quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Rock in Rio São Francisco

Cheguei  ao Clube Altemar Dutra, em Canindé do São Francisco, sertão sergipano, por volta das 20:00H. Urublues estava no palco, fazendo o de sempre: mais e melhores blues. Na verdade não haveria muitas surpresas no quesito musical naquela noite, já que a escalação constava apenas de bandas já bastante vistas e com apresentações devidamente resenhadas por mim aqui mesmo neste espaço que nos cabe deste grande latifúndio que é a internet. A novidade, no caso, era o local onde a Festival estava acontecendo e o público, em bom número e, o mais importante, animado.
O Clube Altemar Dutra, me parece, é um espaço público, já que ostenta uma gigantesca marca da prefeitura municipal em sua entrada. um espaço amplo, com os shows acontecendo em um salão fechado porém arejado ladeado por um grande hall ao ar livre. Na parte de baixo, um bar e uma piscina – interditada, infelizmente. Ia ser legal ver se repetir ali o banho redentor que foi a marca do encerramento do Rock-se, no longiquo ano da graça de 1998 do século passado. “Um lugar do caralho”, enfim.
Já o público foi surpreendentemente jovem, empolgado, ativo e participativo. A galera estava com uma sede de rock como há tempos eu não via por estas bandas. Falo de Aracaju, claro, cuja cena está morgadíssima, com um público apático e desinteressado que geralmente prefere ficar na porta dos shows bebendo e jogando conversa fora. Foi bonito (re)ver as boas e velhas rodinhas punk, os moshs com “caminha” e as pilhas humanas que se formavam sempre que alguém caía. Tudo isto, inclusive, com uma ampla participação feminina, e em todos os shows, fossem eles de blues, hard rock, hard core ou heavy metal.
A banda que mais incendiou a galera foi a Mamutes, que entrou logo depois da Urublues desfalcada de sua baterista, prontamente substituída à altura por Tony Karpa, da One Last sunset. Foi jogo ganho, com a galera cantando junto as letras das musicas, as meninas dançando e os garotos se “esbagaçando”. Com direito, inclusive, a um quase explícito “assédio sexual” em pleno palco protagonizado por uma garota que subiu ao mesmo e ficou lá um tempão, se esfregando lascivamente principalmente em Kal e Rick, respectivamente o vocalista e o guitarrista (atenção senhoras patroas dos caras, eles não têm culpa, foi uma manifestação totalmente espontânea e, a princípio, sem grandes conseqüências, pelo menos que eu saiba). “É isso aí, rock and roll é libertação”, falou Kal com propriedade entre um urro e outro do camarada Cachorrão e antes de chamar Silvio da Karne krua para o grand finale, uma versão turbinada de “No fun”, dos stooges. Divertidíssimo.
Karne Krua entrou na sequencia e fez um show esporrento, com alguns clássicos do cancioneiro Hard core local cantadas em uníssono pela platéia, ainda com todo o gás e pogando muito. Bonito de ver, principalmente as garotas, que em Sergipe geralmente são muito tímidas (sim, estávamos em Sergipe, mas numa região fronteiriça, e muitos dos presentes não eram sergipanos). A karne fez, inclusive, uma bonita homenagem a Redson, do Cólera, falecido recentemente (e homenageado também no crachá de identificação do evento), com um cover de “passeatas”, e encerrou sua apresentação com uma sequencia matadora tocada no talo e sem intervalo entre uma musica e outra. Excelente.
