lei americana. Fica implícito que o grande escritor amava Cuba – mesmo a Cuba de Fidel – e só deixou a ilha obrigado por agentes do imperialismo.



As ruas de Havana estão inundadas de carros particulares: Buicks, Chryslers e Studebakers do tempo de Eisenhower, que os proprietários pintaram com cores alegres e usam como táxis. Hoje, os cubanos podem ser donos de pequenos negócios – oficinas de consertos, salões de cabeleireiro, cafés – e comprar e vender propriedades. Nas ruas residenciais, encontra-se certa quantidade de casas recém-pintadas, indício da prosperidade que aos poucos se difunde entre os poucos habitantes locais que conseguiram entrar no mercado imobiliário. Muita gente transformou os aposentos dianteiros de suas casas, ou os andares térreos de prédios de apartamentos, em cafés e restaurantes improvisados.

Mas algumas dessas novas empresas só oferecem pouco mais que café, conservado quente em garrafas térmicas, e muitas não têm clientela. Do lado de fora da sorveteria Coppelia, controlada pelo Estado, formam-se imensas filas que avançam lentamente. A cidade continua muito parecida com o que era da última vez que a vi, em 2008: gasta, maltratada e implorando por uma demão de tinta. Velhos com um ar apático sentam-se nas praças e nas entradas das casas, cubanos de camiseta e sandália de dedo carregam seus pertences em sacolas de plástico. Hoje os cubanos têm mais opções, mas Havana continua a ser uma cidade decadente dominada por uma escassez perene, onde os habitantes passam boa parte do tempo se virando para satisfazer as necessidades mais básicas: resolviendo, como dizem os cubanos. Quando morei aqui, entre 1993 e 1995, todo mundo que eu conhecia, inclusive os membros do Partido, estava envolvido em algum tipo de armação – desde vender charutos ou remédios roubados das fábricas estatais até comprar no mercado negro alimentos colhidos em hortas ilegais. Nesse sentido, boa parte das “reformas” de Raúl Castro limitou-se a escancarar o que a maioria dos cubanos já praticava em segredo.

Ao final de alguns dias em Havana, percebi que outra coisa também tinha mudado. Por muitas décadas, a Revolução de Fidel havia conservado na vida da ilha uma presença exagerada, exortativa. Agora, ela parecia muito atenuada. No Malecón, o passeio à beira-mar da cidade, a Seção de Interesses dos Estados Unidos, na prática a missão diplomática americana, está instalada num prédio modernista onde oficialmente funciona a Embaixada da Suíça. Em 2006, depois que o chargé d’affaires americano instalou um letreiro eletrônico que exibia boletins noticiosos isentos de censura, Fidel ergueu uma barreira de mais de 100 bandeiras pretas do lado de fora, e construiu um coreto de concreto onde se realizavam manifestações antiamericanas. Hoje os mastros estão vazios e o coreto vive deserto.

Em torno de Havana, só havia uns poucos dos antigos cartazes louvando a Revolução, e os que restaram estão rachados e descascando. O icônico outdoor que se erguia acima de um importante túnel da cidade, anunciando o lema SOCIALISMO OU MORTE, foi retirado. Um novo cartaz afirma, inacreditavelmente, AS MUDANÇAS EM CUBA SÃO POR MAIS SOCIALISMO. E outro anuncia, destemido: O PARTIDO É IMORTAL.



Num famoso discurso de junho de 1961, Fidel Castro prescreveu um caminho para os intelectuais cubanos: “Dentro da revolução, tudo; fora dela, nada.” Nas décadas transcorridas desde então, o aparato cultural do Estado tem sido controlado por meia dúzia de dirigentes leais a Castro, que afrouxam ou endurecem os controles de acordo com as circunstâncias do país, seu gosto pessoal e, acima de tudo, a maneira como interpretam os caprichos de Fidel. Desde a década de 80, a Casa de las Américas – a instituição cultural mais importante do país – vem sendo dirigida pelo poeta Roberto Fernández Retamar, que também tem assento no Conselho do Estado. O Instituto Cubano de Arte e de Indústria Cinematográficas, responsável pela supervisão das atividades na área do cinema, foi comandado por décadas por Alfredo Guevara, outro amigo de vida inteira de Fidel.

O efeito foi desolador. A escassa cena literária de Cuba se mistura a uma turma pouco numerosa de atores, artistas, músicos e arquitetos que aprenderam a se adaptar aos rigores do sistema. Alguns floresceram: cantores da Nueva Trova como Pablo Milanés, e membros de conjuntos populares como Los Van Van; atores como Jorge Perugoría e Mirtha Ibarra. Mas a abertura que eles criam tende a ser cultural e não política, e a maioria deles esvoaça, como mariposas de cabresto, em torno de vários organismos de fomento à cultura. Para os escritores, a agência central é a União Nacional dos Escritores e Artistas de Cuba, ou Uneac, que controla várias editoras, entre elas a Unión Editorial, responsável pelo lançamento da maior parte da obra de Padura.

Uma vez por ano, o Instituto Cubano do Livro realiza a Feira Internacional do Livro de Havana, quando as obras autorizadas são expostas e vendidas. As poucas livrarias da capital se dedicam ao obviamente permitido (histórias de Cuba, poemas de José Martí). Todas parecem ter uma estante voltada ao pensamento de Fidel sobre o mundo de hoje: La Crisis del Capitalismo, Obama y el Império, “Meus primeiros anos”. Cuba parou de importar a maioria dos livros do Ocidente capitalista ainda na década de 60, e assim, como comenta Pedro Juan Gutiérrez, “quase ninguém conhece John Cheever, Raymond Carver, Richard Ford, Michel Houelle-becq, Marguerite Duras e um longo et cetera de outros. O que significa que os leitores são praticamente analfabetos”.

