quarta-feira, 1 de maio de 2013

David Lynch, uma entrevista

Ele é um dos diretores mais controvertidos e cultuados do cinema contemporâneo. Faz filmes que pouca gente entende, é verdade. E quem vê, ou ama, ou odeia. Personagens bizarros, imagens alucinantes que expressam sonhos e até delírios. Histórias que nem sempre têm um fim e que flertam com o real e o surreal que rondam a natureza humana. Enfim, um cinema de dar nó na cabeça e que fez dele um dos mais conhecidos cineastas da atualidade. O Roda Viva entrevista hoje o diretor, escritor, fotógrafo, pintor e compositor americano David Lynch. São dele os filmes: O homem elefante, Coração selvagem, Veludo azul, Cidade dos sonhos e a famosa série de TV Twin Peaks. A entrevista começa em trinta segundos.

O cineasta David Lynch veio ao Brasil para divulgar a técnica da meditação. Mas não é uma meditação qualquer, não. Segundo ele, só a transcendental é que é o máximo, um hábito ao qual ele aderiu já há mais de trinta anos. Lynch, que já fez dez filmes, não acredita no futuro do cinema, nem da televisão, muito menos do DVD. Tudo isso vai parar é na internet, com o seu maravilhoso e leve mundo digital.

Tudo o que o cineasta faz e gosta vai entrando no endereço eletrônico através de vídeos, CDs com trilhas sonoras de seus filmes e uma ampla lista de produtos que compõem sua loja virtual: bonés, pôsteres, fotos, bótons, camisetas e até café torrado, produzido com grãos orgânicos e vendido com a grife do diretor. O café, uma obsessão do cineasta, ajuda a fundação David Lynch a arrecadar fundos para programas de redução de estresse em escolas, através da meditação transcendental. A fundação também estuda os efeitos da meditação na criatividade, aprendizagem, depressão e o uso de drogas. Meditação é um tema que tem ocupado cada vez mais David Lynch. Sua vinda ao Brasil, em agosto de 2008, foi para divulgar o seu livro: Em águas profundas – criatividade e meditação. Autobiográfico, o livro mostra como a meditação influenciou a vida e o processo criativo de David Lynch. Típico americano de classe média, Lynch gostava de desenhar e pintar, quando era criança. Acabou estudando artes plásticas e foi a partir da pintura, ao fazer animações de seus quadros, que ele passou a se interessar por cinema. Seu primeiro filme veio em 1977, Eraserhead, é baseado em um episódio da vida pessoal, quando sua namorada engravida. No filme, o bebê nasce com deformidades, um impacto que marca a série de personagens bizarros e complexos que também povoariam seus outros filmes. O sucesso de bilheteria e crítica veio com o Homem elefante. A história de um jovem que tem o rosto deformado por uma doença, e durante anos é explorado como uma atração de circo. Foi indicado a 8 Oscar. O diretor depois teve outras duas indicações por Cidade dos sonhos e Veludo azul, outros dois sucessos. Cidade dos sonhos também foi prêmio de melhor diretor do Festival de Cannes de 2001. Cannes há havia premiado David Lynch com a Palma de Ouro em 1990, pelo filme Coração selvagem. O sucesso mundial do diretor veio com a série de TV Twin Peaks. O título é o nome de uma cidade fictícia, no norte dos Estados Unidos, habitada por personagens misteriosos. É o cenário para a história que gira em torno da investigação sobre o brutal assassinato da adolescente Laura Palmer. A série foi exibida entre 1990 e 1991, em vários países, inclusive no Brasil, e deu origem a outro filme de David Lynch, Twin Peaks – os últimos dias de Laura Palmer.

Para entrevistar o cineasta David Lynch, o Roda Viva convidou Ricardo Calil, que é redator chefe da revista Trip; José Geraldo Couto, crítico de cinema e colunista da Folha de S.Paulo; Ubiratan Brasil, subeditor do Caderno Dois do jornal O Estado de S.Paulo e Leon Cakoff, crítico de cinema e diretor da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A Laís Duarte, do jornalismo aqui da TV Cultura, vai fazer ao nosso entrevistado as perguntas dos telespectadores que foram encaminhadas antes, porque o programa de hoje é gravado. E claro, o Paulo Caruso está aqui também. Ele vai desenhando aí os momentos do nosso programa. Hoje você vai ter um concorrente, que é o próprio entrevistado, Caruso. Ele adora pintar também e faz os seus próprios desenhos. Boa noite, senhor David Lynch. Obrigada pela presença.
 
