quarta-feira, 22 de junho de 2011

Os 11 Filmes mais insanos de todos os tempos

11) SALò, OU 120 DIAS DE SODOMA
                                    capa
Salò o le 120 giornate di Sodoma (Itália, 1975)
Diretor: Pier Paolo Pasolini
Duração: 116 min
Bom, Falar de "Salò, ou 120 dias de sodoma" é um tanto complicado. Nele Pier Paolo Pasolini faz uma denúncia do domínio facista na Itália usando como base o livro "Os 120 dias de sodoma", do Marquês de Sade. Mas devido a péssima qualidade cinematográfica o tiro acabou saindo pela culatra.
A história se passa numa mansão, na província de Salò, na Itália, para onde são levados à força 18 jovems; sendo 8 mulheres e 8 homens, a mando de 4 libertários fascistas, que pretenden usa-los como base para as maiores bizarrices sexuais (ou não).
Logo que chegam à mansão, são lidas as normas da jornada que está para começar. Elas basicamente dizem que os presos devem fazer tudo que for ordenado e quem sair da linha morrerá mais cedo.
O filme é dividido em 3 partes intituladas "O Círculo de Manias", "O Círculo da Merda" e "O Círculo do Sangue".
                 cena 02
No primeiro círculo todos os tipos de perversões são postas em prática, guiadas pela narração de uma cafetina/prostituta, que conta suas histórias como forma de inspiração para os cavalheiros. No segundo círculo uma outra senhora guia os acontecimentos com suas histórias ligadas a cropofogia, que culmina num banquete à base das fezes de todos os integrantes da mansão. O terceiro e último círculo é basicamente composto de 3 senhores torturando seus servos no quintal, enquanto o 4º fica olhando os acontecimentos da bancada da mansão. E assim eles revezam até que não sobre niguém vivo.
Como filme, eu achei "Salò" uma merda (desculpem o trocadilho). A idéia de usar não-atores definitivamente deu errado. As atuações ficaram tão ruins que não se sente nenhuma empatia pelas "vitimas", e as torturas acabam ficando "bobas". O expectador sente mais agonia e nojo do que necessariamente pena ou ultraje ao assistir as sequências mais pesadas do filme.
Na verdade é necessario um pouco de imaginação para sentir alguma coisa. Por exemplo, na sequência em que vemos uma jovem sendo obrigada a comer merda, a garota começa e fazer cara de nojo e chorar quando, na verdade, a reação lógica seria vomitar (todo mundo aqui ja assistiu Jackass, correto?). Pode parecer um detalhe insignificante, mas quando temos um roteiro sem profundidade, personagens rasos e atuações tão ruins, o mínimo que podemos esperar é um pouco de veracidade que dê um tom de documentário ao filme. A ausência de trilha sonora e fotografia lacram o caixão!
Em relação ao contexto politico do filme, bom... Ricos e poderosos explorando os pobre e miseráveis não é exatamente um tema que preencha um filme de 116 mins sem a ajuda de um roteiro que envolva personagems, no mínimo, carismáticos não acham?
             cena 01
Se ele pretendia chocar com a crueldade nazi-facista, seria bom ter focado um pouco mais na miséria dos humilhados, e ressaltado mais as motivações lascivas de seus algozes. Se ele queria fazer um filme visualmente chocante e pervertido como Sade fez em sua obra literária, seria importante que as cenas de tortura fossem mais críveis, e a fotografia ajudasse mais no clima.
Agora as curiosidades sobre o filme:
- As fezes usadas no filme são uma mistura de chocolate e marmelada.
- A primeira versão do filme foi tirada das prateleiras, por causa de problemas com os direitos autorais. Devido a isso uma cópia original em boas condições está valendo em torno de 600 dolares.
- O DVD remasterizado, lançado no Japão, tem muitas fotos de produção que nenhuma outra versão tem, incluindo a cena de uma garota sendo eletrocutada e os corpos das vitimas alinhados no quintal com Fezes por cima. Todos as cenas fazem parte da última parte do filme (pra vocês verem como os japoneses estão mais acostumados com esse tipo de coisa).
- Salò é a primeira parte da "trilogia da morte" que ficou sem os dois últimos filmes devido ao assassinato de Pasolini, seis meses apos a conclusão de Salò. Essa trilogia seria um complemento a "trilogia da vida" composta pelos filmes "Decameron", "Os Contos de Canterbury" e "As Mil e Uma Noites".
Finalizando: Salò é um fime chocante, mas somente para quem está desacostumado com esse tipo de coisa. se você já assistiu a "Pink Flamingos" ou "Guinea Pig" não vai achar grande coisa. Sobre a visão politica, não vi grandes questões levantadas ou aprofundadas. Se você realmente quiser entender melhor sobre o assunto procure o documentário ou algo no estilo. Mas se só querem ver um filme que tenha esse tema como pano de fundo assistam "Malena" de Geoseppe Torunatori, "A Vida é Bela" de Roberto Benigne.
Avaliação:
Agonia - 4
Pertubação - 2
Repulsividade - 4
Assustadoridade - 1
Violência - 3

10) Funny Games - Violência Gratuita
                                      
Funny Games (1997)
Diretor: Michael Haneke
Duração: 108 min
Um soco na cara!
Essa e a melhor forma de definir esse filme, tanto literal com o figurativamente,isso já se comprova no começo do mesmo: uma família feliz, viajando para sua casa de campo e brincando de adivinhar a música, e do nada a trilha sonora muda para um death-metal pesadíssimo, dando ao espectador uma idéia do que esta por vir.
O interessante é que o esse filme demonstra que não só diretores conhecidamente amalucados (como todos que aqui estão) fazem filmes insanos. Michael Haneke é um conhecido autor "cabeça", considerado um dos melhores diretores europeus, mas sutilmente entrega obras como essa, que perfeitamente debatem sobre temas mais pesados como a banalização da violência. 
              
A historia é simples. Uma familia (pai, mãe e filho) que é seqüestrada por uma dupla de jovens sádicos, que irão fazer de tudo para causar o máximo de sofrimento físico e psicológico possível.
E é isso, nada além, sem grandes dramas ou reviravoltas. Mas o que faz desse filme tão bom (na minha opinião) é a forma como nós somos levados para junto dessa violência, que é mostrada de forma tão crua, estamos tão acostumados com a estilização de tudo, com cenas que mostram como é "legal" dar porrada e atirar nos outros, que perdemos a sensibilidade à dor alheia.
Não estou sendo moralista nem nada do tipo, mas é difícil não se questionar quando um maníaco torturador, olha para a câmera (o espectador) e dá uma piscadela como que dizendo "divertido né?", ou quando a vitima implora para ser morta e ele vira e pergunta"e aí? acha que já chega?". É como se nó fossémos seus cúmplices, e estivéssemos nos divertindo com o que está acontecendo.
            
Recentemente o filme ganhou um remake americano (o original foi feito na Áustria), que curiosamente foi dirigido pelo próprio Haneke e ainda por cima utilizou os mesmos ângulos de câmera e roteiro. O remake foi estrelado por Naomi Watts, Tim Roth e Michael Pitt. Como ainda não assistimos, não podemos opinar!
É esse tipo de emoção que você vai encontra em Funny Games,com utilização da meta-linguagem o diretor conseguiu fazer eu me sentir culpado por ter locado o DVD. Não é um filme pra se assistir qualquer hora, não é um filme gostoso de se ver, mas definitivamente é um filme obrigatório pra quem gosta de cinema alternativo.
Avaliação:
Agonia - 3
Pertubação - 3
Repulsividade - 2
Assustadoridade - 4
Violência - 4

9) Audition
                                    
Ôdishon (Japão, 1999)
Diretor: Takashi Miike
Duração: 115 min
Vamos falar de Audition!
Dirigido por Takashi Miike (o mesmo de Itchi the killer), Audition assusta pra caralho!
Na verdade, o mais assustador dele é a forma como a historia foi contada. Não espere cenas de suspense a cada 10 minutos, porque isso já não assusta mais. O filme está mais pra uma viagem ao inferno do que um trem fantasma. No começo ele parece mais com um filme de romance (o que assusta muito), e à medida em que o expectador vai descobrindo mais sobre a "mocinha" da história, o filme vai ficando mais tenso; até culminar em uma das cenas de tortura mais sinistras que já vi. Esqueça chute no saco, choques, marteladas ou saco da verdade. Não que para assustar, o diretor tenha se firmado somente em dor fisica, o clima de terror está em tudo no filme; desde pequenos diálogos até flashbacks pertubadores.
Os personagems secundários completam os ingredientes necessários para um filme realmente doentio.
Avaliação
Agonia - 5
Pertubação - 5
Repulsividade - 2
Assustadoridade - 4
Violência - 2


8) Rejeitados pelo Diabo
                    capa
The Devil's Rejects (EUA, 2005)
Diretor: Rob Zombie
Duração: 109 min
Pra começo de conversa, o que esperar de um filme de terror/trash/gore dirigido por um cantor de rock das antigas com a participação de sua esposa em um dos papéis principais?
Foi exatamente isso que eu pensei, mas tive uma grande surpresa ao assistir "Os Rejeitados pelo Diabo", dirigido por Rob Zombie (da banda White Zombie), e cujo o título não ajuda em nada na moral do filme. Na verdade esse filme tem mais um agravante que para mim é o principal: ele é uma continuação. Isso mesmo, e o nome do filme original é "A Casa dos 1000 Corpos", que tambem foi dirigido por Rob e conta o surgimento da família "Firefly", um bando de maníacos psicopatas bem ao estilo "O Massacre da Serra Eletrica". Eles capturam um grupo de estudantes que estão viajando pelo interior do Texas e fazem da vida deles um inferno (original, não acham?). Eu não assisti "A Casa dos 1000 Corpos" somente por falta de oportunidade, porque mesmo tendo um plot muito básico como vocês viram, eu me amarro em filme de terror,independente do contexto.
Voltando aos "Rejeitados". A história é a seguinte: no primeiro filme a familia Firefly mata uma pá de gente, entre eles está o tenente George Wydell, cujo irmão, xerife John Quincy Wydell, viria a promover uma caçada humana para vingar a morte do irmão 6 meses depois. E é basicamente esse o plot do filme, uma longa, violenta, árdua, sanguinolenta e dolorosa caçada aos remanecentes da odiosa familia Firefly.
O filme começa com um ataque do grupo de Wydell à casa dos rejeitados. Nessa incursão eles matam Rufus Firefly, capturam a Mama Firefly, mas acabam por perder os piores da familia; Otis B. Driftwood e Baby. O último integrante, Tiny, está desaparecido. Depois da fuga, Baby e Otis acabam se escondendo num hotel, onde matam e torturam 5 integrantes da banda country "Banjo and Sullivan", que estavam de passagem por ali. Vou dizer pra vocês uma coisa...tinha tempo que eu não via uma tortura tão cruel e bem feita, tem uma hora que Otis arranca a pele da cara de um sujeito e veste como uma máscara. Detalhe: o cara ainda tá vivo!
                  cena 01
Depois que ele termina, mais pra frente ainda no hotel, a dupla se encontra com o Capitão Spaulding, um integrante da familia que tinha seguido o próprio rumo depois do primeiro filme. Bom, não vou contar o filme todo porque senão vai perder a graça, mas posso dizer que o que vocês leram até aqui não é nada comparado ao filme.
Eu diria que a beleza desse filme não está na história, porque ela até que é bem rasa, a parada aqui são os personagems e a direção. Cada um dos maníacos ("mocinhos" inclusos) têm uma personalidade bem diferente, mesmo que não fique muito claro, cada personagem tem uma maneira exclusiva de ser mau! Exemplo: é o xerife que começa o filme como um justo vingador e muda para um torturador de primeira com o passar do tempo (e aumento do ódio). O cara chega a cortar ao meio uma mulher (começando pela vagina)!!! A impressão que tive é que eles não são monstros terríveis feitos de puro mau. Mas são os mais proximos que se pode chegar da natureza de um serial killer, maldade por maldade e pronto.
Em relação a direção, eu diria que não faltou nada. O diretor conseguiu fugir de todos os clichês do gênero, construindo um road-movie onde a ameaça não está esperando o seu descuido atrás de uma porta ou dentro de um armário, ela está lá fora, vindo a todo gás e ai de quem estiver na frente. Só essa estrutura de roteiro já elimina todas as características dos filmes de horror clichês. O foco não é nas vitimas, e sim nos agressores. Não existe um ambiente fechado onde se possa esconder ou ser caçado. Na verdade são os vilões que estão sendo caçados, o que automaticamente faz deles anti-heróis. Em dado momento não se sabe mais se deve se torcer por eles ou contra eles, tudo isso fica bem mais claro no fim do filme...
                 cena 02
***** ATENÇÂO SPOILERS *****
A cena deles indo em direção a barreira policial, todos detonados, atirando que nem loucos com a música Freebird aumentando no fundo é praticamente heróica!!! Só senti algo parecido com isso quando vi o final de "Assassinos Por Natureza". Só que lá o repórter não tinha nada de mocinho; ele era tão filho da puta quanto o casal. Aqui não, as coisas ficam muito bem divididas. Policiais bonzinhos para lá, assassinos maníacos para cá, e mesmo assim é impossivel não torcer para que os três saiam do outro lado com um rastro de sangue e tecido azul no chão.
***** FIM DOS SPOILERS *****
Outro aspecto legal do filme é que ele tem um leve toque de faroeste. Como eu adoro esse gênero, tudo ficou ainda mais divertido. Se pararmos para pensar, o xerife motherfucker parece bastante com os papeis de Tommy Lee Jones no filme "Três Enterros" e no recente "Onde Os Fracos Não Tem Vez". Os dois grandes faroestes modernos.
Agora algumas curiosidades sobre o filme:
- Na tv que está no hotel é possível ver uma cena de "A Noiva do Monstro" de Bella Lugosi.
- Todos os efeitos de sangue, facadas, ou qualquer coisa envolvendo contato direto com a pele foram feitos digitalmente. A
intenção de Rob Zombie era fazer o filme somente com as técnicas disponíveis nos anos 70, mas o prazo não ajudou.
- Foi planejado fazer algumas cenas com o Dr. Satan (personagem importante do primeiro filme, que eu não vi) mas foram cortadas pelas diferenças drásticas de construção dos dois filmes. cena 03
- O "Family Media Guide" constatou que a palavra "fuck" e suas derivações é dita 244 vezes no filme.
- A fala "I am the devil, and I have come to do the devil's work" que é dita no filme, foi originalmente po Charles Manson lider da familia/culto que protagonizou um dos maiores massacres que o EUA já teve.
Finalizando: Rejeitados Pelo Diabo (que nomezinho tosco) é um puta filme de terror/faroeste/road-movie que definitivamente deve ser visto por quem gosta de filmes dos mais hard-core!
Avaliação:
Agonia - 2
Pertubação - 4
Repulsividade - 3
Assustadoridade - 2
Violência - 5

