quarta-feira, 1 de maio de 2013

David Lynch, uma entrevista

Ele é um dos diretores mais controvertidos e cultuados do cinema contemporâneo. Faz filmes que pouca gente entende, é verdade. E quem vê, ou ama, ou odeia. Personagens bizarros, imagens alucinantes que expressam sonhos e até delírios. Histórias que nem sempre têm um fim e que flertam com o real e o surreal que rondam a natureza humana. Enfim, um cinema de dar nó na cabeça e que fez dele um dos mais conhecidos cineastas da atualidade. O Roda Viva entrevista hoje o diretor, escritor, fotógrafo, pintor e compositor americano David Lynch. São dele os filmes: O homem elefante, Coração selvagem, Veludo azul, Cidade dos sonhos e a famosa série de TV Twin Peaks. A entrevista começa em trinta segundos.

O cineasta David Lynch veio ao Brasil para divulgar a técnica da meditação. Mas não é uma meditação qualquer, não. Segundo ele, só a transcendental é que é o máximo, um hábito ao qual ele aderiu já há mais de trinta anos. Lynch, que já fez dez filmes, não acredita no futuro do cinema, nem da televisão, muito menos do DVD. Tudo isso vai parar é na internet, com o seu maravilhoso e leve mundo digital.

Tudo o que o cineasta faz e gosta vai entrando no endereço eletrônico através de vídeos, CDs com trilhas sonoras de seus filmes e uma ampla lista de produtos que compõem sua loja virtual: bonés, pôsteres, fotos, bótons, camisetas e até café torrado, produzido com grãos orgânicos e vendido com a grife do diretor. O café, uma obsessão do cineasta, ajuda a fundação David Lynch a arrecadar fundos para programas de redução de estresse em escolas, através da meditação transcendental. A fundação também estuda os efeitos da meditação na criatividade, aprendizagem, depressão e o uso de drogas. Meditação é um tema que tem ocupado cada vez mais David Lynch. Sua vinda ao Brasil, em agosto de 2008, foi para divulgar o seu livro: Em águas profundas – criatividade e meditação. Autobiográfico, o livro mostra como a meditação influenciou a vida e o processo criativo de David Lynch. Típico americano de classe média, Lynch gostava de desenhar e pintar, quando era criança. Acabou estudando artes plásticas e foi a partir da pintura, ao fazer animações de seus quadros, que ele passou a se interessar por cinema. Seu primeiro filme veio em 1977, Eraserhead, é baseado em um episódio da vida pessoal, quando sua namorada engravida. No filme, o bebê nasce com deformidades, um impacto que marca a série de personagens bizarros e complexos que também povoariam seus outros filmes. O sucesso de bilheteria e crítica veio com o Homem elefante. A história de um jovem que tem o rosto deformado por uma doença, e durante anos é explorado como uma atração de circo. Foi indicado a 8 Oscar. O diretor depois teve outras duas indicações por Cidade dos sonhos e Veludo azul, outros dois sucessos. Cidade dos sonhos também foi prêmio de melhor diretor do Festival de Cannes de 2001. Cannes há havia premiado David Lynch com a Palma de Ouro em 1990, pelo filme Coração selvagem. O sucesso mundial do diretor veio com a série de TV Twin Peaks. O título é o nome de uma cidade fictícia, no norte dos Estados Unidos, habitada por personagens misteriosos. É o cenário para a história que gira em torno da investigação sobre o brutal assassinato da adolescente Laura Palmer. A série foi exibida entre 1990 e 1991, em vários países, inclusive no Brasil, e deu origem a outro filme de David Lynch, Twin Peaks – os últimos dias de Laura Palmer.

Para entrevistar o cineasta David Lynch, o Roda Viva convidou Ricardo Calil, que é redator chefe da revista Trip; José Geraldo Couto, crítico de cinema e colunista da Folha de S.Paulo; Ubiratan Brasil, subeditor do Caderno Dois do jornal O Estado de S.Paulo e Leon Cakoff, crítico de cinema e diretor da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A Laís Duarte, do jornalismo aqui da TV Cultura, vai fazer ao nosso entrevistado as perguntas dos telespectadores que foram encaminhadas antes, porque o programa de hoje é gravado. E claro, o Paulo Caruso está aqui também. Ele vai desenhando aí os momentos do nosso programa. Hoje você vai ter um concorrente, que é o próprio entrevistado, Caruso. Ele adora pintar também e faz os seus próprios desenhos. Boa noite, senhor David Lynch. Obrigada pela presença.
 
