sexta-feira, 18 de maio de 2012

Alan Moore, uma entrevista



Quase todo mundo que já leu uma HQ na vida concorda que Alan Moore é o melhor escritor do gênero na história do formato. Nos anos 80, ele foi o cara que praticamente sozinho fez adultos covardes admitirem gostar de gibis.

Um filho orgulhoso de Northampton, Inglaterra, que ainda vive perto da área onde cresceu, Moore amadureceu no começo da década de 80 na 2000 AD, a maior fábrica britânica de HQs de ficção científica e fantasia. Sua tira do Judge Dredd reimaginava o personagem com complexidades até então inexploradas. Sua criação, Halo Jones, foi o primeiro título nessa mídia que não retratava uma personagem feminina como uma supermulher peituda ou uma vítima.

Lá pela metade daquela década, Moore tinha revolucionado as HQs norte-americanas, primeiro fazendo o estagnado título da DC Monstro do Pântano pegar no tranco, transformando-o em um livro de busca existencial com preocupações ecológicas, e depois criando Watchmen, que foi a primeira HQ a realmente virar as tropas de super-heróis de ponta cabeça, e que acabou virando um filme abismalmente horrível no ano passado (o qual Moore, felizmente, desaprova).

Várias batalhas legais sobre propriedade e direitos sobre suas criações depois, Moore começou sua própria linha, que meio de brincadeira batizou de America’s Best Comics. De 1991 a 1996, ele produziu Do Inferno, sua própria versão linda e austera da história de Jack o Estripador. Disso também fizeram um filme de merda que Moore desaprova. A série A Liga Extraordinária começou em 1999 e virou um vasto mamute, que mistura histórias ficcionais e imaginadas com versões da nossa própria realidade. Outra vez: filme de merda, Moore desaprova. Em V de Vingança, Moore nos deu sua visão sobre o totalitarismo. E, novamente, filme de merda, Moore desaprovando.

Nos anos mais recentes, Moore produziu um romance complexo, A Voz do Fogo (1996), e um poema longo que trata de garotas que gostam de garotas e garotos que gostam de garotos, chamado The Mirror of Love (2004). Ele também publicou 25.000 Years of Erotic Freedom (2009), que examinava bem o que o título sugere, e Lost Girls (2006), que ele criou com Melinda Gebbie e que envolve Wendy do Peter Pan, Alice de Alice no País das Maravilhas, e Dorothy de O Mágico de Oz tendo muitas e muitas aventuras explícitas. Uma comédia total.

Atualmente Moore está trabalhando em Dodgem Logic, uma revista underground, em seu segundo romance, Jerusalem, e em um guia de magia. Na verdade, Moore é um mago praticante (e não é daqueles de coelho e cartola). Recentemente ligamos pra ele em sua casa em Northampton, e depois que ele nos assegurou que tinha uma xícara de chá em mãos e “quantas xícaras fossem necessárias pra fazer isso”, ficou claro que o Sr. Moore estava a fim de conversar conosco por bastante tempo sobre seu trabalho e suas ideias. E sim, foi um lance mágico.

Vice: A Dodgem Logic é um dos seus novos projetos. Por que não começamos falando sobre ela?
Alan Moore:
Dodgem Logic é uma colisão agressiva e aleatória de todo o tipo de coisas, de textos absurdistas de ficção feitos por Steve Aylett a novos pedaços de trabalho feitos por Savage Pencil e Kevin O’Neill. Esteticamente e em termos de formato ela veio de uma fascinação com a imprensa underground, que é uma cultura que data de antes do jornalismo impresso, mas que se tornou uma realidade popular nas décadas de 60 e 70 quando era uma parte vital da contracultura.

Quais eram as grandes entidades da imprensa underground no Reino Unido naquela época?
Os principais jornais eram o International Times e o Oz, que começou como uma revista de sátiras na Austrália e mudou pra cá, onde se tornou muito mais controverso e psicodélico. Eram tempos inebriantes, e foi a imprensa underground que agia como a cola que mantinha todo aquele elemento da sociedade junto e em contato um com o outro. Sem aqueles jornais, você teria apenas algumas pessoas que usavam roupas parecidas, tinham um gosto musical similar e usavam drogas parecidas. Você não teria um discurso político ou cultural coerente.

E a Dodgem Logic é pra ser uma continuação daquela tradição?
Nós decidimos fazer da Dodgem Logic uma revista de 48 páginas de cores vivas que tenta reinventar a noção de publicação independente para o século XXI. Estamos constantemente tentando deixá-la sem muito polimento. Não queríamos que ela fosse impressa em papel brilhante, porque isso poderia ser algo intimidante, poderia criar uma barreira entre a revista e seus leitores. Nós escolhemos esse visual mais bruto deliberadamente.

Tem várias partes dela que parecem colagens, o que faz com que ela pareça um híbrido entre um jornal underground e um fanzine.
Isso para mim é um elogio. Fanzines costumavam ser uma parte vital da cultura na qual eu cresci, dos fanzines de poesia nos anos 60 até os fanzines de HQ, ficção científica e fantasia dos anos 70 que produziram grande parte do talento que hoje domina os gêneros de HQ e ficção científica. Eles eram pequenas publicações incrivelmente produtivas e continham muita energia. Talvez isso tenha vindo do quão fácil era produzi-los. Não era tão fácil como seria fazê-los hoje em dia, mas agora toda a tecnologia está aqui para fazermos algo muito mais ambicioso do que jamais sonhamos que fosse possível, o ímpeto desapareceu. Talvez o grau de paixão que era colocado em algo como o Sniffin’ Glue ou quaisquer outros dos zines associados com o movimento punk exista de fato hoje em dia, só que online. Eu não sei. Posso parecer antiquado, mas eu ainda acredito que sempre haverá uma diferença entre algo que você olha na tela e algo que você pode segurar com as mãos.

Coisas físicas são melhores. Elas são mais reais.
Tem mais um sentido de um artefato que é parte de uma comunidade e parte de uma cultura.

Uma insatisfação generalizada com o governo e o declínio inexorável da civilização, assim como uma preocupação com a erosão das comunidades locais e da cultura, são temas recorrentes no seu trabalho de O Monstro do Pântano a Watchmen e além. Dodgem Logic parece mais uma maneira direta de lidar com essas questões.
Para falar a verdade, estou bem por fora das HQs. Eu estou continuando A Liga Extraordinária e estou desenhando algumas tiras para a Dodgem Logic, mas não me interesso pela indústria de HQs. Não me considero mais parte dela.

As coisas que você está abordando na Dodgem Logic poderiam ser abordadas em HQs?
Sim, poderiam ser abordadas no formato HQ. Porém, se eu fizesse isso, iria agradar meu público leitor de HQs, e não um mundo mais abrangente, que é onde essas questões precisam estar. Eu devo ressaltar que Dodgem Logic não é uma revista especificamente a respeito de Northampton. É apenas de onde eu e alguns contribuintes somos. Porém, nós olhamos a partir do ponto de vista de que Northampton é o centro exato do país, geográfica, econômica e politicamente. É um modelo bom o suficiente para representar uma cidade comum. As ruas principais estão sendo interditadas, as pessoas estão sofrendo abusos por parte da administração, e há lixo em todo lugar.

O que te levou a falar sobre essas questões tão diretamente agora? Não que faltassem problemas sociais nos anos 80.
Há uns dois anos um grupo de ex-criminosos juvenis entrou em contato comigo. Eles ti-nham trabalhado com música na área de Burrows em Northampton. Foi lá que eu nasci, cresci e onde a maior parte do meu próximo romance se passa. Eles tinham decidido fazer um filme sobre essa área negligenciada. Já que eles sabiam que eu tinha vindo de lá, me perguntaram se eu gostaria de ser entrevistado pro filme. Eles estavam trabalhando em parceria com o Central Museum em Northampton. Eu fui até lá, encontrei com eles, e nos demos muito bem. Eu queria continuar em contato com eles além da duração daquele projeto inicial, então fui todas as semanas para os escritórios de uma organização de ajuda à comunidade local chamada CASPA que estava fazendo um trabalho brilhante na área. Encontrei com os meninos e a tutora deles, que era uma jovem maravilhosa chamada Lucy, e eu inevitavelmente contei a eles sobre a cena local, a cultura underground e os clubes de arte que existiam enquanto eu tava crescendo e que fizeram tanto para me tornar a pessoa que sou hoje. Eu também contei a eles sobre como nós produzíamos revistas e fanzines e organizávamos leituras de poesia e coisas desse tipo. Tenho certeza que foi muito chato pra eles escutarem todas aquelas histórias, mas parece que as ideias colaram. Eles decidiram fazer uma revista sozinhos, para a qual eu contribuí. Tanto eu quanto os meninos queríamos falar sobre alguns dos verdadeiros problemas que afligiam a área, e como era uma vergonha que nós provavelmente não poderíamos tratar disso na revista porque ela era financiada pela Prefeitura. Nós discutimos a possibilidade de fazermos uma revista independente e decidimos tentar. As edições pareceram ser tão importantes para as pessoas daquela área que não podíamos abstê-las da comunidade local. Eu escrevi um artigo que chamava Os Incineradores. Era sobre um velho incinerador que estava na área de Burrows. Era pra lá, antigamente, que o lixo da cidade inteira ia.

Certo, o que é um detalhe esclarecedor.
Isso passou uma mensagem muita clara sobre o que as pessoas da administração pública pensavam das pessoas que moravam naquela área, e ainda que o incinerador tenha sido demolido na década de 30, a mensagem permanece aplicável à área hoje em dia. É para onde a administração pública manda as coisas com as quais não quer lidar: grupos de imigrantes, ex-presidiários e pessoas que estavam em asilos. Todas as pessoas problemáticas são enfiadas nessa vizinhança, muitas vezes em acomodações que foram condenadas pelos bombeiros. Coisas horríveis acontecem aqui todos os dias.

E a administração acabou bloqueando esse artigo?
Sim. Nos disseram que não podíamos publicar o artigo porque era crítico à administração, então Lucy e eu demos um jeito para que ela pudesse trabalhar só três dias da semana na CASPA e nos outros dois trabalhasse em uma revista independente comigo. A administração logo disse a ela que se ela fosse trabalhar dois dias da semana em uma revista independente ela não teria seu emprego na administração nos outros três dias, foi aí que decidi que isso já era demais e convidei a Lucy para trabalhar na Dodgem Logic por tempo integral. As questões que estamos tratando são importantes, e a revista oferece um lugar onde essas coisas podem ser discutidas. Nós não somos presos a nada e podemos dizer o que quisermos. Porém nós não queremos deixar as pessoas deprimidas, então temos tentado colocar o máximo de coisas lá que sejam verdadeiramente divertidas, assim como as coisas sociais e políticas. Essas são estratégias para ajudar as pessoas a passarem por tempos difíceis—dar a elas informação de que elas precisam, mas também dar algo que as anime.

É uma boa causa.
Eu não fiz muita coisa além de passar pela área por muitos anos. Conhecer pessoas boas que moravam lá nessa situação podre foi o que me fez resolver que eu queria fazer alguma coisa com foco naquela área. Burrows está no topo dos 2% de escassez no Reino Unido. Existem áreas iguais por todo o país, mas elas são varridas pra baixo do tapete. Eu também sinto uma ligação emocional com essa área, que eu sempre tive, e vi uma oportunidade de produzir algo lindo e útil sobre aquele ambiente e ao mesmo tempo criar um modelo para outras áreas semelhantes.

No passado você defendeu anarquia tanto no seu trabalho quanto na sua vida pessoal. Essa seria sua resposta aos problemas sociais discutidos na Dodgem Logic?
Bem, na verdade, para a segunda edição eu escreverei um artigo introduzindo a anarquia e explicando como ela poderia ser aplicada de maneira prática na nossa situação atual. Então sim. Uma das coisas para a qual eu estarei voltando minha atenção é o princípio da loteria ateniense. Isso basicamente dita que uma questão que precisa ser resolvida em nível nacional ou administrativo, você aponta um júri por loteria. Eles podem vir de qualquer lugar de dentro da cultura e são escolhidos de maneira completamente aleatória. Os prós e os contras do caso são então apresentados para o júri, eles ouvem, debatem e votam. Após a decisão, eles não fazem mais parte do júri. Eles voltam à sociedade, e para a próxima questão outro júri é escolhido. O sistema parece, para mim, se aproximar de algo como a democracia, que é algo que nós não temos nesse momento. A palavra “democracia” vem de “demos”, o povo, e “cratos”, mandar—“o povo manda”. Ela não diz nada a respeito de representantes do povo eleitos que governam, que é o sistema que temos no momento. Mudando para algo próximo disso, iríamos criar um sistema livre dos muitos abusos do nosso modelo atual de governo. É bem difícil comprar o apoio do povo se você não sabe quem são as pessoas que você deveria estar amaciando. Também seria difícil para o corpo dominante temporário agir em interesse próprio, já que faria mais sentido para eles agirem no interesse da sociedade para a qual eles estariam retornando.

Isso é interessante. Tem elementos de anarquia e democracia.
Sim, isso enquadraria o círculo entre as ideias de anarquia e governo. Minha definição de anarquia é a grega: sem líderes. É difícil pensar em uma sociedade ordenada que se conforme a esse ideal, mas com a loteria ateniense você não teria líderes, você teria indivíduos tomando decisões balanceadas. Seria necessária uma quantidade enorme de mudança constitucional, mas eu gosto de colocar a ideia no mundo para que se torne uma possibilidade e algo a ser discutido. Nossa forma de governo atual claramente não está funcionando, e não dá para continuar tentando remendar um modelo que é inerentemente fracassado. Talvez seja a hora de termos um novo modelo, em vez de colocar remendos no radiador do velho modelo de Ford Bigode que chegou ao fim de sua vida útil.

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quarta-feira, 25 de abril de 2012