7) Ichii, the Killer
                                  capa
Koroshiya 1 (Japão, 2001)
Diretor: Takashii Miike
Duração: 129 min
Sem dúvida um dos filmes mais violentos, insanos, sanguinários, violentos, psicóticos,pervertidos, e....violentos que já vi. Essa obra de de Takashi Miike (o mesmo de Audition) contém tudo aquilo que se espera de um filme japonês de terror/máfia e outros gêneros que não lembro agora.
O enredo narra a história de duas pessoas. Kakihara, o sub-chefe masoquista e afeminado da guange "do Anjo" (uma facção da Yakusa), que se vê no meio de uma grande conspiração, quando seu chefe, "O Anjo", some do nada. Na busca por seu chefe, Kakihara irá causar MUITA dor em VÁRIAS pessoas. Para ter uma idéia, uma das torturas que vemos no filmes, é de um cara sendo suspenso no ar por ganchos presos em sua pele, e depois frito com óleo fervente; perto disso, martelada no dedão do pé é fichinha!A outra pessoa é o assassino do titulo do filme "Ichii", cuja a indentidade vai ser uma surpresa para vocês, por isso não posso falar muito sobre ele sem estragar um pouco o filme, então se querem manter a surpresa pulem a próxima parte.
***** ATENÇÂO SPOILERS *****
Ichii, é o cara que aparece espiando (e se masturbando) o apartamento de uma prostituta, que está sendo espancada, logo no início do filme. Como vocês verão, ele não é um assassino frio e calculista, o que é a parte legal do personagem. Apesar de ser o mais fraco mentalmente ele tabém é o mais perigoso, pois passa a sensação de estar sob-controle, quando pode a qualquer momento te cortar ao meio (literalmente).Ele é também, na minha opnião, o personagem mais aprofundado do filme. Sabemos o seu passado e porque ele mata, enquanto sobre Kakihara só sabemos que ele é masoquista e homossexual.
***** ATENÇÂO SPOILERS *****
           ichi
Os personagem secundários são um show a parte, e o filme tem todo tipo de doido: cafetões estrupadores, uma dominatrix, gêmeos policiais pisicopatas e mais uma porrada de gente que faria inveja até Charles Manson.
Algumas curiosidades do filme:
- O toque de celular de Takashi Miike é a musica tema desse filme.
- O prédio que aparece no fim do filme é o mesmo que aparece no começo de "Dead or Alive" filme anterior do diretor (não estou falando daquele filme baseado no jogo).
- A cena de tortura com os ganchos e gordura fervente levou 12hs de maquiagem mais 12hs de gravação.
- Ichii quer dizer 1 em japones, por isso o personagem tem o número pintado na armadura.
- Takashi revelou que o semên que aparece numa das primeiras cenas do filme é real.
- A idéia inicial de Takashi era que o roteiro do filme fosse feito pelo escritor original do mangá, mas a idéia não vingou por que a agenda dos dois não batia.
- No filme, todos os membros da Yakuza tem uma arma, porém somente dois tiros foram disparados no filme, e niguem foi atingido.
Resumindo, se você tem estômago forte,e gosta do estilo meio sem pé nem cabeça dos filmes japoneses, ASSISTA!!!
Avaliação:
Agonia - 3
Pertubação - 3
Repulsividade - 3
Assustadoridade - 3
Violência - 5

6) Pink Flamingos
                                          flamingos04
Pink Flamingos (EUA,1972)
Diretor: John Waters
Duração: 108 min
Filme trash da pior melhor espécie. E com ar cult ainda por cima. Conseguiu sua fama nas famosas "sessões de meia-noite" (não confunda com Grindhouse, que explicaremos no nosso post especial sobre o filme, semana que vem. Sim! Já estamos com uma sessão praticamente marcada!!!) que ocorriam na década de 70/80, nos EUA. Logo depois, o filme, especialmente seu/sua protagonista (já já explicamos), se tornou um dos símbolos do movimento punk, estampando camisas e bottons.
E para reforçar essa aura, tem toda uma história por trás das filmagens. Conta-se que foi filmado em dois dias, com grana do próprio diretor (ao todo ele investiu 10 mil dólares no filme, inclusive no tjohn-watersrailer de 100 dólares). Também pudera, quem ia investir num filme cuja a história se resume a uma drag-queen querendo provar que é a pessoa mais podreira da região. Ponto!
O filme, como já foi comentado, narra a trajetória de Divine, uma drag-queen (de verdade, e pesando 150 quilos na época ainda por cima!!!) que quer recuperar o título de pessoa mais podreira da região em que vive. Seus
                                                                                          John Waters
competidores? Um casal de malucos que sequestra mulheres, faz um empregado engravida-las e vende seus filhos...para alimentar um mercado de vendas de drogas na porta de escolas. E os personagens esquisitos (ao extremo) não param por aí. Tem Mama Edie, a mãe de Divine, uma velha que fica num berço e tem um apetite imenso para ovos; Crackers, filho de Divine, que tem um estranho apetite sexual por galinhas; e Cotton, que gosta de ver Crackers "se satisfazendo" com as galinhas (e com uma azarenta mulher desavisada).
                  pink
E o que falar do seu diretor, John Waters? Um pervertido dos piores, sem qualquer moral, mas com alguma estética cinematográfica. À título de curiosidade ele teve uma pequena participação em Jackass 2. É só procurarem que vocês acham (tá bom, é no truque do Desaparecimento do Anão).
Mas você deve estar se perguntando: o que tem de trash ou sinistro nisso tudo? Simples, ABSOLUTAMENTE TUDO! Esse é daqueles filmes em que dá vontade de parar de assistir, graças às diversas cenas nauseantes que o filme contém (o banquete de fezes caninas, ao final, pelas palavras do diretor, eram reais). Não vou descreve-las para não estragar nenhuma "surpresa" (esse é o tipo de surpresa que vocês não vão querer ter)!
Chega, agora é por conta de vocês assistirem!!!
Avaliação:
Agonia - 2
Pertubação - 1
Repulsividade - 5
Assustadoridade - 1
Violência - 2

5) Irreversível
                                   irreversivel
Irréversible (França, 2002)
Diretor: Gaspar Noé
Duração: 97 min
Taí um filme que me surpreendeu, tanto em relação ao roteiro quanto a edição e fotografia. Pra começar: o filme foi rodado todo sem cortes, o que fez dele um exemplo de como se usar bem os efeitos digitais; a câmera roda por todo o ambiente, faz piruetas, atravessa vidros, passa na frente de espelhos e nem o cinegrafista nem a sua sombra aparecem. E além de todo esse trabalho, o filme ainda é contado de traz pra frente (algo parecido com "Amnésia"), o que é uma tremenda metáfora, pois todos os eventos, apesar de seram contados de traz para frente são "irreversiveis". O filme é basicamente um exemplo de como uma cadeia de acontecimentos violentos (independente do grau de violência) pode levar a acontecimentos ainda mais violentos. E todos esses eventos terminan entrelaçados, fazendo com que, na visão do expectador, um justifique o outro.

Mas o mérito por essa obra está mesmo nas mãos do diretor Gaspar Noé, que conseguiu com um roteiro relativamente simples criar um filme extremamente complexo, com cenas muito fortes.
Quando eu disse mairreversible_002is a cima "cenas fortes", eu estava falando sério, já no começo do filme uma briga dentro de uma boate gay(!) termina com um cafetão morto a "extintoradas" na cara e Vincent Cassel com o braço quebrado e quase currado!
No decorrer do filme você ainda vai se deparar com, prostitutas, travestis, viciados e com uma das cenas mais fortes e angustiantes cenas que eu já vi: o "estupro na passarela subterrânea", protagonizado pela Monica Bellucci. Por causa dessa cena "Irreverssivel" foi considerado "o filme mais abandonado no meio da história". Pode parecer que foram as atuações que fizerão dela uma cena tão pesada, mas isso é um egano. O uso da câmera foi exencial para dar o clima tenso, a fotografia ficou tão bem feita que foi usada no triler-teaser que consiste somente na camera correndo pela passarela num movimento nauseante.
      irreversible
Agora algumas curiosidades:
- praticamente todos os diálogos foram improvisados. O roteiro tinha somente 3 páginas!!!
- O sangue na maioria das cenas e o pênis do estuprador foram digitalmente colocados.
- O clube no começo do filme é realmente um clube gay. Apenas foi redecorado e trocaram o nome.
- A passagem onde acontece o estupro teve de ser pintada de vermelho à pedido do diretor.
- A menor cena do filme tem 3 mins a maior tem 15 mins.
- Os primeiros 30 mins do filme têm um ruido de fundo parecido com o que faz um terremoto. Por conta disso a grande
quantidade de evasão das salas de cinema, e o mais interesante é que isso foi de propósito.
- O sub-titulo "o tempo destrói tudo" é a primeira e última palavra dita no filme.
- a cena do estrupo levou duas noites para ser finalizada; foram feitos 6 takes.
- no lançamento do DVD na frança, 2,400 pessoas compareceram, 200 delas saíram no meio da projeção.
- com medo do filme ser considerado homofóbico, Gaspar Noé voltou ao clube gay após as gravações principais e filmou uma cena
dele masturbando um outro ator.
- O livro que Monica esta lendo no fim do filme se chama "An Experiment With Time" de J.W. Dunne.
Finalizando, "Irreversivel" é um filme fantástico! com uma edição e fotografia excepcionais! Mas para pessoas de mente aberta. No mínimo!
Avaliação:
Agonia - 2
Pertubação - 3
Repulsividade - 4
Assustadoridade - 2
Violência - 2

4) Guinea Pig
                                     devil experiment
Za ginipiggu: Akuma no jikken (Japão, 1985)
Diretor: Satoru Ogura
Duração: 43 min
Série japonesa de filmes de terror. Falando assim parece até um filme de terror oriental no estilo "O Chamado", "Água Negra" ou "Espíritos"; com aquele bem elaborado estilo de medo crescente baseado na ambientação e climatação, ao invés de sustos a cada cinco minutos (base do terror americano). Esqueça essa conversa fiada! O que tornou a série Guinea Pig famosa foi utilizar de violência pesada, realista, brutal e mais todos os adjetivos da pior espécie que você possa imaginar.
Reza a lenda que quando o filme chegou aos EUA, Charlie Sheen (ator da série "Top Gang) asistiu ao episódio "Flowers of Flesh and Blood" (o segundo da série) ele imediatamente denunciou o filme ao MPAA (a infame entidade que controla a censura aos filmes americanos), que por sua vez passou o filme para o FBI, que contatou autoridades japonesas, que informaram que já estavam investigando o filme. Resumo da ópera: os diretores ficaram presos até que mostraram o making of da série, que explicava os pormenores dos efeitos especiais.
                    guinea
Então Eu dei uma de Charlie Sheen e selecionei o episódio "Devil Experiment" para assistir. Conclusão? Os quarenta e três minutos de duração dessa película realmente não são dos mais fáceis, e com certeza conseguem impressionar, principalmente os...impressionáveis!!! Tudo nele é feito para parecer um filme amador, evocando a falta de profissionalismo em ângulos de câmera. Além disso não tem falas e preocupação com perfeição nos cortes. Na verdade a principal motivação para se faze esse filme foi testar novas e revolucionáriasTsutomu-Miyazaki200 técnicas de maquiagem, idelizadas por estudantes de cinema japoneses.
A história? Três japoneses sequestram uma menina para saber os limites da sanidade humana. E pode ter certeza que eles pegam pesado para realmente conhecerem esses limites. É som no mais alto volume, minhocas no corpo, torturas da pior espécie...e culmina com a famosa cena da agulha no olho!
                               
