Com poucos minutos de atraso, o performático franzino Rogério Skylab chega ao palco com seus passos discretos, sem alardes evita os cumprimentos tradicionais ao público. Skylab é ovacionado pela plateia ansiosa por sua apresentação.
Inicia o show com a música Corpo e membro sem cabeça. “O dedo mindinho do lula, o olho de Luís de Camões...” canta. O compositor dá partida em seu espetáculo muito bem acompanhado de sua banda que apimenta e enfatiza suas letras undergrounds.
Com suas performances esquizofrênicas, Skylab se aproxima e se afasta do público com a mesma circunspeção. Em alguns momentos parece estar incomodado com os olhares da plateia e caminha sem rumo em volta do palco, subitamente retorna e impede que seus ouvintes relaxem.
Sem romper as fronteiras da música trash, Skylab recebe a interação do público durante a música Tem cigarro aí? A cada refrão da música, cigarros foram jogados no palco. Na sua atuação imitando Inri Cristo pedindo um cigarro, Skylab arrancou gargalhadas e aplausos espontâneos.
Em meados do espetáculo, Skylab indaga seu público. “Boa noite, repararam que eu não gosto de falar com a plateia, né?” e a aplaudido entoa com naturalidade sua próxima canção.
Na música O Corvo, Skylab espanta ao comer sentado no palco uma cenoura, como se não bastasse, ainda durante os versos da música ele entoa naturalmente “Plasil. Plasil. Plasil” e cospe pedaços da raiz tuberosa.
O espetáculo teve seu ápice quando Skylab cantou seus sucessos antigos como Fátima Bernardes Experiência, Música para paralítico, Carrocinha de cachorro-quente e Matadouro das Almas em que o músico simula espancar uma fã.
O show que teve a duração aproximada de duas horas, foi encerrado com a música Eu e Minha Ex e deixou seus fãs com o gosto de “quero mais”. Assim o público pediu a Skylab que cantasse outros sucessos, ele se desculpou e convidou a todos ao espetáculo no dia seguinte, no próprio Centro Cultural São Paulo.
Gravação do clipe
Entre seus gritos e gemidos, danças tímidas, passos miúdos e reboladas epiléticas, Skylab manda um beijo fervoroso ao seu público e questiona “vocês estão gostando?”. Com uma resposta positiva e empolgada, Skylab trás ao palco dois convidados.
O tecladista Astronauta Pinguim e a cantora Karine Alexandrino incrementaram a gravação do clipe da música Eu roubei a gravata?, mas não agradou ao público. As performances da cantora cearense, Karine Alexandrino, foram alvos de chacotas e desânimo por parte da plateia.
O último suspiro de um cadáver
O espetáculo na Casa Cultural São Paulo foi palco do lançamento do seu último trabalho. Em duas apresentações, o Skylab X, o último suspiro de um cadáver é o desfecho do planejamento de seu suicídio. O músico carioca anuncia a morte de Skylab no décimo volume de seu projeto desde o início de sua carreira, em 99, na tangente da indústria.
Skylab se autodenomina um cadáver da Música Popular Brasileira (MPB). O momento é de diálogo com seu tema preferido: a morte.
Com uma carreira independente há 21 anos o cantor e compositor Rogério Skylab é o que podemos chamar de uma pessoa livre. Em suas letras, o desconforto. Skylab divide seus versos em remédios, doenças, escatologia, morte e outros temas - para alguns – incômodos.
Skylab externou seu entusiasmo em meio a sorrisos, gestos com as mãos e gritos desafinados em sua apresentação.
por paolla Arnoni
segunda-feira, 13 de junho de 2011
domingo, 12 de junho de 2011
Slayer
A ideia de que vai “chover sangue” nesta quinta-feira (9) em São Paulo é uma metáfora que deixa muito roqueiro da cidade feliz. Para quem não conhece o grupo americano de thrash metal Slayer, entretanto, a frase, referência a um dos maiores clássicos do estilo, fica perdida e pode até assustar - desnecessariamente.Para metaleiros, Slayer representa uma das maiores referências de som pesado de todos os tempos, com guitarras velozes, vocal rouco e agressivo, baixo e bateria em sincronia perfeita - tudo em alto volume e com muito barulho. São 30 anos de carreira, com mais de dez álbuns lançados e clássicos do thrash metal, que fazem da banda uma das “grandes 4” do estilo, junto a Metallica, Anthrax e Megadeth.
Para essas pessoas, talvez não haja muita novidade ao dizer que a banda volta a se apresentar em São Paulo nesta quinta-feira (9), com a turnê World Painted Blood - elas provavelmente já sabem, e vão ao show.
Para apresentar a banda que compôs “Raining Blood” aos não-iniciados na barulheira agressiva do metal, que deixa tantos fãs em êxtase, o G1 convidou três músicos eruditos para avaliar músicas que fazem parte do repertório que o Slayer apresenta na atual turnê.
A impressão deles ao ouvir ao som do grupo pela primeira vez é de que há muita “repetição” e “simplicidade”, uma música “primal”, com “caráter hipnótico” e tocada por “músicos muito competentes”.
O maestro Gil Jardim, a maestrina Claudia Feres e o violonista erudito Fabio Zanon deixaram claro que não costumam ouvir heavy metal e que não querem fazer juízo de valor do estilo de música de que outras pessoas gostam, nem disputar que estilo é melhor. A análise deles é propositalmente superficial, simples e distante, mostrando a impressão inicial de pessoas que conhecem música clássica ao escutar a banda pela primeira vez.'Eles gostam de Mi bemol!' - Regente titular e diretora artística da orquestra municipal de Jundiaí, a paulistana Claudia Feres nunca tinha ouvido falar em Slayer até o convite do G1. Ela aceitou escutar duas músicas das mais famosas já gravadas pelo grupo: “Seasons in the abyss” e a já mencionada “Raining blood”, e não ficou muito convencida. “Meu mundo é bem distante desse do heavy metal. Não me atrai. Não me faz muito bem.”
Segundo ela, as músicas têm um perfil “muito repetitivo, monotônico". "Rítmica e melodicamente muito pobre”, disse. “A base das duas músicas é muito parecida. Parece que há um cuidado em encontrar essa sonoridade dura e árida, uma sonoridade pesada que traga sentimentos de dor e sofrimento. (Eles gostam de Mi bemol!)”, completou.
Grande batera' - Fabio Zanon contou que já tinha ouvido falar da banda, mas nunca tinha escutado nenhuma das suas músicas. Após ouvir "World painted blood" e "Angel of death", ele fez elogios à bateria do Slayer e à “cozinha”, como costuma-se chamar o casamento sonoro dela com o baixo.
“A bateria é muito interessante. O cara é criativo, pois as duas músicas são em compasso binário, muito repetitivo, e o cara consegue fazer coisas diferentes, mudar muito os formatos. Se não fosse a bateria, o som ia ficar muito primário”, disse. Segundo ele, toda a produção é muito interessante e profissional, mas a sonoridade é “primal, lembrando música ritual, primitiva, com caráter hipnótico”, disse. “Música em compasso binario sempre lembra marcha.”
Segundo Zanon, “World painted blood” usa uma espécie de modo cigano que “é interessante, foge um pouco à expectativa de harmonia padrão que eu esperava nesse gênero e realça o caráter lúgubre da música.”
O violonista erudito fez questão de ressaltar que não é conhecedor do estilo. “Um gênero desses tem de ser julgado dentro de sua própria esfera sócio-cultural. Não dá pra se julgar tomando como parâmetro Beethoven ou com Tom Jobim, é outro departamento”, disse. “Não é que eu não tenha respeito e não admita qualidades musicais, simplesmente não tenho o componente antropológico pra me identificar”, completou.
Excentricidade planejada - Para o diretor artístico da Orquestra de Câmara da Universidade de São Paulo e diretor artístico da Philarmonia Brasileira, o maestro Gil Jardim, o Slayer é um grupo muito profissional com ótimos músicos e que faz da personalidade radicalmente excêntrica um negócio competente e bem planejado.
“Poderia definir a música feita pelo Slayer, assim como grande parte do rock, como rudimentar se a compararmos com obras produzidas ao longo da história da música clássica ocidental, ou mesmo com a música popular brasileira ou pelo jazz americano”, disse, em texto enviado a pedido do G1.
“Suas músicas trazem letras elaboradas estritamente dentro da linha que caracteriza o grupo, com temas e expressões escolhidas em busca de ‘objetos de uma realidade pervertida, da obsessão além dos sonhos selvagens...’ Na verdade, jamais se perde de vista a busca por um “êxtase permanente”, seja qual for o tema: a morte, a guerra, o sexo, a droga.... E sob esse ponto de vista, o som que tende a ser sempre eletrizante em sua pulsação, em seus decibéis, é coerente esteticamente”, completou.
“Devemos ter claro que, para manter essa linha de ‘excentricidade infinitamente arrojada’ é necessário trabalhar com planejamento, com acuidade, com sagacidade. É um negócio. Esse é o produto da banda Slayer, construído, bem ensaiado (os músicos são muito bons) e, mais que vendido, comprado pela imensa multidão que os acompanham ‘enlouquecidamente’. Naturalmente, o mise en scène é particular, assim como em cada um dos outros estilos musicais”, disse, defendendo o gosto alheio e alegando ser inútil gerar uma disputa sobre qual estilo é “melhor” de que o outro.
Daniel Buarque Do G1, em São Paulo
# # #
É curiosa a semelhança entre shows de metal e rituais religiosos. Principalmente quando as músicas tocadas têm nomes como "Ódio pelo mundo", "Chovendo sangue" e "Anjo da morte". No show de ontem à noite em São Paulo, a banda americana Slayer colocou no palco seus quase 30 anos de serviços prestados ao metal, e os súditos agradeceram com gritos de devoção, em um transe difícil de explicar para quem nunca usou camisas pretas e chacoalhou os cabelos ao som de uma guitarra distorcida.
Antes de entrar na casa de shows Via Funchal, o público enfrentou o frio de São Paulo em uma enorme fila. Os carros que passavam pela avenida tocavam musica pesada, alguns fãs extravasavam a excitação com gritos guturais de "Slayer!" e os ambulantes faziam sua festa particular vendendo cerveja e demais bebidas a preços tradicionalmente exorbitantes. A fila só diminuiu quando o começou o show de abertura da banda brasileira Korzus.
Os brasileiros esquentaram o clima para o a atração principal da noite. A banda toca um estilo de thrash muito parecido com o do Slayer, mais rápido e agressivo. Apresentaram músicas do novo disco, "Discipline of hate", e saíram do palco entoando com o público o mantra "Slayer!". Pouco tempo depois, subiram ao palco os integrantes de uma das maiores bandas de thrash metal do mundo.
A formação clássica teve uma importante ausência, o guitarrista Jeff Hanneman. No começo do ano, Hanneman sofreu uma mordida de aranha no braço que lhe causou uma doença chamada fasciite necrosante, conhecida nos Estados Unidos como "bactéria comedora de carne".
Antes de poder fazer uma bela canção com o nome de sua doença - afinal, o Slayer já tem um sucesso chamado "Máscara de pele morta" ("Dead skin mask") -, Hanneman está sendo substituído na turnê pelo talentoso Gary Holt, da banda Exodus, considerado um dos melhores guitarristas de metal do mundo. Além de Holt, estavam lá os idolatrados Dave Lombardo (bateria), Kerry King (guitarra) e Tom Araya (baixo e vocal).
O show começou com dois sucessos do último disco da banda, "World painted blood" (música título do álbum) e "Hate worldwide". A partir daí, quando a banda se preparava para emendar uma sequência de clássicos, o som teve uma falha no fim de "War ensemble" e só os músicos conseguiam se escutar pelo retorno. Com 30 anos de experiência, o líder Tom Araya percebeu o problema e trouxe a situação a seu favor. Pediu para que todos cantassem os versos finais da música e regeu os súditos. Depois do show, o Via Funchal colocou uma mensagem no telão responsabilizando a empresa de som da banda pelo problema.
A sintonia era tão grande que coube até uma brincadeira de Tom Araya em homenagem ao dia dos namorados, no próximo domingo. "Essa é uma música de amor", disse, antes de entoar os românticos versos "Como esperei para você vir/ Estive aqui sozinho/ (...) Esfolando a pele com a ponta de meus dedos/ (...) Membros cortados, ornamentos do meu ser", da música "Dead skin mask".
Em quase duas horas de show, o grande momento foi a sequência final do bis, com talvez os maiores clássicos do Slayer: "South of heaven", "Raining blood", "Black magic" e "Angel of death". Todos sobreviveram, felizes, e talvez alguma labareda infernal fosse útil para esquentar a volta para casa.
rafael pereira e andré sollitto
época
As décadas se passam, mas o Slayer continua o mesmo. No show que fez nesta quinta-feira em São Paulo, o grupo mostrou porque ainda é referência no que há de mais rápido e pesado em matéria de rock: quase duas horas da mais pura agressão sonora, que nem os problemas no som do Via Funchal conseguiram atrapalhar.
O grupo abriu a noite com duas canções de seu mais recente álbum, "World Painted Blood", de 2009. Já no início deu para perceber que a apresentação seria memorável: a banda ainda não havia tocado nenhum de seus clássicos, mas o público já estava cantando junto. O vocalista Tom Araya, sorrindo, parecia surpreso com a recepção.
O clima esquentou na terceira música, "War Ensemble", faixa da obra-prima do Slayer, "Seasons in the Abyss", de 1990. Mas, na hora em que a plateia batia as cabeças com mais vontade, as caixas de som ficaram mudas. Quando Araya percebeu que não havia som, pediu para o público continuar cantando a música. Foi atendido, obviamente.