Lillian Witte Fibe: Vamos começar falando sobre meditação, até para não contrariá-lo. Meditação é conhecida entre a gente como o repouso da mente. Uma técnica não invasiva, barata, custo zero, sem efeitos colaterais e que, até onde a gente está informado, tem recebido cada vez mais adesões da medicina ortodoxa e ocidental. Eu já li cardiologista falando que meditação, combinada a uma dieta correta, faz mais bem, às vezes é muito melhor do que o bisturi, para o coração. Com a gente aqui no Brasil, eu acho que tem... existe uma certa curiosidade em entender qual é a sua meditação, a transcendental. O senhor, nessa sua peregrinação pelo Brasil, saberia dizer às pessoas que ficaram curiosas e interessadas como achar, por exemplo, o professor certo a que o senhor se refere, para a meditação transcendental aqui no Brasil? E, enfim, como tornar possível, basicamente, se chegar à felicidade infinita?
David Lynch: Há muitas formas de meditação. E nunca se diz que uma é melhor do que a outra. Trata-se de uma escolha pessoal. Mas sempre digo que não saberia que meditação iria fazer se me tirassem a meditação transcendental. A meditação transcendental tira você da superfície da mente e lhe dá a chave que abre a porta para os níveis mais profundos, para transcender para uma consciência sem limites e para a felicidade. A felicidade infinita. Ao vivenciá-la você se sente vivo e cresce através dela. Todos têm consciência, mas nem todos têm o mesmo nível. Por que ficar com um certo nível de consciência, se existe uma técnica disponível que lhe permite expandi-la, trazendo-lhe apenas coisas boas? O efeito da expansão da consciência é que a negatividade começa, de fato, a diminuir. O peso da negatividade sob a qual vivemos. É algo muito libertador. Entre outras coisas, ela elimina o estresse. Você vivencia uma alegria infinita. Uma felicidade infinita. E vê o estresse desaparecer completamente. Trata-se de um ensinamento bastante específico. Você recebe um mantra, uma vibração sonora específica, que mexe com a percepção interior e você mergulha, naturalmente, através de níveis sutis da mente e do intelecto e transcende. Você precisa de um professor verdadeiro para ensiná-lo. Para lhe dar o mantra e lhe dizer como usá-lo. E então, quando souber como meditar corretamente, isso faz parte da sua vida, você vai em frente e vê tudo melhorar.
Lillian Witte Fibe: Mas de que maneira, aqui no Brasil, as pessoas podem encontrar esse professor certo? O senhor sabe onde?
David Lynch: Há professores de meditação transcendental em todas as cidades em que estivemos. Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, e deve haver em Porto Alegre, para onde vamos. Tenho certeza de que deve haver um número para onde se possa ligar e achar um verdadeiro professor de meditação transcendental.
Lillian Witte Fibe: Ok. Quem é o próximo?
Ubiratan Brasil: Eu. Professor Lynch.
David Lynch: Sim.
Ubiratan Brasil: Falando em torno desse assunto. Como que, então, essa meditação, realmente, influencia ou influenciou, desde o início da sua carreira, o seu trabalho? É possível a gente imaginar que a sua carreira poderia ter sido diferente, se o senhor não tivesse aderido a essa meditação?
David Lynch: Sim. Como todos os seres humanos - e isso é algo relativo -, mas eu era muito tenso, sentia-me muito estressado, um pouco deprimido e era muito irritado. Digo que a negatividade é inimiga da criatividade. E, quando eu comecei a meditar, essa irritação, naturalmente, desapareceu. Quase desde o início. A felicidade começou a surgir de dentro e me vi mais feliz com meu trabalho. O peso da negatividade se dissipou e fui tomado por um sentimento de liberdade. E nesse sentimento de liberdade, senti um maior fluxo de criatividade, um fluxo de idéias. E, como costumo dizer, quando a consciência começa a aumentar, as idéias surgem de um nível mais profundo. Expanda a consciência, e as idéias vêm de níveis cada vez mais profundos, nos quais há mais informações e maior compreensão. Portanto, você compreende o que está ocorrendo. Há um oceano de consciência pura. E esse sentimento leva à ferramenta número um do artista: a intuição. Leva-nos a reconhecer quando uma coisa está errada e a encontrar uma maneira de corrigi-la e à felicidade de fazer isso. Há uma energia de felicidade. Você se livra do cansaço e estresse e do que o está consumindo.
Ricardo Calil: Mister Lynch.
David Lynch: Sim.
Ricardo Calil: No livro que o senhor veio lançar no Brasil, o senhor em um capítulo fala, por exemplo, sobre a beleza que consegue enxergar em um corpo decomposto. No capítulo seguinte, o senhor fala sobre harmonia, sobre paz, sobre iluminação. Não existe uma contradição ou um paradoxo entre o cineasta dedicado ao bizarro e essa figura pública que se tornou o porta-voz da meditação?
David Lynch: Não. [risos] E vou lhe dizer o motivo. Eu me apaixono por idéias. E vou me apaixonar por idéias diferentes daquelas pelas quais você vai se apaixonar. Mas, quando se está apaixonado, se está apaixonado. E sempre digo que há toda uma coisa a respeito dos artistas - e eu sou um deles, e, sem dúvida, eu já era um artista antes de começar a meditar - que, quanto maior o sofrimento, a angústia, quanto maior o estresse, mais alimento há para o trabalho. E isso vem de uma coisa estranha, na França, creio, dos artistas famintos das águas-furtadas. Uma coisa romântica para quem está de fora, mas nada romântica para o artista que está morrendo de fome. Eles adorariam ser capazes de fazer seu trabalho e ter algum dinheiro para comprar seus materiais para trabalhar e se sentirem felizes com isso. O sofrimento é inimigo da criatividade. As histórias através dos tempos estão repletas de contrastes, de altos e baixos. Situações de vida e morte. Muito sofrimento, muita agonia, negatividade. É disso que as histórias são feitas, da condição humana. E, com freqüência, as histórias refletem o mundo em que vivemos. Portanto, vivemos em um mundo bastante negativo. Mas o artista não tem de sofrer para falar de sofrimento. Basta compreendê-lo. Você não precisa morrer para filmar uma cena de morte. Basta compreendê-la. E a compreensão cresce quando você, de fato, transcende. E a infinita inteligência está ali. As coisas ficam cada vez mais claras, e isso alimenta o trabalho.
Lillian Witte Fibe: Agora a ala de lá quer fazer pergunta.
José Geraldo Couto: Senhor Lynch.
David Lynch: Olá.
José Geraldo Couto: Tudo bem? Eu gostaria de fazer uma pergunta sobre o filme The straight story, que aqui no Brasil chamou Uma história real. Eu sei que se baseou em uma história real, de fato, um personagem chamado Alvin Straight. Mas me parece também que é uma espécie de resposta irônica do senhor aos críticos mais conservadores, que viviam cobrando do senhor que contasse uma história linear, com começo, meio e fim, com personagens coerentes, motivações claras, transparentes, e, se possível, com um final edificante, uma mensagem positiva. E, de certo modo, foi o que o senhor fez, com o The straigh story. Entregou esse tipo de filme, só que à sua maneira, com o seu estilo. O próprio título, embora seja o nome do personagem [Alvin Straight], o The straight story, parece brincar com os vários sentidos da palavra straight em inglês, né? Eu gostaria que senhor falasse um pouco sobre esse filme no conjunto da sua filmografia, no começo da sua carreira. A sua motivação para fazê-lo e tal. Como você vê a relação com os outros?
David Lynch: Minha terceira mulher, Mary Sweeney [(1953-) editora e produtora de cinema, trabalhou com Lynch em vários filmes e séries de televisão. Casou-se com ele em 2006, mas divorciaram-se após um mês, sob o argumento de diferenças irreconciliáveis. O casal tem um filho, Riley Sweeney Lynch, nascido em 1992], e um amigo dela, John Roach [presidente da JRP (John Roach Projects), uma produtora de vídeo e filmes em Madison, Wisconsin, nos Estados Unidos], tiveram a idéia de escrever um roteiro sobre Alvin Straight. A história fora publicada em jornais, com base em uma situação real. Eles conversaram comigo a respeito: “Estaria interessado em filmar isso?”. Durante três anos, eles conversaram comigo, e eu não tinha nenhum [enfatiza] interesse pela história. [risos] Mas, quando terminaram o roteiro, eles o enviaram a mim e eu me sentei e comecei a ler, e esse roteiro me emocionou. E eu disse: “isso é muito bonito.”. E mudei completamente minha opinião a respeito. E sempre digo que, embora seja linear, trata-se de meu filme mais experimental, pois há poucos elementos nessa história que seguem uma linearidade. E a maneira como se consegue emoção a partir desses poucos elementos... Não há nada, além disso, é algo direto. Por isso, trata-se de algo, de certa forma, experimental. Muitas vezes, todos os elementos precisavam me parecer bons para que a emoção aflorasse. E todos nós sabemos como é isso. Às vezes, vemos atores ou atrizes chorando na tela, e o público nada sente. E talvez vejamos atores ou atrizes rindo na tela, e todo o público está comovido. Pois as pessoas sentem o que aquele riso significa. É um negócio muito complicado. Mas eu me apaixonei por causa da emoção. E esse filme é diferente de outros filmes que fiz, embora se aproxime, de certa forma, de O homem elefante.
Lillian Witte Fibe: Leon.
Leon Cakoff: Então... eu sinto, eu vejo, acompanho a sua carreira. E vejo que o senhor é muito querido e prestigiado na Europa. Eu acho que, graças a iniciativas na Europa, agora você mesmo citou o Roach e tem o caso da Fundação Cartier [a Fondation Cartier pour l’art contemporain, em Paris, fez uma exposição intitulada “The air is on fire”, entre março e maio de 2007], que fez esse belíssimo... essa belíssima exposição com o seu trabalho, e onde se prova que você realmente é um artista multimídia, capaz de atacar todas as áreas. E o último Festival de Cannes, com uma foto desfocada sua, fez um belíssimo pôster. Então, o seu prestígio é muito alto e você é muito querido, graças a iniciativas européias. Eu percebo isso e a gente acompanha isso. E eu sei que você... esse livro Em águas profundas, que está sendo lançado agora, no Brasil... Você declarou em alguma entrevista que eu li que a renda do livro e dos seus trabalhos seria revertida para uma fundação que leva o seu nome: David Lynch. Eu queria saber: qual é o propósito dessa fundação?
David Lynch: Chama-se Fundação David Lynch para a Educação Consciente e Paz Mundial. Arrecadamos fundos para oferecer a meditação transcendental, a qualquer aluno que a queira, em qualquer parte do mundo. Ou a qualquer escola que a queira para toda a escola, alunos, docentes, diretores. Antes da fundação havia três escolas nos Estados Unidos que haviam utilizado a meditação para a escola toda. Hoje são dezesseis. Algumas das escolas que a utilizaram recentemente estavam entre as piores em seus estados. Havia violência, depressão, suicídios, brigas nos corredores, quase o tempo todo. Não eram escolas às quais você gostaria de enviar seus filhos. Eram, realmente, problemáticas. Haviam tentado tudo. E elas podem ter se perguntado: “Como é que esse negócio esquisito de meditação pode fazer alguma coisa por nossa escola?”. Mas elas começaram a ouvir histórias sobre o que havia acontecido em outros lugares e levaram isso para suas escolas. Em um ano, houve uma guinada de cento e oitenta graus. Os alunos estavam felizes. Era algo que vinha de dentro. Essa é a técnica deles. Eles mergulham para dentro de si mesmos, duas vezes por dia. As notas aumentaram. O bom relacionamento entre eles veio naturalmente. O professor está tentando ajudar você e há uma perspectiva totalmente nova. Os professores sorriem e contam histórias a respeito da enorme diferença. Ela elimina o estresse, você simplesmente se livra dele. A raiva se dissipa: “qual é o problema?”. Eles começam a olhar para o mundo de maneira diferente e dizem: “o mundo é o que somos. Ele pode ser muito bonito. Está tudo aí.”. Trata-se de um campo unificado da ciência, que sempre esteve e sempre vai estar ali. A meditação transcendental não é religião, não é culto. É uma técnica para mergulhar dentro de si próprio. E é próprio do ser humano praticá-la. Todo ser humano tem como seu direito nato o esclarecimento. O potencial humano é imenso e belíssimo. E a Fundação David Lynch apenas tenta colocar isso em prática.
Lillian Witte Fibe: Senhor David, falando em técnicas zen etc, essas pulseirinhas na sua mão direita têm alguma relação com a meditação? Ou são muito pessoais para o senhor contar o significado delas?
David Lynch: Essa me foi dada na Índia, depois de uma cerimônia. Por isso a estou usando. Deve-se usá-la até que ela se solte.
Lillian Witte Fibe: Foi ele que morreu agora, no começo do ano? O mestre da meditação.
David Lynch: Não. Maharishi Mahesh Yogi [(1918-2008) guru indiano adepto e divulgador da meditação transcendental, discípulo de Guru Nanak] é um professor. A meditação transcendental é uma técnica mental, mas uma técnica mental antiga. Uma antiga forma de meditação, que Maharishi Mahesh Yogi trouxe para nosso tempo.
Lillian Witte Fibe: Ok. Nós vamos fazer um intervalo, lembrando que, por se tratar de um programa gravado, as perguntas de telespectadores apresentadas aqui - daqui a pouco, assim que a gente voltar de intervalo, a Laís vai começar a fazer - chegaram antecipadamente e pela internet através do nosso site que é: www.tvcultura.com.br/rodaviva. Você pode se informar também sobre os próximos programas e mandar e-mail, dando críticas, sugestões, ou mesmo fazendo perguntas para a gente. A gente volta já, já.
