quarta-feira, 1 de maio de 2013

Pepe Escobar, uma entrevista

A disputa por petróleo, água e outros recursos intensifica-se, as relações globais mudam, criando o pano de fundo para uma cadeia de conflitos, do Iraque à Líbia. Pepe Escobar*, jornalista nascido no Brasil e um dos mais sensíveis analistas dessas tendências, fala aqui, em entrevista ao jornalista alemão Lars Schall concedida em dezembro de 2011 para o site Consortium news.

Tradução: Vila Vudu


*Pepe Escobar nasceu em 1954 no Brasil, e desde 1985 trabalha como correspondente estrangeiro. Trabalhou em Londres, Milão, Los Angeles, Paris, Cingapura e Bangkok. A partir do final dos anos 1990s, passou a cobrir questões geopolíticas do Oriente Médio à Ásia Central, escrevendo do Afeganistão, Paquistão, Iraque, Irã, repúblicas da Ásia Central, EUA e China. Atualmente, trabalha para o jornal Asia Times que tem sedes em Hong Kong/Tailândia, como “The Roving Eye”; é analista-comentarista do canal de televisão The Real News, em Washington DC, e colaborador das redes Russia Today e Al Jazeera. É autor de três livros: Globalistan. How the Globalized World is Dissolving into Liquid War, Red Zone Blues: a snapshot of Baghdad during the surge eObama does Globalistan
 


Lars Schall: Pepe Escobar, dada sua experiência nesse campo, qual, em sua opinião, o principal mal-entendido que se constata na opinião pública em geral, relacionado à chamada “Guerra ao Terror”?
Pepe Escobar: A “Guerra ao Terror” foi história-de-capa e cobertura para um “Choque de Civilizações” e uma guerra fria oculta, mas que talvez ‘esquente’, entre os EUA e seus dois concorrentes estratégicos, China e Rússia. Os EUA não poderiam atacar diretamente nenhum desses dois países membros do grupo BRICS [Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, os países emergentes].
Lembremos que antes da “Guerra ao Terror” e depois da queda do Muro de Berlim, os norte-americanos tentavam definir quem seria seu próximo inimigo. Fazia falta um inimigo externo pré-fabricado – antes, foram a União Soviética, a Cortina de Ferro e o demônio do comunismo. Depois que o demônio foi derrotado pela realpolitik – OK, quem é o próximo?
Primeiro, pensaram na China, mas disseram “não, não podemos tomar a China, é uma grande potência, tem armas nucleares. Com a Rússia, a mesma coisa. E os russos estão agindo bem, há lá um fantoche, no Kremlin, Boris Yeltsin, privatizando tudo feito louco e saqueando os recursos da Rússia, hipoteticamente a favor das corporações ocidentais”. Foi assim, até que [Vladimir] Putin virou tudo isso de ponta cabeça.
Assim, a “Guerra ao Terror” pareceu perfeita, porque o Islã pôde ser rotulado como o inimigo. E o 11/9 não poderia ter sido mais conveniente, porque então, embora o conceito já existisse desde antes, havia o “fator Pearl Harbor”. A “Guerra ao Terror” foi conceito que pôde ser vendido não só ao público norte-americano, mas, também, à opinião pública mundial. Mas a agenda oculta, por baixo da “Guerra ao Terror” global, que o Pentágono chama de “A Longa Guerra” – guerra infinita – é, de fato, a emergência de duas potências que são ameaça real e grave aos EUA, Rússia e China.
A Rússia, basicamente porque tem armas atômicas. Naquele momento, sequer pensavam na Rússia como grande exportador de petróleo e gás – foi antes de Putin ter reorganizado a Gazprom, que viria a tornar-se a principal empresa internacional de petróleo e gás.
E a China, a qual, naquele momento, há 10 anos, os americanos viam como ainda desorganizada, talvez enfrentando alguma revolta camponesa, sabe-se lá! Fato é que os EUA não pensavam na China, naquele momento, como concorrente de peso. Hoje, claro, a China tem 3,2 trilhões de dólares norte-americanos nas suas reservas, além dos papéis do Tesouro do EUA etc.
11/9 foi pretexto perfeito, mas, por baixo, oculta, intensificou-se a disputa para chegar às reservas de energia do Golfo Persa e da Ásia Central. E os EUA tinham o plano máster dos neoconservadores. É o mesmo plano que – por difícil que seja acreditar –, está sendo implantado hoje. Esse plano implica desestabilizar esse “Arco de Instabilidade” – expressão cunhada, claro, pelo Pentágono –, do Maghreb pelo norte da África pelo Oriente Médio e direto até a Ásia Central via Afeganistão/Paquistão – que é a intersecção entre a Ásia Central e o Sul da Ásia – até a fronteira da China, em Xinjiang.
Eles precisavam implantar sua estratégica, que foi concebida em sua forma final, depois do 11/9. É a doutrina da “Dominação de Pleno Espectro” do Pentágono, tema sobre o qual você jamais lerá na imprensa dominante nos EUA ou na Europa.
Desde 2002, a doutrina da “Dominação de Pleno Espectro” é doutrina oficial do Pentágono. É intrinsecamente ligada à Segurança Nacional dos EUA: temos de ser principal potência, não só em terra, mar e ar, mas também no ciberespaço e no espaço sideral. Essa é a essência da doutrina da doutrina da “Dominação de Pleno Espectro”.  [Ver, por exemplo, GARAMONE, Jim (American Forces Press Service): Joint Vision 2020 Emphazises Full Spectrum Dominance, 2/6/2000, Departamento de Defesa dos EUA].
  