Antes de começar meu relato, eu gostaria de deixar bem claro o objetivo dele. Apenas gostaria de passar as impressões e opiniões de alguém que esteve lá e apurou muito antes de falar algo, criar boatos ou opinar. São apenas descrições dos fatos, do olhar de alguém que esteve lá.
Nessa história ninguém é dono da verdade e dificilmente saberemos o que realmente aconteceu enquanto satisfações se confundirem com textos que troquem farpas e aliviem irresponsabilidades.
Portanto, meu intuito não é encontrar culpados (chega de chover no molhado, né?), nem jogar palavras ao vento sobre toda a desgraça que já aconteceu. Acho importante que quando se leia algo, o leitor se identifique com aquilo que está à frente de seus olhos de alguma maneira. Então gostaria de relatar todas as impressões de dentro do festival para que quem esteve lá possa compactuar das opiniões e quem não esteve, para tentar entender o que estava acontecendo ali. Meu objetivo é que debatamos sobre as falhas pensando em como elas devem ser sanadas em um evento no futuro, tirar a culpa de quem não tem nada a ver com o ocorrido (ou seja, tentar fazer os bairristas enxergarem que o Nordeste não tem culpa alguma da falência do evento) e enxergarmos o quanto a cena não pode parar nem se deixar abalar por conta desse grave deslize. Afinal, como outros ótimos textos aqui no Whiplash vêm ressaltando, somos todos GUERREIROS!
Bom, assim como grande parte dos headbangers e de pessoas que integram a cena de alguma maneira, a mim, muito preocupava a grandiosidade do evento pelo que nos era passado em releases e a cada notícia envolvendo o M.O.A., desde seu anúncio oficial, em meados de novembro do ano passado. Para eventos que ocorrem todos os anos e já possuem certa tradição, um período de menos de meio ano para realizar todas as adequações necessárias para a realização de um festival de médio/grande porte, já me parece curto. Agora, imaginem para uma mega produção que teria sua primeira edição realizada? Esse tempo se torna sufocante, eu penso. Tenho humildade em assumir que não tenho o menor knowhow técnico para sair julgando, mas só de pensar em 47 contratos com bandas a serem acertados, já me dava um certo ar de insegurança. Porém, confiando na credibilidade da produtora Negri Concerts que foi a que mais trouxe shows de metal par ao país no ano passado e na liquidez positiva da Lamparina para investimentos, acabei ficando mais tranquila, com um otimismo acomodado, que se manteve até dias antes da minha partida de São Paulo para São Luís. Foi aí que o frio na barriga aumentou e foi se concretizando, aos poucos, a sucessão de infortúnios acerca do M.O.A.
No dia da partida, obtive informações por estar muito próxima a colegas de bandas nacionais, de que muitos dos grupos sequer tinham suas passagens de ida para o festival, apenas vindo a confirmar o que Aquiles Priester tinha divulgado na mídia. Junto a isso, recebi uma ligação de uma colega que estava por lá desde quarta feira, e na quinta (dia de minha partida), estava sem ter para onde ir pois a área de camping, que deveria ter sido aberta ao público neste dia em determinado horário, estava fechada. Pior: ninguém da produção por perto, UM segurança na porta sem saber de nada. Mais tarde, ela me informou que conseguira entrar e que o que mais a espantou era o fato de a área do palco ainda estar sendo capinada e os p.a's de som ainda estarem no chão.
Convenhamos, nem o maior dos otimistas ficaria despreocupado com tais informações. Alguém me explique como coisas básicas e fundamentais como passagens de bandas e equipamento de som ainda estavam incertos um dia antes do festival? Não tive como não pensar na pior das alternativas. Mas, novamente, o otimismo acomodado falou mais alto e deixei os maus pensamentos de lado, acreditando em contratempos normais e numa explicação ótima para isso - que tardou a vir!
No avião, o otimismo aumentou um pouco: embarquei com vários outros headbangers que também tiveram a sorte de vir no mesmo avião das bandas Exodus, Anvil, Exciter, Orphaned Land e Legion of the Damned, Clima bacana! Pra mim, aquilo era a confirmação de que tudo rolaria tranquilamente, afinal, bom sinal que as bandas estão ao menos indo pra lá, ao contrário de algumas bandas nacionais. Sinal de que o problema poderia estar sendo resolvido enquanto eu estava longe da internet e de contatos com os amigos. ERRADO, óbvio.
Isso tudo só me leva a concluir algo óbvio: o que começa errado, termina errado.
Em minha opinião, o que rolou foi que a produção acabou levando esse mesmo otimismo acomodado (acomodado por não levar em consideração os FATOS, mas sim as ambições e o desejo de fazer rolar, somente), a sério demais, a ponto de dar um passo maior que a perna. O que sem dúvida seria o mais correto, era começar com um cast mais modesto, apenas um dia de shows: assim, teriam mais tempo para se preocupar com todo o resto, que vai desde assuntos extra contratuais com as bandas a imprevistos.
Que fossem cinco bandas internacionais e cinco nacionais, ou dois dias com esses mesmo número de bandas cada. Teriam tido tempo, foco e dinheiro para cumprir com exigências de backline e cachê, passagens de TODAS as bandas, e para prevenir toda a estrutura do local contra vistorias da vigilância sanitária e segurança pública. Concordam que é meio óbvio? O público de metal é sedento por novidades e empreendimentos que deem certo e engrandeçam a cena. Ninguém iria deixar de ir ao show pelo cast ser menor. Continuaria sendo um dos maiores festivais a serem realizados no país, pois sem dúvidas os mesmos fãs que estariam ali pelo Anthrax, por exemplo, prestigiariam sem dúvida um show do Korzus ou Stress, principalmente quando se trata de uma região do país onde há uma escassez de shows maior que em outras regiões. Para eles, principalmente, o festival não se tratava apenas de uma atração de entretenimento, mas um motivo de orgulho.
Eu acho louvável a atitude de ter culhões para assumir um compromisso de tal magnitude e importância que é um festival desse porte. Mas mais louvável ainda é conseguir fazer isso com os dois pés firmes no chão, e nisso, eles falharam.
Me expliquem PRA QUÊ prometer rodízio de churrasco com o Mad Butcher dando show? E lagoa? Quem precisa de uma lagoa quando se têm bandas ícones tocando no palco? Caixas eletrônicos? Mercado? Tenho certeza que se não tivessem prometido essas coisas, nenhum headbanger deixaria de ir e sem dúvida o festival não teria sido um fiasco com tal dimensão de repercussão. Se nada tivesse sido prometido, a galera chegaria lá, veria yakissoba a 10 reais e pratão de churrasco com arroz, feijão e macarrão por esse mesmo preço e ia achar ótimo. Afinal, quem vai a shows aqui em São Paulo, por exemplo, está acostumado a ver batata chips de 70 gramas sendo vendida a 7 reais. Festival não precisa ter requinte. Já fui ao Wacken na Alemanha e ele próprio não possui um rodízio de nada lá! São barracas vendendo hamburgueres, sanduíches tipo churrasco grego, macarrão e cerveja. SÓ! Quem quiser requinte que saia do pequeníssimo condado de Wacken e demore horas pra viajar até a cidade de Hamburgo pra gastar uma grana absurda num prato de comida. E nunca vi ninguém reclamar disso por lá. Ok, o Rock in Rio por aqui teve até estande do Spoleto? Sim, mas é um festival que já tem várias edições e se tornou uma verdadeira marca com mega investidores milionários por trás com o passar dos anos. Pode ser que o M.O.A. conseguisse isso no futuro, mas não em sua primeira edição, concordam?
Sem contar algo que foi pregado e não cumprido que me chateou MUITO. A igualdade entre bandas nacionais e gringas me deixou muito feliz e me fez dar muitos créditos à Lamparina no começo de tudo. Senti que seriam respeitadas como deveriam. Mas, logo de cara, começaram a limar os logos de bandas nacionais, como se fossem menos importantes. Elas NÃO SÃO menos importantes. Aliás, se não fossem elas, o segundo dia de festival nem teria acontecido, e não teríamos tido o melhor e mais emocionante show do fest, o do Korzus. O Korzus merecia ter seu logo limado como se não tivesse uma longa carreira de lutas? Para mim, passou a ficar claro que desde o começo, a preocupação era: "vamos focar nas gringas. SE DER, a gente começa a pensar nas nacionais". E não deu! Afinal, muitas nem viajaram por não terem passagem e cachê então, nem entremos no mérito, né? E para mim, o que mais me IRRITA é ler e ver depoimentos como "fiz o que pude", "ocorreram problemas de liquidez", "tivemos dificuldades na reta final". Bem, pra mim, nem precisa ver logística de palco se não tem nem banda confirmada, e confirmação ao meu ver, vem com contrato, cachê e passagens (MÍNIMO, convenhamos!). Não faz sentido também para vocês? Se as bandas que representam metade do cast do festival não têm passagem, isso pra mim não configura um problema de "reta final", mas sim de "reta inicial"!!!
Enfim, exponho tudo isso apenas para exemplificar o que quero dizer com esse lance de prometer muito. Se não tivessem prometido tanta coisa, o efeito não teria sido negativo. Esses dias, me falaram que PALAVRA é algo essencial para a cena rolar. Então eu concluo que muitos bangers ficaram chateados (para não dizer putos), com essa quebra na palavra. Eles confiaram em algo e se sentiram como bobos quando não receberam aquilo que fez seus olhos brilharem ao comprar os ingressos e na hora de parcelar em vinte vezes suas passagens. Então, para um próximo festival, vamos torcer para que fiquem naquele termo do "menos é mais". Se for prometido algo básico e for oferecido algo melhor, já se começa com o pé direito. Não trato aqui de se contentar com pouco, mas se contentar com a realidade. Sonhar é uma delícia, mas não quando se mexe no bolso de 10 mil headbangers. Um passo de cada vez é a minha dica.
Enfim, voltando à descrição do fest… Enquanto estávamos pela cidade durante toda a quinta feita, MUITOS, eu ressalto, MUITOS boatos começaram a rolar, de todas as espécies, fontes e gravidades. Aliás, foi neste dia que conheci a fundo o verdadeiro significado da palavra boato. Muita gente que gosta de falar bastante na internet para se aparecer, para parecer que é sempre o primeiro a saber de tudo e que gosta de gerar polêmica, acabou soltando coisa que começou a desesperar muita gente, e, que na verdade, não passavam de pura balela sem apuração. O resultado foi um pânico parcial, pois muita gente se São Paulo começou a ligar desesperada e preocupada com o que lia na internet, enquanto eu mesma, que estava ali, muito bem acompanhada de gente bem informada, não estava sabendo. Então, outra dica: confiemos em gente com credibilidade numa próxima. Boato é coisa grave. Mas, novamente, boa parte dos boatos só se fortaleceu por conta de outra falha na produção, que eu compreendo que para eles, que estavam resolvendo altos pepinos, seria a última coisa com o que se preocupariam, mas, para nós, da imprensa ou fãs, seria importantíssimo.
Nenhum tipo de equipe de assessoria de imprensa, de ambas as partes envolvidas no evento, se prontificou a lançar notas OFICIAIS quanto ao que estava acontecendo. Ficávamos numa verdadeira sinuca de bico de dúvidas. Boatos estavam sendo alimentados, mas não havia NENHUM pronunciamento oficial para acalmar os ânimos. Isso não se faz! Mesmo que a notícia a se dar seja pavorosa, ela TEM que ser dada. Melhor que se instaurar um pânico e bochichos piores que a realidade. Não via a hora de ouvir algo oficial, para o próprio bem do evento, pelo qual torci até o último fôlego.
Para somar a isso, eu, e algumas outras pessoas de São Paulo, tivemos sérios problemas com rede de celular. Não sei o que diabos aconteceu, mas estava muito difícil rolar uma comunicação decente via celular. Talvez isso seja um caso isolado porque meu celular é um terror, mas, por outras vezes, do nada, em meio a alguma ligação, aparecia um sinal de "rede ocupada" em todos os celulares ao mesmo tempo. Esse, eu diria, seria um dos únicos problemas estruturais mais graves da cidade de São Luís. A cidade tem sim seus altos e baixos e bastante falhas, mas não cabem ao mérito quando quanto ao festival. Afinal, não existe no Brasil uma cidade perfeita, sempre haverão problemas de âmbito governamental e social, infelizmente. Mas, no que diz respeito à realização do festival, desde o momento em que cheguei na cidade, só passei a confirmar mais ainda que nada do que muitos bairristas falaram no começo sobre "a cidade não ter porte para realizar o evento", cairiam por água abaixo. Havia hotéis para quem procurou com antecedência, lugares para comer, visitar, bom trânsito, táxis, policiamento na medida do possível, etc. A maior prova de que isso é verdade e que essa coisa de Nordeste não ter porte pra shows gigantes, são os grandes festivais que já acontecem a um bom tempo como o Abril Pro Rock e o Palco do Rock. Isso sem contar algo importante: no primeiro táxi que peguei por lá, vim conversando com o motorista que disse que sabia que o festival ia acontecer tranquilo, porque outros shows bem grandes, como aqueles de forró e outros estilos que ENCHEM ESTÁDIOS, acontecem com grande freqûencia por lá e não dão errado. Faz sentido, de certa forma. Então, só me leva a crer que se houve alguma falha, com certeza não foi da cidade. E senti isso no depoimento de cada nordestino para mim lá no camping do M.O.A. Muitos estavam preocupados sobre o que esses que sempre falaram que não rolariam no nordeste iriam falar agora, e, pela Tv Maloik, peguei depoimentos de pessoas que enfatizaram bastante isso, dizendo que o Nordeste podia ter muitos problemas, mas que aquela bagunça toda envolvia muita gente de outros lugares e não tinha nada a ver com a região! E sobre isso não há dúvida mesmo: a galera ali é sedenta por shows de qualidade e a cena ali é fortíssima e muito unida. Então por favor, parem com tantos comentários preconceituosos pela internet, isso é desanimador e só demonstra ignorância de gente que não faz idéia do que a cena no nordeste é. Eles têm muitos problemas por lá sim, que PRECISAM ser sanados a tempo de coisas de âmbito maior, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, por exemplo. mas, para que ocorra um festival, as coisas parecem estar dentro dos parâmetros sim.
Primeiro dia de festival já começa com muita incerteza. Eu e a equipe do Whiplash preparadas para ir a campo, mas não tínhamos nem certeza se o festival iria acontecer. Isso porque boatos, juntamente a relatos de amigos nos campings, alimentavam notícias como a presença de vigilância sanitária e bombeiros no local querendo vetar a realização do evento (por problemas básicos, fortemente relacionados ao camping, como falta de postos de alimentação, quedas de luz, condições precárias de higiene e segurança, etc).
Sem dúvidas, nos primeiros momentos, o que mais estava causando problemas era o camping. Muita coisa que estava sendo apontada como errada e que poderiaa chegar a levar ao cancelamento do evento, vinha de lá.
Daí, óbvio a indignação. Seja lá quem foi o responsável por esse quesito (chega de apontar que foi esse ou aquele), porque não pensou nesses problemas estruturais antes? Não havia uma equipe que pudesse agir para resolver com antecedência tudo que pudesse causar problemas em relação àquilo?
Então, no ápice do pensamento, eis que me deparo com uma amiga me mostrando um trecho supostamente escrito pelo Júnior, da Lamparina, no dia 06 de março no grupo do M.O.A. no Facebook, dizendo o seguinte:
"Acho que não devia, mas vou ser sincero com relação a política de camping! Na boa, estamos pagando tanta coisa...Aí uma meia dúzia de pessoas reclamam que não podem entrar com seu leite ninho, nescau e biscoito piraquê, tenha santa paciência, banger toma cerveja e come churrasco, eu pelo menos, estou sedento para rasgar uma picanha na churrascaria mad butcher!!!!!"
Bem, depois dessa, não tenho nem o que comentar. Desejaria que isso fosse um mero boato. Mas, lembram-se do que eu disse sobre sonhar sem o pé no chão? Poisé, se preocupar com picanha enquanto pode sofrer uma intimação da vigilância sanitária, não é lá muito sábio. Se tudo no camping tivesse rolado tranquilamente, eu até acharia engraçada essa afirmação, mas dadas as condições, fica difícil até pensar que isso é sério, não? E a Lamparina não deve levar toda a culpa, todos os envolvidos que concordaram e aceitaram essa condição de deixar fatos fundamentais por último, devem ser creditadas também.
Enfim… Antes de chegar na parte boa (SIM, houve uma parte MUITO boa!), a outra má notícia que pegou a todos de surpresa. A banda Anthrax, para espanto de todos, acabou cancelando repentinamente sua apresentação, mesmo já estando na cidade, pronta para o show.
A partir daí, começaram a rolar os MALDITOS boatos novamente, de que o Anthrax, e váááárias outras bandas teriam cancelado suas apresentações por conta de cachê, segundo o que estava rolando na internet. Muita informação mal apurada, e a gente quase enfartando de pânico lá em São Luís. Daí entramos em mais um tópico polêmico, e eu vou falar AS MINHAS impressões, interpretem como quiserem. Aliás, coloco isso à mesa para debatermos. Não sou dona da verdade, mas conversei com bastante, MUITA gente antes de redigir isso aqui para tirar minhas conclusões.
Até onde eu sei e apurei, o Anthrax cancelou a apresentação por quebras no contrato em relação a backlines. Eles haviam pedido alguns equipamentos que não estavam por lá, como por exemplo, a bateria Tama da qual Charlie é endorsee e, logicamente, havia exigido e não estava lá. Devemos contestar então a atitude do Anthrax? Vi muitas coisas por aí que me dividiram a opinião. É claro que seria ótimo se eles tivessem tocado em respeito a nós, que estávamos lá, e muitos criticaram essa falta de consideração, ficando frustrados, como eu. Mas, entendo também o lado da banda. Charlie deveria fazer o quê? Arriscar seu contrato com a Tama, usando outra marca, sendo que tudo já estava esclarecido desde que a banda foi fechada no cast (uma vez que o backline é algo básico que as bandas sempre pedem para poderem realizar uma boa apresentação de acordo com suas necessidades)? Em minha opinião, existem exigências e exigências. Aquelas coisas do tipo "vinte opções diferentes de almoço" ou "100 toalhas brancas por integrante", acho sem sentido algum, mas quando envolve equipamentos, o lance é outro.
De qualquer maneira, mais uma lição foi tirada dessa triste situação. Aqui, estamos infelizmente acostumados, e quem tem banda pode confirmar, a parte das vezes, na última hora, produtores dizerem que está faltando algo no backline, e, por entender a situaçao difícil e guerreira desses realizadores de show e também para não decepcionar o público, os grupos acabam aceitando. Mas, com os gringos, aprendemos que nem sempre será assim. Talvez esse fato tenha vindo para abrirmos os olhos e tentarmos melhorar essas falhas. A cena só terá a ganhar com mais shows de qualidade.
Enfim, finalmente nos deslocando ao local do evento, quando chegamos por lá, tive a primeira e mais grata surpresa de todas. O festival estava ali, rolando, e o que me deixou mais feliz, LOTADO de gente e com uma puta estrutura de palco, som e iluminação. Aquela vibe de festival estava perfeita até então, fiquei com o coração cheio de esperança. Através das fotos, vocês devem ter percebido do que estou falando, certo? Se os detalhes que citei ali em cima sobre infra estrutura tivessem sido sanados, eu diria que seria uma área digna de um festival legal e de grande porte. Área bem ampla, com muito espaço para camping (POR QUÊ tinham que fazer num estábulo, sendo que ia dar margem pra críticas? Tinha tudo para dar certo!), dois palcos enormes, iluminação classe A, enfim… Na vdd, maior do que aquela alegria que me bateu aquela hora, é a tristeza agoniada agora que tenho que se tudo tivesse sido feito com mais esmero, tinha TUDO, mas TUDO para dar certo, funcionar, e fazer história no país.
E falo isso tão com a boca cheia que, apesar do atraso até o início da primeira banda, tudo acabou rolando quase que perfeitamente e de acordo com o cronograma.
Para quem gosta do estilo, Almah e Shaman fizeram bons shows. Quanto aos das bandas internacionais, ocorreram sem maiores problemas e atenderam às expectativas dos headbangers.
O Exciter teve alguns problemas no som, mas rolou tranquilamente. O Orphaned Land, apesar de não me agradar nem um pouco e para falar a verdade, até me irritar com sua sonoridade por alguns momentos, fizeram um bom show. Se sentiram visivelmente bem recebidos e pareciam muito excitados em tocar aqui pela primeira vez. O público retribuiu com muitos aplausos e cabeças bangueando. O Anvil, ícone do Heavy Metal mundial, também se apresentou bem, porém sofrendo com consecutivas falhas nos microfone do vocalista e guitarrista Lips. O Destruction também só veio a confirmar que NUNCA decepciona ao vivo. Desfilou clássicos do início ao fim em o show mais energético até então. Até então, eu disse! Pois logo na sequência, entrariam os americanos do Exodus, dando uma lição de como se faz um show de thrash metal da maneira mais agressiva e de tirar o fôlego. Até mesmo o vocalista Rob Dukes fazia questão de frisar isso, quando disse: "Vocês querem uma música lenta para poderem descansar? Me desculpa, mas não temos músicas lentas!"! EXCELENTE apresentação, com direito a prêmio Fernanda Lira de melhor show da noite, tendo como concorrente à altura somente o Destruction.
Na sequência, veio o morno show do Megadeth. Talvez tenhamos criado tanta expectativa e medo de ele não tocar no festival por alguma frescurite, que na hora em que terminaram o show, a maioria esperava muito mais. Set curto, poucos clássicos (conseguem acreditar que não tocaram Sweating Bullets?), pausas contínuas e frequentes de Mustaine para reclamar nos bastidores sobre alguns problemas, e visíveis complicações vindas da mesa de som: microfonia, volume oscilante e falhas mais estranhas, como por exemplo, naquela pausa no meio da Holy wars, onde entra um quase dedilhado com a guitarra limpa, O SOM NÃO APARECEU.
Mas, enfim, eu estava feliz demais. O saldo havia sido extremamente positivo. Uma coisa que me demonstrou muita consideração com o público e pelo menos uma sombra de organização, foi a agilidade na troca de palcos. Tenho certeza de que assim que um show temrinava em um palco, o outro já havia sido montado para a próxima banda, que não tardava mais que 10 minutos para entrar. A não ser antes do show do Symphony X, se não me engano, que houve uma pausa de 40 minutos, mas programados, provavelmente para dar uma pausa para os bangers poderem ir ao banheiro ou comer (essa pausa já havia sido avisada, pelo menos para quem era da imprensa).
Tenho certeza que se houvesse alguém que não soubesse o que tinha se passado no camping nem dos problemas nos bastidores e visse o show, não teria do que reclamar.
O clima parecia ser de felicidade, eu pelo menos voltei para o hotel com a alma lavada. Mas sentia-se um certo clima de tensão no ar. Será que os problemas de camping já haviam sido resolvidos ou pelo menos haveria segurança para quem ficasse lá até que as falhas fossem consertadas?
Será que mais bandas vão cancelar?
Mas, eu, pelo menos, fui dormir otimista novamente!
Acordei tarde no dia seguinte, engolindo a comida rapidamente e botando a roupa de qualquer jeito, achando que já estava atrasada para o festival. Quando ligo a TV, reportagem ao vivo de um canal maranhense no local. Todo meu otimismo foi ladeira abaixo. Tudo estava pior do que no dia anterior. Tudo o que tinha me dado um sorriso de orelha a orelha na noite anterior, havia desmoronado, e o festival já tinha sido notícia no Jornal da Globo, Jornal Nacional, e já era capa dos principais jornais de São Luís.
Além do cancelamento do Rock and Roll All Stars, uma série de outros fatores havia vindo à tona. Novamente, o camping era o problema e, por algum motivo ainda desconhecido, um dos palcos havia sido parcialmente desmontado. Passamos o dia inteiro precisando de informações sobre o início dos shows e também da confirmação ou não dos boatos que estavam rolando. Felizmente, empresários da Lamparina deram as caras, e falaram com o público, num ato que achei muito digno. Porém só avisaram que ocorreriam atrasos, deixando muitas dúvidas nas cabeças dos bangers. Tanto que, fiquei sabendo de DEZENAS de pessoas que cancelaram sua vinda ao festival exatamente por não saberem se ele rolaria ou não. Isso é grave, deveria ter havido, novamente, algum pronunciamento oficial.
Nossa equipe se deslocou até o hotel onde algumas bandas estavam hospedadas e começamos a sondar respostas. Mas, o clima era de suspense, ninguém sabia qual banda começaria, qual banda cancelaria, e o pior, se o festival iria rolar. Essa dúvida permaneceu até quase sete da noite, quando a banda Ácido subiu ao palco.
Boatos sobre o cancelamento do Blind Guardian e Grave Digger eram fortíssimos, mas ainda sem nada concreto para acalmar, ou revoltar o público.
Mas, seguimos para o festival e o clima por lá foi negativamente surpreendente, INFELIZMENTE. Digo infelizmente porque eu, assim como vários outros headbangers, torcemos, acreditamos e queríamos mais que TUDO que esse festival rolasse. Eu acreditei e apoiei até o último momento. E fiquei muito triste quando cheguei por lá.
Logo após ingressarmos, infelizmente constatamos que muitas pessoas estavam entrando sem ingresso, credencial ou qualquer outro tipo de passe. Triste para os bangers que pagaram, mas o meu medo era maior quanto à segurança. Bandido é esperto. Numa dessas, pra entrarem de graça por lá e tocarem o terror, é um passo.
Como estava também com uma câmera de vídeo para gravar algumas imagens para o programa de TV do qual sou repórter, o Maloik, muita gente vinha me pedir por informações e ajuda, e eu sinceramente não sabia o que responder. muitos deles, inclusive, vinham PEDINDO para dar entrevista, como fosse sua última maneira de desabafar. Muitos me falaram sobre segurança, e, em determinado ponto da noite, enquanto a banda Dark Avenger tocava, eu fui averiguar e realmente havia pouquíssima segurança. Pasmem colegas de imprensa, entre a grade de público e o palco, não havia alguma pessoa da equipe lá em dado momento. E, o mais lindo de tudo, foi ver que os bangers, educados e politizados que somos apesar de toda a bagunça que a mídia fala sobre nós, nem sequer invadiram a área. Somente fotógrafos estavam lá. A área de camarote, sim, havia sido tomada por varias pessoas do público. pois não havia segurança. Depois de algum tempo, a segurança se normalizou novamente, fazendo presença por vários pontos do festival. Mas até isso aocntecer, pude sentir um clima de medo e insegurança.
Mas o pior dos climas que eu senti, estava por vir. Alguns fãs tinham me relatado sobre uma certa sensação de abandono, que se sentiam abandonados, à mercê de qualquer coisa que a produção decidisse e sem poder para fazer nada. Quando ingressei no camarim, isso se confirmou. Ele, que estava hiper movimentado e equipado no dia anteiror, havia sido quase totalmente retirado, sobrando apenas geladeiras e um camarim em pé. Quase ninguém da produção rondava, as pessoas andavam de um lado por outro sedentas por informação… Foi realmente muito triste. Conversei com uma pessoa muito importante lá no camarim que me explicou muitas coisas sobre o que estava acontecendo, coisas estas que já foram esclarecidas nas notas que ambas as produtoras divulgaram nos últimos dias. O palco, o camarim, aquela hora sem seguranças, tudo ocorreu por falta de pagamento, o que é MUITO triste. Tudo isso deveria ter sido acertado antecipadamente, não é mesmo? E isso me entristeceu, porque, pensem comigo, se tudo isso tivesse sido pensado e fechado previamente, o festival continuaria rolando tão lindamente quanto aconteceu na sexta feira. Isso me cortou o coração.
E e pergunto mais ainda: se os pagamentos de algumas coisas não haviam sido efetuados, se as bandas nacionais quase todas foram deixadas em segundo plano, se as condic'ões do camping não foram analisadas, o que rolou em todos esses meses que antecederam o festival?
Acho que essa pergunta expressa grande parcela da indignação de todos os metalheads que estavam por lá e sofreram as consequência dessa possível falta de panejamento e visão.
A partir dessas constatações, pude entender perfeitamente o por quê das banda sque tocariam naquela noite terem cancelado, Não foi cachê, não foi backline, mas sim o acúmulo de todas essas condições. Em minha opinião, elas estão na razão delas.
Com tudo isso, eu cheguei à conclusão bem particular (esse foi o MEU sentimento) que, com tudo isso que me foi esclarecido, seria muito difícil o festival 'sobreviver' até o dia seguinte. Para isso aocntecer, teriam que tirar dinheiro de algum lugar, derrubar liminares de órgãos como a vigilância sanitária que ovamente passaria pelo camping, e tudo o mais. Tenho certeza de que eles da produção lutaram até o último minuto para fazer o festival acontecer até seu fim, mas eram muitas coisas que precisariam ser resolvidas num pouquíssimo intervalo de tempo, já que não foram solucionadas com meses de antecedência.
Isso me causou muita tristeza, porque logo na sequência fui ver o MARAVILHOSO e EMOCIONANTE show do Korzus, com um nó do tamanho do planeta na garganta.
Tristeza porque todos ali estavam de coração aberto para curtir metal, para demonstrar sua paixão pela música e o quanto ela representa para cada um deles, afinal, quem vive, sabe que metal está longe de ser um estilo de música, mas, sim, um estilo de vida! Tristeza de ver que mesmo sabendo que aquele poderia ser o último show do festival, eles estavam ali, curtindo cada segundo como se nada tivesse acontecido, prontos para gritar e apoiar quem pisasse ali no palco. Tristeza de ver que o sonho de 10 mil pessoas que mal pudiam ver a hora de conferir um festival à altura de sua devoção para o metal, ir por água abaixo.
Muitos choravam, ouvi até gente querendo fazer uma vaquinha coletiva para conseguir dinheiro para pagar o que faltava, e muitos abraçavam os colegas do lado, dizendo que pelo menos a união de quem estava no camping fez valer à pena.
O show do Korzus veio para que todos se sentissem representados. No palco, o Pompeu disse palavras que todos ali gostariam de falar. Confirmou que somos todos guerreiros, que nem mesmo um desastre como aquele nos faria desistir do metal, porque nós, da cena nacional, somos fortes e apaixonados demais para deixar que isso aocntecesse.
Impossível segurar as lágrimas durante o hino nacional cantado em côro, por pessoas que, com aqule gesto, queriam mostrar que acreditam, apesar de tudo, no metal no Brasil, e isso é lindo e muito verdadeiro.
Após o show do Korzus, uns ainda alimentavam a esperança de que mais bandas tocassem, mesmo com o palco já sendo desmontado.
Devido a compromissos em São Paulo com a minha banda, tive de retornar, mas com aquela preocupação com todos os amigos e irmãos do metal que ficaram ali com suas passagens marcadas para domingo ou segunda, com suas barracas à mercê de todo perigo no camping e tudo o mais. Chegando em casa, vi que o que eu previa, havia acontecido: o festival não sobrevivera.
Para falar a verdade nem estou ligando muito para o que a bosta da mídia não especializada está pensando de nós depois disso, afinal, eles nUNCA se interessam em compartilhar nada das milhares de coisas boas que acontecem todo dia em cada canto do país relacionado ao metal, mas quando alguma desgraça acontece, são os primeiros a nos denegrir, afinal, para eles, metal é e sempre será bagunça, não é?
Mas ligo muito para o que a cena perdeu com a queda de um fest dessas proporções, ainda não acredito que o sonho de termos o maior festival do país para nossa alegria (sem piadas, por favor) se esvaiu tão rapidamente, por problemas, digamos eminentes.
Enfim, em minha opinião, ficar culpando este ou aquele, ou tentar achar quem é mais culpado que quem, é chover no molhado e não vai levar a lugar nenhum. Devemos ler os relatos, analisar as notas oficiais e tirar nossas próprias conclusões. Quanto aos produtores, tenho plena certeza de que sabem de todos os problemas que ocorreram e que deverão arcar com as consequências, ninguém tentou dar golpe, e muito menos vão fugir de suas repsonsabilidades legais quanto ao ocorrido.
Resta aos headbangers que se sentiram lesados, seguirem os procedimentos corretos para que reinvidiquem seus direitos.
E espero que com o meu texto, possamos refletir sobre tudo o que houve e torçamos para que os problemas apontados sejam sanados e prevenidos em uma próxima vez. E essa próxima vez, VAI acontecer. Afinal, headbanger é headbanger! E é claro, o rock não pode parar!