Todos os livros de Padura foram distribuídos em Cuba, e ele é um escritor prolífico. Além dos romances sobre Trotsky e Hemingway, e de seus outros cinco livros em que o protagonista é Conde (A Neblina do Passado, Passado Perfeito,Ventos de Quaresma, Máscaras e Paisagem de Outono), ele publicou três outros romances, duas antologias de contos, cinco coletâneas de jornalismo, estudos críticos sobre Alejo Carpentier e o poeta José María Heredia, um livro sobre os grandes músicos de salsa do Caribe e outro sobre os maiores jogadores do beisebol cubano. Seu último romance, Herejes, lançado na Espanha em setembro, é uma narrativa que se estende por vários séculos e fala das viagens de uma tela pintada por Rembrandt (Conde faz algumas aparições).

Na Plaza de Armas, na antiga área colonial próxima ao porto, percorri uma feira de livros usados ao ar livre. Títulos de ou sobre Che Guevara e Fidel Castro eram abundantes, além de reproduções de cartazes do apogeu revolucionário dosanos 60, todos claramente destinados aos turistas. Não havia nenhum livro dos escritores emigrados Reinaldo Arenas ou Guillermo Cabrera Infante. Quando perguntei se dispunham de algum exemplar de Pedro Juan Gutiérrez, recebi como resposta olhares vazios da maioria dos vendedores. Finalmente, um deles me entregou alguns volumes finos que acomodou com discrição sob uma pilha de outros. Já os livros de Padura estavam em toda parte.



Padura mora em Mantilla, onde Havana deságua na área rural em meio a oficinas de lanternagem, sítios e modestas casas de beira de estrada. Não é um lugar muito agradável de se morar; o deslocamento até o Centro da cidade leva pelo menos meia hora de carro, e a rua que passa diante da casa é larga e tomada por um tráfego ruidoso. Mas Padura nasceu nessa casa, cresceu nela, e sua mãe ainda mora no andar de baixo (seu pai morreu em setembro). Depois que se casou com Lucía, que conheceu em 1978, ele começou a construir o apartamento do segundo piso, onde os dois vivem desde então.

A casa é espaçosa e cheia de luz, com uma cozinha bem equipada e varandas que dão para as casas vizinhas; a toalha da mesa da sala de jantar tem uma impressão em silk-screen da capa da edição alemã de um dos romances do escritor. A casa é de uma limpeza meticulosa – sintoma evidente da natureza metódica de Padura. Quando cheguei, ele me recomendou repetidas vezes que fosse “lavar meu rosto”, e então, quando acedi, pediu à mulher que me trouxesse uma toalha limpa.



Leonardo Padura Fuentes é corpulento, de aparência rude, com os cabelos muito curtos e os modos de alguém acostumado com a vida nos arredores menos glamorosos de sua cidade. Comporta-se como um fanfarrão cubano típico – bebe (antes era rum, hoje é vinho tinto), fuma cigarros de fumo caporal, e usa e abusa de palavrões –, mas também é atencioso. Lucía, mulher tímida com um meio sorriso perpétuo, o acompanha por toda parte, e é a ela que ele dedica todos os seus livros, “com amor e sordidez”.[2] Não têm filhos, e concentram suas energias num dachshund decrépito chamado Chorizo, estendido como um boneco velho no reluzente piso de cerâmica. Padura está sempre às voltas com ele, carregando-o até um terraço onde ele pode urinar, e depois trazendo-o para dentro nos braços. “Imagine só, ele tem 16 anos”, diz o escritor. “Bem mais de 100 anos dos nossos.”

Padura diz que não consegue imaginar viver em nenhum outro lugar. “Tudo partiu daqui, dessa casa, desse bairro”, explica ele. Seu bisavô fundou um armazém em Mantilla, e a família nunca mais foi embora dali. Seu pai e sua mãe construíram a casa em 1954, e ele nasceu no ano seguinte. “Em casa, a literatura não existia. Meus pais são de um nível cultural bem baixo.” E isso ele revela sem qualquer tom de censura, mera constatação.

Nos primeiros anos da Revolução, os artistas cubanos gozaram de uma liberdade aparentemente ilimitada. Mas ao final dos anos 60, os comunistas dogmáticos do Partido, cada vez mais alinhados com a União Soviética, começaram a perseguir os intelectuais que davam sinais de “tendências contrarrevolucionárias”. Escritores como Guillermo Cabrera Infante e Carlos Franqui perceberam os sinais e não demoraram a se exilar. Os quepartiam eram rotulados de traidores ou gusanos – “vermes”, o mesmo epíteto aplicado por Fidel Castro aos cubanos que se mudavam para os Estados Unidos – e eram impedidos de retornar. Os que ficaram eram perseguidos, sobretudo os homossexuais, vistos como “decadentes” e portanto politicamente suspeitos. Depois de uma dura sentença de prisão, o escritor gay Reinaldo Arenas transferiu-se para os Estados Unidos em 1980, por ocasião do êxodo de Mariel.[3]