[intervalo]
Lillian Witte Fibe: Nós estamos de volta com o Roda Viva, que hoje entrevista o cineasta americano David Lynch, que, entre um filme e outro, é também escritor, fotógrafo, pintor, compositor e, principalmente, meditador. Senhor David, o senhor tem falado muito... Eu sei que o senhor não vai ter uma resposta sobre o futuro - o senhor já disse em outras das suas entrevistas -, mas o senhor tem falado muito também sobre o fim dos filmes. E tem afirmado que o futuro está na internet, principalmente, na entrevista que o senhor deu para o Ubiratan, no Caderno Dois, do Estado de S.Paulo. Dá para o senhor explicar melhor para a gente o que o senhor antevê em matéria de digitalização da sétima arte?
David Lynch: Não sei tudo o que está ocorrendo. Mas creio que todos sentimos uma enorme mudança no cinema, como a ocorrida com a música algum tempo atrás. A internet está cada vez mais rápida, com melhor qualidade. Cada vez mais pessoas assistem a filmes e programas de televisão, todos na internet. Ouvi dizer que o público das salas de cinema está diminuindo. A venda de DVDs está diminuindo. O que aponta para o fato de a internet estar ganhando espaço. O filme, ainda que maravilhoso, o filme em celulóide é grande, pesado e lento, o que me lembra os dinossauros desaparecendo discretamente. O filme digital está cada vez melhor. No mundo da fotografia, quase não há mais filme. E o mesmo está ocorrendo com o cinema.
Lillian Witte Fibe: Em que tamanho de tela nós veremos os próximos filmes? Será que a tela grande acabou?
David Lynch: Adoro a tela grande e aquele som de qualidade. E espero que os filmes possam chegar até nós, em máquinas minúsculas, que nos permitam projetá-los na parede. Grandes e com um som espetacular, para que possamos entrar em um outro mundo e, realmente, vivenciarmos algo novo.
Lillian Witte Fibe: Laís.
Laís Duarte: Pergunta enviada por Renato Barbiere, de Brasília: "Em todo ciclo de produção de um filme, qual é o momento mais desafiante para o senhor?".
David Lynch: Eles têm quase a mesma relevância, são todos muitíssimo importantes. Todo o processo é muito agradável. Tudo se resume a ter uma idéia, se apaixonar por ela e então traduzi-la para o cinema. E o cinema é composto por inúmeros elementos. Portanto, trata-se de algo que se faz passo a passo, dia a dia, tentando aproximar-se, e não se agastando do que lhe parece correto. Todo o processo é muito bonito.
Ubiratan Brasil: Senhor Lynch,...
David Lynch: Sim.
Ubiratan Brasil: ... há um trecho aqui no seu livro que me chamou a atenção, que o senhor diz que adora a lógica dos sonhos, adora a forma com que eles se desenrolam. Mas dificilmente extrai idéias dos sonhos, o que, às vezes, até soa um pouco estranho. Vendo os seus filmes a gente imaginaria que o senhor já teria sonhado, por exemplo, com uma orelha encontrada na relva, por exemplo. Por que os sonhos não são tão fontes de inspiração para o senhor?
David Lynch: Eles apenas não têm sido uma fonte. Mas o cinema pode dizer coisas concretas e abstratas. Pode dizer algo de uma forma onírica. Portanto, as idéias chegam, e acho que me apaixono por elas. Idéias com um lado concreto, mas também com abstrações. Adoro isso. E gosto de sonhar acordado. É uma maneira de captar idéias. Às vezes, as idéias surgem quando menos esperamos. Portanto, tudo se resume a idéias. Mas adoro abstrações.
Ricardo Calil: Senhor Lynch, no seu livro, o senhor diz que faz - uma informação muito surpreendente para mim - que o senhor faz testes de audiência dos seus filmes com o público. Não sei se de todos ou de alguns deles, assim. Eu gostaria de saber qual é o papel do público para o seu cinema durante o processo, ou seja, o senhor pensa no público em algum momento? É difícil para mim imaginar que o senhor faça isso com um filme como o Império dos sonhos, por exemplo, que tem três horas, que é um filme muito desafiador. O público faz parte da equação?
David Lynch: O público não faz parte disso. Tudo se resume à idéia. Creio que, se eu for fiel à idéia e fiel a todos os elementos, com base naquela idéia, e não me afastar dela até que tenha algo que me pareça correto, existe a possibilidade de o público sentir a mesma coisa. Por isso o público vem depois. Se eu permanecer fiel à idéia, então, ele pode vir a sentir o mesmo que eu. E a “sessão teste” não precisa envolver muitas pessoas. Mas próximo do final do processo, quando se trabalha com o todo, se você se sentar com 12, 14 ou quarenta pessoas, é possível aprender coisas valiosas. E elas não precisam escrever o que acharam, mas apenas sentir. E você sente quando a coisa não está funcionando. E então você volta correndo e tenta consertar o que não funcionou. Às vezes, a coisa toda parece ir muito bem. Essas pessoas podem, de fato, ensinar muito a você.
Lillian Witte Fibe: Diga lá, José Geraldo Couto.
José Geraldo Couto: Por favor, o seu cinema é muito pessoal, né? O senhor é um dos cineastas que conseguem ter um universo muito particular, muito próprio, e inconfundível. Eu queria saber, do cinema que se faz atualmente no mundo, o que ainda comove o senhor? O que empolga ou, no mínimo, interessa ao senhor, no cinema que se faz hoje no mundo? Porque eu acho bem diferente daquilo que é o seu cinema. Isso é uma coisa. E a outra é se o senhor costuma acompanhar cinematografias periféricas, digamos, como a asiática ou a latino-americana...
David Lynch: Eu sou tão ignorante sobre o cinema no mundo. Gosto de fazer filmes e gosto de trabalhar. Não sei, por exemplo, como Martin Scorsese - ele tem a reputação de ser, talvez, o maior entusiasta por filmes do mundo - não sei como ele acha tempo para assistir a todos esses filmes. Portanto, não consigo, realmente, responder a sua pergunta. Aki Kaurismäki [(1957-) roteirista, produtor e cineasta finlandês] parece estar fazendo coisas muito interessantes. Pedro Almodóvar [(1951-), um dos mais importantes cineastas espanhóis. Ver entrevista com Almodóvar no Roda Viva]... Gosto de Werner Herzog [(1942-) documentarista e cineasta, um dos maiores nomes do novo cinema alemão, movimento iniciado nos anos 1970] como cineasta, como pessoa, personalidade. E gosto de seus filmes. Stroszek [filme de 1977 escrito em quatro dias para o ator Bruno Schleinstein. Filmado em Berlim e em duas cidades de Wisconsin, nos Estados Unidos, o filme conta a história de um músico de rua alcoólatra que, pouco depois de ser libertado da prisão, conhece uma prostituta] é um de meus favoritos. Há muitas pessoas fazendo bom cinema moderno, mas não sei muito a respeito.
José Geraldo Couto: O que o senhor acha, por exemplo, de David Cronenberg [(1943-) cineasta canadense, um dos principais exponentes do chamado horror corporal, que explora os medos humanos ante a transformação física e a infecção]? Porque me parece também um cineasta que trabalha dentro da indústria ou nas franjas, no limite da indústria, mas com uma linguagem e uma personalidade muito original e muito própria.
David Lynch: Sim, ele diz o que pensa. Mas não conheço bem seu cinema. Ele trabalha com liberdade e o que diz tem repercussão.
Leon Cakoff: Senhor Lynch, eu creio que uma das maiores hipocrisias sociais, à parte fingir que não existe fome e miséria no mundo, seja ignorar o vasto império das drogas e das suas ramificações na economia. E junto com isso, as legiões de drogados que existem no mundo. Como é que a sua arte de meditação pode ajudar os drogados do mundo?
David Lynch: Maharishi sempre diz: “Regue a raiz e aproveita os frutos.”. No que se refere ao indivíduo, aguar a raiz é transcender, vivenciando aquele nível mais profundo. Dê vida a isso e toda a árvore cresce à perfeição. Em nosso mundo, se dissermos: “Regue a raiz e aproveite os frutos” e pensarmos no mundo, veremos que as folhas de nossa “árvore-mundo” têm muitos problemas. Estão ficando amarelas, marrons, os galhos abaixados... E nós trabalhamos na superfície, tentando apanhar essa folha que representa a Aids e tentamos deixá-la verde outra vez. Livramo-nos da Aids. Essas folhas representam um tipo diferente de câncer, e tentamos deixá-las verdes despejando milhões de dólares para deixá-las verdes. Essas representam drogas. Todos os tipos de drogas. E os traficantes, os assassinatos e tudo a elas relacionado. Tudo isso afeta a sociedade e tudo o mais ao nosso redor. Essas são curas pela superfície. Curativos precários. Se você pudesse - e a tecnologia existe para isso – dar vida a esse campo de unidade, esse campo de consciência sem limites, de alegria, energia, inteligência, criatividade e amor universal, se pudéssemos dar vida a isso com um grupo que pratique a meditação transcendental e suas técnicas avançadas... Eu viajei com um dos maiores físicos quânticos do mundo, e esse grupo teria uma energia enorme. Toda a energia que dá vida ao universo está ali. E toda ela é positiva. Um grupo criador de paz tem muito mais força do que o mesmo número de pessoas não agrupadas. Esse campo é tão poderoso que precisamos apenas da raiz quadrada de 1% de uma população para que essas coisas comecem a acontecer. A raiz quadrada de 1% do Brasil corresponderia a 1400 ou 1500 meditadores avançados. Regue a raiz, começando do nível mais profundo, e tudo surge à perfeição [abre os braços, como se fosse a árvore crescendo]. Surgem flores e frutos. E para a “árvore-mundo” esse fruto é a paz. Dizem que a verdadeira paz não é tão somente a ausência de guerra, mas a ausência de negatividade. Das sementes da guerra. E isso nunca ocorre na superfície – no nível das folhas. Ocorre de forma bela e totalmente científica, ao se estimular aquele nível mais profundo – o nosso “eu”. Na linguagem védica, esse nível mais profundo é o atma, o “eu”. Conheça a si próprio. Conheça a si próprio se desvendando. E irá desvendar todo o seu potencial como ser humano.
Laís Duarte: Senhor Lynch. A Fernanda Vogue, aqui de São Paulo, pergunta: o que o senhor acha da série de desenhos animados Os Simpsons? Existe alguma semelhança entre os trabalhos do senhor e os episódios do desenho?
David Lynch: Não conheço Os Simpsons muito bem, mas meu filho Riley adora Os Simpsons. Matt Groening [(1954-) cartunista norte-americano que criou as séries de televisão Os Simpsons e Futurama, das quais é consultor criativo] fazia os quadrinhos tempos atrás e eu tinha o meu, O cão mais raivoso do mundo, no mesmo jornal, acho. O cão mais raivoso do mundo não me rendeu nada, mas Matt faturou trilhões.
[Risos]
Lillian Witte Fibe: Nós vamos fazer então mais um intervalo, lembrando que a memória do Roda Vida está disponível em nosso site www.tvcultura.com.br/rodaviva, onde você pode pesquisar o conteúdo do nosso arquivo e também mandar e-mails com críticas e sugestões. A gente volta já, já.
[intervalo]
Lillian Witte Fibe: Você acompanha hoje no Roda Viva a entrevista com o cineasta americano David Lynch. Um dos diretores mais cultuados do cinema contemporâneo. Dirigiu, entre outros, O homem elefante, Veludo azul, O império dos sonhos e a famosa série de TV Twin Peaks. Senhor David Lynch, eu vou confessar que eu tenho uma inveja de uma coisa no senhor: é a sua fidelidade ao seu corte de cabelo. Eu queria ser tão fiel assim ao meu corte de cabelo. Nada o faz mudar de idéia? Quem bolou esse corte de cabelo que o senhor mantém há quantos anos mesmo?
David Lynch: Acho que há bastante tempo. Creio que desde a sétima série. E é, de certa forma, inspirado em Elvis Presley [(1935-1977) músico e ator estadunidense, conhecido mundialmente como o "rei do rock"]...
Lillian Witte Fibe: Ah, ok.
David Lynch: Com uma certa variação. Mas o seu cabelo é muito bonito.
[Risos]
Lillian Witte Fibe: Ok. Eu queria que o senhor falasse um pouco também - até para não frustrar os nossos telespectadores - sobre Twin Peaks. Depois se transformou em um filme do qual o senhor não gostou totalmente. Sobre o sucesso da televisão.
David Lynch: Não. Eu gostei muito do filme. Eu não gostei foi de Duna [adaptação cinematográfica do livro homônimo de Frank Herbert, Duna é uma super produção de ficção científica dirigida por David Lynch lançada em 1984, que foi um fracasso de bilheteira].
Lillian Witte Fibe: Do filme. Do longa metragem também? Também do final? Do final da série da TV que o senhor não gostou. Foi isso?
David Lynch: O final da série de TV desagradou muita gente. E, de certa forma, também me desagradou. Mas Mark Frost e eu, que a escrevemos, imaginamos que a ABC talvez mudasse de idéia e fizesse ao menos mais uma temporada, e então poderíamos mudar aquele final de certa forma negativo. Mas isso não aconteceu.
Lillian Witte Fibe: E do filme... O filme se pagou? Foi um sucesso? Porque muito dos seus filmes, o senhor diz que não chegaram a se pagar, né?
David Lynch: Acho que nunca fiz uma empresa perder dinheiro, mas nunca ganhei muito.
[Risos discretos]
David Lynch: Quanto a Twin Peaks: os útlimos dias de Laura Palmer, eu adoro esse filme. Mas ele não teve uma boa aceitação mundial. E creio que porque... muito do humor de Twin Peaks não estava ali, pois não havia humor nos últimos dias de Laura Palmer.
Lilliam Witte Fibe: O senhor está agora só produzindo um filme de um diretor chinês. O senhor não tem próximos projetos cinematográficos?