Depois desse involuntário momento acústico, o show foi interrompido até que o som fosse restabelecido. A plateia, enquanto isso, xingava a casa em coro. Cinco minutos depois, tudo foi resolvido e o Slayer voltou com força total.
Os clássicos foram se sucedendo: "Disciple" e tem refrão "god hates us all" gritado pelo público, a mais lenta (mas não por isso menos pesada) "Dead Skin Mask" (com Tom Araya recitando a letra antes de iniciar a música), a velocidade de "The Antichrist".
Os dois pontos altos foram sabiamente guardados para a segunda metade da apresentação. O primeiro foi "Mandatory Suicide", música em que o grande baterista Dave Lombardo deu um show à parte. "Seasons in the Abyss", com seu início lento que dá torna ainda mais potentes o peso e a velocidade que vêm depois, foi o segundo.
Após 19 músicas, a banda parou o ataque sonoro. Mas nem chegou a deixar o palco para voltar para o bis. Tocou então quatro de seus maiores sucessos: "South of Heaven", "Raining Blood", "Black Magic" e "Angel of Death".
Veja abaixo o repertório do show do Slayer no Via Funchal:
01. "World Painted Blood"
02. "Hate Worldwide"
03. "War Ensemble"
04. "Postmortem"
05. "Temptation"
06. "Dittohead"
07. "Stain of Mind"
08. "Disciple"
09. "Bloodline"
10. "Dead Skin Mask"
11. "Hallowed Point"
12. "The Antichrist"
13. "Americon"
14. "Payback"
15. "Mandatory Suicide"
16. "Chemical Warfare"
17. "Ghosts of War"
18. "Seasons in the Abyss"
19. "Snuff"
20. "South of Heaven"
21. "Raining Blood"
22. "Black Magic"
23. "Angel of Death"
Antes de entrar na casa de shows Via Funchal, o público enfrentou o frio de São Paulo em uma enorme fila. Os carros que passavam pela avenida tocavam musica pesada, alguns fãs extravasavam a excitação com gritos guturais de "Slayer!" e os ambulantes faziam sua festa particular vendendo cerveja e demais bebidas a preços tradicionalmente exorbitantes. A fila só diminuiu quando o começou o show de abertura da banda brasileira Korzus.
Os brasileiros esquentaram o clima para o a atração principal da noite. A banda toca um estilo de thrash muito parecido com o do Slayer, mais rápido e agressivo. Apresentaram músicas do novo disco, "Discipline of hate", e saíram do palco entoando com o público o mantra "Slayer!". Pouco tempo depois, subiram ao palco os integrantes de uma das maiores bandas de thrash metal do mundo.
A formação clássica teve uma importante ausência, o guitarrista Jeff Hanneman. No começo do ano, Hanneman sofreu uma mordida de aranha no braço que lhe causou uma doença chamada fasciite necrosante, conhecida nos Estados Unidos como "bactéria comedora de carne".
Antes de poder fazer uma bela canção com o nome de sua doença - afinal, o Slayer já tem um sucesso chamado "Máscara de pele morta" ("Dead skin mask") -, Hanneman está sendo substituído na turnê pelo talentoso Gary Holt, da banda Exodus, considerado um dos melhores guitarristas de metal do mundo. Além de Holt, estavam lá os idolatrados Dave Lombardo (bateria), Kerry King (guitarra) e Tom Araya (baixo e vocal).
O show começou com dois sucessos do último disco da banda, "World painted blood" (música título do álbum) e "Hate worldwide". A partir daí, quando a banda se preparava para emendar uma sequência de clássicos, o som teve uma falha no fim de "War ensemble" e só os músicos conseguiam se escutar pelo retorno. Com 30 anos de experiência, o líder Tom Araya percebeu o problema e trouxe a situação a seu favor. Pediu para que todos cantassem os versos finais da música e regeu os súditos. Depois do show, o Via Funchal colocou uma mensagem no telão responsabilizando a empresa de som da banda pelo problema.
A sintonia era tão grande que coube até uma brincadeira de Tom Araya em homenagem ao dia dos namorados, no próximo domingo. "Essa é uma música de amor", disse, antes de entoar os românticos versos "Como esperei para você vir/ Estive aqui sozinho/ (...) Esfolando a pele com a ponta de meus dedos/ (...) Membros cortados, ornamentos do meu ser", da música "Dead skin mask".
Em quase duas horas de show, o grande momento foi a sequência final do bis, com talvez os maiores clássicos do Slayer: "South of heaven", "Raining blood", "Black magic" e "Angel of death". Todos sobreviveram, felizes, e talvez alguma labareda infernal fosse útil para esquentar a volta para casa.
rafael pereira e andré sollitto
época
# # #
As décadas se passam, mas o Slayer continua o mesmo. No show que fez nesta quinta-feira em São Paulo, o grupo mostrou porque ainda é referência no que há de mais rápido e pesado em matéria de rock: quase duas horas da mais pura agressão sonora, que nem os problemas no som do Via Funchal conseguiram atrapalhar.
O grupo abriu a noite com duas canções de seu mais recente álbum, "World Painted Blood", de 2009. Já no início deu para perceber que a apresentação seria memorável: a banda ainda não havia tocado nenhum de seus clássicos, mas o público já estava cantando junto. O vocalista Tom Araya, sorrindo, parecia surpreso com a recepção.
O clima esquentou na terceira música, "War Ensemble", faixa da obra-prima do Slayer, "Seasons in the Abyss", de 1990. Mas, na hora em que a plateia batia as cabeças com mais vontade, as caixas de som ficaram mudas. Quando Araya percebeu que não havia som, pediu para o público continuar cantando a música. Foi atendido, obviamente.
Depois desse involuntário momento acústico, o show foi interrompido até que o som fosse restabelecido. A plateia, enquanto isso, xingava a casa em coro. Cinco minutos depois, tudo foi resolvido e o Slayer voltou com força total.
Os clássicos foram se sucedendo: "Disciple" e tem refrão "god hates us all" gritado pelo público, a mais lenta (mas não por isso menos pesada) "Dead Skin Mask" (com Tom Araya recitando a letra antes de iniciar a música), a velocidade de "The Antichrist".
Os dois pontos altos foram sabiamente guardados para a segunda metade da apresentação. O primeiro foi "Mandatory Suicide", música em que o grande baterista Dave Lombardo deu um show à parte. "Seasons in the Abyss", com seu início lento que dá torna ainda mais potentes o peso e a velocidade que vêm depois, foi o segundo.
Após 19 músicas, a banda parou o ataque sonoro. Mas nem chegou a deixar o palco para voltar para o bis. Tocou então quatro de seus maiores sucessos: "South of Heaven", "Raining Blood", "Black Magic" e "Angel of Death".
Veja abaixo o repertório do show do Slayer no Via Funchal:
01. "World Painted Blood"
02. "Hate Worldwide"
03. "War Ensemble"
04. "Postmortem"
05. "Temptation"
06. "Dittohead"
07. "Stain of Mind"
08. "Disciple"
09. "Bloodline"
10. "Dead Skin Mask"
11. "Hallowed Point"
12. "The Antichrist"
13. "Americon"
14. "Payback"
15. "Mandatory Suicide"
16. "Chemical Warfare"
17. "Ghosts of War"
18. "Seasons in the Abyss"
19. "Snuff"
20. "South of Heaven"
21. "Raining Blood"
22. "Black Magic"
23. "Angel of Death"
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Me diga o que não foi legal ...
Um carro bonito, possante e seguramente caro (só não me pergunte que carro era porque não entendo nada disso) dá voltas em círculos em alta velocidade num descampado. Várias voltas. Pára e de dentro sai Johnny Marco, personagem vivido por Stephen Dorff, com cara de tédio. Corta. O mesmo Dorff está agora deitado na cama de um quarto de hotel, ainda com cara de tédio, mesmo diante de um espetáculo de pole dance protagonizado por duas gêmeas loiras deliciosas ao som de “My Hero”, do Foo Fighters. Corta. Mais cara de tédio, mais imagens do dia-a-dia de uma estrela de Hollywood em crise existencial. Corta, corta e corta.O novo filme de Sofia Coppola, “Somewhere – um lugar qualquer”, é basicamente isso. Deve ter a ver com a trajetória pessoal dela mesma essa fixação por retratar celebridades entediadas em busca de um sentido para a vida à qual ela se dedicou em suas três últimas realizações para o
cinema. No caso de Johnny Marco, esta busca poderia muito bem se encerrar caso ele dedicasse mais atenção à sua filha pré-adolescente, que o visita esporadicamente. Mas para isso ele teria que abdicar, pelo menos em parte, de sua rotina de superstar mimado, algo que, parece, ele não consegue fazer, mesmo que visivelmente não veja mais muita graça na coisa como um todo.O filme é bom ? Mais ou menos. Mais pra menos. É muito bem dirigido e interpretado, e tem situações divertidas, como a do massagista que precisa “entrar no clima” do cliente para realizar suas tarefas. Mas no geral é chato e tedioso. Propositalmente, é claro, já que se propõe a retratar o dia-a-dia de uma pessoa chateada e entediada.
Já não botava muita fé no filme, pois pelo que tinha lido a respeito dava pra notar que ele seguia a linha de “Encontros e Desencontros”, espécie de “clássico Cult” no qual eu não vi, sinceramente, a menor graça. O que mais me surpreendeu, na verdade, foi a lotação da maior sala do Cinemark do shopping jardins naquela noite em que aconteceriam também apresentações das bandas
Eddie, de Olinda, e Mamutes, local. Era uma espécie de ensaio para uma possível ressurreição da Sessão Notívagos, série de shows musicais acompanhados de exibições de filmes que acontecia regularmente até meados do ano passado. Se dependesse unicamente da presença do público e da perfomance das bandas escaladas, estaria tudo perfeito – mas não, não dependia.Carnaval no inferno: O ar-condicionado do saguão do cinema, onde aconteceriam os shows, estava quebrado! Isso, somado à insistência das pessoas em fumar num recinto fechado, criou um ambiente bastante desagradável. Mais desagradável ainda para os que se arriscavam a entrar na enorme fila para comprar uma cerveja a 4,00. Detalhe: não eram vendidos tickets, ou seja, quem quisesse tomar outra cerveja, teria que entrar na fila novamente, segundo me foi relatado pelos que bebem (eu não bebo). Pelo menos a marca era boa. O calor, devo dizer, nem era tanto, muito embora o ar-condicionado tenha feito falta, sem sombra de dúvidas. Desconfortável porém não insuportável. O problema maior para mim, asmático e fumante passivo involuntário, era mesmo
o desagradável cheiro de fumaça de cigarro no ar. Veja bem: defendo o direito dos fumantes fumarem, mas enquanto não inventarem um dispositivo, algo como uma redoma de vidro para as pessoas colocariam na cabeça que mantenha a fumaça que produzem exclusivamente para si, acho que tenho o direito de reclamar. E quem achar ruim, “pegue o gato e se azuin”, já dizia a minha vó.Mas vamos ao show. Som fraquinho – mal sinal. Fabio Trummer fala no microfone que aquele era o primeiro contato da banda com a aparelhagem, já que não tiveram tempo de passar o som, e pergunta ao povo se tava legal. O povo responde que sim, mas eu diria que não. Vai ver eu sou chato, né ? E olha que eu nem entendo dessas coisas, tecnicamente falando. Só sei que, aos meus ouvidos, a voz tava baixa e abafada e a guitarra praticamente inaudível. Mas a banda é boa, muito boa, e foi aos poucos criando um clima propício à celebração. Um verdadeiro desfile de “hits” alternativos logo de cara, com “Desequilibrio”, “lealdade” e “me diga o que não foi legal”, dentre outras. Aos poucos vão se
acertando os ponteiros e pronto: está criada a alquimia, na base de um suingue “roqueiro” tipicamente brasileiro com um sotaque que só o Eddie é capaz de produzir. Uma banda com excepecional personalidade que seduz inclusive não-adeptos do tal “samba-rock”, como eu. Até porque o Eddie é muito mais que “samba-rock”: é rock, é pop, é frevo, é o diabo! Rock legitimamente brasileiro. "Nunca fomos tão brasileiros", eu diria ...Os papos descontraídos entre os membros da banda, notadamente Fabio e “Urêia”, o percussionista, ajudaram a criar o clima de festa e descontração. Fabio é um grande frontman, ao seu estilo, sem grandes arroubos estelares, contido porém sincero e desencanando. Fala de times pernambucanos, saúda a todos, inclusive aos que vendem a cerveja cara, e saúda o Lacertae, que segundo ele tinha as melhores músicas da lendária coletânea “Brasil compacto”, dos anos 90, da qual também fizeram parte. Lembrou disso, provavelmente, devido à presença, no público, de Deon, guitarrista e vocalista do grupo sergipano. Até dei uma instigada para que ele fosse até lá dar uma canja, mas sem sucesso.
O show prossegue, com a banda afiada e o público na mão. Tocam, inclusive, a primeira música de seu primeiro disco, “videogamesongs”, do Sonic Mambo. Um clássico – mas esta é uma que precisava de um som de guitarra mais potente, algo que, infelizmente, não tivemos. Poderia ter sido O ponto alto da noite, mas não foi. O ponto alto foi uma espécie de pout-pourri de musicas de carnaval e Hinos de blocos de frevo de Olinda, puxados pelo do “segura a coisa” e emendado com o do “segura o cu”, onde Fabio faz todos se agacharem (tava com uma preguiça da porra, mas entrei no clima também, claro) e se levantarem ao fim de uma rima que terminava na singela frase “segura o cu senão eu meto o dedo”. Muito bom. Já o ponto fraco foi um cover esquisto que me disseram que era do Beirute – não sei, não conheço.
