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Benazir Bhutto

Benazir Bhutto, nascida em Karachi no dia 21 de junho de 1953, foi a primeira mulher a comandar um estado muçulmano moderno. Por duas vezes. E não foi um estado qualquer: o Paquistão, por sua posição geopolítica estratégica, tem sido terreno de disputa acirrada entre interesses imperiais e imperialistas diversos ao longo do tempo. Uma disputa banhada em sangue de mártires ...
 
Benazir era filha de Zulfikar Ali Bhutto, político de tendência socialista que assumiu a presidência em 1971, dando início a um grande projeto de nacionalização e a uma ambiciosa reforma agrária. Conquistou a admiração do povo, mas desagradou setores poderosos, como o empresariado, o clero islâmico e as Forças Armadas. Foi deposto, condenado à morte e por fim executado pelo governo oriundo de um golpe de estado comandado pelo general Muhammad Zia-ul-Haq.
 
Zia-ul-Haq era um daqueles “ditadores amigos” do “Grande Irmão do norte”, os Estados Unidos da América, país que posa de farol da democracia mas que não hesita em apoiar regimes ditatoriais e autoritários quando lhe é conveniente – vide a longa relação fraternal com o brutal regime saudita. Na ocasião, eles precisavam do Paquistão para deter o avanço dos soviéticos no Afeganistão. O novo “amiguinho” dos ianques aproveitou a chancela para fazer um governo corrupto, violento, repressor e “islamizante”. Também ajudou a armar, para os americanos, os “mujahedins”, como eram chamadas as milícias combatentes do país vizinho que posteriormente dariam origem ao Taleban e à Al Qaeda.
 
O ditador tinha, no entanto, uma pedra encrustrada em seu sapato: a filha mais velha de seu antigo desafeto, Benazir Bhutto, que havia jurado vingança pela morte do pai, só que por via democrática e pacífica – “a democracia é a melhor vingança”, ela dizia. Ele – o ditador - não sobreviveu, no entanto, para presenciar sua vitória: morreu no dia 17 de agosto de 1988, quando o avião em que viajava com o embaixador dos Estados Unidos e outras 28 pessoas foi sabotado e caiu minutos depois de decolar do aeroporto de Bahawalpur. A autoria do crime é, até hoje, um mistério.
 
Benazir assumiu o cargo de primeira-ministra do Paquistão no mesmo ano, depois de uma longa trajetória de militância política na qual permaneceu presa por cerca de 7 anos, parte deles em condições subhumanas. Ficou tanto tempo confinada numa solitária que, por um período, teve que se comunicar através de bilhetes, já que havia perdido a capacidade de falar - sua mandíbula estava atrofiada. Mas falou, e muito, quando foi finalmente libertada e exilada, como fruto de uma forte pressão internacional. Percorreu o mundo denunciando os crimes da ditadura, até finalmente ascender ao poder.
 
Seu primeiro governo foi conturbado e sofreu forte oposição dos setores conservadores, dentre eles os militares, que não se sentiam nem um pouco à vontade em ter que prestar continência a uma mulher. Chegaram, inclusive, a tentar convencer seu marido, Asif Ali Zardari – depois presidente do Paquistão - a ocupar seu lugar. Com pouca habilidade para se manter no comando da nação, foi deposta dois anos depois – mas voltou ao cargo em 19 de outubro de 1993, quando ganhou um novo mandato após mais uma vitória eleitoral de seu partido, o PPP – Partido do Povo do Paquistão.
 
Mais experiente, fez um governo melhor, mas voltou a ser deposta em 1996 sob denuncias de corrupção e improbidade administrativa. Foi também acusada de tramar a morte de seu irmão, com o qual tinha uma querela política desde que ela, e não ele, como era mais comum na tradição local, havia sido escolhida como herdeira por seu pai. Acuada, em 1999 se auto-exilou em Londres e Dubai, onde cuidava da família ao mesmo tempo em que continuava sua militância política – consta que, às 19H, fizesse o que estivesse fazendo, em alguma palestra ou encontro com Chefes de estado, pedia licença pois precisava voltar para casa para jantar com seus filhos.
 
Voltou ao Paquistão no dia 18 de outubro de 2007, sob forte comoção popular, depois de uma anistia promulgada pelo general/presidente Pervez Musharraf. Já na chegada, no entanto, sofreu um primeiro atentado, quando duas explosões ocorreram em meio à multidão de cerca de 100.000 pessoas, perto dos carros da sua comitiva, matando ao menos 140 e ferindo mais de 200. A ex-primeira ministra, entretanto, não foi atingida - e não fugiu! Morreu vítima de um novo ataque reivindicado pela Al Qaeda dois meses depois. O ataque ocorreu enquanto seu carro trafegava, seguido por simpatizantes, e ela acenava para a multidão pelo teto solar do veículo. Bhutto foi alvejada no pescoço e no peito, possivelmente por um homem bomba que, em seguida, se explodiu, provocando a morte de cerca de 20 pessoas.
 
Falei em martírio no primeiro parágrafo. Benazir foi, também, martirizada. Foi uma mártir da tolerância e da causa democrática. Sua trajetória, em certos aspectos, principalmente por sua vocação para a conciliação, pode ser, a meu ver, comparada à de outro grande líder carismático de esquerda, o nosso ex-presidente Lula. Ambos compartilhavam algumas características, como a opção por uma política transformadora porém moderada e a grande empatia com o povo – Benazir fez uma festa popular à qual compareceu uma verdadeira multidão por ocasião de seu casamento. Ambos sofreram, também, pesadas acusações de corrupção – como de praxe, aliás: parece ser um caminho “natural” para a derrubada de governos populares ao redor do mundo. Foi assim também no Brasil, no passado, com os ex-presidentes Jango, Juscelino e Getúlio Vargas.
 
Juscelino, Getúlio e Jango estão mortos. Benazir Bhutto também. Lula está vivo, e no olho do furacão. Sobreviverá? 
 
Quem viver, verá.
 
por Adelvan Kenobi
 
para Joanne Mota
 
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