O episódio mais significativo desse período sombrio ocorre em torno do poeta Heberto Padilla. Em 1968, Padilla publicou um volume de poemas chamado Fuera del Juego, que lhe valeu um prêmio patrocinado pelo Estado. Quase imediatamente, porém, o governo denunciou o livro como contrarrevolucionário, e só permitiu sua publicação se lhe acrescentassem um prólogo deixando clara a opinião oficial sobre a obra. Três anos mais tarde, Padilla promoveu a leitura de um novo poema, chamado “Provocaciones”, e foi preso pelos órgãos de segurança do Estado devido a “atividades subversivas”. Depois de um mês encarcerado, foi obrigado a se apresentar perante seus pares da Uneac e demonstrar sua contrição. E Padilla declarou, humilhado: “Nunca me cansarei, enquanto viver, de me arrepender desses atos indizíveis e vergonhosos. Esta foi uma experiência única, que dividiu minha vida ao meio: o homem que eu fui e o homem que serei.” Os tempos que se seguiram foram de medo e limitações, conhecidos por escritores e intelectuais como os “Cinco Anos Cinzentos”. A escolha entre o exílio forçado e o trauma do ostracismo doméstico foi dura o suficiente para silenciar a maioria deles pelo resto de suas carreiras.



Padura pertence ao grupo que ele mesmo define como a Geração Oculta: os cubanos que chegaram à idade adulta depois dos piores espasmos da Revolução, mas antes da queda do comunismo. Como muitos de seus pares, cresceu acreditando na visão de um futuro socialista segundo Fidel; no verão, cortava cana nas “escolas de campo” coordenadas pelo Partido. Na juventude, sonhava em ser jogador de beisebol. “Eu conhecia o jogo, tinha paixão, talento, inteligência e velocidade”, diz ele. “Mas precisaria ser uns 30 centímetros mais alto.” Resolveu tornar-se cronista esportivo; porém, quando entrou na Universidade de Havana, em 1975, ela não oferecia o curso de jornalismo. “O planejamento socialista tinha decidido que havia um excesso de jornalistas no país”, conta.

Em vez de jornalismo, então, estudou filologia, concentrando-se em literatura hispano-americana. No fim das contas, diz ele, foi até uma vantagem: “Pude estudar jornalismo sem me contaminar com os vícios da academia.” Em 1980, depois de formar-se, começou a trabalhar como repórter para El Caimán Barbudo, o suplemento literário mensal de Juventud Rebelde, o jornal da Juventude Comunista. Ao contrário do Granma, o “órgão oficial” do Partido, a imprensa jovem de Cuba às vezes se afastava das matérias claramente permitidas; quando a prostituição recrudesceu na década de 90, por exemplo, os jovens se atreveram a denunciar o fenômeno. Padura passava boa parte do tempo escrevendo artigos de fundo sobre aspectos pouco lembrados da vida e da história de Cuba: o Bairro Chinês de Havana, a dinastia do rum Bacardi, a ascensão e a queda de um proxeneta notório nos anos imediatamente posteriores à independência, em 1910. O “Caso Padilla”, como ficou conhecido, não provocou muita repercussão, conta Padura. “Mas ainda havia muita pressão quanto ao que podia ou não ser dito, e um membro do Ministério do Interior lia tudo o que escrevíamos, tomando satisfações quando saíamos da linha.”

Ao final de três anos, Padura escreveu um artigo mencionando uma pessoa incluída na lista negra oficial. Recebeu uma advertência por “problemas ideológicos” e foi transferido para a redação principal do jornal, o Juventud Rebelde. Mas não se lembra do episódio como um castigo: teve o apoio de seus editores para trabalhar nas matérias que o interessavam, e aperfeiçoou cada vez mais seu ofício. “Foi sorte”, diz ele. “Porque lá me transformei num jornalista de verdade, fiquei conhecido, aprendi a escrever de forma narrativa.”

A essa altura, Cuba estava envolvida no conflito em Angola, mandando milhares de soldados “internacionalistas” para lutar numa das guerras por procuração mais ferozes de toda a Guerra Fria. Quando Padura estava com quase 30 anos, apresentou-se voluntariamente para passar um ano em Angola como correspondente de guerra e, para ele, esse ano foi um tempo alienante de medo e saudades de casa. Mas que serviria de inspiração para alguns dos primeiros contos que publicou, com reflexões sobre a fé revolucionária e os diferentes tipos de exílio e a solidão.

Em 1989, enquanto Padura trabalhava no Juventud Rebelde, o bloco soviético entrou em desintegração, pondo fim aos generosos créditos econômicos e às relações comerciais privilegiadas que davam suporte a Cuba já havia três décadas. Os Estados Unidos, que persistiam no embargo contra a ilha, exacerbaram ainda mais o bloqueio. Em agosto do ano seguinte, Fidel Castro anunciou seu plano para evitar a calamidade, o Período Especial em Tempos de Paz. Foi o começo de quase uma década de duras provações para muitos cubanos, à medida que a economia do país definhava até quase desaparecer.

Diante da falta de combustível, bicicletas substituíam os automóveis e juntas de bois substituíam os tratores. Muitos cubanos passavam fome; um alto dirigente do Partido me confessou que sua família às vezes tinha pouco mais que água com açúcar para o jantar. A violência, os roubos e a prostituição se multiplicaram, e motins ocorreram nos bairros mais pobres. Em 1994, cerca de 50 mil cubanos se lançaram ao mar em barcos improvisados, num esforço para chegar aos Estados Unidos. Zoé Valdés, antiga alta funcionária da área cultural, escreveria um romance sobre o período cujo título – O Nada Cotidiano – resumia a difundida sensação de desespero da época. Em 1995 ela deixou Cuba e foi para Paris.