E foi isso. Uma hora e meia, aproximadamente, de show, e um abraço. Ainda fiquei mais uns bons 20 e tantos minutos esperando pelos Mamutes, mas quando vi eles finalmente chegando ao palco e notei que ainda teriam que montar um monte de coisas, inclusive a bateria, desisti e fui embora. Uma pena, já que não vi ainda a nova baterista em ação num show ao vivo, apenas na gravação de um especial acústico que será veiculado pela TV Aperipê - no qual ela mandou bem, por sinal.Saldo pra lá de positivo, apesar dos pesares.
Fotos: Rafa Aragao, Divulgação e Snapic
Texto: Adelvan
Entrevista com plastique noir
Faz tempo que não leio mais revistas de Heavy Metal (já fui assinante da Rock Brigade, nos anos oitenta), mas sempre folheio nas bancas. Numa destas investidas, vi que a Roadie Crew estava lançando uma coletânea virtual dedicada ao gótico/dark brasileiro. Legal, nem sabia que existia uma cena gótica no Brasil, para além do “gothic metal”, geralmente chato e repetitivo. Baixei o disco e uma banda, em especial, me chamou a atenção: plastique noir, de Fortaleza, Ceará. Em termos estritamente estilísticos não traziam nada de novo – era um som derivativo que emulava tudo o que de melhor foi feito na área nos anos de 1980, especialmente - mas se destacavam pela competência na composição e na execução da música presente na coletânea, “Those Who walk by the night”. Fui atrás de mais material da banda e confirmei minha primeira impressão: havia realmente algo de especial ali. Tornei-me fã ao ponto de viajar para vê-los, em Recife, no Abril pro rock, e em Salvador. São também muito bons Ao Vivo, tanto que estão conseguindo furar o bloqueio que os deixava naturalmente confinados ao gueto e tocando em vários festivais alternativos Brasil afora, alguns bastante conceituados, como o próprio Abril pro rock.
O plastique noir acaba de lançar seu segundo disco, “Affects”*, o que me fez pensar que era o momento oportuno para uma entrevista com os caras. O resultado, respondido por Airton S., o vocalista, você confere logo abaixo ...
· * “Affects”, o novo disco do plastique noir, é mais homogêneo e mais bem gravado que o anterior, “Dead pop”, de 2008. O baixo “cavucadão” de Daniel e as linhas de guitarra cortantes (com um pouco de peso e distorção em alguns momentos, inclusive) de Marcio Mazela, somados às programações precisas e o vocal soturno de Airton S., passeiam por composições bem acabadas feitas por encomenda para animar “festas estranhas com gente esquisita”. Os teclados, gravados por convidados, também se destacam, criando belos climas em praticamente todas as faixas. Não há nenhum grande destaque: o disco começa muito bem, com a bela “Rose of Flesh And Blood”, e segue no mesmo nível até o fim, oscilando entre passagens abertamente sombrias, embora quase sempre dançantes, e o escracho de letras como a de “Mazela takes a walk”, que foca o comportamento excêntrico de seu já legendário guitarrista.
Grande disco.
por Adelvan
* * *
Airton S – A questão é que o Plastique Noir nasceu como som de gueto e, até certo ponto, exatamente para ser som de gueto. A gente tem tentado se desvincular disso pra que a coisa não fique chata demais de ser feita, isso pra nós mesmos. Eu, Mäzela e Danyel escutamos som pra caralho, que vai desde Aldo Sena até black metal. No começo formamos a banda para que ela fosse estritamente gótica, mas hoje a gente percebe que esse coisa negra da música está presente em vários estilos e sempre foi nosso playground preferido. Dá pra encontrar referências interessantes no drama do tango, no samba escapista do Cartola, no piano de Beethoven e por aí vai. Se isso vai forçar uma identificação de nosso som com o público gótico, melhor! É uma massa numerosa, isso nos proporciona contatos e principalmente amigos. Quando a gente chega em São Paulo e Brasília, pra citar duas cidades em que tocamos com frequência, já saimos do avião direto para caírmos na palhaçada com os amigos! Vamos tomar umas, pôr o papo em dia, farrear e rir bastante. Mas claro que é sempre bom dar atenção ao universo fora do gótico também, se quisermos que nosso som tenha sempre uma sobrevida. O que era só diversão a princípio está chegando a um patamar de trabalho que gera uma responsabilidade de que nosso som se apresente da maneira mais profissional possível. E, para que ele se mantenha assim, é importante que busquemos diálogo com outras cenas, outros palcos, outras opiniões. Acho que se trata tudo de um grande esforço de equilíbrio.
Programa de Rock – Por falar em gueto, é possível escapar dele mesmo se mantendo fiel a uma proposta específica, sem se render a “misturebas” oportunistas? Vocês se sentem parte de um “gueto”? Em caso de resposta positiva, sentem-se bem, aconchegados, dentro dele?
Airton S – Acho que o Plastique Noir é também música de gueto, mas não só isso. Em cidades como Fortaleza e Recife, é comum de se ver uma parte do público de nosso show que não está vestida de preto. É minoria, mas rola. Não temos problema com a palavra “gótico”, que dá nome ao gueto de que estamos falando. E o que temos percebido, principalmente com o novo álbum, é que até mesmo os góticos tem encarado de coração aberto algumas licenças estilísticas a que nos permitimos nesse trabalho mais recente.
Programa de Rock – Existe uma cena dark/gótica estruturada e atuante atualmente no Brasil? Se existe, qual o seu real tamanho, onde ela é mais forte, e como ela dialoga, se é que dialoga, com o cenário independente em geral?
Airton S – Existe e está em fase de maturação, talvez mais perto de um profissionalismo que nunca houve antes. Algumas cidades e regiões tem cenas mais fortes e profissionais, como é o caso de Salvador, Brasília e principalmente São Paulo, que tem uma agenda semanal repleta de eventos simultâneos. Semestralmente rola lá o Projeto Ferro Velho, que traz sempre um grande nome mundial do estilo com a abertura obrigatória de uma banda nacional, o que favorece um intercâmbio inestimável em termos promocionais e de troca de know-how entre países. Existe até mesmo um festival nacional, o Woodgothic, que já conta com três edições e é organizado por uma das bandas mais prestigiadas do Brasil hoje, o Escarlatina Obsessiva. Rola bianualmente no alto da serra mineira, em São Thomé das Letras. A DDK, no Rio, põe brincando umas 500 cabeças pra dento da festa. Nada disso existia até dez anos atrás e olha que as primeiras bandas e eventos góticos no país datam de meados dos anos 80. Ou seja, nos últimos anos tá rolando um “boom” bem grande. Tivemos sorte de iniciar nossas atividades no meio disso tudo. Ou talvez não tenha sido coincidência, talvez o momento tenha favorecido nossa banda e nossa cena assim com tantas outras, com a expansão da internet, barateamento da produção musical etc. Agora, diálogo com o independente fora do gótico, acho que praticamente inexiste. Algumas bandas do selo em que estamos agora, a Wave Records, tem obtido vaga nos festivais de maior renome, mas não é sempre que rola.
Programa de Rock – Senti no “Affects”, o novo disco do Plastique Noir, uma maior homogeneidade nas composições, ao contrário do primeiro disco que, como é de praxe em estréias de bandas que atuam já algum tempo no cenário, funcionou mais como um apanhado de músicas que vêm sendo buriladas ao longo do tempo. Como foi o processo de composição do disco, as musicas são todas novas ou houve alguma retomada de trabalhos antigos nunca antes lançados?
Airton S – É tudo novo. O único reaproveitamento foi a faixa-tributo, “Never Look For People Like Us”, que era do Max e resgatamos do fundo do baú pra homenageá-lo. Todas as novas foram surgindo aos poucos, entre um ensaio e outro durante a tour do Dead Pop que durou, ainda que fragmentadamente, uns três anos e rodou boa parte do país. De volta à Fortaleza, vimos que tínhamos composto quase 20 músicas ao final do processo, muito embora durante ele nós já tínhamos uma noção de qual ia entrar na track list final e qual não ia. Ok, até que ainda chegou a rolar uma discussão por essa ou aquela faixa, no sentido de incluir ou limar, mas tentamos formar um consenso e acho que deu certo. Foi interessante trabalhar dessa forma - refiro-me a essa coisa de “criar um disco do nada”. Eu nunca tinha feito isso e talvez tenha sido o que justamente trouxe a coesão que você percebeu. Agora, não sabemos muito bem o que fazer com as sobras. Tem umas coisas que eu particularmente acho bem legais ali. No começo dos contatos com nosso novo selo, até rolou uma pilha mútua de fazer uma versão de luxo com disco extra, mas isso ficou inviável porque nossa verba pra gravar tinha acabado e daí resolvemos garantir o álbum full que já tínhamos em mãos. Talvez essa versão deluxe possa sair ainda. Não sei. Agora ninguém está mais pensando muito nisso, estamos tentando promover o que já tem.
Programa de Rock – Vocês ainda compõem pensando num álbum fechado, com um conceito, mesmo que vago e flexível, amarrando as faixas, ou vão compondo ao longo do tempo e apenas juntam o resultado?
Airton S – Um pouco dos dois. É que, nisso de compor ao longo do tempo sem neuras, coincidentemente ou não as músicas acabaram se mostrando “entrosadas” entre si, por si próprias, sem que tivéssemos que forçar a barra conceitualmente. Digo, conceito havia, mas não deu quase nenhum trabalho perceber depois que o material obtido se encaixava quase completamente nele.
Programa de Rock – Ainda existe espaço para o conceito de álbum, uma coleção de musicas representativas de um momento de uma banda embaladas por uma capa, contracapa e encarte? O Plastique Noir acredita que este conceito vai sobreviver? Em caso positivo, como conseguem resistir à tentação da urgência de nossos tempos hiperconectados para não lançar as musicas aos pedaços na net antes do resultado final acabado?
Airton S – Veja bem, nossa média de idade na banda é de 29 anos, mais ou menos. Não somos tão jovens. Alcançamos o vinil, tínhamos centenas de K7 em casa, já rebobinamos muitas delas na base do giro de caneta (risos) e só agora estamos tendo contato com o MP3, que foi o grande culpado por essa fragmentação no consumo de música. Eu, Danyel e Mäzela ainda trazemos um pouco dessa “cultura de álbum” nos nossos perfis musicais. E por uma questão igualmente cronológica, boa parte da imprensa musical também, já que os mais novos no meio têm o quê, 20 e poucos anos? Esse pessoal ainda leva a sério o formato de álbum assim como nós e é por isso mesmo que não rola conosco essa ansiedade de liberar material de qualquer forma. Penso ainda que, como prensar disco continua sendo uma parada cara e trabalhosa, o fato de a banda ter encontrado alguém que faça isso por elas, leia-se selo, ou mesmo ela ter reunido recursos para fazer por si mesma, denota que atingiu um nível legal de profissionalismo e por isso merece atenção do mercado e dos fãs.
Programa de Rock – O suporte físico ainda é realmente necessário? Pensam em, algum dia, lançar seus trabalhos apenas via internet? Como vocês administram este equilíbrio entre uma coisa e outra, o novo e o velho estilo de se “vender” música? Há espaço para os dois?
Airton S – Por enquanto, sim. E talvez mais ainda no nosso caso, já que somos freqüentemente identificados com uma cultura urbana como a gótica. Gente assim tem seus próprios hábitos de consumo, seus fetiches e seu mercado simbólico interno. Assim como punks, straight-edges, bangers etc, os góticos ainda valorizam o item material colecionável. Agora, como já falei antes, tudo é uma questão de equilíbrio. Também não faz sentido nego ser anacrônico e fazer vista grossa pro ambiente virtual. Tanto é que nossas músicas também são comercializadas em formato de download. Pra não falar no vazamento pirata, que nós nem achamos tão danoso assim. Haja vista o nosso primeiro álbum, cuja permissão de lançar free foi exigida por nós junto ao nosso selo na época. Era nossa estréia, queríamos aparecer legal. Já no caso do Affects, não sentimos a necessidade de tentar forçar uma interferência na maneira como o Alex da Wave acha melhor trabalhar, até porque confiamos demais na competência do cara em termos de distribuição.
Programa de Rock – Como é a relação da banda com os selos que lançam seus discos?
Airton S – A Pisces foi o primeiro selo em que entramos. O Ulysses é um cara muito gente boa, apesar de meio viajandão (risos). É foda conseguir falar com o cara, por exemplo. Mas o apoio que ele nos deu e continua dando é inestimável. Começamos a nos falar em 2007 e ele sempre se mostrou um cara muito honesto e sobretudo apaixonado pelo que faz. Quando resolvemos mandar o Affects pra Wave, não rolou nenhum tipo de mal-estar, até porque o Alex é quem distribui o Dead Pop, adquirido junto à própria Pisces. Inclusive aproveito pra avisar que esse disco já já vai acabar e quem não adquiriu, falou, um abraço. Não creio que ele vai voltar logo aos catálogos. Já sobre o trabalho com a Wave, sei lá, parece que foi um passo natural fechar com o selo. O Alex atua na cena gótica desde os anos 80, é figura carimbada nos principais eventos internacionais do estilo, tem contatos quentes, enfim, não tinha como não ser do jeito que está sendo. Botamos fé demais no trampo dele, musical inclusive. Eu e o Mazela já éramos fãs do 3 Cold Men antes mesmo de formar o Plastique (risos).
Programa de Rock – Vinil: há algum fetiche em especial da banda por este suporte ? Há alguma demanda dos fãs por lançamentos neste formato do Plastique Noir?