                                                                                           Tsutomu Miyazaki
O fato mais bizarro é que a polícia japonesa encontrou uma vídeos dos episódios de Guinea Pig na casa do serial killer japonês Tsutomu Miyazaki, que matou, estuprou e devorou o corpo de quatro meninas de 4 a 7 anos, e que ficou conhecido como "O Otaku Assassino", na nação nipônica.
Depois desse você nunca mais vai olhar os japoneses da mesma forma!!!
Avaliação:
Agonia - 5
Pertubação - 1
Repulsividade - 2
Assustadoridade - 2
Violência - 5

3) Cannibal Holocaust
                                                           CannibalHolocaustDelEd
Cannibal Holocaust (Itália, 1980)
Diretor: Ruggero Deodato
Duração: 95 min
Receber o título de filme mais violento de todos os tempos não é pra qualquer um. E Cannibal Holocaust merece tal título. Feito na onda dos filmes gore explotation italianos dos anos 70 e 80, ele acabou por se sobressair sobre todos eles. Por que? Porque optou pelo realismo ao invés de pender pro exagero e pro absurdo. A forma como a narrativa foi feita feita revolucionou, tanto que hoje temos filmes inspirados em sua narrativa, e com grande qualidade ainda por cima. Tratam-se de Cloverfield e A Bruxa de Blair, dois filmaços.
Três jovens (que se juntam a um guia) resolvem fazer shockumentary (um documentário com o intuito de chocar, usandcani2o cenas fortes e apelativas). O tema seria tribos canibais na Amazônia. Mas eles desaparecem e não mais voltam. O professor deles resolve seguir seus passos e após conseguir fazer amizade com os canibais, graças a um prisioneiro de uma tribo inimiga, recupera os rolos e volta para a civilização. Daí para frente começa a surgir o filme feito pelos jovens.
E não pense que ele é fácil. Para obter cenas chocantes e instigar os índios, eles barbarizaram toda a tribo; estuprando, matando, mutilando e até incendiando. Tem até a famosa cena da empalação (essa é para poucos)!!! E pior, foram os próprios jovens que mataram o guia, quando cortaram sua perna com um facão, após ele levar uma mordida de cobra. Tais fatos causam revolta na tribo, que os aprisiona e tortura. Isso mostra que os índios, quando querem fazem pior. Os jovens sofrem castrações, decapitação, e mortes a pauladas. Ou seja: os protagonistas, coitadinhos, no início do filme, passam a vilões. As cenas finais são tensas ao extremo, com câmera trêmula e muita correria.
CH26
O filme, após as primeiras exibições, foi retirado de cartaz; e seu diretor, Ruggero Deodato, foi convocado a depor às autoridades. Entre as várias acusações estavam a de que havia drogado e matado os atores durante as filmagens. O fato deles terem sumido de cena após o lançamento do filme, contribuiu com a boataria. Somente após ele apresentar os envolvidos no filme é que foi liberado.
Motivos não faltaram para as acusações. Tudo é feito com o intuito de parecer real (infelizmente, na época não existiam virais para aumentar o burbúrio). A maquiagem é muito bem feita. Até no começo do filme, um letreiro avisava que os rolos haviam sido comprados de terceiros; o que contrariava uma ordem do professor que os obteve, que, após assisti-los, mandou que fossem queimados!!!
Esse provavelmente é o mais sinistro, violento e hardcore dos filmes aqui listados (mas não mais insano), SÓ VEJA SE REALMENTE TIVER ESTÔMAGO!!! O que não tira o mérito de ser um clássico do terror e O mais brutal de todos!
Avaliação:
Agonia - 4
Pertubação - 1
Repulsividade - 2
Assustadoridade - 3
Violência - 5

2) El Topo
                      el topo capa
El Topo (México, 1970)
Diretor: Alejandro Jodowski
Duração: 125 min
Coisas que você precisa saber sobre El Topo antes de assisti-lo:
1) Apesar de ser um faroeste, esqueça aqueles lances de mocinhos e bandidos, índios, diligências, tiros que não acabam mais e outras coisas que fizeram o gênero tão famoso.
2) Seu diretor é Alejandro Jodorowski, é um místico-cult (no estilo Grant Morrison, mas fazendo filmes) e adora encher seus (poucos) filmes de referências (especialmete o Tarô, que foi o principal tem de Incal, que em breve estará por aqui!).
3) Esse é um filme difícil de descrever e até de resenhar. Ou você fica na total superficialidade, ou vai a fundo destrinchando os conceitos propostos pelo filme. Além disso sua narrativa é bastante dividida, não tendo uma linha mais geral, exigindo uma abordagem quase que como se estivesse contando a história. Mas quer saber, isso é uma das muitas qualidades do filme e ponto.
         eltopo_02
Agora que vocês já sabem essas coisas, saiba que o filme é uma perfeita fusão dos dois conceitos citados acima. É um western (spaguett, ao estilo Sergio Leone), com longos e belos planos desérticos...e com doses maciças de psicodelia, surrealismo, messianismo e referências bíblicas.
O filme narra a jornada de El Topo (toupeira), um cavaleiro todo vestido de preto, que tem traços de Yojimbo (de Akira Kurosawa) e do Estrnho Sem Nome (ou Blondie, da Trilogia dos Dólares, de Sergio Leone), e de seu filho, Brontis, que ao longo do filme vai abandonando sua infância. Podemos perceber essa evolução por parte de Brontis logo nas cenas iniciais do filme. Primeiro ele enterra o retrato de sua mãe e um brinquedo de sua infância. Esse ritual de "abandono dos pertences" era um ritual comum de muitas culturas americanas (maias, astecas, entre outros), e orientais. Logo depois, El Topo e Brontis chegam a uma vila massacrada. Em meio aos que sobraram, surge um homem que pede a morte. El Topo passa o revolvér a Brontis, que mata o homem e logo após abraça seu pai! Esses dois momentos servem como batismo para o jovem menino e um preparo para as agruras da vida (coisa semelhante, mas menos destacada e momentânea, acontece em Lobo Solitário, com Daigoro, que vai crescendo ao longo da trama).
Daí para frente a narrativa se divide em três partes, bastante diferentes entre si. A luta de El Topo contra os bandidos, sua busca pelos Quatro Mestres da Pistola e sua missão messiânica e libertadora na caverna. Todas as três têm simbolismo próprio (é claro que tudo Eu não consegui captar!) e referências a diferentes cuturas e disciplinas exotéricas e religiosas.
A primeira parte começa a acontecer quando um bandido acaba por se interessar pelos anéis de El Topo. Após ignora-los, um duelo é proposto. El Topo consegue matar dois bandidos, com suas pistolas. Com o que sobrou El Topo, luta fisicamente. Antes de mata-lo, El Topo acaba por arrancar uma confissão, dizendo onde está seu chefe, um tal de Coronel. el topo5Chegando lá vê o tal Coronel, sua mulher, constantemente abusada e servindo de serva e quatro servos, que mais parecem cães. Após matar um bandido e desarmar os outros, El Topo propõe um duelo com o Coronel. Ele tenta escapar, mas acaba sem opção. El Topo atira no Coronel, arranca suas roupas e sua peruca (símbolos da sua autoridade). Com este indefeso, El Topo se auto-proclama Deus (mostrando que estava num nível de soberba alto) e o castra . O Coronel acaba por se suicidar.
A mulher do Coronel, vendo o poder de El Topo, pede para que vá com ele. El Topo termina por aceitar e deixa Brontis com os monges franciscanos. Enquanto os dois estão no deserto, El Topo nomeia a el_topo_alejandro_jodorowskymulher de Mara (uma referência a Moisés, quando ele acha uma fonte de águas amargas no deserto, enquanto guiava o povo judeu. Mais referências bíblicas à frente) enquanto ela se banha no deserto. Ela reclama que naquele lugar não tem comida e nem água. El Topo, apenas enfiando a mão na areia e atirando numa rocha, consegue, ovos para comer e água para beber. Mara se encanta com os poderes de Topo, porém não consegue repetir os feitos dele. El Topo a liberta, estuprando-a (uma das formas de libertação. Quem já leu Os Invisíveis, lembra da parte em que Tom Maluco espanca Dane para liberta-lo. Aguarde a HQ por aqui no mês que vem). Ela então adquire os mesmos "poderes" de El Topo, e propõs um desafio à ele: encontrar e derrotar os Quatro Mestres da Pistola. El Topo termina por aceitar, mais para se auto-afirmar do que para mostrar o que sente pela mulher, que após a libertação está em pé igualdade com ele.
Daí para frente vemos a segunda jornada de El Topo. Mas, se a primeira serviu para aumentar seu orgulho e mostrar para a mulher seus poderes, a segunda terá efeito inverso. Será uma jornada de descontrução, mostrando fraquezas, pecados e trapaças de El Topo. Ao final dessa, ele estará alquebrado e com menos confiança em si próprio (porém, fisicamente mais capaz e poderoso).
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Apesar dos poderes de El Topo, os Mestres que ele precisa enfrentar são bem mais poderosos que ele. Cada mestre representa uma área física e espiritual que deve ser desenvolvida por El Topo (leia a coluna Teoria da Conspiração, cujo os PDF's são publicados AQUI, para mais informações). Mas, influenciado fortemente por Mara, ele usa de trapaças. E assim, a jornada que deveria enriquece-lo espiritualmente, termina por alquebra-lo, pois ele enfrentou homens mais fortes e que não temem a morte, e ao final a derrota se abate sobre ele. Ele perde, inclusive Mara, que foge com uma mulher toda de preto (aparentemente um alter-ego complementar do herói). Outra coisa interessante com os mestres é que quanto mais forte ele é, menos artefato e posses ele tem. O último e mais forte só tinha uma rede para caçar mariposas como arma e nem mesmo dá valor a sua vida, terminando por tira-la, após proclamar a derrota de El Topo.
Antes da terceira parte, na caverna, cabe um pequeno entreato de explicação de um fato que ocorre no após a derrota dos Quatro Mestres: o duelo na ponte.
El Topo, apesar de vencedor, estava com o espirito completamente abatido. Ele então passa por cima de uma ponte (um outro símbolo esotérico, que, entre outras coisas, simboliza passagem libertatória; lembra de Indiana Jones. Só o homem com fé passará!!!). Ele então duela com a mulher de preto (seu alter-ego) e têm as mãos e os pés feridos (referência a Jesus Cristo). Mara chega e é proposto a ela que escolha entre a mulher e ele. Ela escolhe a mulher e atira na parte direita do tórax de El Topo (mais uma referência ao sacrifício de Cristo. Com os cinco ferimentos, El Topo fica com ferimentos nos mesmos locais que Jesus Cristo quando morreu na cruz). Essa é sua morte espiritual, que servirá para liberta-lo do seu Ego e do seu Eu.
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Inconsciente, Topo é resgatado por várias pessoas deformadas, mendigos e aleijados; que o levam para longe dali. Ele posto por seus salvadores em uma caverna e passa a ser adorado como um deus. Até mesmo seu aspecto é mudado; os cabelos ficam mais claros e suas feições se assemelham a de um mestre hindu. Após receber um besouro para chupar, ele entra em transe e beija a velha. Ele então "renasce", com os cabelos, sobrancelhas e barba raspados. Ele parte para realizar sua missão: ir até a vila acima da caverna, conseguir dinheiro e libertar os que estão vivendo no interior da caverna (nessa caverna são depositados os dejetos da vila; resumindo: todos os que nascem deformados e imperfeitos).
Mas essa missão mostra seu lado difícil, não por ser complicado conseguir dinheiro para construir o túnel; o problema é que a vila logo se prova um local muito pior que a caverna (lembram do Mito da Caverna?). Mas boa parte dos habitantes não tinham consciência do que os estava esperando na vila, por não a conhecerem, e almejavam morar nela. Entre as bizarrices da vila pode-se reconhecer o símbolo maçonico na igreja local, que entre seus rituais, pratica roleta russa e para dizer que obteve libertação. Com essa missão El Topo conhece acba por conhecer seu destino na vila. Mas aí vai uma dica: a libertação (princípio básico das principais disciplinas mágicas e doutrinas esotéricas) e a relação mestre-discípulo é a chave para a compreensão do filme, e é o que pontua brilhantemente o destino de El Topo.
Mas você deve estar pensando: o que tem de bizarro, insano, agonizante ou perturbador nisso tudo? Vamos começar com o mais óbvio. Entre os personagens bizarros, podemos destacar o ajudante do primeiro mestre, um homem duplo. Na verdade dois homens; um sem braçosjodorowsky.el.topo e um sem pernas. O sem braços carrega o sem pernas nas costas, os dois terminam por se completar mutuamente. Mas acredite: TODO O FILME É INSANO (é como ler Os Invisíveis sem entender as referências. Não vai fazer sentido algum)! Principalmente para quem não entender as referências, que dependem de um bom conhecimento prévio nos assuntos aqui abordados para que façam sentido. Mas as vantagens de compreende-las (e de assistir o filme mais de uma vez são inúmeras) e podem até mesmo levar ao espectador a uma nova visão de mundo.
Curiosidades: o próprio Jodorowski faz a trilha sonora, além de Brontis ser seu filho na vida real também.
Os coelhos mortos durante o filme (300), foram mortos pelo próprio diretor, com golpes de caratê.
Na cena em que El Topo estupra Mara, os dois atores fazem sexo de verdade.
John Lennon que conveceu a um produtor a compra dos direitos do filme, que começou a passar nas famosas "Sessões de Meia-Noite".
Obrigatório para qualquer cinéfilo!
Avaliação:
Agonia - 1
Pertubação - 5
Repulsividade - 1
Assustadoridade - 2
Violência - 3