Lillian Witte Fibe: Vamos começar falando sobre meditação, até para não contrariá-lo. Meditação é conhecida entre a gente como o repouso da mente. Uma técnica não invasiva, barata, custo zero, sem efeitos colaterais e que, até onde a gente está informado, tem recebido cada vez mais adesões da medicina ortodoxa e ocidental. Eu já li cardiologista falando que meditação, combinada a uma dieta correta, faz mais bem, às vezes é muito melhor do que o bisturi, para o coração. Com a gente aqui no Brasil, eu acho que tem... existe uma certa curiosidade em entender qual é a sua meditação, a transcendental. O senhor, nessa sua peregrinação pelo Brasil, saberia dizer às pessoas que ficaram curiosas e interessadas como achar, por exemplo, o professor certo a que o senhor se refere, para a meditação transcendental aqui no Brasil? E, enfim, como tornar possível, basicamente, se chegar à felicidade infinita?
David Lynch: Há muitas formas de meditação. E nunca se diz que uma é melhor do que a outra. Trata-se de uma escolha pessoal. Mas sempre digo que não saberia que meditação iria fazer se me tirassem a meditação transcendental. A meditação transcendental tira você da superfície da mente e lhe dá a chave que abre a porta para os níveis mais profundos, para transcender para uma consciência sem limites e para a felicidade. A felicidade infinita. Ao vivenciá-la você se sente vivo e cresce através dela. Todos têm consciência, mas nem todos têm o mesmo nível. Por que ficar com um certo nível de consciência, se existe uma técnica disponível que lhe permite expandi-la, trazendo-lhe apenas coisas boas? O efeito da expansão da consciência é que a negatividade começa, de fato, a diminuir. O peso da negatividade sob a qual vivemos. É algo muito libertador. Entre outras coisas, ela elimina o estresse. Você vivencia uma alegria infinita. Uma felicidade infinita. E vê o estresse desaparecer completamente. Trata-se de um ensinamento bastante específico. Você recebe um mantra, uma vibração sonora específica, que mexe com a percepção interior e você mergulha, naturalmente, através de níveis sutis da mente e do intelecto e transcende. Você precisa de um professor verdadeiro para ensiná-lo. Para lhe dar o mantra e lhe dizer como usá-lo. E então, quando souber como meditar corretamente, isso faz parte da sua vida, você vai em frente e vê tudo melhorar.
Lillian Witte Fibe: Mas de que maneira, aqui no Brasil, as pessoas podem encontrar esse professor certo? O senhor sabe onde?
David Lynch: Há professores de meditação transcendental em todas as cidades em que estivemos. Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, e deve haver em Porto Alegre, para onde vamos. Tenho certeza de que deve haver um número para onde se possa ligar e achar um verdadeiro professor de meditação transcendental.
Lillian Witte Fibe: Ok. Quem é o próximo?
Ubiratan Brasil: Eu. Professor Lynch.
David Lynch: Sim.
Ubiratan Brasil: Falando em torno desse assunto. Como que, então, essa meditação, realmente, influencia ou influenciou, desde o início da sua carreira, o seu trabalho? É possível a gente imaginar que a sua carreira poderia ter sido diferente, se o senhor não tivesse aderido a essa meditação?
David Lynch: Sim. Como todos os seres humanos - e isso é algo relativo -, mas eu era muito tenso, sentia-me muito estressado, um pouco deprimido e era muito irritado. Digo que a negatividade é inimiga da criatividade. E, quando eu comecei a meditar, essa irritação, naturalmente, desapareceu. Quase desde o início. A felicidade começou a surgir de dentro e me vi mais feliz com meu trabalho. O peso da negatividade se dissipou e fui tomado por um sentimento de liberdade. E nesse sentimento de liberdade, senti um maior fluxo de criatividade, um fluxo de idéias. E, como costumo dizer, quando a consciência começa a aumentar, as idéias surgem de um nível mais profundo. Expanda a consciência, e as idéias vêm de níveis cada vez mais profundos, nos quais há mais informações e maior compreensão. Portanto, você compreende o que está ocorrendo. Há um oceano de consciência pura. E esse sentimento leva à ferramenta número um do artista: a intuição. Leva-nos a reconhecer quando uma coisa está errada e a encontrar uma maneira de corrigi-la e à felicidade de fazer isso. Há uma energia de felicidade. Você se livra do cansaço e estresse e do que o está consumindo.
Ricardo Calil: Mister Lynch.
David Lynch: Sim.
Ricardo Calil: No livro que o senhor veio lançar no Brasil, o senhor em um capítulo fala, por exemplo, sobre a beleza que consegue enxergar em um corpo decomposto. No capítulo seguinte, o senhor fala sobre harmonia, sobre paz, sobre iluminação. Não existe uma contradição ou um paradoxo entre o cineasta dedicado ao bizarro e essa figura pública que se tornou o porta-voz da meditação?
David Lynch: Não. [risos] E vou lhe dizer o motivo. Eu me apaixono por idéias. E vou me apaixonar por idéias diferentes daquelas pelas quais você vai se apaixonar. Mas, quando se está apaixonado, se está apaixonado. E sempre digo que há toda uma coisa a respeito dos artistas - e eu sou um deles, e, sem dúvida, eu já era um artista antes de começar a meditar - que, quanto maior o sofrimento, a angústia, quanto maior o estresse, mais alimento há para o trabalho. E isso vem de uma coisa estranha, na França, creio, dos artistas famintos das águas-furtadas. Uma coisa romântica para quem está de fora, mas nada romântica para o artista que está morrendo de fome. Eles adorariam ser capazes de fazer seu trabalho e ter algum dinheiro para comprar seus materiais para trabalhar e se sentirem felizes com isso. O sofrimento é inimigo da criatividade. As histórias através dos tempos estão repletas de contrastes, de altos e baixos. Situações de vida e morte. Muito sofrimento, muita agonia, negatividade. É disso que as histórias são feitas, da condição humana. E, com freqüência, as histórias refletem o mundo em que vivemos. Portanto, vivemos em um mundo bastante negativo. Mas o artista não tem de sofrer para falar de sofrimento. Basta compreendê-lo. Você não precisa morrer para filmar uma cena de morte. Basta compreendê-la. E a compreensão cresce quando você, de fato, transcende. E a infinita inteligência está ali. As coisas ficam cada vez mais claras, e isso alimenta o trabalho.
Lillian Witte Fibe: Agora a ala de lá quer fazer pergunta.
José Geraldo Couto: Senhor Lynch.
David Lynch: Olá.
José Geraldo Couto: Tudo bem? Eu gostaria de fazer uma pergunta sobre o filme The straight story, que aqui no Brasil chamou Uma história real. Eu sei que se baseou em uma história real, de fato, um personagem chamado Alvin Straight. Mas me parece também que é uma espécie de resposta irônica do senhor aos críticos mais conservadores, que viviam cobrando do senhor que contasse uma história linear, com começo, meio e fim, com personagens coerentes, motivações claras, transparentes, e, se possível, com um final edificante, uma mensagem positiva. E, de certo modo, foi o que o senhor fez, com o The straigh story. Entregou esse tipo de filme, só que à sua maneira, com o seu estilo. O próprio título, embora seja o nome do personagem [Alvin Straight], o The straight story, parece brincar com os vários sentidos da palavra straight em inglês, né? Eu gostaria que senhor falasse um pouco sobre esse filme no conjunto da sua filmografia, no começo da sua carreira. A sua motivação para fazê-lo e tal. Como você vê a relação com os outros?
David Lynch: Minha terceira mulher, Mary Sweeney [(1953-) editora e produtora de cinema, trabalhou com Lynch em vários filmes e séries de televisão. Casou-se com ele em 2006, mas divorciaram-se após um mês, sob o argumento de diferenças irreconciliáveis. O casal tem um filho, Riley Sweeney Lynch, nascido em 1992], e um amigo dela, John Roach [presidente da JRP (John Roach Projects), uma produtora de vídeo e filmes em Madison, Wisconsin, nos Estados Unidos], tiveram a idéia de escrever um roteiro sobre Alvin Straight. A história fora publicada em jornais, com base em uma situação real. Eles conversaram comigo a respeito: “Estaria interessado em filmar isso?”. Durante três anos, eles conversaram comigo, e eu não tinha nenhum [enfatiza] interesse pela história. [risos] Mas, quando terminaram o roteiro, eles o enviaram a mim e eu me sentei e comecei a ler, e esse roteiro me emocionou. E eu disse: “isso é muito bonito.”. E mudei completamente minha opinião a respeito. E sempre digo que, embora seja linear, trata-se de meu filme mais experimental, pois há poucos elementos nessa história que seguem uma linearidade. E a maneira como se consegue emoção a partir desses poucos elementos... Não há nada, além disso, é algo direto. Por isso, trata-se de algo, de certa forma, experimental. Muitas vezes, todos os elementos precisavam me parecer bons para que a emoção aflorasse. E todos nós sabemos como é isso. Às vezes, vemos atores ou atrizes chorando na tela, e o público nada sente. E talvez vejamos atores ou atrizes rindo na tela, e todo o público está comovido. Pois as pessoas sentem o que aquele riso significa. É um negócio muito complicado. Mas eu me apaixonei por causa da emoção. E esse filme é diferente de outros filmes que fiz, embora se aproxime, de certa forma, de O homem elefante.
Lillian Witte Fibe: Leon.
Leon Cakoff: Então... eu sinto, eu vejo, acompanho a sua carreira. E vejo que o senhor é muito querido e prestigiado na Europa. Eu acho que, graças a iniciativas na Europa, agora você mesmo citou o Roach e tem o caso da Fundação Cartier [a Fondation Cartier pour l’art contemporain, em Paris, fez uma exposição intitulada “The air is on fire”, entre março e maio de 2007], que fez esse belíssimo... essa belíssima exposição com o seu trabalho, e onde se prova que você realmente é um artista multimídia, capaz de atacar todas as áreas. E o último Festival de Cannes, com uma foto desfocada sua, fez um belíssimo pôster. Então, o seu prestígio é muito alto e você é muito querido, graças a iniciativas européias. Eu percebo isso e a gente acompanha isso. E eu sei que você... esse livro Em águas profundas, que está sendo lançado agora, no Brasil... Você declarou em alguma entrevista que eu li que a renda do livro e dos seus trabalhos seria revertida para uma fundação que leva o seu nome: David Lynch. Eu queria saber: qual é o propósito dessa fundação?
David Lynch: Chama-se Fundação David Lynch para a Educação Consciente e Paz Mundial. Arrecadamos fundos para oferecer a meditação transcendental, a qualquer aluno que a queira, em qualquer parte do mundo. Ou a qualquer escola que a queira para toda a escola, alunos, docentes, diretores. Antes da fundação havia três escolas nos Estados Unidos que haviam utilizado a meditação para a escola toda. Hoje são dezesseis. Algumas das escolas que a utilizaram recentemente estavam entre as piores em seus estados. Havia violência, depressão, suicídios, brigas nos corredores, quase o tempo todo. Não eram escolas às quais você gostaria de enviar seus filhos. Eram, realmente, problemáticas. Haviam tentado tudo. E elas podem ter se perguntado: “Como é que esse negócio esquisito de meditação pode fazer alguma coisa por nossa escola?”. Mas elas começaram a ouvir histórias sobre o que havia acontecido em outros lugares e levaram isso para suas escolas. Em um ano, houve uma guinada de cento e oitenta graus. Os alunos estavam felizes. Era algo que vinha de dentro. Essa é a técnica deles. Eles mergulham para dentro de si mesmos, duas vezes por dia. As notas aumentaram. O bom relacionamento entre eles veio naturalmente. O professor está tentando ajudar você e há uma perspectiva totalmente nova. Os professores sorriem e contam histórias a respeito da enorme diferença. Ela elimina o estresse, você simplesmente se livra dele. A raiva se dissipa: “qual é o problema?”. Eles começam a olhar para o mundo de maneira diferente e dizem: “o mundo é o que somos. Ele pode ser muito bonito. Está tudo aí.”. Trata-se de um campo unificado da ciência, que sempre esteve e sempre vai estar ali. A meditação transcendental não é religião, não é culto. É uma técnica para mergulhar dentro de si próprio. E é próprio do ser humano praticá-la. Todo ser humano tem como seu direito nato o esclarecimento. O potencial humano é imenso e belíssimo. E a Fundação David Lynch apenas tenta colocar isso em prática.
Lillian Witte Fibe: Senhor David, falando em técnicas zen etc, essas pulseirinhas na sua mão direita têm alguma relação com a meditação? Ou são muito pessoais para o senhor contar o significado delas?
David Lynch: Essa me foi dada na Índia, depois de uma cerimônia. Por isso a estou usando. Deve-se usá-la até que ela se solte.
Lillian Witte Fibe: Foi ele que morreu agora, no começo do ano? O mestre da meditação.
David Lynch: Não. Maharishi Mahesh Yogi [(1918-2008) guru indiano adepto e divulgador da meditação transcendental, discípulo de Guru Nanak] é um professor. A meditação transcendental é uma técnica mental, mas uma técnica mental antiga. Uma antiga forma de meditação, que Maharishi Mahesh Yogi trouxe para nosso tempo.
Lillian Witte Fibe: Ok. Nós vamos fazer um intervalo, lembrando que, por se tratar de um programa gravado, as perguntas de telespectadores apresentadas aqui - daqui a pouco, assim que a gente voltar de intervalo, a Laís vai começar a fazer - chegaram antecipadamente e pela internet através do nosso site que é: www.tvcultura.com.br/rodaviva. Você pode se informar também sobre os próximos programas e mandar e-mail, dando críticas, sugestões, ou mesmo fazendo perguntas para a gente. A gente volta já, já.
[intervalo]
Lillian Witte Fibe: Nós estamos de volta com o Roda Viva, que hoje entrevista o cineasta americano David Lynch, que, entre um filme e outro, é também escritor, fotógrafo, pintor, compositor e, principalmente, meditador. Senhor David, o senhor tem falado muito... Eu sei que o senhor não vai ter uma resposta sobre o futuro - o senhor já disse em outras das suas entrevistas -, mas o senhor tem falado muito também sobre o fim dos filmes. E tem afirmado que o futuro está na internet, principalmente, na entrevista que o senhor deu para o Ubiratan, no Caderno Dois, do Estado de S.Paulo. Dá para o senhor explicar melhor para a gente o que o senhor antevê em matéria de digitalização da sétima arte?
David Lynch: Não sei tudo o que está ocorrendo. Mas creio que todos sentimos uma enorme mudança no cinema, como a ocorrida com a música algum tempo atrás. A internet está cada vez mais rápida, com melhor qualidade. Cada vez mais pessoas assistem a filmes e programas de televisão, todos na internet. Ouvi dizer que o público das salas de cinema está diminuindo. A venda de DVDs está diminuindo. O que aponta para o fato de a internet estar ganhando espaço. O filme, ainda que maravilhoso, o filme em celulóide é grande, pesado e lento, o que me lembra os dinossauros desaparecendo discretamente. O filme digital está cada vez melhor. No mundo da fotografia, quase não há mais filme. E o mesmo está ocorrendo com o cinema.
Lillian Witte Fibe: Em que tamanho de tela nós veremos os próximos filmes? Será que a tela grande acabou?
David Lynch: Adoro a tela grande e aquele som de qualidade. E espero que os filmes possam chegar até nós, em máquinas minúsculas, que nos permitam projetá-los na parede. Grandes e com um som espetacular, para que possamos entrar em um outro mundo e, realmente, vivenciarmos algo novo.
Lillian Witte Fibe: Laís.
Laís Duarte: Pergunta enviada por Renato Barbiere, de Brasília: "Em todo ciclo de produção de um filme, qual é o momento mais desafiante para o senhor?".
David Lynch: Eles têm quase a mesma relevância, são todos muitíssimo importantes. Todo o processo é muito agradável. Tudo se resume a ter uma idéia, se apaixonar por ela e então traduzi-la para o cinema. E o cinema é composto por inúmeros elementos. Portanto, trata-se de algo que se faz passo a passo, dia a dia, tentando aproximar-se, e não se agastando do que lhe parece correto. Todo o processo é muito bonito.
Ubiratan Brasil: Senhor Lynch,...
David Lynch: Sim.
Ubiratan Brasil: ... há um trecho aqui no seu livro que me chamou a atenção, que o senhor diz que adora a lógica dos sonhos, adora a forma com que eles se desenrolam. Mas dificilmente extrai idéias dos sonhos, o que, às vezes, até soa um pouco estranho. Vendo os seus filmes a gente imaginaria que o senhor já teria sonhado, por exemplo, com uma orelha encontrada na relva, por exemplo. Por que os sonhos não são tão fontes de inspiração para o senhor?
David Lynch: Eles apenas não têm sido uma fonte. Mas o cinema pode dizer coisas concretas e abstratas. Pode dizer algo de uma forma onírica. Portanto, as idéias chegam, e acho que me apaixono por elas. Idéias com um lado concreto, mas também com abstrações. Adoro isso. E gosto de sonhar acordado. É uma maneira de captar idéias. Às vezes, as idéias surgem quando menos esperamos. Portanto, tudo se resume a idéias. Mas adoro abstrações.
Ricardo Calil: Senhor Lynch, no seu livro, o senhor diz que faz - uma informação muito surpreendente para mim - que o senhor faz testes de audiência dos seus filmes com o público. Não sei se de todos ou de alguns deles, assim. Eu gostaria de saber qual é o papel do público para o seu cinema durante o processo, ou seja, o senhor pensa no público em algum momento? É difícil para mim imaginar que o senhor faça isso com um filme como o Império dos sonhos, por exemplo, que tem três horas, que é um filme muito desafiador. O público faz parte da equação?
David Lynch: O público não faz parte disso. Tudo se resume à idéia. Creio que, se eu for fiel à idéia e fiel a todos os elementos, com base naquela idéia, e não me afastar dela até que tenha algo que me pareça correto, existe a possibilidade de o público sentir a mesma coisa. Por isso o público vem depois. Se eu permanecer fiel à idéia, então, ele pode vir a sentir o mesmo que eu. E a “sessão teste” não precisa envolver muitas pessoas. Mas próximo do final do processo, quando se trabalha com o todo, se você se sentar com 12, 14 ou quarenta pessoas, é possível aprender coisas valiosas. E elas não precisam escrever o que acharam, mas apenas sentir. E você sente quando a coisa não está funcionando. E então você volta correndo e tenta consertar o que não funcionou. Às vezes, a coisa toda parece ir muito bem. Essas pessoas podem, de fato, ensinar muito a você.
Lillian Witte Fibe: Diga lá, José Geraldo Couto.
José Geraldo Couto: Por favor, o seu cinema é muito pessoal, né? O senhor é um dos cineastas que conseguem ter um universo muito particular, muito próprio, e inconfundível. Eu queria saber, do cinema que se faz atualmente no mundo, o que ainda comove o senhor? O que empolga ou, no mínimo, interessa ao senhor, no cinema que se faz hoje no mundo? Porque eu acho bem diferente daquilo que é o seu cinema. Isso é uma coisa. E a outra é se o senhor costuma acompanhar cinematografias periféricas, digamos, como a asiática ou a latino-americana...
David Lynch: Eu sou tão ignorante sobre o cinema no mundo. Gosto de fazer filmes e gosto de trabalhar. Não sei, por exemplo, como Martin Scorsese - ele tem a reputação de ser, talvez, o maior entusiasta por filmes do mundo - não sei como ele acha tempo para assistir a todos esses filmes. Portanto, não consigo, realmente, responder a sua pergunta. Aki Kaurismäki [(1957-) roteirista, produtor e cineasta finlandês] parece estar fazendo coisas muito interessantes. Pedro Almodóvar [(1951-), um dos mais importantes cineastas espanhóis. Ver entrevista com Almodóvar no Roda Viva]... Gosto de Werner Herzog [(1942-) documentarista e cineasta, um dos maiores nomes do novo cinema alemão, movimento iniciado nos anos 1970] como cineasta, como pessoa, personalidade. E gosto de seus filmes. Stroszek [filme de 1977 escrito em quatro dias para o ator Bruno Schleinstein. Filmado em Berlim e em duas cidades de Wisconsin, nos Estados Unidos, o filme conta a história de um músico de rua alcoólatra que, pouco depois de ser libertado da prisão, conhece uma prostituta] é um de meus favoritos. Há muitas pessoas fazendo bom cinema moderno, mas não sei muito a respeito.
José Geraldo Couto: O que o senhor acha, por exemplo, de David Cronenberg [(1943-) cineasta canadense, um dos principais exponentes do chamado horror corporal, que explora os medos humanos ante a transformação física e a infecção]? Porque me parece também um cineasta que trabalha dentro da indústria ou nas franjas, no limite da indústria, mas com uma linguagem e uma personalidade muito original e muito própria.
David Lynch: Sim, ele diz o que pensa. Mas não conheço bem seu cinema. Ele trabalha com liberdade e o que diz tem repercussão.
Leon Cakoff: Senhor Lynch, eu creio que uma das maiores hipocrisias sociais, à parte fingir que não existe fome e miséria no mundo, seja ignorar o vasto império das drogas e das suas ramificações na economia. E junto com isso, as legiões de drogados que existem no mundo. Como é que a sua arte de meditação pode ajudar os drogados do mundo?
David Lynch: Maharishi sempre diz: “Regue a raiz e aproveita os frutos.”. No que se refere ao indivíduo, aguar a raiz é transcender, vivenciando aquele nível mais profundo. Dê vida a isso e toda a árvore cresce à perfeição. Em nosso mundo, se dissermos: “Regue a raiz e aproveite os frutos” e pensarmos no mundo, veremos que as folhas de nossa “árvore-mundo” têm muitos problemas. Estão ficando amarelas, marrons, os galhos abaixados... E nós trabalhamos na superfície, tentando apanhar essa folha que representa a Aids e tentamos deixá-la verde outra vez. Livramo-nos da Aids. Essas folhas representam um tipo diferente de câncer, e tentamos deixá-las verdes despejando milhões de dólares para deixá-las verdes. Essas representam drogas. Todos os tipos de drogas. E os traficantes, os assassinatos e tudo a elas relacionado. Tudo isso afeta a sociedade e tudo o mais ao nosso redor. Essas são curas pela superfície. Curativos precários. Se você pudesse - e a tecnologia existe para isso – dar vida a esse campo de unidade, esse campo de consciência sem limites, de alegria, energia, inteligência, criatividade e amor universal, se pudéssemos dar vida a isso com um grupo que pratique a meditação transcendental e suas técnicas avançadas... Eu viajei com um dos maiores físicos quânticos do mundo, e esse grupo teria uma energia enorme. Toda a energia que dá vida ao universo está ali. E toda ela é positiva. Um grupo criador de paz tem muito mais força do que o mesmo número de pessoas não agrupadas. Esse campo é tão poderoso que precisamos apenas da raiz quadrada de 1% de uma população para que essas coisas comecem a acontecer. A raiz quadrada de 1% do Brasil corresponderia a 1400 ou 1500 meditadores avançados. Regue a raiz, começando do nível mais profundo, e tudo surge à perfeição [abre os braços, como se fosse a árvore crescendo]. Surgem flores e frutos. E para a “árvore-mundo” esse fruto é a paz. Dizem que a verdadeira paz não é tão somente a ausência de guerra, mas a ausência de negatividade. Das sementes da guerra. E isso nunca ocorre na superfície – no nível das folhas. Ocorre de forma bela e totalmente científica, ao se estimular aquele nível mais profundo – o nosso “eu”. Na linguagem védica, esse nível mais profundo é o atma, o “eu”. Conheça a si próprio. Conheça a si próprio se desvendando. E irá desvendar todo o seu potencial como ser humano.
Laís Duarte: Senhor Lynch. A Fernanda Vogue, aqui de São Paulo, pergunta: o que o senhor acha da série de desenhos animados Os Simpsons? Existe alguma semelhança entre os trabalhos do senhor e os episódios do desenho?
David Lynch: Não conheço Os Simpsons muito bem, mas meu filho Riley adora Os Simpsons. Matt Groening [(1954-) cartunista norte-americano que criou as séries de televisão Os Simpsons e Futurama, das quais é consultor criativo] fazia os quadrinhos tempos atrás e eu tinha o meu, O cão mais raivoso do mundo, no mesmo jornal, acho. O cão mais raivoso do mundo não me rendeu nada, mas Matt faturou trilhões.
[Risos]
Lillian Witte Fibe: Nós vamos fazer então mais um intervalo, lembrando que a memória do Roda Vida está disponível em nosso site www.tvcultura.com.br/rodaviva, onde você pode pesquisar o conteúdo do nosso arquivo e também mandar e-mails com críticas e sugestões. A gente volta já, já.
[intervalo]
Lillian Witte Fibe: Você acompanha hoje no Roda Viva a entrevista com o cineasta americano David Lynch. Um dos diretores mais cultuados do cinema contemporâneo. Dirigiu, entre outros, O homem elefante, Veludo azul, O império dos sonhos e a famosa série de TV Twin Peaks. Senhor David Lynch, eu vou confessar que eu tenho uma inveja de uma coisa no senhor: é a sua fidelidade ao seu corte de cabelo. Eu queria ser tão fiel assim ao meu corte de cabelo. Nada o faz mudar de idéia? Quem bolou esse corte de cabelo que o senhor mantém há quantos anos mesmo?
David Lynch: Acho que há bastante tempo. Creio que desde a sétima série. E é, de certa forma, inspirado em Elvis Presley [(1935-1977) músico e ator estadunidense, conhecido mundialmente como o "rei do rock"]...
Lillian Witte Fibe: Ah, ok.
David Lynch: Com uma certa variação. Mas o seu cabelo é muito bonito.
[Risos]
Lillian Witte Fibe: Ok. Eu queria que o senhor falasse um pouco também - até para não frustrar os nossos telespectadores - sobre Twin Peaks. Depois se transformou em um filme do qual o senhor não gostou totalmente. Sobre o sucesso da televisão.
David Lynch: Não. Eu gostei muito do filme. Eu não gostei foi de Duna [adaptação cinematográfica do livro homônimo de Frank Herbert, Duna é uma super produção de ficção científica dirigida por David Lynch lançada em 1984, que foi um fracasso de bilheteira].
Lillian Witte Fibe: Do filme. Do longa metragem também? Também do final? Do final da série da TV que o senhor não gostou. Foi isso?
David Lynch: O final da série de TV desagradou muita gente. E, de certa forma, também me desagradou. Mas Mark Frost e eu, que a escrevemos, imaginamos que a ABC talvez mudasse de idéia e fizesse ao menos mais uma temporada, e então poderíamos mudar aquele final de certa forma negativo. Mas isso não aconteceu.
Lillian Witte Fibe: E do filme... O filme se pagou? Foi um sucesso? Porque muito dos seus filmes, o senhor diz que não chegaram a se pagar, né?
David Lynch: Acho que nunca fiz uma empresa perder dinheiro, mas nunca ganhei muito.
[Risos discretos]
David Lynch: Quanto a Twin Peaks: os útlimos dias de Laura Palmer, eu adoro esse filme. Mas ele não teve uma boa aceitação mundial. E creio que porque... muito do humor de Twin Peaks não estava ali, pois não havia humor nos últimos dias de Laura Palmer.
Lilliam Witte Fibe: O senhor está agora só produzindo um filme de um diretor chinês. O senhor não tem próximos projetos cinematográficos?