Airton S – Não sei, mas acho que deve existir. Confesso que a gente nunca pensou muito nisso até então. O Rafael, nosso produtor, às vezes bate nessa tecla. James, nosso amigo que toca no Facada, também de vez em quando tenta instigar a gente, falando das vantagens da prensagem em vinil, na questão do volume de cópias… Quem sabe um dia?
Programa de Rock – Como tem sido a divulgação de “Affects” no Brasil e no mundo, há algum plano em em ação neste sentido?
Airton S – Bom, felizmente a demanda por shows tá rolando sem que tenhamos a necessidade de sequer correr atrás deles. Algumas datas fora de Fortaleza foram fechadas e algumas até já foram cumpridas com sucesso. O pessoal parece estar curtindo bastante o disco. O promocional tem sido feito pela gente, por meio de nossa onipresença quase constante nas redes sociais e aqui cabem agradecimentos ao Rafael, em parceria com o Alex, que está colocando o disco nas lojas de São Paulo e da Europa, neste último acaso através da distro alemã Nova Media. O lançamento será em São Paulo também, numa festa do Via Underground. O Alex cuida mais da promoção no meio gótico e a gente está tentando colocar o disco evidente no meio independente nacional em geral, aproveitando os contatos que já fizemos em nossas passagens pelos festivais da Abrafin e eventos do Fora do Eixo.
Programa de Rock – A agenda de shows de vocês, como está? Tenho visto que a banda tem conseguido se inserir na agenda de festivais independentes e, com isto, se apresentado para um público mais amplo. Isto é fruto de um esforço em especial da banda neste sentido ou os convites vieram de forma “espontânea”? Pretendem seguir por este caminho? E como tem sido a recepção do público dos festivais à proposta do Plastique Noir?
Airton S – Olha, é meio que as duas coisas. Por aqui em Fortaleza a gente sempre foi alinhado com o coletivo local, a Rede Cem e daí eles nos servem de ponte pras curadorias. Mas acredito que nosso som acabe agradando, nego não ia pôr uma banda no line-up do festival dele que custou 90 mil pra acontecer, se houvesse o risco de, com a inclusão da tal banda, o negócio ficar feio. E o resultado acaba sendo bacana pros dois lados. A gente tem levado um público pros festivais que dificilmente iria pra ver as outras bandas. Nisso, acabam curtindo algo que não conheciam. E de forma semelhante, a gente acaba fisgando uma ou outra pessoa que estava ali, assistindo, sem botar muita fé na gente. Estamos tentando dar prosseguimento a essa via de trabalho. Esse ano já fizemos o Tendencies, em Palmas, e o resultado foi ótimo, travamos um contato amigável massa com a cena rockabilly de Curitiba por exemplo, que estava lá e de repente pode pintar algo disso…
Programa de Rock – Há uma faixa tributo a um antigo integrante da banda, falecido, no disco. Falem-nos um pouco de quem se tratava e qual foi sua contribuição para a construção da sonoridade do Plastique Noir.
Airton S – O Max integrou a banda desde o seu inicio até a metade de 2008, tendo definido muito de nossa identidade melódica e chegando a gravar o Dead Pop. Ele tocou na banda que pioneirizou esse estilo mais pós-punk gótico em Fortaleza, o Rebel Rockets, nos anos 90. A banda já estava extinta quando o convidamos a assumir os synths no Plastique Noir. O cara cativou todo mundo logo de cara com seu jeito amável de ser, sem falar em sua puta bagagem musical, quase enciclopédica. A chegada dele à formação foi, sem dúvida, o marco final para que nos sentíssemos prontos pra começar, como banda de verdade. Tinha ainda o folclore derivado de sua profissão como agente funerário (risos), era divertido mencionar isso em entrevistas. Infelizmente o cara foi se ocupando demais com atividades paralelas e teve que deixar a banda. Digo, deixou mesmo: ele não foi expulso e também nunca pediu pra sair. Foi estranho… simplesmente ele parou de comparecer a ensaios, shows… daí a gente ia se virando. Hoje, interpretamos essa atitude como uma maneira que ele encontrou de evitar de falar em saída por não querer de fato sair. Nosso contato foi ficando cada vez mais esparso desde então, sempre tínhamos notícias de sua vida por meio de um primo dele que é muito amigo nosso, quase irmão dele. Foi um choque quando recebemos a notícia de seu falecimento devido a complicações de saúde. Ele já estava há muitos dias em coma e o fato ocorreu quando estávamos numa reunião de amigos em razão do aniversário do Mäzela, que acabou sendo atingido de forma violenta naquele que era seu dia. O disco estava para começar a ser gravado, já tínhamos o material inteiro pronto. Somos caras bastante céticos, mas gostamos de pensar que ele estava presente posteriormente no processo, ajudando nem que fosse a partir da idéia que sua pessoa representa nos nossos corações de forma inspiradora.
Programa de Rock – Aproveitando o “gancho”: façam-nos um resumo do que tem sido a experiência da existência da banda até agora: os acontecimentos mais marcantes, as maiores dificuldades, as maiores alegrias …
Airton S – Cara, esse começo da minha resposta vai soar clichê, mas é foda: a gente passou por muita coisa nesses 5 anos. Eu juro que não consigo mais repassar minha vida durante esse tempo dissociando-a da banda. Acho que a melhor coisa que ficou são os amigos. As viagens sempre foram e são cansativas, mas eu diria sem pensar muito que elas são o melhor da festa. E é o que mais marca. E olha que eu não gosto de fazer show, meu lance é estúdio. A gente se divertiu muito por aí. Conhecemos gente de toda parte, vivemos momentos engraçados, encontramos freaks de toda espécie. A parte ruim, acho que foram os desentendimentos. A gente já brigou muito, de vez em quando ainda brigamos, aliás. Já fiquei sem falar com o Mäzela por semanas, já “rompi” até mesmo com o Babuê, que é uma moça (risos). Tivemos momentos em que tínhamos grana pra caramba pra investir nas nossas coisas, situações em que nos sentimos rockstars por causa de bobagens como, sei lá, estarmos pela primeira vez em um puta hotel aguardando a hora do show. Sabe, essa coisa meio de moleque sonhador? “Caralho, fodeu, estamos bombando!” (risos) Meio ridículo até… Ou ainda, estarmos ao lado de bandas gringas fodonas, na mesma van… Encontramos o Afrika Bambaataa no backstage do Abril Pro Rock, uma lenda viva, tocamos na mesma noite, o cara mó figuraça, divertidão, tirando sarro do Mäzela bêbado… Assim como também já rolaram momentos em que estávamos quebrados, sem ter nem o que comer esperando o ônibus de volta pra Fortaleza, bebendo cachaça e tocando violão na rodoviária pra passar o tempo. Já rolou de sermos saudados pessoalmente por jornalistas de certa envergadura e de sermos difamados e acusados levianamente por pseudo-produtor de evento. Sua primeira pergunta foi sobre “gueto”, tem um jornalista que você deve saber a quem me refiro, vive batendo verbalmente na gente… Mas é isso. Tudo faz parte e nós fazemos parte de tudo isso.
Programa de Rock – E para o futuro, há planos, metas ou é navegar ao sabor dos ventos?
Airton S – A gente nunca faz planos a longo prazo. Engraçado estar respondedo a essa entrevista logo agora, porque ontem mesmo eu estava tomando umas cervejas com o Babuê e começamos a retomar os planos pra shows no exterior, mas não convém divulgar nada ainda. O que dá pra adiantar é que já tem coisa concreta a esse respeito, mais detalhes em breve. Vamos tentar fazer as cidades que ainda não fizemos, principalmente na região sul. O norte já começamos a desbravar recentemente em Palmas, mas é a maior região do país, ainda tem muito lugar lá pra se ver e nos ver. Interrompemos quase que totalmente os shows durante os três meses de gravação e produção e agora queremos tocar bastante, o máximo, onde der e em quaisquer condições, desde que não seja muito inviável em termos de aparelhagem e deslocamento. Queremos corrigir algumas falhas nossas, como a escassez de merchandising. Gente de toda parte fica enchendo nosso saco por camisas, bottons, etc, e estão certos em vir encher. Vamos tentar tocar nos festivais em que ainda não tocamos e buscar mais visibilidade no geral, aproveitando que estamos com assunto novo. No caso, o álbum.
Programa de Rock – Espaço aberto para considerações finais.
Airton S – A gente queria agradecer de todo o coração por esse seu espaço e principalmente pela divulgação do trampo de bandas independentes como a nossa, que normalmente tem muita dificuldade pra produzir e circular dignamente. Muito obrigado por preencher essa lacuna preciosa. Somos muito a fim de tocar em Sergipe, quem sabe um dia. Abração pra todos que fazem seu programa e que o acompanham também!
+ em http://plastiquenoir.net
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Iron Maiden Recife 2011 - The Final Frontier World Tour
Como todo espetáculo de banda grande, a brincadeira começou pontualmente às 20h. Sem essa de fazer público esperar horas para encontrar os ídolos. Doctor doctor, do UFO, banda inglesa que influenciou o Maiden e tocou no Recife ano passado, era a senha para deixar a plateia mais acesa do que nunca. A música vai acabando e as luzes se apagam. Os dois supertelões ao lado do palco, de 15 metros de altura, mostram uma batalha espacial, tendo o mascote Eddie como personagem principal. É uma referência ao título do álbum The final frontier, lançado em 2010 e que está sendo divulgado na The final frontier world tour. A canção de entrada tem duas partes distintas. A primeira, Satelite 15, é tocada nos altos falantes. A batida tribal e as guitarras dissonantes são cortadas pelo voz de Bruce, que tem o rosto projetado nos telões. Os outros cinco caras vão entrando no palco e é dada a largada. The final frontier, um hard rock pegajoso, faz a galera cantar junto. Nessa hora, quem tinha alguma dúvida perdeu o medo de que algo desse errado e o show não decolasse. O Maiden estava de novo no Recife, pouco mais de um ano depois da primeira apresentação, na Somewhre back in time tour, de 2009, no Jóquei Clube, na Zona Oeste da capital.Ao contrário do concerto anterior, o show desse domingo trouxe canções novas. Cinco, no total. Além da primeira, foram apresentados bons momentos do álbum de 2010. El dorado, o primeiro single, tem uma levada legal e solos bem encaixados de Dave Murray e Adrian Smith, sem dúvida um das grandes duplas de guitarristas do metal mundial. Bruce arriscou o primeiro grito de guerra para sacudir a plateia: "Scream for me... Recife!" Um cara subiu no palco, mas foi rapidamente retirado, sem nenhum drama. Depois veio o primeiro clássico da noite: Two minute to midnight, aquela cantarolada pela garota Maria Catarina. De longe, dava para ver os celulares apontados para o palco. Todo mundo filmando, gravando ou tirando foto de recordação.
The Talisman, uma canção grande do álbum novo, deixa parado quem não conhece bem o disco. Tem uma letra enorme e um refrão que não pega. É uma aposta da banda, que reverencia o trabalho do terceiro guitarrista, Janick Gers, ao violão, na introdução. Em Coming home, Bruce explica a ideia da música e fala como é rodar pelo mundo para tocar e viajar no Ed Force One, o Boeing usado pelo Maiden para girar pelo planeta. Só no Brasil foram seis cidades visitadas. Murray e Smith brindam os fãs com belíssimos solos, numa semibalada inspirada.
Em seguida, Dance of death, do CD de mesmo nome, lançado em 2003. Bruce até errou um pedacinho da enorme letra, que aborda rituais macabros, e se desculpou. A banda manteve o pique, como se nada tivesse dado errado, e tocou todas as partes de uma canção cheia de detalhes. O cenário trazia a capa do álbum, assim como no resto do repertório, mostrava um desenho diferente. Sempre fazendo referência ao CD da música que estava sendo executada e a parte gráfica da época. Perto da enorme bateria de Nicko McBrain era possível observar duas torres de foguetes e na plataforma do kit de percussão a inscrição Satelite 15.
Ornamentação nem sempre percebida, sobretudo, para quem fica longe. E também para quem não consegue tirar os olhos de Bruce. Em The trooper, superclássico de 1983, o cara corre, canta, sobe nos alto falantes de retorno e tremula a bandeira do Reino Unido. Uma paulada para alegria dos mais antigos. The wicker man, do Brave new world (2000) vem quase emendada e põe a galera para cantar também. Essa fisga os fãs da atual fase, com três guitarristas. “Your time is come...”. E, para dar uma brecada no ritmo, Bruce dedica Blood brothers aos irmãos de sangue do Japão, devastado por terremoto e tsunami. Grande momento. E que solo de Janick.
O show seguia e a apresentação das canções novas chegava ao fim com When the wild wind blows. Onze minutos, um riff hipnótico e uma música candidata a novo clássico. Nessa altura, o jogo já estava no papo e se preparava para dar olé. É covardia. The evil that man do, de 1988, e Fear of the dark, de 1992, é para se esgoelar. Essa última serve, inclusive, para tirar qualquer dúvida sobre paixão dos fãs pelo Maiden. Todas as notas são entoadas com os músicos. Os solos, as melodias e os duetos. Momento único de uma relação entre ídolos e seguidores, poucas vezes vista no rock’n roll.