Os que ficaram faziam o possível para enfrentar as mudanças na economia. O governo introduziu o “peso conversível” para competir com o dólar americano, corrente no turismo e no mercado negro. A nova moeda era muito mais valiosa que o peso normal, e os indivíduos que tinham acesso a ela começaram a prosperar. O efeito foi uma surreal economia de sinais trocados, em que médicos passavam fome enquanto artistas de rua e camareiras – além de escritores e artistas com vendas no exterior – podiam comer carne com seu arroz e feijão.

Em 1990, Padura foi nomeado editor de La Gaceta de Cuba, uma publicação da Uneac, e permaneceu no cargo por cinco anos. “Naquela época, você só conseguiria trabalho se fosse empregado de um organismo oficial”, lembra ele. “O Estado, até então onipresente, não era mais capaz de garantir nem a alimentação das pessoas. E procurei reverter a situação a meu favor.” La Gaceta parou de ser publicada por dois anos, deixando Padura com um ordenado modesto mas sem nenhuma obrigação concreta. “E comecei a escrever sem parar. Quase todo mundo pensava em ir embora de Cuba, mas resolvi ficar e, entre 1990 e 1995, trabalhei como um louco.” Lia vorazmente, preferindo os escritores de língua espanhola como Manuel Vázquez Montalbán e Paco Ignacio Taibo II, mas sobretudo os americanos do século XX: Fitzgerald, Faulkner, McCullers, Roth. “Ninguém conta uma história melhor que os romancistas americanos”, diz ele. Padura atribui a John Updike a inspiração para seu feito mais importante da época, a criação do personagem Mario Conde. Com Conde, tentou produzir para Cuba o que Coelho Angstrom representou para a sociedade americana. “Esses romances manifestam um desencanto com um projeto social – a Revolução – que, embora possa ser uma coisa belíssima, tem sido uma coisa... árdua.”

Quando Padura começou a escrever, os romances policiais tinham uma imensa popularidade em Cuba; constituíam quase 40% de todos os livros publicados no país, e alguns títulos chegavam a vender 200 mil exemplares em poucos dias. No entanto, como ocorria com grande parcela da arte da época, eram o que Padura descreve como “um panfleto de propaganda oficial sem qualquer valor literário”. Em 1972, o Ministério do Interior anunciou um concurso para desenvolver o gênero em Cuba: “As obras apresentadas devem tratar de temas policiais e ter um caráter didático, servindo ao mesmo tempo como estímulo à prevenção e à vigilância de toda atividade antissocial.” Os heróis precisavam ser paladinos do povo, tão corretos que nem podiam usar nomes feios.

Padura queria que a ficção abordasse “os maiores problemas da sociedade: corrupção, repressão, hipocrisia, esfacelamento ideológico, oportunismo, pobreza”. Escrever um livro policial, diz ele, era “um modo de ingressar no lado escuro e estar em contato com ele”. Mario Conde é um alcoólatra com amigos dissolutos e um vínculo tênue com seu emprego no departamento de polícia. Mas tem presença física e um olho clínico em matéria de mulheres, rum e comida, além de ser um idealista desencantado, dado a contemplar as questões insolúveis da vida – características que, todas elas, o tornam tão identificável para os cubanos como Coelho Angstrom para a classe média dos subúrbios americanos. “Conde muitas vezes pensava como eu, e agia como eu teria agido”, declarou o escritor. Conde adora Hemingway, e queria ter sido jogador de beisebol; nasceu no mesmo ano que Padura, e trabalhou por algum tempo como repórter.

Como escritor, Padura já gozava de bom nome junto aos comitês de publicação, tendo lançado até então, sem problemas, títulos sobre beisebol e músicos de salsa. Mas quando terminou o primeiro dos livros de Conde, Passado Perfeito, em 1990, a publicação foi negada. (No livro, um dos amigos de Conde dá largas a sua frustração: “Você acha que alguém nesse país sabe escrever? Porra nenhuma, e eu sei que você não está com a menor vontade de escrever, quanto mais de viver; mas é importante que não desista.”) A única opção de Padura era uma editora estrangeira – o que, como me explicou um escritor cubano, “nos dá proteção em casa”, além de aumentar as possibilidades de que o livro acabe editado também em Cuba. Padura conseguiu ter seu livro lançado pela editora da Universidade de Guadalajara e levou a Havana alguns exemplares da primeira edição; logo depois os leitores lhe disseram que tinham adorado Conde. O personagem, percebeu ele, era “um reflexo dos problemas e das frustrações da minha geração”.



Mais ou menos na mesma época, os escritores cubanos encontraram um novo protetor: Abel Prieto, presidente da Uneac e, depois, ministro da Cultura. Prieto era membro do Partido e costumava usar da palavra nas reuniões partidárias para condenar os dissidentes – mas também sabia que o país vinha perdendo boa parte de seu capital intelectual. Convenceu Fidel a permitir que os intelectuais circulassem com maior desenvoltura e, na medida em que não rompessem politicamente com o sistema, pudessem dispor de seus ganhos no estrangeiro.