David Lynch: Não há nenhum chinês.
Lilliam Witte Fibe: Chileno, chileno. Eu li em algumas de suas entrevistas, o senhor está...
David Lynch: Jorodowsky será o produtor executivo de seu filme...
Lilliam Witte Fibe: Isto. Hã, hã.
David Lynch: E, então, Werner Herzog será o produtor executivo de um filme que ele irá fazer.
Lilliam Witte Fibe: Ah, então o senhor tem duas produções nos projetos?
David Lynch: Mas nenhum deles já está sendo produzido. Ainda não.
Lilliam Witte Fibe: Ah, ok. Está bom. Diga lá.
Ubiratan Brasil: Senhor Lynch, no outro bloco, falando das suas... de alguma de suas preferências cinematográficas, o senhor citou um diretor finlandês, [Aki Kaurismäki] citou um espanhol [Pedro Almodóvar], um alemão [Werner Herzog] e Cronenberg, que é canadense, mas não falou de nenhum americano. Isso foi por alguma diplomacia? Ou porque, realmente, o cinema americano hoje em dia não lhe interessa tanto?
David Lynch: Sei que há grandes diretores americanos... Gosto de Boogie nights [no Brasil, Prazer sem limites (1997)], de Paul Thomas Anderson [(1970-) cineasta estadunidense indicado duas vezes ao Oscar de melhor roteiro  original pelos filmes Boogie Nights e Magnólia], mas não gostei de seu último filme [There will be blood, no Brasil Sangue negro, drama lançado em 2007, cujo roteiro baseia-se no livro Petróleo! (1927), de Upton Sinclair]. Eu o considero muito talentoso.
Ubiratan Brasil: E nenhum outro cineasta chama a sua atenção hoje?
David Lynch: Não. Eu gosto de trabalhar.
[Risos discretos]
Ricardo Calil: Senhor Lynch. Eu gostaria de saber em quem o senhor vai votar nas próximas eleições dos Estados Unidos e se o senhor acredita que a política pode ajudar nesse caminho de busca pela paz.
David Lynch: Vou votar em Barack Obama [então candidato do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos, eleito em 2009] nas próximas eleições. Creio que os Estados Unidos já desceram muito e está na hora de se levantarem. Creio que se diz que o presidente é tão bom quanto o povo que representa. É a consciência coletiva do povo. Portanto, quando você vê um presidente como George Bush, você começa a se perguntar sobre o povo do país. Quando se consegue elevar o nível de esclarecimento e a educação do povo, tem-se um líder melhor. E uma maneira de fazer isso é deixar que as pessoas transcendam e deixem que aquele nível mais profundo – de pura consciência – venha à tona. E que as pessoas expandam sua inteligência, sua criatividade, seu amor, que sejam mais felizes. E isso trará grandes mudanças. Chega de George Bush.
Laís Duarte: Senhor Lynch, Lucas Valente, de Porto Alegre, pergunta: "Qual é a influência nos seus filmes da sua infância? Da juventude? E da relação com os seus pais?".
David Lynch: É uma boa pergunta. Creio que os lugares realmente despertam idéias. Eu vivi no noroeste do país até os 14 anos. Passei bastante tempo na mata. Portanto, conheço a mata. Conheço o mistério da mata. [tamborila os dedos no ar enquanto fala] E tenho certeza de que isso me influenciou. Tive uma infância muito feliz, e tive muitos sonhos felizes. E acho que isso lhe dá bagagem para o futuro. Minha mãe recusava-se a me dar livros de colorir, mas me motivava com muito papel em branco e material de desenho, pois ela via que eu adoro desenhar. Por isso, creio que essa liberdade tem uma grande importância. Toda criança vê coisas no mundo e sente essas coisas. Você vê uma casa, por exemplo, e sente algo por trás das paredes, dentro da casa. Você, simplesmente, sabe de alguma coisa. São mistérios, algo muito bonito.
José Geraldo Couto: Senhor Lynch, uma pergunta bem prosaica. O senhor disse em uma entrevista recente que costuma meditar duas vezes ao dia: vinte minutos pela manhã e vinte minutos à noite. Eu sei que o senhor está atravessando uma verdadeira maratona de compromissos aqui no Brasil, esses dias. Então a minha pergunta é se o senhor está conseguindo cumprir essa sua prática de meditação duas vezes ao dia. Como é que o senhor está administrando seu tempo?
David Lynch: Medito há 35 anos duas vezes por dia e nunca deixei de meditar um dia sequer.
José Geraldo Couto: Nem durante filmagens? Realização de um filme?
David Lynch: Não. Nunca deixei de meditar um só dia em 35 anos. É tão fácil encontrar vinte minutos pela manhã e vinte minutos à tarde. Mas é verdade. As pessoas dizem: “Não tenho tempo para isso. Meu dia é tão cheio que não posso fazer isso. Além do mais, não acho que isso vá mudar a minha vida.”. E então não meditam. Mas é muito fácil de fazer. E não é um tipo de meditação que exija concentração e esforço. Uma vez voltando para dentro de si mesmo, você mergulha naturalmente. E por que é natural? Porque a cada nível mais profundo da mente e do intelecto há maior felicidade. E, ao transcender, a felicidade é infinita. Basta ir naquela direção. É algo profundo, mas é fácil e não exige esforço. Você termina a meditação com tamanha energia e sentimento de renovação, tamanha felicidade... Dizem que esse êxtase é uma felicidade física, emocional, mental e espiritual. Você consegue vibrar em felicidade. E é o tipo de felicidade que não se perde. Procuramos por felicidade aqui fora e a encontramos algumas vezes. Mas esse é um mundo de mudanças e, assim, a vemos ir embora. E então a procuramos em outro lugar. Mas a verdadeira felicidade está dentro de você e torna a vida melhor. Você diz a alguém: “você tem a chave do cofre, você não precisa ir ao banco.”. Você diz: “eis a chave do cofre”. E ouve: “não, não tenho tempo.”. Mas é possível pegar a chave, ir até o cofre e encontrar uma enorme quantidade de ouro ali. Viva!
Lillian Witte Fibe: O senhor pratica algum esporte?
David Lynch: Às vezes, gosto de caminhar.
Lillian Witte Fibe: Ok. Leon.
Leon Cakoff: Senhor Lynch, a gente sabe, isso é evidente, que a principal indústria americana, a indústria número um, é a de armamentos. E a segunda é de cinema, que fetichiza os armamentos na sua maior variedade e diversidade. E o seu cinema, de certa maneira, é boicotado por Hollywood, que fetichiza os armamentos e aplica em muitos filmes de ação, nos seus enredos, com muita arma, muita fetichização de arma. Isso é um motivo, na sua opinião, de você ser boicotado, assim, pelo sistema de Hollywood e necessitar de parceiros europeus para fazer cinema?
David Lynch: Não sou boicotado por Hollywood. Entretanto, muitas vezes, a não ser que seus filmes rendam US$ 100 milhões, eles não lhe permitem a edição final. E se não me é permitido isso, não consigo trabalhar com eles. Prefiro não fazer o filme e fazer qualquer outra coisa. Se você não pode fazer o filme que deseja fazer, não há como fazê-lo. Mas, assim como o mundo muda, o cinema irá mudar. Vá a qualquer museu e verá como as coisas mudam. É o que ocorre hoje. Mas acredito que as coisas já estão mudando para melhor. E esse tipo de coisa vai desaparecer. Comerciantes de armas podem mudar sua produção e fazer um tipo diferente de máquina. E podem ser felizes e ter lucro com isso. Isso já está ocorrendo.
Laís Duarte: Senhor Linch, o Edilson Palhares, de Araxá, Minas Gerais, pergunta: "Visto que a versão estendida de Duna, em DVD, não o agradou, os fãs de Duna podem esperar uma versão do senhor, definitiva?".
David Lynch: Não. Aquela versão estendida foi uma versão para a televisão. Sem falarem comigo, acharam algumas coisas e as acrescentaram e então adicionaram uma narração estranha que eu nunca ouvi. Eu disse: “tudo bem, vamos em frente, mas tirem meu nome daí, pois isso não é mais coisa minha.”. Duna foi um filme que fiz e cuja edição final não foi minha. Assinei o contrato sabendo que não a faria. Eu sabia que não estava fazendo a coisa certa ao assinar o contrato. E deu tudo errado. Comecei mal logo no início. Ou seja, não havia naquelas imagens nada que pudesse transformá-las no filme que eu queria fazer. Não havia.
Lillian Witte Fibe: Diga, Ubiratan, que você está tão curioso.
Ubiratan Brasil: Uma curiosidade. Em algumas entrevistas do senhor que a gente leu aqui, que a produção passou, em uma determinada época o senhor tinha dito... teria dito que a pintura teria se tornado uma válvula de escape menor no seu trabalho. Mas, assim, julgando pela quantidade de trabalhos que a gente viu, inclusive naquele livro que o Leon trouxe, o senhor sempre produziu muito em pintura. Eu queria que o senhor falasse um pouco dessa importância da pintura para o senhor no seu trabalho.
David Lynch: Não se trata de fuga. Você pensa em fugir se está em uma prisão. A meditação é algo que simplesmente o atrai. Você tem idéias para o cinema, para pinturas... Você tem uma idéia para uma pintura e fica todo entusiasmado. E o mundo da pintura é maravilhoso, pois é apenas você e a pintura. É como um círculo: ação e reação. Um fluxo de idéias. Você pode penetrar naquele mundo sozinho – e é algo muito bonito. Meu amigo [...] Keeler me influenciou muito. Ele foi um pintor que conheci e que mudou minha vida, pois eu não achava que eu pudesse ser um pintor já na vida adulta. E ele me mostrou que eu estava errado. Ele sempre dizia: “Você precisa de quatro horas ininterruptas para produzir uma hora de boa pintura.”. E é verdade. Você precisa penetrar em seu mundo, permanecer ali e ir em frente. E não pode haver interrupções. Interrupções significam que você precisa começar tudo de novo.
Ubiratan Brasil: A gente falou de cineastas de sua predileção. E quais seriam os pintores, então, na sua preferência?
David Lynch: Gosto de Francis Bacon [(1909-1992) pintor anglo-irlandês de pintura figurativa, conhecida como audaz, austera e grotesca ou imagem de pesadelo], Edward Hopper [(1882-1967) pintor norte-americano lembrado por suas misteriosas representações realistas da solidão, com notável influência no mundo da arte e da cultura pop], Magritte [René François Ghislain Magritte (1898-1967), um dos principais artistas surrealistas belgas], Max Ernst [(1891-1976) pintor alemão surrealista]; gosto dos trabalhos de Lucian Freud [(1922-) pintor alemão, neto do médico  neurologista  judeu-austríaco, fundador da psicanálise, Sigmund Freud]. Gosto de Clemente [José Clemente Orozco (1883-1949), um dos maiores pintores mexicanos e um dos protagonistas do muralismo]. Há muitos pintores. Há Don Van Vliet [Don Van Vliet (1941-), pintor e músico aposentado, sua arte é denominada como "abstrata-expressionista aestética neo-primitiva". Sofre de esclerose múltipla], que costuma ser chamado de Captain Beefheart e fazia música nos anos 1960, 1970. Ele é um pintor genial.
José Geraldo Couto: O senhor produziu também um documentário sobre o Crumb [(1943-) artista gráfico e ilustrador, um dos fundadores do movimento underground dos quadrinhos americanos], que é maravilhoso. Robert Crumb.
David Lynch: Terry Zwigoff [(1949-) diretor de cinema estadunidense, conhecido por suas adaptações cinematográficas de desenhos animados alternativos, como Crumb (1994) e Ghost World  (2001)] o dirigiu. Eu conheci Terry em Berkeley, quando eu misturava uma série de coisas na época. E Terry Zwigoff fez um trabalho genial no documentário de Robert Crumb.
José Geraldo Couto: O Crumb seria uma espécie de inspiração sua também?
David Lynch: Não exatamente. Eu o respeito. Ele tinha sua própria maneira de fazer as coisas e usava os quadrinhos. Ele criou um mundo, o mundo de Robert Crumb.
Ricardo Calil: Senhor Lynch, o senhor está aqui no Brasil já há cinco dias. Eu sei que o senhor está correndo muito divulgando a meditação, mas eu queria saber se o senhor... Eu queria que o senhor compartilhasse algumas das suas impressões sobre o Brasil. Eu queria saber, por exemplo, se o senhor acha que a meditação ajudaria a gente a lidar com o trânsito de São Paulo melhor. Seria o suficiente? E gostaria de saber se o senhor encontrou no Brasil alguma idéia inspiradora o suficiente para estar num próximo filme.
David Lynch: Lugares realmente nos trazem idéias. Ao visitar Lodz, na Polônia, durante o Camera Image Film Festival, tive muitas idéias. E acabei filmando Império dos sonhos ali. Uma das primeiras coisas que adorei no Brasil foram os túneis no Rio. Passando por aquelas montanhas belíssimas. Há uma atmosfera maravilhosa ali. As pessoas – e não é por estar aqui com vocês – são as mais cordiais que já conheci. Gentis, hospitaleiras, inteligentes. E tão receptivas a isso tudo, a esse campo, e à possibilidade de dar-lhe vida. Há uma escola nas cercanias de Belo Horizonte, Cidade da Criança, para onde fui, pois eles vêm ensinando meditação transcendental. Ouvi histórias lindas nesse lugar. Um lugar pobre. O pai ou a mãe de uma das crianças está na prisão... Problemas... Muitíssimos problemas. Vocês sabem disso melhor do que eu. Eles ensinam meditação transcendental e ela se torna a técnica das crianças. Algo delas. E todo o seu potencial vem à tona. A felicidade. E as coisas mudam. Entre 2500 e quatro mil crianças a tiveram. Fizemos um grupo de meditação, Donovan cantou. Foi maravilhoso. E eu lhes garanto que haverá mudanças... O estresse existe no mundo todo, e a meditação acaba com o estresse. Basta mergulhar para dentro de si mesmo e vivenciar isso. Crimes... A criminalidade ocorre por causa das frustrações, do estresse por não se conseguir realizar o que se deseja. Mude tudo isso com a meditação e veja o crime desaparecer, o estresse ir embora. O Brasil é um país lindo, mas tem problemas: drogas, estresse, violência nas cidades. E é possível dizer adeus a isso. Há doenças relacionadas ao estresse. Todos parecem sofrer de algum tipo de doença ligada ao estresse. Diga adeus a elas. Livre-se desse estresse naturalmente.
Lillian Witte Fibe: A gente vai fazer então, mais um intervalo e voltamos num instante com o Roda Viva. Até já.
[intervalo]
Lillian Witte Fibe: O Roda Viva entrevista hoje o cineasta americano David Lynch. A gente falava, um pouquinho antes do intervalo, de Brasil - e para quem pegou o programa no meio – o senhor David Lynch é um super especialista em café, tem a grife dele agora à venda nos Estados Unidos. O que o senhor achou do café brasileiro?
David Lynch: [hesita, talvez aguardando que termine a tradução simultânea, e diz] Novamente...
Lillian Witte Fibe: [Interrompendo e rindo] Não, não é verdade que o senhor não experimentou o café brasileiro! Vai experimentar agora, no programa.
David Lynch: Tomei muitos cafezinhos brasileiros, e o café é excelente.
Lillian Witte Fibe: Ok, thank you [obrigada, em inglês] [risos]. Quem queria perguntar antes do intervalo e não conseguiu? Diga, José Geraldo.
José Geraldo Couto: Senhor Lynch, o senhor – como lembrou aqui o Leon – é um artista multimídia. O senhor se expressa em vários meios, né? Mas uma parte considerável da sua arte, que é o cinema, e especialmente os longa metragens, a mim parece que eles precisam da tela grande, não só da tela grande, mas da sala escura e desse ritual coletivo de embarcar em uma atmosfera onírica, em uma atmosfera de sonho, né? Então, em vista disso, eu queria que o senhor comentasse isso, quer dizer, o senhor já falou que gosta da tela grande e do som poderoso e tal, mas como o senhor vê... O senhor acha que o futuro, essa experiência de compartilhar imagens em uma sala escura... imagens e som em uma sala escura vai ser uma atividade quase que nostálgica, romântica, de um grupo pequeno de pessoas? Ou existe futuro para essa forma de expressão e de arte?
David Lynch: Não sei ao certo. Mas ouvi dizer que talvez os grandes cinemas nas cidades estejam partindo para filmes em 3D. Um tipo mais avançado de filme... Para atrair público. Ainda não se tem 3D em casa. Portanto, talvez as pessoas comecem a ir aos cinemas para ver grandes filmes, espetáculos. E os cinemas fiquem lotados. Mas, quanto aos antigos cinemas de arte, é bastante triste. Mas, nos Estados Unidos todos eles fecharam. Restou apenas um número muito pequeno. Aquele tipo de cinema acabará reduzido a telas menores. A não ser que você tenha, em casa, como vê-los em telas grandes. Quanto maior a tela, maior a possibilidade de realmente penetrar naquele mundo. Quanto melhor o som, quanto mais escura a sala, quanto mais silenciosa a sala... Traga toda a comida para perto de você e entre naquele mundo. É uma coisa maravilhosa. Hoje em dia, essa experiência é cada vez mais difícil. Recentemente, vi algo em um domo, como os antigos domos dos planetários, mas, agora eles estão projetando coisas em um domo. Pode-se projetar filmes comuns em um domo. E é possível ter uma experiência incrível em um domo. Talvez um dia todas as casas venham a ter um.
Leon Cakoff: Eu estou, realmente, muito impressionado por esse coisa vocacional que o senhor está nos trazendo, de meditar, né? E eu estou muito curioso, eu queria que o senhor nos desse - e aos telespectadores - três elementos de meditação. Para quem quer embarcar nessa nova experiência. Três elementos para começar a meditar.
David Lynch: Encontre um professor “verdadeiro”. Faça-lhe todas as perguntas. Obtenha as respostas. Compreenda do que se trata. Você vai receber um mantra, um pensamento específico em termos de vibração de som. E esse mantra realmente o faz voltar-se para dentro de sim mesmo. Você aprende o mantra e aprende a usá-lo. Trata-se de um ensinamento bastante específico. E então, você fará sua primeira meditação. Você vai se sentar confortavelmente em uma cadeira, fechar os olhos, vai começar aquele mantra interior e irá transcender. Irá mergulhar para dentro de si mesmo e irá transcender. E vivenciará essa experiência de transcendência. Digo que minha primeira meditação foi sublime. Digo que foi como se eu estivesse em um elevador que tivesse seus cabos cortados [faz um barulho de queda com a voz e o gesto com a mão]. Foram ondas de felicidade. Uma experiência singular. E eu me perguntei: “onde essa experiência sublime havia estado antes?”. Algo profundo... E as coisas começam a melhorar. Você transcende em seu primeiro dia. A cada meditação. E vê sua vida melhorar.
Lillian Witte Fibe: Senhor David, eu acho que muita gente nos vendo pode se perguntar se essa não é uma fórmula de felicidade um tanto simplista. É tão fácil assim chegar à felicidade? Como o senhor, no decorrer desses últimos trinta e tantos anos, enfrentou os seus momentos de infelicidade? Foi sempre recorrendo à meditação?
David Lynch: Não é uma forma simples de felicidade. Mas a pergunta é legítima. Qual a diferença entre uma felicidade simples ou profunda? Passei por experiências de sentir meu corpo todo vibrando com essa felicidade. [faz um som de vibração com a voz e gesticula] Assim. Uma felicidade sublime e completa. Como já disse, uma felicidade física, emocional, mental e espiritual.
Lillian Witte Fibe: Será que é felicidade ou é sentimento de prazer? O senhor concorda com alguns médicos ortodoxos que associam aos neurotransmissores dopamina, endorfina, sibutramina etc?
David Lynch: Sim. Quando se transcende, o resultado disso é esse êxtase, a felicidade. Os acontecimentos de sua vida podem permanecer os mesmos, mas a maneira como você lida com eles, certamente, muda para melhor. Coisas que quase o matavam já não têm aquele poder. E não se trata de ficar insensível. Você ainda vai se zangar, mas vai saber controlar isso. Pode se entristecer, mas isso irá dissipar. Todos nós conhecemos pessoas que não conseguem se livrar do rancor. Ninguém as quer por perto. Elas contaminam a si próprias e o ambiente. Deixe-as transcender e veja aquela raiva ir embora. Elas podem começar a desfrutar a vida. Já aconteceu com tantas pessoas, que você diz: “Isso deve ser algo muito real.”. As histórias sobre como a vida mudou... Pesquisando sobre o cérebro, hoje, mostram os efeitos da transcendência. As pesquisas mostram que, quando você canta, uma minúscula parte de seu cérebro é ativada. Quando você fala, uma outra parte. Quando você pinta, outra parte. Em um eletroencefalograma [exame feito por aparelho que registra graficamente as correntes elétricas do encéfalo, parte do sistema nervoso que fica na cavidade do crânio], a única experiência que ilumina todo o cérebro é a transcendência. Boom! [gesto de expansão com as mãos] Há uma completa coerência do cérebro. Fala-se muito nisso. E é algo que não exige esforço. A maioria das pessoas acha que é algo difícil, que é preciso abrir mão de alguma coisa, se enfiar em uma caverna e se afastar da sociedade. Maharishi torna as coisas fáceis. Trata-se de uma antiga forma de meditação. A natureza da mente busca o que lhe traz a maior felicidade. Uma vez voltado para dentro de si, você parte nessa direção. É por isso que uma criança de dez anos consegue fazer isso. Não se trata de concentração, de algo penoso. Mas apenas de voltar-se para si mesmo. E começar a revelar todo o seu potencial. E as coisas vão ficando muito boas. Desde o início.
Lillian Witte Fibe: Com que idade estão seus filhos, hoje?
David Lynch: Odeio lhe dizer quantos anos tem minha filha. Ela nasceu quando eu tinha três anos [risos] e ela está com 40 anos. Tenho um filho de 25 e outro de 16.
Lillian Witte Fibe: E o senhor cooptou os três para a meditação já?
David Lynch: Desde que eles tinham seis anos de idade.
Leon Cakoff: Senhor Lynch, depois de uma experiência como essa de meditação, que filme o senhor me recomenda, dos seus, para assistir?
David Lynch: Depois de uma experiência como essa? Sinceramente, você poderá assistir a qualquer filme. Eu sei, mas qualquer um de meus filmes o deixará feliz.
[Risos]
David Lynch: Você terá tamanha felicidade que poderá ver qualquer coisa. Eu sugeriria O homem elefante.
Ricardo Calil: Senhor Lynch.
David Lynch: Sim.
Ricardo Calil: Algumas figuras do cinema americano, como Tom Cruise [(1962-) ator e produtor de cinema norte-americano] e o John Travolta [(1954-) ator, cantor e dançarino norte-americano], por exemplo, são vistas com bastante desconfiança por uma parte do público e da mídia, pela ligação deles com a cientologia [sistema de crenças fundado em 1952 pelo autor de ficção cientifica L. Ron Hubbard (1911-1986) e oficializado em 1954, bastante polêmico e muitas vezes criticado por fazer "lavagem cerebral"]. Eu sei que a meditação transcendental não é uma religião, não é um culto, como o senhor enfatizou, mas algumas pessoas podem vê-la assim. O senhor sente que, de alguma forma, algumas pessoas podem vê-lo como uma espécie de lunático, talvez por esse desejo de divulgar a meditação? Ou o senhor acha que seus filmes já eram suficientes para que o senhor fosse considerado um excêntrico?
David Lynch: Há de tudo em Hollywood. Algumas atrizes se colocam contra casacos de peles de animais. Outros se voltam ao combate à Aids. Alguns à cientologia. Alguns mexem com isso ou aquilo e saem por aí falando a respeito. Ou se envolvem com política. E o que sempre se diz é que essas coisas passam. Concentre-se no filme que está fazendo e vá em frente. Quanto à cientologia, eu não sei o que é. Eles dizem que é isso e aquilo, não dizem exatamente o quê. Eu lhe digo o que é a meditação transcendental. Eu lhe conto histórias e há seiscentos a setecentos estudos validando a prática. Validando todos os benefícios da transcendência. Não é uma religião. Pessoas de todas as religiões a praticam. E como a compreensão cresce, cresce a compreensão acerca da religião. Como cresce a compreensão, há uma maior compreensão da religião. Os desentendimentos se dissipam. Vê-se que é algo próprio do ser humano. Quanto aos meus filmes, eu me preocupo. As pessoas dizem: “Ele é doidão e agora vem com essa de meditação.”. Mas quando você fala a respeito, elas dizem: “Espere um pouco.”. Como foi o caso do livro. Muitas pessoas começaram a meditar depois de lerem esse livro, pois não se trata de algo estranho, mas de algo que alimenta o artista, o ser humano. E tudo que estou fazendo é falar a respeito. Apenas uma entre muitas pessoas que falam a respeito. Mas eu entendo a posição das pessoas... Há muitas pessoas estranhas em Hollywood.
Ubiratan Brasil: Senhor Lynch, normalmente a imprensa em geral, mundial, a imprensa mundial costuma destacar sempre o desconforto que os seus filmes provocam no público, taxando o seu cinema como algo bizarro. Gosta de relevar as suas obsessões por café, por acidente de carro. Incomoda um pouco? E conhecendo o senhor um pouco, percebe-se que esse não é o verdadeiro David Lynch, porque percebe-se que essa sua alma é mais artística. Isso lhe incomoda um pouco? Essa posição de homem elefante [fazendo um paralelo com o personagem do filme que é diferente das outras pessoas], digamos assim?
David Lynch: Não. Isso não me incomoda. O público tem direito à sua própria opinião. Há uma frase que diz: “O mundo é como você é.”. Se você vê o mundo através de óculos de lentes verde-escura, esse será o seu mundo. Se você vê o mundo através de óculos cor-de-rosa ou dourados, aquele é o seu mundo. Sempre digo que, quando o cinema se torna abstrato, as interpretações são muitas. Mas todas elas são válidas. As pessoas podem dizer, pensar e fazer o que quiserem.
Laís Duarte: A Gilda Gonçalves, de Niterói, Rio de Janeiro, pergunta: "O senhor, em sua filmografia, aborda com freqüência personagens cujas vidas se situam à margem do grupo social a que pertencem. O que o levou a penetrar nesse universo de rejeição e solidão?".
David Lynch: Idéias. Não é que eu diga: “vou fazer filmes sobre pessoas no limite de seus universos.”. Absolutamente. Vou caminhando pela rua e tenho uma idéia. Eu a vejo, sinto, ouço, anoto e me apaixono por essa idéia. E o dia fica maravilhoso. Sei o que vou fazer, pois adorei a idéia e adorei a maneira como acredito que o cinema poderia transmitir aquela idéia. E vou em frente.
José Geraldo Couto: Senhor Lynch, reforçando uma pergunta que a Lillian fez sobre os seus próximos projetos, então o senhor vai ser produtor executivo de dois outros filmes. Eu queria saber se existe algum projeto seu como diretor, se está em esboço, embrião, algum projeto, se nós podemos esperar um novo David Lynch para os próximos anos.
David Lynch: Não tenho um novo filme de David Lynch. Ainda não. Mas, no momento, estou adorando pintar, adorando música e fotografia. Estou trabalhando em um documentário acerca de uma viagem que fiz a 15 países, falando de meditação e paz. Não é um filme de David Lynch, mas é nisso que estou trabalhando.
Lilian Witte Fibe: Senhor David Lynch, eu que quero agradecer demais a sua presença aqui, mas não sem antes lhe perguntar - o senhor falou tanto que meditação é completamente independente de religião -: o senhor tem alguma religião? O senhor acredita em algum Deus?
David Lynch: Fui criado como presbiteriano. E acredito em Deus.
Lillian Witte Fibe: Ok. Muito obrigada pela sua presença...
David Lynch: Muitíssimo obrigado. Obrigado a todos vocês