O show ia terminando e vinha a pergunta; Cadê Eddie? O mascote apareceu na tradicional Iron Maiden. Caracterizado como um ser de outro planeta, o boneco gigante e articulado duela com Janick e tira o fôlego de velhos e crianças. Depois de prometer que vai pegar não importa o lugar, o Maiden dá uma pausa e volta para o bis. Outra covardia. The number of the beast e Hallowed be thy name, de 1982, trazem a velha parceria Donzela-fãs. A galera canta tudo: introdução, narração, solo e coro. Quando cidadão já está rouco e pensa que acabou, vem Running free, do primeiro álbum, de 1980. Bruce aproveita e apresenta os parceiros, com destaque para a reverência ao líder e chefão Steve Harris. Brinca com Adrian e faz piada com a guitarra, uma Gibson Les Paul, que o músíco carrega para todos os lugares há décadas. O vocalista atira o gorro para o público e volta para encerrar uma grande festa do metal.
Uma aula de profissionalismo e talento. Exemplo de como se manter uma máquina gigante a todo vapor. Uma noite para ficar grudada na cabeça da menina Maria Catarina, aquela que nem parecia ter 8 anos quando cantava Two minutes to midnight e filmava tudo com os olhos arregalados. Um momento marcante para o pai dela e para tantos outros jovens, velhos, adolescentes, pretos, brancos, da área VIP ou da galera. Gente que pode dizer e estampar na camiseta, como orgulho: Iron Maiden no Recife.... Eu fui!
> Pode ser branco ou preto. Ter passado dos 40 anos ou sequer completado 10. Tanto faz se for do Recife ou de outra capital nordestina. Ou ainda melhor, se nasceu no interior. Ninguém liga foi para área VIP ou ficou espremido na galera. E aqueles também que ficaram do lado de fora. Só escutando. Tem coisas que só um show do Iron Maiden pode proporcionar. Cenas inimagináveis surgem do nada e deixam muita gente de queixo caído. Pendurada nos ombros do pai, o engenheiro Luiz Gonzaga Gadelha Junior, Maria Catarina Gadelha, 8 anos, despontava na multidão, no meio da pista premium, reservada para quem pagou R$ 300 e assistiu, com mais conforto, ao show dos ingleses, na noite desse domingo, na área externa do Centro de Convenções, em Olinda, Região Metropolitana.
Maria Catarina estava estreando num concerto de rock e mostrava que tem muito futuro como fã do gênero mais pesado de música. De camiseta rosa, com um celular nas mãos, não desgrudava os olhos do palco. Filmava e fotografava. Para quem estava do lado, sorria e demonstrava intimidade com o repertório do grupo, anos antes de ela pensar em existir. Para orgulho do pai-coruja, cantarolava baixinho: “two minutes to midnight...” e para quem ainda tinha dúvidas da paixão da headbanger precoce, Luiz avisava: “Desde os 5, ela gosta de Iron Maiden. Já toca baixo e arrisca umas coisas.”
A relação pai-filha-banda, demonstrada pelos dois fãs, mostra como o público do Iron Maiden é especial. Quem já passou dos 40 ouvia no velho e bom vinil. Para a criançada da idade de Maria Catarina, o velho bolachão é peça de museu. Para que um negócio tão estranho, preto com um buraco no meio e poucas músicas? É bem melhor Ipod, Ipad, MP3 e MP4 e internet, com Facebook. Os tempos mudaram, mas a banda está lá. Mais de 30 anos, 85 milhões de discos vendidos e muitos clássicos para tocar. Não importa a época ou a fase em que o admirador conheceu a Donzela de Ferro. Basta ver a quantidade de ônibus, carros e vans estacionadas perto do Centro de Convenções. As placas: João Pessoa, Maceió, Fortaleza, Natal, Carpina e uma infinidade de lugares. Tudo para conferir The final frontier world tour, que passou por seis cidades brasileiras, divulgando o disco de mesmo nome, lançado em 2010.
Para quem saiu de casa ou pegou estrada para ver Steve Harris, Bruce Dickinson e companhia foi uma noite sem grandes sustos. Quando dependia exclusivamente da produção, a cargo da Raio Lazer, nada a reclamar. Entrada bem sinalizada, banheiros em bom número (na área VIP), portões abertos cedo e sem filas, além de facilidade para tomar cerveja (um preço até camarada, levando-se em conta a qualidade do produto).
Masm quando o assunto é do poder público, o negócio complica. A Avenida Agamenon Magalhães, perto do Memorial Arcoverde, estava escura. Parecia mais uma boate. Os ambulantes fizeram a festa e ninguém organizava a área no entorno. O trânsito ficou sob a responsabilidade da Polícia Militar, que teve alguma dificuldade para fazer o tráfego fluir, sobretudo, por causa do desrespeito de muitos motoristas. Foi preciso guinchar carro parado no local errado.
Bronca mesmo é com o Centro de Convenções. Às 17h30, o estacionamento interno estaria lotado. Isso foi o que disseram funcionários, mesmo com as vagas sobrando podendo ser observadas facilmente. Uns até arriscava pedir uma tal carteirinha de acesso. Só não informavam qual documento era preciso mostrar. O jeito foi morrer com R$ 10 na mão do flanelinha e torcer para não ter o carro levado pelos ladrões.
Tirando as mazelas, o público de quase 10 mil pessoas, não teve do que se queixar. Pouco depois das 18h40, o Terra Prima, prata da casa, entrou no palco para fazer o esquente da galera. Daniel Pinho, vocalista que se apresentou no último show do Iron Maiden Cover do Recife, comandou a banda. Ele mostrou músicas do And life begins, primeiro disco do grupo, e enfrentou problemas típicos de quem abre para megabandas: som baixo e equalização de gosto duvidoso, principalmente, na batera. Mas nada que tirasse o brilho. Para finalizar, Enter Sandman, do Metallica. Assim não tinha como Luiz e a pequena Maria Catarina ficarem fora do clima para o encontro com os ídolos logo em seguida.
por Ricardo Novelino
Fonte: JC Online
terça-feira, 15 de março de 2011
Marcio Sno, fanzineiro
O fanzine de Marcio Sno me fez companhia no Hospital quando eu tive uma crise de asma que quase me levou desta para "melhor", em 1994. Nunca esqueço isso. Já ele, nunca esquece minha satisfação em poder usar confortavelmente, finalmente, minha jaqueta de couro, em São Paulo - sim, porque em Aracaju, era quase impossível. É o maior divulgador da cultura "underground" dos fanzines que eu conheço, e acaba de lançar a primeira parte de um documentário chamado "Fanzineiros do século passado", retratando o tema através de entrevistas com os editores daquelas charmosas publicações artesanais xerocadas. Antes, ele já havia lançado a cartilha "Fanzines de papel", espécie de obra definitiva sobre o assunto. O Escarro Napalm, que também já foi um fanzine de papel, é bom lembrar, entrevistou-o via e-mail (chega de cartas para mim, acabou meu fetiche pela farda dos carteiros). O resultado foi este que você pode ler abaixo.
OBS: Marcio Sno não é a garota, o garoto nem o cachorro da foto abaixo.
By (em ingrês é mais chique) Adelvan Kenobi
Escarro Napalm - Vamos começar sendo didáticos?
Marcio Sno - Bóra, você é quem manda!
EN - Já que você é o cara quando se fala em divulgação da arte de se fazer fanzines (e não me venha com falsa modéstia), explique para a nossa meia dúzia de eventuais leitores o que vem a ser um fanzine, qual a idéia por trás da coisa, e como era/é produzido, divulgado e distribuído.
Sno - Menos, menos, meu caro! Existem nomes muito mais importantes que eu na arte de fazer e explicar fanzines… Mas vamos lá! Eu disse que você é quem manda, então, obedeço!
O fanzine, a grosso modo, seria uma espécie de “revista independente”, um meio de comunicação alternativo feito por pessoas que não se contentam em ficar de apenas um lado da notícia (leitor) e passam a ser produtores de informação, ou seja, editores de fanzines.
Nesses veículos, são divulgados, em sua maioria, artistas da cena underground, como músicos, poetas, quadrinistas, escritores, entre outros. Isso não impede que também sejam divulgados artistas do mainstream e assuntos além do submundo: principalmente nos que tem linhagem anarco-libertária, são discutidos assuntos da atualidade, mas sempre com uma visão diferente dos grandes meios de comunicação, mostrando um outro lado da notícia.
O fanzine em papel era e é feito de forma artesanal. Até meados dos anos 1990, a comunicação funcionava via carta, nosso computador era a máquina de escrever e nosso e-mail marketing era o flyer (uma espécie de cartão de visitas que circulava entre as cartas). Era tudo na unha, na raça. Pra quem hoje vê como a coisa funcionava, pode não acreditar, mas era assim mesmo: todo mundo se conhecia pelo correio, as bandas independentes faziam a trilha sonora e os fanzines eram o nosso meio de divulgação.
A gente recebia os materiais e fazia resenhas, entrevistas etc. e tal, datilografava e diagramava ao mesmo tempo, recortava, colava imagens, fotos, textos e chegava ao chamado original, que era copiado em xérox e distribuído via correio, em shows, eventos, reuniões ou colocados em alguns pontos estratégicos para serem vendidos ou mesmo dados.
EN - Como surgiu e idéia de registrar através de um documentário a obra dos “Fanzineiros do Século Passado”?
Sno - Na verdade a ideia desse documentário veio bem antes, lá por volta de 2006, quando eu estava na faculdade de jornalismo e era época de pensar no que produzir como trabalho de conclusão de curso no ano seguinte. Nessa época eu já tinha feito a cartilha Fanzines de Papel, que foi uma pesquisa que fiz sobre fanzines e, para mim, até então, o assunto “fanzine” já tinha se esgotado se fosse lançado em forma de monografia, não haveria o desafio no TCC. Só faria sentido manter o tema se eu fizesse um documentário a respeito. Mas para isso me faltava técnica (ainda falta), equipamento, tempo e grana para poder gravar com as pessoas que eu achava interessante. Então, foi shift+del para essa ideia.
No ano passado, a ideia retomou em minha cabeça após algumas conversas por telefone com José “Zinerman” Nogueira (Delírio Cotidiano), que fez com que eu resolvesse tirar essa proposta do fundo da gaveta do meu inconsciente. Mas eu não queria ser o único responsável por essa história: queria envolver o máximo de pessoas possível nessa aventura e bolei um projeto e distribuí por e-mail para os meus contatos dos fanzines. O retorno foi quase que imediato e total: todo mundo queria colaborar, dar depoimento, ajudar de alguma forma.
Um dos principais quesitos desse projeto era não ter deadline, pois todos nós crescemos, montamos famílias, ganhamos mais responsabilidades e pedir prazo para zerar um documentário feito sem fins lucrativos e nenhum incentivo financeiro, seria declarar um natimorto. Aí foram surgindo várias pessoas de todo canto do país para registrar imagens de determinadas localidades, como numa espécie de centrais regionais. Porém, por conta de todas essas responsabilidades que falei, isso ainda não se solidificou como eu imaginava, mas ainda acredito que isso ainda vai rolar.
Um grande amigo meu, que fez comigo o documentário INGs – Indivíduos Não Governamentais, Averaldo Rocha, tinha acabado de adquirir uma câmera fodona e me deixou usar como e onde eu quisesse. Só para ter uma ideia, ele nunca usou a máquina, podemos dizer que eu acabei com a virgindade dela! Bem, o principal eu já tinha e agora era botar a ideia em prática! E passei a gravar da minha forma, do meu jeito e com a minha técnica limitada, junto com meu filho Calvin, que me acompanhou na maioria das gravações que, além de me ajudar, pôde conhecer mais de perto a vida que me meti antes de ele nascer.
O primeiro entrevistado foi o Leonardo Panço e, até agora, consegui gravar 21 depoimentos e mais um gravado pelo Pedro de Luna.
EN - E os “fanzineiros deste século” existem? Ou seriam os blogueiros os novos fanzineiros?
Sno - Seria um pouco dos dois! Pode parecer estranho você pensar que ainda exista neguinho que nade contra corrente, publicando em formato impresso, quando se tem uma internet toda, lhe dando de mão beijada todos os recursos do mundo para você criar um veículo de comunicação. Mas ainda existem muitos fanzines na ativa até hoje, como é o caso do Juvenatrix do Renato Rossati (que tem centenas de exemplars lançados) e o Aviso Final do Renato Donisete, que acabou de completar 20 anos de existência! Também tem os clássicos QI de Edgard Guimarães e Top! Top! de Henrique Magalhães. Também têm os que começaram a fazer agora, como o Ricardo Chakal, com o Social Agression e o Diego El Khouri com o Cama Surta.
Apesar de todas essas boas notícias para o impresso, sejamos realistas: a produção de fanzines caiu drasticamente e boa parte dos fanzineiros migraram para os blogs ou simplesmente abandonaram tudo. Outros, para manter parte da característica dos impressos, distribuem os fanzines em formato pdf, para a pessoa baixar, imprimir e ler.
Curiosamente, muitos dos blogueiros que surgiram a partir dos anos 2000, têm em sua produção características semelhantes aos fanzines, porém, nem todos têm essa noção.
Por um outro lado, noto uma nova volta dos fanzines, por um caminho um tanto diferente do que se possa imaginar: muitos educadores e professores estão utilizando o fanzine como ferramenta para ajudar na formação de crianças e jovens, dentro do que se conceituou chamar educomunicação. Eu mesmo dei oficina para educadores da ONG onde eu trabalho, e eles multiplicaram para os seus educandos, que piraram na ideia, eles não conheciam o fanzine e acabaram adotando o agora “método”, para expor suas ideias e até mesmo reivindicar coisas em sua comunidade. E percebo que isso vem acontecendo em diversos lugares, como a exemplo de Gazy Andraus e Elydio dos Santos Neto, ambos doutores, que aplicam a técnica do fanzine para mestrandos na área de educação! Fernanda Meireles é uma pessoa que viaja o país dando oficinas de fanzines para diversos públicos em diversas realidades. Direto recebo e-mail de professores e pesquisadores querendo saber mais sobre fanzines, para ajudarem em suas teses e para aplicar com seus educandos.