1) Eraserhead
                                      poster eraserhead
Eraserhead (EUA, 1977)
Diretor: David Lynch
Duração: 108 min
Esse sim pode ser considerado um filme verdadeiramente "perturbador" no sentido mais amplo da palavra. Pra quem conhece o resto da obra de David Lynch isso não é novidade, mas por ser o primeiro longa do diretor e ser totalmente independente, Eraserhead consegue ser o mais surreal e psicanalítico de todos os seus filmes.
Henry Spencer é um taciturno e descabelado funcionário de grafica que está de féria.Sua namorada, Mary X, não lhe dá notícia a semanas, o que o faz achar que está tudo terminado entre eles. Um telefonema inesperado mostra que a questão é mais complicada que isso.Durante um jantar na casa dos (esquisitíssimos) sogros, Henry descobre que Mary está gravida e deu a luz a um bebê deformado, que mais parece uma mistura de tartaruga com minhoca. Depois do casamento, Mary se muda para a casa de Henry, junto com o bebê. Após algum tempo ela o abandona e volta para a casa dos pais, deixando com ele a árdua tarefa de cuidar do (realmente nojento e repulsivo) filho.
                   foto bastidores 01
Foto Bastidores

Todos esses eventos se intercalam com cenas do mais alto nível de surrealismo e psicodelia. Em algums momentos Henry se encontra em seus sonhos com a "mulher do aquecedor"; uma loira bochechuda que só faz cantar a música "In Heaven" e pisar em fetos da bebes deformados. Na minha opnião ela representa o desejo de Henry em ter uma vida "melhor", mais "pura" por assim dizer ja que o bebe representa o lado complicado e impuro pois foi concebido antes do casamento e ainda por cima nasceu deformado. Fora essa loira ainda temos o "homem na lua", que eu não faço a menor idéia do que ele representa no filme. Temos a visinha de Henry, uma prosituta que tem uma quedinha pelo descabelado, e, juntos, eles protagonizam uma das mais bizarras representações do sexo e do voyeurismo que eu ja vi.
                   baby from hell
Apesar da fotografia densa, obscura e hipnótica criada por Herbert Cardwell e Frederick Elmes, com a filmagem em preto e branco, o que realmente assusta é a trilha sonora criada pelo próprio David Lynch. Ele utilizou muitos sons mecânicos e industriais, mixados a barulhos estranhíssimos (reparem nos ruidos emitidos pelo bebê), criando uma sensação de imersão que dificilmente se conseguiria visualmente. Para se ter uma idéia, normalmente quando eu e o Pêra assistimos esse tipo de filme, nós viramos a televisão de forma aos outros integrantes do recinto não serem atingidos por cenas fortes desprevenidos (foi o caso de Pink Flamingos). Já na seção do Eraserhead tivemos que controlar bem o volume pois todos os efeitos sonoros afetavam, não somente os personagens quanto os expectadores. Por isso, se forem assistir esse filme, assistam de fone!
Algumas curiosidades sobre o filme:
- o filme foi rodado no período de tempo de 5 anos, tendo os cenários desmontados e montados trocentas vezes.
- o roteiro original do filme tem apenas 22 páginas.
- o ator principal manteve o terrível penteado por todos os 5 anos de filmagem.
- aparentemente o bebê deformado foi feito à partir do feto de uma vaca.
- David Lynch nunca fez nenhum comentário sobre o filme. A única coisa que ele disse foi: "Niguém chegou sequer perto da verdade".
- há uma cena no filme chamada "a mulher amarrada na cama", que foi cortada por ser "muito pertubadora". Não encontrei ela em canto nenhum.
                                 foto da sequencia cortada
- Eraserhead foi selecionado como um dos 25 filmes mais pertubadores da história.
- após o fim das filmagems o "bebê" foi enterrado por David Lynch num local secreto e foi feito um brinde a ele.
- a melhor publicidade do filme foi a feita por John waters, que sempre mencionava Eraserhead como seu filme favorito enquanto promovia o recente "Pink Flamingos", tambem resenhado por nós nesse post.
- diretores como: Mel Brooks, George Lucas e Stanley Kubrick ficaram tão impressionados com o filme que chegaram a oferecer parceria a David Lynch nos filmes "O Iluminado" e "Star Wars: Episódio VI"
- a música "In Heaven" foi "coverizada" por bandas como Bauhaus, Devo, Norma Loy, WC3, Haus Arafna, Miranda Sex Garden, Annie Christian, Pankow, The Pixies, Bang Gang,e Tuxedomoon, as bandas The mars volta (resenhada ateriormente pelo Pêra), Sex Gang Children, Alexisonfire, The Melvins, Morning Runner, The Dead Kennedys e Nine Inch Nails
tambem foram inspiradas pelo filme.
Bom... é isso aí! Assistam o filme e tirem suas próprias conclusões.
Avaliação:
Agonia - 3
Pertubação - 5
Repulsividade - 4
Assustadoridade - 3
Violência - 2

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Skylab

Com poucos minutos de atraso, o performático franzino Rogério Skylab chega ao palco com seus passos discretos, sem alardes evita os cumprimentos tradicionais ao público. Skylab é ovacionado pela plateia ansiosa por sua apresentação.

Inicia o show com a música Corpo e membro sem cabeça. “O dedo mindinho do lula, o olho de Luís de Camões...” canta. O compositor dá partida em seu espetáculo muito bem acompanhado de sua banda que apimenta e enfatiza suas letras undergrounds.

Com suas performances esquizofrênicas, Skylab se aproxima e se afasta do público com a mesma circunspeção. Em alguns momentos parece estar incomodado com os olhares da plateia e caminha sem rumo em volta do palco, subitamente retorna e impede que seus ouvintes relaxem.

Sem romper as fronteiras da música trash, Skylab recebe a interação do público durante a música Tem cigarro aí? A cada refrão da música, cigarros foram jogados no palco. Na sua atuação imitando Inri Cristo pedindo um cigarro, Skylab arrancou gargalhadas e aplausos espontâneos.

Em meados do espetáculo, Skylab indaga seu público. “Boa noite, repararam que eu não gosto de falar com a plateia, né?” e a aplaudido entoa com naturalidade sua próxima canção.

Na música O Corvo, Skylab espanta ao comer sentado no palco uma cenoura, como se não bastasse, ainda durante os versos da música ele entoa naturalmente “Plasil. Plasil. Plasil” e cospe pedaços da raiz tuberosa.

O espetáculo teve seu ápice quando Skylab cantou seus sucessos antigos como Fátima Bernardes Experiência, Música para paralítico, Carrocinha de cachorro-quente e Matadouro das Almas em que o músico simula espancar uma fã.

O show que teve a duração aproximada de duas horas, foi encerrado com a música Eu e Minha Ex e deixou seus fãs com o gosto de “quero mais”. Assim o público pediu a Skylab que cantasse outros sucessos, ele se desculpou e convidou a todos ao espetáculo no dia seguinte, no próprio Centro Cultural São Paulo.

Gravação do clipe

Entre seus gritos e gemidos, danças tímidas, passos miúdos e reboladas epiléticas, Skylab manda um beijo fervoroso ao seu público e questiona “vocês estão gostando?”. Com uma resposta positiva e empolgada, Skylab trás ao palco dois convidados.

O tecladista Astronauta Pinguim e a cantora Karine Alexandrino incrementaram a gravação do clipe da música Eu roubei a gravata?, mas não agradou ao público. As performances da cantora cearense, Karine Alexandrino, foram alvos de chacotas e desânimo por parte da plateia.

O último suspiro de um cadáver

O espetáculo na Casa Cultural São Paulo foi palco do lançamento do seu último trabalho. Em duas apresentações, o Skylab X, o último suspiro de um cadáver é o desfecho do planejamento de seu suicídio. O músico carioca anuncia a morte de Skylab no décimo volume de seu projeto desde o início de sua carreira, em 99, na tangente da indústria.

Skylab se autodenomina um cadáver da Música Popular Brasileira (MPB). O momento é de diálogo com seu tema preferido: a morte.

Com uma carreira independente há 21 anos o cantor e compositor Rogério Skylab é o que podemos chamar de uma pessoa livre. Em suas letras, o desconforto. Skylab divide seus versos em remédios, doenças, escatologia, morte e outros temas - para alguns – incômodos.