Fonte: Memória Roda Viva

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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Impaled Nazarene


A Finlândia não é apenas um país referência em Metal Sinfônico: De lá surgiu também uma das bandas mais blasfemas da história do Metal, o Impaled Nazarene, cujo nome seria uma alusão a certa “mitologia” de que Jesus Cristo teria se transformado em vampiro e, segundo a cultura, para ser derrotado deveria ser empalado.

Em 2004, o então guitarrista Teemu Raimoranta, supostamente cometeu suicídio, pulando de uma ponte direto ao gelo embaixo dela. As autoridades tomaram a causa como outra qualquer, mas o líder Mika Luttinen alimentou a idéia do colega ter realmente se matado.


Em decorrência da reação à posição política assumida pela banda, o IMPALED NAZARENE foi banido de tocar em diversos países europeus e seu álbum “Nihil” de 2000, chegou a ser retirado das lojas na Alemanha.

“Eu estava pensando que essas coisas seriam esquecidas logo”, disse Luttinen, “mas parece que eu estava completamente errado. Não entendo como é possível que alguns Punks esquerdistas tenham tamanha influência e poder que podem cancelar turnês inteiras. Eles dizem que tal artista é de direita e todos dizem: ‘É, é verdade, vamos bani-los.’ Um dos fundamentos da União Européia é garantir liberdade de expressão e liberdade de religião. Nos últimos três ou quatro anos esses direitos básicos foram completamente destruídos na Alemanha e completamente destruídos na Polônia, o último por se tratar de um país com um governo católico extremista que nos atacou. Se a EU deve nos garantir esses direitos básicos, como é possível que governos individuais possam desrespeitá-los? Não faz sentido para mim, deveria ser uma ‘Europa unida’, então como esses países tomam decisões completamente diferentes? Ainda consigo entender a paranóia alemã a respeito da extrema-direita em função do seu passado, mas estamos falando sobre música aqui”.
 