 
Está sendo aplicada agora, depois da “Primavera Árabe”. E é inacreditável que ninguém, absolutamente, fale sobre isso. Todos se puseram a falar de uma “Primavera Árabe”, que é termo impreciso, porque faz crer que os árabes tenham estado adormecidos ao longo dos últimos cem anos, e estivessem ‘despertando’ – o que não é verdade. A palavra “Primavera” não é a palavra certa. Eu diria que estamos assistindo a um processo de maior consciência das classes trabalhadoras e classes médias na Tunísia, no Egito, no Bahrain e também em outras partes do Oriente Médio. 
E, em seguida, veio a contrarrevolução, e esse processo contrarrevolucionário está levando diretamente à implantação de outras etapas da doutrina da “Dominação de Pleno Espectro”. Adiante, podemos voltar a falar sobre isso.
O que estou querendo dizer, basicamente, é que a contrarrevolução, orquestrada pelos EUA e, especialmente, pela Casa de Saud, reinstrumentalizou o que aconteceu na Tunísia e no Egito. Dispararam a contrarrevolução no Golfo Persa e hoje tentam subornar a ditadura militar no Egito para mantê-la lá como ditadura militar. Já deram quase 4 bilhões de dólares à junta militar chefiada por Tantawi, e mais dinheiro virá da Arábia Saudita. Enquanto isso, os EUA, na Ásia Central, tentam reorganizar-se, porque se deram conta de que estão perdendo terreno – e para quem seria? – para China e Rússia.
Isso está acontecendo ao ritmo de novos negócios de petróleo e gás que estão sendo construídos entre China e Rússia, entre o Turcomenistão e a China, e também entre todos esses atores e o Irã – Rússia e China já mantêm cooperação bem próxima com o Irã nos campos de petróleo e gás. Então, disseram os americanos, “OK. Como, então, reorganizamos a coisa toda?” 
Do modo como o Pentágono vê o mundo, a “Guerra ao Terror” está mais ou menos acabada para todas as suas finalidades práticas. E volta a doutrina da “Dominação de Pleno Espectro”: “os EUA temos de controlar tudo”. Significa controlar o Mar Mediterrâneo como “lago da OTAN”, projeto que já implementaram na Líbia e hoje tentam implementar na Síria; controlar o resto da África, enviar tropas para Uganda, como Obama fez há poucas semanas. Mas não se trata só de Uganda; trata-se de todo o coração da África Central, Uganda, Sudão do Sul, República Centro-Africana e Congo – muito petróleo, muitos minérios, muitas terras raras, todos esses recursos extremamente valiosos.
O Ocidente não pode estar ausente, e os EUA têm de manter-se no controle (“esqueçam a China”). Tudo isso implica ampliar o Comando dos EUA na África (AFRICOM), cuja sede está ainda em Stuttgart, Alemanha, mas logo, provavelmente, será transferida para Benghazi, Líbia.
Há poucos dias, conversei com gente da União Europeia em Bruxelas, dissidentes inteligentes que não concordam com o que está sendo feito lá. Disseram-me off the Record que, sim, haverá uma base militar na Líbia; e que o plano sempre foi esse, desde o início.
Haverá muitos “coturnos em terra”, coturnos europeus, turcos, do Qatar, dos Emirados Árabes Unidos, aqueles mercenários que estão sendo treinados pela empresa Blackwater – hoje, empresa Xe – nos Emirados Árabes Unidos. Todos esses farão parte daquela base, que será a base que a OTAN e o AFRICOM desejavam implantar no norte da África.
Em minha opinião, a principal resposta à sua pergunta é: a “Guerra ao Terror” foi cortina de fumaça que durou mais ou menos dez anos. Hoje, todos eles – o Pentágono, a CIA, o FBI, a Agência de Segurança Nacional, o governo Obama, todos eles – já dizem aos quatro ventos: “a al-Qaeda está operacionalmente desativada” (palavras deles).
Praticamente morreram todos, exceto al-Zawahiri e o novo chefe nomeado para o comando militar, mas nem lembro seu nome, e muda a cada semana. Morreram praticamente todos, já não estão no Afeganistão, têm poucos instrutores nas áreas tribais nos Waziristões, não estão operativos no resto do mundo. Mas, sim, estão no poder, hoje, em Trípoli, porque foram usados pelo ocidente. O pessoal de Benghazi foi treinado num campo militar ao norte de Kabul.
Estive lá no início de 2001; havia muitos líbios. E, sim, aqueles líbios são o Grupo de Combatentes Líbios Islâmicos [orig. Libyan Islamic Fighting Group, LIFG]. Foram treinados naquele campo ao norte de Kabul (e nem foi difícil chegar até lá). Hoje, estão no poder na Líbia. O comandante militar de Trípoli, Abdelhakim Belhadj, e seus homens, muito bem armados, militarmente muito bem treinados, não arredarão pé de lá. Esses jihadis ligados à al-Qaeda deixaram-se manipular pelo ocidente, sem oferecer qualquer resistência.
Você diria que a al-Qaeda, hoje um fantasma da força real que teve ‘nos bons velhos tempos’, foi usada como instrumento da política exterior dos EUA?
Pepe Escobar: Sim, sem dúvida foi! Foi a desculpa perfeita, porque não se afastaram do plano para tentar implementar a doutrina da “Dominação de Pleno Espectro” em todos os pontos nos quais conseguissem implementá-la. Estiveram muito ativos na Ásia Central – até há cerca de dois anos –, desde o governo Bush.
Não esqueça que Cheney visitava a Ásia Central a cada dois, três meses, naquela época. Os EUA tentaram negociar diretamente com os cazaques, com os turcomanos e, especialmente, com o Azerbaijão – a elite do Azerbaijão tem muitos laços com os Republicanos nos EUA. Dick Cheney esteve lá muitas vezes.
E o embaixador especial do governo Bush, que ainda trabalha para o governo Obama, Richard Morningstar, “embaixador do petróleo”, a serviço de Washington na Ásia Central, conhece muito bem todos os personagens. Os EUA tentaram pressioná-los para que não negociassem com os russos, nem com a China, para que deixassem de lado o Irã e negociassem com os norte-americanos. E está acontecendo o quê? Eles negociaram com a Rússia, negociaram com a China, não deixaram de lado o Irã e absolutamente não estão negociando com os EUA.
Em geral, as pessoas esperam, se você faz guerra, que você deseje vencer a guerra. Mas não é o que se vê na Ásia Central, cenário de guerras perpétuas. Manter esse cenário naquela região traria algumas vantagens para o “complexo petróleo-militar” (expressão do economista James K. Galbraith), em relação a China e Rússia? [Sobre a expressão “complexo petróleo-militar”, ver GALBRAITH, James K., “Unbearable Costs of Empire”, orig. The American Prospect magazine, Nov. 2002, inThird World Travelor]. Pepe Escobar: Sim, mas o problema é que o “complexo” não conhece os atores com os quais está lidando. O ‘complexo’ não considera fatores culturais, esquece, por exemplo, que os turcomanos são muito independentes e sempre preferirão negociar com interlocutores que falem a língua deles – o russo. Se Medvedev vai a Ashgabat, para conversar com o presidente Berdimuhamedov, e fala russo, a probabilidade de que se fechem negócios é muito maior.
Quanto aos chineses, vão a Ashgabat e dizem: construiremos qualquer coisa que vocês queiram que seja construída; construímos, nós mesmos, os gasodutos e oleodutos. Façam-nos um bom preço pelo gás de vocês e amanhã nós construiremos esse gasoduto, do leste do Turcomenistão ao oeste da China. Foi exatamente o que já fizeram e, há dois anos, o gasoduto já foi inaugurado. Aplica-se também aos africanos: a China negocia sem pré-condições e sem qualquer interferência na política interna dos outros países.
Durante algum tempo, os norte-americanos tentaram essa via, como com o Uzbequistão e aquele presidente que cozinha o próprio povo, Islam Karimov. Estiveram em negociações bem íntimas, com o governo Bush, e os EUA tiveram uma base militar em Karimabad, cidade próxima da fronteira afegã, e que foi muito útil para os norte-americanos. Mas depois se puseram a criticar os direitos humanos no Uzbequistão. O que disseram os uzbeques? Adeus base militar! Os uzbeques são parte do óleo-gasoduto que vai do Turcomenistão à China, via Uzbequistão. Os EUA mudaram um pouco de tática, mas, no fim, perderam a disputa.
Até que, afinal, os EUA começaram a perceber que perderam terreno para a Rússia e para a China, para ambos os países, na Ásia Central. Então trataram de se reposicionar no Golfo Persa, no norte da África e também dentro da África. A Líbia terá grande serventia para novas explorações de gás e petróleo. Os líbios dizem que manterão os contratos vigentes com os italianos – há um oleoduto do norte da Líbia até a Sicília, e há o óleo exportado para a Itália. Mas os novos contratos irão todos para a empresa Total, para a British Petroleum (BP) e para os norte-americanos, não para russos e chineses.
A Líbia foi, é e continuará a ser muito lucrativa para as majors ocidentais, as empresas ocidentais gigantes da energia. Na Ásia Central, a única esperança das majors é o Azerbaijão, porque as majors mais ou menos controlam os negócios de energia no Azerbaijão e, como já disse, as elites do Azerbaijão operam, basicamente, como satrapias de Washington. O problema é que as majors não controlam o Turcomenistão.
Estão pressionando o Turcomenistão, para construir o oleogasoduto Nabucco. Mas Nabucco custará uma fortuna, cerca de 20 bilhões de euros, e ninguém sabe de onde virá esse dinheiro, sobretudo agora, com a crise europeia.
Os turcomanos dizem que podem fornecer gás suficiente, mas ninguém sabe se eles têm de fato todo esse gás, porque estão fornecendo gás ao Irã, vendem muito gás para a China e continuam a vender gás pelo velho gasoduto soviético. Nabucco precisará de muito gás, e ninguém sabe se o Turcomenistão terá tanto gás. E os turcomanos dizem: vocês têm de provar que já reuniram os financiamentos necessários para o gasoduto, que pode ser construído nos próximos três ou quatro anos; enquanto não mostrarem o dinheiro, não podemos comprometer, nesse gasoduto, as nossas reservas de gás.
Isso significa que, se o Turcomenistão não tiver gás suficiente, os europeus terão de buscar o gás noutro lugar, e não poderá ser no Azerbaijão, a menos que gastem mais de 22 bilhões de dólares em novos investimentos.
Enquanto todos estão emperrados em negociações difíceis, os russos já construíram dois oleogasodutos: o North Stream e o South Stream. Putin está vencendo a guerra contra o projeto Nabucco, porque começou antes e negociou antes com os governos de Gerhard Schröder na Alemanha, para a construção do North Stream; e com o governo de Silvio Berlusconi na Itália, para a construção do South Stream. Esses dois oleogasodutos, um no norte e outro no sul, estão derrotando o projeto Nabucco, para o qual o dinheiro ainda não apareceu; não se sabe de onde poderá vir; não se sabe se o projeto encontrará todo o gás de que precisa para ser comercialmente rentável; e não se sabe onde encontrarão esse gás, se não for nem no Turcomenistão nem no Azerbaijão. A Turquia também quer para ela boa parte do gás, além dos impostos que poderá arrecadar pelo trânsito do gás por território turco. A confusão é completa, por ali.
Continuo a ler os pronunciamentos oficiais sobre Nabucco (o consórcio tem sede em Viena). A cada um, dois meses, aparece novo comunicado: que vai começar, que já têm os 20 bilhões de euros, que estará construído em 2017, a construção começará no próximo ano, mas é o mesmo que dizem há cinco anos, se não me engano com as datas.
Outro problema central é o tráfico de ópio/heroína no Afeganistão. O que você tem observado, o que pensa desse problema? Quem são os principais players desse comércio? Você também entende que todo esse caso é uma vergonha para o ocidente?
Pepe Escobar: Ah, sim. Um dos principais players nesse comércio sempre foi Ahmed Ali Karzai, irmão do presidente Hamid Karzai do Afeganistão. Encontrei-o depois do 11/9 em Quetta – ele sempre viveu em Quetta, sua base perfeita. Quetta é cidade fascinante. Costumo dizer que é a capital do contrabando e do tráfico de drogas de todo o oriente – e não é dizer pouco, porque Quetta compete com Hong Kong; de fato, compete com todos, com os russos, com a máfia ucraniana.
Em Quetta há uma máfia de transportes, uma máfia de heroína e, a partir de Quetta todas aquelas redes começam a diversificar-se. Uma rede atravessa o norte do Paquistão e chega ao Tadjiquistão; outra rede bifurca-se no Tadjiquistão e avança na direção da Ásia Central e, dali, avança até a Turquia.
E há as redes do ópio paquistanesas/afegãs e outra rede no Tadjiquistão que só cuida do refino. Todos, na região, sabem que essa é a rede da CIA. O que ainda não se conhece precisamente é o traçado, a trajetória, dessa rede. O mais provável é que parta do Afeganistão pelo Uzbequistão para chegar à Turquia, ou, talvez parta do Uzbequistão. Naquela parte do mundo, cada grupo tem sua rede de tráfico.
Que eu saiba, as máfias chinesas não têm rede no Afeganistão, mas, provavelmente, logo terão. Mas esse já é um problema terrível para os russos. Se se pergunta a funcionários russos qual o principal problema em relação ao Afeganistão, todos dizem a mesma coisa: a droga está em guerra contra nós; a origem dessa guerra é o ópio afegão. O número de russos mortos por causas associadas à heroína já é maior que as baixas que os russos sofreram na guerra do Afeganistão, nos anos 1980s.
Pepe Escobar: Você tem toda a razão. Os russos falam muito sobre isso na Organização de Cooperação de Xangai. Não se trata só de manter as bases norte-americanas fora daquela área – como os chineses também desejam manter. Os russos precisam também encontrar um modo de desmontar essas máfias do ópio, de drogas. É grave problema para a Rússia – como, aliás, também é grave problema para o Irã.
Para o Irã, por causa dos refugiados afegãos. Os refugiados afegãos moveram-se para o leste do Irã, basicamente. Se você vai a Mashhad, no leste do Irã, e visita os subúrbios de Mashhad... Ali é o centro do ópio; é o centro do contrabando do ópio. Atravessam o Afeganistão, via Herat, de Herat a Mashhad, hoje as estradas são excelentes, uma viagem de no máximo sete horas; e de Mashhad distribuem o ópio por todo o Irã. O problema das drogas também é grave no Irã. O Irã já é membro observador da Organização de Cooperação de Xangai e uma das principais razões pelas quais o Irã interessou-se pela OCX é tentar criar um mecanismo regional capaz de combater eficazmente o tráfico de drogas, uma real guerra ao tráfico naquela região. Aqueles países estão sofrendo terrivelmente.
Sendo assim, a heroína já está sendo processada no Afeganistão, não apenas plantada e colhida ali. Uma pergunta que sempre faço a mim mesmo: e quem fornece os materiais químicos necessários ao refino e processamento? Que eu saiba, não há fábricas de anidrido acético no Afeganistão, há?
Pepe Escobar: Honestamente, não sei. Mas acho que, sim, pode haver, provavelmente há, ajuda externa envolvida nessa produção. É verdade. No Afeganistão o refino é simplesmente impossível. As refinarias costumavam ser instaladas no Tadjiquistão ou no Paquistão, em Quetta, por exemplo, ou em Dushanbe no Tadjiquistão. O povo do vale do Panjshir tem contato com o tráfico, tudo está concentrado em Dushanbe, 40 minutos ao norte do Afeganistão, por helicóptero (e eles têm seus próprios helicópteros). Portanto, sim, eu diria que recebem ajuda externa. E, claro, a especulação sempre aparece: o ocidente estará ali, ajudando o tráfico? 
Não é acaso, que tantos especulem na mesma direção: onde há recursos energéticos e/ou tráfico de drogas ilícitas (p.ex. América do Sul, Ásia Central, Sudeste Asiático), os militares e a inteligência dos EUA nunca estão longe...
Pepe Escobar: É, estão, sim, por toda a parte. Embora, hoje, já não possam andar como antes pela América do Sul, em função do que acontece por lá, digamos, desde 2002. 
Foi um terremoto geopolítico, de fato: os sul-americanos, pela primeira vez na história do continente (depois da eleição, primeiro do presidente Chávez na Venezuela, e depois do presidente Lula no Brasil em 2002, depois no Equador e até no Uruguai e até com a eleição de Kirschner na Argentina), afinal decidiram. “OK. Agora, vamos agir juntos, agora que tantos governos eleitos por aqui são de centro-esquerda ou são, pelo menos nominalmente, governos progressistas.
Vamos pôr “ordem na casa”, disseram os sul-americanos; “vamos nos organizar através da UNASUL, por exemplo, a União dos Países Sul-Americanos; e do MERCOSUL, que é uma união de trocas e comércio regional. E vamos tentar resistir diretamente à interferência dos norte-americanos”. E isso, precisamente, é o que hoje se vê. Lembre que, em 2002, o presidente Chávez da Venezuela escapou de um golpe, organizado diretamente de Washington (e há muitas provas disso, até na Internet. Eva Golinger, advogada venezuelana-norte-americana, escreveu livros excelentes sobre aquele golpe). Em 2007, os EUA tentaram desestabilizar a Bolívia; e houve mais um golpe fracassado no Equador, há pouco mais de um ano.
Quero dizer: não está acontecendo como acontecia antes na América do Sul, porque agora, ali, há unidade política, econômica e geopolítica.
Mas que ninguém duvide: se o Pentágono encontrar uma abertura pela qual possa outra vez tentar intervir diretamente na Venezuela, eles tentarão de novo. O problema é que, agora, há especialistas russos na Venezuela, há empresários e especialistas chineses, e iranianos com interesses locais, na Venezuela. A Venezuela deixou de ser país que só negociava na América do Sul, embora, sim, tenham muitos negócios com Brasil, Argentina etc. Mas hoje a Venezuela vende também ao outro lado do mundo; e negocia diretamente com os dois principais concorrentes estratégicos dos EUA, além de o presidente Chávez ser amigo muito ativo da nêmesis dos EUA, o Irã. São mudanças muito significativas, que explicam muita coisa.
Desde 2002, a América do Sul está transformada em problema gigante para o Pentágono. Não surpreende que aqueles doidos que disputam a indicação a candidato dos Republicanos, tenham dito, no último debate televisionado, que o Hamás e o Hezbollah estão infiltrados por todos os cantos na América do Sul; que os EUA têm de precaver-se contra a América do Sul, porque os EUA já esqueceram que há muitos comunistas e terroristas na América do Sul. Mas o quadro mudou muito na América Latina, e não há nada de novo no que os EUA dizem.
Lars Schall: Mas você diria que é coincidência, essa conexão histórica entre recursos energéticos e drogas ilícitas? Por exemplo, na guerra do Vietnã.
Pepe Escobar: É verdade, com a Air America. A Air America não estava só defendendo civis no Laos e no Vietnã. Basicamente, foi uma operação de contrabando de heroína, que a CIA dirigia. – Mas a coisa não é necessariamente assim. 
Eu lembraria o caso da Colômbia, que foi completamente diferente. A Colômbia foi um caso de cartéis locais, que lutavam entre eles, pelo monopólio de exportar cocaína para os EUA. Nesse caso, eu diria que havia poucos interesses norte-americanos envolvidos nisso – vender equipamento e armas, sim, mas os norte-americanos não estavam à frente da batalha contra os cartéis. E quando os cartéis se fragmentaram, espalharam-se por todos os cantos. Agora, nos últimos três ou quatro anos, são peruanos que controlam a distribuição de cocaína na América do Sul, já não são os colombianos.
Deslocalizaram-se, por exemplo, também para o Brasil, como centro de refino e de exportação. Eu diria que, semana a semana, aumenta a apreensão de cocaína no Aeroporto Internacional de São Paulo, por exemplo. Se você multiplica isso pelo que realmente entra por ali, é incrível. Hoje, o aeroporto de São Paulo é um dos principais portos de embarque de cocaína para a América do Norte e para a Europa. Antes, foi a heroína que vinha da Ásia Central via Europa, e que desembarcava também no Brasil.
Engraçado: houve um tempo, nos anos 1980s, lembro bem, que havia uma conexão italiana: as pessoas traziam heroína de Milão para São Paulo, e levavam cocaína de São Paulo para Milão (risos). Isso há quase trinta anos.
O caso da Colômbia é muito diferente. Não há relação direta entre drogas e energia. E o mesmo acontece na Venezuela: ali, o único jogo em andamento tem a ver com energia: é uma batalha por energia. Hugo Chávez – e pense-se o que se pensar sobre ele – tem agido com muita inteligência, porque [pensou ele]... OK. Minha saída é negociar com outros players. E a Venezuela fez logo negócio gigante com a China. Hoje, é um dos maiores fornecedores de petróleo para a China.
Em breve estarão vendendo 1 milhão de barris de petróleo por dia, à China. E podem aumentar para dois milhões, facilmente, se os chineses investirem na região do Orenoco, explorando novos campos, o que os chineses farão. Não é prioridade agora, porque, no momento, os chineses estão concentrados na Sibéria, Ásia Central e África. Mas os chineses ainda têm esse plano C ou D para eles: a Venezuela.
E contam com o Brasil, como exportador de petróleo?
Pepe Escobar: Sim, com toda a certeza, por causa dos depósitos do pré-sal, no Brasil, que são uma espécie de “benção” complexa, de fato. A Petrobrás é vista em todo o mundo como das mais competentes empresas estatais de petróleo. O problema é que a Petrobrás tem de desenvolver tecnologia específica para perfurar a camada de sal, para extrair o petróleo. É operação extremamente complexa e extremamente cara. Dizem que a extração começará em 2017, mas duvido.
O último número que vi, em termos do investimento necessário, faz alguns meses, era algo como 220 a 240 bilhões de dólares de investimentos ao longo de poucos anos, para começar a extrair o petróleo do pré-sal. Todos querem participar. A Chevron já está lá, a Exxon Mobil, a Gazprom quer vir e, claro, os chineses. E tenho certeza de que, quando os brasileiros começarem a lançar projetos, os chineses estarão na primeira fila, com todas as suas empresas, CNPC, CNOOC, todas elas.
Mas é projeto de longo prazo para os chineses, é claro, porque, se se analisa a coisa com realismo, não haverá petróleo do pré-sal antes de 2019/2020. Os chineses estão pensando à frente.
Ouvimos falar muito dos BRICS. Você entende que seja só um bom nome, inventado por Goldman Sachs, ou há mais sob esse nome, uma estratégia abrangente, alguma coisa desse tipo?
Pepe Escobar: Ainda não há uma estratégia abrangente. Foi só um bom nome, em 2001/2002. Agora já é mais que isso, porque eles se reúnem com regularidade, não só no encontro oficial anual, mas os ministros de Relações Exteriores trabalham juntos, os vice-ministros encontram-se, como encontraram-se recentemente em São Petersburgo. Todos têm interesses semelhantes. Para Rússia e China, trata-se de manter os EUA longe de seus quintais, quer dizer, basicamente, longe da Ásia Central e das ex-repúblicas soviéticas.
Ao Brasil, o que interessa é manter os norte-americanos fora da América do Sul, o mais que seja humanamente possível, considerando que Brasil e EUA mantêm relações muito, muito próximas, e os EUA ainda vêem o Brasil como aliado-chave na América Latina. O jogo das relações exteriores entre Brasil e EUA é extremamente complicado.
À Índia, o que interessa é manter-se no mesmo grupo das demais nações emergentes, sem antagonizar demais os EUA. A Índia também tem de jogar um jogo difícil.
A África do Sul só foi incluída, basicamente, porque os demais precisavam dar um salto continental, queriam estar representados em três continentes. Do ponto de vista dos BRICS, eu diria – e, de fato, já discutiram isso em Brasília, no ano passado – que o quinto BRIC seria a Turquia, seria o grupo BRICT. Mas, no último momento, incluíram a África do Sul. Entenderam que precisavam acrescentar ao grupo a maior economia da África, e porque Brasil, África do Sul e Índia já comerciavam entre eles, muito mais, nos últimos quatro anos, que nos 400 anos anteriores. Brasil e África do Sul estão-se integrando muito bem. E a África do Sul é a ponte entre o Brasil e a Índia. Encaixava-se bem aos outros três players.
Mas acho que, em breve, os BRICS talvez incluam – digo “talvez”, porque começaram a discutir, mas ainda não sabem como fazer, em termos formais – a Turquia, a Indonésia e a Coreia do Sul. Que são candidatos naturais, não há dúvidas. Dois na Ásia e um no Oriente Médio, na intersecção entre Europa e Ásia.
Começaram a conversar sobre maior integração em termos das suas economias, trocas culturais, todo esse blá-blá-blá. Agora, estão pensando: OK. Temos de dar um soco no mesa, mesmo que, no começo, seja um soco soft. Já agiram juntos no caso da Líbia, quando se abstiveram de votar a Resolução UN 1.973 – o que já foi um grande passo. Foram condenados por isso, mas sem alarido, por europeus e pelos EUA. Mas raciocinaram que aquela não podia ser uma linha vermelha; no máximo uma suave linha amarela. Nenhum deles pode antagonizar muito os EUA.
Depois, veio a mais recente proposta para que o Conselho de Segurança da ONU votasse o caso da Síria. Os BRICS imediatamente perceberam que “não, não, isso não pode ser: aí está a linha vermelha”. E isso, por várias razões. Porque Rússia e China têm muitos bons negócios com a Síria. Brasil e Síria são muito próximos. Milhões de sírios vivem no Brasil, além de sírio-libaneses. No Brasil se diz sírio-libaneses. São quase indistinguíveis para muitos brasileiros, porque começaram a chegar nos anos 1920s, 1930s e também depois da II Guerra Mundial. Todos vivem perfeitamente integrados na sociedade brasileira, e há muitos negócios entre Brasil e Síria. Essas razões são algumas das que explicam também porque todos aqueles países têm posição comum.
Quanto à África do Sul, é evidente. Na primeira votação, da Resolução da ONU, foram pressionados por Obama. Obama telefonou ao presidente Zuma, falaram por duas horas, e Obama disse: você tem de votar conosco, ou vão ter problemas. Zuma votou contra vontade. Adiante, participou da delegação da União Africana para tentar negociar a paz entre Gaddafi e os “rebeldes”. Gaddafi aceitou tudo; os “rebeldes” disseram não. Por quê? Porque a OTAN mandou que dissessem não. Quer dizer, a África do Sul também tinha seus motivos. 
A Síria é a linha vermelha. Por isso estão agora começando a organizar a abordagem conjunta, do grupo, em relação ao ocidente atlanticista, de modo muito mais bem coordenado. E em termos econômicos, estão pressionando o Fundo Monetário Internacional, para que dê mais peso aos votos do Brasil e da China.
O FMI tem três nomes na posição de diretores regionais com direito a voto, e China e Brasil dizem, há anos, que precisam de mais diretores, para que seus votos pesem mais. Tudo isso está em discussão. Lembre que o ministro das finanças (Fazenda) do Brasil disse “e se, talvez, encontrássemos um meio para ajudar as economias europeias?” Foi como dizer: “O problema é do FMI. Nós queremos participar, queremos ter mais votos, mais peso nas votações. Depois, decidiremos se vamos ajudar ou não. Mas terá de ser feito pelo mecanismo do FMI”.
Não há dúvidas de que, sim, estão agindo de modo muito mais coordenado do que há, digamos, dois anos. Não demorará, e os BRICS serão BRICTS, BRICTIISS, BRICS expandidos. Mas hoje o grupo está configurado como um contrapoder, em termos geopolíticos, em termos de atrair o mundo em desenvolvimento; porque os BRICS exercem enorme fascínio sobre o Movimento dos Não Alinhados [orig. Non-Aligned Movement, NAM], por exemplo; e sobre outros países latino-americanos, vários países do Oriente Médio, vários países do Sudeste Asiático, um fascínio imenso... E contra uma “liga” atlanticista, EUA-OTAN (é praticamente uma coisa só, porque os EUA controlam a OTAN).
A OTAN aliou-se às monarquias do Golfo Persa, ultrarreacionárias e ultrarrepressivas. O realinhamento do tabuleiro de xadrez é algo hoje muito suspeito, porque hoje esses países, especialmente o Qatar e os Emirados Árabes Unidos são subseitas da OTAN. Escrevi recentemente que começava a considerar a possibilidade de falar sempre de OTANCCG ou CCGOTAN. CCG é o Conselho de Cooperação do Golfo, que costumo chamar de Clube Contrarrevolucionário do Golfo, porque é o que o que é. [23/11/2011, Pepe Escobar, “A pedregosa estrada de Damasco” (Asia Times Online), em português].  