Não vou me atrever em falar que os fanzines terão o mesmo gás dos anos de 1980, 90, mas, por conta dessa utilização educacional, ele vai demorar um pouquinho mais para sumir. E acho que vai conviver harmoniosamente com a internet e os blogs.
EN - Quais as principais dificuldades, técnicas e/ou conceituais que você teve para produzir o documentário?
Sno - Técnicas, todas! Afinal de contas, o que sei de gravação de imagens é o básico: dar play e mandar ver. OK, estou exagerando um pouco, mas é mais ou menos isso mesmo. Não utilizei iluminação, usei a luz ambiente. Isso prejudicou no resultado final de alguns personagens.
Outra coisa atrapalhou bastante foram os ruídos em algumas gravações, que prejudicaram alguns depoimentos, como no caso da Thina Curtis e do Gazy Andraus.
No caso do conceitual, a coisa veio meio que naturalmente. As perguntas foram meio que padronizadas, só em alguns casos que abordei outros assuntos. Quando já tinha essa totalidade de depoimentos acumulados, fui convidado para participar do 1° Ugra Zine Fest e um dos organizadores, o Douglas, perguntou se eu queria levar uma prévia do doc pro evento. Topei em fazer um apanhado. Mas durante a edição gostei tanto do resultado final, que resolvi pensar diferente: a ideia inicial era fazer um documentário único, com todos os depoimentos que eu iria colher pelo Brasil afora, por intermédio dos colaboradores, coisa e tal. Mas decidi lançar esse que seria uma prévia como o “Capítulo 1”, e dividir o doc em assuntos. Primeiro porque acho que seu fosse lançar conforme a ideia inicial, iria dar mais de duas horas, e pra segurar alguém em frente à tela por esse tempo todo, o cara tem que ser profissional, o que não é meu caso. E depois porque diminui um pouco a minha ansiedade e a do povo em geral que sempre pergunta “quando é que vai sair o doc?”. E acho que vai ser mais light pra todo mundo e talvez a pressão seja menor. E isso já é um grande ponto, pois por conta de
algumas cobranças no meio do caminho, quase desisti, pois a partir do momento que rola a cobrança, a coisa passa a se tornar obrigação e aí o tesão vai embora. Deixei o documentário de molho por dois meses, para me livrar do peso da cobrança e depois que a poeira abaixou, passei a dedicar-me ao doc com mais carinho e cá estou.
EN - Há um bom número de gente já devidamente registrada nos depoimentos, como foi a logística para chegar a este povo todo? Os que não moram em SP, como obteve os depoimentos deles?
Sno - Boa parte do pessoal que está nesse primeiro capítulo são daqui, de São Paulo, aí foi mais no esquema de agendar mesmo e ir na casa de cada um para gravar. Mas no caso do Leonardo Panço (RJ), Fellipe CDC (DF), Daniel Villa Verde (RS), Gazy Andraus (Santos), aproveitei a vinda deles pra cá para fazer os registros, afinal não tive oportunidade de fazer viagens por enquanto. Sempre fico de olho em alguém que vem pra cá pra marcarmos. Agora haverá dois eventos em SP que trará pessoas de fora: o Prêmio Angelo Agostini e o Ugra Zine Fest. E eu pretendo levar a câmera na bolsa, o tripé e mandar ver!
EN - Existe alguma “meta” a ser alcançada no sentido de quantos e quem entrevistar? Caso positivo, como pretende cumpri-la – pretende viajar para colher depoimentos Brasil afora?
Sno - Talvez uma das metas é conseguir entrevistar as pessoas que considero “chave” dentro do universo dos zines. As que tiveram uma representatividade considerável no que se diz a respeito de zines. E talvez são as que mais terei dificuldades de conseguir pela distância e disponibilidade. Mas ainda teremos muito tempo para isso!
Outra meta é tentar com essa coleção de capítulos mostrar o que é definitivamente fanzines e o maior número de assuntos possíveis.
Mas o que eu queria mesmo é que acontecesse o lance de ter “pólos” em diversos lugares do país para, de fato, realizar um trabalho de equipe.
Puxa, viajar pelo Brasil para pegar depoimentos, eu pretendo sim! Mas estou com meus pés bem no chão. Esse trabalho não me trará nenhum retorno financeiro, muito pelo contrário, esse doc só aconteceu porque investi nele, com grana (para comprar fitas, bancar gasolina, passagem, energia elétrica) e com meu trabalho na captação de imagens, edição, que tomaram boa parte do meu tempo e que me privou, por exemplo, de estar junto com minha família.
Quero muito cair numas loucuras de pegar um final de semana e ir, por exemplo, para Aracaju e entrevistar figuras como Adelvan Kenobi, Rafael Jr., Adolfo Sá, Sylvio e outras figuras que movimentaram o underground sergipano. E fazer o mesmo no Rio, Curitiba, Joinville… Mas sei que isso é um sonho remoto, mas não custa pensar que isso pode sim acontecer.
EN - Quais os seus planos para o documentário, depois de pronto? Como pretende divulgá-lo e distribuí-lo?
Sno - Assim que acabar tudo, talvez nunca mais quero falar sobre fanzines! Uma vez na minha vida, pensei que nunca mais ia me envolver no assunto, mas como se pode perceber, estou comprometido até a testa!
A divulgação, já está sendo feita e a cada capítulo lançado, será da mesma forma: enviando para amigos, revistas, jornais, TVs, festivais, e o que mais aparecer para colocar a história para circular.
Por enquanto, estou distribuindo via carta e de mão em mão. Vou usar esse processo para as primeiras 300 cópias. Já distribuí quase 100. Depois, ou até antes de zerar as cópias, vou disponibilizar na internet pro pessoal baixar mais facilmente. Afinal, meu bolso ficará mais feliz também!
No finalzão disso tudo, quando não tiver mais assunto pra colocar, pretendo juntar tudo isso num só DVD. Aí sim, pretendo investir bastante para ter um material bacana, com encarte cheio de páginas, e tudo mais que se tem direito! Mas isso só vou me preocupar lááá na frente!
EN - Quais foram os fanzines que você publicou, até onde eles chegaram e qual o retorno que você teve de todo este trabalho?
Sno - Bem, meu primeiro fanzine foi o que mais me trouxe retorno: o Aaah!!, lançado em 1993. Ele durou 6 edições e teve diversos formatos e números de páginas, uma das edições chegou a ter 120 páginas e um miniposter. Também editei o Don’t Worry!!, em conjunto com a minha então namorada Joelma (que hoje é minha esposa). Nesse meio-tempo lancei o erótico Pleasure, que teve duas edições. Mais tarde, já casado e com filho, lancei o fanzine de bolso Ejaculação Precoce, que a partir da terceira edição passou a chamar Lady Die! e acabou na quarta edição. Quando tudo relacionado a zines para mim já fazia parte do passado, o Xan Brás me chamou para dar uma oficina de zines no Sesc Barra Mansa e foi quando eu lancei a primeira edição da cartilha Fanzines de Papel (que teve a segunda edição revista e ampliada em 2007 – e hoje é uma referência para quem pesquisa sobre zines). Com o calor dos fanzines de volta, lancei duas edições do Arreia!, que talvez seja o que achei mais legal, no que pude explorar o que mais gosto de fazer: entrevistas. Paralelo a isso tudo, colaborei para diversos zines de diversas temáticas, estados e países, com textos, desenhos, entrevistas e o que mais coubesse.
Nessa minha carreira, fiz contato com muita gente, que colaborou nos meus zines, mandou material de suas bandas, seus desenhos e poesias. Pessoas de todos os tipos, formatos, ideologias que se possa imaginar! Nos meus fanzines eu abria espaço para qualquer tipo de pensamento (claro, evitando os preconceituosos e extremistas) e, com isso, fiz amizade com pessoas. Muitas. Muitas mesmo! Muito mais que os amigos que tenho hoje no facebook. Talvez o triplo ou o quíntuplo, ou mais.
E com isso, o maior retorno que tive nessa história toda, foram as amizades que conquistei nesse caminho. Tenho amigos da época das cartas que até hoje mantemos a amizade. Você, Adelvan, é uma dessas. Pessoas que extrapolaram o limite da divulgação em zines, ou trocas de informações, para quase fazer da minha família. Meu padrinho de casamento é o Jean Marim (Sonidos, Ruídos y Ideas), conheci nesse meio, e ele é também padrinho do meu filho e eu padrinho dele de casamento também. O Marlos (And Chimarrão for All!) é um irmão pra mim (que inclusive casou-se com a fanzineira Karol, e hoje moram em Londres)… Bem, esses são alguns exemplos de quão forte era a nossa rede de amizades na época.
O reconhecimento de nossos esforços acho que também é um retorno bacana. Você ouvir pessoas falarem que se inspiraram no seu zine para fazer um, é uma grande recompensa! Outras te procurando para falar sobre zines, seja em uma oficina, palestra, debate, ou mesmo para uma consultoria, é muito legal, e eu gosto muito disso! Procuro sempre me disponibilizar para dar uma força.
EN - Como aconteceu seu primeiro contato com esta rede “subterrânea”? Foi uma identificação imediata, ou só aos poucos você foi se interessando em participar ativamente do processo?
Sno - Confesso que no começo tinha um certo preconceito com o underground. Eu lia muito a revista Bizz, cheguei a ser assinante por alguns anos, inclusive. Aí, passei a ler a Rock Brigade, Dynamite e por aí foi. Nessas revistas haviam seções para divulgação de bandas desconhecidas, como o Headbanger Voice. Demorei para tomar coragem – e me despir dos preconceitos – para escrever para uma dessas bandas. Resolvi escrever para várias. Só escrevi para bandas que não eram da capital paulista, por vergonha mesmo, eu era muito tímido. Lembro que os primeiros a me mandarem demos foram a Scum Noise, Soutien Xiita, Anarchy Solid Sound, Ñrü, Prophecy, No Violence. Passei a perceber que tinha muita coisa boa no subterrâneo e, aos poucos, aquele preconceito foi pro saco definitivamente!
Nessas cartas, recebi muito flyers de outras bandas e fanzines. Peraí: fanzines? O que era isso? No Headbanger Voice também tinha uma seção para esses tais de fanzines. Não tive coragem de perguntar o que era isso. Naquela época não tínhamos o Google, que ajudaria muito a tirar essa dúvida. Resolvi escrever para alguns e perguntando quanto que era pra receber o fanzine. Quando recebi o Secret Face, pude tera noção na prática do que era o fanzine.
Como eu ja tinha contato com alguma galera de bandas na época, um dia, indo trabalhar, me veio na cabeça: “porra, eu também posso fazer um fanzine!”, comecei a correr atrás, me baseando nos que eu havia recebido nessa época, como o Gnomo da Tasmânia, Mensageiro, Alta Tensão, entre outros. Aí não teve mais volta. Minha rede de contatos foi aumentando assustadoramente ao ponto de eu receber pacotes de cartas todos os dias e começar a ter problema para responder as cartas em tempo hábil.
EN - Como você vê a situação atual desta rede “analógica” se comparada ao que era nos anos 80/90? Você acha que há futuro para este tipo de troca de informações ou “resistir é inútil” e tudo será, inevitavelmente, substituído pela troca de arquivos digitais via internet?
Sno - A rede analógica, passou para a digital e não tem mais volta. Só usamos o correio quando temos que mandar alguma coisa que não é possível via internet. Isso é fato e não tem lógica voltar atrás. Porém, essa rede digital só pôde ser constituída com o passado analógico.
Os arquivos digitais acho que podem ser o futuro mais certo que consigo ver. Alguns zines já são lançados assim, como é o caso do Juvenatrix, Inferno Pub, Pensá, por exemplo. São zines que os editores montam e botam em um site ou enviam pelo e-mail mesmo pra galera baixar, com a opção de imprimir ou não.
Porém, ainda haverá sempre uma galera que manterá essa história de trocar materiais via correio, pois tem alguns tipos de materiais que são bem mais bacanas em formato físico, como por exemplo: livros, CDs e DVDs com encartes fodas. Mas, sem dúvidas, será num ritmo infinitamente menor que antigamente.
EN - Você ainda produz e/ou pretende continuar produzindo este tipo de material impresso? Por quê?
Sno - Pretendo sim, inclusive noutro dia estava conversando com o Luciano Irrthum (desenhista de Belo Horizonte que contribuiu para diversos zines, inclusive os meus) e estamos para lançar uma campanha para retomarmos os fanzines impressos e trocarmos via correio, como antigamente, com a intenção de mantermos a chama acesa como antigamente. A única “exigência” será que os fanzines terão que ter pelo menos 16 páginas em meio ofício, para haver mais justiça nas trocas.
E para essa campanha, já estou elaborando o fanzine que estou chamando de Me, Myself and I, no qual vou publicar somente coisas minhas, que inclui textos, desenhos nunca publicados e os que eu faço durante reuniões. Mas o plus desse zine será a entrevista que terá comigo. Pedi para alguns amigos mandarem perguntas de variados assuntos. Sim, vai ser uma ode ao meu umbigo! E uma terapia! Não sei se as pessoas se interessarão em saber sobre mim, mas não tô nem ai, o zine é meu!!
Na verdade será a primeira vez que lançarei um zine sem colaboradores e isso acho que vai ser um grande desafio, pois tudo dependerá exclusivamente de mim! Agora veremos quem é quem! Ahahah!
Por quê? Bem, acho que por resgatar um pouco como é esse lance de fazer o zine da forma antiga, retomar um pouco o passado. Talvez para ter sensação parecida que um cara tem ao ouvir vinil em épocas de MP3.