Album Name: Manifest
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 2007
Country: Finland
Track Listing:

1. Intro: Greater Wrath
2. The Antichrist Files
3. Mushroom Truth
4. You Don't Rock Hard
5. Pathogen
6. Pandemia
7. The Calling
8. Funeral For Despicable Pigs
9. Planet Nazarene
10. Blueprint For Your Culture's Apocalypse
11. Goat Justice
12. Die Insane
13. Original Pig Rig
14. Suicide Song
15. When Violence Commands The Day
16. Dead Return

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Album Name: Pro Patria Finlandia
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 2006
Country: Finland
Track Listing:

1. Weapons To Tame A Land
2. Something Sinister
3. Goat Sodomy
4. Neighbourcide
5. One Dead Nation Under Dead God
6. For Those Who Have Fallen
7. Leucorrhea
8. Kut
9. This Castrated World
10. Psykosis
11. Contempt
12. I Wage War
13. Cancer
14. Hate - Despise - Arrogance

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Album Name: Death Comes In 26 Carefully Selected Pieces
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 2005
Country: Finland
Track Listing:

1. Intro
2. The Horny and the Horned
3. Armageddon Death Squad
4. Goat Perversion
5. 1999: Karmageddon Warriors
6. Motorpenis
7. Kohta ei naura enää Jeesuskaan
8. The Endless War
9. Sadhu Satana
10. Ghettoblaster
11. Coraxo
12. Soul Rape
13. Sadistic 666 / Under a Golden Shower
14. Zero Tolerance
15. The Maggot Crusher
16. Let's Fucking Die
17. Tribulation Hell
18. We're Satan's Generation
19. Cogito Ergo Sum
20. Goat Seeds of Doom
21. Condemned To Hell
22. Intro S.F.P.
23. Sadogoat
24. Vitutuksen multihuipennus
25. The Lost Art of Goat Sacrificing
26. Total War – Winter War

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Album Name: All That You Fear
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 2003
Country: Finland
Track Listing:

1. Kohta ei naura enää Jeesuskaan
2. Armageddon Death Squad
3. The Endless War
4. The Maggot Crusher
5. Curse of The Dead Medusa
6. Suffer In Silence
7. Halo of Flies
8. Recreate Thru Hate
9. Goat Seeds of Doom
10. Even More Pain
11. Tribulation Hell
12. Urgent Need To Kill
13. All That You Fear

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Album Name: Absence of War Does Not Mean Peace
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 2001
Country: Finland
Track Listing:

1. Stratagem
2. Absence of War
3. The Lost Art of Goat Sacrificing
4. Prequel to Bleeding (Angels III)
5. Hardboiled And Still Hellbound
6. Into The Eye of The Storm
7. Before The Fallout
8. Humble Fuck of Death
9. Via Dolorosa
10. Nyrkillä tapettava huora
11. Never Forgive
12. Satan Wants You Dead
13. The Madness Behind

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Album Name: Impaled Nazarene/Driller Killer
Band: Impaled Nazarene / Driller Killer
Genre: Black Metal/Punk
Year: 2000
Country: Finland/Sweden
Track Listing:

Impaled Nazarene:
1. Impotent Mankind
2. I Couldn't Care Less (Driller Killer cover)

Driller Killer:
3. How Come?
4. Ghettoblaster (Impaled Nazarene cover)

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Album Name: Nihil
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 2000
Country: Finland
Track Listing:

1. Cogito Ergo Sum
2. Human-Proof
3. Wrath of the Goat
4. Angel Rectums Still Bleed - The Sequel
5. Post Eclipse Era
6. Nothing Is Sacred
7. Zero Tolerance
8. Assault the Weak
9. How the Laughter Died
10. Nihil

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http://www.metal-archives.com/images/1/2/9/1/1291.jpg
Album Name: Rapture
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 1998
Country: Finland
Track Listing:

1. Penis et Circes
2. 6th Degree Mindfuck
3. Iron Fist With an Iron Will
4. Angel Rectums Do Bleed
5. We're Satan's Generation
6. Goatvomit and Gasmasks
7. Fallout Theory in Practice
8. Healers of the Red Plague
9. The Pillory
10. The Return of Nuclear Gods
11. Vitutation
12. JCS
13. Inbred
14. Phallus Maleficarum

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Album Name: Latex Cult
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 1996
Country: Finland
Track Listing:

1. 66.6 S of Foreplay
2. 1999: Karmakeddon Warriors
3. Violence I Crave
4. Bashing in Heads
5. Motorpenis
6. Zum Kotzen
7. Alien Militant
8. Goat War
9. Punishment Is Absolute
10. When All Golden Turned to Shit
11. Masterbator
12. The Burning of Provinciestraat
13. I Eat Pussy for Breakfast
14. Delirium Tremens

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Album Name: Suomi Finland Perkele
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 1994
Country: Finland
Track Listing:

1. Intro
2. Vitutuksen Multihuipennus
3. Blood Is Thicker Than Water
4. Steelvagina
5. Total War - Winter War
6. Quasb / The Burning
7. Kuolema Kaikille (Paitsi Meille)
8. Let's Fucking Die
9. Genocide
10. Ghettoblaster
11. The Oath of the Goat

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Album Name: Ugra-Karma
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 1993
Country: Finland
Track Listing:

1. Goatzied
2. The Horny and the Horned
3. Sadhu Satana
4. Chaosgoat Law
5. Hate
6. Gott Ist Tot (Antichrist War Mix)
7. Coraxo
8. Soul Rape
9. Kali-Yuga
10. Cyberchrist
11. False Jéhova
12. Sadistic 666 / Under a Golden Shower

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Album Name: Tol Compt Norz Norz Norz...
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 1992
Country: Finland
Track Listing:

1. Apolokia
2. I Al Purg Vonpo / My Blessing (The Beginning of the End)
3. Apolokia II: Aikolopa 666
4. In the Name of Satan
5. Impure Orgies
6. Goat Perversion
7. The Forest (The Darkness)
8. Mortification / Blood Red Razor Blade
9. The God (Symmetry of Penis)
10. Condemned to Hell
11. The Dog (Art of Vagina)
12. The Crucified
13. Apolokia III: Agony
14. Body-Mind-Soul
15. Hoath: Darbs Lucifero
16. Apolokia Finale XXVII A.S.
17. Damnation (Raping the Angels)

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Album Name: Goat Perversion
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 1992
Country: Finland
Track Listing:

1. Noisrevrep Taog
2. In The Name of Satan
3. Damnation

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Album Name: Taog Eht Fo Htao Eht
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 1991
Country: Finland
Track Listing:

1. Nuctemeron of Necromanteion
2. Condemned To Hell
3. Impurity of Dawn
4. The Crucified
5. Infernus
6. Morbid Fate
7. Ave Satanas
8. In The Name of Satan
9. Fall to Fornication
10. Damnation (Raping the Angels)

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Album Name: Shemhamforash
Band: Impaled Nazarene
Genre: Black Metal
Year: 1991
Country: Finland
Track Listing:

1. Intro
2. Condemned To Hell
3. The Crucified
4. Disgust Suite O:P I
5. Morbid Fate
6. Disgust Suite O:P II
7. Worms In Rectum
8. Conned Thru Life (Extreme Noise Terror cover)
9. Crucifixation (Deicide cover)

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sexta-feira, 18 de maio de 2012

Alan Moore, uma entrevista



Quase todo mundo que já leu uma HQ na vida concorda que Alan Moore é o melhor escritor do gênero na história do formato. Nos anos 80, ele foi o cara que praticamente sozinho fez adultos covardes admitirem gostar de gibis.

Um filho orgulhoso de Northampton, Inglaterra, que ainda vive perto da área onde cresceu, Moore amadureceu no começo da década de 80 na 2000 AD, a maior fábrica britânica de HQs de ficção científica e fantasia. Sua tira do Judge Dredd reimaginava o personagem com complexidades até então inexploradas. Sua criação, Halo Jones, foi o primeiro título nessa mídia que não retratava uma personagem feminina como uma supermulher peituda ou uma vítima.

Lá pela metade daquela década, Moore tinha revolucionado as HQs norte-americanas, primeiro fazendo o estagnado título da DC Monstro do Pântano pegar no tranco, transformando-o em um livro de busca existencial com preocupações ecológicas, e depois criando Watchmen, que foi a primeira HQ a realmente virar as tropas de super-heróis de ponta cabeça, e que acabou virando um filme abismalmente horrível no ano passado (o qual Moore, felizmente, desaprova).

Várias batalhas legais sobre propriedade e direitos sobre suas criações depois, Moore começou sua própria linha, que meio de brincadeira batizou de America’s Best Comics. De 1991 a 1996, ele produziu Do Inferno, sua própria versão linda e austera da história de Jack o Estripador. Disso também fizeram um filme de merda que Moore desaprova. A série A Liga Extraordinária começou em 1999 e virou um vasto mamute, que mistura histórias ficcionais e imaginadas com versões da nossa própria realidade. Outra vez: filme de merda, Moore desaprova. Em V de Vingança, Moore nos deu sua visão sobre o totalitarismo. E, novamente, filme de merda, Moore desaprovando.

Nos anos mais recentes, Moore produziu um romance complexo, A Voz do Fogo (1996), e um poema longo que trata de garotas que gostam de garotas e garotos que gostam de garotos, chamado The Mirror of Love (2004). Ele também publicou 25.000 Years of Erotic Freedom (2009), que examinava bem o que o título sugere, e Lost Girls (2006), que ele criou com Melinda Gebbie e que envolve Wendy do Peter Pan, Alice de Alice no País das Maravilhas, e Dorothy de O Mágico de Oz tendo muitas e muitas aventuras explícitas. Uma comédia total.

Atualmente Moore está trabalhando em Dodgem Logic, uma revista underground, em seu segundo romance, Jerusalem, e em um guia de magia. Na verdade, Moore é um mago praticante (e não é daqueles de coelho e cartola). Recentemente ligamos pra ele em sua casa em Northampton, e depois que ele nos assegurou que tinha uma xícara de chá em mãos e “quantas xícaras fossem necessárias pra fazer isso”, ficou claro que o Sr. Moore estava a fim de conversar conosco por bastante tempo sobre seu trabalho e suas ideias. E sim, foi um lance mágico.

Vice: A Dodgem Logic é um dos seus novos projetos. Por que não começamos falando sobre ela?
Alan Moore:
Dodgem Logic é uma colisão agressiva e aleatória de todo o tipo de coisas, de textos absurdistas de ficção feitos por Steve Aylett a novos pedaços de trabalho feitos por Savage Pencil e Kevin O’Neill. Esteticamente e em termos de formato ela veio de uma fascinação com a imprensa underground, que é uma cultura que data de antes do jornalismo impresso, mas que se tornou uma realidade popular nas décadas de 60 e 70 quando era uma parte vital da contracultura.

Quais eram as grandes entidades da imprensa underground no Reino Unido naquela época?
Os principais jornais eram o International Times e o Oz, que começou como uma revista de sátiras na Austrália e mudou pra cá, onde se tornou muito mais controverso e psicodélico. Eram tempos inebriantes, e foi a imprensa underground que agia como a cola que mantinha todo aquele elemento da sociedade junto e em contato um com o outro. Sem aqueles jornais, você teria apenas algumas pessoas que usavam roupas parecidas, tinham um gosto musical similar e usavam drogas parecidas. Você não teria um discurso político ou cultural coerente.

E a Dodgem Logic é pra ser uma continuação daquela tradição?
Nós decidimos fazer da Dodgem Logic uma revista de 48 páginas de cores vivas que tenta reinventar a noção de publicação independente para o século XXI. Estamos constantemente tentando deixá-la sem muito polimento. Não queríamos que ela fosse impressa em papel brilhante, porque isso poderia ser algo intimidante, poderia criar uma barreira entre a revista e seus leitores. Nós escolhemos esse visual mais bruto deliberadamente.

Tem várias partes dela que parecem colagens, o que faz com que ela pareça um híbrido entre um jornal underground e um fanzine.
Isso para mim é um elogio. Fanzines costumavam ser uma parte vital da cultura na qual eu cresci, dos fanzines de poesia nos anos 60 até os fanzines de HQ, ficção científica e fantasia dos anos 70 que produziram grande parte do talento que hoje domina os gêneros de HQ e ficção científica. Eles eram pequenas publicações incrivelmente produtivas e continham muita energia. Talvez isso tenha vindo do quão fácil era produzi-los. Não era tão fácil como seria fazê-los hoje em dia, mas agora toda a tecnologia está aqui para fazermos algo muito mais ambicioso do que jamais sonhamos que fosse possível, o ímpeto desapareceu. Talvez o grau de paixão que era colocado em algo como o Sniffin’ Glue ou quaisquer outros dos zines associados com o movimento punk exista de fato hoje em dia, só que online. Eu não sei. Posso parecer antiquado, mas eu ainda acredito que sempre haverá uma diferença entre algo que você olha na tela e algo que você pode segurar com as mãos.

Coisas físicas são melhores. Elas são mais reais.
Tem mais um sentido de um artefato que é parte de uma comunidade e parte de uma cultura.

Uma insatisfação generalizada com o governo e o declínio inexorável da civilização, assim como uma preocupação com a erosão das comunidades locais e da cultura, são temas recorrentes no seu trabalho de O Monstro do Pântano a Watchmen e além. Dodgem Logic parece mais uma maneira direta de lidar com essas questões.
Para falar a verdade, estou bem por fora das HQs. Eu estou continuando A Liga Extraordinária e estou desenhando algumas tiras para a Dodgem Logic, mas não me interesso pela indústria de HQs. Não me considero mais parte dela.

As coisas que você está abordando na Dodgem Logic poderiam ser abordadas em HQs?
Sim, poderiam ser abordadas no formato HQ. Porém, se eu fizesse isso, iria agradar meu público leitor de HQs, e não um mundo mais abrangente, que é onde essas questões precisam estar. Eu devo ressaltar que Dodgem Logic não é uma revista especificamente a respeito de Northampton. É apenas de onde eu e alguns contribuintes somos. Porém, nós olhamos a partir do ponto de vista de que Northampton é o centro exato do país, geográfica, econômica e politicamente. É um modelo bom o suficiente para representar uma cidade comum. As ruas principais estão sendo interditadas, as pessoas estão sofrendo abusos por parte da administração, e há lixo em todo lugar.

O que te levou a falar sobre essas questões tão diretamente agora? Não que faltassem problemas sociais nos anos 80.
Há uns dois anos um grupo de ex-criminosos juvenis entrou em contato comigo. Eles ti-nham trabalhado com música na área de Burrows em Northampton. Foi lá que eu nasci, cresci e onde a maior parte do meu próximo romance se passa. Eles tinham decidido fazer um filme sobre essa área negligenciada. Já que eles sabiam que eu tinha vindo de lá, me perguntaram se eu gostaria de ser entrevistado pro filme. Eles estavam trabalhando em parceria com o Central Museum em Northampton. Eu fui até lá, encontrei com eles, e nos demos muito bem. Eu queria continuar em contato com eles além da duração daquele projeto inicial, então fui todas as semanas para os escritórios de uma organização de ajuda à comunidade local chamada CASPA que estava fazendo um trabalho brilhante na área. Encontrei com os meninos e a tutora deles, que era uma jovem maravilhosa chamada Lucy, e eu inevitavelmente contei a eles sobre a cena local, a cultura underground e os clubes de arte que existiam enquanto eu tava crescendo e que fizeram tanto para me tornar a pessoa que sou hoje. Eu também contei a eles sobre como nós produzíamos revistas e fanzines e organizávamos leituras de poesia e coisas desse tipo. Tenho certeza que foi muito chato pra eles escutarem todas aquelas histórias, mas parece que as ideias colaram. Eles decidiram fazer uma revista sozinhos, para a qual eu contribuí. Tanto eu quanto os meninos queríamos falar sobre alguns dos verdadeiros problemas que afligiam a área, e como era uma vergonha que nós provavelmente não poderíamos tratar disso na revista porque ela era financiada pela Prefeitura. Nós discutimos a possibilidade de fazermos uma revista independente e decidimos tentar. As edições pareceram ser tão importantes para as pessoas daquela área que não podíamos abstê-las da comunidade local. Eu escrevi um artigo que chamava Os Incineradores. Era sobre um velho incinerador que estava na área de Burrows. Era pra lá, antigamente, que o lixo da cidade inteira ia.

Certo, o que é um detalhe esclarecedor.
Isso passou uma mensagem muita clara sobre o que as pessoas da administração pública pensavam das pessoas que moravam naquela área, e ainda que o incinerador tenha sido demolido na década de 30, a mensagem permanece aplicável à área hoje em dia. É para onde a administração pública manda as coisas com as quais não quer lidar: grupos de imigrantes, ex-presidiários e pessoas que estavam em asilos. Todas as pessoas problemáticas são enfiadas nessa vizinhança, muitas vezes em acomodações que foram condenadas pelos bombeiros. Coisas horríveis acontecem aqui todos os dias.