Por Fernanda Lira 

    Fonte: Whiplhash

sábado, 7 de abril de 2012

Não me abandone jamais ...

Me chamo Kathy H. Tenho trinta e um anos e sou cuidadora há mais de onze. Tempo demais, eu sei, mas eles querem que eu fique mais oito meses, até o fim do ano. O que dará quase exatos doze anos de serviço. Sei que o fato de ser cuidadora há tanto tempo não significa necessariamente que meu trabalho seja considerado fantástico. Houve alguns ótimos cuidadores que receberam ordem de parar depois de dois ou três anos apenas. E eu conheço pelo menos um que ficou os catorze anos completos, apesar de ter sido um desperdício total de espaço. Portanto, minha intenção aqui não é me vangloriar. Mas não resta a menor dúvida de que eles estão satisfeitos comigo e de modo geral não tenho do que me queixar. Meus doadores sempre foram muito melhores do que eu esperava. Todos se recuperaram com uma rapidez impressionante e quase nenhum chegou a ser classificado como 'agitado', nem mesmo antes da quarta doação. Muito bem, talvez eu esteja me vangloriando um pouco agora, admito. É que significa um bocado para mim poder dar conta direito do trabalho, sobretudo essa parte dos doadores continuarem 'calmos'. Desenvolvi uma espécie de instinto em relação a eles. Sei quando devo permanecer por perto oferecendo consolo e quando é melhor deixá-los em paz; quando escutar o que têm para falar e quando tão-somente encolher ombros e dizer-lhes que não se entreguem ao desânimo.
De todo modo, não estou reivindicando nada de muito grandioso para mim. Conheço cuidadores que trabalham tão bem quanto eu e que não recebem nem a metade dos créditos. Se você for um deles, entendo o motivo de possíveis ressentimentos — em relação a meu conjugado, meu carro e, acima de tudo, ao fato de eu mesma escolher os que vão ficar sob meus cuidados. Sem falar que sou de Hailsham — o que por si só muitas vezes é suficiente para deixar as pessoas de mau humor. Elas dizem, a Kathy H.? Ela escolhe o pessoal a dedo, e sempre da turma dela: gente de Hailsham ou de algum outro estabelecimento igualmente privilegiado. Não é à toa que ela tem uma ficha excelente. Nem sei quantas vezes já escutei isso, e posso imaginar que você ouviu muitas mais, de modo que talvez haja um fundo de verdade aí. Mas não fui a primeira a poder escolher, e duvido que seja a última. De qualquer forma, já fiz minha parte, cuidando de doadores trazidos de tudo quanto foi lugar. Até eu terminar meu serviço, não se esqueça, terei completado doze anos, e só nos últimos seis é que eles me deixaram escolher.
E por que não me deixariam? Cuidadores não são máquinas. Nós tentamos fazer o melhor possível para cada um dos doadores, mas no fim o serviço é exaustivo. Paciência e energia têm limite, e isso vale para todo mundo. De modo que quando surge a oportunidade de escolher, claro que você vai optar por pessoas semelhantes a você. Isso é natural. Eu não teria tido a menor condição de continuar fazendo o que faço durante tanto tempo se porventura deixasse de nutrir sentimentos pelos meus doadores em cada uma das etapas percorridas. Além do mais, se eu não tivesse obtido permissão de escolher, não poderia ter me reaproximado de Ruth e Tommy depois de tantos anos, não é mesmo?
Nos dias que correm, claro, há cada vez menos doadores conhecidos, o que significa que na prática não tenho escolhido tanto assim. E, como eu sempre digo, quanto menos ligação existe com o doador, mais difícil fica fazer o serviço; portanto, mesmo que eu sinta falta de ser cuidadora, acho correto dar finalmente por encerradas minhas atividades no final do ano.
Ruth, por falar nisso, foi apenas a terceira ou quarta doadora que pude escolher. Já havia uma cuidadora designada para ela, na época, e lembro-me que foi preciso uma certa dose de coragem de minha parte. Mas no fim dei um jeito, e assim que a vi de novo, naquele centro de recuperação de Dover, nossas diferenças — ainda que não tivessem exatamente sumido do mapa — não me pareceram nem de longe tão importantes quanto tudo o mais: o fato de termos crescido juntas em Hailsham, o sabermos e nos lembrarmos de coisas que ninguém mais sabia ou das quais ninguém mais se lembrava. Foi dessa época em diante, imagino, que comecei a buscar nos doadores pessoas conhecidas no passado e, sempre que possível, de Hailsham.
Houve épocas, no decorrer desses anos todos, em que tentei esquecer Hailsham e me convencer de que não seria bom ficar olhando tanto para trás. Porém num determinado momento simplesmente parei de resistir. E isso teve a ver com um doador em particular, de quem tomei conta certa feita, no meu terceiro ano como cuidadora; com a reação dele quando comentei que era de Hailsham. Ele tinha acabado de sair da terceira doação, que não dera muito certo, e já devia saber que não iria se safar. Embora mal conseguisse respirar, me olhou e disse: 'Hailsham. Aposto como era um lugar lindo'. Na manhã seguinte, batendo um papinho na tentativa de distraí-lo daquilo tudo, perguntei de onde ele era; o doador mencionou algum lugar em Dorset e sua expressão, por baixo da pele manchada, passou a um tipo bem diferente de esgar. Foi então que caí em mim e percebi a vontade imensa que ele tinha de não se lembrar de nada. Tudo o que ele queria era que eu falasse de Hailsham.
Portanto, durante os cinco ou seis dias que se seguiram, contei-lhe tudo o que ele quis saber, enquanto, do leito, ele me ouvia fascinado, com um leve sorriso nos lábios. Falei dos nossos guardiões, das caixas com as coleções que eram guardadas debaixo da cama, do futebol, das partidas de rounders, do caminho estreito que contornava todos os cantos e recantos externos do casarão, do lago com os marrecos, da comida, da vista que tínhamos das janelas da Sala de Arte pela manhã, com os campos cobertos de bruma. Às vezes ele me fazia repetir vezes sem conta a mesma coisa; algo que eu mencionara no dia anterior voltava a ser alvo de perguntas, como se ele nunca tivesse escutado uma única palavra sobre o assunto. 'Vocês tinham um pavilhão de esportes?' 'Quem era seu guardião predileto?' De início, pensei que fosse apenas efeito dos remédios, mas depois me dei conta de que ele estava bem lúcido. Mais do que ouvir falar de Hailsham, ele queria se lembrar de Hailsham como se Hailsham tivesse pertencido a sua própria infância. Sabia que estava perto de concluir, de modo que me fazia descrever as coisas de forma que elas penetrassem de fato em sua lembrança. A intenção dele, talvez— durante as noites insones devido aos remédios, à dor e à exaustão —, era tornar indistintos os contornos que separavam as minhas memórias das suas. Só então compreendi, compreendi de fato, quanta sorte tivéramos — Tommy, Ruth, eu, na verdade todos nós.
Ainda hoje, dirigindo pelas estradas do interior, vejo coisas que me fazem lembrar de Hailsham. Às vezes, passando por um trecho sob neblina ou descendo a encosta de algum vale, ao divisar parte de um casarão ao longe, e até mesmo quando vislumbro o desenho formado por um grupo de choupos plantados no alto de um morro, logo me ocorre pensar: 'Talvez seja ali! Achei o lugar! Aquilo é Hailsham, só pode ser!'. Depois percebo que é impossível e sigo adiante, com os pensamentos vagando por outras paragens. Em especial, há os pavilhões. Vejo-os por todo o interior, sempre erguidos ao lado de um campo de esportes — pequenas construções pré-fabricadas, pintadas de branco, com uma fileira de janelas numa altura absurda, bem lá em cima, enfiadas quase debaixo dos beirais. Acho que eles devem ter construído um monte desses pavilhões nos anos 50 e 60, época em que muito provavelmente também construíram o nosso. Toda vez que passo perto de um, olho comprido para ele durante o tempo que for possível, e qualquer dia ainda vou causar um acidente por causa disso, mas não consigo evitar. Não faz muito tempo, eu rodava por um trecho deserto de Worcestershire e vi um, ao lado de um campo de críquete, tão parecido com o nosso em Hailsham que cheguei até a fazer o retorno e voltar para dar uma segunda olhada.
Adorávamos nosso pavilhão de esportes, talvez porque nos trouxesse à mente aquelas deliciosas casinhas que apareciam em tudo quanto era livro ilustrado, quando éramos crianças. Lembro-me de nós, ainda nos anos Júnior, implorando aos guardiões para que dessem a aula seguinte lá, e não na sala habitual. Mais tarde, quando cursávamos o Sênior 2 — quando tínhamos doze para treze anos —, o pavilhão se tornou nosso esconderijo predileto, nosso e dos nossos amigos mais íntimos, quando queríamos fugir de tudo e de todos em Hailsham.
O pavilhão era suficientemente grande para abrigar dois grupos distintos sem que um incomodasse o outro — no verão, um terceiro grupo podia ficar na varanda. Mas o ideal é que você e seus amigos ficassem com o lugar só para si, de modo que era muito freqüente haver discussões e empurra-empurra. Os guardiões viviam nos dizendo para agirmos com civilidade a respeito, mas na prática era preciso contar com personalidades fortes no grupo para ter alguma chance de conseguir exclusividade no pavilhão durante um recreio ou um período livre. Eu própria não era do tipo franzino, mas desconfio que foi de fato graças a Ruth que conseguimos nos reunir lá com a freqüência com que nos reuníamos.
Em geral não fazíamos mais que nos aboletar nas cadeiras e nos bancos — éramos cinco, seis quando Jenny B. ia junto — e bisbilhotar sobre a vida alheia. Havia um tipo de papo que só tinha possibilidade de acontecer quando estávamos escondidas lá no pavilhão; só então podíamos conversar sobre alguma coisa que estivesse nos preocupando, assim como também podíamos acabar às gargalhadas ou num arranca-rabo danado. Na maior parte das vezes, era uma forma de descontrair um pouco, ao lado das amigas do peito.
Nessa determinada tarde à qual me refiro agora, estávamos em pé sobre banquinhos e bancos, amontoadas em volta das janelas altíssimas. Isso nos dava uma visão muito boa do Campo de Esportes Norte, onde cerca de doze meninos, do nosso ano e do Sênior 3, se preparavam para jogar futebol. O tempo estava claro, mas devia ter chovido pouco antes, porque me lembro da luz do sol cintilando na superfície da relva enlameada.
Alguém comentou que não devíamos espiar daquela maneira assim tão óbvia, mas nós mal recuamos da janela. E então Ruth falou: 'Ele não desconfia de nada. Olha só para ele. Ele de fato não desconfia de nada'.



Kazuo Ishiguro

( ...) 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Trey Spruance, uma entrevista

o1) Gostaria de saber qual o problema que está fazendo nós fãs esperarem tanto tempo por um novo CD, pois das outras vezes o que ouvíamos é "o Patton anda ocupado com o FNM". Mas e agora?Há um grande cadáver na garagem. Nenhum de nós quer ser o primeiro a ter que limpá-lo. Provavelmente, o que todos esperamos é que os vermes comam toda a carne, aí poderemos lidar com isso juntos. Esta é a essência de uma democracia, no fim das contas: limpar cadáveres, etc.

02) Você e o Patton estão conversando sobre compor um novo álbum do Mr. Bungle? Ou você não tem tido tanto contato com ele nos últimos tempos?
Nós estamos oficialmente tentando entrar em contato um com o outro agora. O
que isso significa além de alguns telefonemas ainda está no ar.

03) Você sabe o que os outros músicos do Mr. Bungle estão fazendo agora?Sim – dois estão na Austrália (n. do e.: Danny Heifetz e Bär Mc Kinnon). Queria estar lá também. O mais provável é que eu vá parar no Irã, aliás – acho que lá eles vão tomar meu passaporte no aeroporto, e eu vou acabar tendo que morar na rua. Mas pelo menos eu posso usar meus limitados conhecimentos de farsi (n. doe.: dialeto persa) para enganar e extorquir todos os agentes da CIA infiltrados lá.

04) Qual foi o momento mais memorável tocando com o Mr. Bungle?
Quando fomos coletivamente amaldiçoados por uma fã bruxa psicótica que fez com que todo nosso equipamento quebrasse. Depois nós ficamos histéricos e destruímos o equipamento de luz, entre outras coisas. Tinha vidro por todos os lados. . Nós temos um quê de ultraviolência na nossa personalidade, então eu concluo que sim, nós merecemos alguns fãs metidos a bruxa má. Nesse dia, nós empurramos as caixas de retorno em cima do público e elas acabaram virando destroços que forma jogados de em nossa direção. Patton caminhou sobre as cabeças e os ombros das pessoas e chegou até o bar, onde ele derramou vodka goela abaixo de de quem ele achava que era menor de idade... Aí os donos do clube não queriam nos deixar sair e acabaram nos trancando. Eram uns ítalo americanos enormes que nos matariam se não pagássemos pelos estragos na hora (normalmente essas coisas são acertadas depois, mas quem pode culpá-los? Nós éramos doidos!). Nossos fãs ainda estavam lá fora e um deles chamou a polícia. Os policiais nos pegaram de surpresa, eles tiveram que arrombar o lugar. Deixamos um cocô dentro do microondas e pusemos na mais alta potência logo antes de sair do lugar. Não foi necessariamente uma boa noite, mas foi memorável. Tiveram outras como essa, a maioria delas aconteceu no começo dos anos 90.

05) No infame show no Phoenix Concert Theater (da turnê do primeiro álbum nos EUA em 30/03/92), o Mike Patton bateu em alguém da platéia com o microfone durante uma cover da música "Time" do Alan Parsons Project. Qual foi a reação da banda depois do acontecido? E o que aconteceu com o cara quando ele foi pros bastidores com a banda?A única razão de ele ser "infame" é porque alguém estava filmando. Pergunte a pessoas que estiveram nos shows em Tijuana, Cleveland ou Houston naquela mesma turnê se você quiser saber o que é realmente "infame". Mas, se me lembro bem, o cara foi super tranqüilo em relação ao acontecido. Eu não vi quando aconteceu, então não tive reação alguma. Só vi que um cara estava sangrando, o que acontece quase toda noite. Eu acho que ele acabou nos processando. Ele foi super legal, do tipo "tudo bem, cara" e depois nos processou. Eu não o culpo. Cara!...

06) Como é o processo de composição das músicas do Mr. Bungle? Como cada um de vocês faz parte dele?Está sempre mudando. Aí é que está a beleza disso. Eu defendo um padrão de total “socialismo composicional” para o futuro. Créditos por escrever música e afins tendem a atravessar todas as fronteiras – e eu sou culpado de escrever muito da música do Bungle - sendo orgulhoso o suficiente a respeito das minhas contribuições para querer que elas fossem creditadas de forma correta. Cansei disso. Quem se importa? Mike Patton escreveu e produziu tudo. Ótimo.