EN - Deixe a gente conhecer um pouco do Márcio Sno como pessoa – fale-nos de sua vida pessoal, quem é você, quais são suas origens, o que anda fazendo da vida...
Sno - Bem, acho que eu não mudo muito do que as pessoas me conhecem por intermédio dos zines. Mas vamos lá…
Meu pai é de origem japonesa (meu nome verdadeiro é Márcio Mitio Konno) e minha mãe é de uma cidade pequena de Minas Gerais, chamada Jequeri. Nasci aqui mesmo em São Paulo, tenho três irmãs e desde cedo tive que me virar pra conquistar minhas coisas: comecei a trabalhar aos 13 anos. Passei a namorar a Joelma aos 16, com quem casei aos 22 (quase 23), no ano em que nasceu o Calvin (1998).
Talvez a minhas raízes orientais tenham me feito uma pessoa muito paciente e que consegue compreender algumas situações com certa facilidade e a dar tempo ao tempo. Também sou muito correto e odeio injustiças. Pode ser por isso que muitas pessoas buscam conselhos comigo e são eternamente gratas!
Não costumo criar muitas expectativas sobre as coisas, faço a minha parte e espero que os resultados venham por eles mesmos. Talvez essa pode ser meu maior defeito tendo em vista esse mundo capitalista e competitivo. Mas acho que não mudarei esse jeito até a segunda ordem. Sei que recebo muita cobrança externa sobre isso (principalmente de minha família), mas apoiando-se em minha “pseudo-sabedoria”, o tempo dará as melhores respostas!
Trabalho há 13 anos e meio em uma ONG (www.acomunitaria.org.br), no Núcleo de Cultura & Lazer e, em algumas ações, utilizo a experiência e vivência que tive com os zines.
Me formei em jornalismo em 2007, mais para realizar um sonhodo que pra investir no mercado de trabalho, que sempre soube que era fechado.
Gosto muito de música, filmes, futebol, literatura, teatro e adoro conversar sobre isso. E, consequentemente, gosto de pessoas que conversem sobre esses assuntos.
Sou basicamente isso aí. Odeio holofotes na minha cara, prefiro o backstage.
EN - Espaço aberto para considerações finais e/ou para falar de assuntos que considere importantes e eu não mencionei.
Sno - Olha, acho falei bastante coisas e acredito que o leitor não terá mais muita paciência para que eu entre em algum assunto.
Quero deixar bem claro aqui que esse documentário foi idealizado apenas para que a memória da produção dos fanzines impressos seja conservada e registrada em formato audiovisual. Não quero e nem pretendo utilizar essa produção para me aparecer ou querer representar um marco na histórias dos zines, ao contrário do que algumas pessoas pensam e espalham. Não quero ser mártir. Com esse projeto, não fiquei esperando que alguém fosse tomar a iniciativa. Eu simplesmente resolvi fazer. Ponto. Ao invés de ficar reclamando: “ah, falta fulano, falta cicrano, eu não participei, devia ter feito assim, assado”, resolvi fazer.
E eu não vou ficar parado pra ficar discutindo essas coisinhas. Porra, estou prestes a completar 36 anos, sou pai de família, tenhos minhas responsabilidades profissionais… Não tenho tempo pra coisas pequenas. Nesses momentos me vem a frase de Raul Seixas: “eu tenho uma porção de coisas pra conquistar e não posso ficar aqui parado”. E assim eu sou: vivendo intensamente, produzindo insanamente e sem ter a mínima ideia onde tudo isso vai dar.
Agradeço de coração a você, Adelvan, meu amigo de anos a fio, por esse espaço concedido em seu blog! É um grande orgulho estar aqui, pois você é um grande batalhador da cena sergipana e é uma das pessoas que segue a mesma linha que eu: “Se ninguém faz, façamos!” Longa vida a você e para todos os seus projetos e ações! Que a força esteja com você!
:: márcio sno ::
http://marciosno.blogspot.com
http://twitter.com/marciosno
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http://www.revoluta.com
OBS: Marcio Sno não é a garota, o garoto nem o cachorro da foto abaixo.
By (em ingrês é mais chique) Adelvan Kenobi
* * *
Escarro Napalm - Vamos começar sendo didáticos?Marcio Sno - Bóra, você é quem manda!
EN - Já que você é o cara quando se fala em divulgação da arte de se fazer fanzines (e não me venha com falsa modéstia), explique para a nossa meia dúzia de eventuais leitores o que vem a ser um fanzine, qual a idéia por trás da coisa, e como era/é produzido, divulgado e distribuído.
Sno - Menos, menos, meu caro! Existem nomes muito mais importantes que eu na arte de fazer e explicar fanzines… Mas vamos lá! Eu disse que você é quem manda, então, obedeço!
O fanzine, a grosso modo, seria uma espécie de “revista independente”, um meio de comunicação alternativo feito por pessoas que não se contentam em ficar de apenas um lado da notícia (leitor) e passam a ser produtores de informação, ou seja, editores de fanzines.
Nesses veículos, são divulgados, em sua maioria, artistas da cena underground, como músicos, poetas, quadrinistas, escritores, entre outros. Isso não impede que também sejam divulgados artistas do mainstream e assuntos além do submundo: principalmente nos que tem linhagem anarco-libertária, são discutidos assuntos da atualidade, mas sempre com uma visão diferente dos grandes meios de comunicação, mostrando um outro lado da notícia.
A gente recebia os materiais e fazia resenhas, entrevistas etc. e tal, datilografava e diagramava ao mesmo tempo, recortava, colava imagens, fotos, textos e chegava ao chamado original, que era copiado em xérox e distribuído via correio, em shows, eventos, reuniões ou colocados em alguns pontos estratégicos para serem vendidos ou mesmo dados.
EN - Como surgiu e idéia de registrar através de um documentário a obra dos “Fanzineiros do Século Passado”?
Sno - Na verdade a ideia desse documentário veio bem antes, lá por volta de 2006, quando eu estava na faculdade de jornalismo e era época de pensar no que produzir como trabalho de conclusão de curso no ano seguinte. Nessa época eu já tinha feito a cartilha Fanzines de Papel, que foi uma pesquisa que fiz sobre fanzines e, para mim, até então, o assunto “fanzine” já tinha se esgotado se fosse lançado em forma de monografia, não haveria o desafio no TCC. Só faria sentido manter o tema se eu fizesse um documentário a respeito. Mas para isso me faltava técnica (ainda falta), equipamento, tempo e grana para poder gravar com as pessoas que eu achava interessante. Então, foi shift+del para essa ideia.No ano passado, a ideia retomou em minha cabeça após algumas conversas por telefone com José “Zinerman” Nogueira (Delírio Cotidiano), que fez com que eu resolvesse tirar essa proposta do fundo da gaveta do meu inconsciente. Mas eu não queria ser o único responsável por essa história: queria envolver o máximo de pessoas possível nessa aventura e bolei um projeto e distribuí por e-mail para os meus contatos dos fanzines. O retorno foi quase que imediato e total: todo mundo queria colaborar, dar depoimento, ajudar de alguma forma.
Um grande amigo meu, que fez comigo o documentário INGs – Indivíduos Não Governamentais, Averaldo Rocha, tinha acabado de adquirir uma câmera fodona e me deixou usar como e onde eu quisesse. Só para ter uma ideia, ele nunca usou a máquina, podemos dizer que eu acabei com a virgindade dela! Bem, o principal eu já tinha e agora era botar a ideia em prática! E passei a gravar da minha forma, do meu jeito e com a minha técnica limitada, junto com meu filho Calvin, que me acompanhou na maioria das gravações que, além de me ajudar, pôde conhecer mais de perto a vida que me meti antes de ele nascer.
O primeiro entrevistado foi o Leonardo Panço e, até agora, consegui gravar 21 depoimentos e mais um gravado pelo Pedro de Luna.
EN - E os “fanzineiros deste século” existem? Ou seriam os blogueiros os novos fanzineiros?
Sno - Seria um pouco dos dois! Pode parecer estranho você pensar que ainda exista neguinho que nade contra corrente, publicando em formato impresso, quando se tem uma internet toda, lhe dando de mão beijada todos os recursos do mundo para você criar um veículo de comunicação. Mas ainda existem muitos fanzines na ativa até hoje, como é o caso do Juvenatrix do Renato Rossati (que tem centenas de exemplars lançados) e o Aviso Final do Renato Donisete, que acabou de completar 20 anos de existência! Também tem os clássicos QI de Edgard Guimarães e Top! Top! de Henrique Magalhães. Também têm os que começaram a fazer agora, como o Ricardo Chakal, com o Social Agression e o Diego El Khouri com o Cama Surta.Apesar de todas essas boas notícias para o impresso, sejamos realistas: a produção de fanzines caiu drasticamente e boa parte dos fanzineiros migraram para os blogs ou simplesmente abandonaram tudo. Outros, para manter parte da característica dos impressos, distribuem os fanzines em formato pdf, para a pessoa baixar, imprimir e ler.
Curiosamente, muitos dos blogueiros que surgiram a partir dos anos 2000, têm em sua produção características semelhantes aos fanzines, porém, nem todos têm essa noção.
Por um outro lado, noto uma nova volta dos fanzines, por um caminho um tanto diferente do que se possa imaginar: muitos educadores e professores estão utilizando o fanzine como ferramenta para ajudar na formação de crianças e jovens, dentro do que se conceituou chamar educomunicação. Eu mesmo dei oficina para educadores da ONG onde eu trabalho, e eles multiplicaram para os seus educandos, que piraram na ideia, eles não conheciam o fanzine e acabaram adotando o agora “método”, para expor suas ideias e até mesmo reivindicar coisas em sua comunidade. E percebo que isso vem acontecendo em diversos lugares, como a exemplo de Gazy Andraus e Elydio dos Santos Neto, ambos doutores, que aplicam a técnica do fanzine para mestrandos na área de educação! Fernanda Meireles é uma pessoa que viaja o país dando oficinas de fanzines para diversos públicos em diversas realidades. Direto recebo e-mail de professores e pesquisadores querendo saber mais sobre fanzines, para ajudarem em suas teses e para aplicar com seus educandos.
EN - Quais as principais dificuldades, técnicas e/ou conceituais que você teve para produzir o documentário?
Sno - Técnicas, todas! Afinal de contas, o que sei de gravação de imagens é o básico: dar play e mandar ver. OK, estou exagerando um pouco, mas é mais ou menos isso mesmo. Não utilizei iluminação, usei a luz ambiente. Isso prejudicou no resultado final de alguns personagens.
Outra coisa atrapalhou bastante foram os ruídos em algumas gravações, que prejudicaram alguns depoimentos, como no caso da Thina Curtis e do Gazy Andraus.
No caso do conceitual, a coisa veio meio que naturalmente. As perguntas foram meio que padronizadas, só em alguns casos que abordei outros assuntos. Quando já tinha essa totalidade de depoimentos acumulados, fui convidado para participar do 1° Ugra Zine Fest e um dos organizadores, o Douglas, perguntou se eu queria levar uma prévia do doc pro evento. Topei em fazer um apanhado. Mas durante a edição gostei tanto do resultado final, que resolvi pensar diferente: a ideia inicial era fazer um documentário único, com todos os depoimentos que eu iria colher pelo Brasil afora, por intermédio dos colaboradores, coisa e tal. Mas decidi lançar esse que seria uma prévia como o “Capítulo 1”, e dividir o doc em assuntos. Primeiro porque acho que seu fosse lançar conforme a ideia inicial, iria dar mais de duas horas, e pra segurar alguém em frente à tela por esse tempo todo, o cara tem que ser profissional, o que não é meu caso. E depois porque diminui um pouco a minha ansiedade e a do povo em geral que sempre pergunta “quando é que vai sair o doc?”. E acho que vai ser mais light pra todo mundo e talvez a pressão seja menor. E isso já é um grande ponto, pois por conta de
algumas cobranças no meio do caminho, quase desisti, pois a partir do momento que rola a cobrança, a coisa passa a se tornar obrigação e aí o tesão vai embora. Deixei o documentário de molho por dois meses, para me livrar do peso da cobrança e depois que a poeira abaixou, passei a dedicar-me ao doc com mais carinho e cá estou.EN - Há um bom número de gente já devidamente registrada nos depoimentos, como foi a logística para chegar a este povo todo? Os que não moram em SP, como obteve os depoimentos deles?
Sno - Boa parte do pessoal que está nesse primeiro capítulo são daqui, de São Paulo, aí foi mais no esquema de agendar mesmo e ir na casa de cada um para gravar. Mas no caso do Leonardo Panço (RJ), Fellipe CDC (DF), Daniel Villa Verde (RS), Gazy Andraus (Santos), aproveitei a vinda deles pra cá para fazer os registros, afinal não tive oportunidade de fazer viagens por enquanto. Sempre fico de olho em alguém que vem pra cá pra marcarmos. Agora haverá dois eventos em SP que trará pessoas de fora: o Prêmio Angelo Agostini e o Ugra Zine Fest. E eu pretendo levar a câmera na bolsa, o tripé e mandar ver!
EN - Existe alguma “meta” a ser alcançada no sentido de quantos e quem entrevistar? Caso positivo, como pretende cumpri-la – pretende viajar para colher depoimentos Brasil afora?
Sno - Talvez uma das metas é conseguir entrevistar as pessoas que considero “chave” dentro do universo dos zines. As que tiveram uma representatividade considerável no que se diz a respeito de zines. E talvez são as que mais terei dificuldades de conseguir pela distância e disponibilidade. Mas ainda teremos muito tempo para isso!