Skylab externou seu entusiasmo em meio a sorrisos, gestos com as mãos e gritos desafinados em sua apresentação.

por paolla Arnoni

domingo, 12 de junho de 2011

Slayer



A ideia de que vai “chover sangue” nesta quinta-feira (9) em São Paulo é uma metáfora que deixa muito roqueiro da cidade feliz. Para quem não conhece o grupo americano de thrash metal Slayer, entretanto, a frase, referência a um dos maiores clássicos do estilo, fica perdida e pode até assustar - desnecessariamente.
Para metaleiros, Slayer representa uma das maiores referências de som pesado de todos os tempos, com guitarras velozes, vocal rouco e agressivo, baixo e bateria em sincronia perfeita - tudo em alto volume e com muito barulho. São 30 anos de carreira, com mais de dez álbuns lançados e clássicos do thrash metal, que fazem da banda uma das “grandes 4” do estilo, junto a Metallica, Anthrax e Megadeth.
Para essas pessoas, talvez não haja muita novidade ao dizer que a banda volta a se apresentar em São Paulo nesta quinta-feira (9), com a turnê World Painted Blood - elas provavelmente já sabem, e vão ao show.
Para apresentar a banda que compôs “Raining Blood” aos não-iniciados na barulheira agressiva do metal, que deixa tantos fãs em êxtase, o G1 convidou três músicos eruditos para avaliar músicas que fazem parte do repertório que o Slayer apresenta na atual turnê.
A impressão deles ao ouvir ao som do grupo pela primeira vez é de que há muita “repetição” e “simplicidade”, uma música “primal”, com “caráter hipnótico” e tocada por “músicos muito competentes”.
O maestro Gil Jardim, a maestrina Claudia Feres e o violonista erudito Fabio Zanon deixaram claro que não costumam ouvir heavy metal e que não querem fazer juízo de valor do estilo de música de que outras pessoas gostam, nem disputar que estilo é melhor. A análise deles é propositalmente superficial, simples e distante, mostrando a impressão inicial de pessoas que conhecem música clássica ao escutar a banda pela primeira vez.
'Eles gostam de Mi bemol!' - Regente titular e diretora artística da orquestra municipal de Jundiaí, a paulistana Claudia Feres nunca tinha ouvido falar em Slayer até o convite do G1. Ela aceitou escutar duas músicas das mais famosas já gravadas pelo grupo: “Seasons in the abyss” e a já mencionada “Raining blood”, e não ficou muito convencida. “Meu mundo é bem distante desse do heavy metal. Não me atrai. Não me faz muito bem.”
Segundo ela, as músicas têm um perfil “muito repetitivo, monotônico". "Rítmica e melodicamente muito pobre”, disse. “A base das duas músicas é muito parecida. Parece que há um cuidado em encontrar essa sonoridade dura e árida, uma sonoridade pesada que traga sentimentos de dor e sofrimento. (Eles gostam de Mi bemol!)”, completou.
Grande batera' - Fabio Zanon contou que já tinha ouvido falar da banda, mas nunca tinha escutado nenhuma das suas músicas. Após ouvir "World painted blood" e "Angel of death", ele fez elogios à bateria do Slayer e à “cozinha”, como costuma-se chamar o casamento sonoro dela com o baixo.
“A bateria é muito interessante. O cara é criativo, pois as duas músicas são em compasso binário, muito repetitivo, e o cara consegue fazer coisas diferentes, mudar muito os formatos. Se não fosse a bateria, o som ia ficar muito primário”, disse. Segundo ele, toda a produção é muito interessante e profissional, mas a sonoridade é “primal, lembrando música ritual, primitiva, com caráter hipnótico”, disse. “Música em compasso binario sempre lembra marcha.”
Segundo Zanon, “World painted blood” usa uma espécie de modo cigano que “é interessante, foge um pouco à expectativa de harmonia padrão que eu esperava nesse gênero e realça o caráter lúgubre da música.”
O violonista erudito fez questão de ressaltar que não é conhecedor do estilo. “Um gênero desses tem de ser julgado dentro de sua própria esfera sócio-cultural. Não dá pra se julgar tomando como parâmetro Beethoven ou com Tom Jobim, é outro departamento”, disse. “Não é que eu não tenha respeito e não admita qualidades musicais, simplesmente não tenho o componente antropológico pra me identificar”, completou.
Excentricidade planejada - Para o diretor artístico da Orquestra de Câmara da Universidade de São Paulo e diretor artístico da Philarmonia Brasileira, o maestro Gil Jardim, o Slayer é um grupo muito profissional com ótimos músicos e que faz da personalidade radicalmente excêntrica um negócio competente e bem planejado.
“Poderia definir a música feita pelo Slayer, assim como grande parte do rock, como rudimentar se a compararmos com obras produzidas ao longo da história da música clássica ocidental, ou mesmo com a música popular brasileira ou pelo jazz americano”, disse, em texto enviado a pedido do G1.
“Suas músicas trazem letras elaboradas estritamente dentro da linha que caracteriza o grupo, com temas e expressões escolhidas em busca de ‘objetos de uma realidade pervertida, da obsessão além dos sonhos selvagens...’ Na verdade, jamais se perde de vista a busca por um “êxtase permanente”, seja qual for o tema: a morte, a guerra, o sexo, a droga.... E sob esse ponto de vista, o som que tende a ser sempre eletrizante em sua pulsação, em seus decibéis, é coerente esteticamente”, completou.
“Devemos ter claro que, para manter essa linha de ‘excentricidade infinitamente arrojada’ é necessário trabalhar com planejamento, com acuidade, com sagacidade. É um negócio. Esse é o produto da banda Slayer, construído, bem ensaiado (os músicos são muito bons) e, mais que vendido, comprado pela imensa multidão que os acompanham ‘enlouquecidamente’. Naturalmente, o mise en scène é particular, assim como em cada um dos outros estilos musicais”, disse, defendendo o gosto alheio e alegando ser inútil gerar uma disputa sobre qual estilo é “melhor” de que o outro.

Daniel Buarque Do G1, em São Paulo

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É curiosa a semelhança entre shows de metal e rituais religiosos. Principalmente quando as músicas tocadas têm nomes como "Ódio pelo mundo", "Chovendo sangue" e "Anjo da morte". No show de ontem à noite em São Paulo, a banda americana Slayer colocou no palco seus quase 30 anos de serviços prestados ao metal, e os súditos agradeceram com gritos de devoção, em um transe difícil de explicar para quem nunca usou camisas pretas e chacoalhou os cabelos ao som de uma guitarra distorcida.

Antes de entrar na casa de shows Via Funchal, o público enfrentou o frio de São Paulo em uma enorme fila. Os carros que passavam pela avenida tocavam musica pesada, alguns fãs extravasavam a excitação com gritos guturais de "Slayer!" e os ambulantes faziam sua festa particular vendendo cerveja e demais bebidas a preços tradicionalmente exorbitantes. A fila só diminuiu quando o começou o show de abertura da banda brasileira Korzus.

Os brasileiros esquentaram o clima para o a atração principal da noite. A banda toca um estilo de thrash muito parecido com o do Slayer, mais rápido e agressivo. Apresentaram músicas do novo disco, "Discipline of hate", e saíram do palco entoando com o público o mantra "Slayer!". Pouco tempo depois, subiram ao palco os integrantes de uma das maiores bandas de thrash metal do mundo.

A formação clássica teve uma importante ausência, o guitarrista Jeff Hanneman. No começo do ano, Hanneman sofreu uma mordida de aranha no braço que lhe causou uma doença chamada fasciite necrosante, conhecida nos Estados Unidos como "bactéria comedora de carne".
Antes de poder fazer uma bela canção com o nome de sua doença - afinal, o Slayer já tem um sucesso chamado "Máscara de pele morta" ("Dead skin mask") -, Hanneman está sendo substituído na turnê pelo talentoso Gary Holt, da banda Exodus, considerado um dos melhores guitarristas de metal do mundo. Além de Holt, estavam lá os idolatrados Dave Lombardo (bateria), Kerry King (guitarra) e Tom Araya (baixo e vocal).

O show começou com dois sucessos do último disco da banda, "World painted blood" (música título do álbum) e "Hate worldwide". A partir daí, quando a banda se preparava para emendar uma sequência de clássicos, o som teve uma falha no fim de "War ensemble" e só os músicos conseguiam se escutar pelo retorno. Com 30 anos de experiência, o líder Tom Araya percebeu o problema e trouxe a situação a seu favor. Pediu para que todos cantassem os versos finais da música e regeu os súditos. Depois do show, o Via Funchal colocou uma mensagem no telão responsabilizando a empresa de som da banda pelo problema.

A sintonia era tão grande que coube até uma brincadeira de Tom Araya em homenagem ao dia dos namorados, no próximo domingo. "Essa é uma música de amor", disse, antes de entoar os românticos versos "Como esperei para você vir/ Estive aqui sozinho/ (...) Esfolando a pele com a ponta de meus dedos/ (...) Membros cortados, ornamentos do meu ser", da música "Dead skin mask".

Em quase duas horas de show, o grande momento foi a sequência final do bis, com talvez os maiores clássicos do Slayer: "South of heaven", "Raining blood", "Black magic" e "Angel of death". Todos sobreviveram, felizes, e talvez alguma labareda infernal fosse útil para esquentar a volta para casa.

rafael pereira e andré sollitto

época

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As décadas se passam, mas o Slayer continua o mesmo. No show que fez nesta quinta-feira em São Paulo, o grupo mostrou porque ainda é referência no que há de mais rápido e pesado em matéria de rock: quase duas horas da mais pura agressão sonora, que nem os problemas no som do Via Funchal conseguiram atrapalhar.
O grupo abriu a noite com duas canções de seu mais recente álbum, "World Painted Blood", de 2009. Já no início deu para perceber que a apresentação seria memorável: a banda ainda não havia tocado nenhum de seus clássicos, mas o público já estava cantando junto. O vocalista Tom Araya, sorrindo, parecia surpreso com a recepção.


O clima esquentou na terceira música, "War Ensemble", faixa da obra-prima do Slayer, "Seasons in the Abyss", de 1990. Mas, na hora em que a plateia batia as cabeças com mais vontade, as caixas de som ficaram mudas. Quando Araya percebeu que não havia som, pediu para o público continuar cantando a música. Foi atendido, obviamente.
Depois desse involuntário momento acústico, o show foi interrompido até que o som fosse restabelecido. A plateia, enquanto isso, xingava a casa em coro. Cinco minutos depois, tudo foi resolvido e o Slayer voltou com força total.
Os clássicos foram se sucedendo: "Disciple" e tem refrão "god hates us all" gritado pelo público, a mais lenta (mas não por isso menos pesada) "Dead Skin Mask" (com Tom Araya recitando a letra antes de iniciar a música), a velocidade de "The Antichrist".
Os dois pontos altos foram sabiamente guardados para a segunda metade da apresentação. O primeiro foi "Mandatory Suicide", música em que o grande baterista Dave Lombardo deu um show à parte. "Seasons in the Abyss", com seu início lento que dá torna ainda mais potentes o peso e a velocidade que vêm depois, foi o segundo.
Após 19 músicas, a banda parou o ataque sonoro. Mas nem chegou a deixar o palco para voltar para o bis. Tocou então quatro de seus maiores sucessos: "South of Heaven", "Raining Blood", "Black Magic" e "Angel of Death".
Veja abaixo o repertório do show do Slayer no Via Funchal:
01. "World Painted Blood"
02. "Hate Worldwide"
03. "War Ensemble"
04. "Postmortem"
05. "Temptation"
06. "Dittohead"
07. "Stain of Mind"
08. "Disciple"
09. "Bloodline"
10. "Dead Skin Mask"
11. "Hallowed Point"
12. "The Antichrist"
13. "Americon"
14. "Payback"
15. "Mandatory Suicide"
16. "Chemical Warfare"
17. "Ghosts of War"
18. "Seasons in the Abyss"
19. "Snuff"
20. "South of Heaven"
21. "Raining Blood"
22. "Black Magic"
23. "Angel of Death"
 
 

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Me diga o que não foi legal ...

Um carro bonito, possante e seguramente caro (só não me pergunte que carro era porque não entendo nada disso) dá voltas em círculos em alta velocidade num descampado. Várias voltas. Pára e de dentro sai Johnny Marco, personagem vivido por Stephen Dorff, com cara de tédio. Corta. O mesmo Dorff está agora deitado na cama de um quarto de hotel, ainda com cara de tédio, mesmo diante de um espetáculo de pole dance protagonizado por duas gêmeas loiras deliciosas ao som de “My Hero”, do Foo Fighters. Corta. Mais cara de tédio, mais imagens do dia-a-dia de uma estrela de Hollywood em crise existencial. Corta, corta e corta.


O novo filme de Sofia Coppola, “Somewhere – um lugar qualquer”, é basicamente isso. Deve ter a ver com a trajetória pessoal dela mesma essa fixação por retratar celebridades entediadas em busca de um sentido para a vida à qual ela se dedicou em suas três últimas realizações para o cinema. No caso de Johnny Marco, esta busca poderia muito bem se encerrar caso ele dedicasse mais atenção à sua filha pré-adolescente, que o visita esporadicamente. Mas para isso ele teria que abdicar, pelo menos em parte, de sua rotina de superstar mimado, algo que, parece, ele não consegue fazer, mesmo que visivelmente não veja mais muita graça na coisa como um todo.


O filme é bom ? Mais ou menos. Mais pra menos. É muito bem dirigido e interpretado, e tem situações divertidas, como a do massagista que precisa “entrar no clima” do cliente para realizar suas tarefas. Mas no geral é chato e tedioso. Propositalmente, é claro, já que se propõe a retratar o dia-a-dia de uma pessoa chateada e entediada.