07) Que equipamento você usa em estúdio e shows? Qual o seu set de
amplis, guitarras, efeitos?

Opa. Estúdio – a última vez, nós linkamos três máquinas Studer de rolo 2 polegadas. Eu acho que o California foi a última produção de grande porte feita em equipamento analógico na história. Nada desse tipo vai ser feito. Não usamos Pro Tools, nada dessas bobagens de computador. Foi tudo no velho lixo vintage – LA2A, 1176, V72, 1272, C24, M49, U47/87, EMT, Pultec (n. do e.: compressores, processadores e microfones antigos), é só falar o nome, que nós usamos – além das enormes mesas Neve com automação GML, evoluindo para uma gigantesca mesa SSL de 96 entradas, que fez a gente voltar várias vezes para mexer naqueles faders pequenininhos. Nós usamos até 125 canais num certo ponto da gravação. Nossas armas secretas são os spring reverbs (os baratinhos) e space echoes. Como se isso não fosse óbvio. Mas aplique a compressão DEPOIS de aplicar o efeito, OK, seus retardados? E aplique no CANAL, MALDIÇÃO. Não “espere até a mixagem”.
Joça. Ao vivo nós usamos o ferro-velho padrão: ampli de baixo SWR, uns Kurzweil K2500 (n. do e.: teclados) etc.. Na guitarra eu só uso o POD (n. do e.: pedal simulador de amplis) ligado num spring reverb baratinho para o canal limpo, e um JMP-1 (n. do e.: pré-amp da Marshall) velhinho e surrado para a distorção. Tudo direto. Nem sei de que marca é a minha guitarra – algum cacareco de 100 dólares. Eu concentro mesmo todo o meu esforço é em organizar a maldita banda toda em torno do cérebro do meu K2500 e seus dois filhinhos, tocados pelo Bär Mckinnon e por um músico contratado. Nós mandamos 8 saídas (4 pares de estéreo) agrupadas de acordo com: a) reverb; e b) quem precisa ouvir o que no seu retorno. Não há uso de sequencers nem programações. Tudo é tocado, e quando há samples, são samples de nós mesmos – coisas que eu tive que reagrupar as três máquinas de rolo do estúdio para conseguir os conjuntos certos de sons e mixá-los para usar ao vivo como samples. Normalmente, há 32 camadas de som em cada teclado para CADA MÚSICA. É inimaginavelmente complexo...demais para começar a explicar. Foda-se a Kurzweil por não nos ter dado um endorsement. NINGUÉM exigiu tanto ou aproveitou todo o potencial dos teclados deles como nós. Mas graças a Deus que eles os fabricaram, porque nós estaríamos mortos sem eles.




08) Eu notei que no California existem várias alusões à religião. Há algo em particular neste assunto que fascina vocês ou apenas fazia parte do contexto que vocês selecionaram para contar as suas histórias?Isso foi provavelmente minha culpa. Desculpa. Os membros da banda são agnósticos. Eu sou um esquizofrênico, então não tenho como me enganar Daí a tentativa maníaca de superar a maldição do pós-modernismo com um criptotradicionalismo musical fanático que às vezes aparece nas letras/encartes/conceitos do Mr. Bungle. Como disse, minha culpa, gente. Desculpa.

09) O que você acha de bandas como System Of A Down e Slipknot? Eles costumam citar o Mr. Bungle como uma de suas principais influências.
Tem um cara chamado Vigan que morreu recentemente (n. do e.: Vigen Derderian, morreu nos EUA dia 26 de outubro, aos 73 anos). Ele era um popstar armênio/persa. Imagino se o Shavo ou o Serge (n. do e.: baixista e vocalista do SOAD, respectivamente) ou algum desses caras o conhecia. Enfim, eu não tenho problemas com o System Of A Down – eles foram bem legais conosco quando excursionamos com eles. A indústria da música e o rock em geral são tão escrotos, de um jeito que você não acredita, especialmente quando você está “dentro” deles. Eu não sei como esses caras lidam com isso. Ah, sei sim. Drogas. Eu não agüentaria, mas eles são
armênios, eles vão ficar bem. O Slipknot eu conheço mais de nome e sei que o vocalista é um "cara legal", segundo alguns conhecidos meus do Death Metal. Por isso, vou evitar qualquer julgamento (o que eu admito que seria bem ruim se eles fossem baseados no pouco que eu vi e ouvi).

10) Você pode me indicar um bom livre introdutório à religião/filosofia oriental, sendo ele geral ou específico (por exemplo, indiano)? Acho perda de tempo não ler no ônibus.
Bem, “oriental” é uma palavra genérica, que engloba muita coisa. Devo dizer que os assuntos que estou lendo – xiismo, sufismo (n. do e.: variações do Islã) e afins – não são fáceis de digerir para muitas pessoas. Indo direto à fonte, Rumi e Hafez (n. do e.: poetas medievais afegão e
iraniano, respectivamente) são boas pedidas, mas estão sendo “superbadalados” no momento, então tome cuidado. Sinceramente, a melhor introdução para esses assuntos viria provavelmente de uma perspectiva orientalista ocidental mas-não-tão-fraca-assim, como a do
Henry Corbin (n. do e.: filósofo francês que viveu de 1903 a 1978). Seus livros “Swedenborg e o Islã Esotérico” ou “O Homem de Luz do Sufismo Iraniano” são boas introduções (n. do e.: não há traduções para o português dos livros de Corbin). As verdadeiras obras-primas dele não são coisas que eu posso recomendar de cara, porque são muito difíceis sem que se tenha uma base tanto em filosofia islâmica quanto em ocidental. Na verdade, Seyyed Hossein Nasr (n. do e.: físico iraniano especializado em Cosmologia e Ciência Islâmica, é professor do assunto na Universidade de Georgetown, EUA) também escreveu clara e maravilhosamente bem sobre os assuntos Islã, Misticismo e Tradicionalismo durante muito tempo. Entre esses dois autores, você tem uma vasta lista pela frente, mas vale a pena. No sentido mais amplo de “oriental”, mas não tendo a ver com qualquer um dos meus trabalhos, eu posso recomendar de todo o coração as obras de Chogyam Trungpa Rinpoche (n. do e.: filósofo tibetano, professor de budismo na Inglaterra e nos EUA, viveu de 1930 a 1987). Ele destrói totalmente essas besteiras da moda, esquarteja todo esse lixo de “espiritualismo” e faz de uma forma direta você destrinchar, intimamente, seus complexos – se você quiser investir nisso, ele te dá um remédio forte, claro – é ‘o’ cara. “Dissecando O Materialismo Espiritual” e “O Mito da Liberdade” são meus favoritos, mas muitas pessoas começam por “O Caminho Sagrado do Guerreiro”, que é mais inteligível.
12) Você faz viagens astrais?Tanto quanto qualquer pessoa. Eu tento não fazê-las, apesar disso. Não há nada lá fora a não ser jinn (n. do e.: vejam que viagem: www.thejinn.net) – não importa quão bonitinhas e fofinhas e loucas as coisas possam aparecer para o olho não-treinado, elas são jinn – tudo. E, como eu não sou um praticante de magia negra, não vejo utilidade para esse tipo de coisa.

13) Que bandas brasileiras você curte?
Eu admito que gosto do Caetano Veloso, sim. Agora, "bandas", eu não gosto de nenhuma americana, com exceção de Devo e Sun City Girls, e talvez do Sleepytime Gorilla Museum um pouco. Então, por favor, me informem se tiver algo tão bom assim aí embaixo.

14) Que mensagem você mandaria aos fãs brasileiros do Mr. Bungle?
"Das Ist Das Ende" (n. do e.: “Este é o fim”, em alemão)

15) Na música "Ma Meeshka Mow Skwoz", nós podemos ouvir uma gama de influências que vão desde música de trilha sonora de filmes à música de desenho animado. Qual é a intenção real dessa música?
Bem, a intenção NÃO É a de instruir pessoas a cometerem suicídio, como uma fã japonesa aparentemente entendeu. Ela perseguia nosso empresário de turnê e pedia para falar comigo todos os dias durante 3 semanas até ele encher o saco e me pedir pra eu tirar ela do pé dele. Quando eu finalmente falei com ela, descobri o que ela queria. Então tive de explicar pra ela que a mulher no desenho do encarte para esta música NÃO era ela e que o queimador de incenso não era o disco voador que matou o cachorro dela na semana anterior e que, sendo assim, a música não era um manual de instruções de como ela deveria se matar. Não, isso ela NÃO é. Mas É, talvez, música de funeral ou apocalíptica para todo o mundo pós-globalização que o Templo da Economia conquistou - mas ninguém precisa morrer antes dos outros, ok???

16) Na turnê do Sno-Core (n. do e.: em 2000, com System Of A Down, Incubus e Puya), vocês costumavam se fantasiar de várias formas e com diversas roupas. Qual era sua preferida? E qual foi o melhor show dessa turnê e por quê?
O show na Carolina do Norte foi o melhor porque eles nos odiaram e isso pareceu certo. O Mike deu instruções de como fazer um boquete usando o microfone dele durante uns 15 minutos para todos aqueles idiotas homofóbicos gays reprimidos que estavam na platéia. Eu estava fantasiado como um vaidoso príncipe barroco e ficava atirando beijinhos aos irritadinhos suados que ficavam gritando na primeira fila - daí alguém jogou água e acertou o teclado. Isso me deixou puto, e eu olhei pra ver quem tinha jogado. Daí jogaram de novo e eu vi quem era, o cara estava a 9 cabeças do palco e mais à direita - era um skinhead enorme. Assustador. Mas eu sou muito sensível quando se trata do meu teclado, então, irracionalmente, eu pirei e comecei aquele velho papo de "você tá morto, seu filho da puta". E, enquanto eu apontava pra ele, uma baqueta veio girando de trás de mim e, sem brincadeira, acertou o filho da puta bem na cara!!! Acreditam? Ele até caiu e tal - e o Danny tinha jogado ela de uma distância de 40 jardas – e ACERTOU o cara! Tinham mais de 2000 pessoas lá! - o Danny me falou depois que ele nem sequer enxergava o cara! Ele simplesmente jogou onde eu estava apontando! Nem preciso dizer que todas as pessoas que viram aquela merda provavelmente pensaram que eu fosse um mago - Uau - Quem me dera. Uma bicha ultra-violenta, psicopata, com poderes telecinéticos - As gatinhas curtem!

16) Deixando de lado o ponto de vista das outras pessoas, quais foram as
SUAS razões para entrar e sair do Faith No More em tão pouco tempo?

Para entrar: Eu gostava do Faith No More
Para sair: Eu não gostei do Faith No More
Wles estavam passando por uma "época difícil", eu creio. Isso, aparentemente, explicaria o fato de eles pensarem que eu entraria na banda por um salário de roadie, sem sequer poder renegociar os termos do contrato... hmm. Provavelmente teria funcionado, se eles não estivessem tão FODIDOS internamente naquela época. O empresário deles era legal dentro do possível, a gravadora era ok dentro do possível, a mentalidade da banda é que era uma merda. Bom, eu tenho que admitir que o Roddy Bottum era um cara legal e decente, mesmo durante a época "negra". Quanto ao resto da banda, eles se juntaram com o contador espertinho deles e alguns outros caras sinistros e tentaram planejar toda uma estratégia suja de marketing – foi tudo tão fadado ao fracasso desde o começo – mais o fato de que eles se odiavam mutuamente. Eu acho que fui egoísta. Podem me matar se eu não fui ingênuo o bastante para comprar a idéia daquela xaropada yuppie que estava sendo derramada sobre aqueles coitados. Mas havia chegado o ponto em que eles estavam derramando esse xarope uns nos outros – e, meu Deus, na hora em que eu entrei na banda eles estavam afundando nele. Eu tive que me perguntar: qual a honra de afundar junto com esse navio? Foda-se. É uma ‘experiência de aprendizado’. Sim, é o que aquilo foi. E houve outras experiências dessas, por exemplo, quando eles me fuderam na mídia dizendo que eu tinha saído porque eu era um garotinho rico e tinha medo de fazer turnês... (enquanto eu mendigava a eles dinheiro para comer um burrito quatro meses antes). E eles tentaram me cobrar $10,000 por um ampli de $700, hã, Uau. E o advogado deles entrou na Justiça com um pedido para me proibir de falar sobre o assunto. Eu não ia falar mesmo, uma vez que eles obviamente fizeram um trabalho de colocar a corda no próprio pescoço muito melhor do que eu jamais faria. Mas já faz tempo, e eles terminaram, e você perguntou, então aí está... algo especial para os irmãos brasileiros! Venham me pegar, Corporação FNM, estou com tanto medo.
Viu como é bom ser famoso? E a parte mais engraçada é que todos se fodem no final - - - por isso não guardo nenhum rancor atualmente. Sinceramente. Eu encontrei o Billy uma ou duas vezes desde então e eu honestamente entendo o que aconteceu àquela banda e me sinto mal a respeito. Quero dizer, o Billy era o cara com quem mais me entendia musicalmente - e ele se fodeu tanto quanto ou até mais do que eu, então... e além do mais, qualquer fã do Liabach (n. do e.: Laibach, banda eslovena) é meu amigo. Que posso dizer? Todo dia é Dia do Juízo Final.

17) O Mr. Bungle está parado já tem algum tempo, e no momento alguns integrantes (incluindo você) estão mais voltados para outros projetos musicais (não necessariamente fazendo parte deles), outros nem estão morando mais nos EUA... mas vocês ainda estão trabalhando juntos (ou não) em algum material novo do Bungle?
Não oficialmente, mas eu acho que todos nós queremos – o dia vai se aproximar quando pelo menos eu e o Mike nos falarmos. Então nós teremos uma idéia melhor.

18) Quem são os outros caras do Faxed Head, além de você e do Neil
Hamburger? E o Hospício para Jovens de Coalinga ainda está aberto,
ou em manutenção?

Os membros do Faxed Head são McPatrick Head, Jigsaw Puzzle Head, Neckhead, La Brea Tar Pits Head, e, é claro, Fifth Head. Você terá que perguntar ao ASCII Head sobre o Hospício.

19) Trey, eu estava tentando traduzir None Of Them Knew... e encontrei um conteúdo interessante. Existem referências a Santo Augustinho, ciência e física. Como estudante de filosofia e grande fã do seu trabalho, queria saber se você estudou filosofia, física, antropologia ou apenas gosta de ler sobre estes assuntos?
Sou "pré-esquizofrênico", então não consigo evitar em me preocupar com a fratura que ocorreu no mundo moderno devido a algumas conseqüências problemáticas em adotar certas crenças. Já que a música está acima da filosofia, da astronomia e da geometria de acordo com a velha concepção grega, eu acho que é bem natural que a música acaba incorporando essas coisas tão facilmente. Na verdade, pela minha vida, eu não consigo entender por que isso é a exceção e não a regra... exceto pelo fato de que a adoção de certas crenças ou suposições, em que todo o mundo moderno se fundamenta, causa uma grande brecha entre a realidade, que é muito grande para se consertar. Isso acontece porque as motivações do homem moderno são limitadas a um campo de atividade extremamente estreito e possui a negação ou a descrença em qualquer coisa que não esteja totalmente dentro de seu binário radar pseudo-cultural. Eu sinto que tenho que contextualizar meu trabalho em termos dentro da Grande História, já que em termos da prisão da modernidade, eu estou claramente operando "de fora para dentro", em oposição a ser mais um outro grafiteiro banal que pinta os muros
"de dentro para fora"...

20) Você prefere escrever letras baseadas nessas idéias complexas ou às vezes você tem vontade de escrever como o Patton, explorando o nonsense e idéias mais sarcásticas?
Eu sou bem diferente do Patton. Eu acho que é um bom contraste. O nonsense e o sarcasmo dele fazem meu turbilhão de idéias parecerem menos doidas e mais humanas, e meu turbilhão de idéias faz o sarcasmo dele parecer mais exemplar do lado mais interessante e bonito do nonsense. Isso pode ser a chave secreta do Mr. Bungle, apesar de que todos negariam isso - incluindo eu.

21) Na época em que você estava no Faith No More, você chegou a participar do processo de composição do "King for a Day"? Quais são suas músicas preferidas daquele álbum?
Eu gosto da última música. Meu momento de maior orgulho naquele álbum foi tentar convencer o Billy de que aquela música DEVERIA estar no disco. Ele acidentalmente botou pra tocar uma parte dela quando ele estava procurando umas idéias gravadas numa fita cassete dele, e eu fiz ele voltar a fita e deixar tocar a música inteira pra mim. Ele escreve muita coisa maravilhosa, como aquilo, mas penso que ele não acha que as músicas são realmente boas. Isso não é ridículo? Se eu comandasse o Faith No More, eu faria do Billy o principal compositor e do Roddy, o arranjador das coisas mais pop. Em outras palavras, deveriam ser esses dois caras mais o Puffy em um quarto compondo, com a guitarra sendo adicionada bem depois, e os vocais bem no final do processo. Só assim aquela banda funcionaria. E, do que eu posso falar, sempre era ÓTIMO quando era feito assim.

22) O Mr. Bungle conseguiu um status de banda cult, mesmo estando em
uma grande gravadora. Como você vê isso hoje em dia?
Sempre foi uma anomalia. Se nós, em algum dia tivéssemos um empresário esperto, o que nunca tivemos, nós reconheceríamos que essa banda tem, de longe, a melhor e mais indestrutível fórmula do mundo: a MÚSICA. Mas não. Nós temos que puxar o saco de tipinhos que se acham os maiorais da indústria musical e fingem ser punks ou alguma merda do tipo para que eles venham nos "representar", pois eles sabem que há dinheiro fácil para ser extraído de nossa fórmula indestrutível. NÓS deixamos isso acontecer. É NOSSA culpa. Mas não são apenas os mongóis donos de selos punk que são anti-verdade, ninguém nessa bosta de indústria parece acreditar no óbvio: a banda é cultuada por causa da MÚSICA, não pelas personalidades envolvidas, não por alguma bosta de estratégia de marketing - é a MÚSICA. A MÚSICA. Você não tem que entrar nos joguinhos deles. NÃO TEM. Fodam-se os joguinhos imbecis. Ninguém ganha. Aceitem. A MÚSICA, por outro lado... é vitória certa. Se você conseguir não deixar subir à cabeça, os fãs estarão sempre lá. Esses cretinos acham que os fãs são burros, apenas peões dentro do seu joguinho. Não funciona assim. Simplesmente NÃO funciona assim... não é a Bolsa de Valores.

23) Como você vê o mercado americano de hoje em dia para um músico independente? É mais difícil de viver de música atualmente fazendo algo criativo?
Sim, é claro. E isso vai separar os homens dos meninos, não é mesmo? Eu apóio totalmente.

24) Aquelas covers do Emperor feitas pelo Mr Bungle eram só de zoação?
Ou vocês gostavam de Emperor?
Eu gostava do primeiro EP do Emperor, que é o que tem as músicas que a gente tocava. Depois o "In the Nightside Eclipse" saiu, e também era muito bom. Desde então, perdi o interesse...

25) Como está a cabeça do Mcpatrick? Melhor?
Cada vez pior. Essa é a vida dele.

26) Ennio Morricone = trey spruance , Nino rota = mike patton ?Essa foi ainda pior do que Lennon/McCartney, cara.

27) Que bandas e/ou artistas você tem ouvido atualmente?
Asterisk e compilações de "bandas" javanesas e sumatras que saíram pela Sublime Frequencies neste mês... é muito bom. "Kosmos", é uma compilação de música espacial da Europa Oriental dos anos 60, e também comerciais de TV alemães feitos no final dos 60/começo dos 70 - essas compilações chamam-se "Popshopping" e saíam pela Crippled Dick. Eu descobri elas recentemente. São muito boas. Mais nada. Eu odeio a música atual, com exceção de coisas extremas como o Pig Destroyer.

28) Sobre o Secret Chiefs 3, quais são os planos pro futuro da banda? Tem um CD novo e uma turnê vindo aí? E quem são os membros da banda atualmente?
Novo CD no começo de Abril, chamado "Book of Horizons" ("O Livro dos Horizontes"). É o maior de todos. Tem toneladas de músicos: Kang, Heifetz e os cúmplices de sempre. Além de Shazad Ismaili e Ches Smith na percussão e na bateria, e alguns vocalistas malucos. Esse projeto tem me matado. Espero que valha todo o esforço que tenho feito por ele...