Outra meta é tentar com essa coleção de capítulos mostrar o que é definitivamente fanzines e o maior número de assuntos possíveis.Mas o que eu queria mesmo é que acontecesse o lance de ter “pólos” em diversos lugares do país para, de fato, realizar um trabalho de equipe.
Puxa, viajar pelo Brasil para pegar depoimentos, eu pretendo sim! Mas estou com meus pés bem no chão. Esse trabalho não me trará nenhum retorno financeiro, muito pelo contrário, esse doc só aconteceu porque investi nele, com grana (para comprar fitas, bancar gasolina, passagem, energia elétrica) e com meu trabalho na captação de imagens, edição, que tomaram boa parte do meu tempo e que me privou, por exemplo, de estar junto com minha família.
Quero muito cair numas loucuras de pegar um final de semana e ir, por exemplo, para Aracaju e entrevistar figuras como Adelvan Kenobi, Rafael Jr., Adolfo Sá, Sylvio e outras figuras que movimentaram o underground sergipano. E fazer o mesmo no Rio, Curitiba, Joinville… Mas sei que isso é um sonho remoto, mas não custa pensar que isso pode sim acontecer.
EN - Quais os seus planos para o documentário, depois de pronto? Como pretende divulgá-lo e distribuí-lo?
Sno - Assim que acabar tudo, talvez nunca mais quero falar sobre fanzines! Uma vez na minha vida, pensei que nunca mais ia me envolver no assunto, mas como se pode perceber, estou comprometido até a testa!
A divulgação, já está sendo feita e a cada capítulo lançado, será da mesma forma: enviando para amigos, revistas, jornais, TVs, festivais, e o que mais aparecer para colocar a história para circular.Por enquanto, estou distribuindo via carta e de mão em mão. Vou usar esse processo para as primeiras 300 cópias. Já distribuí quase 100. Depois, ou até antes de zerar as cópias, vou disponibilizar na internet pro pessoal baixar mais facilmente. Afinal, meu bolso ficará mais feliz também!
No finalzão disso tudo, quando não tiver mais assunto pra colocar, pretendo juntar tudo isso num só DVD. Aí sim, pretendo investir bastante para ter um material bacana, com encarte cheio de páginas, e tudo mais que se tem direito! Mas isso só vou me preocupar lááá na frente!
EN - Quais foram os fanzines que você publicou, até onde eles chegaram e qual o retorno que você teve de todo este trabalho?
Sno - Bem, meu primeiro fanzine foi o que mais me trouxe retorno: o Aaah!!, lançado em 1993. Ele durou 6 edições e teve diversos formatos e números de páginas, uma das edições chegou a ter 120 páginas e um miniposter. Também editei o Don’t Worry!!, em conjunto com a minha então namorada Joelma (que hoje é minha esposa). Nesse meio-tempo lancei o erótico Pleasure, que teve duas edições. Mais tarde, já casado e com filho, lancei o fanzine de bolso Ejaculação Precoce, que a partir da terceira edição passou a chamar Lady Die! e acabou na quarta edição. Quando tudo relacionado a zines para mim já fazia parte do passado, o Xan Brás me chamou para dar uma oficina de zines no Sesc Barra Mansa e foi quando eu lancei a primeira edição da cartilha Fanzines de Papel (que teve a segunda edição revista e ampliada em 2007 – e hoje é uma referência para quem pesquisa sobre zines). Com o calor dos fanzines de volta, lancei duas edições do Arreia!, que talvez seja o que achei mais legal, no que pude explorar o que mais gosto de fazer: entrevistas. Paralelo a isso tudo, colaborei para diversos zines de diversas temáticas, estados e países, com textos, desenhos, entrevistas e o que mais coubesse.
Nessa minha carreira, fiz contato com muita gente, que colaborou nos meus zines, mandou material de suas bandas, seus desenhos e poesias. Pessoas de todos os tipos, formatos, ideologias que se possa imaginar! Nos meus fanzines eu abria espaço para qualquer tipo de pensamento (claro, evitando os preconceituosos e extremistas) e, com isso, fiz amizade com pessoas. Muitas. Muitas mesmo! Muito mais que os amigos que tenho hoje no facebook. Talvez o triplo ou o quíntuplo, ou mais.E com isso, o maior retorno que tive nessa história toda, foram as amizades que conquistei nesse caminho. Tenho amigos da época das cartas que até hoje mantemos a amizade. Você, Adelvan, é uma dessas. Pessoas que extrapolaram o limite da divulgação em zines, ou trocas de informações, para quase fazer da minha família. Meu padrinho de casamento é o Jean Marim (Sonidos, Ruídos y Ideas), conheci nesse meio, e ele é também padrinho do meu filho e eu padrinho dele de casamento também. O Marlos (And Chimarrão for All!) é um irmão pra mim (que inclusive casou-se com a fanzineira Karol, e hoje moram em Londres)… Bem, esses são alguns exemplos de quão forte era a nossa rede de amizades na época.
O reconhecimento de nossos esforços acho que também é um retorno bacana. Você ouvir pessoas falarem que se inspiraram no seu zine para fazer um, é uma grande recompensa! Outras te procurando para falar sobre zines, seja em uma oficina, palestra, debate, ou mesmo para uma consultoria, é muito legal, e eu gosto muito disso! Procuro sempre me disponibilizar para dar uma força.
EN - Como aconteceu seu primeiro contato com esta rede “subterrânea”? Foi uma identificação imediata, ou só aos poucos você foi se interessando em participar ativamente do processo?
Sno - Confesso que no começo tinha um certo preconceito com o underground. Eu lia muito a revista Bizz, cheguei a ser assinante por alguns anos, inclusive. Aí, passei a ler a Rock Brigade, Dynamite e por aí foi. Nessas revistas haviam seções para divulgação de bandas desconhecidas, como o Headbanger Voice. Demorei para tomar coragem – e me despir dos preconceitos – para escrever para uma dessas bandas. Resolvi escrever para várias. Só escrevi para bandas que não eram da capital paulista, por vergonha mesmo, eu era muito tímido. Lembro que os primeiros a me mandarem demos foram a Scum Noise, Soutien Xiita, Anarchy Solid Sound, Ñrü, Prophecy, No Violence. Passei a perceber que tinha muita coisa boa no subterrâneo e, aos poucos, aquele preconceito foi pro saco definitivamente!
Nessas cartas, recebi muito flyers de outras bandas e fanzines. Peraí: fanzines? O que era isso? No Headbanger Voice também tinha uma seção para esses tais de fanzines. Não tive coragem de perguntar o que era isso. Naquela época não tínhamos o Google, que ajudaria muito a tirar essa dúvida. Resolvi escrever para alguns e perguntando quanto que era pra receber o fanzine. Quando recebi o Secret Face, pude tera noção na prática do que era o fanzine.
Como eu ja tinha contato com alguma galera de bandas na época, um dia, indo trabalhar, me veio na cabeça: “porra, eu também posso fazer um fanzine!”, comecei a correr atrás, me baseando nos que eu havia recebido nessa época, como o Gnomo da Tasmânia, Mensageiro, Alta Tensão, entre outros. Aí não teve mais volta. Minha rede de contatos foi aumentando assustadoramente ao ponto de eu receber pacotes de cartas todos os dias e começar a ter problema para responder as cartas em tempo hábil.
EN - Como você vê a situação atual desta rede “analógica” se comparada ao que era nos anos 80/90? Você acha que há futuro para este tipo de troca de informações ou “resistir é inútil” e tudo será, inevitavelmente, substituído pela troca de arquivos digitais via internet?
Sno - A rede analógica, passou para a digital e não tem mais volta. Só usamos o correio quando temos que mandar alguma coisa que não é possível via internet. Isso é fato e não tem lógica voltar atrás. Porém, essa rede digital só pôde ser constituída com o passado analógico.
Os arquivos digitais acho que podem ser o futuro mais certo que consigo ver. Alguns zines já são lançados assim, como é o caso do Juvenatrix, Inferno Pub, Pensá, por exemplo. São zines que os editores montam e botam em um site ou enviam pelo e-mail mesmo pra galera baixar, com a opção de imprimir ou não.
Porém, ainda haverá sempre uma galera que manterá essa história de trocar materiais via correio, pois tem alguns tipos de materiais que são bem mais bacanas em formato físico, como por exemplo: livros, CDs e DVDs com encartes fodas. Mas, sem dúvidas, será num ritmo infinitamente menor que antigamente.
EN - Você ainda produz e/ou pretende continuar produzindo este tipo de material impresso? Por quê?
Sno - Pretendo sim, inclusive noutro dia estava conversando com o Luciano Irrthum (desenhista de Belo Horizonte que contribuiu para diversos zines, inclusive os meus) e estamos para lançar uma campanha para retomarmos os fanzines impressos e trocarmos via correio, como antigamente, com a intenção de mantermos a chama acesa como antigamente. A única “exigência” será que os fanzines terão que ter pelo menos 16 páginas em meio ofício, para haver mais justiça nas trocas.
E para essa campanha, já estou elaborando o fanzine que estou chamando de Me, Myself and I, no qual vou publicar somente coisas minhas, que inclui textos, desenhos nunca publicados e os que eu faço durante reuniões. Mas o plus desse zine será a entrevista que terá comigo. Pedi para alguns amigos mandarem perguntas de variados assuntos. Sim, vai ser uma ode ao meu umbigo! E uma terapia! Não sei se as pessoas se interessarão em saber sobre mim, mas não tô nem ai, o zine é meu!!
Na verdade será a primeira vez que lançarei um zine sem colaboradores e isso acho que vai ser um grande desafio, pois tudo dependerá exclusivamente de mim! Agora veremos quem é quem! Ahahah!
Por quê? Bem, acho que por resgatar um pouco como é esse lance de fazer o zine da forma antiga, retomar um pouco o passado. Talvez para ter sensação parecida que um cara tem ao ouvir vinil em épocas de MP3.
EN - Deixe a gente conhecer um pouco do Márcio Sno como pessoa – fale-nos de sua vida pessoal, quem é você, quais são suas origens, o que anda fazendo da vida...
Sno - Bem, acho que eu não mudo muito do que as pessoas me conhecem por intermédio dos zines. Mas vamos lá…
Meu pai é de origem japonesa (meu nome verdadeiro é Márcio Mitio Konno) e minha mãe é de uma cidade pequena de Minas Gerais, chamada Jequeri. Nasci aqui mesmo em São Paulo, tenho três irmãs e desde cedo tive que me virar pra conquistar minhas coisas: comecei a trabalhar aos 13 anos. Passei a namorar a Joelma aos 16, com quem casei aos 22 (quase 23), no ano em que nasceu o Calvin (1998).
Talvez a minhas raízes orientais tenham me feito uma pessoa muito paciente e que consegue compreender algumas situações com certa facilidade e a dar tempo ao tempo. Também sou muito correto e odeio injustiças. Pode ser por isso que muitas pessoas buscam conselhos comigo e são eternamente gratas!
Não costumo criar muitas expectativas sobre as coisas, faço a minha parte e espero que os resultados venham por eles mesmos. Talvez essa pode ser meu maior defeito tendo em vista esse mundo capitalista e competitivo. Mas acho que não mudarei esse jeito até a segunda ordem. Sei que recebo muita cobrança externa sobre isso (principalmente de minha família), mas apoiando-se em minha “pseudo-sabedoria”, o tempo dará as melhores respostas!
Trabalho há 13 anos e meio em uma ONG (www.acomunitaria.org.br), no Núcleo de Cultura & Lazer e, em algumas ações, utilizo a experiência e vivência que tive com os zines.
Me formei em jornalismo em 2007, mais para realizar um sonhodo que pra investir no mercado de trabalho, que sempre soube que era fechado.
Gosto muito de música, filmes, futebol, literatura, teatro e adoro conversar sobre isso. E, consequentemente, gosto de pessoas que conversem sobre esses assuntos.
Sou basicamente isso aí. Odeio holofotes na minha cara, prefiro o backstage.
EN - Espaço aberto para considerações finais e/ou para falar de assuntos que considere importantes e eu não mencionei.
Sno - Olha, acho falei bastante coisas e acredito que o leitor não terá mais muita paciência para que eu entre em algum assunto.
Quero deixar bem claro aqui que esse documentário foi idealizado apenas para que a memória da produção dos fanzines impressos seja conservada e registrada em formato audiovisual. Não quero e nem pretendo utilizar essa produção para me aparecer ou querer representar um marco na histórias dos zines, ao contrário do que algumas pessoas pensam e espalham. Não quero ser mártir. Com esse projeto, não fiquei esperando que alguém fosse tomar a iniciativa. Eu simplesmente resolvi fazer. Ponto. Ao invés de ficar reclamando: “ah, falta fulano, falta cicrano, eu não participei, devia ter feito assim, assado”, resolvi fazer.
E eu não vou ficar parado pra ficar discutindo essas coisinhas. Porra, estou prestes a completar 36 anos, sou pai de família, tenhos minhas responsabilidades profissionais… Não tenho tempo pra coisas pequenas. Nesses momentos me vem a frase de Raul Seixas: “eu tenho uma porção de coisas pra conquistar e não posso ficar aqui parado”. E assim eu sou: vivendo intensamente, produzindo insanamente e sem ter a mínima ideia onde tudo isso vai dar.
Agradeço de coração a você, Adelvan, meu amigo de anos a fio, por esse espaço concedido em seu blog! É um grande orgulho estar aqui, pois você é um grande batalhador da cena sergipana e é uma das pessoas que segue a mesma linha que eu: “Se ninguém faz, façamos!” Longa vida a você e para todos os seus projetos e ações! Que a força esteja com você!
:: márcio sno ::
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