E a administração acabou bloqueando esse artigo?
Sim. Nos disseram que não podíamos publicar o artigo porque era crítico à administração, então Lucy e eu demos um jeito para que ela pudesse trabalhar só três dias da semana na CASPA e nos outros dois trabalhasse em uma revista independente comigo. A administração logo disse a ela que se ela fosse trabalhar dois dias da semana em uma revista independente ela não teria seu emprego na administração nos outros três dias, foi aí que decidi que isso já era demais e convidei a Lucy para trabalhar na Dodgem Logic por tempo integral. As questões que estamos tratando são importantes, e a revista oferece um lugar onde essas coisas podem ser discutidas. Nós não somos presos a nada e podemos dizer o que quisermos. Porém nós não queremos deixar as pessoas deprimidas, então temos tentado colocar o máximo de coisas lá que sejam verdadeiramente divertidas, assim como as coisas sociais e políticas. Essas são estratégias para ajudar as pessoas a passarem por tempos difíceis—dar a elas informação de que elas precisam, mas também dar algo que as anime.

É uma boa causa.
Eu não fiz muita coisa além de passar pela área por muitos anos. Conhecer pessoas boas que moravam lá nessa situação podre foi o que me fez resolver que eu queria fazer alguma coisa com foco naquela área. Burrows está no topo dos 2% de escassez no Reino Unido. Existem áreas iguais por todo o país, mas elas são varridas pra baixo do tapete. Eu também sinto uma ligação emocional com essa área, que eu sempre tive, e vi uma oportunidade de produzir algo lindo e útil sobre aquele ambiente e ao mesmo tempo criar um modelo para outras áreas semelhantes.

No passado você defendeu anarquia tanto no seu trabalho quanto na sua vida pessoal. Essa seria sua resposta aos problemas sociais discutidos na Dodgem Logic?
Bem, na verdade, para a segunda edição eu escreverei um artigo introduzindo a anarquia e explicando como ela poderia ser aplicada de maneira prática na nossa situação atual. Então sim. Uma das coisas para a qual eu estarei voltando minha atenção é o princípio da loteria ateniense. Isso basicamente dita que uma questão que precisa ser resolvida em nível nacional ou administrativo, você aponta um júri por loteria. Eles podem vir de qualquer lugar de dentro da cultura e são escolhidos de maneira completamente aleatória. Os prós e os contras do caso são então apresentados para o júri, eles ouvem, debatem e votam. Após a decisão, eles não fazem mais parte do júri. Eles voltam à sociedade, e para a próxima questão outro júri é escolhido. O sistema parece, para mim, se aproximar de algo como a democracia, que é algo que nós não temos nesse momento. A palavra “democracia” vem de “demos”, o povo, e “cratos”, mandar—“o povo manda”. Ela não diz nada a respeito de representantes do povo eleitos que governam, que é o sistema que temos no momento. Mudando para algo próximo disso, iríamos criar um sistema livre dos muitos abusos do nosso modelo atual de governo. É bem difícil comprar o apoio do povo se você não sabe quem são as pessoas que você deveria estar amaciando. Também seria difícil para o corpo dominante temporário agir em interesse próprio, já que faria mais sentido para eles agirem no interesse da sociedade para a qual eles estariam retornando.

Isso é interessante. Tem elementos de anarquia e democracia.
Sim, isso enquadraria o círculo entre as ideias de anarquia e governo. Minha definição de anarquia é a grega: sem líderes. É difícil pensar em uma sociedade ordenada que se conforme a esse ideal, mas com a loteria ateniense você não teria líderes, você teria indivíduos tomando decisões balanceadas. Seria necessária uma quantidade enorme de mudança constitucional, mas eu gosto de colocar a ideia no mundo para que se torne uma possibilidade e algo a ser discutido. Nossa forma de governo atual claramente não está funcionando, e não dá para continuar tentando remendar um modelo que é inerentemente fracassado. Talvez seja a hora de termos um novo modelo, em vez de colocar remendos no radiador do velho modelo de Ford Bigode que chegou ao fim de sua vida útil.

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quarta-feira, 25 de abril de 2012