Já não botava muita fé no filme, pois pelo que tinha lido a respeito dava pra notar que ele seguia a linha de “Encontros e Desencontros”, espécie de “clássico Cult” no qual eu não vi, sinceramente, a menor graça. O que mais me surpreendeu, na verdade, foi a lotação da maior sala do Cinemark do shopping jardins naquela noite em que aconteceriam também apresentações das bandas Eddie, de Olinda, e Mamutes, local. Era uma espécie de ensaio para uma possível ressurreição da Sessão Notívagos, série de shows musicais acompanhados de exibições de filmes que acontecia regularmente até meados do ano passado. Se dependesse unicamente da presença do público e da perfomance das bandas escaladas, estaria tudo perfeito – mas não, não dependia.

Carnaval no inferno: O ar-condicionado do saguão do cinema, onde aconteceriam os shows, estava quebrado! Isso, somado à insistência das pessoas em fumar num recinto fechado, criou um ambiente bastante desagradável. Mais desagradável ainda para os que se arriscavam a entrar na enorme fila para comprar uma cerveja a 4,00. Detalhe: não eram vendidos tickets, ou seja, quem quisesse tomar outra cerveja, teria que entrar na fila novamente, segundo me foi relatado pelos que bebem (eu não bebo). Pelo menos a marca era boa. O calor, devo dizer, nem era tanto, muito embora o ar-condicionado tenha feito falta, sem sombra de dúvidas. Desconfortável porém não insuportável. O problema maior para mim, asmático e fumante passivo involuntário, era mesmo o desagradável cheiro de fumaça de cigarro no ar. Veja bem: defendo o direito dos fumantes fumarem, mas enquanto não inventarem um dispositivo, algo como uma redoma de vidro para as pessoas colocariam na cabeça que mantenha a fumaça que produzem exclusivamente para si, acho que tenho o direito de reclamar. E quem achar ruim, “pegue o gato e se azuin”, já dizia a minha vó.


Mas vamos ao show. Som fraquinho – mal sinal. Fabio Trummer fala no microfone que aquele era o primeiro contato da banda com a aparelhagem, já que não tiveram tempo de passar o som, e pergunta ao povo se tava legal. O povo responde que sim, mas eu diria que não. Vai ver eu sou chato, né ? E olha que eu nem entendo dessas coisas, tecnicamente falando. Só sei que, aos meus ouvidos, a voz tava baixa e abafada e a guitarra praticamente inaudível. Mas a banda é boa, muito boa, e foi aos poucos criando um clima propício à celebração. Um verdadeiro desfile de “hits” alternativos logo de cara, com “Desequilibrio”, “lealdade” e “me diga o que não foi legal”, dentre outras. Aos poucos vão se acertando os ponteiros e pronto: está criada a alquimia, na base de um suingue “roqueiro” tipicamente brasileiro com um sotaque que só o Eddie é capaz de produzir. Uma banda com excepecional personalidade que seduz inclusive não-adeptos do tal “samba-rock”, como eu. Até porque o Eddie é muito mais que “samba-rock”: é rock, é pop, é frevo, é o diabo! Rock legitimamente brasileiro. "Nunca fomos tão brasileiros", eu diria ...


Os papos descontraídos entre os membros da banda, notadamente Fabio e “Urêia”, o percussionista, ajudaram a criar o clima de festa e descontração. Fabio é um grande frontman, ao seu estilo, sem grandes arroubos estelares, contido porém sincero e desencanando. Fala de times pernambucanos, saúda a todos, inclusive aos que vendem a cerveja cara, e saúda o Lacertae, que segundo ele tinha as melhores músicas da lendária coletânea “Brasil compacto”, dos anos 90, da qual também fizeram parte. Lembrou disso, provavelmente, devido à presença, no público, de Deon, guitarrista e vocalista do grupo sergipano. Até dei uma instigada para que ele fosse até lá dar uma canja, mas sem sucesso.


O show prossegue, com a banda afiada e o público na mão. Tocam, inclusive, a primeira música de seu primeiro disco, “videogamesongs”, do Sonic Mambo. Um clássico – mas esta é uma que precisava de um som de guitarra mais potente, algo que, infelizmente, não tivemos. Poderia ter sido O ponto alto da noite, mas não foi. O ponto alto foi uma espécie de pout-pourri de musicas de carnaval e Hinos de blocos de frevo de Olinda, puxados pelo do “segura a coisa” e emendado com o do “segura o cu”, onde Fabio faz todos se agacharem (tava com uma preguiça da porra, mas entrei no clima também, claro) e se levantarem ao fim de uma rima que terminava na singela frase “segura o cu senão eu meto o dedo”. Muito bom. Já o ponto fraco foi um cover esquisto que me disseram que era do Beirute – não sei, não conheço.


E foi isso. Uma hora e meia, aproximadamente, de show, e um abraço. Ainda fiquei mais uns bons 20 e tantos minutos esperando pelos Mamutes, mas quando vi eles finalmente chegando ao palco e notei que ainda teriam que montar um monte de coisas, inclusive a bateria, desisti e fui embora. Uma pena, já que não vi ainda a nova baterista em ação num show ao vivo, apenas na gravação de um especial acústico que será veiculado pela TV Aperipê - no qual ela mandou bem, por sinal.


Saldo pra lá de positivo, apesar dos pesares.


Fotos: Rafa Aragao, Divulgação e Snapic


Texto: Adelvan

Entrevista com plastique noir


Faz tempo que não leio mais revistas de Heavy Metal (já fui assinante da Rock Brigade, nos anos oitenta), mas sempre folheio nas bancas. Numa destas investidas, vi que a Roadie Crew estava lançando uma coletânea virtual dedicada ao gótico/dark brasileiro. Legal, nem sabia que existia uma cena gótica no Brasil, para além do “gothic metal”, geralmente chato e repetitivo. Baixei o disco e uma banda, em especial, me chamou a atenção: plastique noir, de Fortaleza, Ceará. Em termos estritamente estilísticos não traziam nada de novo – era um som derivativo que emulava tudo o que de melhor foi feito na área nos anos de 1980, especialmente - mas se destacavam pela competência na composição e na execução da música presente na coletânea, “Those Who walk by the night”. Fui atrás de mais material da banda e confirmei minha primeira impressão: havia realmente algo de especial ali. Tornei-me fã ao ponto de viajar para vê-los, em Recife, no Abril pro rock, e em Salvador. São também muito bons Ao Vivo, tanto que estão conseguindo furar o bloqueio que os deixava naturalmente confinados ao gueto e tocando em vários festivais alternativos Brasil afora, alguns bastante conceituados, como o próprio Abril pro rock.

O plastique noir acaba de lançar seu segundo disco, “Affects”*, o que me fez pensar que era o momento oportuno para uma entrevista com os caras. O resultado, respondido por Airton S., o vocalista, você confere logo abaixo ...

·        *  “Affects”, o novo disco do plastique noir, é mais homogêneo e mais bem gravado que o anterior, “Dead pop”, de 2008. O baixo “cavucadão” de Daniel e as linhas de guitarra cortantes (com um pouco de peso e distorção em alguns momentos, inclusive) de Marcio Mazela, somados às programações precisas e o vocal soturno de Airton S., passeiam por composições bem acabadas feitas por encomenda para animar “festas estranhas com gente esquisita”. Os teclados, gravados por convidados, também se destacam, criando belos climas em praticamente todas as faixas. Não há nenhum grande destaque: o disco começa muito bem, com a bela Rose of Flesh And Blood”, e segue no mesmo nível até o fim, oscilando entre passagens abertamente sombrias, embora quase sempre dançantes, e o escracho de letras como a de “Mazela takes a walk”, que foca o comportamento excêntrico de seu já legendário guitarrista.

Grande disco.

por Adelvan

* * *

Programa de Rock – De vez em quando vejo críticas ao trabalho do Plastique Noir chamando-o de “datado” num tom pejorativo, como se música tivesse prazo de validade ou tivesse que se guiar, necessariamente, pelas tendências da moda. Como a banda encara este tipo de questionamento? Há uma preocupação especial em se “atualizar” ou vocês simplesmente ligam o bom e velho botão “foda-se” e estão pouco se lixando se o tipo de som que fazem os empurrará, inevitavelmente, a um gueto?

Airton S – A questão é que o Plastique Noir nasceu como som de gueto e, até certo ponto, exatamente para ser som de gueto. A gente tem tentado se desvincular disso pra que a coisa não fique chata demais de ser feita, isso pra nós mesmos. Eu, Mäzela e Danyel escutamos som pra caralho, que vai desde Aldo Sena até black metal. No começo formamos a banda para que ela fosse estritamente gótica, mas hoje a gente percebe que esse coisa negra da música está presente em vários estilos e sempre foi nosso playground preferido. Dá pra encontrar referências interessantes no drama do tango, no samba escapista do Cartola, no piano de Beethoven e por aí vai. Se isso vai forçar uma identificação de nosso som com o público gótico, melhor! É uma massa numerosa, isso nos proporciona contatos e principalmente amigos. Quando a gente chega em São Paulo e Brasília, pra citar duas cidades em que tocamos com frequência, já saimos do avião direto para caírmos na palhaçada com os amigos! Vamos tomar umas, pôr o papo em dia, farrear e rir bastante. Mas claro que é sempre bom dar atenção ao universo fora do gótico também, se quisermos que nosso som tenha sempre uma sobrevida. O que era só diversão a princípio está chegando a um patamar de trabalho que gera uma responsabilidade de que nosso som se apresente da maneira mais profissional possível. E, para que ele se mantenha assim, é importante que busquemos diálogo com outras cenas, outros palcos, outras opiniões. Acho que se trata tudo de um grande esforço de equilíbrio.

Programa de Rock – Por falar em gueto, é possível escapar dele mesmo se mantendo fiel a uma proposta específica, sem se render a “misturebas” oportunistas? Vocês se sentem parte de um “gueto”? Em caso de resposta positiva, sentem-se bem, aconchegados, dentro dele?

Airton S – Acho que o Plastique Noir é também música de gueto, mas não só isso. Em cidades como Fortaleza e Recife, é comum de se ver uma parte do público de nosso show que não está vestida de preto. É minoria, mas rola. Não temos problema com a palavra “gótico”, que dá nome ao gueto de que estamos falando. E o que temos percebido, principalmente com o novo álbum, é que até mesmo os góticos tem encarado de coração aberto algumas licenças estilísticas a que nos permitimos nesse trabalho mais recente.

Programa de Rock – Existe uma cena dark/gótica estruturada e atuante atualmente no Brasil? Se existe, qual o seu real tamanho, onde ela é mais forte, e como ela dialoga, se é que dialoga, com o cenário independente em geral?

Airton S – Existe e está em fase de maturação, talvez mais perto de um profissionalismo que nunca houve antes. Algumas cidades e regiões tem cenas mais fortes e profissionais, como é o caso de Salvador, Brasília e principalmente São Paulo, que tem uma agenda semanal repleta de eventos simultâneos. Semestralmente rola lá o Projeto Ferro Velho, que traz sempre um grande nome mundial do estilo com a abertura obrigatória de uma banda nacional, o que favorece um intercâmbio inestimável em termos promocionais e de troca de know-how entre países. Existe até mesmo um festival nacional, o Woodgothic, que já conta com três edições e é organizado por uma das bandas mais prestigiadas do Brasil hoje, o Escarlatina Obsessiva. Rola bianualmente no alto da serra mineira, em São Thomé das Letras. A DDK, no Rio, põe brincando umas 500 cabeças pra dento da festa. Nada disso existia até dez anos atrás e olha que as primeiras bandas e eventos góticos no país datam de meados dos anos 80. Ou seja, nos últimos anos tá rolando um “boom” bem grande. Tivemos sorte de iniciar nossas atividades no meio disso tudo. Ou talvez não tenha sido coincidência, talvez o momento tenha favorecido nossa banda e nossa cena assim com tantas outras, com a expansão da internet, barateamento da produção musical etc. Agora, diálogo com o independente fora do gótico, acho que praticamente inexiste. Algumas bandas do selo em que estamos agora, a Wave Records, tem obtido vaga nos festivais de maior renome, mas não é sempre que rola.

Programa de Rock – Senti no “Affects”, o novo disco do Plastique Noir, uma maior homogeneidade nas composições, ao contrário do primeiro disco que, como é de praxe em estréias de bandas que atuam já algum tempo no cenário, funcionou mais como um apanhado de músicas que vêm sendo buriladas ao longo do tempo. Como foi o processo de composição do disco, as musicas são todas novas ou houve alguma retomada de trabalhos antigos nunca antes lançados?