29) Quais são seus planos pro futuro, além do SC3?
Não há futuro, com exceção do SC3, talvez do Mr. Bungle. Há uma enorme expansão do SC3. Logo que vocês ouvirem o novo álbum, vão entender - está se expandindo em sete bandas diferentes. Bandas bem diferentes. É difícil explicar, mas vocês vão compreender quando escutarem. Ou não vão entender absolutamente nada. Mas de qualquer jeito vai ser uma pedrada.

30) Qual era a parte mais difícil no Mr Bungle: compor o álbum
(considerando a complexidade das músicas) ou sair em turnê (considerando a complexidade em tocar essas músicas ao vivo). E como funcionavam ambos os processos? E nós vamos ter a oportunidade de ver o Bungle tocando ao vivo novamente?
Gostei dessa pergunta – eu toquei no assunto por cima antes. Compor é a parte mais fácil e divertida, acredite ou não. Gravar é a parte mais difícil, e se preparar para tocar ao vivo também. Já que grande parte do trabalho de como fazer as coisas no estúdio e como reproduzí-las ao vivo é meu dever, eu poderia dizer que essa é a parte mais difícil, lógico. É um cara ou coroa. Ocupa anos e anos da minha vida, acredite.

31) O que exatamente aconteceu na turnê européia do Mr. Bungle em 2000
que fez com que você e o Mike Patton perdessem o interesse em tocar
juntos?

Boa pergunta. Não estou 100% certo. Eu sei que eu estava ficando irritado com a situação do nosso empresário. Não tenho a mínima idéia de com que o Mike estava irritado, e ainda não sei. A coisa toda parece um pouco ridícula.

32) No tributo Great Jewish Music ao Marc Bolan, você fez uma excelente
Cover de "Scenescof" junto com Phil Franklin na percussão. Você já pensou em fazer um álbum solo?

Eu acho que eu odeio essa coisa de "álbums solo". Se estivéssemos vivendo em um época onde um compositor pudesse ser um compositor, é isso que eu seria. Mas já que não estamos, não vou me degradar lançando álbuns solo. Eu simplesmente vou montar algumas bandas que serão extensões do meu processo de composição e aí verei se funciona. Até agora, tem funcionado.

33) Você disse uma vez em uma entrevista que haviam sobrado faixas tanto do Disco Volante quanto do California. Será que ainda vamos ouvir isso algum dia? E será que você pode falar algo sobre essas músicas?
Eu espero que vocês ouçam. Uma chamava-se "Coldsore", composição do Bär, e é muito boa - é uma espécie de cruza de "After School Special" com "Chemical Marriage", talvez com um quê de anos 80 - que alguns vão achar ofensivo. Outra canção que ficou de fora há um tempo atrás tinha o nome provisório de "spy" e é muito boa para ficar de lado também. Até o Danny escreveu partes para esta música. Nossa, eu espero que algum dia a gente lance elas de algum modo.

35) Alguma música do Mr.Bungle's foi gravada de forma improvisada? Cite exemplos.



Nenhuma!O fim de Dead Goon tem uma parte semi-improvisada, eu suponho. Partes de Platypus onde a música se "despedaça" são semi-improvisadas, eu creio. Acho que é isso.

36) Qual seu método de composição? Letras primeiro... ou você costuma
escolher um tema antes, ou começa com o instrumental...?

É sempre diferente. Eu acho que, para mim, a música tende a vir antes da letra, mas eu sei sobre o que a música vai ser desde o princípio. A letra meio que aparece pelo caminho. Merry Go Bye Bye foi escrita, letra e música, em 20 minutos. None of Them Knew They Were Robots foi escrita em mais de um mês, musicalmente, e a letra foi vindo esporadicamente - - - depois eu encaixei toda a letra na música num café, literalmente no DIA da gravação - depois de passar uma noite sem dormir gravando. Não tenho idéia de como essas coisas surgem, elas simplesmente aparecem.

37) Você tocou com o FNM por um curto período, como foi?Uma bosta.
Fonte: Collision

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Elizabeth Fraser e Cocteau Twins




(wikipedia) Davidson Elizabeth Fraser (29 de agosto de 1963, Grangemouth, Escócia) é uma cantora escocesa, mais conhecida por seu trabalho como vocalista do grupo Cocteau Twins[1]. Seu estilo vocal, melódico e abstrato, e suas letras indecifráveis têm gerado muita discussão ao longo dos anos[2].

Quando o Cocteau Twins lançou seu primeiro LP, "Garlands", em 1982, seu estilo e habilidade vocal surpreendeu a imprensa do Reino Unido, o lendário DJ da BBC, John Peel, teve a banda ao vivo em seu programa de rádio antes mesmo de "Garlands" ser distribuido nas lojas britânicas[3].
Fraser juntou-se ao Cocteau Twins no início dos anos 80 (o guitarrista da banda, Robin Guthrie, foi seu namorado). Embora o grupo nunca tenha vendido milhões de discos, sua audiência foi sendo ampliada a cada álbum lançado; Além disso, Fraser influenciou bandas como Throwing Muses, The Sundays, Belly, The Cranberries e Sugar Hiccup, este último tem o nome de uma faixa do Cocteau Twins[3].
As canções do Cocteau Twins compostas por Fraser são freqüentemente caracterizadas como ininteligíveis; a faixa-título do álbum de 1990, "Heaven or Las Vegas", surpreendeu os fãs com as suas palavras relativamente indecifráveis e foi tocada constantemente em rádios de rock moderno. Os Cocteau Twins se separou no final dos anos 90[3].
Além de seu trabalho com o Cocteau Twins, Fraser colaborou como vocalista nos álbuns de diversos artistas. Em 1986, Fraser cantou em "The Moon and the Melodies", álbum gravado pelos membros do Cocteau Twins e o tecladista e compositor Harold Budd.
Em 1990, participou do EP solo "Candleland" de Ian McCulloch do Echo and The Bunnymen[4].
Fraser participou no álbum do Massive Attack, Mezzanine[5], em 1998, com o vocal na Faixa "Teardrop",e em diversos concertos desta banda.
No cinema, mais recentemente, participou da banda sonora do filme O Senhor dos Anéis[6], contando em diversas faixas.
Em 2009, Fraser lançou o single Moses. O CD traz dois remixes da música Moses, um do músico experimental Thighpaulsandra (Timothy Lewis), e outra de Spaceland[7].
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COCTEAU TWINS

BIOGRAFIA: Elizabeth Fraser (Liz, Falkirk/GB, vocais), Robin Guthrie (Falkirk/GB, guitarra, teclados, programações) e Will Heggie (Falkirk/GB, baixo) formam os Cocteau Twins em 79 - Deixam a Escócia e viajam para Londres em 81. Através de uma fita demo, conseguem um contrato com o selo independente 4AD - O álbum de estréia, Carlands, chega ao segundo posto na parada independente britânica em 82 - Com Head Over Hills (83), alcançam o 51º posto da parada oficial. Nesse ano, Heggie é substituído por Simon Ray monde (baixo, teclados) - Chegam pela primeira vez ao Top 30 britânico em 84 com o EP Pearly-Dewdrops´Drops. Ainda nesse ano, gravam com integrantes de outros grupos da 4AD sob o nome de This Mortal Coil. Ficam novamente no Top 30 com o LP Treasure, também de 84 - O primeiro lançamento dos Cocteau Twins nos EUA é a coletânea The Pink Opaque, em 85 - Alcançam o décimo lugar na Inglaterra com Victorialand, gravado em 86 sem a participação de Simon Raymonde. Nesse mesmo ano, gravam com o pianista e compositor minimalista Harold Budd o LP The Moon And The Melodies - Depois de um silêncio de dois anos, lançam em 88 Blue Bell Knoll, que fica no décimo-quinto lugar na Inglaterra - Em 90, sai Heaven Or Las Vegas, sétimo lugar na Inglaterra. O álbum traz o hit "Iceblink Luck", que fica no Top 40 britânico - Deixam a 4AD em 91. Em abril desse ano, apresentam-se no Brasil acompanhados pelos guitarristas Mitsuo Tate e Ben Blakeman.
FRASES: "Começamos a banda porque vivíamos num lugar muito deprimente na Escócia, e a música era um modo de escapar". "Liz sempre foi paranóica com as letras, que são sobre ela mesma. Ela faz com que sejam incompreensíveis para que ninguém perceba isso". "As pessoas têm uma idéia pré-concebida sobre a nossa música. Elas nos chamam de New Age, e não podemos fazer nada". "Não acho que nossos discos sejam todos iguais. Mas as mudanças foram graduais, nunca radicais". "Liz cantou muitas canções com Lucy no colo. A maior parte do disco é sobre nossa filha" (Robin, sobre Heaven Or Las Vegas).

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Treasure - Cocteau Twins (RCA)
            Não faz a menor diferença que este álbum seja de 1984. A aceleração do tempo digital que estamos vivendo transforma estes meses em décadas, mas Cocteau Twins - a concepção - é atemporal. Para falar deste Treasure, me sinto tão pouco à vontade quanto um guia descrevendo um monumento maia recém-descoberto no meio da floresta da Guatemala, lugar que o quadro-capa realizado pela 23 Envelope evoca com perfeição. Se as letras destiladas pelas vozes de Elizabeth Fraser escapam da sua compreensão, basta preenchê-las com a leitura de contos fantásticos, por exemplo. Com este disco, não há muitas soluções. Ou conto em detalhes tudo o que Robin Guthrie, Simon Raymonde e Elizabeth já fizeram, estão fazendo e vão fazer, ou solto literatura para cima de vocês. E nisso que dá tentar descrever um monumento, explicar o inexplicável. A beleza. Uma beleza que vem do folclore da Idade Média, chupa tudo da música polifônica da Renascença, pirateia o barroco de Monteverdi a Bach, se nutre dos lieder de Mahler e flerta com Siouxie and the Banshees. Erudito e simples. A sofisticação do gato.
            Treasure é o resultado de meses de trabalho em estúdio, que permitiram alcançar aquele equilíbrio tão procurado entre o acústico e o elétrico, o etéreo da(s) voz(es) e das guitarras com o peso das sonoridades surdas do contrabaixo e da bateria, presentes para sublinhar o mistério. Mistério dos sons deformados, ouvidos no fundo do mar, com ruídos das ondas deslizando sobre as praias sonoras dos sintetizadores, e os sussurros da fada Elisabeth. Ela é responsável pelos nomes alegóricos das músicas ("Beatrix", "Persephone", "Pandora", "Aloysius" "Donimo") que rege com suas cordas vocais. O resto segue. Aqui termina a visita do monumento e a tortura do crítico. As obras de arte são implacáveis.

            Jean Yves de Neufville

Bizz # 17 – dezembro de 1986

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BELEZA SEM PALAVRAS

            Vamos com calma. Pense no que não se diz. Aquilo que não deve ser dito. Palavras brancas, beleza, eternidade. Tudo isso soa completamente absurdo. E novamente precisamos de algo que preencha o opaco vazio destes dias calados. Precisamos de coisas práticas. Ou pelo menos colocar coisas em prática. Cabe a nós a escolha da "coisa" certa.
            Existe uma banda que se chama Cocteau Twins, nome de uma antiga canção dos Simple Minds. A banda é de Falkirk, uma cidade-nada da Escócia. Seu núcleo são dois amantes, Robin Guthrie e Elizabeth Fraser. No início, em 82, Will Heggie tocava baixo. Ele saiu em 83 e Simon Raymonde entrou em 84. Hoje, juntamente com o New Order e os Smiths, os Cocteau são a banda independente mais bem-sucedida da Inglaterra. Seus discos são lançados pelo selo 4AD e vendem muito. As capas são verdadeiras obras de arte que misturam texturas naturais, vegetações orvalhadas, substâncias indefinidas, véus, seda e lagos espelhados. São criadas por Vaughan e Nigel, da 23 Envelope, a responsável pelo departamento de arte da 4AD. Os Cocteau gravaram até hoje dois clips, o primeiro deles em um asilo abandonado de estilo vitoriano e o outro em seu próprio estúdio. E os Cocteau Twins fazem música.
            Esqueça a calma. Pense no que não se diz. Aquilo que não deve ser dito. Palavras brancas, beleza, eternidade. Nem tudo é completamente absurdo. A música dos Coeteau evoca paisagens perdidas, quase gregas, de tão clássicas e etéreas, alheia a qualquer tempo ou espaço. Uma música completamente particular, apesar da sensação de universalidade e presença, existe realmente música, e essa música dá voltas silenciosas, criando uma orientação circular que intoxica e dá um imenso, inédito e profundo prazer em ouvir música. Uma música de acordes lentos, harmonias azuis e uma tristeza oceânica, entorpecida, suave. Robin acredita que uma guitarra só produz o som ideal quando tratada com muitos pedais e ecos. Elizabeth canta palavras inéditas, que não pertencem a nenhuma língua em especial. Ela as inventa procurando em livros e misturando os seus sons. Sua voz é única. Extremamente suave, ela expressa paixão, tristeza, calma, alegria sem o compromisso do significado. A música simplesmente é.
            Os Cocteau são tímidos, irônicos, detestam entrevistas, e quando as dão fazem questão de ser vagos, reticentes. Não acreditam na equação pergunta-resposta. Suas melhores entrevistas são longas conversas com os entrevistadores, onde comentam como adoram gatos, sentem-se péssimos em um palco e gostam de gravar somente de madrugada, já meio bêbados, improvisando em seu estúdio próprio. Seus shows são muitos raros, e muito simples também. Robin liga um gravador com percussão e teclados pré-gravados, toca guitarra, Simon orienta com o baixo e Elizabeth canta.
            Garlands, uma coroa de louros tímida e tensa, é a estréia dos Cocteau em disco. Seguem-se dois compactos que desenvolvem as idéias do primeiro LP. No ano seguinte, uma grande mudança. Robin e Elizabeth sozinhos produzem o segundo LP, Head over Heels. Majestoso, lírico e muito trabalhado, ele muda a trajetória dos Cocteau, que agora são donos únicos do seu estilo. O primeiro grande sucesso comercial dos Cocteau veio com "Pearly-Dewdrops’ Drops", um compacto apaixonado, único, que fez dos Cocteau os favoritos da imprensa independente inglesa. No mesmo ano sai Treasure, o terceiro LP, suave, limpo, plácido. O EP Aikea-Guinea, do ano seguinte, traz os Cocteau com uma das canções mais belas do ano, a faixa-título. Ela é também a favorita de Robin, que a considera a mais perfeita definição do som dos Cocteau. Tiny Dinamine e Echoes in a Shallow Bay (mais dois EPs) saem no fim do ano passado, com uma produção impecável dos três e canções profundamente densas, esotéricas e belas. Este ano saiu o LP Victoria/and. Calmo, silencioso, triste, só guitarra e voz, foi planejado para ser um EP e resultou no melhor momento dos Cocteau. Um LP que fala por palavras brancas, sobre beleza, rabos de baleias e eternidade. Uma música que preenche o opaco vazio destes dias calados e dista do enfado, da repetição, dos excessos, da banalização, da síndrome fim-de-século.
            Escute os Cocteau. Não existe nada lançado aqui, mas isso não deve surpreender mais ninguém. Não desista. Eles são simples, iluminados, únicos. Música e oceano em incontáveis doze polegadas.

Bizz # 13 – agosto de 1986

por Cristiano Madureira

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DITO PELO NÃO DITO

            O sol brilha sobre Londres, e eu enfrento o calor implacável para ir ao encontro de Liz, Robin e Simon, no estúdio que eles acabam de construir à beira do Tâmisa. Não sei se estou suando por causa do calor ou porque tenho pela frente uma tarefa árdua: fazê-los falar sobre sua música. Não que eles se recusem a dar entrevistas, mas a verdade é que as respostas são sempre vagas e reticentes - de resto, uma atitude compatível com a própria natureza do som da banda, onde o que menos importa são as palavras. A dificuldade vem ainda da posição que os Cocteau ocupam hoje no cenário pop, tão insula que resiste a qualquer tentativa de rótulo. Mas isso não impede que eles tenham conquistado um público numeroso e fiel, inclusive no Brasil, onde só ficaram conhecidos em 1987, com o lançamento de Treasure, o quarto LP.

            A história do grupo, porém, nos leva para o início da década, quando o guitarrista Robin Guthrie e o baixista Will Heggie conheceram Elizabeth Fraser. Depois de vê-Ia dançar numa discoteca de Grangemouth, na Escócia, eles não pensam duas vezes: "Alguém que dança assim tem que saber cantar". Está formado o Cocteau Twins. Mas o empurrão decisivo só viria com a passagem do Birthday Party (a ex-banda de Nick Cave) por terras escocesas. Após uma breve audição do material da banda, eles sugerem uma visita à gravadora independente 4AD - que contrata o trio imediatamente.
            Em 1982, sai o LP de estréia, Garlands, para delírio da imprensa inglesa, que se deleita com o som muito pessoal dos Twins - onde a riqueza de texturas encobre a simplicidade das canções - e com a voz de Liz. Adotados pelo DJ John Peel, partem para se estabelecer como uma das grandes bandas independentes britânicas, ao lado do New Order e dos Smiths.
            Will deixa o grupo em 1983, depois do lançamento de Head Over Heels, o segundo LP, precedido por uma turnê onde abrem os shows do Birthday Party. Um projeto idealizado por Ivo Watss-Rissel, dono da 4AD, atrai o grupo, que toca como This Mortal Coil - ao lado de integrantes de outras bandas (Dead Can Dance, X-Mal Deutchland, entre outras) - gravando dois LPs com covers e composições próprias.
            Com "Pearly Dewdrops ´Drops", faixa de um EP lançado em 1984, eles alcançam seu maior sucesso comercial até então. Nessa época, já são novamente um trio, com a entrada de Simon Raymonde. Ainda nesse ano, gravam Treasure, considerado até hoje pela crítica o melhor LP do trio, pela variedade inédita de climas e ritmos.
            A imprensa musical continuava procurando adjetivos para definir a música dos Twins e o vocabulário particular das letras de Liz: etéreo, celestial, cinematográfico são os mais constantes. A preocupação da mídia não encontra resposta na banda, que prefere o anonimato - o que fica claro nas belas capas dos discos, jamais incluindo fotos do trio.
            Em 1985, eles compram seu próprio estúdio e tem seu primeiro disco editado nos Estados Unidos: The Pink Opaque, uma compilação de EPs lançados anteriormente na Inglaterra. Enquanto isso, Robin encontra tempo para produzir bandas como Felt, Wolfgang Press e Dif Juz. Victorialand (1986) traz o grupo em sua proposta mais radical, totalmente acústico. O disco chega ao número dez da parada inglesa, em meio a rumores infundados sobre a saída Simon (fora desse disco). Na mesma época, trabalham com o pianista e compositor Harold Budd, com quem gravam The Moon and The Melodies.
            Foi preciso uma retirada de dois anos para que brilhassem novamente com Blue Bell Knoll, mais cinemático do que nunca - e, possivelmente, o mais acessível da sua carreira. Essa entrevista pega o trio rastro dos infindáveis encontros com a imprensa que sucedem o lançamento do LP. Com xícaras de café na mão, nos instalamos no enorme terraço e pergunto por que eles começaram a banda.