Antes de começar meu relato, eu gostaria de deixar bem claro o objetivo dele. Apenas gostaria de passar as impressões e opiniões de alguém que esteve lá e apurou muito antes de falar algo, criar boatos ou opinar. São apenas descrições dos fatos, do olhar de alguém que esteve lá.
Nessa história ninguém é dono da verdade e dificilmente saberemos o que realmente aconteceu enquanto satisfações se confundirem com textos que troquem farpas e aliviem irresponsabilidades.
Portanto, meu intuito não é encontrar culpados (chega de chover no molhado, né?), nem jogar palavras ao vento sobre toda a desgraça que já aconteceu. Acho importante que quando se leia algo, o leitor se identifique com aquilo que está à frente de seus olhos de alguma maneira. Então gostaria de relatar todas as impressões de dentro do festival para que quem esteve lá possa compactuar das opiniões e quem não esteve, para tentar entender o que estava acontecendo ali. Meu objetivo é que debatamos sobre as falhas pensando em como elas devem ser sanadas em um evento no futuro, tirar a culpa de quem não tem nada a ver com o ocorrido (ou seja, tentar fazer os bairristas enxergarem que o Nordeste não tem culpa alguma da falência do evento) e enxergarmos o quanto a cena não pode parar nem se deixar abalar por conta desse grave deslize. Afinal, como outros ótimos textos aqui no Whiplash vêm ressaltando, somos todos GUERREIROS!
Bom, assim como grande parte dos headbangers e de pessoas que integram a cena de alguma maneira, a mim, muito preocupava a grandiosidade do evento pelo que nos era passado em releases e a cada notícia envolvendo o M.O.A., desde seu anúncio oficial, em meados de novembro do ano passado. Para eventos que ocorrem todos os anos e já possuem certa tradição, um período de menos de meio ano para realizar todas as adequações necessárias para a realização de um festival de médio/grande porte, já me parece curto. Agora, imaginem para uma mega produção que teria sua primeira edição realizada? Esse tempo se torna sufocante, eu penso. Tenho humildade em assumir que não tenho o menor knowhow técnico para sair julgando, mas só de pensar em 47 contratos com bandas a serem acertados, já me dava um certo ar de insegurança. Porém, confiando na credibilidade da produtora Negri Concerts que foi a que mais trouxe shows de metal par ao país no ano passado e na liquidez positiva da Lamparina para investimentos, acabei ficando mais tranquila, com um otimismo acomodado, que se manteve até dias antes da minha partida de São Paulo para São Luís. Foi aí que o frio na barriga aumentou e foi se concretizando, aos poucos, a sucessão de infortúnios acerca do M.O.A.
No dia da partida, obtive informações por estar muito próxima a colegas de bandas nacionais, de que muitos dos grupos sequer tinham suas passagens de ida para o festival, apenas vindo a confirmar o que Aquiles Priester tinha divulgado na mídia. Junto a isso, recebi uma ligação de uma colega que estava por lá desde quarta feira, e na quinta (dia de minha partida), estava sem ter para onde ir pois a área de camping, que deveria ter sido aberta ao público neste dia em determinado horário, estava fechada. Pior: ninguém da produção por perto, UM segurança na porta sem saber de nada. Mais tarde, ela me informou que conseguira entrar e que o que mais a espantou era o fato de a área do palco ainda estar sendo capinada e os p.a's de som ainda estarem no chão.
Convenhamos, nem o maior dos otimistas ficaria despreocupado com tais informações. Alguém me explique como coisas básicas e fundamentais como passagens de bandas e equipamento de som ainda estavam incertos um dia antes do festival? Não tive como não pensar na pior das alternativas. Mas, novamente, o otimismo acomodado falou mais alto e deixei os maus pensamentos de lado, acreditando em contratempos normais e numa explicação ótima para isso - que tardou a vir!
No avião, o otimismo aumentou um pouco: embarquei com vários outros headbangers que também tiveram a sorte de vir no mesmo avião das bandas Exodus, Anvil, Exciter, Orphaned Land e Legion of the Damned, Clima bacana! Pra mim, aquilo era a confirmação de que tudo rolaria tranquilamente, afinal, bom sinal que as bandas estão ao menos indo pra lá, ao contrário de algumas bandas nacionais. Sinal de que o problema poderia estar sendo resolvido enquanto eu estava longe da internet e de contatos com os amigos. ERRADO, óbvio.
Isso tudo só me leva a concluir algo óbvio: o que começa errado, termina errado.
Em minha opinião, o que rolou foi que a produção acabou levando esse mesmo otimismo acomodado (acomodado por não levar em consideração os FATOS, mas sim as ambições e o desejo de fazer rolar, somente), a sério demais, a ponto de dar um passo maior que a perna. O que sem dúvida seria o mais correto, era começar com um cast mais modesto, apenas um dia de shows: assim, teriam mais tempo para se preocupar com todo o resto, que vai desde assuntos extra contratuais com as bandas a imprevistos.
Que fossem cinco bandas internacionais e cinco nacionais, ou dois dias com esses mesmo número de bandas cada. Teriam tido tempo, foco e dinheiro para cumprir com exigências de backline e cachê, passagens de TODAS as bandas, e para prevenir toda a estrutura do local contra vistorias da vigilância sanitária e segurança pública. Concordam que é meio óbvio? O público de metal é sedento por novidades e empreendimentos que deem certo e engrandeçam a cena. Ninguém iria deixar de ir ao show pelo cast ser menor. Continuaria sendo um dos maiores festivais a serem realizados no país, pois sem dúvidas os mesmos fãs que estariam ali pelo Anthrax, por exemplo, prestigiariam sem dúvida um show do Korzus ou Stress, principalmente quando se trata de uma região do país onde há uma escassez de shows maior que em outras regiões. Para eles, principalmente, o festival não se tratava apenas de uma atração de entretenimento, mas um motivo de orgulho.
Eu acho louvável a atitude de ter culhões para assumir um compromisso de tal magnitude e importância que é um festival desse porte. Mas mais louvável ainda é conseguir fazer isso com os dois pés firmes no chão, e nisso, eles falharam.
Me expliquem PRA QUÊ prometer rodízio de churrasco com o Mad Butcher dando show? E lagoa? Quem precisa de uma lagoa quando se têm bandas ícones tocando no palco? Caixas eletrônicos? Mercado? Tenho certeza que se não tivessem prometido essas coisas, nenhum headbanger deixaria de ir e sem dúvida o festival não teria sido um fiasco com tal dimensão de repercussão. Se nada tivesse sido prometido, a galera chegaria lá, veria yakissoba a 10 reais e pratão de churrasco com arroz, feijão e macarrão por esse mesmo preço e ia achar ótimo. Afinal, quem vai a shows aqui em São Paulo, por exemplo, está acostumado a ver batata chips de 70 gramas sendo vendida a 7 reais. Festival não precisa ter requinte. Já fui ao Wacken na Alemanha e ele próprio não possui um rodízio de nada lá! São barracas vendendo hamburgueres, sanduíches tipo churrasco grego, macarrão e cerveja. SÓ! Quem quiser requinte que saia do pequeníssimo condado de Wacken e demore horas pra viajar até a cidade de Hamburgo pra gastar uma grana absurda num prato de comida. E nunca vi ninguém reclamar disso por lá. Ok, o Rock in Rio por aqui teve até estande do Spoleto? Sim, mas é um festival que já tem várias edições e se tornou uma verdadeira marca com mega investidores milionários por trás com o passar dos anos. Pode ser que o M.O.A. conseguisse isso no futuro, mas não em sua primeira edição, concordam?
Sem contar algo que foi pregado e não cumprido que me chateou MUITO. A igualdade entre bandas nacionais e gringas me deixou muito feliz e me fez dar muitos créditos à Lamparina no começo de tudo. Senti que seriam respeitadas como deveriam. Mas, logo de cara, começaram a limar os logos de bandas nacionais, como se fossem menos importantes. Elas NÃO SÃO menos importantes. Aliás, se não fossem elas, o segundo dia de festival nem teria acontecido, e não teríamos tido o melhor e mais emocionante show do fest, o do Korzus. O Korzus merecia ter seu logo limado como se não tivesse uma longa carreira de lutas? Para mim, passou a ficar claro que desde o começo, a preocupação era: "vamos focar nas gringas. SE DER, a gente começa a pensar nas nacionais". E não deu! Afinal, muitas nem viajaram por não terem passagem e cachê então, nem entremos no mérito, né? E para mim, o que mais me IRRITA é ler e ver depoimentos como "fiz o que pude", "ocorreram problemas de liquidez", "tivemos dificuldades na reta final". Bem, pra mim, nem precisa ver logística de palco se não tem nem banda confirmada, e confirmação ao meu ver, vem com contrato, cachê e passagens (MÍNIMO, convenhamos!). Não faz sentido também para vocês? Se as bandas que representam metade do cast do festival não têm passagem, isso pra mim não configura um problema de "reta final", mas sim de "reta inicial"!!!
Enfim, exponho tudo isso apenas para exemplificar o que quero dizer com esse lance de prometer muito. Se não tivessem prometido tanta coisa, o efeito não teria sido negativo. Esses dias, me falaram que PALAVRA é algo essencial para a cena rolar. Então eu concluo que muitos bangers ficaram chateados (para não dizer putos), com essa quebra na palavra. Eles confiaram em algo e se sentiram como bobos quando não receberam aquilo que fez seus olhos brilharem ao comprar os ingressos e na hora de parcelar em vinte vezes suas passagens. Então, para um próximo festival, vamos torcer para que fiquem naquele termo do "menos é mais". Se for prometido algo básico e for oferecido algo melhor, já se começa com o pé direito. Não trato aqui de se contentar com pouco, mas se contentar com a realidade. Sonhar é uma delícia, mas não quando se mexe no bolso de 10 mil headbangers. Um passo de cada vez é a minha dica.
Enfim, voltando à descrição do fest… Enquanto estávamos pela cidade durante toda a quinta feita, MUITOS, eu ressalto, MUITOS boatos começaram a rolar, de todas as espécies, fontes e gravidades. Aliás, foi neste dia que conheci a fundo o verdadeiro significado da palavra boato. Muita gente que gosta de falar bastante na internet para se aparecer, para parecer que é sempre o primeiro a saber de tudo e que gosta de gerar polêmica, acabou soltando coisa que começou a desesperar muita gente, e, que na verdade, não passavam de pura balela sem apuração. O resultado foi um pânico parcial, pois muita gente se São Paulo começou a ligar desesperada e preocupada com o que lia na internet, enquanto eu mesma, que estava ali, muito bem acompanhada de gente bem informada, não estava sabendo. Então, outra dica: confiemos em gente com credibilidade numa próxima. Boato é coisa grave. Mas, novamente, boa parte dos boatos só se fortaleceu por conta de outra falha na produção, que eu compreendo que para eles, que estavam resolvendo altos pepinos, seria a última coisa com o que se preocupariam, mas, para nós, da imprensa ou fãs, seria importantíssimo.
Nenhum tipo de equipe de assessoria de imprensa, de ambas as partes envolvidas no evento, se prontificou a lançar notas OFICIAIS quanto ao que estava acontecendo. Ficávamos numa verdadeira sinuca de bico de dúvidas. Boatos estavam sendo alimentados, mas não havia NENHUM pronunciamento oficial para acalmar os ânimos. Isso não se faz! Mesmo que a notícia a se dar seja pavorosa, ela TEM que ser dada. Melhor que se instaurar um pânico e bochichos piores que a realidade. Não via a hora de ouvir algo oficial, para o próprio bem do evento, pelo qual torci até o último fôlego.
Para somar a isso, eu, e algumas outras pessoas de São Paulo, tivemos sérios problemas com rede de celular. Não sei o que diabos aconteceu, mas estava muito difícil rolar uma comunicação decente via celular. Talvez isso seja um caso isolado porque meu celular é um terror, mas, por outras vezes, do nada, em meio a alguma ligação, aparecia um sinal de "rede ocupada" em todos os celulares ao mesmo tempo. Esse, eu diria, seria um dos únicos problemas estruturais mais graves da cidade de São Luís. A cidade tem sim seus altos e baixos e bastante falhas, mas não cabem ao mérito quando quanto ao festival. Afinal, não existe no Brasil uma cidade perfeita, sempre haverão problemas de âmbito governamental e social, infelizmente. Mas, no que diz respeito à realização do festival, desde o momento em que cheguei na cidade, só passei a confirmar mais ainda que nada do que muitos bairristas falaram no começo sobre "a cidade não ter porte para realizar o evento", cairiam por água abaixo. Havia hotéis para quem procurou com antecedência, lugares para comer, visitar, bom trânsito, táxis, policiamento na medida do possível, etc. A maior prova de que isso é verdade e que essa coisa de Nordeste não ter porte pra shows gigantes, são os grandes festivais que já acontecem a um bom tempo como o Abril Pro Rock e o Palco do Rock. Isso sem contar algo importante: no primeiro táxi que peguei por lá, vim conversando com o motorista que disse que sabia que o festival ia acontecer tranquilo, porque outros shows bem grandes, como aqueles de forró e outros estilos que ENCHEM ESTÁDIOS, acontecem com grande freqûencia por lá e não dão errado. Faz sentido, de certa forma. Então, só me leva a crer que se houve alguma falha, com certeza não foi da cidade. E senti isso no depoimento de cada nordestino para mim lá no camping do M.O.A. Muitos estavam preocupados sobre o que esses que sempre falaram que não rolariam no nordeste iriam falar agora, e, pela Tv Maloik, peguei depoimentos de pessoas que enfatizaram bastante isso, dizendo que o Nordeste podia ter muitos problemas, mas que aquela bagunça toda envolvia muita gente de outros lugares e não tinha nada a ver com a região! E sobre isso não há dúvida mesmo: a galera ali é sedenta por shows de qualidade e a cena ali é fortíssima e muito unida. Então por favor, parem com tantos comentários preconceituosos pela internet, isso é desanimador e só demonstra ignorância de gente que não faz idéia do que a cena no nordeste é. Eles têm muitos problemas por lá sim, que PRECISAM ser sanados a tempo de coisas de âmbito maior, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, por exemplo. mas, para que ocorra um festival, as coisas parecem estar dentro dos parâmetros sim.
Primeiro dia de festival já começa com muita incerteza. Eu e a equipe do Whiplash preparadas para ir a campo, mas não tínhamos nem certeza se o festival iria acontecer. Isso porque boatos, juntamente a relatos de amigos nos campings, alimentavam notícias como a presença de vigilância sanitária e bombeiros no local querendo vetar a realização do evento (por problemas básicos, fortemente relacionados ao camping, como falta de postos de alimentação, quedas de luz, condições precárias de higiene e segurança, etc).
Sem dúvidas, nos primeiros momentos, o que mais estava causando problemas era o camping. Muita coisa que estava sendo apontada como errada e que poderiaa chegar a levar ao cancelamento do evento, vinha de lá.
Daí, óbvio a indignação. Seja lá quem foi o responsável por esse quesito (chega de apontar que foi esse ou aquele), porque não pensou nesses problemas estruturais antes? Não havia uma equipe que pudesse agir para resolver com antecedência tudo que pudesse causar problemas em relação àquilo?
Então, no ápice do pensamento, eis que me deparo com uma amiga me mostrando um trecho supostamente escrito pelo Júnior, da Lamparina, no dia 06 de março no grupo do M.O.A. no Facebook, dizendo o seguinte:
"Acho que não devia, mas vou ser sincero com relação a política de camping! Na boa, estamos pagando tanta coisa...Aí uma meia dúzia de pessoas reclamam que não podem entrar com seu leite ninho, nescau e biscoito piraquê, tenha santa paciência, banger toma cerveja e come churrasco, eu pelo menos, estou sedento para rasgar uma picanha na churrascaria mad butcher!!!!!"
Bem, depois dessa, não tenho nem o que comentar. Desejaria que isso fosse um mero boato. Mas, lembram-se do que eu disse sobre sonhar sem o pé no chão? Poisé, se preocupar com picanha enquanto pode sofrer uma intimação da vigilância sanitária, não é lá muito sábio. Se tudo no camping tivesse rolado tranquilamente, eu até acharia engraçada essa afirmação, mas dadas as condições, fica difícil até pensar que isso é sério, não? E a Lamparina não deve levar toda a culpa, todos os envolvidos que concordaram e aceitaram essa condição de deixar fatos fundamentais por último, devem ser creditadas também.
Enfim… Antes de chegar na parte boa (SIM, houve uma parte MUITO boa!), a outra má notícia que pegou a todos de surpresa. A banda Anthrax, para espanto de todos, acabou cancelando repentinamente sua apresentação, mesmo já estando na cidade, pronta para o show.
A partir daí, começaram a rolar os MALDITOS boatos novamente, de que o Anthrax, e váááárias outras bandas teriam cancelado suas apresentações por conta de cachê, segundo o que estava rolando na internet. Muita informação mal apurada, e a gente quase enfartando de pânico lá em São Luís. Daí entramos em mais um tópico polêmico, e eu vou falar AS MINHAS impressões, interpretem como quiserem. Aliás, coloco isso à mesa para debatermos. Não sou dona da verdade, mas conversei com bastante, MUITA gente antes de redigir isso aqui para tirar minhas conclusões.
Até onde eu sei e apurei, o Anthrax cancelou a apresentação por quebras no contrato em relação a backlines. Eles haviam pedido alguns equipamentos que não estavam por lá, como por exemplo, a bateria Tama da qual Charlie é endorsee e, logicamente, havia exigido e não estava lá. Devemos contestar então a atitude do Anthrax? Vi muitas coisas por aí que me dividiram a opinião. É claro que seria ótimo se eles tivessem tocado em respeito a nós, que estávamos lá, e muitos criticaram essa falta de consideração, ficando frustrados, como eu. Mas, entendo também o lado da banda. Charlie deveria fazer o quê? Arriscar seu contrato com a Tama, usando outra marca, sendo que tudo já estava esclarecido desde que a banda foi fechada no cast (uma vez que o backline é algo básico que as bandas sempre pedem para poderem realizar uma boa apresentação de acordo com suas necessidades)? Em minha opinião, existem exigências e exigências. Aquelas coisas do tipo "vinte opções diferentes de almoço" ou "100 toalhas brancas por integrante", acho sem sentido algum, mas quando envolve equipamentos, o lance é outro.
De qualquer maneira, mais uma lição foi tirada dessa triste situação. Aqui, estamos infelizmente acostumados, e quem tem banda pode confirmar, a parte das vezes, na última hora, produtores dizerem que está faltando algo no backline, e, por entender a situaçao difícil e guerreira desses realizadores de show e também para não decepcionar o público, os grupos acabam aceitando. Mas, com os gringos, aprendemos que nem sempre será assim. Talvez esse fato tenha vindo para abrirmos os olhos e tentarmos melhorar essas falhas. A cena só terá a ganhar com mais shows de qualidade.
Enfim, finalmente nos deslocando ao local do evento, quando chegamos por lá, tive a primeira e mais grata surpresa de todas. O festival estava ali, rolando, e o que me deixou mais feliz, LOTADO de gente e com uma puta estrutura de palco, som e iluminação. Aquela vibe de festival estava perfeita até então, fiquei com o coração cheio de esperança. Através das fotos, vocês devem ter percebido do que estou falando, certo? Se os detalhes que citei ali em cima sobre infra estrutura tivessem sido sanados, eu diria que seria uma área digna de um festival legal e de grande porte. Área bem ampla, com muito espaço para camping (POR QUÊ tinham que fazer num estábulo, sendo que ia dar margem pra críticas? Tinha tudo para dar certo!), dois palcos enormes, iluminação classe A, enfim… Na vdd, maior do que aquela alegria que me bateu aquela hora, é a tristeza agoniada agora que tenho que se tudo tivesse sido feito com mais esmero, tinha TUDO, mas TUDO para dar certo, funcionar, e fazer história no país.
E falo isso tão com a boca cheia que, apesar do atraso até o início da primeira banda, tudo acabou rolando quase que perfeitamente e de acordo com o cronograma.
Para quem gosta do estilo, Almah e Shaman fizeram bons shows. Quanto aos das bandas internacionais, ocorreram sem maiores problemas e atenderam às expectativas dos headbangers.
O Exciter teve alguns problemas no som, mas rolou tranquilamente. O Orphaned Land, apesar de não me agradar nem um pouco e para falar a verdade, até me irritar com sua sonoridade por alguns momentos, fizeram um bom show. Se sentiram visivelmente bem recebidos e pareciam muito excitados em tocar aqui pela primeira vez. O público retribuiu com muitos aplausos e cabeças bangueando. O Anvil, ícone do Heavy Metal mundial, também se apresentou bem, porém sofrendo com consecutivas falhas nos microfone do vocalista e guitarrista Lips. O Destruction também só veio a confirmar que NUNCA decepciona ao vivo. Desfilou clássicos do início ao fim em o show mais energético até então. Até então, eu disse! Pois logo na sequência, entrariam os americanos do Exodus, dando uma lição de como se faz um show de thrash metal da maneira mais agressiva e de tirar o fôlego. Até mesmo o vocalista Rob Dukes fazia questão de frisar isso, quando disse: "Vocês querem uma música lenta para poderem descansar? Me desculpa, mas não temos músicas lentas!"! EXCELENTE apresentação, com direito a prêmio Fernanda Lira de melhor show da noite, tendo como concorrente à altura somente o Destruction.
Na sequência, veio o morno show do Megadeth. Talvez tenhamos criado tanta expectativa e medo de ele não tocar no festival por alguma frescurite, que na hora em que terminaram o show, a maioria esperava muito mais. Set curto, poucos clássicos (conseguem acreditar que não tocaram Sweating Bullets?), pausas contínuas e frequentes de Mustaine para reclamar nos bastidores sobre alguns problemas, e visíveis complicações vindas da mesa de som: microfonia, volume oscilante e falhas mais estranhas, como por exemplo, naquela pausa no meio da Holy wars, onde entra um quase dedilhado com a guitarra limpa, O SOM NÃO APARECEU.
Mas, enfim, eu estava feliz demais. O saldo havia sido extremamente positivo. Uma coisa que me demonstrou muita consideração com o público e pelo menos uma sombra de organização, foi a agilidade na troca de palcos. Tenho certeza de que assim que um show temrinava em um palco, o outro já havia sido montado para a próxima banda, que não tardava mais que 10 minutos para entrar. A não ser antes do show do Symphony X, se não me engano, que houve uma pausa de 40 minutos, mas programados, provavelmente para dar uma pausa para os bangers poderem ir ao banheiro ou comer (essa pausa já havia sido avisada, pelo menos para quem era da imprensa).
Tenho certeza que se houvesse alguém que não soubesse o que tinha se passado no camping nem dos problemas nos bastidores e visse o show, não teria do que reclamar.
O clima parecia ser de felicidade, eu pelo menos voltei para o hotel com a alma lavada. Mas sentia-se um certo clima de tensão no ar. Será que os problemas de camping já haviam sido resolvidos ou pelo menos haveria segurança para quem ficasse lá até que as falhas fossem consertadas?
Será que mais bandas vão cancelar?
Mas, eu, pelo menos, fui dormir otimista novamente!
Acordei tarde no dia seguinte, engolindo a comida rapidamente e botando a roupa de qualquer jeito, achando que já estava atrasada para o festival. Quando ligo a TV, reportagem ao vivo de um canal maranhense no local. Todo meu otimismo foi ladeira abaixo. Tudo estava pior do que no dia anterior. Tudo o que tinha me dado um sorriso de orelha a orelha na noite anterior, havia desmoronado, e o festival já tinha sido notícia no Jornal da Globo, Jornal Nacional, e já era capa dos principais jornais de São Luís.
Além do cancelamento do Rock and Roll All Stars, uma série de outros fatores havia vindo à tona. Novamente, o camping era o problema e, por algum motivo ainda desconhecido, um dos palcos havia sido parcialmente desmontado. Passamos o dia inteiro precisando de informações sobre o início dos shows e também da confirmação ou não dos boatos que estavam rolando. Felizmente, empresários da Lamparina deram as caras, e falaram com o público, num ato que achei muito digno. Porém só avisaram que ocorreriam atrasos, deixando muitas dúvidas nas cabeças dos bangers. Tanto que, fiquei sabendo de DEZENAS de pessoas que cancelaram sua vinda ao festival exatamente por não saberem se ele rolaria ou não. Isso é grave, deveria ter havido, novamente, algum pronunciamento oficial.
Nossa equipe se deslocou até o hotel onde algumas bandas estavam hospedadas e começamos a sondar respostas. Mas, o clima era de suspense, ninguém sabia qual banda começaria, qual banda cancelaria, e o pior, se o festival iria rolar. Essa dúvida permaneceu até quase sete da noite, quando a banda Ácido subiu ao palco.
Boatos sobre o cancelamento do Blind Guardian e Grave Digger eram fortíssimos, mas ainda sem nada concreto para acalmar, ou revoltar o público.
Mas, seguimos para o festival e o clima por lá foi negativamente surpreendente, INFELIZMENTE. Digo infelizmente porque eu, assim como vários outros headbangers, torcemos, acreditamos e queríamos mais que TUDO que esse festival rolasse. Eu acreditei e apoiei até o último momento. E fiquei muito triste quando cheguei por lá.
Logo após ingressarmos, infelizmente constatamos que muitas pessoas estavam entrando sem ingresso, credencial ou qualquer outro tipo de passe. Triste para os bangers que pagaram, mas o meu medo era maior quanto à segurança. Bandido é esperto. Numa dessas, pra entrarem de graça por lá e tocarem o terror, é um passo.
Como estava também com uma câmera de vídeo para gravar algumas imagens para o programa de TV do qual sou repórter, o Maloik, muita gente vinha me pedir por informações e ajuda, e eu sinceramente não sabia o que responder. muitos deles, inclusive, vinham PEDINDO para dar entrevista, como fosse sua última maneira de desabafar. Muitos me falaram sobre segurança, e, em determinado ponto da noite, enquanto a banda Dark Avenger tocava, eu fui averiguar e realmente havia pouquíssima segurança. Pasmem colegas de imprensa, entre a grade de público e o palco, não havia alguma pessoa da equipe lá em dado momento. E, o mais lindo de tudo, foi ver que os bangers, educados e politizados que somos apesar de toda a bagunça que a mídia fala sobre nós, nem sequer invadiram a área. Somente fotógrafos estavam lá. A área de camarote, sim, havia sido tomada por varias pessoas do público. pois não havia segurança. Depois de algum tempo, a segurança se normalizou novamente, fazendo presença por vários pontos do festival. Mas até isso aocntecer, pude sentir um clima de medo e insegurança.
Mas o pior dos climas que eu senti, estava por vir. Alguns fãs tinham me relatado sobre uma certa sensação de abandono, que se sentiam abandonados, à mercê de qualquer coisa que a produção decidisse e sem poder para fazer nada. Quando ingressei no camarim, isso se confirmou. Ele, que estava hiper movimentado e equipado no dia anteiror, havia sido quase totalmente retirado, sobrando apenas geladeiras e um camarim em pé. Quase ninguém da produção rondava, as pessoas andavam de um lado por outro sedentas por informação… Foi realmente muito triste. Conversei com uma pessoa muito importante lá no camarim que me explicou muitas coisas sobre o que estava acontecendo, coisas estas que já foram esclarecidas nas notas que ambas as produtoras divulgaram nos últimos dias. O palco, o camarim, aquela hora sem seguranças, tudo ocorreu por falta de pagamento, o que é MUITO triste. Tudo isso deveria ter sido acertado antecipadamente, não é mesmo? E isso me entristeceu, porque, pensem comigo, se tudo isso tivesse sido pensado e fechado previamente, o festival continuaria rolando tão lindamente quanto aconteceu na sexta feira. Isso me cortou o coração.
E e pergunto mais ainda: se os pagamentos de algumas coisas não haviam sido efetuados, se as bandas nacionais quase todas foram deixadas em segundo plano, se as condic'ões do camping não foram analisadas, o que rolou em todos esses meses que antecederam o festival?
Acho que essa pergunta expressa grande parcela da indignação de todos os metalheads que estavam por lá e sofreram as consequência dessa possível falta de panejamento e visão.
A partir dessas constatações, pude entender perfeitamente o por quê das banda sque tocariam naquela noite terem cancelado, Não foi cachê, não foi backline, mas sim o acúmulo de todas essas condições. Em minha opinião, elas estão na razão delas.
Com tudo isso, eu cheguei à conclusão bem particular (esse foi o MEU sentimento) que, com tudo isso que me foi esclarecido, seria muito difícil o festival 'sobreviver' até o dia seguinte. Para isso aocntecer, teriam que tirar dinheiro de algum lugar, derrubar liminares de órgãos como a vigilância sanitária que ovamente passaria pelo camping, e tudo o mais. Tenho certeza de que eles da produção lutaram até o último minuto para fazer o festival acontecer até seu fim, mas eram muitas coisas que precisariam ser resolvidas num pouquíssimo intervalo de tempo, já que não foram solucionadas com meses de antecedência.
Isso me causou muita tristeza, porque logo na sequência fui ver o MARAVILHOSO e EMOCIONANTE show do Korzus, com um nó do tamanho do planeta na garganta.
Tristeza porque todos ali estavam de coração aberto para curtir metal, para demonstrar sua paixão pela música e o quanto ela representa para cada um deles, afinal, quem vive, sabe que metal está longe de ser um estilo de música, mas, sim, um estilo de vida! Tristeza de ver que mesmo sabendo que aquele poderia ser o último show do festival, eles estavam ali, curtindo cada segundo como se nada tivesse acontecido, prontos para gritar e apoiar quem pisasse ali no palco. Tristeza de ver que o sonho de 10 mil pessoas que mal pudiam ver a hora de conferir um festival à altura de sua devoção para o metal, ir por água abaixo.
Muitos choravam, ouvi até gente querendo fazer uma vaquinha coletiva para conseguir dinheiro para pagar o que faltava, e muitos abraçavam os colegas do lado, dizendo que pelo menos a união de quem estava no camping fez valer à pena.
O show do Korzus veio para que todos se sentissem representados. No palco, o Pompeu disse palavras que todos ali gostariam de falar. Confirmou que somos todos guerreiros, que nem mesmo um desastre como aquele nos faria desistir do metal, porque nós, da cena nacional, somos fortes e apaixonados demais para deixar que isso aocntecesse.
Impossível segurar as lágrimas durante o hino nacional cantado em côro, por pessoas que, com aqule gesto, queriam mostrar que acreditam, apesar de tudo, no metal no Brasil, e isso é lindo e muito verdadeiro.
Após o show do Korzus, uns ainda alimentavam a esperança de que mais bandas tocassem, mesmo com o palco já sendo desmontado.
Devido a compromissos em São Paulo com a minha banda, tive de retornar, mas com aquela preocupação com todos os amigos e irmãos do metal que ficaram ali com suas passagens marcadas para domingo ou segunda, com suas barracas à mercê de todo perigo no camping e tudo o mais. Chegando em casa, vi que o que eu previa, havia acontecido: o festival não sobrevivera.
Para falar a verdade nem estou ligando muito para o que a bosta da mídia não especializada está pensando de nós depois disso, afinal, eles nUNCA se interessam em compartilhar nada das milhares de coisas boas que acontecem todo dia em cada canto do país relacionado ao metal, mas quando alguma desgraça acontece, são os primeiros a nos denegrir, afinal, para eles, metal é e sempre será bagunça, não é?
Mas ligo muito para o que a cena perdeu com a queda de um fest dessas proporções, ainda não acredito que o sonho de termos o maior festival do país para nossa alegria (sem piadas, por favor) se esvaiu tão rapidamente, por problemas, digamos eminentes.
Enfim, em minha opinião, ficar culpando este ou aquele, ou tentar achar quem é mais culpado que quem, é chover no molhado e não vai levar a lugar nenhum. Devemos ler os relatos, analisar as notas oficiais e tirar nossas próprias conclusões. Quanto aos produtores, tenho plena certeza de que sabem de todos os problemas que ocorreram e que deverão arcar com as consequências, ninguém tentou dar golpe, e muito menos vão fugir de suas repsonsabilidades legais quanto ao ocorrido.
Resta aos headbangers que se sentiram lesados, seguirem os procedimentos corretos para que reinvidiquem seus direitos.
E espero que com o meu texto, possamos refletir sobre tudo o que houve e torçamos para que os problemas apontados sejam sanados e prevenidos em uma próxima vez. E essa próxima vez, VAI acontecer. Afinal, headbanger é headbanger! E é claro, o rock não pode parar!