De fato, a fusão entre OTAN e CCG já é total, hoje. Se se inclui a fusão entre o complexo industrial-militar ocidental nos EUA, e o sistema de defesa dos sauditas, que também já é fusão total, pode-se dizer que o Pentágono e o CCG já são uma e a mesma coisa.
Os BRICS veem tudo isso. E para alguns daqueles países é extremamente complicado. Para a China, por exemplo, porque seu principal fornecedor de petróleo é a Arábia Saudita. Atualmente, a Arábia Saudita está ultrapassando Angola. A Venezuela já está entre os cinco maiores. A Líbia não estava entre esses cinco maiores fornecedores, motivo pelo qual disseram ‘OK, agora, não. Quem sabe, adiante.’ Mas como eles organizam o relacionamento entre Pequim e Riad? Os chineses veem que Riad está completamente alinhada com a agenda do Pentágono. E, ao mesmo tempo, os chineses dependem do petróleo dos sauditas. Isso explica, dentre outros fatores, por que os chineses estão tão ansiosos para conseguir depender cada vez menos no petróleo do Oriente Médio.
Tudo isso implica mais negócios com o Irã. Meu palpite, mais ou menos bem informado, é que, em breve, os chineses irão a Teerã e perguntarão: ‘De quanto dinheiro vocês precisam para ampliar muito suas instalações de gás e petróleo? Nós pagamos, desde que vocês negociem conosco.’
Isso explica o oleogasoduto do Turcomenistão à China; isso explica os dois oleogasodutos da Sibéria à China; e isso explica a China estar em Angola e também na África Central; e isso explicará que a China chegue ao Brasil e diga: De quanto dinheiro vocês precisam? A relação sauditas-China é muito complicada para Pequim, o que significa que, por hora, a China não pode antagonizar a Arábia Saudita em nenhum campo.
Ainda sobre os BRICS: você observou o fato de que os bancos centrais da Rússia, da China e da Índia, e também alguns bancos centrais da América do Sul, estão comprando muito ouro?
Pepe Escobar: Sim, claro! Estão agora comprando ouro, e ainda têm o Plano B, que é uma cesta de moedas, em termos de um sistema internacional de moedas. Os russos e chineses querem, os brasileiros querem, e a cesta incluirá provavelmente o dólar, o euro, o yuan, talvez o rublo e também o real, talvez o yen, mas os japoneses não entraram, até agora, na conversa. Por enquanto, se trata, é claro, de comprar ouro, inclusive os que não estão no jogo, mas estão conectados a ele, como a Venezuela. Não esqueça que a Venezuela está repatriando todo o ouro que o país tinha depositado em bancos europeus. Uma primeira remessa de ouro repatriado já está em Caracas.
Você acredita que possa vir a haver algum tipo de conexão, entre a cotação do petróleo e do ouro, no futuro próximo?
Pepe Escobar: Sinceramente, não sei. E sabe por quê? Eu diria que essa conexão dependerá de um movimento ligado a abandonar o petrodólar. É movimento que já começou há alguns anos. O Irã quer muito fazer, hoje como antes. A Rússia já disse que quer. A Venezuela já disse, na América do Sul, sim, nós também queremos. Mas acho que é solução “bomba atômica”. Pergunto: você consegue imaginar o dia em que os grandes produtores de petróleo dentro da OPEP digam: “Chega de petrodólar. A partir de agora negociaremos com nossas próprias moedas ou com as moedas de uma cesta de moedas”?. Basicamente, é o fim da hegemonia dos EUA.
O país que tentar, estará frito.
Pepe Escobar: É. O mundo todo estará frito. Vejo essa opção como opção ‘bomba atômica’. Há poucos anos, quando o Irã estava implantando uma Bolsa de Energia, de fato, a ideia já estava presente lá, desde 2008 [18/2/2008 “Oil Bourse Opens in Kish”, Fars News Agency, em inglês].   Lembro que, em 2005, entrevistei o sujeito encarregado de organizar e implantar essa Bolsa de Energia em Teerã. Foi uma entrevista fantástica. E, logo depois, tive uma briga terrível com o então editor de Asia Times, porque ele disse “Se publicarmos isso, amanhã os EUA bombardeiam nosso website.
Os iranianos disseram: é nosso primeiro passo, para que as pessoas comecem a comprar contratos de petróleo aqui, na nossa Bolsa, não em New York ou em Londres. E eu disse a ele: E vocês sabem o que estão fazendo, se a coisa evoluir? Dia seguinte os EUA bombardeiam Teerã. E ele me disse: “Sabemos dos riscos. O homem que está construindo esse mecanismo para nós é um ex-corretor que operava em Londres.” Foi negócio extremamente complicado, essa é a verdade.
Depois da minha entrevista, ainda se passaram três anos. Como você disse, a Bolsa só foi implantada em 2008. É uma Bolsa muito pequena, mas, do ponto de vista dos iranianos, é só um começo. Eles gostam dessa Bolsa. Começaram só com petroquímicos e querem, no futuro, negociar petróleo e gás. Estavam especialmente interessados em atrair compradores do mundo em desenvolvimento, além de Rússia e China, que poderão comprar produtos da energia iraniana diretamente do Irã. Tenho certeza de que Rússia e China também adoraram a ideia. Mas, no momento, é só um embrião de algo muito maior, que virá depois.
Você usa as expressões “Oleodutostão  do Grande Oriente Médio” e “Grande Jogo 2.0” na Ásia Central. É útil conhecer o bom velho Halford Mackinder (geógrafo britânico, chamado de “o pai da geopolítica”), para pensar o “Oleodutostão”?
Pepe Escobar: Não. Quem conhece bem Mackinder é a turma de Brzeziński e o pessoal das agências de segurança nacional em Washington. Só eles acham que podem “aplicar” Mackinder e vencer (risos). Os russos e os chineses diriam: “Não na nossa região, caríssimos. Aqui, a coisa é diferente. Nós temos os recursos. A Rússia é potência continental. A China, sozinha, é um reino e uma civilização. Aqui não admitimos interferência externa, vocês nunca controlarão nossa parte da Eurásia. Podem controlar a parte “euro” da Eurásia, mas ela acaba no Bósforo. À direita do Bósforo, a Turquia tem ambições regionais, o Irã tem ambições regionais, nós temos nossas ex-repúblicas soviéticas, que ainda vemos como nossos satélites.”
O sudeste da Ásia está hoje ligado à China, em termos de comércio, negócios. Eu diria até que partes do sudeste da Ásia já se estão convertendo em subseitas da China.
Lembre que, durante o Milagre Asiático, quando o Banco Mundial lançou aquele famoso livro, em 1993, O Milagre Asiático, o Japão estava à frente, com os quatro tigres asiáticos atrás, depois os subtigres, e a China estava muito atrás, na fila. Hoje, em 2011, a coisa inverteu-se completamente: a China vem à frente, imensíssima, e atrás da China vêm os ‘sub’, tentando manter o passo e obter negócios. A diáspora chinesa é essencial em todos aqueles países.
Eles controlam a maior parte da economia na Indonésia, controlam quase toda a economia na Tailândia, casamentos mistos, tai-chineses, controlam quase toda a economia nas Filipinas, controlam grande parte da economia na Malásia, controlam toda a economia em Cingapura. Tigres? Não. Minigansos. A coisa está completamente invertida.
Por tudo isso, não vejo como se possa “aplicar” Mackinder. Pensaram nisso, no governo Bush, tomado de húbris, e porque diziam, lembra-se, diziam isso dia sim, dia também: “Nós criamos nossa própria realidade e vocês, resto do mundo, que nos acompanhem.” Supuseram que conseguiriam implementar sua estratégia de grande jogo na Ásia Central, construindo aquele oleogasoduto no Afeganistão, o TAPI – Turcomenistão, Afeganistão, Paquistão, Índia, contornando o Irã, a Rússia e a China.
Supuseram que pudessem forçar os turcomanos a vender gás a empresas ocidentais, não à China, ou a ligarem-se à rede russa de oleogasodutos. Estavam ainda embriagados pelo sucesso que obtiveram com o oleogasoduto BTC (Baku-Tbilisi-Ceyhan) e diziam que seria o começo de vários dutos que contornariam o Irã.
Mas tudo isso foi no começo do governo Bush até 2003/2004, depois do “sucesso” da guerra do Iraque. Hoje, poucos anos depois, como já conversamos, os americanos já não conseguem ganhar coisa alguma. De fato, a Organização de Cooperação de Xangai, que é mecanismo para conter essa proliferação de iniciativas dos EUA na Ásia Central, fortalece-se dia a dia.
Em termos de negócios de energia, a Rússia, o Irã, a China, o Turcomenistão, todos estão negociando entre eles. Obviamente, há espaço com a Europa, mas eles não podem negociar com a Europa, no caso do Irã, por causa das sanções; e no caso do Turcomenistão, porque construir um oleogasoduto como Nabucco, de mais de 20 bilhões de dólares, é inexequível. Para dar-lhe uma ideia, o custo do BTC, 4,5 bilhões de dólares naquele tempo, e naquele tempo todos diziam: é ridículo construir um oleogasoduto como esse, quando podemos ter rota mais curta a partir do Irã, que custará dez vezes menos que aquilo. E constroem, mesmo assim. Hoje, já é 500% mais caro que o BTC.
Verdade é que os EUA não estão vencendo coisa alguma; no Afeganistão, estão atirando no próprio pé, porque agora já antagonizaram não só o Paquistão, o que fizeram ao bombardear o país, nos últimos anos, na guerra dos drones; já antagonizaram os próprios afegãos, que realmente queriam acertar alguma coisa com os americanos. Os líderes tribais já diziam “vamos conversar com os norte-americanos sobre o tipo de base que querem depois que se retirarem, em 2014”. Queriam discutir o assunto.
Hoje? Esqueça, porque o Paquistão não quer mais discutir, estão fartos; e o Paquistão e a China estão cada vez mais próximos, mais próximos. Os chineses vão explorar essa ravina entre Washington e Islamabad. No Afeganistão, a confusão será total. Eles não querem saber de bases norte-americanas, tenho certeza, depois de 2014. O Pentágono, assim, tem de impor as bases, contra o Afeganistão; não se conhece ainda o mapa do caminho, tampouco, para fazer isso. 
Assim sendo, se você analisa em termos de sucessos do novo grande jogo ao estilo dos EUA na Eurásia, já depois de quatro ou cinco anos, não se vê grande coisa (risos).
Se consideramos a questão: “Por que as guerras acontecem?”, você diria que o fato de os bancos estarem no topo da lista dos que se beneficiam com as guerras é parte importante da resposta, por exemplo, até agora?
 
Pepe Escobar: Concordo, mas só se houvesse grandes apropriações de guerra, se o butim fosse alto. No Iraque não foi. O butim a ganhar no Iraque seria o petróleo que pagaria a guerra e, mais que isso, garantiria fornecimento de petróleo para os EUA pelos próximos mil anos, o novo Reich Americano, baseado no petróleo do Iraque. Não funcionou.
O que aconteceu no Iraque foi uma fascinante lição histórica. No começo, os neoconservadores pensavam, obviamente, porque nada sabem, absolutamente nada, sobre o Oriente Médio, sequer viajam, não conhecem; mas pensaram: “Ora, vai-nos custar praticamente nada; faremos os iraquianos pagar por tudo; e depois, quando o petróleo começar a chegar, pagarão o que não tiverem pagado antes”. Lembre-se do que diziam: “Somos a nova OPEC”. Isso, no final de 2002, começo de 2003. Também não funcionou. 
Hoje, vemos uma variante, digamos, do modelo: guerras pagas por potências estrangeiras. A China está financiando as guerras no Iraque, no Afeganistão, parte da guerra na Líbia (não custou muito, mas, de qualquer modo, sim, a guerra na Líbia), a guerra na Somália, a guerra no Iêmen, a próxima guerra em Uganda ou no Sudão, que os EUA resolvam começar. Basicamente, todas essas guerras são financiadas pelos chineses, quando compram bônus do Tesouro americano. É uma variante do modelo.
Em artigo para a al-Jazeera [Why the US won't leave Afghanistan”, Al Jazeera, 12/7/2011, em inglês]  , você citou um estudo sobre o custo da Guerra ao Terror, publicado pelo projeto Eisenhower da Brown University. Lembra? 
Pepe Escobar: Sim, lembro.
E o custo era quatro bilhões?
Pepe Escobar: Era, dependendo das variáveis do cálculo, dependendo dos custos médicos para tratar nos EUA os veteranos feridos, que só aumenta, e aumenta sempre, porque eles ainda têm de pagar pensões a eles. O custo varia hoje entre quatro e seis trilhões de dólares. Quer dizer: o que os EUA ganharam desses de quatro a seis trilhões de dólares, até agora? Até agora, pode-se dizer, só ganharam a Líbia, que não é, exatamente, prioridade para os EUA.
Era parte do plano original dos neoconservadores – começaria com o Iraque, depois Líbano, Síria, especialmente o Irã. Mas, até aqui, só ganharam a Líbia.
Por isso, precisamente, a Síria é tão importante: porque a Síria é passagem para o Irã, e isso ainda é o mesmo que diziam os neoconservadores em 2002, e ainda é parte da doutrina da Dominação de Pleno Espectro. Volta-se sempre aos mesmos temas, porque esses são os temas básicos do que vemos hoje.
Lars Schall: Você acha que a guerra na Líbia deve ser incluída entre as Guerras por Recursos, não só por causa do petróleo e, talvez, também, por causa da moeda-ouro que Gaddafi queria lançar, mas também por causa do projeto Grande Rio Feito pelo Homem [orig. Great Man Made River]?
Pepe Escobar: Sim, sim, eu ia falar exatamente sobre isso. Já é Guerra pela Água. Já é. Há alguns meses, comecei a escrever uma longa matéria sobre as futuras guerras pela água. Mas vi que já não são “futuras guerras”: já estão aí, já são presentes. Se se examina bem, a guerra da Líbia foi a primeira grande guerra pela água. Haverá muitas outras no Oriente Médio, no sul da Turquia, Israel-Palestina. Mas a guerra da Líbia foi a primeira. E é terrível, por causa do Projeto Great Man Made River – mais de 20 bilhões de dólares, financiados integralmente pelo estado líbio de Gaddafi, com muita tecnologia canadense.
E nem um vintém do Fundo Monetário Internacional.
Pepe Escobar: Isso, sobretudo! Nem um vintém do FMI, nem um vintém daqueles esquemas do Banco Mundial, pelos quais você é condenado a pagar juros até morrer, vezes três. Gaddafi construiu o projeto com recursos líbios, importou toda a tecnologia de que precisou, e os dutos lá estão, enterrados no subsolo do deserto do sul, para levar a água, do subsolo do deserto, até as áreas habitadas no litoral da Líbia. É projeto e realização absolutamente fantásticos, porque há reservas gigantescas de água potável no subsolo do sul do deserto líbio, suficiente para mil anos, segundo estimativas. Mil anos de água potável. Imagine!
O projeto não está totalmente completo; mas acho que 80% já está pronto. As três gigantes da água no planeta são empresas francesas. Em minha opinião, aí estão 99% dos motivos pelos quais os franceses envolveram-se na guerra da Líbia: querem privatizar, só para eles, aqueles mil anos de água potável e, depois, revenderão a água. E lá estão Sarkozy e os interesses do complexo industrial-militar francês: queremos mais gás e mais petróleo para a Total. Eles reclamam há muito tempo. Sempre quiseram a parte do leão das exportações de energia da Líbia.
Há uma aliança entre o Qatar, o complexo industrial-militar na França e Sarkozy – que não passa de lacaio; e o Qatar queria sua parte nos negócios e no comércio no norte da África. E havia também os interesses da OTAN e do AFRICOM, que queriam fixar uma cabeça de praia. Havia ali muitos interesses! Gaddafi não teve qualquer chance de vencer, em disputa contra tantos interesses, o eixo do Pentágono, a OTAN, países europeus chaves, França e Inglaterra, as monarquias do Qatar, Emirados Árabes Unidos e a Casa de Saud... que também queriam derrubar Gaddafi, de fato, desde 2002, quando Gaddafi e o rei Abdullah desentenderam, antes da invasão do Iraque.
Gaddafi não teria meios para derrotar todas essas forças, todos esses poderosos interesses que se mobilizaram contra ele. Queriam renegociar contratos, queriam novos contratos de gás e petróleo, só para as empresas europeias e norte-americanas, talvez também algumas empresas turcas, e absolutamente nada para os países BRICS. Gaddafi foi entrevistado por jornalistas alemães dois ou três dias antes da resolução “humanitária” ser aprovada. E disse claramente: “Se vocês nos atacarem, todos os futuros contratos irão para os países BRICS”. Resultado? Três dias depois, a Líbia foi atacada. Resultado óbvio.
Você também citou, também muito importante: o dinar de ouro, de Gaddafi. Porque o dinar de ouro poderia vir a ser uma moeda africana, poderia financiar projetos de desenvolvimento na África Subsaariana. Gaddafi já estava trabalhando nisso, financiando muitos projetos em países subsaarianos. E já deixara para trás, completamente, o sistema de Bretton Woods. Do ponto de vista de Washington, do Banco Internacional de Compensações [Bank of International Settlements], essa gangue toda... Decidiram que nada daquilo era admissível. Gaddafi foi condenado ali. E não esqueçamos que Saddam também já estava vendendo petróleo em euros no Iraque, no final de 2002. Essa foi das principais causas da invasão do Iraque.
Você acha que os “rebeldes” de Benghazi acertaram, ao criar um banco central em harmonia com os bancos centrais ocidentais?
Pepe Escobar: Era o que queriam fazer. Aquele pessoal do Conselho Nacional de Transição, de fato um saco de gatos – oportunistas, ex-funcionários de Gaddafi, islamistas ligados à al-Qaeda da Cirenaica, exilados que viviam no estado de Virginia, nos EUA. Tenham a santa paciência! Aquilo lá é uma trágica, sangrenta piada. E, claro, desde o início houve uma conexão-Qatar: um dos conselheiros de Sheika Moza, esposa do Emir do Qatar, fazia a ligação entre o Qatar e o Conselho Nacional de Transição.
Por isso o Qatar conseguiu esse banco central independente em Benghazi. Claro que houve influência do Qatar, porque queriam pôr um pé no sistema financeiro no norte da África: estão expandindo seus negócios. O Qatar é um mini-império em rápida expansão. É muito, muito impressionante. Lembro de Doha, há dez anos, era outra coisa. Lembro muito bem. Costumava ir ao Iraque, via Qatar. Vi o Qatar crescer, ano após ano. Hoje, quando se chega em Doha, é como chegar a uma mini Hong Kong.
E estenderam seus tentáculos por todo mundo: na Europa, nos EUA, no Oriente Médio e, claro, também no norte da África, e comerciam pesado com a Ásia. Hoje, já lançam seus olhos para o Brasil. É muito impressionante. O avanço do Qatar no norte da África é muito impressionante. Já estão no norte da África e, em pouco tempo, como esperam, estarão em toda a África: “queremos comerciar com todos, temos ótimo sistema bancário, vendemos gás a quem queira comprar”. Mini império em formação.
O que se deve esperar, no próximo ano, em relação a Síria e Irã? São aliados, não são?
Pepe Escobar: São. E essa é a pergunta de multitrilhões de dólares. Tenho planos de ir ao Irã, logo que seja possível. O difícil é conseguir o visto de jornalista. Desde o Movimento Verde, em 2009, está muito difícil. Esse visto de jornalista é indispensável, porque, sem ele, não se consegue falar, por exemplo, com militares do Corpo dos Guardas Revolucionários Islâmicos, nem com gente do governo. Vou tentar novamente, porque quero muito conversar com comandantes dos Guardas Revolucionários, com gente da indústria do petróleo e, claro, quero falar também com iranianos médios, com “a rua”, como sempre fiz, porque gosto de fazer.
Ao norte de Teerã, você pensa que está na Califórnia. Ao sul de Teerã, você volta ao “núcleo duro” do Oriente Médio. Há dois universos, na mesma cidade e é espantosa a amplidão do espectro de opiniões que se recolhe, numa corrida de táxi de 40 minutos. Fala-se com gente que diz que esfolaria Rafsanjani no instante em que se encontrem; e gente que defende apaixonadamente os aiatolás mais duros; e gente que acredita que, sem o Movimento Verde, o mundo se acaba. Teerã é um universo.
Os ecos que recebo de amigos que vivem lá, e de iranianos que me mandam notícias e comentários são claros: as pessoas continuam consumindo, vivendo a vida normalmente, a inflação aumenta, os preços subiram muito, mas todos querem sair, tentar comprar seus iPads contrabandeados da China, querem o melhor carro europeu novo que consigam comprar, querem continuar a comer carne – o que é engraçado, porque a carne que importam do Brasil é mais barata, nos açougues em Teerã, que a carne iraniana, veja só!
Mas, ao mesmo tempo, eles sabem que alguma coisa está para acontecer. Pode acontecer de Israel atacar o país. Talvez o ataque venha de EUA-Israel. Há risco de as instalações nucleares serem atacadas. Mas muita gente teme que o ataque vise também a infra-estrutura civil. “Vejam o que aconteceu no Iraque”, dizem vários deles. No Iraque, atacaram instalações e prédios civis. É verdade. Vi lá, eu mesmo, que a infra-estrutura civil do país foi reduzida a ruínas.
As pessoas estão esperando o pior. Tentam manter a atitude, mas todos logo reconhecem que há uma disputa de poder dentro do regime, entre o grupo de Ahmadinejad e o grupo ultra linha-dura dos guardas revolucionários, que se opõem a Ahmadinejad, porque Ahmadinejad não se opõe a algum tipo de entendimento com o ocidente. O pessoal da Guarda Revolucionária quer o confronto.
É situação potencialmente muito perigosa. Por quê? Porque o Supremo Líder, o aiatolá Khameinei, apóia os Guardas Revolucionários, contra Ahmadinejad. O aiatolá quer que o Irã seja respeitado pelo que é – República Democrática Islâmica. Pode-se concluir que não se opõe ao confronto. É situação extremamente perigosa, porque qualquer incidente que haja por lá pode ser imediatamente usado como casus belli e resultar em ataque israelense-anglo-americano, digamos assim.
Os iranianos estão bem cientes desse risco, e preocupam-se com essa disputa dentro da cúpula do regime. Ao mesmo tempo, em 2012 haverá eleições parlamentares; e em 2013, eleição presidencial. Até o momento, pelo menos, o candidato favorito dos eleitores é Larijani, ex-negociador da questão nuclear, amigo íntimo e protegido de Khamenei. Tudo isso sugere que os linha-dura estão firmes no poder. Por incrível que pareça, Ahmadinejad, nesse momento, está mais ou menos marginalizado. Os linha-dura o veem como moderado, excessivamente conciliador, na relação com o ocidente.
Por tudo isso, a situação interna no Irã é muito preocupante. E eles sabem o que pode acontecer na Síria; sabem que a Síria é uma espécie de atalho, o caminho mais curto até o Irã. Mas, ao mesmo tempo, dizem, segundo a avaliação feita pela linha mais dura do regime, que a Síria não será atacada. O que dizem é que o ocidente não precisa do ‘atalho’ sírio: podem perfeitamente atacar diretamente o Irã. Por isso, preparam-se para enfrentar essa ameaça. Tudo, ali, é extremamente preocupante.
Você vê quadro semelhante também em Israel?
Pepe Escobar: Não sei. Tenho muitos amigos judeus na América do Sul, nos EUA, na Europa, que vão e vêm, visitam Israel muito frequentemente, e, quando voltam, dizem: as pessoas estão desorientadas, em Israel. Não sabem como lidar com a Primavera Árabe, o governo não sabe o que fazer com a Primavera Árabe, não sabem sequer o que fazer com a não-primavera na Síria. Parece que em Israel as pessoas temem que o que venha depois de Assad seja ainda pior do que o que se vê hoje. Por exemplo, um governo da Fraternidade Muçulmana na Síria. Israel está numa situação de não-não.
Preferem continuar a enfrentar o demônio conhecido, que é demônio hoje enfraquecido, o regime Assad. Há movimento da sociedade civil em Israel, considerável, contra a corrupção, a inflação, a carestia, e movimento também antiguerra e antigoverno.
Além disso, Israel está sendo governado por um grupo que é refém daquele terrível lobby de colonos fundamentalistas. São de extrema direita, imigrantes ucranianos à Lieberman, são horríveis. Há uma esquerda progressista em Israel, ouve-se falar deles, vez ou outra, pela imprensa, mas estão marginalizados. Mesmo dentro dos EUA: os judeus progressistas nos EUA também estão mais ou menos marginalizados, porque todos os discursos são controlados pelo AIPAC.
Se se ouve rádio, se se leem os jornais da mídia dominante, ou pela televisão, é um release do AIPAC depois do outro. Não se ouve uma voz de judeu progressista que diga “o que vocês estão fazendo é loucura. Temos de sentar e conversar sobre a Palestina, sobre as colinas do Golan, sobre o Irã.” Essa posição é absolutamente minoritária.
E a maioria é apoiada também pelos evangélicos e cristãos novos, nos EUA, que temem o Armaggedon.
Pepe Escobar: Exatamente. A maioria do establishment quer um Eretz Israel, uma Israel maior. E há os religiosos doidos, que dizem: “OK. Para apressar o Armaggedon, a melhor solução é declarar guerra a todos os vizinhos”.
Os doidos administram o hospício.
Pepe Escobar: É uma loucura. Eu diria que, digamos, desde o início da Primavera Árabe, o ano de 2011 foi o ano em que os doidos assumiram completamente a administração do hospício. E por isso, acho eu, 2012 será ano realmente terrível em todo aquele arco: norte da África, Oriente Médio e Ásia Central. Na Ásia Central, basicamente o Af-Pak, porque a situação ali, no Af-Pak tem tudo para degenerar completamente, muito depressa.
Qual sua avaliação do recente ataque ao Paquistão, pelas tropas da OTAN? [Ver “'Mistakes made': Pentagon 'regrets' slaughter of 24 Pakistani troops”, in Russia Today, 22/12/2011, em inglês].
 