            Porque queríamos um lugar assim, à beira do rio... (risos). Porque vivíamos num lugar muito deprimente na Escócia, e a música era um modo de escapar."Liz:" É melhor do que judô". Robin faz cara de desespero e nos pergunta do que ela está falando. Liz continua..."Meu irmão fazia judô, e quando voltava pra casa ele vinha treinar em mim. eu sempre acabava apanhando". Eu simpatizo, passei pelos mesmos problemas com o meu irmão, mas... quando vocês começaram a banda, existia um objetivo, uma idéia original? Robin: "Não, nós simplesmente fomos fizemos música, nunca paramos e dissemos ´Vamos começar uma banda e fazer isto e mais aquilo´". Simon comenta que existe gente assim, ao que Robin responde com um olhar incrédulo. Como foi o começo? Robin: "Éramos jovens e cheios de entusiasmo. E aí perdemos tudo isso". Liz: "Não só musicalmente... é assim com todo o resto".
            Vocês têm alguma semelhança ou afinidade com outras bandas? Liz: "Não musicalmente"."Em atitude, talvez", diz Simon. Robin: "Talvez tenhamos afinidades com outras bandas, mas não sei quais". Simon: "Todo mundo começa com a idéia de fazer algo à sua maneira, lançar apenas os álbuns que quer lançar. Mas quantas pessoas podem honestamente dizer que fizeram isso?".
            Quais bandas vocês admiram? Robin hesita... "Eu gosto de uma banda durante um certo tempo mas depois a tendência é enjoar. Do que você gosta?". Cito Nick Cave e Sonic Youth, e comento que é uma pergunta difícil... Simon concorda: "È, porque talvez resposta seja diferente na semana que vem". Robin: "Alguns anos atrás eu teria dito Sonic Youth também, mas não gosto mais deles. Ficaram cheios si e só fazem merda". Liz o acalma: "Nossa. Parece que você quer matá-los" (risos), Robin continua: "Quanto ao Nick Cave... bem, foi através do Birthday Party que chegamos a 4AD". Simon: "Todas essas pessoas fizeram grandes discos em sua época, mas isso não significa que nos tenham influenciado".
            Muito já foi escrito sobre a voz de Liz e o quase esperanto das letras, Liz: "È, eu não sei por quê. Não importa o que as pessoas pensem. Nós temos que tentar ignorá-las, acho bem mais fácil. Se eu preciso autoconfiança, procuro-a no Robin e no Simon... porque às vezes eu realmente preciso!".
            Quando vocês falam de sua música, parece uma coisa totalmente sem esforço, quase sem intenção. Robin: "Música para mim não é uma tarefa, um dever. È sem esforço no sentido ele que nós gostamos do que fazemos. E divertido. Não é como se estivéssemos carregando o mundo nas costas. Ainda é como era no começo". Mas onde está a intenção? Ou será que a música simplesmente "acontece"? Simon: "E difícil dizer, porque houve tanto esforço para construir este novo estúdio, e no lado técnico da coisa, que quando finalmente fazemos música, esquecemos do resto". Robin: Não que nós entremos no estúdio e façamos um disco inteiro em uma tarde. Somos perfeccionistas, queremos as coisas de uma determinada maneira. E sem esforço porque é como uma paixão ". Não há lugar então para esforço na paixão? Robin: "Ir até a lavanderia é, um esforço. Fazer essa merda não é esforço nenhum. E apenas música".
            O que vocês acham de certos rótulos que são freqüentemente aplicados a vocês, como música atmosférica, música ambiente? Simon: "As pessoas usavam essas expressões antigamente. Não usam mais... não com o último disco. Liz discorda: "Usam sim... coisas idiotas como new age, nos Estados Unidos": Robin interrompe: "Bem, eles são americanos, não se pode esperar muito deles" (risos). O que, então, as pessoas fazem ao som dos Cocteau Twins? Robin diz maliciosamente: "Já nos contaram várias coisas...(risos). Você usa certos tipos de música para certos tipos de situação. Por exemplo, você não acorda e põe um disco do Brian Eno na vitrola, porque aí você volta a dormir imediatamente (risos). Não consigo pensar no que as pessoas fazem ao som de nossa música, exceto... bem, não importa"(risos).
            A música mudou com o passar dos anos? Robin: "Sim, tanto quanto nós mudamos. A música apenas reflete o que estamos sentindo ". No que ela mudou, exatamente? Simon: "Ficou muito melhor". Robin: "Não nos preocupamos muito em fazer um disco Conscientemente diferente do outro, porque conforme vamos amadurecendo, isso tudo vai se refletindo nossa música. Não acho que nossos discos sejam todos iguais. Mas as mudanças foram graduais, a gente não muda radicalmente de um disco para o outro. Mas é só ouvir o que fazemos agora para ver diferenças ". Simon: "Eu sei o que você quer dizer... tem gente que acha que sabe como nossa música soa. Só porque ouviram um disco nosso seis anos atrás. E uma pena".
            Como foi o trabalho com Harold Budd em TheMoon and lhe Melodies? Robin: "Foi bom. Porque o Harold é diferente do, que as pessoas imaginam quando ouvem sua música. È um cara normal, que gosta de sair e encher a cara. Ele realmente faz isso, ao contrário de gente como Nick Cave, que canta sobre isso". Tento defender meu ídolo em vão, mas, à essa altura, Liz está rindo histericamente enquanto Robin e Simon falam ao mesmo tempo. Robin volta ao assunto: "Foi uma experiência diferente, foi divertido. Ele é um cara legal para trabalhar. Mas não dou importância alguma a esse disco". A qual disco você dá importância? Robin não hesita: "Ao seguinte, sempre".
            Como foi a participação de vocês no projeto This Mortal Coil? Robin: "Não tem nada a ver conosco. Nos pediram para gravar umas duas músicas e foi isso. Não gosto daquele tipo de música".
            Me falem um ,pouco sobre o último disco, Rlue Reli Knoll. Robin: "E a melhor coisa que já fizemos até que o próximo esteja pronto. Na época ficamos bem satisfeitos com ele. Sempre que pensamos nos discos que já fizemos, achamos péssimos, mas na época eram bons, suponho". Simon: "Essa é a coisa mais trágica... quando alguém chega para você e diz que gosta da banda, e menciona uma música de quatro anos atrás!". Robin aproveita a ocasião para comentar sarcasticamente: "Garlands é seu predileto, né, Simon? E Treasure, que grande disco...urgh!"(risos).

            Chegou a hora da clássica pergunta, mas como não quero ser jogada no Tâmisa (apesar do calor), inverto-a: vocês influenciaram alguma banda? Robin: "Isso cabe a eles dizerem. Acho que influenciamos sim... se eles admitirem primeiro, nós diremos quais" (risos). Liz, no quinto mês de gravidez, não agüenta o sol e vai para dentro.
            Vocês vêem algo de interessante acontecendo em termos de música atualmente? Robin: "Nos últimos três ou quatro anos não apareceu nenhuma banda que tivesse algo de interessante para oferecer!". Simon: "Sempre a mesma coisa. Quatro ou cinco anos atrás, as pessoas estavam escrevendo um monte de baboseira sobre nós, como se fôssemos a melhor coisa do mundo desde a invenção do pão de fôrma (risos). Os jornalistas têm que manter o interesse dos leitores, não podem escrever sobre as mesmas pessoas eternamente... então eles têm que sair e procurar bandas novas, e mesmo que as bandas não sejam grande coisa, eles têm que dizer que são, têm que justificar seu trabalho". Tudo bem, mas isso imprensa. Vocês, pessoalmente, o que acham? Robin: "Eu tenho ouvido algumas coisas, mas nada de interessante, de diferente. Gosto dos Stone Roses, mas o que eles fazem não é nada, de novo". Simon: "Gosto do disco do De La Sou!. E bom, totalmente diferente daquilo que fazemos. Tem outra função".
            Vocês raramente tocam ao vivo... Robin: "Nós gostamos de tocar ao vivo; mas não temos a obrigação de fazer um álbum e uma turnê, e depois outro álbum e outra turnê e assim por diante". Simon: "A impressão que as pessoas têm é que você é total-mente inútil se não passar metade do ano excursionando". Robin: "O problema é que nunca fomos muito bons ao vivo. Acho que somos melhores em disco".
            Vocês já estão gravando o disco novo? Robin: "Começamos na semana passada.Se o tempo continuar ensolarado assim, não vamos terminar tão cedo (risos). Temos nosso próprio ritmo. Não há pressão nenhuma sobre nós. Estamos fazendo o disco porque queremos, não porque alguém nos disse que já estava na época. Poderíamos não fazer absolutamente nada o dia inteiro se quiséssemos. Mas não somos esse tipo de gente".
            Mais tarde, na cozinha com Liz, enquanto ela folheia uma BIZZ e confessa seu amor pelos Pet Shop Boys, ouço pedaços do disco em preparação e faço as pazes com o mundo. Afinal, se eles fazem músicas assim, por que falar?

Bizz # 49 – agosto de 1989

por Anamaria G. de Lemos

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Os Cocteau Twins estão separados a 12 anos, e a mística que tinha atingido durante a sua vida e sua crescente influência, quando anunciaram que voltariam. Ao mundo foi dito que seria a atração principal do festival Coachella 2005 na Califórnia, e teria que seguir com uma grande turnê. Segundo o baixista Simon Raymonde, a banda se beneficiariam da ordem de US$ 1,5 milhões cada um para voltar a ficar juntos - o suficiente para garantir-lhes segurança financeira, suficiente para assegurar o futuro. Havia apenas um problema. Dentro de algumas semanas do anúncio, a cantora do grupo, Elizabeth Fraser, anunciou que não participaria.
"Eu não me lembro de ser muito dinheiro e, em qualquer caso que não é a razão [da volta]", diz ela, hoje, em sua primeira entrevista desde a separação da banda em 1998. "Mas as pessoas ficam tão malditas no cativeiro. Mesmo quando algo está encarando você no rosto, as pessoas simplesmente não conseguem vê-lo. Eu sabia que não ia acontecer e não demorou muito para querer sair."
A decisão de Fraser não aceitar a volta foi feito pelas mesmas razões que contribuem para a separação da banda em primeiro lugar: ela não poderia mais encarar o guitarrista do grupo, Robin Guthrie - seu amante até 1993, e pai de seu primeiro filho. Mas enquanto eles estavam juntos, o Cocteau Twins se estabeleceu como um dos três principais pilares da música alternativa britânica, junto com New Order e The Smiths. Guthrie com seus cintilantes efeitos de guitarra certamente o inspirou para que então o DJ Steve Wright, desse o caráter crítico de rock chamado "catedrais sonoras do som" - enquanto os críticos realmente alucinavam durante vocais do outro mundo e muitas vezes Fraser é incompreensível, uma descrevendo seu canto - à sua vergonha - ". a voz de Deus", como Madonna amava classificar. Você ainda ouve a sua influência em qualquer banda que se esforça para som etéreo e sobrenatural. Agora sua voz deve ser ouvida novamente, pois ela solta primeiro single solo, Moses.
Como Fraser diz ele, que a reunião não foi abortada uma mudança de carreira, e não uma chance de ganhar a recompensa financeira a reputação da Cocteau Twins "merecia: era uma tentativa de cura. Seu amigo de infância que virou roadie que virou manager queria-los juntos novamente "para que todos pudessem ser amigos".
No entanto, Fraser tinha reservas. "Há ainda a sensação de estar comprometida", explica ela sobre seu relacionamento com Guthrie. "Mas nós não estamos comprometidos. Nós somos tão diferentes uns dos outros agora." Ela descreve as diferenças em uma frase: "Você pega uns dos outros, fazendo uma coisa ou dizer algo que eles nunca viram sair antes". Ela agora não pode nem pensar em seus companheiros de banda, e nunca pensou em ser assim. "Eles eram a minha vida. E quando você está em algo profundo, você tem de retirar-se completamente."
Não é apenas seus ex-companheiros de banda que ela deixou para trás. Nos últimos 12 anos, ela tem apenas envolvido com música. Ela cantou no Mezanino do Massive Attack álbum de 1998 e requintado hit Teardrop (e viajou com eles em 2006), mas é isso. Ela tem sido oferecido somas "além de seus sonhos" para colaborar com outros artistas - "o mais estranho foi o Linkin Park" - mas todos foram rejeitados.
Fraser vê fazer música como inseparável de suas emoções. Ela sempre teve muita dificuldade para escrever a letra, ela diz, mas de repente algo vai clicar e ela "vai com o som e a alegria" - é por isso que ela canta sons e palavras que não têm nenhum significado, do qual ela só pode fazer sentido mais tarde. Como ela mesma diz, "Eu não posso agir. Eu não posso mentir."
A incapacidade de fingir que é evidente, mesmo agora.
Ela estava tão nervosa antes da entrevista começar, realmente tremendo.
"Eu moro aqui", explica ela, exasperada, apontando para sua cabeça. "E é difícil. Flutuo com cada sensação. Às vezes eu estou bem, e em outras vezes eu sou como um robô. Minha cabeça zumbe ou pára. Não há meio termo." Quando ela ainda estava realizando, ela sofria. Agora ela fala da sua ansiedade se estende para o estúdio. Seu single foi gravado há algum tempo com Damon Reece - baterista do Massive Attack, e sua parceira de mais de uma década - e um amigo próximo, Jake Drake-Brockman. Talvez não saísse se não fosse por uma tragédia: Drake-Brockman morreu em setembro, e Moses está sendo lançado como um tributo.
O Pop sempre foi uma fuga para Fraser. Voltar em Grangemouth, uma cidade petroquímica "hedionda" em Stirlingshire parecia destinado a seguir a mãe para o comércio local até que percebeu que com trabalhava com "luvas de boxe nas mãos", ou seja, ela mal podia operar as máquinas. Ela ia dançar em um clube local, o Nash, que é onde ela conheceu Guthrie: conheceu a Fraser, quando ela tinha 17 anos, numa noite numa pista de dança em 1980 e pediu-lhe para entrar na banda com seu amigo Will Heggie. Ao dizer sim, Fraser adquiriu uma alma gêmea e um capacitador. "Eu olhei para ele. Eu nunca poderia ter feito sem ele." O som característico que desenvolveu "fluiu a partir da química entre nós", especialmente quando Raymonde, um londrino, substituíu Heggie.
Fraser não sentiu que o que estavam fazendo era particularmente experimental ou original - "Parecia que fugia do meu controle", diz ela -, mas o início dos anos 80 foi "um momento de sorte Bandas poderiam fazer o que queriam e ter uma carreira.. Parecia uma festa. " Mas, diz ela, "não poderia ser sustentada."
Ela e Guthrie foram amantes durante 13 anos, durante os quais as dificuldades que enfrenta qualquer relacionamento foram agravados por estar em uma banda juntos. "Estávamos tão perto e certas responsabilidades eram demais para nós", diz Fraser. O nascimento de sua filha Lucy, Belle, em 1989, "não teve impacto tão positivamente", como ela esperava.
Houve ressentimentos de ambos os lados, diz ela. Um queria superar o outro, e Fraser era cada vez mais infeliz na banda, por isso. Ela se ressentia por "fazer o que as pessoas queriam o tempo todo" e começou a libertar-se, um processo documentado nas letras invulgarmente diretas do álbum Four-Calendar Cafe, de 1993. A situação foi aguçado pela dependência de Guthrie em álcool e drogas, revelações (que veio com ele, após a separação da banda) que deixaram os fãs chocados. Mas a própria infelicidade de Fraser passou despercebido por seus colegas. "Notava os outros por algum tipo de percepção da realidade, [mas] eles não tinham notado que havia um problema", diz ela. "E isso foi outra coisa que me enviou absolutamente ao buraco. Quando você precisa das coisas controladas e isso não está acontecendo, você pode se sentir completamente louco." Fraser sofreu um colapso nervoso, e foi submetida a um tratamento de psicoterapia. Hoje, ela continua irritada com Guthrie, pela sugestão feita após a conclusão da reabilitação, que ele precisava de drogas para fazer a música.
"Eu não acredito nisso e eu não acho que ele acreditava no início também", ela insiste. "Quero dizer, eu tentei acompanhar, mas acho difícil o suficiente para se comunicar de qualquer maneira. Sobre como me desligar das drogas. Achei que ia ficar brava com isso e entrar em algo ... saudável." Ela permite-se uma risada. "Mas isso nunca deu certo."
Fraser continuou furiosa consigo mesma para ficar na banda por mais dois anos (e um outro álbum, Milk and Kisses, de 1996) após disso seu relacionamento com Guthrie terminou - "Mas fomos terrivelmente cobrados e eu não era forte o suficiente para pará-lo" . As tensões resultantes, diz ela, causou os maiores danos duradouros. "Periodicamente, a minha mente está queimado", diz ela, "e eu estou atolada em sentimentos que eu não posso negar."
Após separar-se de Guthrie, mas ainda na mesma banda, Fraser atingiu uma intensa relação com Jeff Buckley depois que eles ficaram apaixonados um pelo outro. Novamente, a emoção da música produzida. Um dueto que gravou sublime chamado Todas as flores em tempo curvam-se para o sol está flutuando em torno da Internet, veio sua irritação.
"Por que as pessoas tem que ouvir tudo?" ela reclama. Eu digo-lhe que é maravilhoso. "Mas está inacabado, eu não quero que ela seja ouvida." Há uma pausa. "Talvez ache que não será pra sempre". Buckley morreu em 1997, época em que eles haviam perdido o contato - Fraser estava frustrada com sua turnê, e teev esta reação que pesa sobre ela até hoje. "Eu só queria ter sido mais amiga", diz ela, baixinho. "Sua carreira era tudo para ele, e eu gostaria de ter sido mais compreensiva -. Feliz com um tipo diferente de relacionamento eu perdi alguma coisa lá, e foi minha culpa."
A notícia de que Buckley tinha desaparecido - ele se afogou, nadando no rio Wolf, em Memphis - Fraser veio enquanto estava gravando Teardrop com Massive Attack. "Isso foi muito estranho", diz ela. "Eu tenho cartas e pensava nele e esse tipo de música sobre ele. - Que é como se sente para mim." Parece que Fraser é assombrada pela culpa: por não estar lá com Buckley, para tudo. Como ela mesma diz: "Preciso me perdoar."
Ela muda de assunto, ao surgir Reece, e imediatamente se ilumina. Ainda mais viva, sua química é óbvio. "Será que as pessoas dizem para você ficar longe de mim, por eu estar criando problemas?" ela pergunta a ele. Ele ri. "Só um ou dois."
O casal se conheceu pouco antes da separação Cocteau Twins. Ele, literalmente, levado-a para fora em sua moto Triumph, uma memória que começa a falar sobre o companheiro motociclista Drake-Brockman. Quando Reece e Fraser se mudaram para Bristol, Drake-Brockman ajudou a arrumar a casa, e ensinou Lily a nadar. Reece ainda está em choque após o acidente que matou seu amigo. "Ele usava um paletó de tweed e montou uma máquina de 1938", diz ele. "Ele ia ser o velho homem na moto quando tivesse 80."
A conversa se volta para Fraser, que tinha anteriormente e explicou outra razão para sua retirada da vida pública que era ter um segundo filho. Depois do nascimento de Lucy Belle, ela continuou trabalhando, mas ela fez certo de que ela era capaz de ver seu segundo filho crescer. "Eu estava tão brava comigo", suspira. "Eu percebi que eu tinha perdido, mas isso sou eu, irritada, brava!"
No entanto, as cicatrizes do passado são a cura. Apesar do ônus que ela carrega ela está feliz, e agora sua proximidade com Reece produziu sua primeira música nova para mais de uma década. O casal tem ainda material que "pode tornar-se um álbum", música que - atipicamente - ela diz está muito orgulhoso. Mas ela insiste em que - tal como o dueto com Buckley - a música não está terminada, e não está pronto para consumo público. "Eu sou muito perfeccionista", explica ela. "Eu estou ficando mais forte como pessoa, mas às vezes eu só preciso" - ela está rindo agora - "superar a mim mesmo". Reece entende que o processo de colocar ela de volta juntos como cantora é um processo contínuo.
"Sinto pena pelo público em geral, porque eu a ouço cantando na casa e é realmente incrível", diz ele. "Mas ela é absolutamente verdadeira em todos os sentidos possíveis. Que pode ser muito frustrante, mas é um atributo maravilhoso ter. Eu tenho trabalhado com vários cantores, e muitos deles são falsos. O mundo é um lugar mais triste sem as conções de Elizabeth. "
Fraser sorri docemente, e não diz uma palavra.

http://traczine.blogspot.com/2010/11/elizabeth-fraser-voz-de-outro-mundo.html

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http://www.beatrix.pro.br/mofo/cocteau.htm

Em 1982, na minúscula cidade de Grangemouth, na Escócia existia um cantinho em que um DJ chamado Robin agitava as noites locais tocando clássicos do punk e new wave, chamada Nash, uma boate localizada em um hotel. Grangemouth era tão minúscula que Robin a comparava com um banheiro. Em Nash, sempre aparecia uma garota para dançar e pular, já que não havia outra forma de divertimento. Seu nome era Elizabeth Fraser, conhecida como Liz. Robin e Will Heggie, companheiro de agitos, riam dela, a única que conseguia dançar, e embora não simpatizassem muito com a menina, conversavam entre uma canção e outra. Os três então descobriram alguns gostos comuns, e resolveram montar um grupo. Will tinha um baixo e jurava saber tocar; Robin era guitarrista e Elizabeth mostrou uma voz especialmente peculiar. Para tentarem sair da cidade e ainda fazer algum dinheiro, apostaram na música, enquanto Liz e Robin iniciavam um relacionamento. Adotaram o nome de uma antiga canção do Simple Minds, “The Cocteau Twins”, que foi gravada no álbum de estréia, Life in A Day, do grupo de Jim Kerr, lançado em 1979, com outro nome: No Cure.