Airton S – É tudo novo. O único reaproveitamento foi a faixa-tributo, “Never Look For People Like Us”, que era do Max e resgatamos do fundo do baú pra homenageá-lo. Todas as novas foram surgindo aos poucos, entre um ensaio e outro durante a tour do Dead Pop que durou, ainda que fragmentadamente, uns três anos e rodou boa parte do país. De volta à Fortaleza, vimos que tínhamos composto quase 20 músicas ao final do processo, muito embora durante ele nós já tínhamos uma noção de qual ia entrar na track list final e qual não ia. Ok, até que ainda chegou a rolar uma discussão por essa ou aquela faixa, no sentido de incluir ou limar, mas tentamos formar um consenso e acho que deu certo. Foi interessante trabalhar dessa forma -  refiro-me a essa coisa de “criar um disco do nada”. Eu nunca tinha feito isso e talvez tenha sido o que justamente trouxe a coesão que você percebeu. Agora, não sabemos muito bem o que fazer com as sobras. Tem umas coisas que eu particularmente acho bem legais ali. No começo dos contatos com nosso novo selo, até rolou uma pilha mútua de fazer uma versão de luxo com disco extra, mas isso ficou inviável porque nossa verba pra gravar tinha acabado e daí resolvemos garantir o álbum full que já tínhamos em mãos. Talvez essa versão deluxe possa sair ainda. Não sei. Agora ninguém está mais pensando muito nisso, estamos tentando promover o que já tem.

Programa de Rock – Vocês ainda compõem pensando num álbum fechado, com um conceito, mesmo que vago e flexível, amarrando as faixas, ou vão compondo ao longo do tempo e apenas juntam o resultado?

Airton S – Um pouco dos dois. É que, nisso de compor ao longo do tempo sem neuras, coincidentemente ou não as músicas acabaram se mostrando “entrosadas” entre si, por si próprias, sem que tivéssemos que forçar a barra conceitualmente. Digo, conceito havia, mas não deu quase nenhum trabalho perceber depois que o material obtido se encaixava quase completamente nele.

Programa de Rock – Ainda existe espaço para o conceito de álbum, uma coleção de musicas representativas de um momento de uma banda embaladas por uma capa, contracapa e encarte? O Plastique Noir acredita que este conceito vai sobreviver? Em caso positivo, como conseguem resistir à tentação da urgência de nossos tempos hiperconectados para não lançar as musicas aos pedaços na net antes do resultado final acabado?

Airton S – Veja bem, nossa média de idade na banda é de 29 anos, mais ou menos. Não somos tão jovens. Alcançamos o vinil, tínhamos centenas de K7 em casa, já rebobinamos muitas delas na base do giro de caneta (risos) e só agora estamos tendo contato com o MP3, que foi o grande culpado por essa fragmentação no consumo de música. Eu, Danyel e Mäzela ainda trazemos um pouco dessa “cultura de álbum” nos nossos perfis musicais. E por uma questão igualmente cronológica, boa parte da imprensa musical também, já que os mais novos no meio têm o quê, 20 e poucos anos? Esse pessoal ainda leva a sério o formato de álbum assim como nós e é por isso mesmo que não rola conosco essa ansiedade de liberar material de qualquer forma. Penso ainda que, como prensar disco continua sendo uma parada cara e trabalhosa, o fato de a banda ter encontrado alguém que faça isso por elas, leia-se selo, ou mesmo ela ter reunido recursos para fazer por si mesma, denota que atingiu um nível legal de profissionalismo e por isso merece atenção do mercado e dos fãs.

Programa de Rock – O suporte físico ainda é realmente necessário? Pensam em, algum dia, lançar seus trabalhos apenas via internet? Como vocês administram este equilíbrio entre uma coisa e outra, o novo e o velho estilo de se “vender” música? Há espaço para os dois?

Airton S – Por enquanto, sim. E talvez mais ainda no nosso caso, já que somos freqüentemente identificados com uma cultura urbana como a gótica. Gente assim tem seus próprios hábitos de consumo, seus fetiches e seu mercado simbólico interno. Assim como punks, straight-edges, bangers etc, os góticos ainda valorizam o item material colecionável. Agora, como já falei antes, tudo é uma questão de equilíbrio. Também não faz sentido nego ser anacrônico e fazer vista grossa pro ambiente virtual. Tanto é que nossas músicas também são comercializadas em formato de download. Pra não falar no vazamento pirata, que nós nem achamos tão danoso assim. Haja vista o nosso primeiro álbum, cuja permissão de lançar free foi exigida por nós junto ao nosso selo na época. Era nossa estréia, queríamos aparecer legal. Já no caso do Affects, não sentimos a necessidade de tentar forçar uma interferência na maneira como o Alex da Wave acha melhor trabalhar, até porque confiamos demais na competência do cara em termos de distribuição.

Programa de Rock – Como é a relação da banda com os selos que lançam seus discos?

Airton S – A Pisces foi o primeiro selo em que entramos. O Ulysses é um cara muito gente boa, apesar de meio viajandão (risos). É foda conseguir falar com o cara, por exemplo. Mas o apoio que ele nos deu e continua dando é inestimável. Começamos a nos falar em 2007 e ele sempre se mostrou um cara muito honesto e sobretudo apaixonado pelo que faz. Quando resolvemos mandar o Affects pra Wave, não rolou nenhum tipo de mal-estar, até porque o Alex é quem distribui o Dead Pop, adquirido junto à própria Pisces. Inclusive aproveito pra avisar que esse disco já já vai acabar e quem não adquiriu, falou, um abraço. Não creio que ele vai voltar logo aos catálogos. Já sobre o trabalho com a Wave, sei lá, parece que foi um passo natural fechar com o selo. O Alex atua na cena gótica desde os anos 80, é figura carimbada nos principais eventos internacionais do estilo, tem contatos quentes, enfim, não tinha como não ser do jeito que está sendo. Botamos fé demais no trampo dele, musical inclusive. Eu e o Mazela já éramos fãs do 3 Cold Men antes mesmo de formar o Plastique (risos).

Programa de Rock – Vinil: há algum fetiche em especial da banda por este suporte ? Há alguma demanda dos fãs por lançamentos neste formato do Plastique Noir?

Airton S – Não sei, mas acho que deve existir. Confesso que a gente nunca pensou muito nisso até então. O Rafael, nosso produtor, às vezes bate nessa tecla. James, nosso amigo que toca no Facada, também de vez em quando tenta instigar a gente, falando das vantagens da prensagem em vinil, na questão do volume de cópias… Quem sabe um dia?

Programa de Rock – Como tem sido a divulgação de “Affects” no Brasil e no mundo, há algum plano em em ação neste sentido?

Airton S – Bom, felizmente a demanda por shows tá rolando sem que tenhamos a necessidade de sequer correr atrás deles. Algumas datas fora de Fortaleza foram fechadas e algumas até já foram cumpridas com sucesso. O pessoal parece estar curtindo bastante o disco. O promocional tem sido feito  pela gente, por meio de nossa onipresença quase constante nas redes sociais e aqui cabem agradecimentos ao Rafael, em parceria com o Alex, que está colocando o disco nas lojas de São Paulo e da Europa, neste último acaso através da distro alemã Nova Media. O lançamento será em São Paulo também, numa festa do Via Underground. O Alex cuida mais da promoção no meio gótico e a gente está tentando colocar o disco evidente no meio independente nacional em geral, aproveitando os contatos que já fizemos em nossas passagens pelos festivais da Abrafin e eventos do Fora do Eixo.

Programa de Rock – A agenda de shows de vocês, como está? Tenho visto que a banda tem conseguido se inserir na agenda de festivais independentes e, com isto, se apresentado para um público mais amplo. Isto é fruto de um esforço em especial da banda neste sentido ou os convites vieram de forma “espontânea”? Pretendem seguir por este caminho? E como tem sido a recepção do público dos festivais à proposta do Plastique Noir?

Airton S – Olha, é meio que as duas coisas. Por aqui em Fortaleza a gente sempre foi alinhado com o coletivo local, a Rede Cem e daí eles nos servem de ponte pras curadorias. Mas acredito que nosso som acabe agradando, nego não ia pôr uma banda no line-up do festival dele que custou 90 mil pra acontecer, se houvesse o risco de, com a inclusão da tal banda, o negócio ficar feio. E o resultado acaba sendo bacana pros dois lados. A gente tem levado um público pros festivais que dificilmente iria pra ver as outras bandas. Nisso, acabam curtindo algo que não conheciam. E de forma semelhante, a gente acaba fisgando uma ou outra pessoa que estava ali, assistindo, sem botar muita fé na gente. Estamos tentando dar prosseguimento a essa via de trabalho. Esse ano já fizemos o Tendencies, em Palmas, e o resultado foi ótimo, travamos um contato amigável massa com a cena rockabilly de Curitiba por exemplo, que estava lá e de repente pode pintar algo disso…

Programa de Rock – Há uma faixa tributo a um antigo integrante da banda, falecido, no disco. Falem-nos um pouco de quem se tratava e qual foi sua contribuição para a construção da sonoridade do Plastique Noir.

Airton S – O Max integrou a banda desde o seu inicio até a metade de 2008, tendo definido muito de nossa identidade melódica e chegando a gravar o Dead Pop. Ele tocou na banda que pioneirizou esse estilo mais pós-punk gótico em Fortaleza, o Rebel Rockets, nos anos 90. A banda já estava extinta quando o convidamos a assumir os synths no Plastique Noir. O cara cativou todo mundo logo de cara com seu jeito amável de ser, sem falar em sua puta bagagem musical, quase enciclopédica. A chegada dele à formação foi, sem dúvida, o marco final para que nos sentíssemos prontos pra começar, como banda de verdade. Tinha ainda o folclore derivado de sua profissão como agente funerário (risos), era divertido mencionar isso em entrevistas. Infelizmente o cara foi se ocupando demais com atividades paralelas e teve que deixar a banda. Digo, deixou mesmo: ele não foi expulso e também nunca pediu pra sair. Foi estranho… simplesmente ele parou de comparecer a ensaios, shows… daí a gente ia se virando. Hoje, interpretamos essa atitude como uma maneira que ele encontrou de evitar de falar em saída por não querer de fato sair. Nosso contato foi ficando cada vez mais esparso desde então, sempre tínhamos notícias de sua vida por meio de um primo dele que é muito amigo nosso, quase irmão dele. Foi um choque quando recebemos a notícia de seu falecimento devido a complicações de saúde. Ele já estava há muitos dias em coma e o fato ocorreu quando estávamos numa reunião de amigos em razão do aniversário do Mäzela, que acabou sendo atingido de forma violenta naquele que era seu dia. O disco estava para começar a ser gravado, já tínhamos o material inteiro pronto. Somos caras bastante céticos, mas gostamos de pensar que ele estava presente posteriormente no processo, ajudando nem que fosse a partir da idéia que sua pessoa representa nos nossos corações de forma inspiradora.

Programa de Rock – Aproveitando o “gancho”: façam-nos um resumo do que tem sido a experiência da existência da banda até agora: os acontecimentos mais marcantes, as maiores dificuldades, as maiores alegrias …

Airton S – Cara, esse começo da minha resposta vai soar clichê, mas é foda: a gente passou por muita coisa nesses 5 anos. Eu juro que não consigo mais repassar minha vida durante esse tempo dissociando-a da banda. Acho que a melhor coisa que ficou são os amigos. As viagens sempre foram e são cansativas, mas eu diria sem pensar muito que elas são o melhor da festa. E é o que mais marca. E olha que eu não gosto de fazer show, meu lance é estúdio. A gente se divertiu muito por aí. Conhecemos gente de toda parte, vivemos momentos engraçados, encontramos freaks de toda espécie. A parte ruim, acho que foram os desentendimentos. A gente já brigou muito, de vez em quando ainda brigamos, aliás. Já fiquei sem falar com o Mäzela por semanas, já “rompi” até mesmo com o Babuê, que é uma moça (risos). Tivemos momentos em que tínhamos grana pra caramba pra investir nas nossas coisas, situações em que nos sentimos rockstars por causa de bobagens como, sei lá, estarmos pela primeira vez em um puta hotel aguardando a hora do show. Sabe, essa coisa meio de moleque sonhador? “Caralho, fodeu, estamos bombando!” (risos) Meio ridículo até… Ou ainda, estarmos ao lado de bandas gringas fodonas, na mesma van… Encontramos o Afrika Bambaataa no backstage do Abril Pro Rock, uma lenda viva, tocamos na mesma noite, o cara mó figuraça, divertidão, tirando sarro do Mäzela bêbado… Assim como também já rolaram momentos em que estávamos quebrados, sem ter nem o que comer esperando o ônibus de volta pra Fortaleza, bebendo cachaça e tocando violão na rodoviária pra passar o tempo. Já rolou de sermos saudados pessoalmente por jornalistas de certa envergadura e de sermos difamados e acusados levianamente por pseudo-produtor de evento. Sua primeira pergunta foi sobre “gueto”, tem um jornalista que você deve saber a quem me refiro, vive batendo verbalmente na gente… Mas é isso. Tudo faz parte e nós fazemos parte de tudo isso.