Pepe Escobar:
Essa questão é extremamente complexa, porque acho que há algum motivo oculto, por trás daquele ataque, que ainda não sabemos qual seja. Talvez o ataque tenha sido provocado por algum paquistanês, talvez a própria OTAN tenha criado uma provocação, para ter melhor pretexto para aprofundar a campanha de demonização do Paquistão, tentar provocar um golpe militar, e conseguir pôr no poder, no Paquistão, a facção dos generais pró-EUA. A situação ali ainda está muito nebulosa.
Seja como for, há pelo menos um detalhe, por trás daquele ataque, que não faz sentido algum: a OTAN conhece perfeitamente a localização de todos os pontos de passagem que os paquistaneses controlam nas áreas tribais. A OTAN tem todos os mapas, todas as coordenadas. É absolutamente inverossímil que bombardeiem um posto paquistanês de fronteira, porque sabem exatamente onde está cada posto. A situação ali é completamente diferente de bombardearem, por erro, um casamento pashtun, numa casa de tijolos de barro, que não está perfeitamente mapeada. Nessas circunstâncias, o satélite vê uma casa, e a inteligência diz “casa cheia de al-Qaedas”, e o drone, bum!, põe abaixo a casa. No ataque da OTAN ao posto paquistanês, a situação foi completamente diferente. Nossos contatos e jornalistas na Índia e no Paquistão absolutamente não estão convencidos da veracidade da versão oficial. Mas não há ainda como afirmar que é falsa. Essa história terá de ser mais bem contada.
Mas é problema, porque Paquistão e China já mantêm relações as mais amistosas.
Pepe Escobar: Sim, e qualquer coisa que aconteça no Paquistão, daqui em diante, empurra Islamabad cada vez para mais perto de Pequim, o que é absolutamente inevitável. A opinião pública paquistanesa está absolutamente farta da interferência dos EUA. Estão fartos daquela incansável guerra dos drones  e de agressões à soberania do Paquistão, se é que, algum dia, o Paquistão foi estado soberano.
Os chineses, claro, reagem à moda chinesa: mantiveram-se calados, não se moveram, à espera de que o comando político de Islamabad corra até Pequim e peça ajuda. Talvez nem demore muito, se os EUA continuarem a agir como têm agido até aqui. Washington só faz reafirmar, todos os dias, que ‘se fodam’ os civis paquistaneses  – e perdoe-me a expressão. Washington só sabe pensar na “Guerra ao Terror”, para exterminar a al-Qaeda.
Hoje dizem abertamente e on the record, que, morto bin Laden, a al-Qaeda foi desmantelada – se era bin Laden ou não, é questão ainda aberta a especulações, mas, para Washington, mataram a al-Qaeda. Assim sendo... O que estão fazendo, ainda, no Af-Pak? Ah, mas há um problema, o Paquistão é muito instável, é hoje o coração do movimento terrorista no mundo, não é mais o Afeganistão... E se as armas atômicas do Paquistão caírem em mãos de terroristas?
Só isso interessa. Farão de tudo para encontrar um pretexto para intervir no Paquistão e pôr as mãos no arsenal nuclear do Paquistão. É objetivo ainda distante, é claro, mas é o que o Pentágono quer poder fazer. Essa é a agenda do Pentágono.
No Paquistão, toda a elite política é corrupta – exceto, eu diria, Imran Khan. Imran Khan não é corrupto, e tem reunido centenas de milhares de pessoas, cada vez que fala publicamente, no Paquistão, porque começa a ser visto como alternativa. O que ele diz? “Vamos nos livrar dos norte-americanos, vamos nos livrar dessa elite corrupta, que os militares voltem aos quartéis, queremos autêntico governo civil, queremos desenvolvimento, para combater a desigualdade social”. É cada dia mais popular, por isso. E, sim, pode vencer as próximas eleições. Mas, basicamente, a sociedade civil paquistanesa está farta de tudo, do atual estado de coisas. 
Para os norte-americanos, é péssima notícia, porque tudo o que desejam é manter o controle sobre os militares, que continuem a fazer o que o Pentágono os mande fazer. E que deixem os norte-americanos continuar a fazer a tal “Guerra ao Terror”, como bem entendam, nas bases norte-americanas em território do Paquistão, como na base Samsi, no Baloquistão, e tocar como bem entendam a sua guerra de drones nos Waziristões.
Minha opinião é que isso tudo acabou. As coisas ali nunca mais serão como antes. Os chineses estão só esperando. Acho que o Paquistão será admitido como membro da Organização de Cooperação de Xangai, pode acontecer no próximo ano. Com isso, o Paquistão já estará incluído num mecanismo que implica cooperação militar com a China.
O problema é que os militares paquistaneses não são organização monolítica, há camadas, gente indicada por Musharraf, vários pashtuns no oficialato de nível médio que são simpáticos ao Talibã no Paquistão e, alguns, simpáticos à al-Qaeda; e há fissuras em toda essa construção. Acho que, hoje, o relacionamento entre os militares paquistaneses e o Pentágono complica-se cada vez mais, dia a dia, sobretudo depois do último ataque da OTAN. Afinal, dessa vez, a OTAN atacou o próprio exército paquistanês – atacaram um posto militar. Até para os mais fiéis aliados do Pentágono, já foi um pouco demais.
O antiamericanismo está crescendo em todo o mundo.
Pepe Escobar: Só não cresce no Golfo Persa (risos). 
Não lhe parece trágico, se se pensa na cordialidade do povo, dos norte-americanos comuns?
Pepe Escobar: É verdade. Viajo desde menino, vai e volta, aos EUA. Conheço bem, no mínimo, 40 estados. Já morei nas duas costas, tenho muitos amigos nos EUA, muita gente que lê meus artigos e sabe que sou brasileiro. Mas também tenho muitos leitores que me acusam de ser Talibã-comunista-apocalíptico-antiamericano blá-blá-blá – o discurso completo. Continuam sem entender. 
Uma coisa é gostar do país, da cultura norte-americana pop, dos mestres norte-americanos do entertainment, dos gênios norte-americanos na música, na literatura, no cinema, na arquitetura, na arte etc. E outra coisa é ver e criticar a política exterior dos EUA. Quem, como eu, foi criado no Brasil e na Europa durante os anos 1960-70s, não esquece que a ditadura militar que se instalou no Brasil em 1964 (eu tinha dez anos), foi golpe construído pelos EUA.
É verdade.
Pepe Escobar: Aqui na América do Sul, aprendemos sem que ninguém precisasse ensinar o que significa viver sob uma ditadura militar patrocinada pelos EUA. Quando falamos, sabemos do que falamos. Evidentemente, os povos do Oriente Médio também sabem do que falam. Na Ásia, alguns também sabem do que falam, os sul-coreanos, por exemplo, também viveram sob regime militar apoiado pelos EUA, antes de alcançarem a democracia.
É trágico, também, que, mesmo depois da Primavera Árabe, tanta gente no Golfo Persa ainda não consiga ver que, ali, vivem sobre regimes extremamente autoritários, autocráticos, que vivem como vassalos, satrapias do império norte-americano, que não vejam que, de fato, não contam com os próprios governos, de fato, para nada, nem para defender alguma mínima soberania.
Quando se veem movimentos pró-democracia autóctones no Bahrain ou na região leste da Arábia Saudita, veem-se respostas. No Egito, onde dizem ‘afinal, temos de nos livrar de todo esse sistema, de uma vez por todas –, ainda não se livraram do sistema, a serpente continua lá. E a serpente está sendo mantida viva com financiamentos da Arábia Saudita.
Ainda não houve revolução no Egito. Só começará, talvez, se se livrarem da junta Tantawi. Isso é o que querem as massas na Praça Tahrir, a geração Google e os trabalhadores no Egito. Mas o problema, ali, é o exército que, no Egito, controla toda a economia. Os números variam, mas alguma coisa ente 25% e 40% da economia egípcia é controlada por militares e famílias da alta hierarquia do exército. Eles não vão desistir disso tudo. Só sairão de lá se forem arrancados de lá, por revolução será fatalmente sangrenta. E os EUA não querem que aqueles militares saiam de onde estão.
Como analista de geopolítica, você diria que o futuro da Alemanha está no leste da Eurásia (Rússia e China) mais do que em New York e Londres?
Pepe Escobar: Aí está uma pergunta que eu adoraria que você me respondesse! Meu palpite é que a Alemanha deseja integrar-se mais com os russos.
Sim. Mas... as elites econômicas e políticas aqui [na Alemanha] continuam alinhadas com os EUA.
Pepe Escobar: É. É isso.
Esse ano, Angela Merkel, chanceler, recebeu a mais alta condecoração civil dos EUA, em Washington DC, a “Medalha da Liberdade”. Pelo menos, já tem alguma coisa em comum com Duke Ellington, condecorado em 1969. Mas é evento significativo.
Pepe Escobar:  É. O problema da Alemanha é que é atlanticista, mas não sabe o que o futuro lhe reserva em termos de matérias primas e commodities de que o país carece. E que pode obter da Rússia. O mundo inteiro pode ser mercado para o que a Alemanha produz, e já é. Mas a Alemanha é uma fabulosa potência exportadora, que não precisa deixar subjugar-se, limitar-se, pela aliança ocidental. É claro que não precisa. Mas você disse corretamente: as elites em Berlin e Frankfurt ainda são muito americanizadas.
Gostei de saber, como jornalista e como alemão, que você conhece bem o meu alemão favorito de todos os tempos, Heinrich Heine…
Pepe Escobar: Heine!
… Que também foi jornalista.
Pepe Escobar: Infelizmente, só o leio em inglês e espanhol, traduções maravilhosas. Não leio alemão, mas meus amigos alemães dizem que o alemão de Heine é fantástico.
É. Heine é o máximo, como Nietzsche, Schopenhauer e Goethe.
Pepe Escobar: Fui fã apaixonado de Nietzsche durante alguns anos. Um dos meus melhores professores de filosofia, um francês, Gerard Lebrun, era especialista em Nietzsche. Foi dos grandes especialistas franceses em Nietzsche. Aprendi muito com ele. Nietzsche, para mim, ainda é boa companhia
E também foi fã da poesia de Heine.
Pepe Escobar: É. Gostava da poesia de Heine, é verdade.
De um ponto de vista jornalístico, você acha que o jornalismo está em profunda crise no ocidente?
Pepe Escobar: Ah, está. Dou-lhe dois exemplos pessoais. Uma das razões pelas quais quis ser jornalista foi Watergate. Estava na universidade, tinha 19 anos, e ainda não decidira o que queria fazer. Pensava em artes plásticas, e sempre gostei muito de literatura, mas achava que não conseguiria ganhar a vida com literatura.
Depois, decidi ser jornalista, e Watergate foi como um modelo para a profissão. Depois, antes do jornalismo digital, trabalhei para grandes jornais nacionais impressos. E vi como opera a indústria jornalística. Um grande jornal nacional é uma grande empresa e todas as grandes empresas jornalísticas operam mais ou menos do mesmo modo, em todo o mundo.
Rapidamente, a coisa começou a me desencantar. No início, foi desencanto. A coisa virou horror, mesmo, do jornalismo que há, só depois do início da “Guerra ao Terror” e antes da invasão do Iraque, porque aí, sim, a imprensa dominante em todo o mundo, perdeu completamente toda a credibilidade.
Se se vê o New York Times exibindo mentiras em manchete de primeira página, todos os dias, durante meses, para mim, aquilo foi o fim do jornalismo-empresa que é, hoje, a imprensa dominante no mundo. E o Le Monde, que eu lia sempre, desde o ginásio, convertido em cópia mal feita, americanizada, do New York Times e, às vezes, até mais reacionário. Pena que eu não conheça jornais alemães, porque, pelo menos as seções culturais, ainda são as melhores do mundo.
O moderno “Feuilleton” alemão foi, mais ou menos, inventado por Heinrich Heine…
Pepe Escobar: Eu lia muito jornais ingleses, mas às vezes já não se pode mais acreditar nem no “padrão ouro” da imprensa inglesa, como o Guardian ou o Independent, que, historicamente, foram jornais do centro “forte”, de esquerda, progressistas.  Na última década, afinal, meu desencanto tornou-se total. É preciso recorrer à internet, se você quer informação que realmente faça sentido, em que os pontos se liguem. Hoje, só a internet. A imprensa-empresa dominante em todo o mundo, já não oferece isso. E meus amigos que ainda trabalham em grandes jornais, me contam que é impossível discutir com os editores, sobre o que se deve e não se deve publicar. Isso acabou.
Você acha que o modo como se trataram todas as questões relacionadas ao 11/9 ajudou a impulsionar a mídia alternativa?
Pepe Escobar: Ajudou, porque se, depois do 11/9, você quisesse saber o que realmente estava acontecendo... só se esquecesse todos os jornais e televisões empresas, em todo o planeta. Só se encontrava informação confiável na internet – observadores e analistas independentes, que se davam o trabalho de investigar, pesquisar, localizar documentos. Na mídia dominante, não se achava nada.
Atualmente, alguns desses observadores e analistas também já estão sendo filtrados, mas ainda se encontra alguma coisa, aqui e ali, fagulhas. Todo o discurso dominante, o próprio discurso, já é monolítico. Não há alternativa. E realmente não há alternativa, porque só se ouvem as vozes de repetição, de gente que diz exatamente a mesma coisa, há décadas.
É. E a maioria dos especialistas e os veículos juntam-se todos em mesas redondas como o Royal Institute of International Affairs, o Council on Foreign Relations, a Trilateral Commission, o Clube Bilderberg
Pepe Escobar: Exatamente. Todos trabalham para os mesmos think tanks. E outros veículos também têm problemas de credibilidade. Recorre-se ao canal chinês em inglês, CCTV9, porque se precisa de, pelo menos, um mínimo de debate, mas não há debate algum. Gosto do que faz o canal RT, Russia Today. Trabalho com eles. Mas eles não criticam a Rússia. Problema grave.
Trabalho também para a rede al-Jazeera, o que é ótimo, porque tenho meios para chegar a pessoas e obter respostas que, sem a rede, não conseguiria alcançar, por exemplo, na África. Mas também tem grave problema de credibilidade, pelo modo como cobriram a Tunísia, o Egito e a Líbia, comparado à cobertura do que se passa no Golfo Persa. Não podem criticar eles mesmos e absolutamente não podem – esqueça, é totalmente proibido – criticar a Casa de Saud, por causa das íntimas relações que ligam a Casa de Saud e o Emir do Qatar. Tudo é muito complicado, se se navega nesse universo.
Vivemos muito felizes, todos nós, que trabalhamos e escrevemos para o Asia Times porque é realmente independente e todos somos respeitados por isso. O jornal publica opinião dos sionistas, da extrema direita, da extrema esquerda, mostramos o meio, falam os iranianos, os paquistaneses, os russos, os chineses. Temos até um norte-coreano que escreve para nós. Estão todos lá.
Não temos linha editorial especificada, não, o jornal é aberto a todos. Por isso, exatamente, todos nos respeitam. Mas é jornal muito raro. E enfrentamos terríveis problemas financeiros. Tive de trabalhar nisso nos últimos meses e foi uma dor de cabeça. Queremos crescer, mas não queremos perder o controle do jornal. É equação difícil de acertar.
Desejo-lhe sucesso nessa empreitada!
Pepe Escobar: Obrigado!