Por Fernanda Lira 

    Fonte: Whiplhash

sábado, 7 de abril de 2012

Não me abandone jamais ...

Me chamo Kathy H. Tenho trinta e um anos e sou cuidadora há mais de onze. Tempo demais, eu sei, mas eles querem que eu fique mais oito meses, até o fim do ano. O que dará quase exatos doze anos de serviço. Sei que o fato de ser cuidadora há tanto tempo não significa necessariamente que meu trabalho seja considerado fantástico. Houve alguns ótimos cuidadores que receberam ordem de parar depois de dois ou três anos apenas. E eu conheço pelo menos um que ficou os catorze anos completos, apesar de ter sido um desperdício total de espaço. Portanto, minha intenção aqui não é me vangloriar. Mas não resta a menor dúvida de que eles estão satisfeitos comigo e de modo geral não tenho do que me queixar. Meus doadores sempre foram muito melhores do que eu esperava. Todos se recuperaram com uma rapidez impressionante e quase nenhum chegou a ser classificado como 'agitado', nem mesmo antes da quarta doação. Muito bem, talvez eu esteja me vangloriando um pouco agora, admito. É que significa um bocado para mim poder dar conta direito do trabalho, sobretudo essa parte dos doadores continuarem 'calmos'. Desenvolvi uma espécie de instinto em relação a eles. Sei quando devo permanecer por perto oferecendo consolo e quando é melhor deixá-los em paz; quando escutar o que têm para falar e quando tão-somente encolher ombros e dizer-lhes que não se entreguem ao desânimo.
De todo modo, não estou reivindicando nada de muito grandioso para mim. Conheço cuidadores que trabalham tão bem quanto eu e que não recebem nem a metade dos créditos. Se você for um deles, entendo o motivo de possíveis ressentimentos — em relação a meu conjugado, meu carro e, acima de tudo, ao fato de eu mesma escolher os que vão ficar sob meus cuidados. Sem falar que sou de Hailsham — o que por si só muitas vezes é suficiente para deixar as pessoas de mau humor. Elas dizem, a Kathy H.? Ela escolhe o pessoal a dedo, e sempre da turma dela: gente de Hailsham ou de algum outro estabelecimento igualmente privilegiado. Não é à toa que ela tem uma ficha excelente. Nem sei quantas vezes já escutei isso, e posso imaginar que você ouviu muitas mais, de modo que talvez haja um fundo de verdade aí. Mas não fui a primeira a poder escolher, e duvido que seja a última. De qualquer forma, já fiz minha parte, cuidando de doadores trazidos de tudo quanto foi lugar. Até eu terminar meu serviço, não se esqueça, terei completado doze anos, e só nos últimos seis é que eles me deixaram escolher.
E por que não me deixariam? Cuidadores não são máquinas. Nós tentamos fazer o melhor possível para cada um dos doadores, mas no fim o serviço é exaustivo. Paciência e energia têm limite, e isso vale para todo mundo. De modo que quando surge a oportunidade de escolher, claro que você vai optar por pessoas semelhantes a você. Isso é natural. Eu não teria tido a menor condição de continuar fazendo o que faço durante tanto tempo se porventura deixasse de nutrir sentimentos pelos meus doadores em cada uma das etapas percorridas. Além do mais, se eu não tivesse obtido permissão de escolher, não poderia ter me reaproximado de Ruth e Tommy depois de tantos anos, não é mesmo?
Nos dias que correm, claro, há cada vez menos doadores conhecidos, o que significa que na prática não tenho escolhido tanto assim. E, como eu sempre digo, quanto menos ligação existe com o doador, mais difícil fica fazer o serviço; portanto, mesmo que eu sinta falta de ser cuidadora, acho correto dar finalmente por encerradas minhas atividades no final do ano.
Ruth, por falar nisso, foi apenas a terceira ou quarta doadora que pude escolher. Já havia uma cuidadora designada para ela, na época, e lembro-me que foi preciso uma certa dose de coragem de minha parte. Mas no fim dei um jeito, e assim que a vi de novo, naquele centro de recuperação de Dover, nossas diferenças — ainda que não tivessem exatamente sumido do mapa — não me pareceram nem de longe tão importantes quanto tudo o mais: o fato de termos crescido juntas em Hailsham, o sabermos e nos lembrarmos de coisas que ninguém mais sabia ou das quais ninguém mais se lembrava. Foi dessa época em diante, imagino, que comecei a buscar nos doadores pessoas conhecidas no passado e, sempre que possível, de Hailsham.
Houve épocas, no decorrer desses anos todos, em que tentei esquecer Hailsham e me convencer de que não seria bom ficar olhando tanto para trás. Porém num determinado momento simplesmente parei de resistir. E isso teve a ver com um doador em particular, de quem tomei conta certa feita, no meu terceiro ano como cuidadora; com a reação dele quando comentei que era de Hailsham. Ele tinha acabado de sair da terceira doação, que não dera muito certo, e já devia saber que não iria se safar. Embora mal conseguisse respirar, me olhou e disse: 'Hailsham. Aposto como era um lugar lindo'. Na manhã seguinte, batendo um papinho na tentativa de distraí-lo daquilo tudo, perguntei de onde ele era; o doador mencionou algum lugar em Dorset e sua expressão, por baixo da pele manchada, passou a um tipo bem diferente de esgar. Foi então que caí em mim e percebi a vontade imensa que ele tinha de não se lembrar de nada. Tudo o que ele queria era que eu falasse de Hailsham.
Portanto, durante os cinco ou seis dias que se seguiram, contei-lhe tudo o que ele quis saber, enquanto, do leito, ele me ouvia fascinado, com um leve sorriso nos lábios. Falei dos nossos guardiões, das caixas com as coleções que eram guardadas debaixo da cama, do futebol, das partidas de rounders, do caminho estreito que contornava todos os cantos e recantos externos do casarão, do lago com os marrecos, da comida, da vista que tínhamos das janelas da Sala de Arte pela manhã, com os campos cobertos de bruma. Às vezes ele me fazia repetir vezes sem conta a mesma coisa; algo que eu mencionara no dia anterior voltava a ser alvo de perguntas, como se ele nunca tivesse escutado uma única palavra sobre o assunto. 'Vocês tinham um pavilhão de esportes?' 'Quem era seu guardião predileto?' De início, pensei que fosse apenas efeito dos remédios, mas depois me dei conta de que ele estava bem lúcido. Mais do que ouvir falar de Hailsham, ele queria se lembrar de Hailsham como se Hailsham tivesse pertencido a sua própria infância. Sabia que estava perto de concluir, de modo que me fazia descrever as coisas de forma que elas penetrassem de fato em sua lembrança. A intenção dele, talvez— durante as noites insones devido aos remédios, à dor e à exaustão —, era tornar indistintos os contornos que separavam as minhas memórias das suas. Só então compreendi, compreendi de fato, quanta sorte tivéramos — Tommy, Ruth, eu, na verdade todos nós.
Ainda hoje, dirigindo pelas estradas do interior, vejo coisas que me fazem lembrar de Hailsham. Às vezes, passando por um trecho sob neblina ou descendo a encosta de algum vale, ao divisar parte de um casarão ao longe, e até mesmo quando vislumbro o desenho formado por um grupo de choupos plantados no alto de um morro, logo me ocorre pensar: 'Talvez seja ali! Achei o lugar! Aquilo é Hailsham, só pode ser!'. Depois percebo que é impossível e sigo adiante, com os pensamentos vagando por outras paragens. Em especial, há os pavilhões. Vejo-os por todo o interior, sempre erguidos ao lado de um campo de esportes — pequenas construções pré-fabricadas, pintadas de branco, com uma fileira de janelas numa altura absurda, bem lá em cima, enfiadas quase debaixo dos beirais. Acho que eles devem ter construído um monte desses pavilhões nos anos 50 e 60, época em que muito provavelmente também construíram o nosso. Toda vez que passo perto de um, olho comprido para ele durante o tempo que for possível, e qualquer dia ainda vou causar um acidente por causa disso, mas não consigo evitar. Não faz muito tempo, eu rodava por um trecho deserto de Worcestershire e vi um, ao lado de um campo de críquete, tão parecido com o nosso em Hailsham que cheguei até a fazer o retorno e voltar para dar uma segunda olhada.
Adorávamos nosso pavilhão de esportes, talvez porque nos trouxesse à mente aquelas deliciosas casinhas que apareciam em tudo quanto era livro ilustrado, quando éramos crianças. Lembro-me de nós, ainda nos anos Júnior, implorando aos guardiões para que dessem a aula seguinte lá, e não na sala habitual. Mais tarde, quando cursávamos o Sênior 2 — quando tínhamos doze para treze anos —, o pavilhão se tornou nosso esconderijo predileto, nosso e dos nossos amigos mais íntimos, quando queríamos fugir de tudo e de todos em Hailsham.
O pavilhão era suficientemente grande para abrigar dois grupos distintos sem que um incomodasse o outro — no verão, um terceiro grupo podia ficar na varanda. Mas o ideal é que você e seus amigos ficassem com o lugar só para si, de modo que era muito freqüente haver discussões e empurra-empurra. Os guardiões viviam nos dizendo para agirmos com civilidade a respeito, mas na prática era preciso contar com personalidades fortes no grupo para ter alguma chance de conseguir exclusividade no pavilhão durante um recreio ou um período livre. Eu própria não era do tipo franzino, mas desconfio que foi de fato graças a Ruth que conseguimos nos reunir lá com a freqüência com que nos reuníamos.
Em geral não fazíamos mais que nos aboletar nas cadeiras e nos bancos — éramos cinco, seis quando Jenny B. ia junto — e bisbilhotar sobre a vida alheia. Havia um tipo de papo que só tinha possibilidade de acontecer quando estávamos escondidas lá no pavilhão; só então podíamos conversar sobre alguma coisa que estivesse nos preocupando, assim como também podíamos acabar às gargalhadas ou num arranca-rabo danado. Na maior parte das vezes, era uma forma de descontrair um pouco, ao lado das amigas do peito.
Nessa determinada tarde à qual me refiro agora, estávamos em pé sobre banquinhos e bancos, amontoadas em volta das janelas altíssimas. Isso nos dava uma visão muito boa do Campo de Esportes Norte, onde cerca de doze meninos, do nosso ano e do Sênior 3, se preparavam para jogar futebol. O tempo estava claro, mas devia ter chovido pouco antes, porque me lembro da luz do sol cintilando na superfície da relva enlameada.
Alguém comentou que não devíamos espiar daquela maneira assim tão óbvia, mas nós mal recuamos da janela. E então Ruth falou: 'Ele não desconfia de nada. Olha só para ele. Ele de fato não desconfia de nada'.



Kazuo Ishiguro

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