David Lynch: Não há nenhum chinês.
Lilliam Witte Fibe: Chileno, chileno. Eu li em algumas de suas entrevistas, o senhor está...
David Lynch: Jorodowsky será o produtor executivo de seu filme...
Lilliam Witte Fibe: Isto. Hã, hã.
David Lynch: E, então, Werner Herzog será o produtor executivo de um filme que ele irá fazer.
Lilliam Witte Fibe: Ah, então o senhor tem duas produções nos projetos?
David Lynch: Mas nenhum deles já está sendo produzido. Ainda não.
Lilliam Witte Fibe: Ah, ok. Está bom. Diga lá.
Ubiratan Brasil: Senhor Lynch, no outro bloco, falando das suas... de alguma de suas preferências cinematográficas, o senhor citou um diretor finlandês, [Aki Kaurismäki] citou um espanhol [Pedro Almodóvar], um alemão [Werner Herzog] e Cronenberg, que é canadense, mas não falou de nenhum americano. Isso foi por alguma diplomacia? Ou porque, realmente, o cinema americano hoje em dia não lhe interessa tanto?
David Lynch: Sei que há grandes diretores americanos... Gosto de Boogie nights [no Brasil, Prazer sem limites (1997)], de Paul Thomas Anderson [(1970-) cineasta estadunidense indicado duas vezes ao Oscar de melhor roteiro  original pelos filmes Boogie Nights e Magnólia], mas não gostei de seu último filme [There will be blood, no Brasil Sangue negro, drama lançado em 2007, cujo roteiro baseia-se no livro Petróleo! (1927), de Upton Sinclair]. Eu o considero muito talentoso.
Ubiratan Brasil: E nenhum outro cineasta chama a sua atenção hoje?
David Lynch: Não. Eu gosto de trabalhar.
[Risos discretos]
Ricardo Calil: Senhor Lynch. Eu gostaria de saber em quem o senhor vai votar nas próximas eleições dos Estados Unidos e se o senhor acredita que a política pode ajudar nesse caminho de busca pela paz.
David Lynch: Vou votar em Barack Obama [então candidato do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos, eleito em 2009] nas próximas eleições. Creio que os Estados Unidos já desceram muito e está na hora de se levantarem. Creio que se diz que o presidente é tão bom quanto o povo que representa. É a consciência coletiva do povo. Portanto, quando você vê um presidente como George Bush, você começa a se perguntar sobre o povo do país. Quando se consegue elevar o nível de esclarecimento e a educação do povo, tem-se um líder melhor. E uma maneira de fazer isso é deixar que as pessoas transcendam e deixem que aquele nível mais profundo – de pura consciência – venha à tona. E que as pessoas expandam sua inteligência, sua criatividade, seu amor, que sejam mais felizes. E isso trará grandes mudanças. Chega de George Bush.
Laís Duarte: Senhor Lynch, Lucas Valente, de Porto Alegre, pergunta: "Qual é a influência nos seus filmes da sua infância? Da juventude? E da relação com os seus pais?".
David Lynch: É uma boa pergunta. Creio que os lugares realmente despertam idéias. Eu vivi no noroeste do país até os 14 anos. Passei bastante tempo na mata. Portanto, conheço a mata. Conheço o mistério da mata. [tamborila os dedos no ar enquanto fala] E tenho certeza de que isso me influenciou. Tive uma infância muito feliz, e tive muitos sonhos felizes. E acho que isso lhe dá bagagem para o futuro. Minha mãe recusava-se a me dar livros de colorir, mas me motivava com muito papel em branco e material de desenho, pois ela via que eu adoro desenhar. Por isso, creio que essa liberdade tem uma grande importância. Toda criança vê coisas no mundo e sente essas coisas. Você vê uma casa, por exemplo, e sente algo por trás das paredes, dentro da casa. Você, simplesmente, sabe de alguma coisa. São mistérios, algo muito bonito.
José Geraldo Couto: Senhor Lynch, uma pergunta bem prosaica. O senhor disse em uma entrevista recente que costuma meditar duas vezes ao dia: vinte minutos pela manhã e vinte minutos à noite. Eu sei que o senhor está atravessando uma verdadeira maratona de compromissos aqui no Brasil, esses dias. Então a minha pergunta é se o senhor está conseguindo cumprir essa sua prática de meditação duas vezes ao dia. Como é que o senhor está administrando seu tempo?
David Lynch: Medito há 35 anos duas vezes por dia e nunca deixei de meditar um dia sequer.
José Geraldo Couto: Nem durante filmagens? Realização de um filme?
David Lynch: Não. Nunca deixei de meditar um só dia em 35 anos. É tão fácil encontrar vinte minutos pela manhã e vinte minutos à tarde. Mas é verdade. As pessoas dizem: “Não tenho tempo para isso. Meu dia é tão cheio que não posso fazer isso. Além do mais, não acho que isso vá mudar a minha vida.”. E então não meditam. Mas é muito fácil de fazer. E não é um tipo de meditação que exija concentração e esforço. Uma vez voltando para dentro de si mesmo, você mergulha naturalmente. E por que é natural? Porque a cada nível mais profundo da mente e do intelecto há maior felicidade. E, ao transcender, a felicidade é infinita. Basta ir naquela direção. É algo profundo, mas é fácil e não exige esforço. Você termina a meditação com tamanha energia e sentimento de renovação, tamanha felicidade... Dizem que esse êxtase é uma felicidade física, emocional, mental e espiritual. Você consegue vibrar em felicidade. E é o tipo de felicidade que não se perde. Procuramos por felicidade aqui fora e a encontramos algumas vezes. Mas esse é um mundo de mudanças e, assim, a vemos ir embora. E então a procuramos em outro lugar. Mas a verdadeira felicidade está dentro de você e torna a vida melhor. Você diz a alguém: “você tem a chave do cofre, você não precisa ir ao banco.”. Você diz: “eis a chave do cofre”. E ouve: “não, não tenho tempo.”. Mas é possível pegar a chave, ir até o cofre e encontrar uma enorme quantidade de ouro ali. Viva!
Lillian Witte Fibe: O senhor pratica algum esporte?
David Lynch: Às vezes, gosto de caminhar.
Lillian Witte Fibe: Ok. Leon.
Leon Cakoff: Senhor Lynch, a gente sabe, isso é evidente, que a principal indústria americana, a indústria número um, é a de armamentos. E a segunda é de cinema, que fetichiza os armamentos na sua maior variedade e diversidade. E o seu cinema, de certa maneira, é boicotado por Hollywood, que fetichiza os armamentos e aplica em muitos filmes de ação, nos seus enredos, com muita arma, muita fetichização de arma. Isso é um motivo, na sua opinião, de você ser boicotado, assim, pelo sistema de Hollywood e necessitar de parceiros europeus para fazer cinema?
David Lynch: Não sou boicotado por Hollywood. Entretanto, muitas vezes, a não ser que seus filmes rendam US$ 100 milhões, eles não lhe permitem a edição final. E se não me é permitido isso, não consigo trabalhar com eles. Prefiro não fazer o filme e fazer qualquer outra coisa. Se você não pode fazer o filme que deseja fazer, não há como fazê-lo. Mas, assim como o mundo muda, o cinema irá mudar. Vá a qualquer museu e verá como as coisas mudam. É o que ocorre hoje. Mas acredito que as coisas já estão mudando para melhor. E esse tipo de coisa vai desaparecer. Comerciantes de armas podem mudar sua produção e fazer um tipo diferente de máquina. E podem ser felizes e ter lucro com isso. Isso já está ocorrendo.
Laís Duarte: Senhor Linch, o Edilson Palhares, de Araxá, Minas Gerais, pergunta: "Visto que a versão estendida de Duna, em DVD, não o agradou, os fãs de Duna podem esperar uma versão do senhor, definitiva?".
David Lynch: Não. Aquela versão estendida foi uma versão para a televisão. Sem falarem comigo, acharam algumas coisas e as acrescentaram e então adicionaram uma narração estranha que eu nunca ouvi. Eu disse: “tudo bem, vamos em frente, mas tirem meu nome daí, pois isso não é mais coisa minha.”. Duna foi um filme que fiz e cuja edição final não foi minha. Assinei o contrato sabendo que não a faria. Eu sabia que não estava fazendo a coisa certa ao assinar o contrato. E deu tudo errado. Comecei mal logo no início. Ou seja, não havia naquelas imagens nada que pudesse transformá-las no filme que eu queria fazer. Não havia.
Lillian Witte Fibe: Diga, Ubiratan, que você está tão curioso.
Ubiratan Brasil: Uma curiosidade. Em algumas entrevistas do senhor que a gente leu aqui, que a produção passou, em uma determinada época o senhor tinha dito... teria dito que a pintura teria se tornado uma válvula de escape menor no seu trabalho. Mas, assim, julgando pela quantidade de trabalhos que a gente viu, inclusive naquele livro que o Leon trouxe, o senhor sempre produziu muito em pintura. Eu queria que o senhor falasse um pouco dessa importância da pintura para o senhor no seu trabalho.
David Lynch: Não se trata de fuga. Você pensa em fugir se está em uma prisão. A meditação é algo que simplesmente o atrai. Você tem idéias para o cinema, para pinturas... Você tem uma idéia para uma pintura e fica todo entusiasmado. E o mundo da pintura é maravilhoso, pois é apenas você e a pintura. É como um círculo: ação e reação. Um fluxo de idéias. Você pode penetrar naquele mundo sozinho – e é algo muito bonito. Meu amigo [...] Keeler me influenciou muito. Ele foi um pintor que conheci e que mudou minha vida, pois eu não achava que eu pudesse ser um pintor já na vida adulta. E ele me mostrou que eu estava errado. Ele sempre dizia: “Você precisa de quatro horas ininterruptas para produzir uma hora de boa pintura.”. E é verdade. Você precisa penetrar em seu mundo, permanecer ali e ir em frente. E não pode haver interrupções. Interrupções significam que você precisa começar tudo de novo.
Ubiratan Brasil: A gente falou de cineastas de sua predileção. E quais seriam os pintores, então, na sua preferência?
David Lynch: Gosto de Francis Bacon [(1909-1992) pintor anglo-irlandês de pintura figurativa, conhecida como audaz, austera e grotesca ou imagem de pesadelo], Edward Hopper [(1882-1967) pintor norte-americano lembrado por suas misteriosas representações realistas da solidão, com notável influência no mundo da arte e da cultura pop], Magritte [René François Ghislain Magritte (1898-1967), um dos principais artistas surrealistas belgas], Max Ernst [(1891-1976) pintor alemão surrealista]; gosto dos trabalhos de Lucian Freud [(1922-) pintor alemão, neto do médico  neurologista  judeu-austríaco, fundador da psicanálise, Sigmund Freud]. Gosto de Clemente [José Clemente Orozco (1883-1949), um dos maiores pintores mexicanos e um dos protagonistas do muralismo]. Há muitos pintores. Há Don Van Vliet [Don Van Vliet (1941-), pintor e músico aposentado, sua arte é denominada como "abstrata-expressionista aestética neo-primitiva". Sofre de esclerose múltipla], que costuma ser chamado de Captain Beefheart e fazia música nos anos 1960, 1970. Ele é um pintor genial.
José Geraldo Couto: O senhor produziu também um documentário sobre o Crumb [(1943-) artista gráfico e ilustrador, um dos fundadores do movimento underground dos quadrinhos americanos], que é maravilhoso. Robert Crumb.
David Lynch: Terry Zwigoff [(1949-) diretor de cinema estadunidense, conhecido por suas adaptações cinematográficas de desenhos animados alternativos, como Crumb (1994) e Ghost World  (2001)] o dirigiu. Eu conheci Terry em Berkeley, quando eu misturava uma série de coisas na época. E Terry Zwigoff fez um trabalho genial no documentário de Robert Crumb.
José Geraldo Couto: O Crumb seria uma espécie de inspiração sua também?
David Lynch: Não exatamente. Eu o respeito. Ele tinha sua própria maneira de fazer as coisas e usava os quadrinhos. Ele criou um mundo, o mundo de Robert Crumb.
Ricardo Calil: Senhor Lynch, o senhor está aqui no Brasil já há cinco dias. Eu sei que o senhor está correndo muito divulgando a meditação, mas eu queria saber se o senhor... Eu queria que o senhor compartilhasse algumas das suas impressões sobre o Brasil. Eu queria saber, por exemplo, se o senhor acha que a meditação ajudaria a gente a lidar com o trânsito de São Paulo melhor. Seria o suficiente? E gostaria de saber se o senhor encontrou no Brasil alguma idéia inspiradora o suficiente para estar num próximo filme.
David Lynch: Lugares realmente nos trazem idéias. Ao visitar Lodz, na Polônia, durante o Camera Image Film Festival, tive muitas idéias. E acabei filmando Império dos sonhos ali. Uma das primeiras coisas que adorei no Brasil foram os túneis no Rio. Passando por aquelas montanhas belíssimas. Há uma atmosfera maravilhosa ali. As pessoas – e não é por estar aqui com vocês – são as mais cordiais que já conheci. Gentis, hospitaleiras, inteligentes. E tão receptivas a isso tudo, a esse campo, e à possibilidade de dar-lhe vida. Há uma escola nas cercanias de Belo Horizonte, Cidade da Criança, para onde fui, pois eles vêm ensinando meditação transcendental. Ouvi histórias lindas nesse lugar. Um lugar pobre. O pai ou a mãe de uma das crianças está na prisão... Problemas... Muitíssimos problemas. Vocês sabem disso melhor do que eu. Eles ensinam meditação transcendental e ela se torna a técnica das crianças. Algo delas. E todo o seu potencial vem à tona. A felicidade. E as coisas mudam. Entre 2500 e quatro mil crianças a tiveram. Fizemos um grupo de meditação, Donovan cantou. Foi maravilhoso. E eu lhes garanto que haverá mudanças... O estresse existe no mundo todo, e a meditação acaba com o estresse. Basta mergulhar para dentro de si mesmo e vivenciar isso. Crimes... A criminalidade ocorre por causa das frustrações, do estresse por não se conseguir realizar o que se deseja. Mude tudo isso com a meditação e veja o crime desaparecer, o estresse ir embora. O Brasil é um país lindo, mas tem problemas: drogas, estresse, violência nas cidades. E é possível dizer adeus a isso. Há doenças relacionadas ao estresse. Todos parecem sofrer de algum tipo de doença ligada ao estresse. Diga adeus a elas. Livre-se desse estresse naturalmente.