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David Lynch, uma entrevista

Ele é um dos diretores mais controvertidos e cultuados do cinema contemporâneo. Faz filmes que pouca gente entende, é verdade. E quem vê, ou ama, ou odeia. Personagens bizarros, imagens alucinantes que expressam sonhos e até delírios. Histórias que nem sempre têm um fim e que flertam com o real e o surreal que rondam a natureza humana. Enfim, um cinema de dar nó na cabeça e que fez dele um dos mais conhecidos cineastas da atualidade. O Roda Viva entrevista hoje o diretor, escritor, fotógrafo, pintor e compositor americano David Lynch. São dele os filmes: O homem elefante, Coração selvagem, Veludo azul, Cidade dos sonhos e a famosa série de TV Twin Peaks. A entrevista começa em trinta segundos.

O cineasta David Lynch veio ao Brasil para divulgar a técnica da meditação. Mas não é uma meditação qualquer, não. Segundo ele, só a transcendental é que é o máximo, um hábito ao qual ele aderiu já há mais de trinta anos. Lynch, que já fez dez filmes, não acredita no futuro do cinema, nem da televisão, muito menos do DVD. Tudo isso vai parar é na internet, com o seu maravilhoso e leve mundo digital.

Tudo o que o cineasta faz e gosta vai entrando no endereço eletrônico através de vídeos, CDs com trilhas sonoras de seus filmes e uma ampla lista de produtos que compõem sua loja virtual: bonés, pôsteres, fotos, bótons, camisetas e até café torrado, produzido com grãos orgânicos e vendido com a grife do diretor. O café, uma obsessão do cineasta, ajuda a fundação David Lynch a arrecadar fundos para programas de redução de estresse em escolas, através da meditação transcendental. A fundação também estuda os efeitos da meditação na criatividade, aprendizagem, depressão e o uso de drogas. Meditação é um tema que tem ocupado cada vez mais David Lynch. Sua vinda ao Brasil, em agosto de 2008, foi para divulgar o seu livro: Em águas profundas – criatividade e meditação. Autobiográfico, o livro mostra como a meditação influenciou a vida e o processo criativo de David Lynch. Típico americano de classe média, Lynch gostava de desenhar e pintar, quando era criança. Acabou estudando artes plásticas e foi a partir da pintura, ao fazer animações de seus quadros, que ele passou a se interessar por cinema. Seu primeiro filme veio em 1977, Eraserhead, é baseado em um episódio da vida pessoal, quando sua namorada engravida. No filme, o bebê nasce com deformidades, um impacto que marca a série de personagens bizarros e complexos que também povoariam seus outros filmes. O sucesso de bilheteria e crítica veio com o Homem elefante. A história de um jovem que tem o rosto deformado por uma doença, e durante anos é explorado como uma atração de circo. Foi indicado a 8 Oscar. O diretor depois teve outras duas indicações por Cidade dos sonhos e Veludo azul, outros dois sucessos. Cidade dos sonhos também foi prêmio de melhor diretor do Festival de Cannes de 2001. Cannes há havia premiado David Lynch com a Palma de Ouro em 1990, pelo filme Coração selvagem. O sucesso mundial do diretor veio com a série de TV Twin Peaks. O título é o nome de uma cidade fictícia, no norte dos Estados Unidos, habitada por personagens misteriosos. É o cenário para a história que gira em torno da investigação sobre o brutal assassinato da adolescente Laura Palmer. A série foi exibida entre 1990 e 1991, em vários países, inclusive no Brasil, e deu origem a outro filme de David Lynch, Twin Peaks – os últimos dias de Laura Palmer.

Para entrevistar o cineasta David Lynch, o Roda Viva convidou Ricardo Calil, que é redator chefe da revista Trip; José Geraldo Couto, crítico de cinema e colunista da Folha de S.Paulo; Ubiratan Brasil, subeditor do Caderno Dois do jornal O Estado de S.Paulo e Leon Cakoff, crítico de cinema e diretor da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A Laís Duarte, do jornalismo aqui da TV Cultura, vai fazer ao nosso entrevistado as perguntas dos telespectadores que foram encaminhadas antes, porque o programa de hoje é gravado. E claro, o Paulo Caruso está aqui também. Ele vai desenhando aí os momentos do nosso programa. Hoje você vai ter um concorrente, que é o próprio entrevistado, Caruso. Ele adora pintar também e faz os seus próprios desenhos. Boa noite, senhor David Lynch. Obrigada pela presença.
 