Em 1993, o segundo romance de Padura em que Conde aparece como personagem, Ventos de Quaresma, ganhou um prêmio da Uneac que garantiu sua publicação, e Prieto começou a mexer os pauzinhos para lançar também uma edição cubana do primeiro livro, antes recusado. Embora num primeiro momento não houvesse disponibilidade suficiente de papel, o livro foi publicado no ano seguinte, em sucessivas tiragens pequenas que se esgotavam em questão de dias. Padura teve a ideia de fazer uma série dos romances protagonizados por Conde – quatro livros correspondentes às estações do ano de 1989, em que o Muro de Berlim veio abaixo. Em cada um deles, disse Lucía, “ele avançava um pouco mais, para ver até onde poderia ir”. E os romances, à medida que Padura ia adquirindo confiança, foram ficando mais audaciosos e mais sombrios. O primeiro é uma história relativamente comedida de corrupção oficial; o segundo fala de uma jovem professora com “uma ficha ideológica impecável” que, depois de ser encontrada morta, descobre-se ter levado uma vida dupla licenciosa de sexo e uso de drogas.

O terceiro romance, Máscaras, aborda a repressão aos intelectuais e homossexuais na década de 70. Conde, que está suspenso da força policial, investiga o assassinato de um travesti, encontrado morto num parque de Havana, trajando um vestido vermelho. O principal suspeito é Alberto Marqués, um velho dramaturgo gay, cujos vícios Padura, reproduzindo a linguagem do Partido, acusa em tom de paródia em forma de lista: “Homossexual de extensa carreira predatória, politicamente desengajado e ideologicamente desviante... protetor de bichas dissolutas, homem de associações filosóficas questionáveis, dominado por clássicos preconceitos pequeno-burgueses.” À medida que a investigação se aprofunda, Conde adquire certa simpatia por Marqués, que, apesar da repressão que sofre, “teve uma atitude de homem e ficou na ilha”. Também fica intrigado com o demimonde gay de Havana. O tratamento que Padura dá ao sexo é em geral mais sugestivo que explícito – como ocorre na maioria das sociedades revolucionárias, Cuba manifesta uma evidente propensão ao pudor –, mas numa cena escandalosa Conde faz sexo com uma mulher que ele suspeita ser transexual.

Para Padura, escrever sobre a perseguição aos homossexuais “foi como mergulhar de olhos fechados numa piscina”, diz ele. Mas estava dando mostras de uma intuição infalível para as mudanças políticas. Prieto, com outros ministros da Cultura, tinha começado a reabilitar escritores gays como José Lezama Lima e Virgilio Piñera, ambos mortos ao final da década de 70; suas obras foram reeditadas, e Lezama Lima recebeu um prêmio póstumo. Alfredo Guevara, o velho amigo de Fidel, diretor do instituto de cinema, ajudou a produzir Morango e chocolate, em que um jovem militante comunista trava amizade com um homem gay.

A aposta de Padura deu certo. “Em 13 de janeiro de 1996, Deus estendeu a mão e me escolheu”, diz ele. “Eu soube que tinha ganhado o Prêmio Café Gijón”, galardão literário espanhol acompanhado de uma remuneração de 16 mil dólares. Numa época em que o cubano médio ganhava em torno de 6 dólares por mês, era uma fortuna. Pouco depois, a editora espanhola Tusquets se ofereceu para publicar seus livros. “Quando isso aconteceu, Lucía virou-se para mim e disse: ‘A partir de agora você é escritor’”, conta Padura. De uma hora para outra, ele passava a fazer parte da pequena comunidade de indivíduos criativos que tinha estabelecido uma reputação no estrangeiro ao mesmo tempo em que conservava o favor do regime cubano. Ele e Lucía compraram um Subaru azul; começaram a viajar para o exterior com frequência cada vez maior. Quando estive com eles em Cuba, tinham acabado de voltar de uma turnê de lançamento pela Argentina e o Chile, e partiriam pouco depois para a Grécia e a Espanha.

Com o orgulho do menino de aldeia que vence na vida, Padura enumera suas realizações. “Fui traduzido em vinte línguas, e recebi outros prêmios: a comenda de Officier des Arts et des Lettres do governo francês” – acena de passagem para uma prateleira coberta de lembranças – “e, no ano passado, o Conselho de Ministros da Espanha me concedeu a cidadania espanhola honorária pelo meu mérito literário.” Vários livros de Padura foram adaptados e transformados em filmes e telenovelas estrangeiras; nos roteiros, Lucía atua sempre como coautora.



Uma noite, fui com Padura a uma festa em Guanabacoa, uma cidadezinha a leste de Havana – uma reunião de atores, escritores e artistas. Um homem chamado David Mateo me disse que era editor de uma revista virtual sobre artes, o que me pareceu inimaginável. Vários anos atrás, o regime cubano contratou a empresa estatal venezuelana de telecomunicações para dotar a ilha de cabos de banda larga, mas o projeto está inacabado até hoje, e o acesso à internet em Cuba é de uma lentidão enlouquecedora, além de muito caro. Em Havana, eu me mantinha a par das notícias frequentando o cibercafé de um hotel turístico e pagando tarifas exorbitantes pela conexão; para o cubano médio, uma hora de acesso à internet custa o salário de uma semana. De qualquer maneira, a maioria dos cubanos só tem acesso permitido à “intranet” da ilha, filtrada e controlada pelo governo. Os autores que contribuem para a revista de Mateo mandam-lhe seus textos por e-mail, e ele responde como pode. A revista propriamente dita é publicada no estrangeiro. Ele não tinha ideia de qual era a sua aparência.