Lillian Witte Fibe: A gente vai fazer então, mais um intervalo e voltamos num instante com o Roda Viva. Até já.
[intervalo]
Lillian Witte Fibe: O Roda Viva entrevista hoje o cineasta americano David Lynch. A gente falava, um pouquinho antes do intervalo, de Brasil - e para quem pegou o programa no meio – o senhor David Lynch é um super especialista em café, tem a grife dele agora à venda nos Estados Unidos. O que o senhor achou do café brasileiro?
David Lynch: [hesita, talvez aguardando que termine a tradução simultânea, e diz] Novamente...
Lillian Witte Fibe: [Interrompendo e rindo] Não, não é verdade que o senhor não experimentou o café brasileiro! Vai experimentar agora, no programa.
David Lynch: Tomei muitos cafezinhos brasileiros, e o café é excelente.
Lillian Witte Fibe: Ok, thank you [obrigada, em inglês] [risos]. Quem queria perguntar antes do intervalo e não conseguiu? Diga, José Geraldo.
José Geraldo Couto: Senhor Lynch, o senhor – como lembrou aqui o Leon – é um artista multimídia. O senhor se expressa em vários meios, né? Mas uma parte considerável da sua arte, que é o cinema, e especialmente os longa metragens, a mim parece que eles precisam da tela grande, não só da tela grande, mas da sala escura e desse ritual coletivo de embarcar em uma atmosfera onírica, em uma atmosfera de sonho, né? Então, em vista disso, eu queria que o senhor comentasse isso, quer dizer, o senhor já falou que gosta da tela grande e do som poderoso e tal, mas como o senhor vê... O senhor acha que o futuro, essa experiência de compartilhar imagens em uma sala escura... imagens e som em uma sala escura vai ser uma atividade quase que nostálgica, romântica, de um grupo pequeno de pessoas? Ou existe futuro para essa forma de expressão e de arte?
David Lynch: Não sei ao certo. Mas ouvi dizer que talvez os grandes cinemas nas cidades estejam partindo para filmes em 3D. Um tipo mais avançado de filme... Para atrair público. Ainda não se tem 3D em casa. Portanto, talvez as pessoas comecem a ir aos cinemas para ver grandes filmes, espetáculos. E os cinemas fiquem lotados. Mas, quanto aos antigos cinemas de arte, é bastante triste. Mas, nos Estados Unidos todos eles fecharam. Restou apenas um número muito pequeno. Aquele tipo de cinema acabará reduzido a telas menores. A não ser que você tenha, em casa, como vê-los em telas grandes. Quanto maior a tela, maior a possibilidade de realmente penetrar naquele mundo. Quanto melhor o som, quanto mais escura a sala, quanto mais silenciosa a sala... Traga toda a comida para perto de você e entre naquele mundo. É uma coisa maravilhosa. Hoje em dia, essa experiência é cada vez mais difícil. Recentemente, vi algo em um domo, como os antigos domos dos planetários, mas, agora eles estão projetando coisas em um domo. Pode-se projetar filmes comuns em um domo. E é possível ter uma experiência incrível em um domo. Talvez um dia todas as casas venham a ter um.
Leon Cakoff: Eu estou, realmente, muito impressionado por esse coisa vocacional que o senhor está nos trazendo, de meditar, né? E eu estou muito curioso, eu queria que o senhor nos desse - e aos telespectadores - três elementos de meditação. Para quem quer embarcar nessa nova experiência. Três elementos para começar a meditar.
David Lynch: Encontre um professor “verdadeiro”. Faça-lhe todas as perguntas. Obtenha as respostas. Compreenda do que se trata. Você vai receber um mantra, um pensamento específico em termos de vibração de som. E esse mantra realmente o faz voltar-se para dentro de sim mesmo. Você aprende o mantra e aprende a usá-lo. Trata-se de um ensinamento bastante específico. E então, você fará sua primeira meditação. Você vai se sentar confortavelmente em uma cadeira, fechar os olhos, vai começar aquele mantra interior e irá transcender. Irá mergulhar para dentro de si mesmo e irá transcender. E vivenciará essa experiência de transcendência. Digo que minha primeira meditação foi sublime. Digo que foi como se eu estivesse em um elevador que tivesse seus cabos cortados [faz um barulho de queda com a voz e o gesto com a mão]. Foram ondas de felicidade. Uma experiência singular. E eu me perguntei: “onde essa experiência sublime havia estado antes?”. Algo profundo... E as coisas começam a melhorar. Você transcende em seu primeiro dia. A cada meditação. E vê sua vida melhorar.
Lillian Witte Fibe: Senhor David, eu acho que muita gente nos vendo pode se perguntar se essa não é uma fórmula de felicidade um tanto simplista. É tão fácil assim chegar à felicidade? Como o senhor, no decorrer desses últimos trinta e tantos anos, enfrentou os seus momentos de infelicidade? Foi sempre recorrendo à meditação?
David Lynch: Não é uma forma simples de felicidade. Mas a pergunta é legítima. Qual a diferença entre uma felicidade simples ou profunda? Passei por experiências de sentir meu corpo todo vibrando com essa felicidade. [faz um som de vibração com a voz e gesticula] Assim. Uma felicidade sublime e completa. Como já disse, uma felicidade física, emocional, mental e espiritual.
Lillian Witte Fibe: Será que é felicidade ou é sentimento de prazer? O senhor concorda com alguns médicos ortodoxos que associam aos neurotransmissores dopamina, endorfina, sibutramina etc?
David Lynch: Sim. Quando se transcende, o resultado disso é esse êxtase, a felicidade. Os acontecimentos de sua vida podem permanecer os mesmos, mas a maneira como você lida com eles, certamente, muda para melhor. Coisas que quase o matavam já não têm aquele poder. E não se trata de ficar insensível. Você ainda vai se zangar, mas vai saber controlar isso. Pode se entristecer, mas isso irá dissipar. Todos nós conhecemos pessoas que não conseguem se livrar do rancor. Ninguém as quer por perto. Elas contaminam a si próprias e o ambiente. Deixe-as transcender e veja aquela raiva ir embora. Elas podem começar a desfrutar a vida. Já aconteceu com tantas pessoas, que você diz: “Isso deve ser algo muito real.”. As histórias sobre como a vida mudou... Pesquisando sobre o cérebro, hoje, mostram os efeitos da transcendência. As pesquisas mostram que, quando você canta, uma minúscula parte de seu cérebro é ativada. Quando você fala, uma outra parte. Quando você pinta, outra parte. Em um eletroencefalograma [exame feito por aparelho que registra graficamente as correntes elétricas do encéfalo, parte do sistema nervoso que fica na cavidade do crânio], a única experiência que ilumina todo o cérebro é a transcendência. Boom! [gesto de expansão com as mãos] Há uma completa coerência do cérebro. Fala-se muito nisso. E é algo que não exige esforço. A maioria das pessoas acha que é algo difícil, que é preciso abrir mão de alguma coisa, se enfiar em uma caverna e se afastar da sociedade. Maharishi torna as coisas fáceis. Trata-se de uma antiga forma de meditação. A natureza da mente busca o que lhe traz a maior felicidade. Uma vez voltado para dentro de si, você parte nessa direção. É por isso que uma criança de dez anos consegue fazer isso. Não se trata de concentração, de algo penoso. Mas apenas de voltar-se para si mesmo. E começar a revelar todo o seu potencial. E as coisas vão ficando muito boas. Desde o início.
Lillian Witte Fibe: Com que idade estão seus filhos, hoje?
David Lynch: Odeio lhe dizer quantos anos tem minha filha. Ela nasceu quando eu tinha três anos [risos] e ela está com 40 anos. Tenho um filho de 25 e outro de 16.
Lillian Witte Fibe: E o senhor cooptou os três para a meditação já?
David Lynch: Desde que eles tinham seis anos de idade.
Leon Cakoff: Senhor Lynch, depois de uma experiência como essa de meditação, que filme o senhor me recomenda, dos seus, para assistir?
David Lynch: Depois de uma experiência como essa? Sinceramente, você poderá assistir a qualquer filme. Eu sei, mas qualquer um de meus filmes o deixará feliz.
[Risos]
David Lynch: Você terá tamanha felicidade que poderá ver qualquer coisa. Eu sugeriria O homem elefante.
Ricardo Calil: Senhor Lynch.
David Lynch: Sim.
Ricardo Calil: Algumas figuras do cinema americano, como Tom Cruise [(1962-) ator e produtor de cinema norte-americano] e o John Travolta [(1954-) ator, cantor e dançarino norte-americano], por exemplo, são vistas com bastante desconfiança por uma parte do público e da mídia, pela ligação deles com a cientologia [sistema de crenças fundado em 1952 pelo autor de ficção cientifica L. Ron Hubbard (1911-1986) e oficializado em 1954, bastante polêmico e muitas vezes criticado por fazer "lavagem cerebral"]. Eu sei que a meditação transcendental não é uma religião, não é um culto, como o senhor enfatizou, mas algumas pessoas podem vê-la assim. O senhor sente que, de alguma forma, algumas pessoas podem vê-lo como uma espécie de lunático, talvez por esse desejo de divulgar a meditação? Ou o senhor acha que seus filmes já eram suficientes para que o senhor fosse considerado um excêntrico?
David Lynch: Há de tudo em Hollywood. Algumas atrizes se colocam contra casacos de peles de animais. Outros se voltam ao combate à Aids. Alguns à cientologia. Alguns mexem com isso ou aquilo e saem por aí falando a respeito. Ou se envolvem com política. E o que sempre se diz é que essas coisas passam. Concentre-se no filme que está fazendo e vá em frente. Quanto à cientologia, eu não sei o que é. Eles dizem que é isso e aquilo, não dizem exatamente o quê. Eu lhe digo o que é a meditação transcendental. Eu lhe conto histórias e há seiscentos a setecentos estudos validando a prática. Validando todos os benefícios da transcendência. Não é uma religião. Pessoas de todas as religiões a praticam. E como a compreensão cresce, cresce a compreensão acerca da religião. Como cresce a compreensão, há uma maior compreensão da religião. Os desentendimentos se dissipam. Vê-se que é algo próprio do ser humano. Quanto aos meus filmes, eu me preocupo. As pessoas dizem: “Ele é doidão e agora vem com essa de meditação.”. Mas quando você fala a respeito, elas dizem: “Espere um pouco.”. Como foi o caso do livro. Muitas pessoas começaram a meditar depois de lerem esse livro, pois não se trata de algo estranho, mas de algo que alimenta o artista, o ser humano. E tudo que estou fazendo é falar a respeito. Apenas uma entre muitas pessoas que falam a respeito. Mas eu entendo a posição das pessoas... Há muitas pessoas estranhas em Hollywood.
Ubiratan Brasil: Senhor Lynch, normalmente a imprensa em geral, mundial, a imprensa mundial costuma destacar sempre o desconforto que os seus filmes provocam no público, taxando o seu cinema como algo bizarro. Gosta de relevar as suas obsessões por café, por acidente de carro. Incomoda um pouco? E conhecendo o senhor um pouco, percebe-se que esse não é o verdadeiro David Lynch, porque percebe-se que essa sua alma é mais artística. Isso lhe incomoda um pouco? Essa posição de homem elefante [fazendo um paralelo com o personagem do filme que é diferente das outras pessoas], digamos assim?
David Lynch: Não. Isso não me incomoda. O público tem direito à sua própria opinião. Há uma frase que diz: “O mundo é como você é.”. Se você vê o mundo através de óculos de lentes verde-escura, esse será o seu mundo. Se você vê o mundo através de óculos cor-de-rosa ou dourados, aquele é o seu mundo. Sempre digo que, quando o cinema se torna abstrato, as interpretações são muitas. Mas todas elas são válidas. As pessoas podem dizer, pensar e fazer o que quiserem.
Laís Duarte: A Gilda Gonçalves, de Niterói, Rio de Janeiro, pergunta: "O senhor, em sua filmografia, aborda com freqüência personagens cujas vidas se situam à margem do grupo social a que pertencem. O que o levou a penetrar nesse universo de rejeição e solidão?".
David Lynch: Idéias. Não é que eu diga: “vou fazer filmes sobre pessoas no limite de seus universos.”. Absolutamente. Vou caminhando pela rua e tenho uma idéia. Eu a vejo, sinto, ouço, anoto e me apaixono por essa idéia. E o dia fica maravilhoso. Sei o que vou fazer, pois adorei a idéia e adorei a maneira como acredito que o cinema poderia transmitir aquela idéia. E vou em frente.
José Geraldo Couto: Senhor Lynch, reforçando uma pergunta que a Lillian fez sobre os seus próximos projetos, então o senhor vai ser produtor executivo de dois outros filmes. Eu queria saber se existe algum projeto seu como diretor, se está em esboço, embrião, algum projeto, se nós podemos esperar um novo David Lynch para os próximos anos.
David Lynch: Não tenho um novo filme de David Lynch. Ainda não. Mas, no momento, estou adorando pintar, adorando música e fotografia. Estou trabalhando em um documentário acerca de uma viagem que fiz a 15 países, falando de meditação e paz. Não é um filme de David Lynch, mas é nisso que estou trabalhando.
Lilian Witte Fibe: Senhor David Lynch, eu que quero agradecer demais a sua presença aqui, mas não sem antes lhe perguntar - o senhor falou tanto que meditação é completamente independente de religião -: o senhor tem alguma religião? O senhor acredita em algum Deus?
David Lynch: Fui criado como presbiteriano. E acredito em Deus.
Lillian Witte Fibe: Ok. Muito obrigada pela sua presença...
David Lynch: Muitíssimo obrigado. Obrigado a todos vocês