Lillian Witte Fibe: Vamos começar falando sobre meditação, até para não contrariá-lo. Meditação é conhecida entre a gente como o repouso da mente. Uma técnica não invasiva, barata, custo zero, sem efeitos colaterais e que, até onde a gente está informado, tem recebido cada vez mais adesões da medicina ortodoxa e ocidental. Eu já li cardiologista falando que meditação, combinada a uma dieta correta, faz mais bem, às vezes é muito melhor do que o bisturi, para o coração. Com a gente aqui no Brasil, eu acho que tem... existe uma certa curiosidade em entender qual é a sua meditação, a transcendental. O senhor, nessa sua peregrinação pelo Brasil, saberia dizer às pessoas que ficaram curiosas e interessadas como achar, por exemplo, o professor certo a que o senhor se refere, para a meditação transcendental aqui no Brasil? E, enfim, como tornar possível, basicamente, se chegar à felicidade infinita?
David Lynch: Há muitas formas de meditação. E nunca se diz que uma é melhor do que a outra. Trata-se de uma escolha pessoal. Mas sempre digo que não saberia que meditação iria fazer se me tirassem a meditação transcendental. A meditação transcendental tira você da superfície da mente e lhe dá a chave que abre a porta para os níveis mais profundos, para transcender para uma consciência sem limites e para a felicidade. A felicidade infinita. Ao vivenciá-la você se sente vivo e cresce através dela. Todos têm consciência, mas nem todos têm o mesmo nível. Por que ficar com um certo nível de consciência, se existe uma técnica disponível que lhe permite expandi-la, trazendo-lhe apenas coisas boas? O efeito da expansão da consciência é que a negatividade começa, de fato, a diminuir. O peso da negatividade sob a qual vivemos. É algo muito libertador. Entre outras coisas, ela elimina o estresse. Você vivencia uma alegria infinita. Uma felicidade infinita. E vê o estresse desaparecer completamente. Trata-se de um ensinamento bastante específico. Você recebe um mantra, uma vibração sonora específica, que mexe com a percepção interior e você mergulha, naturalmente, através de níveis sutis da mente e do intelecto e transcende. Você precisa de um professor verdadeiro para ensiná-lo. Para lhe dar o mantra e lhe dizer como usá-lo. E então, quando souber como meditar corretamente, isso faz parte da sua vida, você vai em frente e vê tudo melhorar.
Lillian Witte Fibe: Mas de que maneira, aqui no Brasil, as pessoas podem encontrar esse professor certo? O senhor sabe onde?
David Lynch: Há professores de meditação transcendental em todas as cidades em que estivemos. Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, e deve haver em Porto Alegre, para onde vamos. Tenho certeza de que deve haver um número para onde se possa ligar e achar um verdadeiro professor de meditação transcendental.
Lillian Witte Fibe: Ok. Quem é o próximo?
Ubiratan Brasil: Eu. Professor Lynch.
David Lynch: Sim.
Ubiratan Brasil: Falando em torno desse assunto. Como que, então, essa meditação, realmente, influencia ou influenciou, desde o início da sua carreira, o seu trabalho? É possível a gente imaginar que a sua carreira poderia ter sido diferente, se o senhor não tivesse aderido a essa meditação?
David Lynch: Sim. Como todos os seres humanos - e isso é algo relativo -, mas eu era muito tenso, sentia-me muito estressado, um pouco deprimido e era muito irritado. Digo que a negatividade é inimiga da criatividade. E, quando eu comecei a meditar, essa irritação, naturalmente, desapareceu. Quase desde o início. A felicidade começou a surgir de dentro e me vi mais feliz com meu trabalho. O peso da negatividade se dissipou e fui tomado por um sentimento de liberdade. E nesse sentimento de liberdade, senti um maior fluxo de criatividade, um fluxo de idéias. E, como costumo dizer, quando a consciência começa a aumentar, as idéias surgem de um nível mais profundo. Expanda a consciência, e as idéias vêm de níveis cada vez mais profundos, nos quais há mais informações e maior compreensão. Portanto, você compreende o que está ocorrendo. Há um oceano de consciência pura. E esse sentimento leva à ferramenta número um do artista: a intuição. Leva-nos a reconhecer quando uma coisa está errada e a encontrar uma maneira de corrigi-la e à felicidade de fazer isso. Há uma energia de felicidade. Você se livra do cansaço e estresse e do que o está consumindo.
Ricardo Calil: Mister Lynch.
David Lynch: Sim.
Ricardo Calil: No livro que o senhor veio lançar no Brasil, o senhor em um capítulo fala, por exemplo, sobre a beleza que consegue enxergar em um corpo decomposto. No capítulo seguinte, o senhor fala sobre harmonia, sobre paz, sobre iluminação. Não existe uma contradição ou um paradoxo entre o cineasta dedicado ao bizarro e essa figura pública que se tornou o porta-voz da meditação?
David Lynch: Não. [risos] E vou lhe dizer o motivo. Eu me apaixono por idéias. E vou me apaixonar por idéias diferentes daquelas pelas quais você vai se apaixonar. Mas, quando se está apaixonado, se está apaixonado. E sempre digo que há toda uma coisa a respeito dos artistas - e eu sou um deles, e, sem dúvida, eu já era um artista antes de começar a meditar - que, quanto maior o sofrimento, a angústia, quanto maior o estresse, mais alimento há para o trabalho. E isso vem de uma coisa estranha, na França, creio, dos artistas famintos das águas-furtadas. Uma coisa romântica para quem está de fora, mas nada romântica para o artista que está morrendo de fome. Eles adorariam ser capazes de fazer seu trabalho e ter algum dinheiro para comprar seus materiais para trabalhar e se sentirem felizes com isso. O sofrimento é inimigo da criatividade. As histórias através dos tempos estão repletas de contrastes, de altos e baixos. Situações de vida e morte. Muito sofrimento, muita agonia, negatividade. É disso que as histórias são feitas, da condição humana. E, com freqüência, as histórias refletem o mundo em que vivemos. Portanto, vivemos em um mundo bastante negativo. Mas o artista não tem de sofrer para falar de sofrimento. Basta compreendê-lo. Você não precisa morrer para filmar uma cena de morte. Basta compreendê-la. E a compreensão cresce quando você, de fato, transcende. E a infinita inteligência está ali. As coisas ficam cada vez mais claras, e isso alimenta o trabalho.
Lillian Witte Fibe: Agora a ala de lá quer fazer pergunta.
José Geraldo Couto: Senhor Lynch.
David Lynch: Olá.
José Geraldo Couto: Tudo bem? Eu gostaria de fazer uma pergunta sobre o filme The straight story, que aqui no Brasil chamou Uma história real. Eu sei que se baseou em uma história real, de fato, um personagem chamado Alvin Straight. Mas me parece também que é uma espécie de resposta irônica do senhor aos críticos mais conservadores, que viviam cobrando do senhor que contasse uma história linear, com começo, meio e fim, com personagens coerentes, motivações claras, transparentes, e, se possível, com um final edificante, uma mensagem positiva. E, de certo modo, foi o que o senhor fez, com o The straigh story. Entregou esse tipo de filme, só que à sua maneira, com o seu estilo. O próprio título, embora seja o nome do personagem [Alvin Straight], o The straight story, parece brincar com os vários sentidos da palavra straight em inglês, né? Eu gostaria que senhor falasse um pouco sobre esse filme no conjunto da sua filmografia, no começo da sua carreira. A sua motivação para fazê-lo e tal. Como você vê a relação com os outros?
David Lynch: Minha terceira mulher, Mary Sweeney [(1953-) editora e produtora de cinema, trabalhou com Lynch em vários filmes e séries de televisão. Casou-se com ele em 2006, mas divorciaram-se após um mês, sob o argumento de diferenças irreconciliáveis. O casal tem um filho, Riley Sweeney Lynch, nascido em 1992], e um amigo dela, John Roach [presidente da JRP (John Roach Projects), uma produtora de vídeo e filmes em Madison, Wisconsin, nos Estados Unidos], tiveram a idéia de escrever um roteiro sobre Alvin Straight. A história fora publicada em jornais, com base em uma situação real. Eles conversaram comigo a respeito: “Estaria interessado em filmar isso?”. Durante três anos, eles conversaram comigo, e eu não tinha nenhum [enfatiza] interesse pela história. [risos] Mas, quando terminaram o roteiro, eles o enviaram a mim e eu me sentei e comecei a ler, e esse roteiro me emocionou. E eu disse: “isso é muito bonito.”. E mudei completamente minha opinião a respeito. E sempre digo que, embora seja linear, trata-se de meu filme mais experimental, pois há poucos elementos nessa história que seguem uma linearidade. E a maneira como se consegue emoção a partir desses poucos elementos... Não há nada, além disso, é algo direto. Por isso, trata-se de algo, de certa forma, experimental. Muitas vezes, todos os elementos precisavam me parecer bons para que a emoção aflorasse. E todos nós sabemos como é isso. Às vezes, vemos atores ou atrizes chorando na tela, e o público nada sente. E talvez vejamos atores ou atrizes rindo na tela, e todo o público está comovido. Pois as pessoas sentem o que aquele riso significa. É um negócio muito complicado. Mas eu me apaixonei por causa da emoção. E esse filme é diferente de outros filmes que fiz, embora se aproxime, de certa forma, de O homem elefante.
Lillian Witte Fibe: Leon.
Leon Cakoff: Então... eu sinto, eu vejo, acompanho a sua carreira. E vejo que o senhor é muito querido e prestigiado na Europa. Eu acho que, graças a iniciativas na Europa, agora você mesmo citou o Roach e tem o caso da Fundação Cartier [a Fondation Cartier pour l’art contemporain, em Paris, fez uma exposição intitulada “The air is on fire”, entre março e maio de 2007], que fez esse belíssimo... essa belíssima exposição com o seu trabalho, e onde se prova que você realmente é um artista multimídia, capaz de atacar todas as áreas. E o último Festival de Cannes, com uma foto desfocada sua, fez um belíssimo pôster. Então, o seu prestígio é muito alto e você é muito querido, graças a iniciativas européias. Eu percebo isso e a gente acompanha isso. E eu sei que você... esse livro Em águas profundas, que está sendo lançado agora, no Brasil... Você declarou em alguma entrevista que eu li que a renda do livro e dos seus trabalhos seria revertida para uma fundação que leva o seu nome: David Lynch. Eu queria saber: qual é o propósito dessa fundação?
David Lynch: Chama-se Fundação David Lynch para a Educação Consciente e Paz Mundial. Arrecadamos fundos para oferecer a meditação transcendental, a qualquer aluno que a queira, em qualquer parte do mundo. Ou a qualquer escola que a queira para toda a escola, alunos, docentes, diretores. Antes da fundação havia três escolas nos Estados Unidos que haviam utilizado a meditação para a escola toda. Hoje são dezesseis. Algumas das escolas que a utilizaram recentemente estavam entre as piores em seus estados. Havia violência, depressão, suicídios, brigas nos corredores, quase o tempo todo. Não eram escolas às quais você gostaria de enviar seus filhos. Eram, realmente, problemáticas. Haviam tentado tudo. E elas podem ter se perguntado: “Como é que esse negócio esquisito de meditação pode fazer alguma coisa por nossa escola?”. Mas elas começaram a ouvir histórias sobre o que havia acontecido em outros lugares e levaram isso para suas escolas. Em um ano, houve uma guinada de cento e oitenta graus. Os alunos estavam felizes. Era algo que vinha de dentro. Essa é a técnica deles. Eles mergulham para dentro de si mesmos, duas vezes por dia. As notas aumentaram. O bom relacionamento entre eles veio naturalmente. O professor está tentando ajudar você e há uma perspectiva totalmente nova. Os professores sorriem e contam histórias a respeito da enorme diferença. Ela elimina o estresse, você simplesmente se livra dele. A raiva se dissipa: “qual é o problema?”. Eles começam a olhar para o mundo de maneira diferente e dizem: “o mundo é o que somos. Ele pode ser muito bonito. Está tudo aí.”. Trata-se de um campo unificado da ciência, que sempre esteve e sempre vai estar ali. A meditação transcendental não é religião, não é culto. É uma técnica para mergulhar dentro de si próprio. E é próprio do ser humano praticá-la. Todo ser humano tem como seu direito nato o esclarecimento. O potencial humano é imenso e belíssimo. E a Fundação David Lynch apenas tenta colocar isso em prática.
Lillian Witte Fibe: Senhor David, falando em técnicas zen etc, essas pulseirinhas na sua mão direita têm alguma relação com a meditação? Ou são muito pessoais para o senhor contar o significado delas?
David Lynch: Essa me foi dada na Índia, depois de uma cerimônia. Por isso a estou usando. Deve-se usá-la até que ela se solte.
Lillian Witte Fibe: Foi ele que morreu agora, no começo do ano? O mestre da meditação.
David Lynch: Não. Maharishi Mahesh Yogi [(1918-2008) guru indiano adepto e divulgador da meditação transcendental, discípulo de Guru Nanak] é um professor. A meditação transcendental é uma técnica mental, mas uma técnica mental antiga. Uma antiga forma de meditação, que Maharishi Mahesh Yogi trouxe para nosso tempo.
Lillian Witte Fibe: Ok. Nós vamos fazer um intervalo, lembrando que, por se tratar de um programa gravado, as perguntas de telespectadores apresentadas aqui - daqui a pouco, assim que a gente voltar de intervalo, a Laís vai começar a fazer - chegaram antecipadamente e pela internet através do nosso site que é: www.tvcultura.com.br/rodaviva. Você pode se informar também sobre os próximos programas e mandar e-mail, dando críticas, sugestões, ou mesmo fazendo perguntas para a gente. A gente volta já, já.
[intervalo]
Lillian Witte Fibe: Nós estamos de volta com o Roda Viva, que hoje entrevista o cineasta americano David Lynch, que, entre um filme e outro, é também escritor, fotógrafo, pintor, compositor e, principalmente, meditador. Senhor David, o senhor tem falado muito... Eu sei que o senhor não vai ter uma resposta sobre o futuro - o senhor já disse em outras das suas entrevistas -, mas o senhor tem falado muito também sobre o fim dos filmes. E tem afirmado que o futuro está na internet, principalmente, na entrevista que o senhor deu para o Ubiratan, no Caderno Dois, do Estado de S.Paulo. Dá para o senhor explicar melhor para a gente o que o senhor antevê em matéria de digitalização da sétima arte?
David Lynch: Não sei tudo o que está ocorrendo. Mas creio que todos sentimos uma enorme mudança no cinema, como a ocorrida com a música algum tempo atrás. A internet está cada vez mais rápida, com melhor qualidade. Cada vez mais pessoas assistem a filmes e programas de televisão, todos na internet. Ouvi dizer que o público das salas de cinema está diminuindo. A venda de DVDs está diminuindo. O que aponta para o fato de a internet estar ganhando espaço. O filme, ainda que maravilhoso, o filme em celulóide é grande, pesado e lento, o que me lembra os dinossauros desaparecendo discretamente. O filme digital está cada vez melhor. No mundo da fotografia, quase não há mais filme. E o mesmo está ocorrendo com o cinema.
Lillian Witte Fibe: Em que tamanho de tela nós veremos os próximos filmes? Será que a tela grande acabou?
David Lynch: Adoro a tela grande e aquele som de qualidade. E espero que os filmes possam chegar até nós, em máquinas minúsculas, que nos permitam projetá-los na parede. Grandes e com um som espetacular, para que possamos entrar em um outro mundo e, realmente, vivenciarmos algo novo.
Lillian Witte Fibe: Laís.
Laís Duarte: Pergunta enviada por Renato Barbiere, de Brasília: "Em todo ciclo de produção de um filme, qual é o momento mais desafiante para o senhor?".
David Lynch: Eles têm quase a mesma relevância, são todos muitíssimo importantes. Todo o processo é muito agradável. Tudo se resume a ter uma idéia, se apaixonar por ela e então traduzi-la para o cinema. E o cinema é composto por inúmeros elementos. Portanto, trata-se de algo que se faz passo a passo, dia a dia, tentando aproximar-se, e não se agastando do que lhe parece correto. Todo o processo é muito bonito.
Ubiratan Brasil: Senhor Lynch,...
David Lynch: Sim.
Ubiratan Brasil: ... há um trecho aqui no seu livro que me chamou a atenção, que o senhor diz que adora a lógica dos sonhos, adora a forma com que eles se desenrolam. Mas dificilmente extrai idéias dos sonhos, o que, às vezes, até soa um pouco estranho. Vendo os seus filmes a gente imaginaria que o senhor já teria sonhado, por exemplo, com uma orelha encontrada na relva, por exemplo. Por que os sonhos não são tão fontes de inspiração para o senhor?
David Lynch: Eles apenas não têm sido uma fonte. Mas o cinema pode dizer coisas concretas e abstratas. Pode dizer algo de uma forma onírica. Portanto, as idéias chegam, e acho que me apaixono por elas. Idéias com um lado concreto, mas também com abstrações. Adoro isso. E gosto de sonhar acordado. É uma maneira de captar idéias. Às vezes, as idéias surgem quando menos esperamos. Portanto, tudo se resume a idéias. Mas adoro abstrações.
Ricardo Calil: Senhor Lynch, no seu livro, o senhor diz que faz - uma informação muito surpreendente para mim - que o senhor faz testes de audiência dos seus filmes com o público. Não sei se de todos ou de alguns deles, assim. Eu gostaria de saber qual é o papel do público para o seu cinema durante o processo, ou seja, o senhor pensa no público em algum momento? É difícil para mim imaginar que o senhor faça isso com um filme como o Império dos sonhos, por exemplo, que tem três horas, que é um filme muito desafiador. O público faz parte da equação?
David Lynch: O público não faz parte disso. Tudo se resume à idéia. Creio que, se eu for fiel à idéia e fiel a todos os elementos, com base naquela idéia, e não me afastar dela até que tenha algo que me pareça correto, existe a possibilidade de o público sentir a mesma coisa. Por isso o público vem depois. Se eu permanecer fiel à idéia, então, ele pode vir a sentir o mesmo que eu. E a “sessão teste” não precisa envolver muitas pessoas. Mas próximo do final do processo, quando se trabalha com o todo, se você se sentar com 12, 14 ou quarenta pessoas, é possível aprender coisas valiosas. E elas não precisam escrever o que acharam, mas apenas sentir. E você sente quando a coisa não está funcionando. E então você volta correndo e tenta consertar o que não funcionou. Às vezes, a coisa toda parece ir muito bem. Essas pessoas podem, de fato, ensinar muito a você.
Lillian Witte Fibe: Diga lá, José Geraldo Couto.
José Geraldo Couto: Por favor, o seu cinema é muito pessoal, né? O senhor é um dos cineastas que conseguem ter um universo muito particular, muito próprio, e inconfundível. Eu queria saber, do cinema que se faz atualmente no mundo, o que ainda comove o senhor? O que empolga ou, no mínimo, interessa ao senhor, no cinema que se faz hoje no mundo? Porque eu acho bem diferente daquilo que é o seu cinema. Isso é uma coisa. E a outra é se o senhor costuma acompanhar cinematografias periféricas, digamos, como a asiática ou a latino-americana...
David Lynch: Eu sou tão ignorante sobre o cinema no mundo. Gosto de fazer filmes e gosto de trabalhar. Não sei, por exemplo, como Martin Scorsese - ele tem a reputação de ser, talvez, o maior entusiasta por filmes do mundo - não sei como ele acha tempo para assistir a todos esses filmes. Portanto, não consigo, realmente, responder a sua pergunta. Aki Kaurismäki [(1957-) roteirista, produtor e cineasta finlandês] parece estar fazendo coisas muito interessantes. Pedro Almodóvar [(1951-), um dos mais importantes cineastas espanhóis. Ver entrevista com Almodóvar no Roda Viva]... Gosto de Werner Herzog [(1942-) documentarista e cineasta, um dos maiores nomes do novo cinema alemão, movimento iniciado nos anos 1970] como cineasta, como pessoa, personalidade. E gosto de seus filmes. Stroszek [filme de 1977 escrito em quatro dias para o ator Bruno Schleinstein. Filmado em Berlim e em duas cidades de Wisconsin, nos Estados Unidos, o filme conta a história de um músico de rua alcoólatra que, pouco depois de ser libertado da prisão, conhece uma prostituta] é um de meus favoritos. Há muitas pessoas fazendo bom cinema moderno, mas não sei muito a respeito.
José Geraldo Couto: O que o senhor acha, por exemplo, de David Cronenberg [(1943-) cineasta canadense, um dos principais exponentes do chamado horror corporal, que explora os medos humanos ante a transformação física e a infecção]? Porque me parece também um cineasta que trabalha dentro da indústria ou nas franjas, no limite da indústria, mas com uma linguagem e uma personalidade muito original e muito própria.
David Lynch: Sim, ele diz o que pensa. Mas não conheço bem seu cinema. Ele trabalha com liberdade e o que diz tem repercussão.
Leon Cakoff: Senhor Lynch, eu creio que uma das maiores hipocrisias sociais, à parte fingir que não existe fome e miséria no mundo, seja ignorar o vasto império das drogas e das suas ramificações na economia. E junto com isso, as legiões de drogados que existem no mundo. Como é que a sua arte de meditação pode ajudar os drogados do mundo?
David Lynch: Maharishi sempre diz: “Regue a raiz e aproveita os frutos.”. No que se refere ao indivíduo, aguar a raiz é transcender, vivenciando aquele nível mais profundo. Dê vida a isso e toda a árvore cresce à perfeição. Em nosso mundo, se dissermos: “Regue a raiz e aproveite os frutos” e pensarmos no mundo, veremos que as folhas de nossa “árvore-mundo” têm muitos problemas. Estão ficando amarelas, marrons, os galhos abaixados... E nós trabalhamos na superfície, tentando apanhar essa folha que representa a Aids e tentamos deixá-la verde outra vez. Livramo-nos da Aids. Essas folhas representam um tipo diferente de câncer, e tentamos deixá-las verdes despejando milhões de dólares para deixá-las verdes. Essas representam drogas. Todos os tipos de drogas. E os traficantes, os assassinatos e tudo a elas relacionado. Tudo isso afeta a sociedade e tudo o mais ao nosso redor. Essas são curas pela superfície. Curativos precários. Se você pudesse - e a tecnologia existe para isso – dar vida a esse campo de unidade, esse campo de consciência sem limites, de alegria, energia, inteligência, criatividade e amor universal, se pudéssemos dar vida a isso com um grupo que pratique a meditação transcendental e suas técnicas avançadas... Eu viajei com um dos maiores físicos quânticos do mundo, e esse grupo teria uma energia enorme. Toda a energia que dá vida ao universo está ali. E toda ela é positiva. Um grupo criador de paz tem muito mais força do que o mesmo número de pessoas não agrupadas. Esse campo é tão poderoso que precisamos apenas da raiz quadrada de 1% de uma população para que essas coisas comecem a acontecer. A raiz quadrada de 1% do Brasil corresponderia a 1400 ou 1500 meditadores avançados. Regue a raiz, começando do nível mais profundo, e tudo surge à perfeição [abre os braços, como se fosse a árvore crescendo]. Surgem flores e frutos. E para a “árvore-mundo” esse fruto é a paz. Dizem que a verdadeira paz não é tão somente a ausência de guerra, mas a ausência de negatividade. Das sementes da guerra. E isso nunca ocorre na superfície – no nível das folhas. Ocorre de forma bela e totalmente científica, ao se estimular aquele nível mais profundo – o nosso “eu”. Na linguagem védica, esse nível mais profundo é o atma, o “eu”. Conheça a si próprio. Conheça a si próprio se desvendando. E irá desvendar todo o seu potencial como ser humano.
Laís Duarte: Senhor Lynch. A Fernanda Vogue, aqui de São Paulo, pergunta: o que o senhor acha da série de desenhos animados Os Simpsons? Existe alguma semelhança entre os trabalhos do senhor e os episódios do desenho?
David Lynch: Não conheço Os Simpsons muito bem, mas meu filho Riley adora Os Simpsons. Matt Groening [(1954-) cartunista norte-americano que criou as séries de televisão Os Simpsons e Futurama, das quais é consultor criativo] fazia os quadrinhos tempos atrás e eu tinha o meu, O cão mais raivoso do mundo, no mesmo jornal, acho. O cão mais raivoso do mundo não me rendeu nada, mas Matt faturou trilhões.
[Risos]
Lillian Witte Fibe: Nós vamos fazer então mais um intervalo, lembrando que a memória do Roda Vida está disponível em nosso site www.tvcultura.com.br/rodaviva, onde você pode pesquisar o conteúdo do nosso arquivo e também mandar e-mails com críticas e sugestões. A gente volta já, já.
[intervalo]
Lillian Witte Fibe: Você acompanha hoje no Roda Viva a entrevista com o cineasta americano David Lynch. Um dos diretores mais cultuados do cinema contemporâneo. Dirigiu, entre outros, O homem elefante, Veludo azul, O império dos sonhos e a famosa série de TV Twin Peaks. Senhor David Lynch, eu vou confessar que eu tenho uma inveja de uma coisa no senhor: é a sua fidelidade ao seu corte de cabelo. Eu queria ser tão fiel assim ao meu corte de cabelo. Nada o faz mudar de idéia? Quem bolou esse corte de cabelo que o senhor mantém há quantos anos mesmo?
David Lynch: Acho que há bastante tempo. Creio que desde a sétima série. E é, de certa forma, inspirado em Elvis Presley [(1935-1977) músico e ator estadunidense, conhecido mundialmente como o "rei do rock"]...
Lillian Witte Fibe: Ah, ok.
David Lynch: Com uma certa variação. Mas o seu cabelo é muito bonito.
[Risos]
Lillian Witte Fibe: Ok. Eu queria que o senhor falasse um pouco também - até para não frustrar os nossos telespectadores - sobre Twin Peaks. Depois se transformou em um filme do qual o senhor não gostou totalmente. Sobre o sucesso da televisão.
David Lynch: Não. Eu gostei muito do filme. Eu não gostei foi de Duna [adaptação cinematográfica do livro homônimo de Frank Herbert, Duna é uma super produção de ficção científica dirigida por David Lynch lançada em 1984, que foi um fracasso de bilheteira].
Lillian Witte Fibe: Do filme. Do longa metragem também? Também do final? Do final da série da TV que o senhor não gostou. Foi isso?
David Lynch: O final da série de TV desagradou muita gente. E, de certa forma, também me desagradou. Mas Mark Frost e eu, que a escrevemos, imaginamos que a ABC talvez mudasse de idéia e fizesse ao menos mais uma temporada, e então poderíamos mudar aquele final de certa forma negativo. Mas isso não aconteceu.
Lillian Witte Fibe: E do filme... O filme se pagou? Foi um sucesso? Porque muito dos seus filmes, o senhor diz que não chegaram a se pagar, né?
David Lynch: Acho que nunca fiz uma empresa perder dinheiro, mas nunca ganhei muito.
[Risos discretos]
David Lynch: Quanto a Twin Peaks: os útlimos dias de Laura Palmer, eu adoro esse filme. Mas ele não teve uma boa aceitação mundial. E creio que porque... muito do humor de Twin Peaks não estava ali, pois não havia humor nos últimos dias de Laura Palmer.
Lilliam Witte Fibe: O senhor está agora só produzindo um filme de um diretor chinês. O senhor não tem próximos projetos cinematográficos?