Na época em que Padura era um jovem repórter, quem escrevia algo que desagradasse ao Partido era transferido para outro jornal, ou era encarregado de trabalho braçal numa plantação. Hoje a censura opera de maneira mais sutil. As poucas publicações que gozam de alguma liberdade têm tiragens pequenas e distribuição limitada, e mesmo assim precisam se submeter a alguma fiscalização. O repórter de uma importante revista me disse que todo número é remetido para observadores do governo: “Eles podem fazer sugestões de mudança no conteúdo, ou até vetar a publicação de artigos inteiros.” Para os escritores de fora do sistema, as instituições culturais são remotas e misteriosas; existe apenas uma sensação difusa de que certas coisas são apropriadas, e outras não. “É tudo muito sutil, muito discreto”, comenta Pedro Juan Gutiérrez. “Você não pode ir lá e soltar os cachorros, porque não vai encontrar ninguém numa sala, atrás de uma mesa, que lhe diga alguma coisa. Se não gostam de você, não gostam e pronto.”

Quando perguntei a Padura se seus romances alguma vez tinham sido censurados, ele respondeu: “Felizmente, não.” Mas assinalou que O Homem que Amava os Cachorros, o livro que fala de Trotsky, teve uma tiragem muito pequena; foram apenas 2 mil exemplares distribuídos no mercado cubano. Quando foi lançado na Feira do Livro de Havana, o salão estava lotado de admiradores do escritor, enquanto outros tantos ficavam do lado de fora tentando entrar. A imprensa oficial não noticiou o acontecimento, e quase não fez menção ao livro.



No jornalismo e na ficção, Padura sempre tende a voltar ao Período Especial depois do fim da União Soviética e à repressão dos anos 70, como forma de abordar os malogros mais amplos da Revolução Cubana e o silêncio cúmplice de sua geração. Em agosto de 2012, no centésimo aniversário do nascimento de Virgilio Piñera, Padura publicou um artigo intitulado “Lembrar é sempre melhor que esquecer”. Sem se referir diretamente à homossexualidade de Piñera, criticava “a marginalização e o opróbrio” que o escritor sofreu, além de denunciar a propensão, frequente entre os responsáveis por abusos e maus-tratos, a “esquecer o que não lhes é conveniente”.

Os irmãos Castro, porém, não são nomeados no texto, e em quase nenhum outro momento da atividade jornalística de Padura. No mesmo artigo, ele nos dá uma pista sobre sua reserva: “Os que eram poderosos naqueles dias nos viam como formigas que eles podiam esmagar com suas botas. Aqueles de nós que estivemos no papel de formigas nunca conseguiremos esquecer o tamanho da bota que ameaçava nos esmagar, ou o medo que nos provocava.”

Mesmo em sua obra ficcional, Padura só alude a Fidel a uma distância histórica. Em La Novela de mi Vida, recria a vida do poeta cubano oitocentista José María Heredia, que se transformou em herói nacional e acabou no exílio por suas críticas desabridas ao governo colonial espanhol. A certa altura, o herói conversa com o todo-poderoso governador espanhol sobre a repressão política na ilha. “Este país se encontra sob o olhar cobiçoso dos Estados Unidos e da Inglaterra, e se cedermos um centímetro que seja, eles acabarão tomando conta de tudo”, diz o governador. “Se, para manter a ilha espanhola, as reivindicações políticas de alguns precisam ser silenciadas, então vamos silenciá-las. Dos males, o menor. É a política, e é o realismo.”

Quando o governador faz essa profissão de fé na Realpolitik, não há como não entender quem na verdade está falando. “Heredia trava um diálogo constante com o presente”, explica Padura. “E o romance fala dos efeitos do poder sobre a vida dos indivíduos e a literatura, do ponto de vista da Cuba dos nossos dias – o que qualquer leitor pode perceber com facilidade.” Pouco depois do lançamento do livro, em 2002, a segurança do Estado de Fidel arrebanhou 75 dissidentes, entre eles 29 jornalistas “independentes”, e os encarcerou sob a acusação de traição.

Padura diz que está “consciente de uma certa responsabilidade” em comunicar a realidade da vida em Cuba, o que nem sempre é tarefa fácil. Num ensaio de 2011 intitulado “Eu queria ser Paul Auster”, escreve de maneira tortuosa a respeito do peso de seu fardo: “Nunca perguntam a Auster que direção ele acha que a economia americana devia tomar”, ou “por que ele não foi embora do país durante os anos horríveis do governo de George W. Bush”.

O escritor faz piada e comenta que, sempre que viaja ao exterior para um lançamento, “muita gente, em vez de me dizer que eu escrevo bem, elogia minha coragem por escrever o que escrevo em Cuba”. Para alguns de seus pares, entretanto, ele é tímido demais em suas críticas. Patricio Fernández, importante editor e escritor chileno, me disse: “Para permanecer na ilha como escritor, é necessário transformar-se num equilibrista e assinar uma espécie de contrato psicológico em que o escritor se compromete a não fazer barulho.” E outro escritor cubano afirma: “Seus livros vendem como pão quente porque são leves e brandos como pão de ló.”

Mas nenhum outro autor cubano conseguiu atingir o mesmo equilíbrio entre provocação e segurança. Pedro Juan Gutiérrez evita escrupulosamente a política em seus livros. Em lugar dela, escreve quase só sobre sexo – um sexo exuberante, sem disfarces ou barreiras – para produzir a crônica da vida promíscua e agitada de um homem chamado Pedro Juan, que mora num prédio arruinado numa rua maltratada do Centro de Havana, a mesma onde também mora o próprio Gutiérrez. Embora venda bem no exterior, seus livros passaram décadas indisponíveis em Cuba. Nos anos recentes, alguns volumes mais breves de sua obra, menos explícitos que a Trilogia Suja de Havana, vêm sendo publicados discretamente. E Gutiérrez me disse, faz pouco tempo: “Acho que existe hoje um desejo autêntico de afrouxar os controles sobre o que nós, os intelectuais, fazemos.” Há muitos escritores mais jovens, diz ele, “escrevendo sobre o que realmente lhes interessa, e questionando tudo”.