Robin, Liz e WillO grupo tinha uma grande paixão pelo som do The Birthday Party, grupo australiano que revelou Nick Cave ao mundo. O Party gravava por um exótico selo chamado 4AD, e Robin e Liz queriam gravar seu primeiro disco pela mesma gravadora. Robin tentou (e conseguiu) conversar com Phil Clavert do Party e entregar uma demo. Phil gostou muito e fez uma importante ponte para que a 4Ad contratasse o jovem trio. “Foi muita cara-de-pau do Robin fazer isso, mas conseguimos o contrato”, lembra Liz.


O que mais chamou a atenção de Phil e da 4AD foi o som produzido pelo grupo. O baixo de Will era pesado, porém extremamente climático. Robin era um guitarrista que não se importava com solos, apenas em sons diferentes, quase minimalistas. E para complementar havia a voz de Liz, sem nenhum paralelo. Como nunca tiveram um baterista, usavam um sintetizador Roland 808. E assim lançaram o seu primeiro disco, batizado de Garlands, em 1982, que recebeu vários elogios dos semanários britânicos.

capa de GarlandsO disco de estréia ofereceu uma prova embrionária do rápido progresso que a banda teria, mostra um som atmosférico habilidosamente construído em volta do talento de Guthrie em usar criativamente a guitarra distorcida, loops e caixas de eco, ancorado no baixo rítmico de Heggie, além de uma onipresente bateria eletrônica. Mesmo sendo um belo trabalho, em comparação com aqueles que viriam a seguir, a sonoridade ainda se apresenta um tanto seca, sem a fluidez dos trabalhos vindouros. Porém, neste primeiro disco, o grupo já apresentava a definição do tipo de som que se tornaria a característica marcante do Cocteau Twins, algo à época, um tanto inclassificável. Se Robin estava mais preocupado com sons diferentes do que com solos de guitarra, o mesmo pode se dizer da relação entre o vocal de Liz Fraser e as letras das canções, pois nesse disco e muitos que viriam posteriormente, o que mais importava eram justamente os sons, pois muitas vezes, as letras cantadas por Liz eram simplesmente incompreensíveis, ou seja, mais valia a sonoridade das palavras do que o seu significado. Aliás, as letras nem sequer apareciam nos encartes dos discos. Apesar da banda defender em entrevistas que essa imprecisão não era proposital, isto acabou se tornando um mito sobre as canções do Cocteau Twins. Perguntava-se, inclusive, em que língua afinal cantava Liz Fraser, chegando-se a conclusão de que não haviam letras nas canções do Cocteau Twins, mas apenas e tão somente sons sem um significado preciso.

Uma das grandes atrações do grupo era o grande cuidado e apuro visual com as capas de discos, singles e EP, todos produzidos pela empresa de artes e design, 23 Envelope. Suas capas etéreas e abstratas tornaram-se uma marca não apenas do Cocteau, mas de quase todo o cast da 4AD, a exemplo do projeto This Mortal Coil, Colourbox, Throwing Muses, etc.

O disco alcançou a quinta posição na parada independente e ganhou um fã: o DJ John Peel. Peel ouviu a banda através do mesmo sistema que Robin apresentou o grupo ao pessoal do Birthday Party, dando-lhe uma famosa fita demo. “Estava um dia na rua e vi o (John) Peel. Pensei que era uma oportunidade muito boa para deixar escapar, me aproximei e educadamente ofereci a fita, que aceitou.” Peel, o DJ mais famoso do Reino Unido, começou a tocar o grupo e logo produziu um programa apenas com eles.

Com o sucesso, abriram shows do Modern English e do Birthday Party por toda a ilha. Aproveitando o sucesso inesperado, lançaram no final do ano o EP Lullabies, que recebeu críticas ainda mais elogiosas. O trio já mudara para Londres, e gravava em um pequeno estúdio e tinha um som diferente. “Garlands parecia uma pedra gigante amarrada em nossos pescoços. Todos esperavam que soássemos da mesma maneira e isso nunca foi nossa intenção”, conta Robin.

No ano seguinte, outro EP, Peppermint Pig, canção que fica nas parada independentes atrás apenas de “Blue Monday”, do New Order, e que teve como produtor Alan Rankine, dos Associates. E, ainda em 1983, acontece o lançamento do segundo disco Head Over Heels, que marca a saída de Heggie. Guthrie e Fraser gravam em 1983 o disco como um duo. Notadamente este é o trabalho de sonoridade mais diáfana do grupo aproximando-se mais do estilo que ficaria conhecido com ethereal, e estabeleceu a fórmula que o grupo continuaria a trabalhar durante quase toda a sua carreira. Ainda como uma dupla, fizeram o EP Sunburst and Snowblind, no mesmo ano.

capa da edição que juntou Sunburst and Snowblind e Head Over HellsNo final de 1983, Simon Raymonde (ex-Drowning Croze) juntou-se à banda para a gravação do disco The Spangle Maker; enquanto o grupo durou, Raymond trouxe um reforço importante para eles, sendo um componente essencial do Cocteau Twins, gradualmente assumindo um ativo papel como escritor das letras, arranjador e produtor. Paralelamente, o grupo participou do projeto This Mortal Coil, idealizado por Ivo Watts-Russel, presidente da 4AD, originalmente um projeto que queria gravar versões de material de outros selos e artistas sem gravadoras, explorando o talento dos artistas “caseiros”, como o pessoal do Dif Juz, X Mal Deutchsland, Wolfgang Press e Dead Can Dance, com participações ocasionais de outros músicos fora da 4AD.

Robin comenta que Ivo lançou o projeto na mesma época em que o Cocteau estava sedimentando sua fama: “quando eu ouvia Song to the Siren tocar na rádio (que tinha vocais de Liz e o baixo de Simon) e nada nosso nas mesmas, me deixava doente de raiva. Simon e Liz participaram de oitos canções lançadas entre 1983 e 1984.



Simon, Liz e RobinSimon conta porque entrou para o Cocteau: “eu sempre fui um grande fã da banda e ouvia todos comentarem como eram místicos e todas essas coisas. Nunca pensei isso, apenas que as músicas eram brilhantes e excitantes e nunca imaginei que, nem em um milhão de anos, seria um membro da banda”, explica.

Simon conta que viajava com o pessoal da 4AD durante os shows, em um dia, em Camden, enquanto Liz e Robin trabalhavam em um pequeno estúdio de 8 pistas, Simon chegou e escreveu a canção “Millimillenary”, que faria parte da coletânea The Pink Opaque, que sairia em 1985. Animado, voltou para casa afim de compor novas músicas até ser convidado por Liz e Robin para passar uma semana na Escócia escrevendo novas composições. “Millimillenary” faria parte de uma coletânea do semanário New Musical Express. O primeiro lançamento de fato do novo trio seria o EP The Spangle Maker, e em seguida, lançariam aquela que é considerada a grande obra-prima da banda (e o primeiro lançamento do grupo no Brasil), Treasure, em 1984.

capa de TreasureEntre os muitos fatores que alçaram Treasure a categoria de obra prima, podemos citar a evolução estrutural melódica das músicas, que apresentam também efeitos sonoros cada vez mais complexos e perfeitamente burilados por Robin e Simon. As canções guardam reminescências sonoras barrocas e dark wave. A voz de Liz também sofreu uma considerável melhora, mostrando um timbre claro e delicado além de um belo alcance vocal, o que pode ser apreciado em faixas como “Persephone”. O disco inicia com a faixa “Ivo” uma clara referência ao presidente da 4AD, as outras canções têm títulos que evocam personagens místicos ou mitológicos, a exemplo de “Lorelei” e “Pandora”. Esse estilo de canções com títulos obscuros ou místicos se repetiriam em outros discos, assim como a utilização de lendas e palavras de origem celta. Essa prática se tornou tão comum que chegaram a disponibilizar um glossário em seu site oficial www.cocteautwins.com com as palavras mais incomuns que apareciam nas canções.

O disco foi votado como o melhor lançamento do ano e Liz considerada a melhor vocalista feminina por vários semanários ingleses. O grupo fez então sua primeira excursão fora da Europa, indo para o Japão onde foram assediados de forma absurda pelo fãs, o que deixou Robin surpreso: “os japoneses são carinhosos. Não era aquela histeria tipo Bealtes, mas após nossas apresentações, ficavam na porta do hotel, querendo conversar, pedir autógrafos. Quando íamos para as estações de trem, eu cheguei a ver entre 2000 a 3000 pessoas nos acompanhando.” Elizabeth completa: “o Japão é um lugar absurdo, eu estava excitada para conhecer por tudo que havia lido, e Treasure era o disco mais vendido do país e lá eles têm a mania de mudar os títulos dos discos nas capas. Treasure virou The Woman the Gods Loved. Imagino que a canção “Persephone” tenha estimulado isso.
Apesar do imenso sucesso do disco, os Cocteau Twins só executavam duas canções ao vivo, “Lorelei” e “Pandora”.

Depois do disco, O Cocteau entrou numa maratona de lançamento nos anos de 1985 e 1986, com seis discos de material inédito e uma coletânea. O primeiro deles foi o EP Aikea-Guinea, e a canção título é uma das melhores composições do grupo segundo, Robin e a favorita dos fãs em shows. Logo depois do lançamento do EP, Robin e Liz participaram de uma inusitada cover de “Respect”, de Otis Redding e que ficou imortalizada na voz de Aretha Franklin, em um álbum do Wolfgang Press, The Legendary Wolfgang Press and Other Tall Stories. Em seguida lançam mais dois Eps, Tiny Dynamine e Echoes in a Shallow Bay, que no final do ano seriam re-lançados como um EP duplo e, segundo Robin, os dois são os dois melhores discos que os Cocteau já produziram. O ano se encerra com o quarto lançamento da banda, a coletânea The Pink Opaque, com faixas desde 1982, além da primeira canção feita por Simon Raymonde, “Millimillenary”, disponível apenas na fita cassete lançada pela já citada revista New Musical Express. O disco foi realizado para funcionar como um cartão de visitas para o mercado norte-americano, já que a banda tinha assinado um acordo para a distribuição de seus trabalhos na América. E antes do ano terminar, a banda já partia para outras colaborações: Simon estava envolvido com o This Mortal Coil e Robin e Liz realizando trabalhos com o pessoal do Dif Juz e do Felt, grupo que teria um pequeno sucesso em uma canção chamada “Primitive Painters”, com vocais de Frazer. E fariam de 1986 um ano inesquecível para suas vidas com o lançamento de dois discos: Victorialand e The Moon and the Melodies.

capa de VictorialandLançado em abril de 1986, o disco não teve a participação de Simon, envolvido com o Coil e, mais uma vez, repetindo o que tinha feito após a partida de Will, Liz e Robin realizaram um trabalho em parceria. O disco, que começou como uma maneira dos dois amantes e músicos para passarem o tempo em estúdio e trabalhando acusticamente com voz e instrumentos e lutando contra suas limitações (palavras de Robin), resultou naquele que é considerado o álbum mais aclamado da vasta discografia da banda e recebeu vários prêmios como o melhor lançamento do ano. O nome foi tirado de uma região da Antártica, e todas as canções giraram em torno desse conceito: “Throughout the Dark Months of April and May” é uma referência ao escuro inverno da região nesses meses; “Whales Tails” fala de rabos de baleia e “The Thinner in the Air”, dos ventos locais. O disco tem a colaboração delicada de Richard Thomas no saxophone e do pessoal do Dif Juz nas tablas (pequenos tambores tocado com as mãos). Nessa época começaram a ser rotulados como new age, por causa dos vocais peculiares de Liz e dos climas esparsos e etéreos da banda, o que não deixou a banda muito feliz. Robin chegou a dizer que new age era música feita por gente de mais de 50 anos e carecas. Para Simon, o rótulo apareceu apenas por causa de Victorialand, mas que new age era muzak, enquanto o Cocteau jamais soou como tal.

Para o próximo disco, resolveram ampliar seus horizontes: ao invés de um disco intiitulado Cocteau Twins, preferiam usar os nomes Simon Raymonde, Robin Guthrie and Elizabeth Fraser, ao lado do pianista Harold Budd. O nome do disco era The Moon and the Melodies. A idéia começou como um documentário de televisão, mas como viram que as músicas eram boas demais para servirem apenas como trilha de fundo, resolveram fazer um disco do grupo, acrescido de Budd, que mais uma vez colaboraria em um trabalho da banda como tecladista e compositor. Budd comparece com sons de teclado e piano que guardam uma forte influência musical de Brian Eno. Também enriquecem a sonoridade do disco a presença do sax e da bateria de Richard Thomas, do Dif Juz , nas faixas “She Will Destroy You”, “The Ghost Has No Home” e “Bloody and Blunt”, o que já havia acontecido no álbum anterior .Tudo isso combinado a guitarra de Robin e o vocal bem trabalhado de Liz, servem para criar aquilo que a banda denominaria “trilha sonora para os sonhos”. Todo o conjunto soa um tanto difuso, distante, como se realmente se tratasse de um sonho, até mesmo o piano, que parece estar sendo tocado embaixo d'água.

E se a banda era um tanto difusa e para alguns misteriosa, começaram a cercar o grupo para entrevistas, o que desagradava os membros do Cocteau. O mais intratável era sempre Robin que chegou a comentar: “Gostaria que as pessoas parassem de querer saberem sobre nossas vidas, o que gostamos, quem somos e que aceitassem os discos e pronto. Por que, raios, querem saber sobre minha filosofia de vida? Desde quando minha opinião é mais importante do que a dos outros?” Enquanto isso, lançaram mais um EP Love's Easy Tears, com três faixas: a faixa de mesmo nome, “Sigh's Smell of Farewell” (a minha preferida do grupo – Rubens) e “Those Eyes, That Mouth”. Posteriormente o EP seria relançado com a adição de outra canção, “Orange Appled”.

Nessa época o grupo havia construído seu próprio estúdio e ficavam horas trancados produzindo músicas, sem se importar com a morosidade das outras bandas. Robin: “ficar trancado dentro de um estúdio meses e meses não significa que queremos simplesmente fazer um trabalho diferente de outro, mas acontece que isso ocorre de uma maneira natural e acabam soando assim. Constantemente mudamos nossas atitudes e nos contradizemos, mas acho que isso é um hábito bem saudável.” Liz tentava explicar porque as letras soavam de maneira quase incompreensíveis: “nós tentamos colocar a voz bem alto na mixagem, para manter todos os efeitos longe, mas parece que sempre falhamos nisso.” Robin, discorda: “não há nada errado com a mixagem, efeitos ou a voz de Liz, é assim que ela soa. Isso quer dizer que as pessoas são incapazes de entender o que ela canta?”

Robin, Liz e SimonRobin mostra que apesar de não gostarem de falar de outros assuntos fora a música, confessou que gostaria de ter sido convidado para o projeto Artists United Against Apartheid, organizado pelo guitarrista Little Steven, colaborador de Bruce Springsteen, de 1986, contra o regime racial da África do Sul. Posteriormente, cederiam uma canção de Victorialand para a campanha dos direitos dos animais, e outra para a paz mundial, em 1993.



“Música com mensagens têm sua hora e lugar e muitos podem e fazem isso melhor do que nós. Pegue o exemplo do Morrissey, que responde qualquer coisa porque tem grande conhecimento geral e o considero melhor falando do que cantando. Esse é um dos motivos que fazem as pessoas comprarem os discos dos Smiths, eles querem uma mensagem. Mas não é por isso que seguiremos a mesma linha”, explica Robin.

“Para mim está claro que as pessoas vejam nos títulos uma maneira de entender a canção, mas acredito que as capas também podem fazer a mesma coisa. Se um disco não mostra os nomes das músicas fica impossível dele ser publicado e evita que os jornalistas fiquem escrevendo 'aquela música que faz hum hum hum', essa merda toda. Em Treasure sofremos esse tipo de problemas ao dar nomes às músicas e no fim, desistimos e fizemos da maneira que achávamos melhor”, explica Liz.

Das quatro canções de Love's Easy Tears, apenas “Those Eyes, That Mouth”, não era tocada nos shows, embora “Orange Appled”, só tenha feito parte das apresentações, a partir de 1991. Em 1987, primeiro ano desde 1982 em que não houve um lançamento oficial do grupo, eles cederam a faixa “Crush” para uma compilação da 4AD, chamada Lonely is An Eyesore, coletânea que acabou sendo lançada aqui, também.

capa de Blue Bell KnollEm 1988, lançam o disco que seria considerado por muitos como o melhor de sua carreira, Blue Bell Knoll. Sei que isso é relativo, mas de fato esse foi o disco que obteve a melhor recepção da crítica e do público. Em uma enquete feita recentemente no site oficial da banda esse trabalho foi apontado pelos fãs como o melhor já lançado, seguido de Victorialand e Treasure. O título evoca uma antiga lenda celta sobre a morte. Somente aqueles que estão próximos da morte podem ouvir o som do blue bell (uma planta gramínea que tem florzinhas em forma de sino). Segundo alguns, a banda teria nesse trabalho sofisticado demais o seu som, apesar de que realmente esse foi até então o disco que soava melhor produzido. Isso é percebido à partir da primeira faixa, e que intitula o disco (e a minha preferida da banda – Beatrix), belamente introduzida por uma delicada seqüência de loops de piano e sintetizador, que acompanham uma melodia fluida e hipnotizante. Em outras faixas do disco aparecem combinações instrumentais diferentes e variadas, que soam ao mesmo tempo ricas e exóticas. As várias camadas de guitarras e baixo se aliam aos sons de xilofone, clavicórdio e marimba produzindo uma sonoridade rica, densa e fluida, conferindo um certo tom impressionista às melodias, evocando diferentes texturas e imagens. Esse disco traz algumas das mais belas e inspiradas canções do grupo: “Carolyn's Fingers” e “Athol-brose”. Esse foi o primeiro trabalho da banda produzido por uma major,a Capitol, além de ser o primeiro disco de estúdio lançado nos Estados Unidos.

Após o disco, o grupo tirou as primeiras férias desde o início da carreira. Robin e Liz ficaram curtindo a gravidez da cantora e o nascimento da pequena Lucy Belle. Simon casou e também virou pai com o nascimento de Stanley. O grupo investiu em um novo estúdio para trabalhar, em Twinckenham, ao sudoeste de Londres e que era conhecido por ter sido o famoso estúdio Eel Pie, de Pete Townshend, do finado The Who. A banda batizou a nova casa de September Sound, já que setembro foi o mês em que nasceram as duas crianças.

Paralelo à isso, Robin produziu vários grupos, como o Chapterouse, o Lush, o Veldt e Shellyan Orphan, enquanto Liz deu uma canja no primeiro disco-solo do bunnyman Ian McCulloch, Candleland, na faixa-título. Em 1990, lançam o novo disco Heaven or Las Vegas, que acabaria sendo o maior sucesso comercial da carreira do grupo.

Tal sucesso talvez se deva ao fato deste ser o menos experimental e mais acessível dos trabalhos da banda, o que não significa, em hipótese alguma que o grupo tenha aberto mão da inventividade sonora, contudo é um disco mais palatável para os padrões pop. É de fato o primeiro disco em que é possível entender claramente as letras cantadas por Liz. Na faixa de ritmo lento e monótono, "Fotzepolitic", ela canta: “Meus sonhos são todos mais ou menos básicos e endereçados, são sonhos de uma garotinha...” . As canções trazem impressões sobre a maternidade ("Road, River, and Rail"), a realidade e o estresse do dia-a-dia ("Wolf in the Breast"), amor ("Pitch the Baby") e trabalho ("Iceblink Luck"). As dez faixas que compõem o disco apresentam sonoridades diversas, que vão do hip hop em “Pitch the Baby” (que foi lançada em uma coletânea da Mute Records/4AD chamada Red Tape); suaves baladas como "Wolf in the Breast" e "Fifty-Fifty Clown"; e a beleza tépida e refinada de "Iceblink Luck" e da faixa título.

A interpretação de Liz ganha uma certa candura, talvez decorrente da maternidade. Mesmo apresentando texturas claras e brilhantes, aparentando ser um disco menos trabalhado que os anteriores, na verdade ele representa uma evolução em relação a exploração de novas tecnologias pelo grupo (especialmente por Robin, o mais ligado nessas experimentações), contudo as canções conseguem soar mais objetivas, coesas e despojadas.