David Lynch: Não há nenhum chinês.
Lilliam Witte Fibe: Chileno, chileno. Eu li em algumas de suas entrevistas, o senhor está...
David Lynch: Jorodowsky será o produtor executivo de seu filme...
Lilliam Witte Fibe: Isto. Hã, hã.
David Lynch: E, então, Werner Herzog será o produtor executivo de um filme que ele irá fazer.
Lilliam Witte Fibe: Ah, então o senhor tem duas produções nos projetos?
David Lynch: Mas nenhum deles já está sendo produzido. Ainda não.
Lilliam Witte Fibe: Ah, ok. Está bom. Diga lá.
Ubiratan Brasil: Senhor Lynch, no outro bloco, falando das suas... de alguma de suas preferências cinematográficas, o senhor citou um diretor finlandês, [Aki Kaurismäki] citou um espanhol [Pedro Almodóvar], um alemão [Werner Herzog] e Cronenberg, que é canadense, mas não falou de nenhum americano. Isso foi por alguma diplomacia? Ou porque, realmente, o cinema americano hoje em dia não lhe interessa tanto?
David Lynch: Sei que há grandes diretores americanos... Gosto de Boogie nights [no Brasil, Prazer sem limites (1997)], de Paul Thomas Anderson [(1970-) cineasta estadunidense indicado duas vezes ao Oscar de melhor roteiro  original pelos filmes Boogie Nights e Magnólia], mas não gostei de seu último filme [There will be blood, no Brasil Sangue negro, drama lançado em 2007, cujo roteiro baseia-se no livro Petróleo! (1927), de Upton Sinclair]. Eu o considero muito talentoso.
Ubiratan Brasil: E nenhum outro cineasta chama a sua atenção hoje?
David Lynch: Não. Eu gosto de trabalhar.
[Risos discretos]
Ricardo Calil: Senhor Lynch. Eu gostaria de saber em quem o senhor vai votar nas próximas eleições dos Estados Unidos e se o senhor acredita que a política pode ajudar nesse caminho de busca pela paz.
David Lynch: Vou votar em Barack Obama [então candidato do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos, eleito em 2009] nas próximas eleições. Creio que os Estados Unidos já desceram muito e está na hora de se levantarem. Creio que se diz que o presidente é tão bom quanto o povo que representa. É a consciência coletiva do povo. Portanto, quando você vê um presidente como George Bush, você começa a se perguntar sobre o povo do país. Quando se consegue elevar o nível de esclarecimento e a educação do povo, tem-se um líder melhor. E uma maneira de fazer isso é deixar que as pessoas transcendam e deixem que aquele nível mais profundo – de pura consciência – venha à tona. E que as pessoas expandam sua inteligência, sua criatividade, seu amor, que sejam mais felizes. E isso trará grandes mudanças. Chega de George Bush.
Laís Duarte: Senhor Lynch, Lucas Valente, de Porto Alegre, pergunta: "Qual é a influência nos seus filmes da sua infância? Da juventude? E da relação com os seus pais?".
David Lynch: É uma boa pergunta. Creio que os lugares realmente despertam idéias. Eu vivi no noroeste do país até os 14 anos. Passei bastante tempo na mata. Portanto, conheço a mata. Conheço o mistério da mata. [tamborila os dedos no ar enquanto fala] E tenho certeza de que isso me influenciou. Tive uma infância muito feliz, e tive muitos sonhos felizes. E acho que isso lhe dá bagagem para o futuro. Minha mãe recusava-se a me dar livros de colorir, mas me motivava com muito papel em branco e material de desenho, pois ela via que eu adoro desenhar. Por isso, creio que essa liberdade tem uma grande importância. Toda criança vê coisas no mundo e sente essas coisas. Você vê uma casa, por exemplo, e sente algo por trás das paredes, dentro da casa. Você, simplesmente, sabe de alguma coisa. São mistérios, algo muito bonito.
José Geraldo Couto: Senhor Lynch, uma pergunta bem prosaica. O senhor disse em uma entrevista recente que costuma meditar duas vezes ao dia: vinte minutos pela manhã e vinte minutos à noite. Eu sei que o senhor está atravessando uma verdadeira maratona de compromissos aqui no Brasil, esses dias. Então a minha pergunta é se o senhor está conseguindo cumprir essa sua prática de meditação duas vezes ao dia. Como é que o senhor está administrando seu tempo?
David Lynch: Medito há 35 anos duas vezes por dia e nunca deixei de meditar um dia sequer.
José Geraldo Couto: Nem durante filmagens? Realização de um filme?
David Lynch: Não. Nunca deixei de meditar um só dia em 35 anos. É tão fácil encontrar vinte minutos pela manhã e vinte minutos à tarde. Mas é verdade. As pessoas dizem: “Não tenho tempo para isso. Meu dia é tão cheio que não posso fazer isso. Além do mais, não acho que isso vá mudar a minha vida.”. E então não meditam. Mas é muito fácil de fazer. E não é um tipo de meditação que exija concentração e esforço. Uma vez voltando para dentro de si mesmo, você mergulha naturalmente. E por que é natural? Porque a cada nível mais profundo da mente e do intelecto há maior felicidade. E, ao transcender, a felicidade é infinita. Basta ir naquela direção. É algo profundo, mas é fácil e não exige esforço. Você termina a meditação com tamanha energia e sentimento de renovação, tamanha felicidade... Dizem que esse êxtase é uma felicidade física, emocional, mental e espiritual. Você consegue vibrar em felicidade. E é o tipo de felicidade que não se perde. Procuramos por felicidade aqui fora e a encontramos algumas vezes. Mas esse é um mundo de mudanças e, assim, a vemos ir embora. E então a procuramos em outro lugar. Mas a verdadeira felicidade está dentro de você e torna a vida melhor. Você diz a alguém: “você tem a chave do cofre, você não precisa ir ao banco.”. Você diz: “eis a chave do cofre”. E ouve: “não, não tenho tempo.”. Mas é possível pegar a chave, ir até o cofre e encontrar uma enorme quantidade de ouro ali. Viva!
Lillian Witte Fibe: O senhor pratica algum esporte?
David Lynch: Às vezes, gosto de caminhar.
Lillian Witte Fibe: Ok. Leon.
Leon Cakoff: Senhor Lynch, a gente sabe, isso é evidente, que a principal indústria americana, a indústria número um, é a de armamentos. E a segunda é de cinema, que fetichiza os armamentos na sua maior variedade e diversidade. E o seu cinema, de certa maneira, é boicotado por Hollywood, que fetichiza os armamentos e aplica em muitos filmes de ação, nos seus enredos, com muita arma, muita fetichização de arma. Isso é um motivo, na sua opinião, de você ser boicotado, assim, pelo sistema de Hollywood e necessitar de parceiros europeus para fazer cinema?
David Lynch: Não sou boicotado por Hollywood. Entretanto, muitas vezes, a não ser que seus filmes rendam US$ 100 milhões, eles não lhe permitem a edição final. E se não me é permitido isso, não consigo trabalhar com eles. Prefiro não fazer o filme e fazer qualquer outra coisa. Se você não pode fazer o filme que deseja fazer, não há como fazê-lo. Mas, assim como o mundo muda, o cinema irá mudar. Vá a qualquer museu e verá como as coisas mudam. É o que ocorre hoje. Mas acredito que as coisas já estão mudando para melhor. E esse tipo de coisa vai desaparecer. Comerciantes de armas podem mudar sua produção e fazer um tipo diferente de máquina. E podem ser felizes e ter lucro com isso. Isso já está ocorrendo.
Laís Duarte: Senhor Linch, o Edilson Palhares, de Araxá, Minas Gerais, pergunta: "Visto que a versão estendida de Duna, em DVD, não o agradou, os fãs de Duna podem esperar uma versão do senhor, definitiva?".
David Lynch: Não. Aquela versão estendida foi uma versão para a televisão. Sem falarem comigo, acharam algumas coisas e as acrescentaram e então adicionaram uma narração estranha que eu nunca ouvi. Eu disse: “tudo bem, vamos em frente, mas tirem meu nome daí, pois isso não é mais coisa minha.”. Duna foi um filme que fiz e cuja edição final não foi minha. Assinei o contrato sabendo que não a faria. Eu sabia que não estava fazendo a coisa certa ao assinar o contrato. E deu tudo errado. Comecei mal logo no início. Ou seja, não havia naquelas imagens nada que pudesse transformá-las no filme que eu queria fazer. Não havia.
Lillian Witte Fibe: Diga, Ubiratan, que você está tão curioso.
Ubiratan Brasil: Uma curiosidade. Em algumas entrevistas do senhor que a gente leu aqui, que a produção passou, em uma determinada época o senhor tinha dito... teria dito que a pintura teria se tornado uma válvula de escape menor no seu trabalho. Mas, assim, julgando pela quantidade de trabalhos que a gente viu, inclusive naquele livro que o Leon trouxe, o senhor sempre produziu muito em pintura. Eu queria que o senhor falasse um pouco dessa importância da pintura para o senhor no seu trabalho.
David Lynch: Não se trata de fuga. Você pensa em fugir se está em uma prisão. A meditação é algo que simplesmente o atrai. Você tem idéias para o cinema, para pinturas... Você tem uma idéia para uma pintura e fica todo entusiasmado. E o mundo da pintura é maravilhoso, pois é apenas você e a pintura. É como um círculo: ação e reação. Um fluxo de idéias. Você pode penetrar naquele mundo sozinho – e é algo muito bonito. Meu amigo [...] Keeler me influenciou muito. Ele foi um pintor que conheci e que mudou minha vida, pois eu não achava que eu pudesse ser um pintor já na vida adulta. E ele me mostrou que eu estava errado. Ele sempre dizia: “Você precisa de quatro horas ininterruptas para produzir uma hora de boa pintura.”. E é verdade. Você precisa penetrar em seu mundo, permanecer ali e ir em frente. E não pode haver interrupções. Interrupções significam que você precisa começar tudo de novo.
Ubiratan Brasil: A gente falou de cineastas de sua predileção. E quais seriam os pintores, então, na sua preferência?
David Lynch: Gosto de Francis Bacon [(1909-1992) pintor anglo-irlandês de pintura figurativa, conhecida como audaz, austera e grotesca ou imagem de pesadelo], Edward Hopper [(1882-1967) pintor norte-americano lembrado por suas misteriosas representações realistas da solidão, com notável influência no mundo da arte e da cultura pop], Magritte [René François Ghislain Magritte (1898-1967), um dos principais artistas surrealistas belgas], Max Ernst [(1891-1976) pintor alemão surrealista]; gosto dos trabalhos de Lucian Freud [(1922-) pintor alemão, neto do médico  neurologista  judeu-austríaco, fundador da psicanálise, Sigmund Freud]. Gosto de Clemente [José Clemente Orozco (1883-1949), um dos maiores pintores mexicanos e um dos protagonistas do muralismo]. Há muitos pintores. Há Don Van Vliet [Don Van Vliet (1941-), pintor e músico aposentado, sua arte é denominada como "abstrata-expressionista aestética neo-primitiva". Sofre de esclerose múltipla], que costuma ser chamado de Captain Beefheart e fazia música nos anos 1960, 1970. Ele é um pintor genial.
José Geraldo Couto: O senhor produziu também um documentário sobre o Crumb [(1943-) artista gráfico e ilustrador, um dos fundadores do movimento underground dos quadrinhos americanos], que é maravilhoso. Robert Crumb.
David Lynch: Terry Zwigoff [(1949-) diretor de cinema estadunidense, conhecido por suas adaptações cinematográficas de desenhos animados alternativos, como Crumb (1994) e Ghost World  (2001)] o dirigiu. Eu conheci Terry em Berkeley, quando eu misturava uma série de coisas na época. E Terry Zwigoff fez um trabalho genial no documentário de Robert Crumb.
José Geraldo Couto: O Crumb seria uma espécie de inspiração sua também?
David Lynch: Não exatamente. Eu o respeito. Ele tinha sua própria maneira de fazer as coisas e usava os quadrinhos. Ele criou um mundo, o mundo de Robert Crumb.
Ricardo Calil: Senhor Lynch, o senhor está aqui no Brasil já há cinco dias. Eu sei que o senhor está correndo muito divulgando a meditação, mas eu queria saber se o senhor... Eu queria que o senhor compartilhasse algumas das suas impressões sobre o Brasil. Eu queria saber, por exemplo, se o senhor acha que a meditação ajudaria a gente a lidar com o trânsito de São Paulo melhor. Seria o suficiente? E gostaria de saber se o senhor encontrou no Brasil alguma idéia inspiradora o suficiente para estar num próximo filme.
David Lynch: Lugares realmente nos trazem idéias. Ao visitar Lodz, na Polônia, durante o Camera Image Film Festival, tive muitas idéias. E acabei filmando Império dos sonhos ali. Uma das primeiras coisas que adorei no Brasil foram os túneis no Rio. Passando por aquelas montanhas belíssimas. Há uma atmosfera maravilhosa ali. As pessoas – e não é por estar aqui com vocês – são as mais cordiais que já conheci. Gentis, hospitaleiras, inteligentes. E tão receptivas a isso tudo, a esse campo, e à possibilidade de dar-lhe vida. Há uma escola nas cercanias de Belo Horizonte, Cidade da Criança, para onde fui, pois eles vêm ensinando meditação transcendental. Ouvi histórias lindas nesse lugar. Um lugar pobre. O pai ou a mãe de uma das crianças está na prisão... Problemas... Muitíssimos problemas. Vocês sabem disso melhor do que eu. Eles ensinam meditação transcendental e ela se torna a técnica das crianças. Algo delas. E todo o seu potencial vem à tona. A felicidade. E as coisas mudam. Entre 2500 e quatro mil crianças a tiveram. Fizemos um grupo de meditação, Donovan cantou. Foi maravilhoso. E eu lhes garanto que haverá mudanças... O estresse existe no mundo todo, e a meditação acaba com o estresse. Basta mergulhar para dentro de si mesmo e vivenciar isso. Crimes... A criminalidade ocorre por causa das frustrações, do estresse por não se conseguir realizar o que se deseja. Mude tudo isso com a meditação e veja o crime desaparecer, o estresse ir embora. O Brasil é um país lindo, mas tem problemas: drogas, estresse, violência nas cidades. E é possível dizer adeus a isso. Há doenças relacionadas ao estresse. Todos parecem sofrer de algum tipo de doença ligada ao estresse. Diga adeus a elas. Livre-se desse estresse naturalmente.
Lillian Witte Fibe: A gente vai fazer então, mais um intervalo e voltamos num instante com o Roda Viva. Até já.
[intervalo]
Lillian Witte Fibe: O Roda Viva entrevista hoje o cineasta americano David Lynch. A gente falava, um pouquinho antes do intervalo, de Brasil - e para quem pegou o programa no meio – o senhor David Lynch é um super especialista em café, tem a grife dele agora à venda nos Estados Unidos. O que o senhor achou do café brasileiro?
David Lynch: [hesita, talvez aguardando que termine a tradução simultânea, e diz] Novamente...
Lillian Witte Fibe: [Interrompendo e rindo] Não, não é verdade que o senhor não experimentou o café brasileiro! Vai experimentar agora, no programa.
David Lynch: Tomei muitos cafezinhos brasileiros, e o café é excelente.
Lillian Witte Fibe: Ok, thank you [obrigada, em inglês] [risos]. Quem queria perguntar antes do intervalo e não conseguiu? Diga, José Geraldo.
José Geraldo Couto: Senhor Lynch, o senhor – como lembrou aqui o Leon – é um artista multimídia. O senhor se expressa em vários meios, né? Mas uma parte considerável da sua arte, que é o cinema, e especialmente os longa metragens, a mim parece que eles precisam da tela grande, não só da tela grande, mas da sala escura e desse ritual coletivo de embarcar em uma atmosfera onírica, em uma atmosfera de sonho, né? Então, em vista disso, eu queria que o senhor comentasse isso, quer dizer, o senhor já falou que gosta da tela grande e do som poderoso e tal, mas como o senhor vê... O senhor acha que o futuro, essa experiência de compartilhar imagens em uma sala escura... imagens e som em uma sala escura vai ser uma atividade quase que nostálgica, romântica, de um grupo pequeno de pessoas? Ou existe futuro para essa forma de expressão e de arte?
David Lynch: Não sei ao certo. Mas ouvi dizer que talvez os grandes cinemas nas cidades estejam partindo para filmes em 3D. Um tipo mais avançado de filme... Para atrair público. Ainda não se tem 3D em casa. Portanto, talvez as pessoas comecem a ir aos cinemas para ver grandes filmes, espetáculos. E os cinemas fiquem lotados. Mas, quanto aos antigos cinemas de arte, é bastante triste. Mas, nos Estados Unidos todos eles fecharam. Restou apenas um número muito pequeno. Aquele tipo de cinema acabará reduzido a telas menores. A não ser que você tenha, em casa, como vê-los em telas grandes. Quanto maior a tela, maior a possibilidade de realmente penetrar naquele mundo. Quanto melhor o som, quanto mais escura a sala, quanto mais silenciosa a sala... Traga toda a comida para perto de você e entre naquele mundo. É uma coisa maravilhosa. Hoje em dia, essa experiência é cada vez mais difícil. Recentemente, vi algo em um domo, como os antigos domos dos planetários, mas, agora eles estão projetando coisas em um domo. Pode-se projetar filmes comuns em um domo. E é possível ter uma experiência incrível em um domo. Talvez um dia todas as casas venham a ter um.
Leon Cakoff: Eu estou, realmente, muito impressionado por esse coisa vocacional que o senhor está nos trazendo, de meditar, né? E eu estou muito curioso, eu queria que o senhor nos desse - e aos telespectadores - três elementos de meditação. Para quem quer embarcar nessa nova experiência. Três elementos para começar a meditar.
David Lynch: Encontre um professor “verdadeiro”. Faça-lhe todas as perguntas. Obtenha as respostas. Compreenda do que se trata. Você vai receber um mantra, um pensamento específico em termos de vibração de som. E esse mantra realmente o faz voltar-se para dentro de sim mesmo. Você aprende o mantra e aprende a usá-lo. Trata-se de um ensinamento bastante específico. E então, você fará sua primeira meditação. Você vai se sentar confortavelmente em uma cadeira, fechar os olhos, vai começar aquele mantra interior e irá transcender. Irá mergulhar para dentro de si mesmo e irá transcender. E vivenciará essa experiência de transcendência. Digo que minha primeira meditação foi sublime. Digo que foi como se eu estivesse em um elevador que tivesse seus cabos cortados [faz um barulho de queda com a voz e o gesto com a mão]. Foram ondas de felicidade. Uma experiência singular. E eu me perguntei: “onde essa experiência sublime havia estado antes?”. Algo profundo... E as coisas começam a melhorar. Você transcende em seu primeiro dia. A cada meditação. E vê sua vida melhorar.
Lillian Witte Fibe: Senhor David, eu acho que muita gente nos vendo pode se perguntar se essa não é uma fórmula de felicidade um tanto simplista. É tão fácil assim chegar à felicidade? Como o senhor, no decorrer desses últimos trinta e tantos anos, enfrentou os seus momentos de infelicidade? Foi sempre recorrendo à meditação?
David Lynch: Não é uma forma simples de felicidade. Mas a pergunta é legítima. Qual a diferença entre uma felicidade simples ou profunda? Passei por experiências de sentir meu corpo todo vibrando com essa felicidade. [faz um som de vibração com a voz e gesticula] Assim. Uma felicidade sublime e completa. Como já disse, uma felicidade física, emocional, mental e espiritual.
Lillian Witte Fibe: Será que é felicidade ou é sentimento de prazer? O senhor concorda com alguns médicos ortodoxos que associam aos neurotransmissores dopamina, endorfina, sibutramina etc?
David Lynch: Sim. Quando se transcende, o resultado disso é esse êxtase, a felicidade. Os acontecimentos de sua vida podem permanecer os mesmos, mas a maneira como você lida com eles, certamente, muda para melhor. Coisas que quase o matavam já não têm aquele poder. E não se trata de ficar insensível. Você ainda vai se zangar, mas vai saber controlar isso. Pode se entristecer, mas isso irá dissipar. Todos nós conhecemos pessoas que não conseguem se livrar do rancor. Ninguém as quer por perto. Elas contaminam a si próprias e o ambiente. Deixe-as transcender e veja aquela raiva ir embora. Elas podem começar a desfrutar a vida. Já aconteceu com tantas pessoas, que você diz: “Isso deve ser algo muito real.”. As histórias sobre como a vida mudou... Pesquisando sobre o cérebro, hoje, mostram os efeitos da transcendência. As pesquisas mostram que, quando você canta, uma minúscula parte de seu cérebro é ativada. Quando você fala, uma outra parte. Quando você pinta, outra parte. Em um eletroencefalograma [exame feito por aparelho que registra graficamente as correntes elétricas do encéfalo, parte do sistema nervoso que fica na cavidade do crânio], a única experiência que ilumina todo o cérebro é a transcendência. Boom! [gesto de expansão com as mãos] Há uma completa coerência do cérebro. Fala-se muito nisso. E é algo que não exige esforço. A maioria das pessoas acha que é algo difícil, que é preciso abrir mão de alguma coisa, se enfiar em uma caverna e se afastar da sociedade. Maharishi torna as coisas fáceis. Trata-se de uma antiga forma de meditação. A natureza da mente busca o que lhe traz a maior felicidade. Uma vez voltado para dentro de si, você parte nessa direção. É por isso que uma criança de dez anos consegue fazer isso. Não se trata de concentração, de algo penoso. Mas apenas de voltar-se para si mesmo. E começar a revelar todo o seu potencial. E as coisas vão ficando muito boas. Desde o início.
Lillian Witte Fibe: Com que idade estão seus filhos, hoje?
David Lynch: Odeio lhe dizer quantos anos tem minha filha. Ela nasceu quando eu tinha três anos [risos] e ela está com 40 anos. Tenho um filho de 25 e outro de 16.
Lillian Witte Fibe: E o senhor cooptou os três para a meditação já?
David Lynch: Desde que eles tinham seis anos de idade.
Leon Cakoff: Senhor Lynch, depois de uma experiência como essa de meditação, que filme o senhor me recomenda, dos seus, para assistir?
David Lynch: Depois de uma experiência como essa? Sinceramente, você poderá assistir a qualquer filme. Eu sei, mas qualquer um de meus filmes o deixará feliz.
[Risos]
David Lynch: Você terá tamanha felicidade que poderá ver qualquer coisa. Eu sugeriria O homem elefante.
Ricardo Calil: Senhor Lynch.
David Lynch: Sim.
Ricardo Calil: Algumas figuras do cinema americano, como Tom Cruise [(1962-) ator e produtor de cinema norte-americano] e o John Travolta [(1954-) ator, cantor e dançarino norte-americano], por exemplo, são vistas com bastante desconfiança por uma parte do público e da mídia, pela ligação deles com a cientologia [sistema de crenças fundado em 1952 pelo autor de ficção cientifica L. Ron Hubbard (1911-1986) e oficializado em 1954, bastante polêmico e muitas vezes criticado por fazer "lavagem cerebral"]. Eu sei que a meditação transcendental não é uma religião, não é um culto, como o senhor enfatizou, mas algumas pessoas podem vê-la assim. O senhor sente que, de alguma forma, algumas pessoas podem vê-lo como uma espécie de lunático, talvez por esse desejo de divulgar a meditação? Ou o senhor acha que seus filmes já eram suficientes para que o senhor fosse considerado um excêntrico?
David Lynch: Há de tudo em Hollywood. Algumas atrizes se colocam contra casacos de peles de animais. Outros se voltam ao combate à Aids. Alguns à cientologia. Alguns mexem com isso ou aquilo e saem por aí falando a respeito. Ou se envolvem com política. E o que sempre se diz é que essas coisas passam. Concentre-se no filme que está fazendo e vá em frente. Quanto à cientologia, eu não sei o que é. Eles dizem que é isso e aquilo, não dizem exatamente o quê. Eu lhe digo o que é a meditação transcendental. Eu lhe conto histórias e há seiscentos a setecentos estudos validando a prática. Validando todos os benefícios da transcendência. Não é uma religião. Pessoas de todas as religiões a praticam. E como a compreensão cresce, cresce a compreensão acerca da religião. Como cresce a compreensão, há uma maior compreensão da religião. Os desentendimentos se dissipam. Vê-se que é algo próprio do ser humano. Quanto aos meus filmes, eu me preocupo. As pessoas dizem: “Ele é doidão e agora vem com essa de meditação.”. Mas quando você fala a respeito, elas dizem: “Espere um pouco.”. Como foi o caso do livro. Muitas pessoas começaram a meditar depois de lerem esse livro, pois não se trata de algo estranho, mas de algo que alimenta o artista, o ser humano. E tudo que estou fazendo é falar a respeito. Apenas uma entre muitas pessoas que falam a respeito. Mas eu entendo a posição das pessoas... Há muitas pessoas estranhas em Hollywood.
Ubiratan Brasil: Senhor Lynch, normalmente a imprensa em geral, mundial, a imprensa mundial costuma destacar sempre o desconforto que os seus filmes provocam no público, taxando o seu cinema como algo bizarro. Gosta de relevar as suas obsessões por café, por acidente de carro. Incomoda um pouco? E conhecendo o senhor um pouco, percebe-se que esse não é o verdadeiro David Lynch, porque percebe-se que essa sua alma é mais artística. Isso lhe incomoda um pouco? Essa posição de homem elefante [fazendo um paralelo com o personagem do filme que é diferente das outras pessoas], digamos assim?
David Lynch: Não. Isso não me incomoda. O público tem direito à sua própria opinião. Há uma frase que diz: “O mundo é como você é.”. Se você vê o mundo através de óculos de lentes verde-escura, esse será o seu mundo. Se você vê o mundo através de óculos cor-de-rosa ou dourados, aquele é o seu mundo. Sempre digo que, quando o cinema se torna abstrato, as interpretações são muitas. Mas todas elas são válidas. As pessoas podem dizer, pensar e fazer o que quiserem.
Laís Duarte: A Gilda Gonçalves, de Niterói, Rio de Janeiro, pergunta: "O senhor, em sua filmografia, aborda com freqüência personagens cujas vidas se situam à margem do grupo social a que pertencem. O que o levou a penetrar nesse universo de rejeição e solidão?".
David Lynch: Idéias. Não é que eu diga: “vou fazer filmes sobre pessoas no limite de seus universos.”. Absolutamente. Vou caminhando pela rua e tenho uma idéia. Eu a vejo, sinto, ouço, anoto e me apaixono por essa idéia. E o dia fica maravilhoso. Sei o que vou fazer, pois adorei a idéia e adorei a maneira como acredito que o cinema poderia transmitir aquela idéia. E vou em frente.
José Geraldo Couto: Senhor Lynch, reforçando uma pergunta que a Lillian fez sobre os seus próximos projetos, então o senhor vai ser produtor executivo de dois outros filmes. Eu queria saber se existe algum projeto seu como diretor, se está em esboço, embrião, algum projeto, se nós podemos esperar um novo David Lynch para os próximos anos.
David Lynch: Não tenho um novo filme de David Lynch. Ainda não. Mas, no momento, estou adorando pintar, adorando música e fotografia. Estou trabalhando em um documentário acerca de uma viagem que fiz a 15 países, falando de meditação e paz. Não é um filme de David Lynch, mas é nisso que estou trabalhando.
Lilian Witte Fibe: Senhor David Lynch, eu que quero agradecer demais a sua presença aqui, mas não sem antes lhe perguntar - o senhor falou tanto que meditação é completamente independente de religião -: o senhor tem alguma religião? O senhor acredita em algum Deus?
David Lynch: Fui criado como presbiteriano. E acredito em Deus.
Lillian Witte Fibe: Ok. Muito obrigada pela sua presença...
David Lynch: Muitíssimo obrigado. Obrigado a todos vocês