Um deles é Wendy Guerra, mulher engraçada e intensa de 40 e poucos anos. Em 2006, seu romance Todos se Vão foi publicado na Espanha e aclamado pelos leitores; em 2010, ela recebeu uma das mais altas honrarias culturais da França, o título de chevalier da Ordre des Arts et des Lettres. Todos se Vão é uma autobiografia pouco velada: o diário de uma jovem que não só se sente traída por uma sucessão de homens num país onde a dominação masculina é forte, como também oprimida pelo conformismo da Revolução.

Wendy Guerra disse que olha para Padura com o afeto de uma irmã mais nova, e, embora não seja publicada em Cuba, sempre pede conselhos a ele e a Lucía. “Uma das maneiras que o sistema socialista cubano sempre teve de desqualificar alguém é fazer desaparecer o nome da pessoa”, diz ela. “Meus prêmios não são noticiados pela imprensa; eu não saio nos jornais e nem tenho acesso aos meios de comunicação.” Wendy está determinada a permanecer em Havana e a continuar escrevendo, mas se sente invisível para seus pares. “Às vezes as pessoas me veem nas ruas e me perguntam: ‘Ué, você não deixou o país?’”, diz ela. “Existe um ditado: o que deixa de ser nomeado deixa de existir. Eu vivo um ‘exílio interno’ em Cuba. Fui exilada sem ter sido obrigada a ir para o estrangeiro."



Padura fala de maneira mais direta de suas opiniões sobre o jornalismo. “Na verdade, na imprensa oficial as mudanças foram poucas”, diz ele. “E faz sentido. Se a imprensa pertence ao governo e ao Partido, seria realista a imprensa criticar o governo e o Partido?” O Granma é o mesmo e chatíssimo panfleto de propaganda de sempre. Durante minha estada em Cuba, enquanto manifestantes turcos denunciavam o primeiro-ministro na praça Taksim, a primeira página do Granma preocupava-se em noticiar que um debate sobre os ideais de Che Guevara seria realizado aquela noite no canal estatal de televisão.

Certa manhã, acompanhei Padura a uma palestra que faria aos estudantes de jornalismo da Universidade de Havana. Quando subimos em seu Subaru, ele comentou que a faculdade de jornalismo continuava a ser tratada como uma espécie de enteada da academia cubana. “Estão sempre trocando as salas das turmas, que vivem sendo mandadas de um lado para o outro”, diz ele. E tira do bolso um papel. “Agora me deram o novo endereço. Espero que eu consiga achar a sala certa.” Finalmente, numa rua transversal perto da plaza de La Revolución, nos deparamos com um pequeno grupo de estudantes na entrada de um dos edifícios da universidade. Com eles está o professor, um homem de cavanhaque chamado Rafael Grillo. Sorrindo, ele cumprimenta Padura: “Você veio mesmo, não pensei que viesse.”

Como sempre, Padura usa roupas bem esportivas: uma camisa polo cinza, calça bege e sapatos bons para caminhar. Carrega na mão uma pochete do tipo usado por turistas, contendo dinheiro e documentos. Na sala de aula, encontra uns trinta estudantes a sua espera e, quando começa a falar, alguns o fotografam com seus telefones. Padura discorre sobre a necessidade de um acesso melhor à internet, seu “saco de pancadas de sempre”, e queixa-se que, para tomar conhecimento das últimas notícias, dependa de um amigo estrangeiro que as envia por e-mail uma dúzia de vezes ao dia. Recentemente, o governo anunciou a intenção de abrir cibercafés em toda a ilha. “Se for mesmo verdade, vai ser importantíssimo”, declara aos estudantes. “Seria a primeira vez que o governo admite que não pode deter o monopólio da informação.” Padura exorta o governo a afrouxar a pressão sobre os jornalistas, mudança que considera “mais importante que qualquer outra – no Partido ou mesmo no Politburo”. E continua: “Qualquer um de vocês pode se formar aqui imbuído dos melhores propósitos, mas daqui a seis meses vai estar trabalhando como repórter no Granma, ou na televisão cubana.” Faz uma careta. “E vocês sabem o que isso quer dizer.”

Para os cubanos, uma conversa assim franca sobre a liberdade de imprensa não tem muitos precedentes. Os dissidentes políticos que realizam protestos públicos geralmente são detidos, e às vezes espancados por policiais ou grupos favoráveis ao regime. Mesmo assim, parece vir crescendo o reconhecimento oficial de que os meios de comunicação estatais precisam se mostrar mais abertos. Num discurso recente, Raúl Castro acusou os meios de comunicação de “excesso de estridência e formalidade”, e de “não travar debate” (não faz diferença que ele tenha ajudado a silenciá-los por várias décadas). E de fato, depois das palavras de Padura, um impetuoso jovem da plateia afirma que sua crítica da imprensa parece um simples eco das palavras de Castro. O escritor apenas repete que existe um “vácuo inegável” no cerne dos meios de comunicação cubanos. Menciona Yoani Sánchez, a blogueira dissidente, a quem o governo tinha dado uma permissão recente para sair do país depois de décadas negando seus pedidos. “Graças a eles, Yoani se transformou numa grande personalidade, pois não a deixavam viajar, e o que aconteceu? Ela foi, voltou, e pronto.” E Padura completa, com uma expressão impassível: “Nem por isso acho que a safra de bananas de Cuba tenha sido afetada.” Risos abafados entre os estudantes. O escritor tem razão, é claro: um cubano que leia apenas a imprensa local jamais saberia que Yoani tinha regressado a Havana; aliás, talvez nem soubesse de sua existência.