A banda seguinte, Hatend, de Paulo Afonso, demorou muito a se arrumar e eu, cansado daquele bate bate chato de passagem de som de bateria, saí para tomar um ar e dar uma voltinha na simpática praça que fica em frente ao clube. Acabei apenas ouvindo os shows seguintes de fora mesmo, portanto vou me abster de maiores comentários. Entrei apenas para ajudar Luiz Oliva numa entrevista com Adalberto Feitosa, o mentor e organizador da “parada” (com a inestimável ajuda do incansável Luiz Humberto, agitador cultural “underground” da vizinha Poço Redondo), e foi surpreendente: o cara tem muita história pra contar. Ele tem 50 anos e é paulista. Conheceu Redson na Estação São Bento do metrô ainda no final dos anos 70 e costumava freqüentar clubes paulistanos célebres, como o “Fofinho rock clube”, que eu conheci em minha primeira visita à cidade, em 1991. Foi neste mesmo 1991 que Adalberto se mudou para Canindé para trabalhar na Usina Hidrelétrica de Xingó e se apaixonou pelo local, ainda mais depois de descobrir que por aqui também havia uma cultura “subterrânea” roqueira. Esta é a terceira edição que ele produz do Festival Alternativo rock, sempre com muito esforço e algum prejuízo, mas muita satisfação e nenhuma sombra de arrependimento. Para o ano que vem diz contar com um apoio prometido de uma das facções políticas locais (será ano de eleição e nessa época os recursos públicos costumam ser mais generosos, para o bem ou para o mal), o que viabilizaria uma espera menor por uma nova edição (a última foi há 3 anos). Convidei-o para aparecer qualquer sábado destes nos estúdios da Aperipê FM para contar sua história no ar no ai vivo programa de rock. Espero que role.
Voltei pra casa na mesma noite, apesar da viabilíssima opção de dormir por lá mesmo numa pousada que encontrei cuja diária custava a bagatela de R$ 15,00! A viagem de volta foi tranqüila, no tapetão da “Rota do Sertão”. Não fosse pelo excesso de quebra-molas, por alguns animais na pista e por uma súbita neblina na altura de Itabaiana, teria tirado o percurso, de cerca de 200km, em menos de 2 horas e meia (foram quase 3). Foi o fim de um dia divertido que começou às 11 da manhã e teve sua primeira parada em Itabaiana, onde almoçamos num simpático e aconchegante restaurante a quilo chamado Garfil, que recomendo muito. É na entrada da cidade, já no fim da avenida, próximo ao Cemitério, à sede do INSS (que ficam, oh! Ironia, um em frente ao outro) e à Associação Atlética. Fica a dica.
Chegando em Canindé, uma outra dica é uma visita ao MAX, o Museu de Arqueologia de Xingó, um prediozinho elegante e aconchegante que abriga num ambiente climatizado alguns dos achados arqueológicos da região, dentre eles utensílios domésticos e fósseis dos habitantes locais de 9.000 anos atrás. Para chegar lá, você deve virar à esquerda no trevo que desemboca numa das praias do Rio São Francisco que ficam de frente para a majestosa Usina Hidrelétrica de Xingó.
Virando à direita, você chega em Piranhas, cidade alagoana histórica encravada entre as montanhas e o velho Chico. Vale muito a pena a visita. É uma cidadezinha muito simpática, cheia de ladeiras e casinhas coloridas, que abriga um museu dedicado às coisas do sertão e do cangaço. Foi lá, em Piranhas, que ficaram expostas, pela primeira vez, as cabeças decepadas de Lampião, Maria Bonita e demais membros de seu bando. Destaque para um charmoso e aconchegante café que fica no alto de uma torre histórica que abriga um relógio, a Torre da estação. Recomendo. Recomendo também ver o sol se por entre as montanhas às margens do rio. Muito bonito. Teria sido tudo perfeito, não fosse por uma alma sebosa que cismou de abrir o potentíssimo som de mala do seu carro e espalhar pelo ambiente uma pra lá de desagradável cacofonia de ruídos que alguns chamam de “musica” – uma daquelas “quebradeiras” baianas, pagode diluído para as massas, o que nos fez desistir de bater uma macaxeira com carne de bode pela qual vínhamos salivando há temos - ah, esses gordinhos ...
Na volta para Canindé passamos por um Mirante da Chesf que estava fechado mas que já tinha visitado em minha última passagem por lá. É outra boa dica de passeio, já que lá você encontra diversos souvenirs à venda e pode agendar uma visita à usina, que eu não fiz mas deve ser interessante. Assim como interessante deve ser (certamente é) o passeio de barco pelo rio que te leva a um banho entre os cânios e/ou à rota do cangaço, numa caminhada pela caatinga que termina na gruta de Angicos, em Poço Redondo, o lugar onde o bando de Lampião foi emboscado e chacinado. Que eu saiba, há duas opções: pelo catamarã, que você pode pegar já a partir de Aracaju, indo de van até lá, ou lá mesmo em Piranhas: vimos um local que vende passagens a R$ 40,00.
Voltarei lá e farei isso o mais breve possível.
por Adelvan

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