Fonte: Memória Roda Viva

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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Impaled Nazarene


A Finlândia não é apenas um país referência em Metal Sinfônico: De lá surgiu também uma das bandas mais blasfemas da história do Metal, o Impaled Nazarene, cujo nome seria uma alusão a certa “mitologia” de que Jesus Cristo teria se transformado em vampiro e, segundo a cultura, para ser derrotado deveria ser empalado.

Em 2004, o então guitarrista Teemu Raimoranta, supostamente cometeu suicídio, pulando de uma ponte direto ao gelo embaixo dela. As autoridades tomaram a causa como outra qualquer, mas o líder Mika Luttinen alimentou a idéia do colega ter realmente se matado.


Em decorrência da reação à posição política assumida pela banda, o IMPALED NAZARENE foi banido de tocar em diversos países europeus e seu álbum “Nihil” de 2000, chegou a ser retirado das lojas na Alemanha.

“Eu estava pensando que essas coisas seriam esquecidas logo”, disse Luttinen, “mas parece que eu estava completamente errado. Não entendo como é possível que alguns Punks esquerdistas tenham tamanha influência e poder que podem cancelar turnês inteiras. Eles dizem que tal artista é de direita e todos dizem: ‘É, é verdade, vamos bani-los.’ Um dos fundamentos da União Européia é garantir liberdade de expressão e liberdade de religião. Nos últimos três ou quatro anos esses direitos básicos foram completamente destruídos na Alemanha e completamente destruídos na Polônia, o último por se tratar de um país com um governo católico extremista que nos atacou. Se a EU deve nos garantir esses direitos básicos, como é possível que governos individuais possam desrespeitá-los? Não faz sentido para mim, deveria ser uma ‘Europa unida’, então como esses países tomam decisões completamente diferentes? Ainda consigo entender a paranóia alemã a respeito da extrema-direita em função do seu passado, mas estamos falando sobre música aqui”.
 