Estranhamente, após o lançamento do disco, a Capitol e a 4AD resolveram lançar, em conjunto, ao invés de um single de trabalho da faixa-título, um novo título, contendo a versão do disco, uma editada e outra canção inédita, “Dials”, que foi usada como música inicial para os shows da turnê.

A turnê, aliás, foi a mais concorrida da carreira dos Cocteau Twins, com ingressos esgotados para todas as apresentações. Pela primeira vez seriam headliners (banda principal de um show) e, ainda assim, não queriam sair excursionando de maneira nenhuma. “Nós não queríamos fazer shows, mas estamos fazendo isso apenas porque há um novo álbum, mas enquanto fazíamos o disco ficávamos angustiados pensando que teríamos que tocar todas essas novas canções ao vivo”, explica Simon. Outro motivo para não quererem realizar apresentações era o longo tempo em que não tocavam certas canções. “Quando entramos em estúdio, gastamos mais da metade de uma tarde, arrumando um solo de guitarra de uma música, detalhes assim, e quando vamos tocá-las dois anos mais tarde, nem sempre conseguimos nos lembrar. Nós não ficamos ensaiando antigas músicas no estúdio como outras bandas que conhecem seu repertório de trás para frente. Não fazemos isso”, completa Robin. Para os shows na América, eles tiveram a companhia, primeiro do Mazzy Star, e depois do Veldt.

A banda percebeu que dificilmente conseguiria reproduzir o som do disco no palco, apenas com baixo, bateria, voz e tapes e que necessitariam de uma maior infra-estrutura. A solução foi a adição de dois novos guitarristas, Mitsuo Tate e Ben Blakeman. Efeitos e baterias eram executados por computadores e apenas na turnê seguinte, entre 1993/94 é que contratariam um baterista. A turnê encerrou, de forma apropriada, em Las Vegas, quando perceberam o quanto o paraíso (alusão ao “Heaven” do título) estava distante, por alguns motivos. O primeiro deles foi a declaração oficial de Ivo, avisando que o longo contrato com a 4AD estava terminado e que poderiam seguir o caminho que desejassem. Apesar disso, houve um certo constrangimento dos dois lados. Mas o maior problema era o de Robin com as drogas, que se tornava cada vez maior, adicionados a um racha interno que só fazia aumentar, embora ninguém comentasse. Apesar de todo sucesso e atenção da mídia, o grupo não estava mais feliz.

caixa de compactos do Cocteau Twins Em três anos, a única canção nova composta foi “Frosty the Snowman”, para uma revista de música, em 1992. Então a 4AD e a Capitol resolveram capitalizar em cima do hiato criativo e lançaram, em 1991, uma caixa contendo todos os inúmeros singles que o grupo gravara entre 1982 e 1990, e canções raras, sendo formada por dez cds.

Os anos de hibernação serviram para que Robin ficasse limpo em relação às drogas e que o grupo descansasse da pressão e começasse a trabalhar novamente em outras composições, que resultaria no disco Four-Calendar Café.

O disco foi lançado por um novo selo no Reino Unido, a Mercury Fontana, que veio até o Brasil assinar com o grupo, já que a Capitol era a represetante norte-americana do Cocteau. Robin explica melhor o ocorrido: “nós estávamos promovendo o Heaven or Las Vegas no Brasil, quando ficamos sabendo que algumas pessoas da Fontana queriam ir até lá para conversar conosco. Disse que poderiam vir, mas eles estão loucos se pensam que assinaremos só porque resolveram vir de tão longe para isso.”. O acerto aconteceu porque a gravadora resolveu deixar a banda totalmente livre para executar suas músicas da maneira que achasse melhor.

É o primeiro trabalho da banda após o término de um longo e estável relacionamento com a gravadora 4AD. Produzido e lançado pela Capitol Records em novembro de 1993, traz 10 faixas que foram gravadas e mixadas no September Sound, o estúdio da banda. É considerado o mais confessional dos seus trabalhos. Aqui o grupo preferiu investir mais no conteúdo que no estilo. Os temas oscilam entre as dificuldades do novo começo profissional e os problemas pessoais de seus integrantes. As canções expõem de forma bastante aberta essas questões, como nunca havia sido feito antes, quebrando um pouco a mística enigmática em torno do grupo. O disco conta com colaborações de estúdio de Lincoln Fong, além das guitarras adicionais de Mitsuo Tate e Ben Blakeman, e da bateria e percussão de Benny DiMassa e David Palfreeman. Canções como "Evangeline," "Bluebeard" e "Know Who You Are at Every Age" representam o contínuo esforço do grupo em tornar-se mais acessível em relação às letras e melodias, contudo, sem abrir mão da fluidez e do estilo ethereal que sempre caracterizou a banda. Ao mesmo tempo em que traz pops dançantes misturados a influência de country-music, como a faixa “Bluebeard” , apresenta canções com forte carga emocional e que expõem as dificuldades e sofrimentos individuais dos integrantes da banda, inclusive uma dos maiores problemas do grupo, a dependência de Robin em relação às drogas e o álcool; à exemplo de "Theft, and Wandering Around Lost","Oil of Angels","Squeeze Wax” e “Evangeline”, que traz um delicado arranjo de guitarras e teclado rítmico.

“Eu fui o último a perceber a que ponto chegaram meus problemas por causa das drogas. Não consegui me limpar rapidamente, demorei uns seis meses. Só resolvi parar com tudo isso quando me lembrei das pessoas que haviam morrido dessa maneira, como o Sid Vicious. Eu havia me tornado um problema.”

As letras de Liz surpreenderam pela maneira direta e até crua seus problemas e dando pistas que o casamento com Robin não andava bem, e não era apenas pela questão do abuso de aditivos químicos. Em “Evangeline”, Liz fala: “Não há como voltar para trás/Não posso evitar meus sentimentos/Não sou mais a mesma/Voltei a crescer”. Em “Bluebeard”, os sentimentos são ainda mais expostos: “Você é o homem certo para mim?/Está seguro disso? É meu amigo?/Ou está intoxicado de mim?/Por que você me maltrata ou trai minha confiança?”

“Percebi que sempre fui uma pessoa muito reservada e que constantemente crio uma máscara para os outros e só agora percebi o quanto fiz isso. Não sei dizer ao certo o que está acontecendo, mas espero que não signifique que não me permita fazer mais do que realizei em Blue Bell Knoll. Gosto de ter habilidade de fazer o que sinto vontade. Neste disco estou expressando ou falando das mesmas coisas, mas não estou aprisionadas nelas. Tudo é muito doloroso e as letras refletem são mais explícitas, embora não ache o termo explícito o mais correto. Penso que são mais pessoais.”

Fraser tenta explicar o motivo de suas letras serem menos abstratas do que no passado: “No passado parece que eu queria escrever e cantar letras que eu não entendia como se eu construísse novas palavras por haver uma resma delas que não tinha a menor idéia do que significavam. Mesmo assim queria usá-las porque me sentia capaz de me expressar sem dar a menor chance de me decifrarem.”

No outono de 1993, o grupo sai promovendo o disco levando um baterista e um percussionistas reais, convidando Benny DiMassa e David Palfreeman , que haviam trabalhado no disco, além dos já habituais guitarristas Mitsuo Tate e Ben Blakeman, e no palco, pareciam mais entusiasmados do que nunca. O grupo fez então algumas experiências totalmente estranhas: a primeira delas foi participar do programa “120 Minutes” da MTV onde Robin mostrou um visível desconforto. Depois participaram do programa “Tonight Show with Jay Leno”, onde tocaram “Bluebeard” com Liz brincando bastante com sua voz e Ben usando um vestido.

Durante a turnê Liz e Robin começaram a deixar ainda mais claro que as diferenças entre eles apenas aumentavam. Enquanto Liz dizia que queria cantar antigas músicas que não eram mais realizadas, Robin desdenhava o passado, dizendo que preferia aprender outras novas para ensinar ao grupo. Robin também começou a ter atitudes de um rock-star típico, reclamando do alto custo diário da excursão: “As antigas canções são ok, assim como as novas, mas na verdade, não me importo com nenhuma delas. Tudo que gostaria era de poder parar por uma semana e aprender outras, mas não podemos fazer isso, por causa do alto custo diário. Parece um choro bobo, mas essa turnê nos custa um sem-número de milhares de dólares por dia e nós estamos perdendo dinheiro com ela. O único dinheiro que entra atualmente para mim são dos royalties. Eu não ligo para salário, mas gosto de ter meu dinheiro como qualquer outro trabalhador, mas a verdade é que já faz 3 ou 4 meses que não tenho um como qualquer pessoa normal. Se fizéssemos apenas uma excursão pela Europa, os custos seriam bem menores e ainda ganharíamos, mas privaríamos nossos fãs na América. Estou tentando ser mais razoável com o tempo porque antigamente eu mandaria os fãs à merda. Então as pessoas compram o ingressos e damos exatamente aquilo que querem. Mas eu fico me perguntando se estou sendo sincero comigo e com a minha música ou apenas fingindo ser. Hoje tento fazer a coisa certa, enquanto no passado queria apenas realizar à minha maneira, que nem sempre era a correta.”

Após a turnê, em 1994, Liz teve uma crise nervosa decorrente de toda a pressão e também admitiu que seu relacionamento com Robin não tinha mais sentindo. Mais uma vez, Robin, Liz e Simon investiram em projetos pessoais, sendo o mais curioso realizado pela cantora, que participou de um disco nunca lançado: um disco de músicas do Pink Floyd com a London Philarmonic Orchestra. Enquanto isso, uma cantora chinesa, Faye Wong (Wangfei) regravou “Know Who You Are at Every Age” e “Bluebears” de Four-Calendar Café em mandarim.

Em 1995, os ânimos estavam mais serenados e o grupo resolveu fazer algo em que sempre foram mestres, um EP, que acabaram virando dois: Twinlights e Otherness.
“Estamos bem melhores agora e foi bom esse pesadelo ter acontecido porque percebemos que se amamos alguém, não importa o quanto ela desça e você continuará a amando. É algo estressante, de fato, porque é um casamento entre três pessoas, mas ao mesmo tempo, muito prazeroso.”

Os EPs foram um processo natural, segundo Liz: “nós queríamos voltar a produzir e imaginamos que um EP, por ser mais curto que um disco seria o melhor caminho”. A opinião era compartilhada por Simon: “é um tipo de exercício. Escrevemos pequenas canções para ver onde queríamos chegar.”

Na canção “Rilkean Heart”, de Twinlights, inspirada no poeta alemão Rainer Maria Rilke, Liz canta sobre o amor e cita Jeff Buckley, cantor, compositor, filho de Tim Buckley e que morreria no ano seguinte, afogado. Muitos diziam que Jeff era a grande paixão de Liz desde que a separação de Robin acontecera, fato que ela jamais comentou, especialmente após a morte de Buckley. A única coisa que disse à epoca foi “é realmente algo cafone falar assim, mas eu estou me sentindo terrivelmente faminta por amor, e me sinto compulsiva com isso.”

A música acabou gerando um projeto novo. O cineasta Drik Van Dooren e desenhista gráfico Tomato resolveram fazer um curta-metragem em cima de “Rilkean Heart”. Mesmo sem o apoio da Mercury Fontana, o grupo bancou o projeto, rodado em 16 mm e Super 8, e que acabou ganhando o prêmio do Grande Júri no Festival de Cinema em Charleston, na Carolina do Sul.

capa de Milk & KissesTudo isso faria que a gravação do último disco oficial do Cocteau Twins, Milk & Kisses fosse realizado em uma harmonia de grande paz e alegria. Esse trabalho representa um retorno às raízes musicais do grupo. Estão presentes as antigas texturas e camadas de guitarras e voz, linhas de baixo, e as letras obscuras e ininteligíveis que tanto caracterizaram o grupo e fizeram a sua mística. Um exemplo é a faixa de abertura, "Violaine", uma espécie de rock'n'roll estilo Cocteau Twins, com uma linha de baixo funk e camadas de guitarra distorcida, acompanhadas da voz de Liz, que canta uma letra totalmente incompreensível, que seria uma espécie de brincadeira sobre mensagens ocultas em canções. "Half-Gifts" e "Rilkean Heart," que apareceram em um formato semi-acústico no EP Twinlights reaparecem em versões diferentes, mais eletrônicas. Merecem destaque as pérolas pop "Tishbite," "Calfskin Smack" e "Ups", além da faixa "Eperdu" que recria um clima fluido como ondas oceânicas, uma referência ao local onde o álbum foi escrito, na costa francesa (Eperdu é o equivalente em francês arcaico à expressão es perdu, "está perdido"). "Treasue Hand" mostra a banda de volta a sua melhor forma, uma bela canção construída sobre um clima sereno e contemplativo que encaminha-se lentamente rumo a uma tensão que explode repentinamente, em uma fórmula semelhante à canções anteriores da banda como "Donimo" (Treasure) e "Pur" (Four-Calendar Café). É um trabalho memorável, que ilustra a caminhada de um dos grupos mais criativo e inovadores das últimas décadas, e traz tudo que um bom álbum do Cocteau Twins pode dar: som hipnótico, onírico, embalado por vozes etéreas, sons líquidos e delicadas texturas sonoras.

Robin define a gravação desse trabalho como uma experiência prazerosa. Elas foram gravadas na ciidade de Brittany, na França, onde a nova esposa de Robin vivia. Segundo ele, foi a primeira vez na carreira em que os três trabalharam ao mesmo tempo em estúdio, já que no passado, cada um fazia sua parte em horas diferentes. “Quando líamos sobre a vibração dos outros grupos trabalhando juntos em um estúdio, achávamos isso uma grande besteira, porque para nós sempre foi extremamente alienante. E descobrimos que esses dois meses juntos, todos os dias foram muito agradáveis.” Simon fala que a melhor coisa do disco foi a rapidez: “Robin e eu escrevíamos uma canção e não precisamos ficar esperando que a musa eterna viesse visitar Liz para que cantasse.”

Uma última excursão mostrou a banda ainda mais madura. Com vários músicos no palco, entre eles um tecladista, a banda soou mais alegre do que antes, cantando vários clássicos da época de Garlands, passando por Heaven Over Heels e Treasure. Após o final das apresentações, eles ficaram livres do contrato com a Mercury Fontana e tiveram que negar que se separariam, dizendo que estavam felizes de terem saído da “grande máquina”. Fundaram um selo próprio, Bella Union, e de forma surpreendente, anunciaram em 1998, em meio às gravações de um novo trabalho, que iriam encerrar as atividades. Simon tenta explicar os motivos: “Sempre houve uma grande dificuldade desde a separação de Liz e Robin, em 1993. Foi um período duro, com excursões e pressão. Eles acabaram se tornando amigos novamente, mas logo arranjaram outros companheiros, o que gerou uma grande tensão. Talvez todos tivéssemos medo de ficar sem a banda e por isso, sempre conseguíamos criar um bom ambiente de trabalho. Todos queríamos deixar a Mercury e desde os tempos da 4AD sonhávamos com um selo nosso.. Começamos a trabalhar e estávamos perto do final, com 15 ou 16 novas canções e Liz já tinha colocado a voz em sete delas. Não sei o real motivo pelo qual ela resolveu partir, já que em duas semanas todas as canções estariam finalizadas. Foi um choque, pois eram coisas maravilhosas, com influências diversas. Enfim, nossa separação será um outro muito sobre a lenda acerca dos Cocteau Twins.”

Com a separação, o grupo deixou alguns legados. Em 1999, pela Bella, lançaram um CD duplo com gravações na BBC, entre 1982 e 1996, o BBC Sessions. Simon explica que fizeram o disco por acharem que tinham uma dívida com John Peel. São trinta faixas divididas em dois discos. Todas são músicas do Cocteau Twins, com exceção de Strange Fruit, uma cover de uma canção de autoria de Lewis Allan, de 1939, que ficou celebrizada nas vozes de Billie Holliday e Josephine Baker. Foi cantada por Liz em uma Peel Session em outubro de 1983. A única música inédita é a instrumental “My Hue and Cry”.

capa de Stars and TopsoilEm 2000 é lançado Stars and Topsoil, uma coletânea de 18 faixas, dos melhores trabalhos da banda gravados entre 1982 e 1990 pela 4AD Records. As faixas foram rigorosamente selecionadas pelos membros da banda e remasterizadas por Robin e Walter Coelho, um engenheiro de som e produtor brasileiro especializado em música eletrônica. O título da coletânea, que foi dado por Liz, sugere uma mistura entre bem e mal, céu e terra, talvez uma reflexão sobre as experiências boas e más, que grupo viveu nos seus 19 anos de carreira. Esta coletânea foi lançada no Brasil e continua em catálogo.



Após o término da banda seus integrantes continuaram produzindo musicalmente, ainda que de maneira esparsa, participando de colaborações com outros artistas e bandas. Simon ainda lançou um disco-solo muito elogiado chamado Blame Someone Else, em 1998. Logo após este lançamento Robin anunciou que voltaria a escrever novamente. Montou um novo projeto musical com a vocalista Siobahn De Maré (ex-Mono), chamado Violet Indiana. A primeira gravação do grupo foi o EP lançado em 2000, intitulado Choke, logo seguido do disco Roulette em 2001,dos singles Killer Eyes do mesmo ano e Cassino, de 2002. O novo projeto de Robin traz harmonias e texturas de guitarra muito próximas aos antigos trabalhos do Cocteau Twins, em meio a um pop com influências de cool jazz.

Quanto a Liz Fraser, fez participações vocais em trabalhos de diversos artistas. Mudou-se com seu novo parceiro, Damon Reece (membro do Spiritualized) em 1998 para Bristol, lar da cena trip-hop inglesa. Em 1998 participou do álbum Mezzanine da banda Massive Attack nas faixas "Teardrop," "Black Milk" and "Group Four", chegando a acompanhar a turnê britânica da banda. No mesmo ano participou da gravação do disco de Craig Armstrong, The Space Between Us, com a canção "This Love" . Em 1999 foi convidada por Peter Gabriel para participar de seu controverso projeto conceitual OVO, que tratava da comemoração da chegada do novo milénio. Liz aceitou e compareceu em duas faixas "Downside Up" e "Make Tomorrow". Também participou da gravação da trilha sonora de diversos filmes, entre os quais o britânico The Winter Guest e o americano In Dreams. Seus trabalhos mais recente são participações nas trilhas sonoras dos filmes O senhor dos Anéis: a sociedade do anel (Lothlorien (Lament for Gandalf)) e O senhor dos Anéis: As duas Torres (Isengard Unleashed).

Até o final de 2003 a gravadora 4AD está prometendo um relançamento de seis discos do Cocteau Twins originalmente lançados pelo selo: Garlands, Head Over Heels, Treasure, Victorialand, Blue Bell Knoll e Heaven or Las Vegas. Os álbuns serão digitalmente remasterizados por Robin Guthrie, e terão o design e a arte de capa revisados (o que está deixando os antigos fãs da banda preocupados). Esse relançamento é bastante justo, pois mesmo após o fim do grupo, e sem que seus ex-integrantes tenham, em suas carreiras solo, feito algo de semelhante relevo em comparação aos trabalhos antigos do Cocteau Twins, é inegável a importância que o grupo tem ainda hoje, influenciando diversos grupos e artistas da atualidade.

Discografia


Garlands (1982)
Lullabies (EP, 1982)
Peppermint Pig (EP, 1983)
Head Over Heels (1983)
Sunburst and Snowblind (EP, 1983)
The Spangle Maker (EP, 1984)
Treasure (1984)
Aikea-Guinea (EP, 1985)
Tiny Dynamine (EP, 1985)
Echoes in a Shallow Bay (EP, 1985)
The Pink Opaque (1985)
Victorialand (1986)
The Moon and the Melodies (1986)
Love's Easy Tears (EP, 1986)
Blue Bell Knoll (1988)
Heaven or Las Vegas (1990)
Iceblink luck (single, 1990)
Heaven or Las Vegas (1991)
Box Set (1991)
Four-Calendar Café (1993)
Evangeline (single, 1993)
Snow (single, 1993)
Bluebeard (single, 1994)
Twinlights (EP, 1995)
Otherness (EP, 1995)
Milk & Kisses (1996)
Tishbite 1 (1996)
Tishbite 2 (1996)
Violaine 1 (1996)
Violaine 2 (1996)
BBC Sessions (1999)
Stars and Topsoil (2000)