Programa de Rock – E para o futuro, há planos, metas ou é navegar ao sabor dos ventos?

Airton S – A gente nunca faz planos a longo prazo. Engraçado estar respondedo a essa entrevista logo agora, porque ontem mesmo eu estava tomando umas cervejas com o Babuê e começamos a retomar os planos pra shows no exterior, mas não convém divulgar nada ainda. O que dá pra adiantar é que já tem coisa concreta a esse respeito, mais detalhes em breve. Vamos tentar fazer as cidades que ainda não fizemos, principalmente na região sul. O norte já começamos a desbravar recentemente em Palmas, mas é a maior região do país, ainda tem muito lugar lá pra se ver e nos ver. Interrompemos quase que totalmente os shows durante os três meses de gravação e produção e agora queremos tocar bastante, o máximo, onde der e em quaisquer condições, desde que não seja muito inviável em termos de aparelhagem e deslocamento. Queremos corrigir algumas falhas nossas, como a escassez de merchandising. Gente de toda parte fica enchendo nosso saco por camisas, bottons, etc, e estão certos em vir encher. Vamos tentar tocar nos festivais em que ainda não tocamos e buscar mais visibilidade no geral, aproveitando que estamos com assunto novo. No caso, o álbum.

Programa de Rock – Espaço aberto para considerações finais.

Airton S – A gente queria agradecer de todo o coração por esse seu espaço e principalmente pela divulgação do trampo de bandas independentes como a nossa, que normalmente tem muita dificuldade pra produzir e circular dignamente. Muito obrigado por preencher essa lacuna preciosa. Somos muito a fim de tocar em Sergipe, quem sabe um dia. Abração pra todos que fazem seu programa e que o acompanham também!

+ em http://plastiquenoir.net

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Iron Maiden Recife 2011 - The Final Frontier World Tour

Como todo espetáculo de banda grande, a brincadeira começou pontualmente às 20h. Sem essa de fazer público esperar horas para encontrar os ídolos. Doctor doctor, do UFO, banda inglesa que influenciou o Maiden e tocou no Recife ano passado, era a senha para deixar a plateia mais acesa do que nunca. A música vai acabando e as luzes se apagam. Os dois supertelões ao lado do palco, de 15 metros de altura, mostram uma batalha espacial, tendo o mascote Eddie como personagem principal. É uma referência ao título do álbum The final frontier, lançado em 2010 e que está sendo divulgado na The final frontier world tour. A canção de entrada tem duas partes distintas. A primeira, Satelite 15, é tocada nos altos falantes. A batida tribal e as guitarras dissonantes são cortadas pelo voz de Bruce, que tem o rosto projetado nos telões. Os outros cinco caras vão entrando no palco e é dada a largada. The final frontier, um hard rock pegajoso, faz a galera cantar junto. Nessa hora, quem tinha alguma dúvida perdeu o medo de que algo desse errado e o show não decolasse. O Maiden estava de novo no Recife, pouco mais de um ano depois da primeira apresentação, na Somewhre back in time tour, de 2009, no Jóquei Clube, na Zona Oeste da capital.

Ao contrário do concerto anterior, o show desse domingo trouxe canções novas. Cinco, no total. Além da primeira, foram apresentados bons momentos do álbum de 2010. El dorado, o primeiro single, tem uma levada legal e solos bem encaixados de Dave Murray e Adrian Smith, sem dúvida um das grandes duplas de guitarristas do metal mundial. Bruce arriscou o primeiro grito de guerra para sacudir a plateia: "Scream for me... Recife!" Um cara subiu no palco, mas foi rapidamente retirado, sem nenhum drama. Depois veio o primeiro clássico da noite: Two minute to midnight, aquela cantarolada pela garota Maria Catarina. De longe, dava para ver os celulares apontados para o palco. Todo mundo filmando, gravando ou tirando foto de recordação.

The Talisman, uma canção grande do álbum novo, deixa parado quem não conhece bem o disco. Tem uma letra enorme e um refrão que não pega. É uma aposta da banda, que reverencia o trabalho do terceiro guitarrista, Janick Gers, ao violão, na introdução. Em Coming home, Bruce explica a ideia da música e fala como é rodar pelo mundo para tocar e viajar no Ed Force One, o Boeing usado pelo Maiden para girar pelo planeta. Só no Brasil foram seis cidades visitadas. Murray e Smith brindam os fãs com belíssimos solos, numa semibalada inspirada.

Em seguida, Dance of death, do CD de mesmo nome, lançado em 2003. Bruce até errou um pedacinho da enorme letra, que aborda rituais macabros, e se desculpou. A banda manteve o pique, como se nada tivesse dado errado, e tocou todas as partes de uma canção cheia de detalhes. O cenário trazia a capa do álbum, assim como no resto do repertório, mostrava um desenho diferente. Sempre fazendo referência ao CD da música que estava sendo executada e a parte gráfica da época. Perto da enorme bateria de Nicko McBrain era possível observar duas torres de foguetes e na plataforma do kit de percussão a inscrição Satelite 15.

Ornamentação nem sempre percebida, sobretudo, para quem fica longe. E também para quem não consegue tirar os olhos de Bruce. Em The trooper, superclássico de 1983, o cara corre, canta, sobe nos alto falantes de retorno e tremula a bandeira do Reino Unido. Uma paulada para alegria dos mais antigos. The wicker man, do Brave new world (2000) vem quase emendada e põe a galera para cantar também. Essa fisga os fãs da atual fase, com três guitarristas. “Your time is come...”. E, para dar uma brecada no ritmo, Bruce dedica Blood brothers aos irmãos de sangue do Japão, devastado por terremoto e tsunami. Grande momento. E que solo de Janick.

O show seguia e a apresentação das canções novas chegava ao fim com When the wild wind blows. Onze minutos, um riff hipnótico e uma música candidata a novo clássico. Nessa altura, o jogo já estava no papo e se preparava para dar olé. É covardia. The evil that man do, de 1988, e Fear of the dark, de 1992, é para se esgoelar. Essa última serve, inclusive, para tirar qualquer dúvida sobre paixão dos fãs pelo Maiden. Todas as notas são entoadas com os músicos. Os solos, as melodias e os duetos. Momento único de uma relação entre ídolos e seguidores, poucas vezes vista no rock’n roll.

O show ia terminando e vinha a pergunta; Cadê Eddie? O mascote apareceu na tradicional Iron Maiden. Caracterizado como um ser de outro planeta, o boneco gigante e articulado duela com Janick e tira o fôlego de velhos e crianças. Depois de prometer que vai pegar não importa o lugar, o Maiden dá uma pausa e volta para o bis. Outra covardia. The number of the beast e Hallowed be thy name, de 1982, trazem a velha parceria Donzela-fãs. A galera canta tudo: introdução, narração, solo e coro. Quando cidadão já está rouco e pensa que acabou, vem Running free, do primeiro álbum, de 1980. Bruce aproveita e apresenta os parceiros, com destaque para a reverência ao líder e chefão Steve Harris. Brinca com Adrian e faz piada com a guitarra, uma Gibson Les Paul, que o músíco carrega para todos os lugares há décadas. O vocalista atira o gorro para o público e volta para encerrar uma grande festa do metal.

Uma aula de profissionalismo e talento. Exemplo de como se manter uma máquina gigante a todo vapor. Uma noite para ficar grudada na cabeça da menina Maria Catarina, aquela que nem parecia ter 8 anos quando cantava Two minutes to midnight e filmava tudo com os olhos arregalados. Um momento marcante para o pai dela e para tantos outros jovens, velhos, adolescentes, pretos, brancos, da área VIP ou da galera. Gente que pode dizer e estampar na camiseta, como orgulho: Iron Maiden no Recife.... Eu fui!

> Pode ser branco ou preto. Ter passado dos 40 anos ou sequer completado 10. Tanto faz se for do Recife ou de outra capital nordestina. Ou ainda melhor, se nasceu no interior. Ninguém liga foi para área VIP ou ficou espremido na galera. E aqueles também que ficaram do lado de fora. Só escutando. Tem coisas que só um show do Iron Maiden pode proporcionar. Cenas inimagináveis surgem do nada e deixam muita gente de queixo caído. Pendurada nos ombros do pai, o engenheiro Luiz Gonzaga Gadelha Junior, Maria Catarina Gadelha, 8 anos, despontava na multidão, no meio da pista premium, reservada para quem pagou R$ 300 e assistiu, com mais conforto, ao show dos ingleses, na noite desse domingo, na área externa do Centro de Convenções, em Olinda, Região Metropolitana.

Maria Catarina estava estreando num concerto de rock e mostrava que tem muito futuro como fã do gênero mais pesado de música. De camiseta rosa, com um celular nas mãos, não desgrudava os olhos do palco. Filmava e fotografava. Para quem estava do lado, sorria e demonstrava intimidade com o repertório do grupo, anos antes de ela pensar em existir. Para orgulho do pai-coruja, cantarolava baixinho: “two minutes to midnight...” e para quem ainda tinha dúvidas da paixão da headbanger precoce, Luiz avisava: “Desde os 5, ela gosta de Iron Maiden. Já toca baixo e arrisca umas coisas.”

A relação pai-filha-banda, demonstrada pelos dois fãs, mostra como o público do Iron Maiden é especial. Quem já passou dos 40 ouvia no velho e bom vinil. Para a criançada da idade de Maria Catarina, o velho bolachão é peça de museu. Para que um negócio tão estranho, preto com um buraco no meio e poucas músicas? É bem melhor Ipod, Ipad, MP3 e MP4 e internet, com Facebook. Os tempos mudaram, mas a banda está lá. Mais de 30 anos, 85 milhões de discos vendidos e muitos clássicos para tocar. Não importa a época ou a fase em que o admirador conheceu a Donzela de Ferro. Basta ver a quantidade de ônibus, carros e vans estacionadas perto do Centro de Convenções. As placas: João Pessoa, Maceió, Fortaleza, Natal, Carpina e uma infinidade de lugares. Tudo para conferir The final frontier world tour, que passou por seis cidades brasileiras, divulgando o disco de mesmo nome, lançado em 2010.

Para quem saiu de casa ou pegou estrada para ver Steve Harris, Bruce Dickinson e companhia foi uma noite sem grandes sustos. Quando dependia exclusivamente da produção, a cargo da Raio Lazer, nada a reclamar. Entrada bem sinalizada, banheiros em bom número (na área VIP), portões abertos cedo e sem filas, além de facilidade para tomar cerveja (um preço até camarada, levando-se em conta a qualidade do produto).

Masm quando o assunto é do poder público, o negócio complica. A Avenida Agamenon Magalhães, perto do Memorial Arcoverde, estava escura. Parecia mais uma boate. Os ambulantes fizeram a festa e ninguém organizava a área no entorno. O trânsito ficou sob a responsabilidade da Polícia Militar, que teve alguma dificuldade para fazer o tráfego fluir, sobretudo, por causa do desrespeito de muitos motoristas. Foi preciso guinchar carro parado no local errado.

Bronca mesmo é com o Centro de Convenções. Às 17h30, o estacionamento interno estaria lotado. Isso foi o que disseram funcionários, mesmo com as vagas sobrando podendo ser observadas facilmente. Uns até arriscava pedir uma tal carteirinha de acesso. Só não informavam qual documento era preciso mostrar. O jeito foi morrer com R$ 10 na mão do flanelinha e torcer para não ter o carro levado pelos ladrões.

Tirando as mazelas, o público de quase 10 mil pessoas, não teve do que se queixar. Pouco depois das 18h40, o Terra Prima, prata da casa, entrou no palco para fazer o esquente da galera. Daniel Pinho, vocalista que se apresentou no último show do Iron Maiden Cover do Recife, comandou a banda. Ele mostrou músicas do And life begins, primeiro disco do grupo, e enfrentou problemas típicos de quem abre para megabandas: som baixo e equalização de gosto duvidoso, principalmente, na batera. Mas nada que tirasse o brilho. Para finalizar, Enter Sandman, do Metallica. Assim não tinha como Luiz e a pequena Maria Catarina ficarem fora do clima para o encontro com os ídolos logo em seguida.

por Ricardo Novelino

Fonte: JC Online