Os críticos de Padura podem lhe cobrar mais coragem, mas isso significaria a vida no exílio, condição a que ele se refere como “uma pena terrível”. Ironicamente, alguns dos cubanos exilados produziram suas melhores obras depois de deixar a ilha. Cabrera Infante escreveu sua obra-prima, Três Tristes Tigres, em Londres; Arenas escreveu um brilhante livro de memórias, Antes que Anoiteça, enquanto morava em Nova York. Mas a vida no exílio pode ser estéril. Numa entrevista inédita concedida em 1983 à escritora Ann Tashi Slater, Arenas falou do deslocamento que sentia: “Qualquer pessoa que viva fora de seu contexto é sempre uma espécie de fantasma, porque estou aqui mas ao mesmo tempo me lembro de uma pessoa que caminhava por aquelas ruas, que continua lá, e essa pessoa também sou eu. Às vezes não sei se estou aqui ou lá. E às vezes a vontade de estar lá é maior que a necessidade de ficar aqui.”

E o pior de todos talvez seja o exemplo de Heberto Padilla. Libertado da prisão, mas rejeitado pela Cuba oficial, o poeta ganhava a vida com traduções e esteve impedido de deixar a ilha até 1980, quando o senador Edward -Kennedy o ajudou a obter licença para emigrar. Padilla se estabeleceu nos Estados Unidos, escreveu um pungente livro de memórias, Autorretrato del Otro, e encontrou trabalho como professor, mas nunca lhe permitiram que voltasse a Cuba. Morreu em 2000, no Alabama, depois de vinte anos longe de sua terra.

Quando a era castrista terminar, Padura bem pode estar entre os poucos artistas a ter persistido até o fim. Como ocorre com a maioria de seus compatriotas, um dos traços que mais o distinguem é a capacidade de sobrevivência. Para Wendy Guerra, “o prêmio de Padura foi uma necessidade histórica para calar os gabinetes responsáveis pela vigilância sobre as palavras. Ele é o pai de Mario Conde, o personagem que médicos e engenheiros acompanham, a primeira personalidade a emergir na ficção popular cubana em cinquenta anos de Revolução”.

Mas sugere haver mais um motivo para a relativa liberdade de Padura. “Los jefes não leem nada”, declara ela. “Só estão tentando evitar acusações na arena internacional, e acham melhor publicar o que escrevemos a ter de enfrentar os problemas que poderiam advir por um motivo que nem julgam importante.” Se Wendy Guerra estiver correta, não importa qual a extensão da abertura concedida pelo governo cubano, ela se baseia em cálculos de ordem prática; a cultura, no caso, é incidental. Uma hora a leste de Cojimar, um poço de petróleo chinês se ergue ao lado da estrada, e a oeste novas e vastas instalações portuárias estão sendo construídas pelo Brasil. No antes exclusivo logradouro de férias de Varadero, turistas da Rússia e da Argélia se juntam à multidão que viaja em busca de temporadas baratas na praia; na ponta da península uma área intocada de floresta deu lugar a um canteiro de obras de hotéis. Onde Fidel proibia o golfe no passado, investidores estrangeiros obtiveram licença para construir campos exclusivos, cercados de condomínios e shopping centers. Enquanto isso, em Havana, pela primeira vez vi gente sem teto: homens com roupas surradas, alguns sofrendo de evidente doença mental, vasculhando latas de lixo ou vagando a esmo pelas ruas.

É como se, com suas “mudanças”, o Estado cubano já tivesse começado a retirar-se de cena, e o novo ethos dominante, como em boa parte do resto do mundo, tenha passado a ser o sálvese quien pueda – salve-se quem puder, e cada um por si. Em O Homem que Amava os Cachorros, Padura diz que “a Utopia foi traída e, pior ainda, reduzida a uma paródia fraudulenta das maiores aspirações humanas”. Quando lhe perguntei recentemente se a Revolução tinha acabado, ele se esquivou, discorrendo em termos vagos sobre a institucionalização das ideias socialistas, o pragmatismo e os diversos estágios da transformação social. Entretanto, na tarde que passamos juntos em Cojimar, ele foi bem mais direto. “Cuba está encurralada entre duas visões eternamente conflitantes”, disse ele. “Uma é a de que é um paraíso socialista; a outra é de que é um inferno comunista. Na verdade, Cuba não é nem um paraíso e nem um inferno, mas um purgatório, onde alguns de nós ainda têm a possibilidade de salvação.” J

[1]O Homem que Amava os Cachorros, recém-lançado no Brasil pela Boitempo; também têm edições brasileiras A Neblina do Passado(Benvirá), Passado Perfeito, Ventos de Quaresma, Máscaras e Adeus, Hemingway(os quatro últimos da Companhia das Letras)

[2]Uma referência ao conto “Para Esmé, com amor e sordidez”, do escritor americano J. D. Salinger, de quem Padura é admirador.

[3]A emigração em massa de mais de 120 mil cubanos para os Estados Unidos, a partir do porto de Mariel. O êxodo foi apoiado por exilados e aprovado por Fidel Castro, e os emigrantes incluíam criminosos liberados das cadeias de Cuba.

por John Lee Anderson

piauí

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