Album Name: Manifest
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 2007
Country: Finland
Track Listing:

1. Intro: Greater Wrath
2. The Antichrist Files
3. Mushroom Truth
4. You Don't Rock Hard
5. Pathogen
6. Pandemia
7. The Calling
8. Funeral For Despicable Pigs
9. Planet Nazarene
10. Blueprint For Your Culture's Apocalypse
11. Goat Justice
12. Die Insane
13. Original Pig Rig
14. Suicide Song
15. When Violence Commands The Day
16. Dead Return

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Album Name: Pro Patria Finlandia
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 2006
Country: Finland
Track Listing:

1. Weapons To Tame A Land
2. Something Sinister
3. Goat Sodomy
4. Neighbourcide
5. One Dead Nation Under Dead God
6. For Those Who Have Fallen
7. Leucorrhea
8. Kut
9. This Castrated World
10. Psykosis
11. Contempt
12. I Wage War
13. Cancer
14. Hate - Despise - Arrogance

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Album Name: Death Comes In 26 Carefully Selected Pieces
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 2005
Country: Finland
Track Listing:

1. Intro
2. The Horny and the Horned
3. Armageddon Death Squad
4. Goat Perversion
5. 1999: Karmageddon Warriors
6. Motorpenis
7. Kohta ei naura enää Jeesuskaan
8. The Endless War
9. Sadhu Satana
10. Ghettoblaster
11. Coraxo
12. Soul Rape
13. Sadistic 666 / Under a Golden Shower
14. Zero Tolerance
15. The Maggot Crusher
16. Let's Fucking Die
17. Tribulation Hell
18. We're Satan's Generation
19. Cogito Ergo Sum
20. Goat Seeds of Doom
21. Condemned To Hell
22. Intro S.F.P.
23. Sadogoat
24. Vitutuksen multihuipennus
25. The Lost Art of Goat Sacrificing
26. Total War – Winter War

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Album Name: All That You Fear
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 2003
Country: Finland
Track Listing:

1. Kohta ei naura enää Jeesuskaan
2. Armageddon Death Squad
3. The Endless War
4. The Maggot Crusher
5. Curse of The Dead Medusa
6. Suffer In Silence
7. Halo of Flies
8. Recreate Thru Hate
9. Goat Seeds of Doom
10. Even More Pain
11. Tribulation Hell
12. Urgent Need To Kill
13. All That You Fear

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Album Name: Absence of War Does Not Mean Peace
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 2001
Country: Finland
Track Listing:

1. Stratagem
2. Absence of War
3. The Lost Art of Goat Sacrificing
4. Prequel to Bleeding (Angels III)
5. Hardboiled And Still Hellbound
6. Into The Eye of The Storm
7. Before The Fallout
8. Humble Fuck of Death
9. Via Dolorosa
10. Nyrkillä tapettava huora
11. Never Forgive
12. Satan Wants You Dead
13. The Madness Behind

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Album Name: Impaled Nazarene/Driller Killer
Band: Impaled Nazarene / Driller Killer
Genre: Black Metal/Punk
Year: 2000
Country: Finland/Sweden
Track Listing:

Impaled Nazarene:
1. Impotent Mankind
2. I Couldn't Care Less (Driller Killer cover)

Driller Killer:
3. How Come?
4. Ghettoblaster (Impaled Nazarene cover)

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Album Name: Nihil
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 2000
Country: Finland
Track Listing:

1. Cogito Ergo Sum
2. Human-Proof
3. Wrath of the Goat
4. Angel Rectums Still Bleed - The Sequel
5. Post Eclipse Era
6. Nothing Is Sacred
7. Zero Tolerance
8. Assault the Weak
9. How the Laughter Died
10. Nihil

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http://www.metal-archives.com/images/1/2/9/1/1291.jpg
Album Name: Rapture
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 1998
Country: Finland
Track Listing:

1. Penis et Circes
2. 6th Degree Mindfuck
3. Iron Fist With an Iron Will
4. Angel Rectums Do Bleed
5. We're Satan's Generation
6. Goatvomit and Gasmasks
7. Fallout Theory in Practice
8. Healers of the Red Plague
9. The Pillory
10. The Return of Nuclear Gods
11. Vitutation
12. JCS
13. Inbred
14. Phallus Maleficarum

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Album Name: Latex Cult
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 1996
Country: Finland
Track Listing:

1. 66.6 S of Foreplay
2. 1999: Karmakeddon Warriors
3. Violence I Crave
4. Bashing in Heads
5. Motorpenis
6. Zum Kotzen
7. Alien Militant
8. Goat War
9. Punishment Is Absolute
10. When All Golden Turned to Shit
11. Masterbator
12. The Burning of Provinciestraat
13. I Eat Pussy for Breakfast
14. Delirium Tremens

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Album Name: Suomi Finland Perkele
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 1994
Country: Finland
Track Listing:

1. Intro
2. Vitutuksen Multihuipennus
3. Blood Is Thicker Than Water
4. Steelvagina
5. Total War - Winter War
6. Quasb / The Burning
7. Kuolema Kaikille (Paitsi Meille)
8. Let's Fucking Die
9. Genocide
10. Ghettoblaster
11. The Oath of the Goat

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Album Name: Ugra-Karma
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 1993
Country: Finland
Track Listing:

1. Goatzied
2. The Horny and the Horned
3. Sadhu Satana
4. Chaosgoat Law
5. Hate
6. Gott Ist Tot (Antichrist War Mix)
7. Coraxo
8. Soul Rape
9. Kali-Yuga
10. Cyberchrist
11. False Jéhova
12. Sadistic 666 / Under a Golden Shower

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Album Name: Tol Compt Norz Norz Norz...
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 1992
Country: Finland
Track Listing:

1. Apolokia
2. I Al Purg Vonpo / My Blessing (The Beginning of the End)
3. Apolokia II: Aikolopa 666
4. In the Name of Satan
5. Impure Orgies
6. Goat Perversion
7. The Forest (The Darkness)
8. Mortification / Blood Red Razor Blade
9. The God (Symmetry of Penis)
10. Condemned to Hell
11. The Dog (Art of Vagina)
12. The Crucified
13. Apolokia III: Agony
14. Body-Mind-Soul
15. Hoath: Darbs Lucifero
16. Apolokia Finale XXVII A.S.
17. Damnation (Raping the Angels)

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Album Name: Goat Perversion
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 1992
Country: Finland
Track Listing:

1. Noisrevrep Taog
2. In The Name of Satan
3. Damnation

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Album Name: Taog Eht Fo Htao Eht
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 1991
Country: Finland
Track Listing:

1. Nuctemeron of Necromanteion
2. Condemned To Hell
3. Impurity of Dawn
4. The Crucified
5. Infernus
6. Morbid Fate
7. Ave Satanas
8. In The Name of Satan
9. Fall to Fornication
10. Damnation (Raping the Angels)

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Album Name: Shemhamforash
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 1991
Country: Finland
Track Listing:

1. Intro
2. Condemned To Hell
3. The Crucified
4. Disgust Suite O:P I
5. Morbid Fate
6. Disgust Suite O:P II
7. Worms In Rectum
8. Conned Thru Life (Extreme Noise Terror cover)
9. Crucifixation (Deicide cover)

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sexta-feira, 18 de maio de 2012

Alan Moore, uma entrevista



Quase todo mundo que já leu uma HQ na vida concorda que Alan Moore é o melhor escritor do gênero na história do formato. Nos anos 80, ele foi o cara que praticamente sozinho fez adultos covardes admitirem gostar de gibis.

Um filho orgulhoso de Northampton, Inglaterra, que ainda vive perto da área onde cresceu, Moore amadureceu no começo da década de 80 na 2000 AD, a maior fábrica britânica de HQs de ficção científica e fantasia. Sua tira do Judge Dredd reimaginava o personagem com complexidades até então inexploradas. Sua criação, Halo Jones, foi o primeiro título nessa mídia que não retratava uma personagem feminina como uma supermulher peituda ou uma vítima.

Lá pela metade daquela década, Moore tinha revolucionado as HQs norte-americanas, primeiro fazendo o estagnado título da DC Monstro do Pântano pegar no tranco, transformando-o em um livro de busca existencial com preocupações ecológicas, e depois criando Watchmen, que foi a primeira HQ a realmente virar as tropas de super-heróis de ponta cabeça, e que acabou virando um filme abismalmente horrível no ano passado (o qual Moore, felizmente, desaprova).

Várias batalhas legais sobre propriedade e direitos sobre suas criações depois, Moore começou sua própria linha, que meio de brincadeira batizou de America’s Best Comics. De 1991 a 1996, ele produziu Do Inferno, sua própria versão linda e austera da história de Jack o Estripador. Disso também fizeram um filme de merda que Moore desaprova. A série A Liga Extraordinária começou em 1999 e virou um vasto mamute, que mistura histórias ficcionais e imaginadas com versões da nossa própria realidade. Outra vez: filme de merda, Moore desaprova. Em V de Vingança, Moore nos deu sua visão sobre o totalitarismo. E, novamente, filme de merda, Moore desaprovando.

Nos anos mais recentes, Moore produziu um romance complexo, A Voz do Fogo (1996), e um poema longo que trata de garotas que gostam de garotas e garotos que gostam de garotos, chamado The Mirror of Love (2004). Ele também publicou 25.000 Years of Erotic Freedom (2009), que examinava bem o que o título sugere, e Lost Girls (2006), que ele criou com Melinda Gebbie e que envolve Wendy do Peter Pan, Alice de Alice no País das Maravilhas, e Dorothy de O Mágico de Oz tendo muitas e muitas aventuras explícitas. Uma comédia total.

Atualmente Moore está trabalhando em Dodgem Logic, uma revista underground, em seu segundo romance, Jerusalem, e em um guia de magia. Na verdade, Moore é um mago praticante (e não é daqueles de coelho e cartola). Recentemente ligamos pra ele em sua casa em Northampton, e depois que ele nos assegurou que tinha uma xícara de chá em mãos e “quantas xícaras fossem necessárias pra fazer isso”, ficou claro que o Sr. Moore estava a fim de conversar conosco por bastante tempo sobre seu trabalho e suas ideias. E sim, foi um lance mágico.

Vice: A Dodgem Logic é um dos seus novos projetos. Por que não começamos falando sobre ela?
Alan Moore:
Dodgem Logic é uma colisão agressiva e aleatória de todo o tipo de coisas, de textos absurdistas de ficção feitos por Steve Aylett a novos pedaços de trabalho feitos por Savage Pencil e Kevin O’Neill. Esteticamente e em termos de formato ela veio de uma fascinação com a imprensa underground, que é uma cultura que data de antes do jornalismo impresso, mas que se tornou uma realidade popular nas décadas de 60 e 70 quando era uma parte vital da contracultura.