Fonte: Memória Roda Viva

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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Impaled Nazarene


A Finlândia não é apenas um país referência em Metal Sinfônico: De lá surgiu também uma das bandas mais blasfemas da história do Metal, o Impaled Nazarene, cujo nome seria uma alusão a certa “mitologia” de que Jesus Cristo teria se transformado em vampiro e, segundo a cultura, para ser derrotado deveria ser empalado.

Em 2004, o então guitarrista Teemu Raimoranta, supostamente cometeu suicídio, pulando de uma ponte direto ao gelo embaixo dela. As autoridades tomaram a causa como outra qualquer, mas o líder Mika Luttinen alimentou a idéia do colega ter realmente se matado.


Em decorrência da reação à posição política assumida pela banda, o IMPALED NAZARENE foi banido de tocar em diversos países europeus e seu álbum “Nihil” de 2000, chegou a ser retirado das lojas na Alemanha.

“Eu estava pensando que essas coisas seriam esquecidas logo”, disse Luttinen, “mas parece que eu estava completamente errado. Não entendo como é possível que alguns Punks esquerdistas tenham tamanha influência e poder que podem cancelar turnês inteiras. Eles dizem que tal artista é de direita e todos dizem: ‘É, é verdade, vamos bani-los.’ Um dos fundamentos da União Européia é garantir liberdade de expressão e liberdade de religião. Nos últimos três ou quatro anos esses direitos básicos foram completamente destruídos na Alemanha e completamente destruídos na Polônia, o último por se tratar de um país com um governo católico extremista que nos atacou. Se a EU deve nos garantir esses direitos básicos, como é possível que governos individuais possam desrespeitá-los? Não faz sentido para mim, deveria ser uma ‘Europa unida’, então como esses países tomam decisões completamente diferentes? Ainda consigo entender a paranóia alemã a respeito da extrema-direita em função do seu passado, mas estamos falando sobre música aqui”.
 



Album Name: Manifest
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 2007
Country: Finland
Track Listing:

1. Intro: Greater Wrath
2. The Antichrist Files
3. Mushroom Truth
4. You Don't Rock Hard
5. Pathogen
6. Pandemia
7. The Calling
8. Funeral For Despicable Pigs
9. Planet Nazarene
10. Blueprint For Your Culture's Apocalypse
11. Goat Justice
12. Die Insane
13. Original Pig Rig
14. Suicide Song
15. When Violence Commands The Day
16. Dead Return

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Album Name: Pro Patria Finlandia
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 2006
Country: Finland
Track Listing:

1. Weapons To Tame A Land
2. Something Sinister
3. Goat Sodomy
4. Neighbourcide
5. One Dead Nation Under Dead God
6. For Those Who Have Fallen
7. Leucorrhea
8. Kut
9. This Castrated World
10. Psykosis
11. Contempt
12. I Wage War
13. Cancer
14. Hate - Despise - Arrogance

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Album Name: Death Comes In 26 Carefully Selected Pieces
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 2005
Country: Finland
Track Listing:

1. Intro
2. The Horny and the Horned
3. Armageddon Death Squad
4. Goat Perversion
5. 1999: Karmageddon Warriors
6. Motorpenis
7. Kohta ei naura enää Jeesuskaan
8. The Endless War
9. Sadhu Satana
10. Ghettoblaster
11. Coraxo
12. Soul Rape
13. Sadistic 666 / Under a Golden Shower
14. Zero Tolerance
15. The Maggot Crusher
16. Let's Fucking Die
17. Tribulation Hell
18. We're Satan's Generation
19. Cogito Ergo Sum
20. Goat Seeds of Doom
21. Condemned To Hell
22. Intro S.F.P.
23. Sadogoat
24. Vitutuksen multihuipennus
25. The Lost Art of Goat Sacrificing
26. Total War – Winter War

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Album Name: All That You Fear
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 2003
Country: Finland
Track Listing:

1. Kohta ei naura enää Jeesuskaan
2. Armageddon Death Squad
3. The Endless War
4. The Maggot Crusher
5. Curse of The Dead Medusa
6. Suffer In Silence
7. Halo of Flies
8. Recreate Thru Hate
9. Goat Seeds of Doom
10. Even More Pain
11. Tribulation Hell
12. Urgent Need To Kill
13. All That You Fear

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Album Name: Absence of War Does Not Mean Peace
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 2001
Country: Finland
Track Listing:

1. Stratagem
2. Absence of War
3. The Lost Art of Goat Sacrificing
4. Prequel to Bleeding (Angels III)
5. Hardboiled And Still Hellbound
6. Into The Eye of The Storm
7. Before The Fallout
8. Humble Fuck of Death
9. Via Dolorosa
10. Nyrkillä tapettava huora
11. Never Forgive
12. Satan Wants You Dead
13. The Madness Behind

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Album Name: Impaled Nazarene/Driller Killer
Band: Impaled Nazarene / Driller Killer
Genre: Black Metal/Punk
Year: 2000
Country: Finland/Sweden
Track Listing:

Impaled Nazarene:
1. Impotent Mankind
2. I Couldn't Care Less (Driller Killer cover)

Driller Killer:
3. How Come?
4. Ghettoblaster (Impaled Nazarene cover)

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Album Name: Nihil
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 2000
Country: Finland
Track Listing:

1. Cogito Ergo Sum
2. Human-Proof
3. Wrath of the Goat
4. Angel Rectums Still Bleed - The Sequel
5. Post Eclipse Era
6. Nothing Is Sacred
7. Zero Tolerance
8. Assault the Weak
9. How the Laughter Died
10. Nihil

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http://www.metal-archives.com/images/1/2/9/1/1291.jpg
Album Name: Rapture
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 1998
Country: Finland
Track Listing:

1. Penis et Circes
2. 6th Degree Mindfuck
3. Iron Fist With an Iron Will
4. Angel Rectums Do Bleed
5. We're Satan's Generation
6. Goatvomit and Gasmasks
7. Fallout Theory in Practice
8. Healers of the Red Plague
9. The Pillory
10. The Return of Nuclear Gods
11. Vitutation
12. JCS
13. Inbred
14. Phallus Maleficarum

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Album Name: Latex Cult
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 1996
Country: Finland
Track Listing:

1. 66.6 S of Foreplay
2. 1999: Karmakeddon Warriors
3. Violence I Crave
4. Bashing in Heads
5. Motorpenis
6. Zum Kotzen
7. Alien Militant
8. Goat War
9. Punishment Is Absolute
10. When All Golden Turned to Shit
11. Masterbator
12. The Burning of Provinciestraat
13. I Eat Pussy for Breakfast
14. Delirium Tremens

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Album Name: Suomi Finland Perkele
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 1994
Country: Finland
Track Listing:

1. Intro
2. Vitutuksen Multihuipennus
3. Blood Is Thicker Than Water
4. Steelvagina
5. Total War - Winter War
6. Quasb / The Burning
7. Kuolema Kaikille (Paitsi Meille)
8. Let's Fucking Die
9. Genocide
10. Ghettoblaster
11. The Oath of the Goat

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Album Name: Ugra-Karma
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 1993
Country: Finland
Track Listing:

1. Goatzied
2. The Horny and the Horned
3. Sadhu Satana
4. Chaosgoat Law
5. Hate
6. Gott Ist Tot (Antichrist War Mix)
7. Coraxo
8. Soul Rape
9. Kali-Yuga
10. Cyberchrist
11. False Jéhova
12. Sadistic 666 / Under a Golden Shower

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Album Name: Tol Compt Norz Norz Norz...
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 1992
Country: Finland
Track Listing:

1. Apolokia
2. I Al Purg Vonpo / My Blessing (The Beginning of the End)
3. Apolokia II: Aikolopa 666
4. In the Name of Satan
5. Impure Orgies
6. Goat Perversion
7. The Forest (The Darkness)
8. Mortification / Blood Red Razor Blade
9. The God (Symmetry of Penis)
10. Condemned to Hell
11. The Dog (Art of Vagina)
12. The Crucified
13. Apolokia III: Agony
14. Body-Mind-Soul
15. Hoath: Darbs Lucifero
16. Apolokia Finale XXVII A.S.
17. Damnation (Raping the Angels)

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Album Name: Goat Perversion
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 1992
Country: Finland
Track Listing:

1. Noisrevrep Taog
2. In The Name of Satan
3. Damnation

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Album Name: Taog Eht Fo Htao Eht
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 1991
Country: Finland
Track Listing:

1. Nuctemeron of Necromanteion
2. Condemned To Hell
3. Impurity of Dawn
4. The Crucified
5. Infernus
6. Morbid Fate
7. Ave Satanas
8. In The Name of Satan
9. Fall to Fornication
10. Damnation (Raping the Angels)

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Album Name: Shemhamforash
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 1991
Country: Finland
Track Listing:

1. Intro
2. Condemned To Hell
3. The Crucified
4. Disgust Suite O:P I
5. Morbid Fate
6. Disgust Suite O:P II
7. Worms In Rectum
8. Conned Thru Life (Extreme Noise Terror cover)
9. Crucifixation (Deicide cover)

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