Quais eram as grandes entidades da imprensa underground no Reino Unido naquela época?
Os principais jornais eram o International Times e o Oz, que começou como uma revista de sátiras na Austrália e mudou pra cá, onde se tornou muito mais controverso e psicodélico. Eram tempos inebriantes, e foi a imprensa underground que agia como a cola que mantinha todo aquele elemento da sociedade junto e em contato um com o outro. Sem aqueles jornais, você teria apenas algumas pessoas que usavam roupas parecidas, tinham um gosto musical similar e usavam drogas parecidas. Você não teria um discurso político ou cultural coerente.

E a Dodgem Logic é pra ser uma continuação daquela tradição?
Nós decidimos fazer da Dodgem Logic uma revista de 48 páginas de cores vivas que tenta reinventar a noção de publicação independente para o século XXI. Estamos constantemente tentando deixá-la sem muito polimento. Não queríamos que ela fosse impressa em papel brilhante, porque isso poderia ser algo intimidante, poderia criar uma barreira entre a revista e seus leitores. Nós escolhemos esse visual mais bruto deliberadamente.

Tem várias partes dela que parecem colagens, o que faz com que ela pareça um híbrido entre um jornal underground e um fanzine.
Isso para mim é um elogio. Fanzines costumavam ser uma parte vital da cultura na qual eu cresci, dos fanzines de poesia nos anos 60 até os fanzines de HQ, ficção científica e fantasia dos anos 70 que produziram grande parte do talento que hoje domina os gêneros de HQ e ficção científica. Eles eram pequenas publicações incrivelmente produtivas e continham muita energia. Talvez isso tenha vindo do quão fácil era produzi-los. Não era tão fácil como seria fazê-los hoje em dia, mas agora toda a tecnologia está aqui para fazermos algo muito mais ambicioso do que jamais sonhamos que fosse possível, o ímpeto desapareceu. Talvez o grau de paixão que era colocado em algo como o Sniffin’ Glue ou quaisquer outros dos zines associados com o movimento punk exista de fato hoje em dia, só que online. Eu não sei. Posso parecer antiquado, mas eu ainda acredito que sempre haverá uma diferença entre algo que você olha na tela e algo que você pode segurar com as mãos.

Coisas físicas são melhores. Elas são mais reais.
Tem mais um sentido de um artefato que é parte de uma comunidade e parte de uma cultura.

Uma insatisfação generalizada com o governo e o declínio inexorável da civilização, assim como uma preocupação com a erosão das comunidades locais e da cultura, são temas recorrentes no seu trabalho de O Monstro do Pântano a Watchmen e além. Dodgem Logic parece mais uma maneira direta de lidar com essas questões.
Para falar a verdade, estou bem por fora das HQs. Eu estou continuando A Liga Extraordinária e estou desenhando algumas tiras para a Dodgem Logic, mas não me interesso pela indústria de HQs. Não me considero mais parte dela.

As coisas que você está abordando na Dodgem Logic poderiam ser abordadas em HQs?
Sim, poderiam ser abordadas no formato HQ. Porém, se eu fizesse isso, iria agradar meu público leitor de HQs, e não um mundo mais abrangente, que é onde essas questões precisam estar. Eu devo ressaltar que Dodgem Logic não é uma revista especificamente a respeito de Northampton. É apenas de onde eu e alguns contribuintes somos. Porém, nós olhamos a partir do ponto de vista de que Northampton é o centro exato do país, geográfica, econômica e politicamente. É um modelo bom o suficiente para representar uma cidade comum. As ruas principais estão sendo interditadas, as pessoas estão sofrendo abusos por parte da administração, e há lixo em todo lugar.

O que te levou a falar sobre essas questões tão diretamente agora? Não que faltassem problemas sociais nos anos 80.
Há uns dois anos um grupo de ex-criminosos juvenis entrou em contato comigo. Eles ti-nham trabalhado com música na área de Burrows em Northampton. Foi lá que eu nasci, cresci e onde a maior parte do meu próximo romance se passa. Eles tinham decidido fazer um filme sobre essa área negligenciada. Já que eles sabiam que eu tinha vindo de lá, me perguntaram se eu gostaria de ser entrevistado pro filme. Eles estavam trabalhando em parceria com o Central Museum em Northampton. Eu fui até lá, encontrei com eles, e nos demos muito bem. Eu queria continuar em contato com eles além da duração daquele projeto inicial, então fui todas as semanas para os escritórios de uma organização de ajuda à comunidade local chamada CASPA que estava fazendo um trabalho brilhante na área. Encontrei com os meninos e a tutora deles, que era uma jovem maravilhosa chamada Lucy, e eu inevitavelmente contei a eles sobre a cena local, a cultura underground e os clubes de arte que existiam enquanto eu tava crescendo e que fizeram tanto para me tornar a pessoa que sou hoje. Eu também contei a eles sobre como nós produzíamos revistas e fanzines e organizávamos leituras de poesia e coisas desse tipo. Tenho certeza que foi muito chato pra eles escutarem todas aquelas histórias, mas parece que as ideias colaram. Eles decidiram fazer uma revista sozinhos, para a qual eu contribuí. Tanto eu quanto os meninos queríamos falar sobre alguns dos verdadeiros problemas que afligiam a área, e como era uma vergonha que nós provavelmente não poderíamos tratar disso na revista porque ela era financiada pela Prefeitura. Nós discutimos a possibilidade de fazermos uma revista independente e decidimos tentar. As edições pareceram ser tão importantes para as pessoas daquela área que não podíamos abstê-las da comunidade local. Eu escrevi um artigo que chamava Os Incineradores. Era sobre um velho incinerador que estava na área de Burrows. Era pra lá, antigamente, que o lixo da cidade inteira ia.

Certo, o que é um detalhe esclarecedor.
Isso passou uma mensagem muita clara sobre o que as pessoas da administração pública pensavam das pessoas que moravam naquela área, e ainda que o incinerador tenha sido demolido na década de 30, a mensagem permanece aplicável à área hoje em dia. É para onde a administração pública manda as coisas com as quais não quer lidar: grupos de imigrantes, ex-presidiários e pessoas que estavam em asilos. Todas as pessoas problemáticas são enfiadas nessa vizinhança, muitas vezes em acomodações que foram condenadas pelos bombeiros. Coisas horríveis acontecem aqui todos os dias.

E a administração acabou bloqueando esse artigo?
Sim. Nos disseram que não podíamos publicar o artigo porque era crítico à administração, então Lucy e eu demos um jeito para que ela pudesse trabalhar só três dias da semana na CASPA e nos outros dois trabalhasse em uma revista independente comigo. A administração logo disse a ela que se ela fosse trabalhar dois dias da semana em uma revista independente ela não teria seu emprego na administração nos outros três dias, foi aí que decidi que isso já era demais e convidei a Lucy para trabalhar na Dodgem Logic por tempo integral. As questões que estamos tratando são importantes, e a revista oferece um lugar onde essas coisas podem ser discutidas. Nós não somos presos a nada e podemos dizer o que quisermos. Porém nós não queremos deixar as pessoas deprimidas, então temos tentado colocar o máximo de coisas lá que sejam verdadeiramente divertidas, assim como as coisas sociais e políticas. Essas são estratégias para ajudar as pessoas a passarem por tempos difíceis—dar a elas informação de que elas precisam, mas também dar algo que as anime.

É uma boa causa.
Eu não fiz muita coisa além de passar pela área por muitos anos. Conhecer pessoas boas que moravam lá nessa situação podre foi o que me fez resolver que eu queria fazer alguma coisa com foco naquela área. Burrows está no topo dos 2% de escassez no Reino Unido. Existem áreas iguais por todo o país, mas elas são varridas pra baixo do tapete. Eu também sinto uma ligação emocional com essa área, que eu sempre tive, e vi uma oportunidade de produzir algo lindo e útil sobre aquele ambiente e ao mesmo tempo criar um modelo para outras áreas semelhantes.

No passado você defendeu anarquia tanto no seu trabalho quanto na sua vida pessoal. Essa seria sua resposta aos problemas sociais discutidos na Dodgem Logic?
Bem, na verdade, para a segunda edição eu escreverei um artigo introduzindo a anarquia e explicando como ela poderia ser aplicada de maneira prática na nossa situação atual. Então sim. Uma das coisas para a qual eu estarei voltando minha atenção é o princípio da loteria ateniense. Isso basicamente dita que uma questão que precisa ser resolvida em nível nacional ou administrativo, você aponta um júri por loteria. Eles podem vir de qualquer lugar de dentro da cultura e são escolhidos de maneira completamente aleatória. Os prós e os contras do caso são então apresentados para o júri, eles ouvem, debatem e votam. Após a decisão, eles não fazem mais parte do júri. Eles voltam à sociedade, e para a próxima questão outro júri é escolhido. O sistema parece, para mim, se aproximar de algo como a democracia, que é algo que nós não temos nesse momento. A palavra “democracia” vem de “demos”, o povo, e “cratos”, mandar—“o povo manda”. Ela não diz nada a respeito de representantes do povo eleitos que governam, que é o sistema que temos no momento. Mudando para algo próximo disso, iríamos criar um sistema livre dos muitos abusos do nosso modelo atual de governo. É bem difícil comprar o apoio do povo se você não sabe quem são as pessoas que você deveria estar amaciando. Também seria difícil para o corpo dominante temporário agir em interesse próprio, já que faria mais sentido para eles agirem no interesse da sociedade para a qual eles estariam retornando.

Isso é interessante. Tem elementos de anarquia e democracia.
Sim, isso enquadraria o círculo entre as ideias de anarquia e governo. Minha definição de anarquia é a grega: sem líderes. É difícil pensar em uma sociedade ordenada que se conforme a esse ideal, mas com a loteria ateniense você não teria líderes, você teria indivíduos tomando decisões balanceadas. Seria necessária uma quantidade enorme de mudança constitucional, mas eu gosto de colocar a ideia no mundo para que se torne uma possibilidade e algo a ser discutido. Nossa forma de governo atual claramente não está funcionando, e não dá para continuar tentando remendar um modelo que é inerentemente fracassado. Talvez seja a hora de termos um novo modelo, em vez de colocar remendos no radiador do velho modelo de Ford Bigode que chegou ao fim de sua vida útil.

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